O ato de procriar nos animais que têm seu comportamento sexual definido unicamente pelo instinto não é um problema moral. O que significa dizer que ele está fora do âmbito da escolha.

Mas o mesmo não acontece com os seres humanos, em que o ato de procriar inscreve-se – ou pelo menos deveria inscrever-se –  na problemática moral da escolha. Porque verdadeiramente desejo dar a vida a alguém é uma questão com à qual o ser humano minimamente inscrito na cultura deveria se debater em algum momento de sua vida.

Nesse sentido, será meu propósito neste texto, resgatar o que Freud postula a respeito do ato procriador nos seres humanos, a partir de suas reflexões no texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” e mostrar como aquilo que ele coloca lá, e que está implicado no ato procriador, costuma estar radicalmente recalcado no âmbito da cultura.

Ressalto, antes de iniciar, que minha reflexão neste segundo quesito ficará centrada no âmbito do querer, ou seja, das demandas conscientes pelo ato procriador, demandas estas revestidas dos estereótipos sociais que circulam em uma dada cultura, e que estão sempre atrasadas em relação às práticas de vida dos sujeitos, colocadas em jogo no quotidiano. É exatamente este dissenso que cria as contradições entre aquilo que o sujeito diz que deveria fazer ou que deveria querer (discurso que se inscreve, sobretudo, na instância superegóica) e aquilo que ele efetivamente faz ou deseja para sua vida, que é o que está na ordem do inconsciente, e que só pode ser sondado em análise.

Esta diferenciação é de grande relevância para o psicanalista que na clínica escuta as abissais contradições entre o desejo emanado do inconsciente (o único verdadeiro gerador da implicação humana com seus atos) e o querer do ego-consciente, que produz atos desimplicados e, portanto, destituídos de sentido para o ser.

Sobre o narcisismo: uma introdução.

No texto sobre o narcisismo, escrito em 1914, Freud procura elaborar o que é este conceito, fundamental para compreender a experiência humana. Além de ligá-lo à uma perspectiva patológica inscrita no campo da perversão (que não nos interessa aqui), Freud argumenta que o narcisismo é uma experiência humana universal, ocorrida em certo momento do desenvolvimento, e que se centra em um completo e absoluto estado de apaixonamento por si mesmo e também de engrandecimento da potência do Eu. Este estado de apaixonamento por si mesmo deixará rastros inelutáveis pelo resto de nossas vidas e será algo que nenhum de nós conseguirá abandonar completamente. Freud diz que é muito difícil para o psicanalista apreender este fenômeno à olho nu, mas que ele pode observar fenômenos humanos em que seria possível inferir a presença de tal estado psíquico. Seriam eles: a vida mental das crianças e dos povos primitivos, certos estados patológicos e em determinadas formas de amar, dentre as quais, a forma como os pais “amam” sua prole.

Ou seja, para Freud, na forma mágica de pensar das crianças e dos povos primitivos, em determinados estados patológicos, mas sobretudo, na forma como os pais “amam” sua prole, o psicanalista poderia reconhecer traços do narcisismo, ou seja, deste estado de apaixonamento do sujeito por si mesmo. Neste último caso, o filho seria amado porque representaria narcisicamente a continuidade e o espelhamento dos pais.

Mas o pensamento de Freud é complexo e ele insinua ao longo do texto que haveria uma outra possibilidade amorosa implicada no ato de procriação, e que esta sim, poderia vir escrita sem aspas, porque seria o amor mesmo em um sentido altamente altruísta. Freud elabora esta ideia da seguinte maneira.

Partindo de uma perspectiva dúplice a respeito dos instintos, Freud acentua que a saída possível para o encimesmamento narcísico seria o amor objetal, que na prática, significaria uma abertura generosa para o estranho que o Outro sempre é para mim.

No âmbito da sexualidade, esta mesma existência dúplice aconteceria no sujeito. Uma que levaria em conta tão somente suas próprias finalidades individuais e narcísicas (algo como sendo minha prole um espelho meu que serviria para me satisfazer), e outra em que o sujeito estaria forçado a entrar no elo de uma corrente que o transcende, e que ele, portanto, serviria mesmo contra a sua vontade individual. Freud diz textualmente que no exercício da sexualidade procriativa o sujeito é

“(…) um apêndice de seu germoplasma, a cuja disposição põe suas energias em troca de uma retribuição de prazer. Ele é o veículo mortal de uma substância possivelmente imortal – como o herdeiro de uma propriedade inalienável, que é o único dono temporário de um patrimônio que lhe sobrevive” (p. 87)

Esta afirmação estupenda de Freud nos leva a muitas questões.

Primeiro, que o exercício da sexualidade procriativa não seria fruto de uma escolha consciente do sujeito, mas um imperativo biológico, pois, neste caso, caso o sujeito pudesse, de fato escolher, talvez escolhesse não procriar, uma vez que a sua prole representaria o fim de si mesmo, portanto, sua própria morte individual. É surpreendente vermos Freud postular que, para forçar o sujeito a procriar, e de certo modo morrer, a natureza teria nos dado em troca uma quota de prazer sexual, algo sem o qual possivelmente não procriaríamos mais, ou só o faríamos com grande dose de renúncia narcísica.

Isso de fato acontece na prática cotidiana da procriação, embora as pessoas quase nunca se deem conta deste jogo perigoso de vida e morte que implica o ato procriador. Os futuros pais, e o caldo de cultura em geral onde circulam discursos do senso-comum que têm a função de sedimentar a continuidade destas práticas, e de recalcar a angústia implicada no ato de procriação, não se dão conta de que, no ato procriador mesmo, tal como se dá em nossa reprodução sexuada, para que um feto possa ser gerado, óvulo e espermatozoide (as células germinais que representam a sobrevivência egoísta da mãe e do pai) devem morrer. Assim, o filho gerado, será a um só tempo, a representação da continuidade, mas sobretudo da descontinuidade destes dois seres que, altruísta ou enganosamente, decidiram lhe dar a vida.

Seria, inclusive, muito interessante investigarmos o papel do ódio inconsciente ao estranho que representa o feto-criança, nas situações clínicas como depressão pós-parto, nos abortos espontâneos que ocorrem nos primeiros meses de gravidez, bem como nos “acidentes” que costumam acontecer envolvendo crianças pequenas e seus pais.

Ora, a percepção arguta de Freud a respeito da absoluta renúncia narcísica implicada no ato procriador contrasta radicalmente com as motivações que circulam no senso-comum a respeito do porque se deve querer um filho, e que dentro do discurso freudiano estaria posto do lado de um amor narcísico.

Diz-se, por exemplo, que se quer um filho para que ele seja um continuador de você e de seus genes, ou que se quer um filho para que ele cuide de você na velhice, ou ainda, para que ele herde os seus bens (empresa, nome da família, etc), ou simplesmente porque se quer ter um quartinho de bebê em casa.

Nota-se que em todas estas motivações o que está implicado é um anseio narcísico dos pais, seja por continuidade, seja por proteção infantil, em que não está preservado, nem de longe, o interesse do futuro sujeito, a quem nem sequer ainda lhe foi dada à vida, mas que já é requisitado a pagar alto preço em troca deste presente de grego.

Pois, esta vida, assim barganhada desde o início, mereceria mesmo ser vivida?

Vale mesmo a vida a pena, na medida em que quase toda ela será gasta pelo sujeito de existência barganhada, para tentar descobrir quem ele é no meio de tantas demandas alheias? E depois mais um outro tanto de tempo (talvez o próprio tempo de vida dele), para aprender a suportar a cara feia com que seus pais e seus conterrâneos o olharão por ele não mais querer aquilo que os outros quiseram que ele quisesse?

Não é um tanto quanto cruel pensar que queremos uma criança porque queremos que alguém cuide de nós na velhice, ou porque queremos que alguém continue a nossa empresa, ou porque amamos tanto os nossos genes que queremos que ele se perpetue na terra, ou porque queremos poder continuar brincando de mamãe e filhinho no nosso lindo quarto decorado de infância?

Tais motivações não seriam o antagonismo daquilo que Freud propõe que seja o verdadeiro ato ético procriador e que seria a plena aceitação da nossa morte e insignificância como indivíduos, para podermos dar lugar à um outro sujeito, pleno de potencialidades que, espera-se, possa nos superar e rapidamente esquecer que nós existimos para poder, ele mesmo, seguir o famigerado caminho em direção à sua própria morte?

Pois me parece que é isso que Freud quis dizer com sermos um apêndice do germoplasma que sobrevive à nós. A vida – isso que ele chamou de germoplasma – não é nossa mesma. Como me disse outro dia uma amiga: “Estamos aqui de aluguel. ”

A continuidade da existência do filho representa concreta e simbolicamente a morte dos pais, na sua absoluta descontinuidade e insignificância para a vida mesma. Para tomar lugar como apêndice na continuidade do germoplasma da vida, os pais enquanto sujeitos individuais devem saber perder sua existência, dando àquele que lhe sobrevive, o direito a continuar sua vida antes e depois de sua morte.

A negação desta realidade é tão maciça entre os seres humanos que é mesmo chocante dizer aos pais que eles precisam preparar seus filhos para o fato de que eles próprios, os pais, morrerão. O que está implicado neste ponto cego é exatamente o anseio de continuidade narcísica do eu. Também é chocante para os pais a perspectiva de que o ato de dar a vida deveria ser absolutamente altruísta: você dá a vida, cuida dela, sem esperar absolutamente nada em troca, nem reconhecimento, nem qualquer tipo de compensação. Para Lacan, esta seria a única possibilidade de se falar em uma real experiência amorosa: Dar aquilo que não se tem. Todo o resto, é barganha.

A experiência da procriação humana resulta, portanto, em descontinuidade narcísica e em selo de insignificância dos genitores, e não o contrário, como pensa comumemente o senso-comum. Você já parou para pensar que as crianças nem sequer sabem da existência de seus tataravôs e tataravós? Ora, se para a experiência humana continuar existindo para alguém é ser guardado na memória, em menos de duas gerações os tataravôs e tataravós deixarão de existir, ou seja, cairão no completo e poeirento vazio da inexistência.

Isso não é um drama no mundo dos instintos animais porque o animal não tem consciência de si mesmo e, portanto, não está aferrado narcisicamente a um anseio de continuidade, ou seja, de continuar existindo eternamente no tempo. Dito de outro modo, para o animal pouco importa se ele é insignificante para a natureza. Tudo o que ele quer é preservar sua existência a qualquer custo. Ele não é hipócrita, nesse sentido. Deste sentimento arrogante só o homem sofre porque lhe é absolutamente terrificante a perspectiva de que, tendo consciência de sua existência, ele deixará de existir um dia. Como o mundo continuará sem mim?; é o que pensará o sujeito ultrajado. Penso inclusive que o que mais aterroriza o ser humano não é o medo da morte, mas o medo de deixar de existir, que são coisas bem diferentes.

Entretanto, tal versão, violenta e competitiva, do ato procriador não costuma entrar em cena no discurso das pessoas, exceto em uma análise ou em sintomas patológicos, que é por onde o inconsciente tenta falar.

Só para citar três exemplos que me ocorrem de alguma mínima percepção deste jogo de vida e morte envolvido no ato procriador, lembro-me de uma amiga que recém descobriu sua gravidez e que se queixava comigo ao telefone de que estava extenuada e completamente sem energias. Enquanto à ouvia, pensava na relação de certo modo vampirizante que uma vida incipiente mantêm com seu objeto hospedeiro, o que explicaria bastante bem a extenuação libidinal de minha amiga.

Acontece então que se a mulher-hospedeira não puder abdicar de seu gozo narcísico com a criança, mas, ao contrário, solicitar dela o pagamento em troca de ter lhe dado tudo (inclusive, a vida), a relação pode vir a se tornar neurotizante no futuro. Daí a importância das mães poderem ter outras fontes de satisfação narcísica, para além da maternidade. Ou, para usar um conceito muito cara aos analistas, que ela possa ter acesso à outras formas de potência de realização fálica. Pois, se isso não acontece, a mãe tenderá a erotizar por demasia o seu bebê, colocando-o como única função de gozo em sua vida, e é aí que a relação neurotizante se instala: a criança fica impedida de crescer porque precisa satisfazer a mãe falicamente, e a mãe se sente culpada perante a criança por vir a ter outras formas de satisfação, para além da maternidade (como a realização profissional, por exemplo).

Esta questão que eu pontuo é importante para que possamos fazer uma psicanálise historizada, materializada. Não foi em todos os momentos históricos que a relação mãe-criança teve o potencial neurotizante tal como assistimos acontecer na aurora da modernidade. Primeiro, que antes a criança não era colocada no lugar do falo dentro da cultura. No período medieval, por exemplo, a criança era considerada um mini-adulto, daí que a categoria social criança, assim como a adolescência, nem sequer existiam.  Foi no momento em que começou a ser dada à mulher a possibilidade de alguma realização fálica pela via da maternidade que os pais, mas sobretudo as mães, viram em seus filhos e filhas a possibilidade de se realizarem falicamente. Isso aconteceu no exato momento histórico em que a família nucelar passou a ter a função de eixo estruturante da subjetividade, função esta antes realizada pelas posições simbólicas de Deus e de seu representante na terra, o Rei. Daí que quando Freud teoriza que o filho é o falo da mulher, ele estava narrativizando psicanaliticamante este momento histórico, em que foi dada à mulher alguma chance de realização de potência, ainda que no âmbito privado, algo que até então estava restrito aos homens. O que a mulher fez então? Agarrou-se à este naco de poder – o poder materno – e fez do seu filho uma extensão narcísica sua. A partir daí é que nasce o paciente psicanalítico: com uma mãe que o prende eroticamente, e um pai fragilizado que, por destituição histórica de sua função, não conseguia mais colocar um limite na desmesura feminina. Mas, este tema nos levaria a outro texto… Então, retomemos o fio da meada.

O outro exemplo me veio quando pensava nesta desmesura perigosa que implica a geração de uma vida foi o de um jovem e arguto psiquiatra que contou em sala de aula o caso de sua paciente que, durante toda sua gravidez, só comia miúdos de frango, algo que ninguém podia entender porquê. Disse a ele que esta sábia e astuta mulher estava percebendo inconscientemente o quão visceral e sanguinolento era gerar uma criança em seu ventre, e depois expeli-la para fora. Esta esquisitice alimentar era, portanto, o único jeito que ela estava encontrando de colocar este excesso de Real, que é a geração de uma vida, em uma cadeia de significantes. Na falta de mentes corajosas para falar sobre o quão assustadoramente visceral e assassino-suicida é um parto, só restava a ela comer miúdos de frango, identificando-se oralmente, ela própria, com as vísceras do bicho totêmico.

Um último exemplo que me ocorre me veio da minha insistente curiosidade a respeito de como vivem os bichos. Certo dia vi a cena de uma mãe passarinha comendo restos de seu próprio ovo. Chocante não? Só para os muito românticos. Na verdade, ela só estava fazendo aquilo que Freud pontuou insistentemente ser a lógica do instinto: colocando acima de qualquer outro imperativo biológico, sua própria sobrevivência individual. Ora, não é isso o que fazemos todos nós, mesmo que hipocritamente digamos que não?

Pois, finalizando, uma das grandes mensagens que Freud nos deixou neste texto, é que, por trás de todo ato amoroso, encontraremos sempre os rastros de um narcisismo nunca abandonado; porque é só com muita renúncia e dor que abdicamos do nosso Eu em detrimento do Outro. Mesmo no amor mais “altruísta”, aquilo que amamos no Outro é quase sempre um reduto do que fomos, do que somos ou do que queremos ser nós próprios.

Para aqueles que se interessam pelo tema e querem aprofundar suas reflexões, sugiro os livros:

Bataille, Georges. (1957). O Erotismo. Porto Alegre: L & PM.

Cabrera, Júlio. (2009). Por que te amo, não nascerás. Brasília: LGE Editora.

Freud, Sigmund. (1996). Sobre o narcisismo: uma introdução. In.: Freud, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira. Volume XIV, pp. 77-110. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914)