imagem-curso-psicanaliseO título que escolhi para minha fala de hoje evoca, para mim, pelo menos dois pontos fundamentais que eu gostaria de refletir com vocês nesta manhã.

O primeiro e mais aparente é: o que é psicanálise e o que ela não é. Ora, se pensarmos que a prática da psicanálise se define pelo seu campo ético, o fazer-se psicanalista não pode vir desacoplado da práxis[1] de psicanalisar alguém. Dito isso, é fundamental que definamos em que consiste o método da psicanálise, diferenciando-o do de outras terapias. Para isso seguiremos o que nos diz Freud em seu sugestivo artigo intitulado “O método psicanalítico de Freud”, escrito em 1903, mas também o paralelo que ele estabelece em um artigo de 1904 entre as diferentes técnicas psicoterápicas.

O segundo ponto que gostaria de abordar com vocês e que deriva diretamente do primeiro é: que habilidades se espera de alguém que se compromete eticamente com o ofício da psicanálise? Aqui será necessário que a gente defina o que é habilidade e o que é ofício, palavras que eu não escolhi de forma gratuita.

Então, vamos ao primeiro ponto.

O que é e o que não é psicanálise nos dizeres de Freud?

Escutemos o que nos diz Freud sobre o seu método em 1903:

                A principal característica do método catártico (precursor da psicanálise), em contraste com outros tipos de psicoterapia, reside em que nele, a eficácia terapêutica não se transfere para uma proibição médica veiculada por sugestão. Espera-se que os sintomas despareçam por si, tão logo a intervenção, baseada em certas premissas sobre os mecanismos psíquicos, tenha êxito em fazer com que os processos anímicos passem para um curso diferente do que então desembocava nos sintomas. ” (Freud, p. 236)

Freud é enfático em sua diferenciação! O método psicanalítico não busca eficácia terapêutica pela sugestão. Tampouco seu foco de interesse imediato é a remissão dos sintomas, embora isso venha a ocorrer naturalmente na medida em que o médico compreende e interpreta o dinamismo do paciente baseando-se em premissas próprias sobre os mecanismos psíquicos.

E quais seriam estas premissas teóricas, exclusivas do método psicanalítico?

        Podemos resumi-la em três pontos fundamentais:

  • Que todo conteúdo desprazeroso tende a ser recalcado para o inconsciente
  • Que a cada vez que o médico tentar trazer o recalcado de volta à consciência terá que se confrontar com uma força de igual magnitude que resistirá a que o conteúdo seja lembrado
  • Que os conteúdos recalcados irão se atualizar na relação atual com o médico

Vocês já devem ter percebido que estou falando das teorias do recalque, da resistência e da transferência!

Para quem não se recorda destas teorias fundantes, vou resumi-las brevemente.  Freud descobriu, em linhas gerais, que o psiquismo humano é regido por um princípio fundamental que ele chamou de princípio do prazer-desprazer. Este princípio faz com que a mente humana recalque qualquer tipo de conteúdo ideativo que gere desprazer na consciência. Seria, entretanto, o uso maciço do recalque o causador do sofrimento neurótico. Daí que a função do analista seria trazer à consciência os conteúdos que sofreram recalque.

Entretanto, Freud se deu conta que toda vez que o médico tenta trazer à consciência algum conteúdo reprimido inconsciente encontrará uma força de igual magnitude a que foi aplicada no recalque que resistirá a que a ideia recalcada seja lembrada e trazida de volta à consciência. A este processo psíquico ele deu o nome de resistência. Só que ele descobriu ainda mais. Ele descobriu que o paciente manifestará sua resistência em se lembrar do recalcado de uma maneira muito curiosa e inusitada: repetindo com o médico aquilo que reprimiu em termos de sentimentos e lembranças da infância. Genial como era, Freud conclui: será pela análise sistemática da transferência (foi assim que ele chamou este fenômeno) que nós mostraremos ao paciente que aquilo que ele quer viver conosco não deriva de sua vida atual, mas é um desejo infantil que se reatualiza agora e busca gratificação na figura do médico.

Estas premissas são tão importantes que Freud chegou a dizer que qualquer pessoa que trabalha na clínica manejando tais conceitos – recalque, resistência e transferência – poderá se designar psicanalista.

Per via di porre e per via di levare

Tomemos agora um outro modelo muito valioso que Freud utiliza para diferenciar as psicoterapias sugestivas da psicanálise. Este modelo se encontra no texto “Sobre a psicoterapia”, escrito em 1904. Para nos apresentar a diferença entre um método e outro ele empresta o modelo utilizado por Leonardo da Vinci para explicar a diferença entre a pintura e a escultura. Ouçamos primeiro o que nos diz Leonardo sobre as diferentes técnicas artísticas.

O grande artista nos explica que a técnica utilizada na pintura e na escultura são radicalmente diferentes, até mesmo opostas entre si. Na primeira utiliza-se uma técnica que ele nomeou ser per via di porre. Ou seja, nesta o artista coloca, põe tintas que antes não existiam na tela incolor. Seria, digamos, uma técnica por acréscimo. Lembrando que quem faz este acréscimo é o artista que coloca as suas tintas na tela branca que seria o paciente. E o método da escultura? Leonardo diz que este método é o oposto do da pintura e se dá per via di levare, ou seja, pela via da retirada (dos excessos). Assim na escultura o artista não coloca nada seu em acréscimo à obra. Sua função é retirar da pedra todo o excesso até que se encontre a estátua nela contida. Trata-se de uma metáfora muito bonita porque nela Leonardo concebe que a estátua existe no interior da pedra, em estado potencial, desde sempre. Daí que a modesta, mas importantíssima função do artista seria a de facilitar o parto da estátua contida no interior da pedra.

Impressiona-me como Leonardo parece ter sido intuitivo e verdadeiro nesta descrição. Notem, por exemplo, como na escultura “Os prisioneiros” de Michelangelo temos a impressão vívida de que aqueles homens realmente parecem nascer e se libertar do interior do mármore com o auxílio das mãos parteiras do artista.

download

Agora sigamos Freud em seu paralelo.

Vocês logo perceberão que não é difícil entender o paralelismo que ele faz entre a pintura e a sugestão e a escultura e a psicanálise.

Diz ele: na sugestão o terapeuta deposita algo seu na mente de seu paciente sem se importar com a origem, a força e o sentido dos sintomas patológicos. Se pensarmos bem neste modelo, tanto a pintura quanto a sugestão são técnicas invasivas em que a personalidade do pintor e do médico estão supervalorizadas. Nela, o médico toma a mente do paciente como uma tela em branco em que ele coloca suas próprias tintas. O sujeito é tomado como um ser passivo e modelável, o que a prática clínica demonstra não ser verdadeiro.

Freud continua: na psicanálise, o médico não pretende acrescentar nada no paciente, mas retirar, trazer algo para fora. Ora, o que é que o médico pretende “trazer para fora”, ou melhor, “revelar” na psicanálise, seguindo o modelo da estátua de Leonardo? Nós responderíamos prontamente: o inconsciente recalcado.  O inconsciente seria, portanto, para o analista como a estátua de Leonardo: tudo o que o artista tem que fazer, assim como o analista, é modesta e arduamente revelar a estátua / inconsciente que está submergida no interior da pedra / consciência. Notem que neste modelo a personalidade do médico não se impõe sobre a do paciente. Sua função, embora importantíssima, é feita de forma modesta, discreta. Quem deve brilhar é a estátua dentro da pedra e não as tintas do desejo do médico!

Bem, tendo feito estas considerações, acho que já estamos prontos para sistematizar que é psicanálise e o que não é. No primeiro caso:

  • O sintoma não é visto como algo a ser eliminado no curso prazo, mas é compreendido pelo médico como expressão de um jogo de forças entre o desejo inconsciente e o recalque.
  • Não se visa a adaptação do sujeito à sua realidade, mas o contato com aquilo que desconhece de si mesmo
  • O médico maneja com a transferência sem ceder ao desejo do doente por gratificação infantil.

No segundo caso:

  • Qualquer método que utiliza prioritariamente a sugestão para conseguir a melhora do paciente (o médico “coloca suas tintas”)
  • Qualquer método que visa a adaptação do sujeito à realidade
  • Qualquer método em que o médico atua na transferência gratificando o paciente

Em um livro muito interessante intitulado “Para que serve a psicanálise” Denise Maurano explica assim a diferença de atuação entre um psicólogo e um psicanalista. Um paciente procura um destes profissionais porque está sofrendo, por exemplo, de sintomas obsessivos. O que fará o psicólogo? Proporá por meio de sugestões e aconselhamentos determinados exercícios para que o paciente aprenda a controlar os atos que lhe atravessam. Diante dos pensamentos auto acusatórios de que o obsessivo padece terrivelmente, o profissional buscará reforçar o ego do paciente, dizendo, por exemplo, que ele não é uma pessoa tão cruel quanto pensa ser. Este tipo de técnica pode ser útil, desde que seja isso que o paciente está bem busca. E o psicanalista? Indagará o sujeito acerca de sua implicação subjetiva com seu sintoma buscando compreender de que maneira aquele sintoma faz o sujeito gozar. De onde deriva este pensamento? Da consideração freudiana de que, apesar do sintoma gerar desprazer na consciência, ele gera prazer no inconsciente porque provoca descarga.

De minha parte, sistematizaria assim o pensamento de Maurano: o psicólogo se preocupa com o como este paciente vai “melhorar” e o psicanalista se preocupa com o porquê deste paciente ter produzido este sintoma e não outro e com o que está motivando inconscientemente sua permanência.

Agora vocês devem estar se perguntando: pois bem, já entendi que o psicanalista se preocupa com o significado inconsciente do sintoma. Mas, como chegar a estes significados se eles são inconscientes?

Freud responderia: o único modo de se acessar o inconsciente do paciente é com o analista abrindo mão provisoriamente do seu Eu consciente, algo que é sentido como muito arriscado pelo ego. Na prática isso significa que o analista tem que atingir junto do paciente um estado de não dirigir conscientemente seu pensamento para nada em específico, não estabelecer nenhum tipo de controle consciente sobre seu pensamento: nem para o desejo de compreender rapidamente o que o paciente lhe diz, nem para curá-lo, nem para ajudá-lo a sair do mal-estar em que se encontra, nem qualquer outro pensamento ou desejo em que seu eu esteja implicado.  Se ele for por aí, não chegará onde precisa.

Vou usar uma experiência minha para tentar explicar o que é isso. Certa vez eu saltei de parapente. Eu estava apavorada porque tinha que saltar de uma pedra altíssima e lá em baixo só havia o mar. O instrutor me disse: quando eu começar a contar você corre comigo e salta no vazio. Não pense em nada. Não trave o seu corpo. Deixe-se levar por mim. Senão cairemos lá em baixo e nos machucaremos feio. O meu coração estava acelerado e eu tremia toda. Sentia meu corpo retesado enquanto tentava pensar conscientemente sobre aquela experiência. Entretanto, quando comecei a ouvir a voz do instrutor, tal como a um mantra, senti algo dentro de mim se soltar. Penso que foi minha necessidade de controlar a situação. Foi meu ego-consciente, portanto, que se soltou. A partir daquele instante eu senti meu corpo se movimentando, mas não era mais propriamente Eu que estava no controle. E então pulei para o abismo. Interessante destacar que não é uma experiência que eu consiga recontar pela razão. O que ficou de impressão em mim foi algo muito sensorial: o corpo sem densidade, a visão magnífica e estonteante do mar azul lá visto lá do alto, as gaivotas voando ao meu lado, o prazer e o horror de estar acima das nuvens. Acredito que é algo semelhante o que atinge o homem místico em sua experiência de transubstanciação.

Pois bem, é este tipo de salto que devemos ensaiar fazer a cada sessão.  Mas por que este salto no abismo, com respectiva perda do controle do eu-consciente, é sentido como tão perigoso e digno de horror?

Lembremos que, em termos teóricos, o Eu protege a mente da pura pulsionalidade que rege o inconsciente, marcado pelo excesso de gozo e de horror, tal como eu vivi em minha experiência. O Eu é, portanto, uma “tábua de salvação” que nos impede de afundarmos no irrepresentável do id, onde nem tempo nem espaço nos servem mais como referências de ancoragem. É claro que na hora H o Eu reluta. Ele não quer, ele resiste. Por isso Lacan chegou a dizer algo impressionante: ele disse que a maior resistência a se chegar ao inconsciente do paciente é do analista. Porque gato escaldado tem medo de água fria! Intuitivamente nós sabemos que esta soltura no vazio é perigosa: excita, causa horror e náusea.

O uso do divã serve exatamente para promover esta soltura no ar, de ambos os lados. Nesta soltura, a necessidade de o analista controlar o voo atrapalha e atrasa o processo. Como disse bem meu instrutor: provoca quedas. Nesta soltura, o que o paciente espera de você? Ele espera que você interfira o mínimo possível, mas fique lá lhe dando segurança para ele poder saltar também. Se ele sentir que você está mais apavorado que ele, não saltará e aí não haverá análise. Nesta soltura, o paciente não quer saber do Eu do analista: de quem ele é na realidade factual. O que ele espera é que o analista empreste sua mente para que ele próprio, paciente, possa se encorajar a saltar. Se o terapeuta interferir em demasia no processo, por exemplo, fazendo sugestões, que é o que fazemos quando estamos assustadíssimos, o processo não acontece.

Gostaria de trazer-lhes um breve exemplo clínico para demonstrar como não é com o Eu factual do analista que o paciente quer se relacionar. Trata-se de um caso meu.

A analisanda, uma jovem histérica de trinta e dois anos, falava efusivamente em dada sessão de como havia beijado cinco rapazes em uma só noite. Eu sigo ouvindo-a sem fazer qualquer intervenção. Logo noto uma mudança de clima na sala, embora sutil. Suas palavras se espaçam e ela parece estar esperando que eu diga algo. Pontuo esta minha percepção à paciente que responde: “É que enquanto eu falava fiquei pensando que você deve estar com nojo de mim. Na sua época tudo era tão diferente!!!”

Afinal, de quem a paciente está falando? Certamente não é de mim, do meu Eu factual, tendo em vista que não sou muito mais velha que a paciente.

Ora, então quem sou eu para aquela jovem naquele instante? De que modo ela está me “usando” para encenar seus dramas internos? Lancei na ocasião a seguinte hipótese teórica: Eu Sou a mãe enojada e aviltada frente o desejo sexual da filha. A mãe assexuada e velha de uma “outra época”; uma época sem sexo, talvez.  Só que como não existe “época sem sexo”, sendo o sexo, ou melhor a sexualidade, a nossa origem e destino, penso que por meio da frase condensada “na sua época era diferente” ela faz o seguinte lamento: “Se minha mãe não tivesse evitado “as coisas do sexo”, na época dela, eu teria mais recursos para lidar com meu sexo que queima e extravasa por todos os meus poros” A título de curiosidade, vim a saber depois desta sessão que quando esta jovem estava na adolescência e começou a frequentar festas e a beber, já um pouco excessivamente, a mãe a esperava de madrugada, colocava-a debaixo do chuveiro e, em meio a chineladas e tapas pelo corpo, a chamava de “puta vadia”.

Mas, voltemos à nossa questão. Como eu consigo ouvir este lamento e esta dor, que estão lá gritando para serem ouvidos, nos quais eu sou levada pela paciente a me implicar até o último fio de cabelo?

O único modo de se chegar ao Isso do paciente é eu poder fazer silêncio e me lançar quando for a hora de dizer.

Se eu não tivesse conseguido silenciar no momento oportuno, poderia ter falado qualquer coisa do tipo “não se julgue com tanta severidade e moralismo” e teria perdido a preciosa chance de ouvir a paciente dizendo, logo depois do meu silêncio, que ela beijava os rapazes para provocar o olhar das mulheres (representantes do olhar materno), que ela sabia estarem-na observando.

Bem, acho que já temos elementos suficientes para sistematizarmos algumas ideias sobre as habilidades que uma pessoa deve ter (ou buscar ter) para exercer o ofício da psicanálise.

Mas antes gostaria de fazer um comentário a respeito da escolha destas duas palavras: habilidade e ofício.

Habilidade / ofício

No dicionário Silveira Bueno a palavra habilidade significa: inteligência, capacidade, jeito, destreza. Já a palavra ofício deriva de oficina que significa lugar onde se criam ou concertam coisas, lugar onde ocorrem grandes transformações (laboratório, ateliê, oficina de automóvel, etc.)

 Ora, acho que ninguém contestaria a afirmativa de que para se manejar um consultório analítico – lugar de grandes explosões emocionais – é preciso “levar um certo jeito para a coisa”, ou, ter algumas habilidades específicas. Listarei algumas que eu considero essenciais:

  • Ser profundamente apaixonado pela psicanálise
  • Ser capaz de suportar grandes doses de angústia diárias
  • Ser corajoso para dizer o que for preciso
  • Gostar de estar consigo mesmo e de se conhecer
  • Ser generoso para deixar o paciente, quando possível, chegar por si mesmo às suas verdades
  • Ser humilde e curioso frente o saber inconsciente
  • Ser capaz de sentir compaixão pela miséria humana, mas não compactuar com tudo o que assassina a vida
  • Ser tenaz diante das pressões por “melhora rápida”, vinda por parte dos pacientes e da nossa sociedade “anti-mente”.

Potencialidades e não pontos de chegada

Estes itens que eu elenquei são potencialidades e não pontos de chegada. Ou seja, para aqueles que querem se dedicar à psicanálise estes itens devem servir como pontos de mira, sabendo-se que nesta busca vale muito mais a intenção de busca do que o final a ser atingido. Cada um de nós possui em seu inconsciente potencialidades inatas que podem ou não ser desenvolvidas ao longo da vida, sobretudo com a ajuda de uma análise.

De outro lado – e isso não é muito fácil de se dizer, mas eu preciso fazê-lo – acredito que nem todos os seres humanos tem o potencial inato para serem analistas, ainda que queiram muito fazê-lo conscientemente.

Por exemplo, uma pessoa muito narcísica que precisa do reconhecimento constante dos outros para sentir-se alguém de valor sofreria muito se viesse a ser psicanalista. É o que ocorre, por exemplo, com pessoas que seguem carreiras artísticas ou algumas carreiras médicas em que o glamour, o culto narcísico à imagem e a tentativa de negar a morte estão presentes.

Da mesma forma, pessoas que foram excessivamente poupadas das dificuldades reais que existem na vida humana, poderão achar muito penoso não satisfazer os anseios infantis de seus pacientes por gratificação, situação que poderia culminar em um clima de sedução perversa do terapeuta para com o paciente.

É um pouco estranho dizer isso, mas penso ser verdade: pessoas que tiveram uma vida mais dura e que conheceram precocemente as mazelas humanas parecem ter um solo interno mais favorável para realizar o árduo trabalho de uma análise do que aquelas que foram excessivamente privadas de frustrações e mimadas em demasia na infância. Dito em outros termos: é desejável um certo espírito monástico para gostar de passar horas diárias na solidão de um consultório, em meio a livros e indagações sobre as questões fundamentais da vida humana. Uma pessoa excessivamente “pra cima” poderia vir a se frustrar com o silêncio monástico requerido em nosso trabalho, além do que esta pessoa não acharia interessante ficar se embrenhando a fundo com os problemas humanos.

Pensando nisso, acho que um bom modelo a ser buscado para o nosso trabalho seja aquele que nos oferecem os homens e mulheres que buscaram na vida mística, no claustro e na pobreza material um caminho de elevação e de encontro às verdades fundamentais.

Acho que assim como o místico, o psicanalista faz do seu ofício – marcado pela abdicação do brilho reluzente das necessidades do Eu – um chamado de vida, vocação muito mais do que meramente o seu trabalho remunerado. Quem tem como único e principal motivador para esta profissão o reconhecimento social e financeiro deve buscar outro ofício.

De qualquer maneira, cada um de nós que se vê internamente chamado a este árduo e belo ofício deve buscar em si mesmo, em suas terapias e análises, respostas para a questão inapelável: tenho em estado potencial as condições desejáveis para me casar permanentemente com o meu mundo inconsciente?

 Referências bibliográficas

Bueno, F. S. (1996). Dicionário de língua portuguesa. São Paulo: FTD.

Freud, S. (1996). O método psicanalítico de Sigmund Freud. In: Freud, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira. Vol. VII, pp. 233-240. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado escrito em 1903 e publicado em 1904)

Freud, S. (1996). Sobre a psicoterapia. In: Freud, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira. Vol. VII, pp. 241-254. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original escrito em 1904 e publicado em 1905)

Maurano, D. (2010). Para que serve a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

*Palestra proferida no dia 12 de março no Ciclo de Palestras “Reflexões sobre o trabalho analítico na psicanálise contemporânea”organizado pelo curso de Pós-Graduação em psicoterapias de abordagem psicanalítica.

[1] O conceito de práxis deriva da filosofia marxista e significa qualquer atividade humana em o homem, a um só tempo, é capaz de intervir na natureza por meio de uma prática e também de refletir sobre o seu fazer. Ressalta-se que esta capacidade prático-analítica é exclusiva do ser humano. Em outros termos, para Marx, na medida em que o homem interfere na natureza, também é modificado por ela.