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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2024 18:50:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo faz reflexões sobre a sociedade brasileira, marcada por privilégios materiais e simbólicos, a partir do filme Ainda estou aqui. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-ainda-estou-aqui/">Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Ainda-estou-aqui-5.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3006" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Ainda-estou-aqui-5.jpg" alt="" width="250" height="156" /></a>O filme <em>Ainda estou aqui</em>, dirigido por Walter Salles, me tocou de um jeito inesperado.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais identificada à empregada doméstica Zezé do que à Eunice ou suas filhas, lembrei-me das inúmeras vezes em que senti, tal como Raskólnikov, inveja das minhas colegas que tinham famílias cultas, politizadas e unidas como a de Rubens, Eunice e seus filhos, e que pude conhecer nos meus únicos dois anos de colégio privado, e, depois, na USP.   </span></p>
<p><span id="more-3003"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não tive a sorte de pertencer a uma. Assim como milhões de brasileiros, nasci de pais pobres, pouco escolarizados e despolitizados que, na época da ditadura, lutavam com outros monstros: alcoolismo, falta de perspectiva e violência sexual e doméstica.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso acho graça quando alguém politizado fica bravo com a indiferença e alienação do povo em relação à sua história. Pois, na classe de onde eu vim, é do padre e não do político que vem o amparo diário. O que me faz lamentar profundamente o fim da teologia da libertação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na minha segunda análise, minha analista, que veio de uma família culta e letrada, como, aliás, quase todos os psicanalistas, demorou muitos anos para compreender que o ódio que me corroria o espírito não era vergonha das minhas origens. E sim revolta por não ter tido as mesmas oportunidades que os bem nascidos, de estudar em bons colégios, cursar outras línguas e conhecer o exterior.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, minha vontade insana de fugir da falta de perspectivas da minha classe, foi tanta que consegui, estudando feito um cão, passar na USP.  O que só consegui porque, por sorte, nasci inteligente e sistemática como um relógio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como uma trânsfuga de classe (termo que ouvi do escritor Edouard Louis), carrego marcas até hoje. Por exemplo, semana retrasada consegui comprar minha primeira passagem aérea ao exterior e fiquei duas noites sem dormir, vítima de uma ansiedade terrível. </span></p>
<h3><b>Modos de ser que vêm da classe</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao filme, a postura sóbria, discreta e pragmática com que Eunice enfrenta o drama do desaparecimento do marido, também é fruto de um modo de ser da classe a qual estas pessoas pertencem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, pertencer aos Paiva, aos Arraes, ou casar-se com um, significa, no Brasil, integrar famílias tradicionais de longa linhagem aristocrática, com grande influência política e alto capital simbólico, educados nos melhores modos e na ilustração. Sendo estas as pessoas que compõem hoje o que chamamos de elite pensante brasileira, grande parte dela representantes da esquerda (ou do que restou dela).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, são pessoas que, ao contrário de mim, carregam um inabalável senso de autoestima e uma noção clara de seus direitos, devido ao fato de serem quem são. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, vendo a postura estóica de Eunice, foi inevitável não compará-la à minha mãe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há dez anos, seu companheiro morreu misteriosamente na prisão sem ela nunca ter sabido a causa, e nunca lhe passou pela cabeça, como fez Eunice, lutar pelos seus direitos de viúva, pois para ela, seus únicos direitos na vida são resignar-se e apegar-se à Deus. </span></p>
<p>Assim, do que ocorrem nas prisões brasileiras conclui que, no Brasil, a ditadura, entendida como uso indevido da violência pelo Estado sem quaisquer garantias de direitos para o lado mais fraco, nunca terminou, com a diferença de que hoje ela só atinge os mais pobres.</p>
<h3>Quartinho de empregada</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Já do quartinho de empregada da Zezé, lembrei-me das inúmeras vezes em que eu, minha mãe e meu irmão tivemos que dormir no “puxadinho” do apartamento de praia da minha rica tia avó. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nestas ocasiões, para “pagar” a estadia, minha mãe trabalhava feito louca, servindo e carregando sacolas de compras, como se fosse uma empregada. Destas lembranças amargas, herdei minha jura de nunca mais me humilhar em troca de férias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma, invejando o modo terno com que Eunice tratava seus filhos, mas sobretudo Vera, a filha mais velha à quem ela empresta um casaco para ir à Londres, pensei que minha mãe nunca pôde nos tratar assim porque a falta de perspectiva em sua vida brutalizou-lhe o espírito, tornando-a uma mãe impaciente e dura. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma que o lugar de onde eu vim me roubou a chance de me relacionar com meu único irmão, pois ele nunca me perdoou por eu ter escapado e ele não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, tive a impressão de que aqueles homens horríveis, assassinos, brutos, sujos e esfaimados que ficaram na casa de Eunice enquanto seu marido era levado para a morte, não queriam sair daquela família, onde o clima era íntegro, respeitoso e bom, ambiente provavelmente muito diferente das famílias das quais vieram.   </span></p>
<h3>Considerações finais</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, este filme me fez refletir que enquanto a elite pensante brasileira não conhecer, de fato, os problemas reais enfrentados pelos pobres; e, enquanto os próprios pobres não forem capazes de refletir e produzir saberes sobre si mesmos, temas “chiques” como ditadura e democracia continuarão a ser assunto só de acadêmicos e jornalistas.</span></p>
<p>O problema, sobre o último ponto é que, pelo menos foi assim comigo, demora-se muito para conseguir entender o que está errado na sua situação. E nem posso imaginar como é ainda mais difícil para os pobres negros e homossexuais.</p>
<p>Por exemplo, demorei muitos anos para conseguir formular que miséria não tem só a ver com falta de comida na mesa, mas com se ter nascido em um bairro onde só há igrejas, bares, drogrados e meninas grávidas, por exemplo.</p>
<p>Outro ponto que podemos aprender com a postura corajosa e extrordinária de Eunice é que dificuldades e tragédias nunca faltarão nessa vida, independende da classe social que se venha, cabendo a cada um escolher entre a pena de si mesmo ou a transformação amorosa do mundo.</p>
<p>Transformação que depende, sobretudo, como disse lindamente certa vez a escritora francesa Marguerite Yourcenar, da capacidade interna de &#8220;<em>cada um de ser capaz de lançar, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre si&#8221;</em>.</p>
<p>Assim como fez Sérgio. Um homem bom que morreu simplesmente por levar cartas de entes desaparecidos à famílias desesperadas. E que de subversivo não tinha nada.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-ainda-estou-aqui/">Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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