nns00Na natureza selvagem: o homem que caminha só em direção a si mesmo.

 A história verídica do norte-americano Christopher Johnson McCandless, encontrado morto aos 24 anos em um ônibus abandonado, próximo do Parque Nacional Denali depois de sobreviver com pouca comida e equipamento no Alasca selvagem, nos convida a reflexões importantes sobre o sentido último da vida humana.

Para os interessados em conhecê-la sugiro a leitura do livro “Na natureza selvagem”, publicado em 1992 pelo jornalista John Krakauer, bem como o filme escrito e dirigido por Sean Pean, de mesmo título, lançado em 2007.

Meu interesse neste texto não será analisar o drama pessoal do jovem, nem propor motivações individuais ligadas à sua história familiar que talvez o tenham feito tomar a direção da estrada solitária rumo ao Alasca, pois isso só poderíamos compreender ouvindo sua própria voz.

Seguirei, neste caso, em outra direção.

Tomarei esta história como uma metáfora da busca humana por sentido, sendo esta a busca de cada um de nós. Para mim, esta narrativa metaforiza a busca de um homem corajoso e impetuoso que decide iniciar sua viagem solitária em direção à beleza selvagem e à violência primitiva com as quais inevitavelmente ele deve se confrontar, na medida em que se engaja na empreitada de conhecer a si mesmo, algo que não se sustenta sem obstinação e fé.

 Lá ele chegará muito perto do Nada, do puro pulsional, da natureza selvagem, conceito metapsicológico que Freud cunhou por Trieb e que significa o puro instintual.  Nesse sentido, será meu propósito também refletir a respeito de alguns itens essenciais de sobrevivência, sem os quais a viagem se torna perigosa, para não dizer mortífera. Como vocês verão ao longo do texto, proponho que a viagem que Christopher empreendeu também pode se dar em uma análise (mas não só), cujo propósito último, conforme nos ensinou Freud, é tornarmo-nos mais íntimos do estranho e do selvagem que nos habita.

O filme tem início com uma belíssima citação do poeta Lorde Byron, um dos grandes representantes do movimento romântico, que diz

Há um tal prazer nos bosques inexplorados

Há uma tal beleza na praia solitária

Há uma sociedade que ninguém invade

Perto do mar profundo e da música do seu bramir

Não que eu ame menos o homem

Mais amo mais a Natureza.

Ora, assim como Byron, o peregrino Christopher anseia sorver até à exaustão o prazer dos bosques inexplorados e a beleza da praia solitária, lá onde ainda não houve nenhum tipo de contaminação pelos vieses da sociedade. Trata-se da busca por algo puro, virgem, inaugural, que ele sente poder encontrar no Alasca selvagem e que eu chamo de “ meu aborígene”. Não se trata de um desamor ao homem, mais de um mais amor à natureza. Christopher, assim como Byron, sabiam que o homem civilizado, ou seja, em seu estado não natural, já foi corrompido, sendo um dos primeiros sinais disso a hipocrisia.

Quem é corajoso o suficiente para perceber, sabe que o homem obtém muito pouco prazer da relação com seu semelhante e isso porque nela não há nenhum, ou há pouco, espaço para a verdade, que é o que encontramos no Alasca selvagem, ou seja, no inconsciente freudiano.

Sabedor disso, e herdeiro do romantismo assim como Christopher, o que Freud nos propõe em plena aurora do século XX?

A criação de um artificio – a relação analítica – em que os dois parceiros envolvidos devem abdicar da hipocrisia, em prol da busca da verdade de um dos parceiros envolvidos, no caso, o analisando. Resumidamente, sem muitos rodeios, é isso que fazemos em análise. Um doloroso e estético exercício de se falar a verdade um ao outro, sem prescindir do amor e do respeito pelos limites humanos de se confrontar com ela.

Vou dar um exemplo da hipocrisia inevitável provocada pelo laço civilizatório. Você já imaginou o que se passa na cabeça de cada pessoa presente em um velório? Por trás do choro, que pensamentos existem? O analista conhece isso muito bem. Pode ser que muitos estejam pensando “ ainda bem que não fui eu”. Pode ser que a viúva já esteja planejando sua próxima viagem ao Nordeste, já que o morto odiava viajar.  Pode ser que os filhos já estejam tramando a divisão dos bens. É possível que muito poucos dos presentes esteja utilizando aquela experiência para refletir sobre algo de valor a respeito do sentido da vida e da morte.

É deste senso de artificialidade que deriva grande parte do desprazer que sentimos ao nos relacionarmos com alguém. Aqueles que estão um pouco mais avisados do jogo, sabem disso e podem preservar intimamente o contato com suas verdades. Mas, há muitos desavisados que acreditam piamente que o modo como se comportam socialmente é aquilo que são. Estes não se dão conta de que há uma divisão radical dentro de cada um de nós, e que aquilo que representamos à olho nu está muito longe de representar o que experimentamos na intimidade de nossos pensamentos. Freud chamava o primeiro de Eu e o segundo de Isso.

Daí a busca de Christopher pela natureza selvagem. Ele astutamente percebeu que das relações humanas vividas no palco social muito pouco prazer se obtém. Freud também percebeu isso no final de sua vida. Em uma entrevista belíssima que cedeu ao jornalista George Sylvester ele disse: “Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas – do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me compreendeu. O que mais eu posso querer? ”

Pelo seu caminho em busca de sentido, Christopher encontra outros solitários e ansiosos por encontros verdadeiros, tal como ele. E ao se depararem com aquele jovem um tanto estranho para sua idade, solitário e calado, encantavam-se. Queriam que ele decidisse interromper sua viagem para ficar com eles, estabelecer laços. Christopher, resoluto e um pouco duro, insistia: preciso seguir só rumo ao Alasca selvagem.

Penso, portanto, que não se trata de que Christopher não amasse o homem. Trata-se de que ele sabia que o exercício de amar o homem, nosso semelhante, não é algo natural. Se assim fosse, certamente já teríamos aprendido a fazê-lo ao longo de nosso tempo de existência no planeta. E até o momento não temos dado nenhum sinal, por menor que seja, de que estamos em vias de aprender.

Christopher caminha e finalmente chega ao Alasca selvagem. Com seus poucos instrumentos e uma vida ordenada rigidamente para respeitar os ditames resolutos da natureza, ele se sente livre, possivelmente como nascendo de novo. Só que a vida muito próxima da puro instintual é dura, cruel, perigosa. Ele precisa comer e não pode ultrapassar o mínimo limite estabelecido pelo homem civilizado: não comer carne crua. Isso seria arriscado demais, talvez insuportável. Então, mata um alce e precisa defumar a carne o quanto antes, para que as moscas não lancem seus ovos e a carne apodreça. Mas o tempo da natureza é imperioso e alheio ao tempo humano. Christopher não consegue salvar a carne da putrefação. A cena é belíssima porque remete ao quanto é vã a nossa luta contra a morte e à putrefação final de nossas carnes.

No fim das contas, o trabalho da vida é extenuante, diário, infindável, sendo este o preço que pagamos por estarmos vivos. Christopher se depara duramente com o fato de que não há escolha: ou ultrapassa um limite perigoso ou retorna à partilha de sua condenação. Lê no livro de Tolstoi a “ Felicidade conjugal” uma frase que lhe enche de força para retornar: “A felicidade só é real quando compartilhada”. Mas Christopher foi desatento à força descomunal da natureza: o degelo havia começado, e a força abundante das águas o impedia de atravessar o rio para retornar à vida civilizada. Preso à natureza selvagem, o imperativo da fome é terrível e implacável. Christopher, desatento e desesperado de fome, ingere uma planta venenosa, muito semelhante a uma outra, comestível. A morte é inevitável agora. Christopher, em seus instantes finais, olha para o céu. Seu semblante remete à uma epifania. Seu olhar de êxtase por tanta beleza e tragédia é emocionante. E então, ele nos presenteia com sua reflexão final: “Se eles (os pais, a humanidade) pudessem me tomar nos braços, será que eles veriam aquilo que eu vejo agora? ”

Não acho que devamos nos lamentar diante da morte de Christopher. Ele viveu uma vida intensa, bebeu até o último gole. Não penso que uma vida feliz seja necessariamente uma vida longeva. Penso que uma vida feliz, independentemente do tempo que ela dure, seja uma vida intensa, em que sentimos que estamos, de fato, vivos. Christopher morreu jovem em idade cronológica, mas adquiriu em sua viagem a sabedoria de um ancião. Se ele tivesse podido retornar para os seus semelhantes, possivelmente encontraria uns poucos pelo caminho com quem poderia compartilhar suas descobertas incríveis. Mas não penso que seriam muitos. Isso não deve ser fonte de pesar. Trata-se de podermos constatar que as coisas são assim: o ser humano, cada um de nós, caminha muito lentamente em direção à sua realização plena. Cada um no seu ritmo, uns em passos de tartaruga, podendo aprender só quando chega a dor; outros, mais ligeiros e adiantados, como Christopher. Eu particularmente me sinto como ele. Não quero perder tempo; não acho que o tenhamos em demasia para podermos desperdiçá-lo.

Mas antes de terminar prometi que iria comentar a respeito do kit de sobrevivência necessário para a viagem da vida, ao qual Christopher também nos ajuda a pensar.

O primeiro que eu elencaria, sem sombra de dúvida, é não brigarmos em demasia com a realidade de que somos seres solitários. Ainda que tenhamos a sorte de encontrar pela vida umas poucas pessoas que quase nos compreendem, elas não serão muitas. Daí que temos que descobrir outras fontes de prazer, que não somente as relações humanas. O prazer que a contemplação da natureza nos dá é fonte segura e impagável. É de graça e está disponível a todos. Basta que tenhamos olhos e coração para enxergar.

O segundo item do kit é a precaução. Este talvez tenha faltado um pouco à Christopher. Não podemos ir de encontro à força selvagem da natureza como se fossemos deuses. Somos seres absolutamente irrelevantes para a natureza. Se morremos de câncer, de terremoto, de gripe, de fome; para ela, pouco importa. Sua existência não depende em absoluto da nossa. Ela já existia antes e continuará a existir depois de nós. Por isso, respeito e humildade para sondá-la são itens essenciais.

O terceiro, mas não menos importante, é o amor à verdade. Sem ele, o risco da queda na hipocrisia é inevitável. Um quarto ainda, o desapego. Certo dia assisti, horrorizada e cheia de dor à cena de uma velha prestes a morrer que gritava: “Minha cunhada quer roubar o meu apartamento de mim. ” Senti meu peito apertado. Tive pena e medo, por ela e por todos nós.

Ou seja, se na peregrinação da vida, rumo ao nosso Alasca selvagem, ou seja, à nossa morte inexorável, pudermos levar em nossas mochilas nosso respeito à nossa solidão, alguma precaução, amor à verdade e algum desapego, acho que estaremos bem equiparados para seguir viagem. E assim, quem sabe, possamos sorver até a última gota o gosto doce e azedo da maça, que tal como Christopher e Eva no paraíso, pagaram o preço por sua gana de viver até às últimas consequências. A morte, neste caso, não é punição ou danação por um Deus vingativo e onisciente, mas simplesmente o final de uma vida bem vivida, em que não se perdeu tempo nem oportunidade de aprendizado.