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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Brasil além dos trópicos: a experiência de psicanalisar brasileiros residentes no exterior</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2022 19:28:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[brasileiros que moram no exterior]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a situação de brasileiros que vivem no exterior a partir da experiência da autora de psicanalisar alguns deles. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/brasil-alem-dos-tropicos-a-experiencia-de-psicanalisar-brasileiros-residentes-no-exterior/">Brasil além dos trópicos: a experiência de psicanalisar brasileiros residentes no exterior</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2652 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Ainda que cerca de 4,2 milhões de brasileiros residam atualmente no exterior, muitos estereótipos ainda turvam a visão que se tem dos que vão viver em outro país. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-2648"></span><span style="font-weight: 400;">O primeiro deles é a idealização de parentes, conhecidos e até da própria pessoa acerca desta “nova vida”, que, no caso desta última, pode cegá-la para enxergar os defeitos de seu novo país ou, eventualmente, impedi-la de assumir que se frustrou em alguns aspectos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das origens desta visão idílica da vida em outro país explica-se pelo que Nelson Rodrigues chamava de &#8220;complexo de vira-lata” do brasileiro e que se traduz por um incorrigível sentimento de inferioridade que o faz, por exemplo, sentir-se vergonhado de seu próprio país e julgá-lo mais criticamente que a outros. </span></p>
<p>Um exemplo disso é a percepção do brasileiro médio de que seus políticos são muito mais corruptos do que políticos suécos, por exemplo, quando, na verdade, políticos corruptos existem em todo lugar, a diferença residindo, de um país para outro, nos mecanismos institucionais de controle e vigilância da corrupção.</p>
<h4>Aspectos positivos e negativos de se emigrar do Brasil</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Na prática, em termos negativos, o que brasileiros emigrantes em geral encontram é uma visão caricatural do Brasil (“<em>Brasil: país do samba, da putaria e do futebol</em>”) e um preconceito de fundo contra os povos latinos, frequentemente vistos como selvagens incultos e sem educação, fruto de sua visão eurocêntrica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, em termos positivos, a depender do país para onde vão: índices infinitamente menores de miséria e pobreza, maior civilidade, liberdade individual e respeito à própria história, maior segurança pública e conforto material.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo o que o Brasil não tem até hoje graças ao seu modo de fundação: centrado na premissa da superioridade racial do colonizador europeu e, mais tarde, das elites econômicas e culturais sobre os índios, pretos e pobres. </span></p>
<h4>Motivos para se querer emigrar</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Os principais motivos que fazem com que os brasileiros queiram emigrar são: se trata-se de pessoas da classe-média, o medo e a insegurança que sentem em morar no Brasil, a decepção com a política, a busca por melhores condições de trabalho e remuneração e, no caso dos LGBT, a chance de escaparem do preconceito, que infelizmente ainda é enorme por aqui. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já ao se tratar dos endinheirados incultos, as motivações principais são: adquirir imóveis no exterior, aumentando seu patrimônio imobiliário e ostentar seu poder de compra, consumindo artigos de luxo em Miami ou em Paris, por exemplo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Equívocos à parte, fato é que tais pessoas <strong>encontrarão muitas dificuldades na nova vida</strong>, às quais evitarão compartilhar com familiares e amigos para não preocupá-los ou desiludi-los quanto à terra prometida, o que tornará o trabalho analítico bastante valioso nesse sentido. Porque nele não se precisa mentir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Analisarei a seguir alguns aspectos desta experiência no <a href="https://www.psicanaliseribeiraopreto.com.br/psicanalise-para-brasileiros-residentes-no-exterior/">atendimento em psicanálise com brasileiros que moram noutros países</a>, conforme têm aparecido em minha clínica.</span></p>
<h4><b>Preconceito cultural</b></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Observo em meus pacientes que residir em outro país evoca neles a problemática do <em>nativo</em> e do <em>estrangeiro</em>, tão bem descrita no livro de Bauman, “Modernidade e ambivalência” (1999).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta corresponde à situação em que o estrangeiro é visto pelo nativo como um misto de pena e horror por se saber que ele nunca será assimilado em sua sociedade como um &#8220;igual&#8221;, sendo apenas tolerado nela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do lado do estrangeiro, encontram-se </span><span style="font-weight: 400;">a necessidade premente de se submeter para ser aceito e </span><span style="font-weight: 400;">o sentimento premente de ser impostor e inadequado; ou, no extremo oposto, seu isolamento completo.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste último caso, vê-se a situação de brasileiros pobres que vão trabalhar em outros países e não aprendem a nova língua, seja por insegurança ou dificuldades escolares que já carregavam  antes, seja porque só se relacionam entre si. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tais imigrantes são frequentemente bem-vindos nos países ricos porque fazem tarefas de baixíssima qualificação, que mais ninguém quer fazer. O mesmo ocorre com migrantes do Norte e Nordeste que vêm trabalhar no Sudeste brasileiro.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos efeitos existenciais deletérios deste impasse &#8211; o de se deixar a própria terra sem ser assimilado na outra &#8211; é o sentimento de se estar vivendo num limbo identitário, onde a nacionalidade antiga foi perdida sem que se tenha adquirido outra no lugar, algo que meus pacientes se referem como: </span><i><span style="font-weight: 400;">não sou mais brasileiro e tão pouco serei…canadense, suéco, francês, inglês, etc. </span></i></p>
<p>Sentimento que o reconhecimento da cidadania no novo país diminui, mas não aplaca, sendo uma das saídas para isso a dolorosa perda da ilusão de que um dia ele será finalmente integrado.</p>
<p>A propósito, a eleição pelo Estado de quem é ou não cidadão &#8220;de bem&#8221; serve mais para fins discriminatórios do que agregadores, conforme se vê na prática em muitos países.</p>
<h4>Adesão ao estereótipo do imigrante</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, observei junto aos meus pacientes que pelo menos quatro fatores parecem intensificar a adesão inconsciente da pessoa ao estereótipo negativo de imigrante, a saber, e</span><span style="font-weight: 400;">star “legal” ou “ilegal” no país, t</span><span style="font-weight: 400;">er ou não uma rede de apoio, t</span><span style="font-weight: 400;">er trabalhos precários ou de maior status e a q</span><span style="font-weight: 400;">ualidade de sua auto-estima; o que depende, em grande medida, das três coisas anteriores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ressalta-se ainda neste aspecto o quanto a palavra imigrante por si só denota no imaginário forte viés preconceituoso significando alguém rejeitado ou banido de sua terra, como viu-se recentemente na fala preconceituosa do então presidente Jair Bolsonaro acerca da menina venezuelana refugiada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No extremo disso, tem-se a situação da deportação, conforme acompanhei em um de meus pacientes da <a href="https://www.psicanaliseribeiraopreto.com.br/">clinica de psicanálise</a>, que ficou uma semana inteira, sem malas, celular nem documentos em um centro de deportados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Algo aviltante e traumático que pareceu atualizar nele fantasmas ligados ao desaparecimento e à “queima de arquivo”, como devem ter vivido pessoas capturadas pelo Estado em épocas de ditaduras militares. Pois, caindo nas mãos do Estado, faz-se o que se quiser com um deportado, até mesmo assassiná-lo e jogar seu corpo fora. </span></p>
<h4>Desilusão realista</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao tema, passado o tempo da lua-de-mel, o emigrante brasileiro iniciará um movimento de desilusão realista, comparando prós e contras de seu novo país em relação ao Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perceberá, por exemplo, que portugueses fumam e bebem como chaminés, vícios que no Brasil já foram superados há tempos; que o sistema de saúde canadense, totalmente público, cria dificuldades tremendas quando se precisa de atendimento emergencial para um filho; que, numa entrevista de emprego londrina, passa-se despercebida sua homossexualidade e que mães européias tendem a ser  mais frias e &#8220;desencanadas” com seus filhos em comparação com as brasileiras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desilusão realista que os fará compreender que não há país ideal para se viver, mas que, colocados prós e contras na balança, pode-se, e deve-se, afinal escolher onde se quer viver. </span></p>
<h4>Considerações finais</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Espero ter conseguido demonstrar,  a partir da escuta psicanalítica de meus pacientes brasileiros residentes no exterior, que visão idílica e romantizada acerca da vida em outro país é, no fundo, bastante infantil, precisando ser problematizada em uma análise. </span></p>
<p>Com o tempo e a paciência do analista, esperar-se-á que tais pessoas compreendam que &#8220;o melhor lugar do mundo&#8221; é aquele onde, dentre tantos, ela escolheu e, afinal, pôde estar.</p>
<p>Pois, na vida humana, goste-se ou não disso, contingência é destino.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/brasil-alem-dos-tropicos-a-experiencia-de-psicanalisar-brasileiros-residentes-no-exterior/">Brasil além dos trópicos: a experiência de psicanalisar brasileiros residentes no exterior</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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