O casal unido há quase vinte anos, com uma convivência tão satisfatória quanto pode ser a convivência entre dois seres humanos, acaba de ter uma relação sexual.

Com o auxílio de um vibrador, a esposa chega ao orgasmo e com isso se sente animada para continuar aproveitando a penetração. Satisfaz-se de novo. Terminado o jogo erótico, levantam-se, banham-se e vão à cozinha. Há uma louça a ser lavada e como um bom casal quase moderno, que divide todas as contas da casa igualmente, a esposa, entre ingênua e curiosa, pergunta:

– Quem vai lavar a louça hoje? Eu ou você?

– Você. Eu te fiz gozar…

Silêncio magoado e constrangido.

– Eu também te fiz gozar. Então, você lava a louça hoje!

O meu leitor, filho ou neto da modernidade, certamente irá se identificar ou um dia se identificará com esta pequena crônica do cotidiano de um casal. Pois, como um bom filho ou neto da modernidade, toma-se como um sujeito livre para gozar de que modo for. Além disso, sente-se já despido das romantizações e dos pudores passados em que a presença de um vibrador no meio do casal poderia ser interpretada como falência da potência masculina. Como um bom sujeito moderno ainda, ele aceita jogar o jogo da vida, sem tantas idealizações, com mais liberdade, inclusive, para transitar entre papeis de gênero há muito superados. Será?

Minha pergunta neste texto é: como os homens têm se sentido frente à maior liberdade sexual que as mulheres vêm conquistando desde a década de 60? Penso que esta pequena crônica do quotidiano de um casal qualquer nos ajuda a pensar sobre isso.

É inegável que a desmesura feminina frente ao próprio gozo sempre causou temor e insegurança nos homens. Como argumenta a psicanalista Maria Rita Kehl, como a mulher porta-se diante da castração como aquela que não tem mais nada a perder, sua posição de gozo diante da vida tende a ser mais livre e mais solta.

Não estou dizendo que isso seja uma regra entre as mulheres, mas sobretudo entre aquelas que já puderam transitar pelas dores e prazeres de sua posição, a liberdade de que não há mais nada a perder ou a provar é impagável. Esta mulher também já descobriu algo que suas avós não sabiam, ou que foram impedidas de pensar: que a responsabilidade pelo seu gozo e pelo seu cuidado é sua e não do homem. Logo, a esposa de nossa crônica poderia responder ao seu marido que quem a fez gozar, ou melhor, quem a autorizou a gozar na vida foi ela mesma e não ele. O que, aliás, requer muita coragem.

A cultura falocêntrica encontrou historicamente muitas maneiras de domesticar o gozo feminino: deixar as mulheres analfabetas, não dar a elas o direito de votar e de escolher o próprio destino, aprisioná-las a uma única e empobrecida forma de realização fálica que é a maternidade, tornar o seu adultério crime, condená-la pelo desejo de divórcio, fazê-la queimar na fogueira como bruxa perigosa e, na aurora do século XX, tomá-la como histérica, ou seja, louca e sem razão. Há maneira mais brutal de fazer calar a voz de alguém do que a tomá-la por louca?

É bem verdade que muitas mulheres, por falta de outros modelos identificatórios ou por um ressentimento irado, ocuparam bem este lugar e se perderam para sempre. Mas muitas outras, puderam encontrar maneiras lógicas e razoáveis de expressarem sua indignação por serem tratadas como mero objeto de decoração.

Freud, que foi um homem revolucionário, mas também um homem burguês de seu tempo, oscila entre perceber o difícil lugar ocupado pela mulher de seu tempo e naturalizar algo que seria uma dita “essência feminina”.

No texto “Sobre o narcisismo: uma introdução”, há passagens interessantes que revelam este conflito entre o psicanalista revolucionário e o homem burguês. Em determinado momento ele diz que as mulheres tendem a amar apenas a si mesmas, o que ele chama de amor narcísico, colocando-se na prática erótica como aquela que almeja ser amada, muito mais do que aquela que ama (generosamente) o seu homem. Por outro lado, em certa passagem ele diz:

“As mulheres, especialmente se forem belas ao crescerem desenvolvem certo autocontentamento que as compensa pelas restrições sociais que lhes são impostas em sua escolha objetal. ” (p. 95)

Ou seja, o psicanalista compreendia que o casamento impunha fortes restrições sociais à mulher, e que a beleza (para sorte das belas e azar das feias) poderia ser utilizada por esta como uma espécie de compensação, ou pelo menos como uma mínima possibilidade de escolha, frente às duras restrições do casamento.

Na prática isso poderia significar, por exemplo, uma mulher bela ter um número maior de pretendentes, o que significava ela poder escolher um homem que, ainda que não amasse, pelo menos que lhe fosse suportável. As feias não teriam esta possibilidade, já que as ofertas de casamento lhe seriam escassas. Além disso, as belas poderiam exercitar seu poder de atração com outros homens, fora do casamento, alimentando o seu amor próprio, algo que uma mulher destruída por cinco ou seis gestações seguidas, abandonada de si mesma e pelo marido, não teria mais chance de realizar.

Como homem burguês, ele continua dizendo que, ainda que a mulher insistisse em amar apenas a si mesma (sobretudo as belas), ainda havia uma chance de ela conhecer o “verdadeiro amor objetal”. Seria na experiência da maternidade quando a mulher teria que acolher o estranho que seria o filho, algo que a abriria para amar alguém além de si mesma. Mas, ainda assim, Freud reconsidera que a mãe ainda manteria vivo em si o anseio de se realizar por um ideal masculino, o que seria conquistado através do seu marido ou, sobretudo, do filho homem.

Do que Freud estava falando? Não me agrada uma leitura psicanalítica a-histórica que culpalizaria as mulheres por uma incurável “inveja do pênis”. Cabe, ao contrário, nos perguntarmos: porque razão uma mulher teria inveja do pênis? Resposta: porque ela sabe que o detentor do pênis pode realizar, na cultura, aquilo que ela nunca pôde por não ter este símbolo fálico. Esta seria a verdadeira razão da tão famigerada “inveja do pênis”.

Mas, voltemos à nossa crônica. O marido quase moderno, assim como o Freud homem de seu tempo, possivelmente se sentem inseguros diante da possibilidade de indagarem, afinal, o que deseja uma mulher, para além deles próprios? Ora, se nos deixarem falar a resposta que daremos será: “Sim, nós queremos vocês como maridos, namorados e amantes, mas não queremos só isso. Queremos também nos realizar profissionalmente, queremos gozar a vida e a liberdade como vocês, queremos aprender a ser responsáveis por nós mesmas, queremos poder negociar o nosso destino, de modo que o seu desejo e o meu possam ser contemplados. E queremos fazer tudo isso sem que vocês imediatamente se sintam inúteis em nossas vidas.”

No caso do nosso casal hipotético, na medida que a esposa não aceita entrar no jogo erótico de ser ele o portador do falo responsável por dar prazer e não se coloca, ela mesma, como escrava (objeto), que em troca de prazer e proteção, cuidará dele e da casa como forma de pagamento e adoração venerável, algo se desarticula e se tensiona na relação. Papeis que no imaginário deste casal, ou pelo menos deste homem, estavam solidamente instaurados e já designados pela cultura, sofrem um abalo e são questionados. O que acontece a partir daí é que o homem se sente ameaçado: se eu não sirvo para ser o seu provedor de prazer, o macho-alfa, para que eu sirvo então? No imaginário deste homem, os papeis masculinos e femininos estão designados já pela natureza: eu, com meu pênis, sirvo para dar prazer e em troca você cuida de mim e da louça. Eu sou o senhor e você a escrava (do ponto de vista do imaginário, bem entendido). Mas, a resposta da esposa, de que ela também, com seu corpo feminino-castrado,  o faz gozar, levam-no a uma crise identitária, que ele tenta resolver recorrendo a conhecidos papeis: eu dou prazer, você lava a louça.

A resposta da esposa o leva a uma outra crise, ainda mais dramática, porque toca no âmago da problemática da castração masculina e do horror frente ao feminino. Pois, para o imaginário deste homem, lavar a louça pode significar, para ele, feminilizar-se, ou seja, perder o seu pênis e se tornar “mulherzinha”, algo que é insuportável para o psiquismo de muitos homens.

Daí que a crise se instaura e nela estão tensionados o conhecido e o naturalizado a respeito do que é ser homem e do que é ser mulher, mas também aquilo que é aberto para a indagação e o questionamento bem-humorado (com alguma sorte e inteligência entre os parceiros). E assim se dá a dança da cultura: entre o velho e o novo, entre a continuidade e a disruptura, sempre um pouco dramática enquanto se a vivencia.

Penso que diálogos como este, que o analista colhe em sua clínica e em suas observações do mundo em que vive, representam a própria riqueza e efervescência dos sujeitos em mutação, no confronto com aquilo que lhe foi transmitido pela inércia da cultura, e com aquilo a partir do qual o seu desejo fala, e que tende sempre à transformação e ao novo. Na medida em que estes discursos circulam e se confrontam entre si, com alguma elegância e inteligência na vida à dois, os caminhos são interessantes. Interessante também é o endereçamento do sujeito acerca de sua angústia de castração à uma análise, em que se pode confrontar, o tão famigerado horror ao feminino.

Ou seja, as saídas criativas para esta arte erótica à dois  estão sempre à espera de serem descobertas e não há caminhos definidos a priori. Caberá às possibilidades inventivas de cada casal negociar cotidianamente com suas mínimas diferenças, de certo modo, irredutíveis.

O que eu penso que não se sustenta mais no jogo da cultura, nem para homens nem para mulheres, é a supremacia do maior ou menor valor humano, associado a um pedaço de carne que, se para a criança é signo de diferenciação entre grandes e pequenos, entre machos e fêmeas, para o adulto apequenam e empobrecem as possibilidades de encontro genuíno com o Outro que pode vir a ser fonte de muito prazer e enriquecimento nas trocas afetivas humanas, desde que esteja preservado o respeito à sua subjetividade de cada um.