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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Contribuições de Aristóteles para uma vida de sentido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Oct 2017 13:32:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[Aristóteles]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[sujeito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre o que seria uma vida com sentido baseando-se nas ideias de Aristóteles expostas no livro Ética à Nicômaco. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/contribuicoes-de-aristoteles-para-uma-vida-de-sentido/">Contribuições de Aristóteles para uma vida de sentido</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/10/Aristotle_Altemps_Detail.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1846 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/10/Aristotle_Altemps_Detail-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O ser humano não é só, ainda que o seja também, um animal. Se de um lado ele está determinado por seus imperativos biológicos (necessidade de se alimentar e de se hidratar, de dormir e de procriar, de defecar e de urinar), o homem busca também transcender sua própria existência. Em uma linguagem bíblica, o homem almeja ser à imagem e semelhança de Deus. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este seu anseio de transcendência e de superar a si mesmo é um exercício de potência realizadora que o impele sempre em direção a ser o melhor que ele pode em cada situação. Em poucas palavras, o ser humano necessita dar sentido à sua existência e anseia por uma vida de sentido, pelo menos, quando está saudável. Para Simone de Beauvoir &#8220;o Homem prefere razões de viver à vida em si mesma&#8221;. </span></p>
<p><span id="more-1845"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em psicanálise chamamos a instância responsável por este anseio de elevação moral do homem de ideal de ego ou superego e deriva-mo-la da admiração temerosa que a criança tem de seus pais, mais especialmente de seu pai que será para ela o representante da lei e das duas interdições fundamentais (tabu do incesto e do parricídio).  Freud dizia que o ideal de ego, uma espécie de formação reativa contra os desejos sexuais mais primitivos humanos, responde a tudo o que é esperado da mais alta natureza do homem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este potencial de transcendência pode ser visto já em bebês saudáveis que ao manusearem um objeto concreto, um pedaço de papel, por exemplo, conferem ao papel outros sentidos para além do concreto e do visível.  Neste momento, eles são como Deuses criando sua própria realidade, experiência que em psicanálise legou o nome de experiência de onipotência ou de ilusão. Saint-Exupéry quando escreveu o clássico “O pequeno príncipe” sabia que o essencial, ou seja, a vida de sentido não está naquilo que os olhos do corpo enxergam, mas naquilo que o nosso coração é capaz de sentir e criar enquanto potência. Daí ele ter dito que “o essencial (à vida) é invisível aos olhos”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o papel nas mãos de uma criança se transformará em um avião, na mãe amada, em um pássaro e, todos eles, na própria criança sedenta por um imprimir sua marca pessoal e criativa no mundo. Esta situação não é diferente da do cientista que faz seu experimento movido por uma ânsia enorme de transformar sua realidade factual ou do artista que cria suas obras, do escritor que escreve seus livros, do professor-artista que ama seus alunos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que todas estas situações têm em comum é a alegria genuína que se extrai da atividade realizadora. Daí que uma vida com sentido é necessariamente uma vida alegre. Fora desta situação criativa e alegre, a vida humana é vazia e tediosa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas aqui precisamos recorrer a Aristóteles para escaparmos do senso-comum a respeito do que seria uma vida feliz (embora eu prefira o termo alegre). Para este filósofo, a ação que enobrece o homem é aquela que ele faz com o único  propósito de realizá-la tão bem quanto possível, sem se ter qualquer outro tipo de objetivo subjacente à ação. Em suma, a ação deveria, em tese, visar o bem em si. Assim, o bom artesão é aquele que esculpirá sua obra o tão bem quanto o puder, sem se preocupar com o reconhecimento dos outros ou com o valor monetário que ela venha a ter no mercado. Também o bom psicanalista é aquele que tem como único propósito de sua ação realizar uma boa sessão de psicanálise, sendo que qualquer outro objetivo (agradar o paciente, ser amado, ficar rico, etc.), para Aristóteles, seria considerada menos nobre.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, uma vida com sentido é uma vida em que fazemos ações em cujo único propósito é realizarmos quão bem quanto pudermos esta ação, estando a alegria contida aí: na capacidade de termos realizado o melhor que pudemos o que nos propusemos a fazer. Como para Aristóteles a ação determina a potência do ser, podemos dizer que ao realizar uma boa ação o ser atinge sua máxima potencialidade que, para o filósofo, concretiza-se em uma vida feliz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aristóteles também diz que o homem pode ser feliz de três maneiras, bem distintas entre si: ele pode ser feliz se entregando aos gozos do corpo (esta é a forma de ser feliz do homem primitivo). Ele pode ser feliz buscando as honrarias na política e também, o que é mais interessante para ele, pode ser feliz atingindo o que ele chama de uma vida contemplativa em que seu espírito (e não mais seu corpo) é capaz de vislumbrar o sentido de sua própria  existência. Quando Saint-Exupéry disse que o essencial é invisível aos olhos estava exaltando exatamente a vida contemplativa (do espírito, do coração) em detrimento do gozo dos prazeres corporais, considerados mais baixos e menos nobres para a elevação moral do ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Interessante destacar que em psicanálise uma das primeiras ações éticas que se propõe ao paciente, quando lhe pedimos que se deite no divã, é que ele se abstenha de gozar com os olhos. Aristotelicamente é uma maneira de convidá-lo a experimentar uma posição mais contemplativa de si e menos corporalmente gozosa ou carregada de imaginário, como nos diria Lacan. Implicada nesta ideia, aristotélica e psicanalítica, está um convite ao homem para que ele contemple a si mesmo e a vida com algum distanciamento desapaixonado, já que as paixões frequentemente cegam a capacidade humana de enxergar com clareza. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Isso nos leva ainda a outro aspecto do sentido, igualmente importante. Trata-se da questão de que o sentido só se produz na falta. Para se gestar o sentido, é preciso se suportar a carência. Poeticamente podemos dizer que o sentido é irmão gêmeo da carência. Na impossibilidade de se suportá-la, só o que se produz é descarga e gozo, alegria que Aristóteles colocaria como a mais primitiva, viciante e empobrecedora de todas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Freud, sabendo ou não do pensamento de Aristóteles a este respeito, acompanha-o </span><i><span style="font-weight: 400;">pari passu</span></i><span style="font-weight: 400;"> quando aponta que o psiquismo humano é regido primariamente pelo princípio do prazer, ou seja, que busca desde sempre uma vida de gozo em que a falta está, de princípio, anulada. Na medida em que o sujeito avança e suporta suas carências ele pode acessar um nível de funcionamento mais elaborado, que ele chamou de princípio de realidade, sendo que é aí e só aí que a vida de sentido se produz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, do ponto de vista aristotélico, o princípio do prazer freudiano estaria para a vida de gozo corporal, assim como o princípio de realidade estaria para a vida contemplativa e com sentido. Mas não podemos nos iludir com falsos maniqueísmos. Nem Aristóteles, nem Freud pretenderam colocar como antíteses a vida de gozo e a vida contemplativa. Ao contrário, para ambos – e nisso reside o caráter ético de seus pensamentos – trata-se sempre de uma árdua conquista que o ser humano faz a cada instante, em cada uma de suas escolhas, e que está sempre perigando perder. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí o caráter extenuante e exigente da vida humana. Cada um de nós carrega sempre a esperança de que a vida pudesse ser mais fácil, de que não tivéssemos nenhum tipo de carência, de que pudéssemos nos abandonar aos prazeres imediatos. É nisso que se construiu, por exemplo, toda a ideia religiosa de um lugar pós-morte onde, finalmente, poderíamos deixar descansar da implicação irritante com as nossas escolhas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As pessoas não costumam pensar muito nisso. Não se dão conta do fato de que todas as suas escolhas, boas ou más, trazem consequências para sua vida no médio e longo prazo. Escolhendo a via do prazer imediato (sempre o caminho mais fácil à princípio), por exemplo, esbaldando-se de um pote de sorvete em frente a um programa de TV ruim, não se dão conta de que isso significará, num futuro não tão longínquo, um corpo doente e uma mente empobrecida. E que, de outro lado, a escolha sempre mais difícil por debater-se com um livro ou por alimentos nutritivos (que não farão gozar a boca e o cérebro) ou por movimentar o corpo, inevitavelmente culminarão em uma vida mais feliz e saudável. Portanto, aqueles que se entregam às más escolhas não poderiam, em tese, defender sua má sorte. Do ponto de vista Aristotélico, a boa ou a má vida de um ser humano depende, inextrincavelmente, de suas boas ou más escolhas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Poderíamos refletir a respeito de se vale mesmo a pena uma vida com tantos sacrifícios, se valeria mesmo a pena prolongar o tempo da vida humana, que é tão difícil e carente de satisfações, e isso seria uma questão muito interessante de se levantar. O que seria melhor? Uma vida curta vivida sem restrições? Ou uma vida longa conquistada pela renúncia dos prazeres mais “à mão”? De qualquer modo, isso também se trata de uma escolha: a de qual vida faz mais sentido para mim ou de que modo eu quero escolher viver. Escolher uma ou outra com consciência de se estar fazendo uma escolha me parece, portanto, a implicação ética que devemos assumir com nossa existência. Da mesma forma, Aristóteles nos lembra: não escolher é também fazer uma escolha! Daí que a vida humana é, deste ponto de vista ético, implacável. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que eu acho mais bonito no pensamento grego, do qual Freud é um herdeiro direto, é a premissa de que o ser humano é livre para escolher e que suas boas ou más ações repercutirão em consequências boas ou más para suas vidas. A beleza deste pensamento está, para mim, no senso de responsabilidade que cada ser humano deve ter para com suas escolhas, algo para o qual a psicanálise, herdeira da tradição grega, também aponta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca por uma vida de sentido é responsabilidade de cada ser humano e cabe a ele escolher boas ações que o levem nesta direção. Isso significa que o homem fraco ou que se acovarda diante de suas duras responsabilidades como humano, não pode alegar que a ele não foi dada à chance de escolher. Todos nós escolhemos, em certa medida, com maior ou menor consciência, como queremos viver. Obviamente, uns poderão ir mais longe que outros, dadas suas condições psíquicas herdadas, mas na medida em que a herança de nossos antepassados passa a ser nossa, é responsabilidade de cada um melhorá-la ou piorá-la. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, é importante considerarmos o caráter relativo do que é seria uma boa ou má ação. Assim, Aristóteles considera que a boa ou má ação é determinada menos pela natureza da própria ação do que por aquilo que é acordado, no pacto social, como sendo bom, justo e nobre. Esta relativização ética pode ser vislumbrada, por exemplo, na tragédia grega sofocliana Antígona. Abdicar da própria vida em nome da tradição era considerada uma ação nobre entre os gregos, e foi isso que fez Antígona quando foi condenada à morte por Creonte, por defender os direitos fúnebres do irmão. Já no paradigma da sociedade moderna, em que a vida individual vale mais do que a tradição, buscar a própria morte deliberadamente, como ela o fez, pode ser considerado um ato tresloucado e desmedido. Nota-se neste exemplo como uma mesma ação ética pode ser interpretada, a depender dos códigos sociais em que se insere, como uma boa ou má ação. Antígona poderia indagar ao homem moderno: &#8220;de que vale a minha vida se não pude honrar a memória de meu irmão?&#8221; ao que o homem moderno retrucaria: &#8220;e de que vale honrar a vida de seu irmão se não estará mais viva?&#8221; </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como podem imaginar o fato de a ação ética ser sempre relativa, torna a vida humana ainda mais complicada porque cabe ao sujeito avaliar junto à sua consciência qual a melhor maneira de agir em cada situação. Daí que nenhum tipo de formulação ética possa ser normativa, pois isso feriria a própria definição do que seja ética que, como procurei mostrar aqui, tem sempre a ver com escolha. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, para nos embrenharmos na verdade das coisas, Aristóteles pede prudência. É muito bonito ouvi-lo dizer que o homem sábio se contenta em se aproximar da verdade das coisas, buscando traçá-las somente em linhas gerais e sempre mantendo um espaço para a dúvida e para a incerteza. Cabe ao homem sábio e justo, diz ele, buscar a precisão das coisas somente na medida em que a natureza de cada assunto o permita. Daí que a busca pelo conhecimento da verdade deve necessariamente comportar humildade e tolerância à incerteza e aos paradoxos, sobretudo quando o objeto de investigação é o próprio homem, sendo esta também a postura que deve buscar adotar o psicanalista em seu ofício. </span></p>
<p>Referências bibliográficas</p>
<p>ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1973, v.4.</p>
<p>BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A bondade e a maldade humana.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Sep 2014 18:33:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma entrevista exibida em meados de 2012 a atriz Camila Morgado que, na época ensaiava a peça “Palácio do Fim”, dirigida por José Wilker, conta sua difícil e dolorosa experiência nos ensaios. Sua tarefa era encarnar a figura de Lynndie England, uma das onze militares julgadas e condenadas pela corte marcial dos Estados Unidos, &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-bem-sempre-vence-o-mau/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A bondade e a maldade humana.</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f2/Abu-ghraib-leash.jpg/220px-Abu-ghraib-leash.jpg" alt="Abu-ghraib-leash.jpg" width="220" height="186" />Em uma entrevista exibida em meados de 2012 a atriz Camila Morgado que, na época ensaiava a peça “Palácio do Fim”, dirigida por José Wilker, conta sua difícil e dolorosa experiência nos ensaios.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua tarefa era encarnar a figura de Lynndie England, uma das onze militares julgadas e condenadas pela corte marcial dos Estados Unidos, em 2005, pelas violentas e atrozes torturas cometidas contra prisioneiros em Abu Ghraib (Bagdá), durante a ocupação do Iraque.</p>
<p style="text-align: justify;">Questionada sobre qual estava sendo sua maior dificuldade durante os ensaios, ela descreve seus sentimentos da seguinte forma:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1223"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>                <strong>Ao encenar aquilo, que eu sabia ter sido real, eu tentava, de alguma forma desesperada, encontrar alguma bondade naquela pessoa, algum motivo para ela ter feito aquelas terríveis atrocidades. Era como se eu não pudesse ficar perto de todo aquele mau. Acho que fazia isso porque assim conseguia algum tipo de identificação com a personagem. Mas, o Zé (José Wilker), disse-me algo que eu nunca mais esqueci. Ele me disse que eu não podia fazer isso porque aquela seria eu. Assim eu estava colocando algo de mim na personagem. Aquele olhar bondoso, compreensivo era meu e não dela. O que eu tinha que fazer era tentar me aproximar ao máximo da realidade daquela situação, ficar em contato com a pura maldade expressa naqueles atos terríveis sem “dourar a pílula”. Estes foram tempos muito difíceis para mim</strong>.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Esta “necessidade de dourar a pílula” de que nos fala Camila pode ser vista, de forma geral, em quase todo tipo de produção artística humana, de filmes a histórias infantis (pelo menos nas mais modernas). Estou me referindo à situação, que muito nos acalma e alivia, de que no final, o mocinho sempre vence o bandido, o bem sempre vence o mau. Com isso, nós podemos ir embora felizes e aliviados, nutridos pela esperança de que, no final, a bondade prevalecerá sobre a maldade.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mas, será que é assim mesmo?</h2>
<p style="text-align: justify;">O mal-estar de Camila nos dá pistas neste sentido. Para os seres humanos – sobretudo para aqueles que desconhecem as forças demoníacas que habitam o seu mundo interno &#8211; ficar em contato direto com a maldade humana, que está dentro de cada um de nós e também no outro, é algo muito indigesto e incômodo. Provoca angústia, mal estar, revolta e dor mental. Daí a necessidade da atriz de “dourar a pílula”, emprestando à sua personagem sanguinária, algo de sua própria bondade.</p>
<p style="text-align: justify;">É como se ela dissesse a si mesma, com maior ou menor consciência disso: “É insuportável para mim enxergar o que há de pior no ser humano. A pura maldade, o gozo sádico com a tortura de um ser humano sobre outro, teoricamente seu igual é algo que minha mente não pode conceber.”</p>
<p style="text-align: justify;">No mês passado fui dar aulas a uma classe de psicólogos, em um curso de pós-graduação. Papo vai, papo vem, caímos nesta indigesta questão: a de que somos, em essência, seres cruéis, violentos e sádicos – uns mais que outros. Uma das alunas, ainda precisando se defender desta visão tão dolorosa, comentava, de modo revoltado e sofrido, sobre sua indignação frente a pais assassinos, displicentes e violentos com seus filhos. Esta, provavelmente, é uma das verdades mais dolorosas para nós: a de que pais e mães podem ser profundamente cruéis com suas crianças. Não é assassinato mental o que Laio e Jocasta cometeram contra Édipo? E a madrasta da Branca de Neve? Porque será que ela não pôde comparecer na história como sendo a mãe da jovem menina? Seria isso chocante demais para nós? Acho que sim. Penso que isso é provavelmente tão doloroso para cada um de nós por que nos faz considerar que não fomos só amados por nossos pais e mães, mas, em muitos momentos odiados por eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente a filosofia, desde Aristóteles, tendeu a discutir esta questão moral de um modo insípido e inodoro. Aristóteles, por exemplo, acreditava que a bondade era aprendida pelo hábito. Dizia ele: “Quanto mais um ser humano praticar o bem, melhor ele será. E quanto mais ele praticar o mal, mais vicioso será”.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista pragmático e fenomenológico, esta afirmativa está co<a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-4.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1224 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-4-150x150.jpg" alt="download (4)" width="150" height="150" /></a>rreta, mas ela nos leva a um beco sem saída, pois deixa em aberto a questão fundamental: De onde vem a bondade? E, de onde vem a maldade? De onde vem o amor? E, de onde vem o ódio?</p>
<p style="text-align: justify;">De onde vem aquele sentimento maléfico que sentimos no olhar ou no tom de voz de alguém comentando que “sua roupa é muito bonita e você está super bem”? De onde vem o ódio expresso pela boca daquela torcedora, chamando de macaco, com gozo e ardor, o jogador negro? De onde vem o prazer irresistível da fofoca? E, de forma ainda mais grave, de onde vem o prazer sádico de se torturar e matar alguém?</p>
<p style="text-align: justify;">A psicanálise aponta: Vem de dentro. Nós nascemos, constitucionalmente, dotados da capacidade de amar e de odiar. Alguns são mais dotados de capacidade de amar que outros. Estes acabam por sucumbir aos prazeres mortíferos do ódio e da destrutuvidade (sim, há prazer nisso!).</p>
<p style="text-align: justify;">Shakespeare, em uma passagem belíssima de “Rei Lear”, buscando compreender o mistério desta profunda questão – a de porque alguns seres humanos são predominantemente bons e outros maus – diz:</p>
<p style="text-align: justify;">                <strong><em>Deve ser por causa das estrelas a diferença de temperamento dos seres humanos. Pois, mesmo entre dois irmãos, gerados pelo mesmo pai e pela mesma mãe, quanta diferença há.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Este trecho é lindíssimo porque nos lança diretamente no misterioso da questão: de onde vem o temperamento humano? De onde vem a capacidade de perdoar? E porque algumas pessoas nunca conseguirão experimentar isso na vida?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQSpFn_--b_nlkhqFHm82ycPpjPwVmzuHkw_-VGnLtDabhakLzZNw" alt="" width="275" height="183" />No caso da peça, porque a amorosa Cordélia, mesmo tendo sido renegada pelo pai em sua necessidade de demonstração falsa de afeto, ainda assim o perdoa e cuida dele em sua loucura e velhice? E porque suas duas outras irmãs, consumidas pelo ódio e pela fúria narcísica, enredadas pelas seduções e pelas ilusões da bajulação e da cobiça, não respeitam a sagrada velhice do pai (que representa, em última instância, a sabedoria humana atingida na aurora da vida) e, ao final, se matam envenenadas pelo próprio ódio?</p>
<p style="text-align: justify;">São questões para as quais, conforme aprendemos com Shakespeare, não há respostas lógicas. Trata-se de algo misterioso, vindo das estrelas. Penso que é disso que deriva nossa condição humana: deste quantum de mistério e de enigmático que cada ser humano carrega dentro de si.</p>
<p style="text-align: justify;">E para terminar, arremato com a reflexão: o bondade é mais poderosa, mais potente que a maldade humana?</p>
<p style="text-align: justify;">É possível educarmos (utopicamente) todas as crianças de modo que elas aprendam a amar e respeitar o seu semelhante? É possível, pela psicanálise, em todos os casos, superar o ódio pelo amor?</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sempre. Acho que esta é uma visão ingênua da vida que não nos leva muito longe. Inúmeras crianças se tornarão adultos cruéis e violentos porque isso depende mais da natureza do que da educação que, em se tratando de humanos, tem sérios e profundos limites; embora também seja verdade que, sem estas instituições sociais (família, escola, sociedade) seríamos muito mais bárbaros do que somos. Inúmeras pessoas abandonarão o trabalho árduo e doloroso de busca pela verdade que a psicanálise oferece porque já foram consumidas pelas sedutoras malhas da mentira, da sedução e da arrogância. Culpa do terapeuta? Claro que não. Seria muita onipotência pensar assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma das verdades mais trágicas e dolorosas do ser humano: nós somos seres livres e dotados de livre-arbítrio, mas cada um de nós só pode ir até onde sua natureza permite. Não compartilho da ideia de que alguém é mau ou bom porque quer. Em inúmeras situações humanas, não há escolha possível, embora isso não isente as pessoas de assumirem as responsabilidades pelos seus atos, bons ou maus.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1225 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-5-150x150.jpg" alt="download (5)" width="150" height="150" /></a>Para terminar, lembro-me do comentário esperançoso de um conhecido sobre Lúcifer, o anjo caído, que foi expulso do paraíso porque, em um rompante de ódio e inveja, quis ocupar o lugar de Deus. Dizia ele, cheio de esperança: “Nunca pensei que haveria essa possibilidade &#8211; a de alguém conversar com Lúcifer para tentá-lo fazer desistir da ideia vingativa de competir e de ser Deus”. Fiquei tempos pensando sobre isso. Se, neste caso, Lúcifer vai humildemente “baixar a guarda” e se render ao amor, não sei? O que eu sei é que é preciso muita coragem para chegar, nem que seja só um pouquinho, perto dele.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-bem-sempre-vence-o-mau/">A bondade e a maldade humana.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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