O ser humano não é só, ainda que o seja também, um animal. Se de um lado ele está determinado por seus imperativos biológicos (necessidade de se alimentar e de se hidratar, de dormir e de procriar, de defecar e de urinar), o homem busca também transcender sua própria existência. Em uma linguagem bíblica, o homem almeja ser à imagem e semelhança de Deus.

Este seu anseio de transcendência e de superar a si mesmo é um exercício de potência realizadora que o impele sempre em direção a ser o melhor que ele pode em cada situação. Em poucas palavras, o ser humano necessita dar sentido à sua existência e anseia por uma vida de sentido, pelo menos, quando está saudável. Para Simone de Beauvoir “o Homem prefere razões de viver à vida em si mesma”. 

Em psicanálise chamamos a instância responsável por este anseio de elevação moral do homem de ideal de ego ou superego e deriva-mo-la da admiração temerosa que a criança tem de seus pais, mais especialmente de seu pai que será para ela o representante da lei e das duas interdições fundamentais (tabu do incesto e do parricídio).  Freud dizia que o ideal de ego, uma espécie de formação reativa contra os desejos sexuais mais primitivos humanos, responde a tudo o que é esperado da mais alta natureza do homem.

Este potencial de transcendência pode ser visto já em bebês saudáveis que ao manusearem um objeto concreto, um pedaço de papel, por exemplo, conferem ao papel outros sentidos para além do concreto e do visível.  Neste momento, eles são como Deuses criando sua própria realidade, experiência que em psicanálise legou o nome de experiência de onipotência ou de ilusão. Saint-Exupéry quando escreveu o clássico “O pequeno príncipe” sabia que o essencial, ou seja, a vida de sentido não está naquilo que os olhos do corpo enxergam, mas naquilo que o nosso coração é capaz de sentir e criar enquanto potência. Daí ele ter dito que “o essencial (à vida) é invisível aos olhos”.

Assim, o papel nas mãos de uma criança se transformará em um avião, na mãe amada, em um pássaro e, todos eles, na própria criança sedenta por um imprimir sua marca pessoal e criativa no mundo. Esta situação não é diferente da do cientista que faz seu experimento movido por uma ânsia enorme de transformar sua realidade factual ou do artista que cria suas obras, do escritor que escreve seus livros, do professor-artista que ama seus alunos.

O que todas estas situações têm em comum é a alegria genuína que se extrai da atividade realizadora. Daí que uma vida com sentido é necessariamente uma vida alegre. Fora desta situação criativa e alegre, a vida humana é vazia e tediosa.

Mas aqui precisamos recorrer a Aristóteles para escaparmos do senso-comum a respeito do que seria uma vida feliz (embora eu prefira o termo alegre). Para este filósofo, a ação que enobrece o homem é aquela que ele faz com o único  propósito de realizá-la tão bem quanto possível, sem se ter qualquer outro tipo de objetivo subjacente à ação. Em suma, a ação deveria, em tese, visar o bem em si. Assim, o bom artesão é aquele que esculpirá sua obra o tão bem quanto o puder, sem se preocupar com o reconhecimento dos outros ou com o valor monetário que ela venha a ter no mercado. Também o bom psicanalista é aquele que tem como único propósito de sua ação realizar uma boa sessão de psicanálise, sendo que qualquer outro objetivo (agradar o paciente, ser amado, ficar rico, etc.), para Aristóteles, seria considerada menos nobre.  

Então, uma vida com sentido é uma vida em que fazemos ações em cujo único propósito é realizarmos quão bem quanto pudermos esta ação, estando a alegria contida aí: na capacidade de termos realizado o melhor que pudemos o que nos propusemos a fazer. Como para Aristóteles a ação determina a potência do ser, podemos dizer que ao realizar uma boa ação o ser atinge sua máxima potencialidade que, para o filósofo, concretiza-se em uma vida feliz. 

Aristóteles também diz que o homem pode ser feliz de três maneiras, bem distintas entre si: ele pode ser feliz se entregando aos gozos do corpo (esta é a forma de ser feliz do homem primitivo). Ele pode ser feliz buscando as honrarias na política e também, o que é mais interessante para ele, pode ser feliz atingindo o que ele chama de uma vida contemplativa em que seu espírito (e não mais seu corpo) é capaz de vislumbrar o sentido de sua própria  existência. Quando Saint-Exupéry disse que o essencial é invisível aos olhos estava exaltando exatamente a vida contemplativa (do espírito, do coração) em detrimento do gozo dos prazeres corporais, considerados mais baixos e menos nobres para a elevação moral do ser.

Interessante destacar que em psicanálise uma das primeiras ações éticas que se propõe ao paciente, quando lhe pedimos que se deite no divã, é que ele se abstenha de gozar com os olhos. Aristotelicamente é uma maneira de convidá-lo a experimentar uma posição mais contemplativa de si e menos corporalmente gozosa ou carregada de imaginário, como nos diria Lacan. Implicada nesta ideia, aristotélica e psicanalítica, está um convite ao homem para que ele contemple a si mesmo e a vida com algum distanciamento desapaixonado, já que as paixões frequentemente cegam a capacidade humana de enxergar com clareza. 

Isso nos leva ainda a outro aspecto do sentido, igualmente importante. Trata-se da questão de que o sentido só se produz na falta. Para se gestar o sentido, é preciso se suportar a carência. Poeticamente podemos dizer que o sentido é irmão gêmeo da carência. Na impossibilidade de se suportá-la, só o que se produz é descarga e gozo, alegria que Aristóteles colocaria como a mais primitiva, viciante e empobrecedora de todas.

Freud, sabendo ou não do pensamento de Aristóteles a este respeito, acompanha-o pari passu quando aponta que o psiquismo humano é regido primariamente pelo princípio do prazer, ou seja, que busca desde sempre uma vida de gozo em que a falta está, de princípio, anulada. Na medida em que o sujeito avança e suporta suas carências ele pode acessar um nível de funcionamento mais elaborado, que ele chamou de princípio de realidade, sendo que é aí e só aí que a vida de sentido se produz.

Assim, do ponto de vista aristotélico, o princípio do prazer freudiano estaria para a vida de gozo corporal, assim como o princípio de realidade estaria para a vida contemplativa e com sentido. Mas não podemos nos iludir com falsos maniqueísmos. Nem Aristóteles, nem Freud pretenderam colocar como antíteses a vida de gozo e a vida contemplativa. Ao contrário, para ambos – e nisso reside o caráter ético de seus pensamentos – trata-se sempre de uma árdua conquista que o ser humano faz a cada instante, em cada uma de suas escolhas, e que está sempre perigando perder.

Daí o caráter extenuante e exigente da vida humana. Cada um de nós carrega sempre a esperança de que a vida pudesse ser mais fácil, de que não tivéssemos nenhum tipo de carência, de que pudéssemos nos abandonar aos prazeres imediatos. É nisso que se construiu, por exemplo, toda a ideia religiosa de um lugar pós-morte onde, finalmente, poderíamos deixar descansar da implicação irritante com as nossas escolhas.

As pessoas não costumam pensar muito nisso. Não se dão conta do fato de que todas as suas escolhas, boas ou más, trazem consequências para sua vida no médio e longo prazo. Escolhendo a via do prazer imediato (sempre o caminho mais fácil à princípio), por exemplo, esbaldando-se de um pote de sorvete em frente a um programa de TV ruim, não se dão conta de que isso significará, num futuro não tão longínquo, um corpo doente e uma mente empobrecida. E que, de outro lado, a escolha sempre mais difícil por debater-se com um livro ou por alimentos nutritivos (que não farão gozar a boca e o cérebro) ou por movimentar o corpo, inevitavelmente culminarão em uma vida mais feliz e saudável. Portanto, aqueles que se entregam às más escolhas não poderiam, em tese, defender sua má sorte. Do ponto de vista Aristotélico, a boa ou a má vida de um ser humano depende, inextrincavelmente, de suas boas ou más escolhas.

Poderíamos refletir a respeito de se vale mesmo a pena uma vida com tantos sacrifícios, se valeria mesmo a pena prolongar o tempo da vida humana, que é tão difícil e carente de satisfações, e isso seria uma questão muito interessante de se levantar. O que seria melhor? Uma vida curta vivida sem restrições? Ou uma vida longa conquistada pela renúncia dos prazeres mais “à mão”? De qualquer modo, isso também se trata de uma escolha: a de qual vida faz mais sentido para mim ou de que modo eu quero escolher viver. Escolher uma ou outra com consciência de se estar fazendo uma escolha me parece, portanto, a implicação ética que devemos assumir com nossa existência. Da mesma forma, Aristóteles nos lembra: não escolher é também fazer uma escolha! Daí que a vida humana é, deste ponto de vista ético, implacável.

O que eu acho mais bonito no pensamento grego, do qual Freud é um herdeiro direto, é a premissa de que o ser humano é livre para escolher e que suas boas ou más ações repercutirão em consequências boas ou más para suas vidas. A beleza deste pensamento está, para mim, no senso de responsabilidade que cada ser humano deve ter para com suas escolhas, algo para o qual a psicanálise, herdeira da tradição grega, também aponta.

A busca por uma vida de sentido é responsabilidade de cada ser humano e cabe a ele escolher boas ações que o levem nesta direção. Isso significa que o homem fraco ou que se acovarda diante de suas duras responsabilidades como humano, não pode alegar que a ele não foi dada à chance de escolher. Todos nós escolhemos, em certa medida, com maior ou menor consciência, como queremos viver. Obviamente, uns poderão ir mais longe que outros, dadas suas condições psíquicas herdadas, mas na medida em que a herança de nossos antepassados passa a ser nossa, é responsabilidade de cada um melhorá-la ou piorá-la.

Por fim, é importante considerarmos o caráter relativo do que é seria uma boa ou má ação. Assim, Aristóteles considera que a boa ou má ação é determinada menos pela natureza da própria ação do que por aquilo que é acordado, no pacto social, como sendo bom, justo e nobre. Esta relativização ética pode ser vislumbrada, por exemplo, na tragédia grega sofocliana Antígona. Abdicar da própria vida em nome da tradição era considerada uma ação nobre entre os gregos, e foi isso que fez Antígona quando foi condenada à morte por Creonte, por defender os direitos fúnebres do irmão. Já no paradigma da sociedade moderna, em que a vida individual vale mais do que a tradição, buscar a própria morte deliberadamente, como ela o fez, pode ser considerado um ato tresloucado e desmedido. Nota-se neste exemplo como uma mesma ação ética pode ser interpretada, a depender dos códigos sociais em que se insere, como uma boa ou má ação. Antígona poderia indagar ao homem moderno: “de que vale a minha vida se não pude honrar a memória de meu irmão?” ao que o homem moderno retrucaria: “e de que vale honrar a vida de seu irmão se não estará mais viva?” 

Como podem imaginar o fato de a ação ética ser sempre relativa, torna a vida humana ainda mais complicada porque cabe ao sujeito avaliar junto à sua consciência qual a melhor maneira de agir em cada situação. Daí que nenhum tipo de formulação ética possa ser normativa, pois isso feriria a própria definição do que seja ética que, como procurei mostrar aqui, tem sempre a ver com escolha.

Por isso, para nos embrenharmos na verdade das coisas, Aristóteles pede prudência. É muito bonito ouvi-lo dizer que o homem sábio se contenta em se aproximar da verdade das coisas, buscando traçá-las somente em linhas gerais e sempre mantendo um espaço para a dúvida e para a incerteza. Cabe ao homem sábio e justo, diz ele, buscar a precisão das coisas somente na medida em que a natureza de cada assunto o permita. Daí que a busca pelo conhecimento da verdade deve necessariamente comportar humildade e tolerância à incerteza e aos paradoxos, sobretudo quando o objeto de investigação é o próprio homem, sendo esta também a postura que deve buscar adotar o psicanalista em seu ofício. 

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1973, v.4.

BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980.