<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Blog de Psicanálise</title>
	<atom:link href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/tag/cinema/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/tag/cinema/</link>
	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Wed, 16 Sep 2015 11:39:00 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	
	<item>
		<title>Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/</link>
					<comments>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2015 13:51:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[cinquenta tons de cinza]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
		<category><![CDATA[perversão]]></category>
		<category><![CDATA[sadomasoquismo]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/?p=1322</guid>

					<description><![CDATA[<p>Recebi nos últimos meses alguns pedidos de leitores para que eu comentasse o filme lançado no início do ano “Cinquenta tons de cinza”, baseado no livro de mesmo nome. Confesso que não costumo fazer posts por encomenda, já que a motivação para a minha escrita nasce do desejo, de algo que eu vejo, leio ou &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1324 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images-300x156.jpg" alt="images" width="300" height="156" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images-300x156.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images.jpg 311w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Recebi nos últimos meses alguns pedidos de leitores para que eu comentasse o filme lançado no início do ano “Cinquenta tons de cinza”, baseado no livro de mesmo nome. Confesso que não costumo fazer posts por encomenda, já que a motivação para a minha escrita nasce do desejo, de algo que eu vejo, leio ou escuto e que me intriga gerando uma espécie de “comichão interno” que só passa quando eu me ponho diante da tela do computador e deixo o meu inconsciente trabalhar. E dentro de mim não havia nenhum desejo de ver o filme ou de ler o livro. Mas, pensando um pouco melhor a respeito, fiquei curiosa para saber o que, neste filme, havia atraído tantas pessoas. Por isso decidi assisti-lo e averiguar o que seria capaz de comentar sobre ele.</p>
<p><span id="more-1322"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se o livro é do mesmo teor do filme, mas assisti-lo me provocou um grande mal-estar e meu intuito neste texto é pensar por que. Depois será meu intuito refletir sobre a qualidade das vivências contidas neste filme e o que elas possivelmente evocam no espectador (ou no leitor).</p>
<p style="text-align: justify;">A história é a seguinte: Anastasia era uma jovem de 21 anos que até o presente instante não havia tido qualquer tipo de experiência sexual. Era, como ela mesma se descrevia, uma jovem romântica à espera de um grande amor para descobrir os prazeres do sexo. Trabalhava em uma loja de ferragens e morava em uma espécie de república com uma amiga que, nós poderíamos pensar, era o seu alter-ego. Esta sua amiga era concretamente o outro eu de Anastasia, ou seja, um aspecto dela própria que ela desconhecia em si mesma e que começará a se manifestar no seu encontro com o jovem sádico Christian. Esta sua amiga era atraente e mantinha relações promíscuas com os rapazes. Em suma, ela realizava os desejos sexuais perversos que, é provável, Anastasia negasse em si mesma.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Então, podemos nos perguntar: o que é uma pessoa romântica?</h2>
<p style="text-align: justify;">Uma pessoa romântica, numa reflexão psicanalítica, é alguém que nega a existência das pulsões agressivas e sexuais, em si mesma e no outro. Uma pessoa romântica quase sempre está esperando o melhor do outro, ela não enxerga os perigos da vida porque, em seu universo ideal, ela nega que o outro possa ser fonte de perigo, por causa de sua violência e crueldade ou por causa de sua sexualidade perversa. Uma pessoa romântica também costuma negar sua própria violência e sexualidade perversa, por isso tem muita dificuldade para se proteger das invasões e folgas das pessoas e acaba, quase sempre, metendo-se em enrascadas sem perceber sua parcela de responsabilidade nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">E é assim que o filme se inicia: Anastasia vai entrevistar Christian no lugar de sua amiga alter-ego. Fica bastante claro que a amiga folgada a usa nesta situação, diante da qual a romântica Anastasia mostra-se sem defesas. Em suma, ela se deixa ser usada pelo outro e é bastante provável que extraia algum tipo de prazer masoquista frente a estas situações. Anastasia, então, apresenta-se nesta entrevista ao sádico Christian (também seu alter-ego) com toda sua “docilidade” e “ingenuidade”. Pelo menos é assim que ela acredita ser; por isso uso as aspas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que Christian pressente, cheira que aquela jovem é uma potencial vítima sua. Ele cheira que ela é uma masoquista. Ele pressente que Anastasia sente prazer em ser submissa e dominada. Já ele, Christian, é a sua cara-metade. Ele é alguém que tem sua sexualidade fixada no sadismo. Ele é alguém que só sente prazer e só sabe se “relacionar” com o outro por meio da dominação e da violência. Deste encontro, fecha-se o vínculo: o sádico encontra a masoquista e eles começam a se “relacionar”. Christian dá vários indícios à Anastasia de que ela corre perigo. Ela, romântica, ingênua e negando o perigo bem como seus próprios desejos masoquistas, diz que ele pode se transformar pelo amor. Dá a entender que, no fundo, ele nunca pôde ser diferente porque nunca amou de verdade alguém. Movida por este engodo, sobre si mesma e sobre a sexualidade doentia de Christian, ela não o escuta. Ele apresenta a ela as regras contratuais, caso venham a se relacionar: ela não pode beber, ele não pode perdê-la de vista, ela tem que colocar o limite sobre o que ele pode ou não fazer com ela (introduzir objetos no ânus, dedo na vagina, amarrar, queimar, furar, etc.), eles não terão encontros “normais”, como se fossem namorados e, o mais importante, nunca vão dormir juntos (isso seria muito íntimo para ele).</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, Christian diz a ela que só consegue ficar ao seu lado se ela se apresentar a ele como um objeto e não como uma pessoa. Ela deve se submeter a ele. Depois de muito vai-e-vem, ela aceita. Há um diálogo interessante entre eles quando ela, já tentando se desvencilhar do controle sufocante de seu “amado”, vai até a casa de sua mãe (também uma romântica) e ele a segue até lá. Ele diz assim: “Você vai gostar do que vai acontecer com você. Deixar-se ser dominada é um modo de não assumir responsabilidades, não fazer escolhas. É só se deixar levar”. Ela, mais uma vez, aceita.</p>
<p style="text-align: justify;">A coisa vai seguindo até que Anastasia começa a perceber a gravidade da situação. Christian mostra-se frio, distante, não pode ser um namorado para ela, levá-la para jantar, não pode deixar que ela o toque. Em suma, não está psiquicamente disponível para ela. Então, a jovem diz: “Tudo bem, me mostre o que de pior você pode fazer comigo”. Em resumo, ela diz: “Ok, vamos parar com este jogo de faz-de-conta. Seja quem você é de verdade”. Ele mostra: leva-a a sala de tortura e bate violentamente nela.</p>
<p style="text-align: justify;">Anastasia-cinderela acorda de seu conto de fadas. Contando com seus recursos internos (seu aspecto que não cedeu ao prazer masoquista que ela sentia em ser dominada), Anastasia se dá conta de que não havia uma relação entre ela e Christian e que nunca poderia haver. Christian era uma pessoa doente, muito doente. Alguém que nunca pôde (e talvez nunca pudesse vir a) apreender o que era uma mulher. O único modo de “relação” que podia estabelecer era o da superioridade-inferioridade, do dominador-dominado, do mais (homem) e do menos (mulher). Christian era um perverso. A sexualidade de Anastasia também era animada por elementos perversos (masoquistas), como é animada a de todos nós, mas ela tinha mais recursos internos para não sucumbir à doença. Por isso partiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos agora um<a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1300 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise-150x150.jpg" alt="imagem-curso-psicanalise" width="150" height="150" /></a>a pausa para alguns alinhavos com a teoria psicanalítica das perversões.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira vez que Freud sistematizou seu pensamento acerca das perversões foi no seu célebre artigo “Três ensaios sobre a sexualidade”, publicado pela primeira vez em 1905. Curiosamente este texto, junto de “Interpretação dos sonhos” (1900) foi o que Freud mais modificou ao longo de sua obra. Em parte isso se deveu ao fato de que a teoria sexual elaborada por ele – cerne da psicanálise – foi fruto de muitas reelaborações posteriores por parte do autor.</p>
<h2 style="text-align: justify;"> Mas, o que ele diz neste texto sobre as perversões e mais especificamente sobre o sadismo / masoquismo?</h2>
<p style="text-align: justify;">Freud descobriu em suas investigações clínicas que a sexualidade infantil é orientada pelo que ele chamou de sexualidade perverso-polimorfa. O que seria isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Sexualidade perverso-polimorfa é toda forma de manifestação da sexualidade que não se relaciona aos órgãos genitais (pênis e vagina).</p>
<p style="text-align: justify;">Então, Freud descobriu que a criança sente prazer sexual de várias formas: ela sente prazer em sugar o seio da mãe, ela sente prazer em ser tocada em sua pele, em evacuar com violência, depois de reter as fezes, fazendo-as passar com volúpia pelo ânus, em ver os órgãos genitais alheios e em exibir os seus próprios.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela também sente prazer em provocar dor no outro. Esta forma de obtenção de prazer Freud chamou de sádica. Sua explicação para isso resume-se a uma espécie de fusão ou confluência entre a pulsão sexual (libido) e a agressiva. O auge da manifestação desta forma de prazer sexual se dá por volta dos dois anos, quando a criança, no auge do seu sadismo, sente prazer em controlar o outro (normalmente a mãe) com suas vontades e desejos. A mãe diz: “Vai tomar banho.” A criança responde triunfante: “Não”. Nesta fase a criança também sente prazer em maltratar animais e outras crianças. E também sente prazer em se provocar dor. A esta reversão do sadismo para o próprio ego Freud chamou masoquismo. Importante aqui é considerar que estas formas perversas da sexualidade sempre comparecem aos pares, como é bem descrito no filme. Então, temos o par sadismo-masoquismo e o par exibicionismo-voyeurismo. Dito em termos mais simplistas, onde há a pulsão sádica, há seu reverso, o masoquismo. Onde há o desejo de se ver o genital alheio, há o desejo de exibir o seu próprio.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda algo importante a ser dito. Para Freud, a expressão da sexualidade perversa, no caso, a sádica, não pode ser considerada doença enquanto se manifesta de forma plural (ou seja, de várias maneiras) na infância e nem de forma compulsiva / exclusiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ele, a perversão passa a ser considerada uma doença quando ela se manifesta na vida adulta: 1) de forma exclusiva e compulsiva, ou seja, a pessoa só sente prazer submetendo o outro ou sentindo dor, por exemplo; 2) quando esta forma de prazer substitui o prazer genital. Por isso dizemos que Anastasia era menos doente que Christian.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, na medida em que pulsão sádica se expressa, digamos, como uma forma preliminar de obtenção de prazer que culminará no encontro sexual-genital com o outro, isso não pode ser considerado doença. No senso-comum vemos a manifestação desta pulsão sádica, de forma não exclusiva, por exemplo, no dito popular: “Um tapinha não dói”, dito este que frequentemente vemos evocar músicas que fazem as pessoas dançarem mobilizadas por este tipo de fantasia sádica.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra coisa problemática do estabelecimento da sexualidade perversa de forma compulsiva e exclusiva (na psicanálise, dizemos que houve uma fixação) é que, por ela se dar no período do sadismo anal, a pessoa não pôde atingir em seu desenvolvimento aquilo que chamamos de uma relação de objeto total. Para a pessoa fixada na sexualidade perversa o outro não é uma pessoa, diferente dela. O outro é visto como um objeto (parte de si mesmo). Como nesta etapa a criança ainda não compreende a diferença entre os sexos, pessoas fixadas neste período acabarão por ver a mulher como um ser inferior (sem pênis) e o homem como um ser superior (com pênis). A única diferenciação possível aqui é entre o ativo e o passivo, o superior e o inferior. O respeito à alteridade não está presente neste tipo de vivência. Esta questão é bastante evidente no filme: Christian nutria desprezo pela figura feminina. Em seu inconsciente a figura feminina estava associada a um menos. Só servia para ser submissa e mandada. Foi isso que Anastasia não suportou e é por isso que o filme evoca mal-estar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mal-estar advém do fato de que o que vemos se desenrolar na tela não é uma história de amor (um homem e uma mulher, com funções diferentes e complementares). O que vemos é algo doentio, sufocante. É como se fossemos adentrando uma espécie de bolha no qual os dois personagens matam e deixam-se matar. Digo isso porque o sofrimento do perverso é evidente: ele está condenado a não poder se relacionar de verdade, exceto se o outro se adequar exatamente às suas premissas, o que é impossível numa relação humana. Ficamos felizes no final por Anastasia conseguir partir. Só ficamos curiosos para saber o que ela fará a partir de agora com aquilo que descobriu sobre si mesma: sua atração pelo universo mórbido das perversões, seu irrefreável desejo de ser submissa e dominada pelo homem.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação retratada no filme entre Anastasia e Christian está longe de ser uma criação distanciada do que acontece na realidade. Ao contrário. São inúmeros os casais que se destroem por causa de suas pulsões sadomasoquistas. Não é incomum que a mulher, nutrida pelo ingênuo desejo de transformar o homem (“ele vai me amar”, “eu vou transformá-lo”), como Anastasia, permaneça na relação destruindo a si mesma com uma ferocidade terrível. O homem, por seu turno, vence quando derrubar a parceira, quando transformá-la em menos que nada. Muitos crimes passionais eu penso que estejam animados por estes desejos sexuais ferozes. É o aspecto doentio da sexualidade humana que se apresenta com toda sua complexidade e sofrimento repetitivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta ainda cumprir minha segunda meta: Por que as pessoas se sentem tão atraídas por filmes (livros) com este tipo de temática?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta mais óbvia, mas também a menos simpática é: por que o filme retrata desejos sexuais que habitam o inconsciente de todos nós. Todos nós carregamos moções de sexualidade perversa, sádico-masoquistas, voyeristas-exibicionistas. Se assim não fosse porque dançar freneticamente ao som da música: “Dói, um tapinha não dói”? E este não é o problema, pois como alertava Freud: “O normal sonha à noite com aquilo que o perverso realiza”. O problema é estarmos desavisados sobre estes desejos inconscientes, que só podem ser conhecidos na análise. Era o caso de Anastasia. Em uma análise, ela certamente iria descobrir-se uma pessoa muito diferente daquilo que ela imaginava ser. Por trás de sua ingenuidade romântica o que haveria? Que desejos encontraríamos aí?</p>
<p style="text-align: justify;">Acho, então, que as pessoas se sentem atraídas e seduzidas por algo que retrata aquilo que elas sentem, mas que não conseguem nomear. Não conseguem sequer localizar que o que o filme exibe não faz parte de um universo de relações saudáveis entre um homem e uma mulher. Não conseguem localizar que o que é retratado é o indigesto e sombrio universo das relações perversas. De alguma forma, as pessoas se vêem retratadas na Anastasia e no Christian, sem poderem discriminar muito bem o que é saudável do que não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha conclusão sobre o filme é: este não é um filme pornô-soft como ouvi dizer na mídia. Este é um filme sobre como a sexualidade humana pode adotar características bizarras, doentias e empobrecedoras. Este é um filme sobre como a relação homem-mulher pode adquirir características bizarras quando os dois parceiros estão inconscientemente envolvidos num conluio sadomasoquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Como dizia Freud em “Três ensaios” (1905), a sexualidade perversa humana é a que mais resiste ao trabalho civilizatório e a “normalidade” no que tange à sexualidade humana está longe de ser um fato incontestável. Trocando em miúdos, na intimidade de um casal, desejos perversos do tipo sadomasoquistas podem ligar as pessoas muito mais do que elas imaginam. Ou você nunca reparou quanto casais extraem um prazer incrivelmente mórbido de suas brigas violentas?</p>
<p style="text-align: justify;">Se você quiser conhecer outro filme que trata do mesmo tema com uma carga de dramaticidade interessante e onde são retratadas várias perversões, inclusive o fetiche, pode assistir “Veludo azul” de David Lynch.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>4</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O mito de Narciso sob a ótica da Psicanálise</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/</link>
					<comments>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 May 2012 12:00:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[Narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar Wilde]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/?p=501</guid>

					<description><![CDATA[<p>Nesta sexta-feira estive no Cinema e Psicanálise e assisti ao filme &#8220;O retrato de Dorian Gray&#8221;, baseado no livro de mesmo título escrito por Oscar Wilde. Vale lembrar que, além deste filme, há outras filmagens da mesma obra, embora eu não as tenha visto. Grande parte das discussões após a exibição do filme giraram em &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O mito de Narciso sob a ótica da Psicanálise</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/">O mito de Narciso sob a ótica da Psicanálise</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft  wp-image-502" title="Mito de Narciso" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/04/250px-Michelangelo_Caravaggio_065-247x300.jpg" alt="Mito de Narciso" width="211" height="256" />Nesta sexta-feira estive no Cinema e Psicanálise e assisti ao filme &#8220;O retrato de Dorian Gray&#8221;, baseado no livro de mesmo título escrito por Oscar Wilde. Vale lembrar que, além deste filme, há outras filmagens da mesma obra, embora eu não as tenha visto.</p>
<p style="text-align: justify;">Grande parte das discussões após a exibição do filme giraram em torno da temática do narcisismo. Como o propósito do post não é analisar o filme e sim o narcisismo, sugiro que leiam a obra de Oscar Wilde e assistam ao filme para compreender melhor a discussão.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-501"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, resolvi revisitar mais uma vez o mito de Narciso e passo agora a descrevê-lo na íntegra para que nenhum detalhe se perca.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O mito:</h2>
<p style="text-align: justify;">Narciso, em grego  <em>Nárkissos </em>(<em>nárkes</em>= torpor, de onde deriva a palavra narcótico), era filho de Liríope e Cefiso. Sua mãe muito assustada com a beleza do filho foi procurar o sábio Tirésias que tinha a capacidade de ver o futuro. Ela perguntou se Narciso viveria até ficar velho e ele responde: &#8220;Sim, desde que não veja a própria imagem&#8221;. Narciso seguia rejeitando todas as belas donzelas que, exatamente por isso, nutriam profunda paixão por ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia a bela ninfa Eco (a quem Hera condenou a repetir sempre a última palavra proferida pelos outros dada sua necessidade de sempre ter a última palavra nas discussões) avistou Narciso, que caçava nas montanhas, e se encantou por tamanha beleza. Narciso ouvindo o barulho, perguntou: &#8220;Há alguém aqui?&#8221; e Eco respondeu: &#8220;Aqui?&#8221; Então, Narciso, vendo a ninfa correr em sua direção disse: &#8220;Afaste-se. Prefiro morrer a te deixar me possuir&#8221;. Eco fugiu envergonhada e se refugiou para sempre nas cavernas. Suas carnes definharam de tanta tristeza. Por isso, Narciso fora castigado por Nêmesis a ter um amor impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, um dia, enquanto Narciso caminhava próximo a uma fonte clara, por estar exausto, debruçou-se sobre a fonte e avistou a figura mais perfeita que jamais tinha visto. Não pôde se conter e lançou seus braços em direção àquele ser maravilhoso. Nesse instante, o ser sumiu, para depois retornar. Narciso perguntou: &#8220;Porque me rejeitas, bela criatura? Se quando eu sorrio, você sorri? Se não posso te possuir, que pelo menos eu possa mirar para sempre a sua beleza&#8221;. E assim, Narciso ficou por dias, meses e anos a mirar a imagem maravilhosa na água. Esquecendo-se de se alimentar, seu corpo perdeu paulatinamente o vigor e as cores, até morrer. As ninfas choraram o seu triste destino e no lugar em que estava seu corpo sem vida, nasceu uma linda flor amarela de mesmo nome.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Considerações psicanalíticas sobre o mito:</h2>
<p style="text-align: justify;">Sabemos que os mitos gregos transmitem de forma intensa e poética dramas universais humanos. Penso que a palavra grega <em>nárkes </em>já carrega em si mesma um sentido interessante para discutirmos o torpor, o efeito narcótico e hipnótico que a auto-imagem de Narciso (e de todos nós) possuía sobre ele. E é por isso que o sábio Tirésias disse que ele só poderia chegar à velhice se não avistasse a sua imagem. Nesse sentido, o mito de Narciso contêm uma ideia preciosa sobre a vida e o desenvolvimento mental (chegada à velhice): se não abandonamos esta espécie de torpor ou efeito narcotizante que a nossa imagem (o nosso narcisismo) exerce sobre nós, a vida corre perigo. De acordo com Bion, teremos dificuldade de ir do Narcismo para o Socialismo (vínculos, relação com o outro).</p>
<h2 style="text-align: justify;">Eco busca Narciso:</h2>
<p style="text-align: justify;">É interessante também no mito que seja Eco (que usualmente conhecemos pelo som gerado por uma única voz em lugares grandes e vazios, condição frequentemente encontrada em cavernas) a buscar Narciso. Nesse sentido, podemos considerar que Narciso (aquele que está condenado a amar a si mesmo) não pode se relacionar com nada a não ser com seu próprio Eco.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta passagem, é muito interessante quando Eco diz para Narciso se juntar a ela e ele diz: &#8220;Prefiro morrer a te deixar me possuir&#8221;. Ou seja, não há nada mais assustador e terrível para o narcisismo que se deixar possuir por um outro, que não ele mesmo. E, tanto no caso do mito quanto no caso de Dorian Gray, a &#8220;moral da história&#8221; é a mesma: quando a necessidade dos vínculos é negada, quando há um fechamento da libido em si mesmo, negando-se a própria condição de dependência e fragilidade humana, o que resta é a inanição e a morte.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-511" title="Eco e Narciso" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/05/10056445.jpg" alt="Eco e Narciso" width="276" height="206" /><span style="text-align: justify;">Mas porque assumir a necessidade dos vínculos e a condição de dependência é tão terrível ao narcista? Porque, no caso de Dorian Gray, havia um pacto de amor à própria imagem, que o levou ao enlouquecimento e à morte? Outra questão importante: não haveria dentro de todos nós um estado narcísico (ou pactos narcísicos), que em graus menos ou mais graves, nos levariam à inanição e morte em vida?</span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Vínculos e dependência</h2>
<p style="text-align: justify;">Para responder à primeira questão, é necessário recorrer brevemente a algumas das teorias sobre o narcismo. Freud trouxe contribuições importantes para compreender o narcisismo que, segundo ele, seria um momento desenvolvimental vivido pelo bebê, anterior à descoberta do objeto materno. Segundo Freud, a libido (amor, sexualidade vital) pode estar investida ou catexizada em dois &#8220;lugares&#8221;: 1) no próprio corpo (o que configuraria uma libido narcísica); 2) no objeto, no outro (libido objetal). Para ele, no início, o bebê investe toda sua libido em si mesmo vivendo um estado de completa completude e onipotência. Por isso ele chama o bebê de &#8220;sua majestade&#8221;. Aos poucos, este bebê vai descobrindo a necessidade do objeto (leite, afeto materno) e passa a investir sua libido em seu primeiro objeto de amor: a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Winnicott contribuiu ainda mais com esta compreensão do narcisismo quando disse que, na condição de uma necessidade absoluta do ambiente e de fragilidade física e mental, o bebê precisa que a mãe vá apresentando a ele o mundo em pequenas doses. Por isso, nos primeiros meses de vida, o bebê precisa achar que é ele que cria tudo: o leite, o mundo. É o que ele chama de momento de ilusão. Se a mãe não é sensível o suficiente para tolerar este estado precário do bebê e apresentar a ele o mundo em pequenas doses (porque aqui ele ainda não tem condições de compreender, por exemplo, o que é o tempo e o espaço do seu corpo), falhas cruciais em seu narcisismo vão permanecer e este indivíduo, mesmo adulto, terá dificuldades para dirigir sua libido ao outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns outros autores que discutem o narcisismo, por outro lado, consideram que, muito mais do que falhas ambientais, a organização narcisista da personalidade é gerada por uma intensa ação da pulsão de morte que nega toda a realidade da condição humana: a morte, a precariedade física e mental e a necessidade de dependermos do outro. Segundo tais autores, o narcisista (em graus menos acentuados, todos nós temos uma porção narcisista em nossas personalidades), negariam esta realidade, bem como suas realidades internas (dores, angústias e frustrações).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-513" title="dorian gray" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/05/resenha-dorian-gray-0011-300x164.jpg" alt="dorian gray" width="300" height="164" /></p>
<p style="text-align: justify;">Era o que parecia fazer Dorian quando passou a depositar no quadro (duplo dele) todos os aspectos de sua personalidade que não podiam ser tolerados, sonhados e pensados por ele. Esta realidade alucinatória criada por ele obviamente não poderia se manter por muito tempo porque é falsa e contraria totalmente a condição humana finita, limitada e precária. Por isso, o filme mostra a sua paulatina decadência, sofrimento mental e morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, seja por falhas ambientais (traumas precoces) vividas pelo bebê, seja por fatores constitucionais que carregam a personalidade com altas doses de pulsão de morte, o fato é que o narcisismo, tal como mito mostra tão bem, por negar a dependência e a importância dos vínculos, remete o sujeito à inanição mental e à morte.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O narcisismo nosso de cada dia:</h2>
<p style="text-align: justify;">Levantei uma outra questão intrigante no texto: o narcisismo é um estado patológico ou uma vivência presente (e necessária também) para a manutenção da vida de todos nós? E, se o narcisismo é necessário, quando é que ele começa a ser mortífero e perigoso à vida?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma questão difícil. André Green, importante autor psicanalítico contemporâneo, assevera ser necessário discriminarmos o que é narcisismo de vida e narcisismo de morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Narcisismo de vida, conforme eu compreendo, é tudo aquilo que nos mantêm em contato conosco, com a nossa auto-estima, com o respeito necessário que temos que ter para conosco, para com as nossas ideias, com o nosso corpo e mente. Alimentar-se bem, exercitar-se com regularidade, amar as próprias ideias e criações, embora também sendo capaz de aceitar e conter o diferente&#8230;tudo isso a meu ver é narcisismo de vida e absolutamente crucial para não nos perdermos no outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o narcisismo de morte estaria ligado à uma excessiva e desmedida preocupação consigo mesmo a ponto de nos esquecermos da existência e necessidades do outro que está ao nosso lado bem como o ódio à nossa condição de dependência e finitude. Estas vivências patológicas e intensas, muito presentes em patologias atuais, tais como, os transtornos de personalidade, são muito danosas ao desenvolvimento porque matam qualquer possibilidade de que o sujeito se abra para os vínculos e para o reconhecimento de suas falhas e limitações.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Dorian Gray e Narciso:</h2>
<p style="text-align: justify;">Tanto no caso de Dorian Gray quanto de Narciso o que estava presente era o narcisismo de morte. O que regia suas personalidades era um absoluto ódio diante da condição humana, a arrogância diante do outro e a onipotência. Ressalto que no caso de Dorian Gray, em um dos momentos dramáticos do filme, quando ele mata um de seus melhores amigos, ele parte em uma viagem e envia cartas a um conhecido dizendo que ele era um Deus. Trata-se de um estado delirante e psicótico em que as delimitações entre a realidade e as fantasias ficam borradas, impedindo cada vez mais o sujeito de tolerar suas percepções externas e internas.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Narcisismo e cultura:</h2>
<p>Para finalizar, gostaria de situar que, apesar da obra de Oscar Wilde ter sido escrita em 1890, esta é uma temática ainda muito atual e considero que permanecerá sendo enquanto houver humanos sobre a terra.</p>
<p>Particularmente hoje em dia, pelo fato de vivermos um momento histórico em que as pessoas toleram pouco suas frustrações e condição humana, a temática do narcisismo nunca foi mais atual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/">O mito de Narciso sob a ótica da Psicanálise</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>13</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
