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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Impactos da neurose nas relações conjugais à luz do filme A difícil arte de amar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Dec 2015 13:18:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Meu objetivo neste texto é demonstrar como a presença de neurose em cada um dos membros de um casal pode impactar negativamente a relação conjugal e, muitas vezes, inviabilizá-la. Para tanto utilizarei como estímulo para refletir sobre o tema o filme “A difícil arte de amar”, lançado em 1986 sob a direção do norte-americano Mike &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/impactos-da-neurose-nas-relacoes-conjugais-a-luz-do-filme-a-dificil-arte-de-amar/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Impactos da neurose nas relações conjugais à luz do filme A difícil arte de amar</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/impactos-da-neurose-nas-relacoes-conjugais-a-luz-do-filme-a-dificil-arte-de-amar/">Impactos da neurose nas relações conjugais à luz do filme A difícil arte de amar</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/12/dvd_8331.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1682 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/12/dvd_8331.jpg" alt="dvd_8331" width="150" height="200" /></a>Meu objetivo neste texto é demonstrar como a presença de neurose em cada um dos membros de um casal pode impactar negativamente a relação conjugal e, muitas vezes, inviabilizá-la. Para tanto utilizarei como estímulo para refletir sobre o tema o filme “A difícil arte de amar”, lançado em 1986 sob a direção do norte-americano Mike Nichols e estrelado por Meryl Streep e Jack Nicholson.</p>
<p style="text-align: justify;">A história, aparentemente banal, começa com Rachel (Meryl Streep) flertando em um casamento com Mark (Jack Nicholson). Ela se apresenta como uma mulher independente, cabelos curtos, roupa elegante e sóbria. Trabalha como escritora de matérias culinárias na agitada cidade de Nova York. Durante a cerimônia, toma a dianteira no flerte, olha para ele, visivelmente mais velho que ela, pelo espelho da maquiagem. Ele, galante e com histórico de mulherengo (o solteiro mais famoso da cidade), devolve o olhar.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1681"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda na cerimônia, várias mulheres choram, inclusive a terapeuta de grupo de Rachel, enquanto Mark cochila. Curiosamente Rachel não chora o que faz o espectador pensar que esta mulher, diferente de outras, arranjou-se em outra posição que não a de mulher romântica. Mas isso não vai se mostrar sustentável ao longo da trama, como veremos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. A história segue e, na festa, Rachel mais uma vez faz-se de ousada: ele a convida para tomar um drink em outro lugar e ela prontamente aceita. Passam a noite juntos. Depois do ato sexual, ela cozinha para ele um macarrão à carbonada. Ela diz: “Espero que você não me ache muito moderna cozinhando pra você logo na primeira noite”. Ele a defende, sedutor: “Não, não. Este é o melhor macarrão que já comi na minha vida. Quero comê-lo toda semana pelo resto da minha vida”. Nem um pedido de casamento como este logo na primeira noite de sexo vindo do “solteiro mais famoso da cidade” faz Rachel desconfiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela segue, embalada pelo seu sonho dourado e logo marcam a data do casamento. Neste dia ela chora. Vestida de noiva e, com todos os convidados a esperando, além do noivo, diz que não vai se casar, que não acredita em casamento, que seus pais nunca foram felizes juntos, o que parece ter sido verdade. O pai de Rachel confirma: sua mãe era “louca”, leia-se frágil e ele próprio, um homem que nunca conseguiu ser fiel.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é, portanto, o modelo de relação conjugal internalizado por Rachel: uma mãe frágil e um pai mulherengo. Não continuarei descrevendo a trama já que o meu objetivo é centrar-me neste modelo de pais internalizados para discutir a neurose de Rachel e de Mark. Só adianto que a história termina mal. Eles se casam, Rachel engravida e vai se abandonando. Mark a trai durante longo tempo com outra mulher. Ela descobre e, no início, tem dificuldade para se posicionar. Finalmente, ela consegue se separar e tudo indica que retorna de onde saiu: da casa de seu pai viúvo em Nova York. A menina por trás da mulher comparece o que me faz levantar a hipótese da presença de uma neurose não elaborada.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>O que é uma neurose para a psicanálise?</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Freud designou que neurose é uma situação em que pessoa permaneceu fixada em alguma vivência emocional do passado à qual repete incessantemente em sua vida presente. Mas à qual situação emocional a pessoa que tem uma neurose ficou “presa”?</p>
<p style="text-align: justify;">Para ser bem direta, ela ficou presa ao amor infantil que sentiu, no passado, pelos pais. A este amor apaixonado e sensual Freud nomeou “Complexo de Édipo”, que acontece de forma diferente na menina e no menino. No caso de Rachel, a hipótese que levanto é a de que ela permaneceu presa ao amor apaixonado que sentia pelo pai, situação que a fez buscar um homem bem mais velho que ela e mulherengo como o pai. Isso explica porque Rachel, mesmo adulta, ainda morava com ele e também porque ela se comportou como uma menina amedrontada no dia do casamento, que era o dia em que ela teria que se desligar do pai para ir morar em outra cidade com o marido. O problema é que como uma neurótica Rachel escolhe inconscientemente um homem parecido com o pai (modelo não muito interessante de se buscar como marido!) sendo que ela própria, identificada com a mãe, comporta-se como uma mulher frágil e abandonada de si mesma no casamento, fazendo com que o destino deste casal se torne inviável, exatamente como aconteceu com os pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mark também sofria de uma neurose. Sua síndrome de Don Juan me faz pensar na dificuldade que ele encontrou em fundir na mesma mulher a corrente terna e sensual de sua libido, situação que também revela de sua parte uma fixação na mãe. Vale lembrar que foi logo depois que Rachel teve a filha que ele começou a traí-la. Ou seja, depois que ele passou a vê-la como mãe, viu-se impossibilitado de vê-la também como objeto sexual, situação que revelaria de muito perto o desejo real do seu inconsciente de ter relações sexuais com a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à Rachel sua neurose comparecia ainda de outra maneira, muito frequente entre as mulheres. Tratava-se do seu desejo incontrolável de entregar-se nas mãos do objeto amado. Em uma linguagem lacaniana, fazer do Outro o falo dela. Fazendo uma extensão da posição fálica de Freud, Lacan teoriza que neste período é o Falo o objeto de investimento sexual da criança. Para o menino, o falo é a mãe. É com ela que ele quer se excitar e ter uma relação sexual, impossível do ponto de vista do eu. Já para a menina, que não é possuidora do Falo-pênis (refiro-me à falo como símbolo de poder e não como o órgão pênis), sua meta é ter o Falo-amor. Seu anseio por completude neste período advém da fantasia de entregar-se toda ao objeto amoroso pai. Era isso o que acontecia com Rachel. Frente ao substituto paterno ela acreditou no engodo de que todo o amor que ele lhe daria bastaria a ela. Com isso, ficaria completa, não faltante. Por esta ilusão de completude, pagou um preço alto: o preço de sua autonomia como sujeito do próprio desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">A resolução do Complexo de Édipo, tanto no menino quanto na menina, consiste na constatação de que a realização do desejo sexual incestuoso é impossível, assim como é impossível a satisfação plena em qualquer relação sexual (“A relação sexual não existe”, Lacan). Nós resolvemos nossa neurose na medida em que aceitamos a castração, ou seja, a impossibilidade de realizarmos o desejo incestuoso, sobretudo, no caso do neurótico, pela via do sintoma. Neste árduo processo, nem Rachel nem Mark foram bem-sucedidos. Em seu inconsciente, Rachel acalentava o anseio de ser plenamente preenchida de amor-falo e de, nesta situação, nada mais lhe faltaria. O desejo, em sua visão infantil, estaria para sempre aniquilado. Por esta fantasia, pagou o preço da perda de sua autonomia como sujeito desejante. Em termos edipianos, a menina Rachel nunca pôde abrir mão de seu pai, avistando na concretização deste desejo algo do impossível. Já Mark, fazendo-se de falo sedutor, prometia algo que não podia cumprir. Prometia ser um homem viril. Mas pela sua neurose não podia sustentar tal posição no casamento com a esposa. Sua virilidade era aparente, mais encenada do que real. Em termos edipianos, era a imagem da mãe que ele avistava em seu inconsciente a cada vez que se deparava com a mulher grávida. Daí a impossibilidade de se satisfazer sexualmente com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de finalizar, queria sinalizar só mais um aspecto desta questão. Freud foi enfático ao dizer que a neurose infantil é construída com permissão do inconsciente dos pais. Ou seja, o inconsciente dos pais também está implicado na fixação no desejo incestuoso da criança. Esta questão fica evidente no filme. Logo que Rachel descobre a traição do marido, vai à casa do pai como uma menina frágil. A resposta do pai é curiosa. Diz-lhe indiretamente que ela mande de volta a filha de Rachel para Mark e que fique lá com ele. Curiosamente, ele não a trata como uma adulta dizendo-lhe, por exemplo: “Filha, seus problemas com seu casamento devem ser resolvidos na sua casa! Volte para lá e os resolva como mulher. ” Ao contrário! Ele endossa e reforça nela sua posição infantil possivelmente extraindo disso também algum prazer incestuoso. Concluindo, Rachel pode ter se tornado neurótica, em parte pela intensidade de seus desejos, mas também pela carência de um modelo feminino e masculino mais efetivos. Este é, penso eu, o aspecto transgeracional da neurose que vai sendo transmitido de pais para filhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais considerações psicanalíticas sobre os conflitos conjugais ou, sobre “a difícil arte de amar” são fundamentais na medida em que explicações racionalizantes e externas tendem a predominar nestes casos. Diz-se, por exemplo, para endossar este tipo de problema neurótica coisas do tipo: “Todo homem trai” ou “Toda mulher é frágil”, generalizações estas que empobrecem o nosso olhar e tornam inacessíveis as considerações sobre o complexo fenômeno do mundo interno e das manifestações do inconsciente. A psicanálise vai na contramão disso e chama o próprio sujeito a se indagar sobre o seu sofrimento causado, em última instância, por ele mesmo. Se Rachel tivesse visitado o divã de um analista antes de “escolher” seu segundo marido certamente seria confrontada com sua “escolha”: “Por que este homem, como seu pai? ”ou “Por que frágil, como sua mãe?”</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Mata-se uma criança &#8211; parte I</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Oct 2014 18:56:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas. Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Mata-se uma criança &#8211; parte I</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/10/download-6.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1241 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/10/download-6-150x150.jpg" alt="download (6)" width="150" height="150" /></a>Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e a mãe da criança edipiana. Mas, a fantasia de matar crianças, animada pela mente dos genitores, é algo, segundo ele, fortemente evitado e que causa repulsa.</p>
<p style="text-align: justify;">Sustentando sua argumentação, cita que na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, o personagem trágico Édipo só assassinou o pai e desposou a mãe porque a criança, que foi enviada pelo pai para morrer no monte Citerão, foi encontrada por um pastor. Para quem não conhece a tragédia, vamos a um breve resumo:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1240"></span></p>
<p style="text-align: justify;">                <em>Laio, pai de Édipo e rei de Tebas, foi amaldiçoado pelos deuses por ter seduzido Crisipo, filho do rei Pélope. Consultando o oráculo de Delfos, Laio é informado de que sua maldição consistia em que seu filho primogênito ainda não nascido, Édipo, o mataria e desposaria sua mulher, Jocasta. Frente ao horror deste possível desfecho – de parricídio e incesto – Laio manda matar Édipo assim que a criança nasce. Encontrado por um pastor no monte Citerão com os pés amarrados e prestes a morrer, Édipo é entregue a Pólipo, rei de Corinto e criado por ele e sua esposa como se fosse seu filho legítimo. Já adulto e, interessado em saber sobre origens, consulta o oráculo de Delfos que, mais uma vez, lhe fala a respeito de sua maldição: matar seu pai e casar com sua mãe. Horrorizado frente à possibilidade de matar Pólipo, foge de Corinto para Atenas. Sem saber, ia ao encontro do seu destino tão temido. No caminho, encontra uma caravana, liderada por Laio (seu pai verdadeiro) e mata a todos, inclusive Laio. Já em Tebas, resolve o enigma da esfinge e, como recompensa, casa-se com a viúva Jocasta, com quem tem vários filhos (Antígona, Polinices, Etéocles e Eumênides). A partir daí a cidade começa a ser dizimada por um terrível peste. Questionando o oráculo, este lhe informa que a peste se deve ao fato de que o verdadeiro assassino do rei Laio estava na cidade. A peste só cessaria quando o assassino fosse descoberto. Depois de investigações do próprio Édipo que vai paulatinamente se aproximando da verdade – que era ele o assassino do pai e o filho incestuoso – o cego Tirésias lhe revela toda a verdade confirmando ser ele o parricida gerador da peste. Frente ao horror da verdade, Édipo fura os olhos e é exilado, por longos anos, em Colono. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Leclaire chama a atenção para o pouco foco que se dá aos elementos da tragédia que antecedem o parricídio e o incesto embora determinantes no destino funesto de Édipo. São eles: homossexualidade de Laio e intento de assassinar o filho que, vivo, revelaria ao pai seu crime sexual e maldição. E é por aí que transita Leclaire.</p>
<p style="text-align: justify;">Questionando, a partir da peça trágica, quais as motivações inconscientes que animam o desejo dos genitores de matar sua criança, ele enumera algumas delas, que eu pretendo discutir neste e nos próximos textos. São elas:</p>
<p>1)      A criança real não é a “criança maravilhosa” do narcisismo dos pais.</p>
<p>2)      A criança carrega consigo segredos sexuais dos pais.</p>
<p>3)      A criança revela, em estado bruto, a ausência do recalque.</p>
<p>4)      A criança fala, embora esta seja uma “outra” fala.</p>
<p>Vejamos o primeiro aspecto:</p>
<p style="text-align: justify;">O que é a “criança maravilhosa”? Em &#8220;As sete invejas capitais&#8221; Chuster e Trachtemberg (2009), comentando as ideias de Leclaire, lembram o seguinte: que apesar de Freud ter dito que o ódio é mais antigo que o amor no psiquismo, esta premissa não é válida quando se trata do eu. Ou seja, somente no caso do eu, o amor é mais antigo que o ódio. O que significa isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Que o primeiro objeto de amor que nós temos na vida é a gente mesmo. Na psicanálise chamamos isso de narcisismo primário. Dito em termos bem simplistas: cada ser humano, lá nos recônditos de sua mente, nutre uma profunda paixão por si mesmo (já repararam como a gente não resiste a um espelho e quão fascinados ficamos pela nossa própria imagem?). Esta é a nossa “criança maravilhosa” ou “sua majestade, o bebê” (como Freud chamava) que habita desde sempre o nosso psiquismo. Pois bem. Quando um casal vai ter um bebê, Freud (1914) diz, eles depositam neste bebê imaginário (que ainda não nasceu, exceto na cabeça dos futuros pais) esta “criança maravilhosa” que eles, os pais, foram e no inconsciente ainda são. Então estes futuros pais acalentam a ideia inconsciente de que irão poder reencontrar suas “crianças maravilhosas” em seus filhos. Por isso Freud diz: é o narcisismo dos pais que anima o narcisismo da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aí tudo bem. Mas, qual o entrave aqui? Quando a criança real nasce os pais, paulatinamente, terão que ir fazendo o luto pelo fato de que esta criança real não é a “criança maravilhosa” (eles próprios) que esperavam. Por ser, como o nome diz, uma criança real, é diferente dos pais. Acontece que, de forma muito inconsciente, a criança percebe as expectativas que os pais depositam nela (de suas “crianças maravilhosas”) e para receber o que consideram o amor destes, ela fará de tudo para corresponder a esta “criança maravilhosa” que há dentro da mente dos pais. Bem, já podem imaginar a quantidade de enroscos que isso gera, tanto na vida dos pais quanto na vida da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai espera que seu filho seja mais bem sucedido, mais feliz, mais esportista, mais potente do que ele foi. A mãe espera que sua filha se case com o homem dos seus sonhos ou que ela não se destaque mais do que ela própria (quando há competição e rivalidade excessivas). O sofrimento é geral, principalmente porque esta “criança maravilhosa” não é consciente para os pais. Ou seja, eles não sabem que nutrem estas expectativas com relação aos filhos.  Lacan partiu daí para considerar, no campo da patologia, que, por exemplo, a mãe  histérica goza com o filho como se este fosse seu falo.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom, então já dá pra começar a entender porque os pais nutrem, lá no fundo de suas almas, um desejo inconfessável de que seu filho ou filha morra: ele ou ela me frustra, frustra a minha “criança maravilhosa”. Isso explica bastante bem a depressão pós-parto e o incontável número de “acidentes” que ocorrem com bebês pequenos. Também explica o “esquecimento” de crianças dentro de carros, a queda de janelas, a violência física e sexual cometida contra crianças na família e na escola. Para Chuster e Trachtemberg, não dá pra entender o comportamento humano com as crianças sem levar em conta o desejo de “matar a criança”. Citam e se perguntam: quando uma criança é abusada sexualmente, o que o abusador mata nela não é a criança que é morta por não estar preparada para lidar com aquele excesso de sexualidade?</p>
<p style="text-align: justify;">No indigesto filme “Anticristo” esta questão – a concretização do desejo de assassinato da criança em um casal bastante narcísico – é retratada de forma nua e crua.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, quando a mãe não é muito narcísica os sentimentos de ódio e desejo de que a criança morra são recalcados e transformados no seu contrário: amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Inclusive, do ponto de vista histórico, é possível hipotetizar que ao longo da evolução cultural – o que significa em termos psicanalíticos a instância superegóica, representante da lei, colocando algum freio nos impulsos – houve tentativas cada vez mais substanciais de recalque desde desejo de matar a criança. Badinter (1980) em “O mito do amor materno” faz uma extensa revisão histórica para mostrar como na Idade Média, por exemplo, era extremamente comum e corriqueiro que uma mãe deixasse seu filho no lixo ou o desse para alguém. O sentimento de “amor materno” não existia, tal como o compreendemos hoje. Do ponto de vista psicanalítico, os mecanismos de recalque ainda não estavam bem instalados culturalmente. Portanto, noções como culpa e remorso não fazia parte do vocabulário daquelas mulheres. Pois, este sentimento só existe quando, no psiquismo, está havendo uma luta intensa entre os sentimentos de amor e ódio, sendo a culpa o resultado desta disputa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à questão “mata-se uma criança”, podemos fazer um exercício interessante de pensar como este desejo comparece em nossa sociedade dita “civilizada” como uma forma de solução de compromisso entre o desejo e a repressão.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas coisas me vêm à mente: Rituais de iniciação como batismo, por exemplo. Como não pensar na cena da criança tendo a cabeça molhada ou afundada na água (como acontece em algumas religiões) como uma cena que representa a um só tempo, um novo nascimento, mas também a cena de um afogamento? Sabe-se, por exemplo, que em povos ditos mais “primitivos” rituais de iniciação que marcam diferentes fases da vida costumam ser bastante violentos.  E as cantigas infantis? “Dorme neném que a cuca vem pegar. Papai foi na roça, mamãe foi passear”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que diz esta aparentemente tão inocente canção: papai e mamãe foram cuidar da vida deles e você ficará dormindo sozinho. Qualquer alusão à cena edípica (pai e mãe fazendo coisas juntos e um bebê sozinho não é mera coincidência). E o que acontece com uma criança que fica sozinha? Morre&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, os exemplos são inúmeros. Já fui questionada se estas cantigas de ninar “fazem mal”. Certamente que não. Se elas foram criadas ao longo do processo de formação cultural, devem servir a algum propósito. E a psicanálise nos ajuda a entender qual seja ele: transformar em narrativa, em uma história possível desejos sinistros que assombram a mente de pais, mães e filhos desde sempre. Por isso, viva as cantigas de ninar e os rituais de passagem!</p>
<p style="text-align: justify;">Nos próximos textos comentarei os demais itens elencados por Serge Leclaire.</p>
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