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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Fri, 12 Sep 2014 21:21:50 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Os irmãos Karamázovi: da expiação ao conhecimento.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Sep 2014 21:18:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[Dostoiévski]]></category>
		<category><![CDATA[parricídio]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conforme prometido, irei me debruçar agora mais profundamente na obra “Os irmãos Karamázovi”, publicado por Fiódor Dostoiévsky em 1879. Como disse em texto anterior, tenho ficado encantada com a capacidade deste escritor russo – o primeiro a escrever romances psicológicos em que a alma humana é dissecada em profundidade – a mergulhar nas paixões humanas. &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-irmaos-karamazovi-da-expiacao-ao-conhecimento/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Os irmãos Karamázovi: da expiação ao conhecimento.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-irmaos-karamazovi-da-expiacao-ao-conhecimento/">Os irmãos Karamázovi: da expiação ao conhecimento.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/08/download-3.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1220 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/08/download-3-150x150.jpg" alt="download (3)" width="150" height="150" /></a>Conforme prometido, irei me debruçar agora mais profundamente na obra “Os irmãos Karamázovi”, publicado por Fiódor Dostoiévsky em 1879. Como disse em texto anterior, tenho ficado encantada com a capacidade deste escritor russo – o primeiro a escrever romances psicológicos em que a alma humana é dissecada em profundidade – a mergulhar nas paixões humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro, talvez mais do que “Crime e castigo”, retrata o homem tal como ele é: ser pulsional e apaixonado, primitivo, às vezes cruelmente sórdido e vil, mas que também aspira a uma existência sublime, adquirida por meio da busca pela verdade e pelo reconhecimento da nossa condição miserável, paradoxal e ambígua.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1233"></span>Segundo tradutores da obra, Karamázov advém de Kara, que significa castigo ou punição e do verbo mázat que significa fazer algo não acertado, sujo ou incerto. Em uma aproximação etimológica, portanto, o sobrenome que inscreve a família Karamázov significaria algo como “aquele que, com seu comportamento desacertado, intempestivo e incerto, acaba gerando a própria punição e desgraça”.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa, que tem na figura do herói Alieksiéi seu personagem principal, gira em torno do patriarca Fiódor Pávlovitch Karamázov e seus três filhos: Dimítri, de sua primeira mulher e Ivã e Alieksiéi, nascidos do segundo casamento. Assim, descreve Dostoiévsky o patriarca:</p>
<p style="text-align: right;"><em>Criatura vil e corrompida, ao mesmo tempo que absurda. Sabia arranjar perfeitamente seus negócios proveitosos, mas nada mais. Começou quase do nada: era um modesto proprietário, gostando muito de jantar em casa dos outros, com fama de parasita. E no entanto, ao morrer, possuía mais de 100.000 rublos em metal sonante. Isso não o impediu de ser, durante sua vida, um dos piores malucos de nosso distrito. Repito-o, não se trata de estupidez – a maior parte desses malucos é bastante inteligente e astuta – mas de extravagância específica e nacional. </em>(p. 13)</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em>Dimítri, talvez o filho mais parecido com o pai, será acusado de tê-lo assassinado, uma vez que ambos disputavam o amor da mesma mulher: Grúchenhka. Além disso, Dímitri acusava o pai de não lhe dar a herança devida. Assim como Fiódor, Dímitri representa no romance a nossa humanidade, no sentido mais puro deste termo: humanidade que se entregam às paixões, chegando a cometer os atos mais vis e sórdidos para ter aquilo que deseja. Paixão, luxúria e dinheiro os movem, não porque sejam propriamente dotados de caráter duvidoso, mas porque, conforme nos ensina Dostoievski, quando se trata de dinheiro e paixão carnal o ser humano é capaz de expor seus sentimentos mais bestiais ligados à cobiça, à inveja, à competição, à ganância e à luxúria. Não à toa que Freud asseverou que os dois assuntos sobre os quais o ser humano se mostra mais pudico e menos capaz de honestidade são sexo e dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;"> Mas, é importante frisar que, a respeito destes dois personagens, conforme sublinha bem o escritor, não se trata deles serem estúpidos ou vilões, no sentido de cometerem maldades sem qualquer crise de consciência. Daí a nossa identificação com eles. Dímitri, por exemplo, demonstrando toda sua humanidade em seus conflitos de consciência, demonstrou-se incapaz de usar um dinheiro conseguido por meio de mentiras com a primeira pretendente por não tolerar o julgamento alheio e próprio de ser ladrão. Deixa claro, ao contrário, que foi movido pela paixão à Grúchenhka e não por falta de caráter.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, ao irmos acompanhando estes personagens, suas peripécias e confusões, ficamos absolutamente identificados com eles. Sentimos que eles poderiam ser qualquer um de nós (provavelmente o são) que, quando tomados por nossas paixões, que nos cegam e impedem de pensar deixando-nos até um pouco idiotas, somos capazes de cometer as piores trapalhadas e confusões.</p>
<p style="text-align: justify;"> É neste clima apaixonado e impulsivo que o crime de parricídio é cometido. O principal suspeito é Dímitri que, como eu disse, disputava o amor de Grúchenhka com o pai e também o odiava pela sua mesquinhez.</p>
<p style="text-align: justify;"> O elemento edípico nesta narrativa é evidente: pai e filho disputam o amor da mesma mulher que, em termos psicanalíticos, significa o amor da mãe. Além disso, há o elemento do dinheiro, da herança que pode ser interpretado a partir da dificuldade do pai Fiódor transmitir ao filho Dímitri sua herança, monetária e psíquica. Em suma, seu símbolo de masculinidade. De fato, talvez Fiódor nunca tivesse conseguido assumir sua identidade paterna, sentindo-se por isso sem nenhum sentimento de responsabilidade para com seus filhos. O único que lhe despertava admiração e interesse era Alieksiéi, considerado por ele um santo, alguém que estava acima das misérias humanas.</p>
<p style="text-align: justify;"> Alieksiéi fora estudar em um mosteiro. Ou seja, encontrou na via religiosa (algo que é comum nas obras do autor) a resposta para as mazelas e misérias humanas.</p>
<p style="text-align: justify;"> E é este o ponto que quero enfatizar em minha análise.</p>
<p style="text-align: justify;"> Ao longo da obra, vamos sendo informados pelo narrador que, apesar da acusação ter recaído sobre Dímitri – ele estava lá no momento do crime e tinha motivos de sobra para querer matar o pai e, inclusive, já havia dito isso várias vezes – o assassino não teria sido ele, mas um filho bastardo e criado de Fiódor, a mando de Ivã (o filho intelectual).</p>
<p style="text-align: justify;"> Todo o julgamento de Dímitri (aliás, belíssimo) está centrado em dois argumentos fundamentais. Da parte da defesa de Dímitri o argumento era: pode um homem ser julgado pelos seus desejos? Desejos podem ser tomados como atos? E mais: que filho não desejaria matar um pai como Fiódor?</p>
<p style="text-align: justify;"> Da parte da acusação: se todo filho gerado por um pai irresponsável e cruel, como era Fiódor, se sentisse autorizado a matar, tal situação não culminaria em um parricídio em massa?</p>
<p style="text-align: justify;"> E a discussão vai mais além, chegando ao tema da religiosidade. Ivã havia publicado um artigo em que declarava, em tom categórico, que não há nenhuma lei natural que obrigue homens a amarem seus semelhantes. Apenas a lei religiosa. E, na medida em que o homem descobre isso, não há mais nada que lhe possa ser considerado amoral. Tudo, a partir daí, seria permitido, inclusive a antropofagia e o parricídio.</p>
<p style="text-align: justify;">Trocando em miúdos: o que somos capazes de realizar quando não há mais leis sociais que nos segurem e coloquem um limite em nossos desejos?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, Ivã percebe, pelo olhar de Dostoiévski, que o pensamento religioso que diz “Não matarás pai e mãe” existe para conter nossos desejos assassinos, parricidas e matricidas.</p>
<p style="text-align: justify;">A argumentação é interessante e aqui encontramos um ponto de contato com a psicanálise.</p>
<p style="text-align: justify;"> Para Freud, dentro do inconsciente de cada um de nós, habitam desejos de matar pai e mãe para ficar com o genitor do sexo oposto.</p>
<p style="text-align: justify;">Desta perspectiva, todos nós, assim como Dímitri, seríamos assassinos. Só que neste caso, mais uma vez, a solução do impasse narrativo é conseguida pela via da religião. <em> </em>Alieksiéi, o filho religioso que serve para redimir os pecados familiares (e provavelmente os dele próprio) acredita na honestidade e na não culpabilidade do irmão Dímitri. Ou seja, ele lhe diz: “Eu acredito que, apesar de você ter desejado matar o pai, não o fez. Por isso, o absolvo desta culpa.” Com isso, Dímitri, apesar de ter sido condenado, foge com sua adorada Grúchenhka, realizando, portanto, o desejo proibido pelo inconsciente.</p>
<p style="text-align: justify;"> Saída interessante para o conflito neurótico, mas não para a elaboração do desejo. Pois, como sabemos, o convite feito pela psicanálise não é pela absolvição, mas pelo conhecimento. Já disse em texto anterior que, a meu ver, a saída da absolvição religiosa sem passar pelo conhecimento gera tão somente a infantilização do homem: troca-se a figura do pai pela do padre ou de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;">A verdadeira coragem do homem trágico (isso talvez Dostoiévski tenha tido dificuldade em pensar) não está em se admitir culpado e expiar suas culpas inconscientes, mas em conhecer a fundo os seus desejos, considerados inconfessáveis pelo ego (eu ideal) e, partir deste conhecimento, resolver o que irá fazer com eles.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas pensam erroneamente que conhecer um desejo inconsciente, ou seja, colocá-lo em palavras, é o mesmo que realizá-lo. Mas, o que ocorre é o contrário: enquanto o desejo inconsciente não pode ser representado por meio de palavras, ele atua como uma força demoníaca dentro da mente e encontra como única saída possível a realização.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como ocorreu na obra. Na medida em que os filhos de Fiódor não puderam narrativizar o ódio e o desejo assassino pelo pai, o assassinato concreto precisou ser realizado. Depois de realizado, a única saída possível é a expiação e a condenação, seja pela via moral ou concreta (ser preso e se dar mal no final).</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma análise o sujeito tem o privilégio (por isso Nietzsche dizia que a veracidade é um luxo!) de, em um contexto privado e íntimo, conhecer seus desejos inconscientes e colocá-los em palavras, livrando-se da compulsão demoníaca de ter que realizar aquilo que tanto deseja no inconsciente. Com isso o homem não se sente mais enredado em um destino para o qual caminha sem escolha, mas pode escolher o que irá fazer com o desejo infantil que agora lhe é conhecido, podendo, inclusive, utilizar sua força motriz, que antes vinha sendo gasta com repressões maciças, para realizar coisas mais sublimes e mais elevadas do ponto de vista humano por meio da sublimação.</p>
<p style="text-align: justify;"> Como conclusão: não há escolha possível para nós humanos. Ou conhecemos o que nos habita ou seguimos condenados pelo que chamamos de destino, sorte ou azar, forças divinas, ou seja lá o que for, à realizarmos aquilo que mais desejamos e que também mais tememos: nossos desejos sexuais infantis.</p>
<p style="text-align: justify;">A profunda produção literária de Dostoiévski aponta também para algo fundamental: acessar verdades humanas, como também fazem os filósofos, somente pela via racional, sem que esta descoberta venha associada a uma experiência emocional é algo estéril. Não gera modificações na mente daquele que se põe a conhecer. Um exemplo claro disso são os filósofos: eles têm uma apreensão intelectual do que seja o inconsciente, mas muitos deles, que não fazem análise, nunca tiveram a chance de ver o inconsciente atuando neles próprios. Trata-se, de certa maneira, da manutenção de uma postura arrogante frente ao mistério e desconhecido da mente, com uma fantasia de que tudo pode ser sabido, dito e verificado pela racionalidade.</p>
<p style="text-align: justify;"> Por isso, muitas destas pessoas, mesmo tendo atingido níveis sublimes de elevação intelectual, acabam sendo marcadas por inúmeras tragédias pessoais com sofrimento psíquico intenso, enlouquecimento e mortes prematuras.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Dostoiévski: uma leitura profunda sobre a alma humana.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Aug 2014 18:20:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Crime e castigo]]></category>
		<category><![CDATA[Dostoiévski]]></category>
		<category><![CDATA[escritor russo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acabo de ler duas das principais obras-primas escritas pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski &#8211; “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamazov” – e estou absolutamente fascinada com a sua capacidade de mergulhar fundo em questões humanas universais. Apesar de Freud ter enfatizado em suas análises sobre o escritor russo a questão do parricídio, eu gostaria &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/dostoievski-uma-leitura-profunda-sobre-alma-humana/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Dostoiévski: uma leitura profunda sobre a alma humana.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/dostoievski-uma-leitura-profunda-sobre-alma-humana/">Dostoiévski: uma leitura profunda sobre a alma humana.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/08/download-3.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1220 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/08/download-3-150x150.jpg" alt="download (3)" width="150" height="150" /></a>Acabo de ler duas das principais obras-primas escritas pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski &#8211; “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamazov” – e estou absolutamente fascinada com a sua capacidade de mergulhar fundo em questões humanas universais.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Freud ter enfatizado em suas análises sobre o escritor russo a questão do parricídio, eu gostaria de lançar luz sobre alguns outros aspectos humanos que, a meu ver, estão muito bem delineados em suas obras.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1214"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, antes de elencar algumas destas questões, apresentarei uma breve síntese das obras citadas, embora sugira que meus leitores não se privem do imenso prazer de se deleitar com a leitura integral das obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto ainda que neste texto enfocarei a obra “Crime e castigo” e em texto posterior falarei de “Os Irmãos Karamazov”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Crime e castigo” (título original: “Culpa e expiação”) foi originalmente publicado em 1866 e escrito por ele logo após sua longa estadia em uma prisão na Sibéria, algo que lhe causou uma profunda impressão. Neste contato com homens considerados perigosos e “fora da lei”, Dostoiévski pôde perceber que, ao contrário do que considerava o senso-comum, havia em muito deles um profundo sentimento de culpa pelos atos infracionais cometidos. Diante disso, o perspicaz autor conclui: estes homens não são nem um pouco diferente dos outros seres humanos que estão livres, exceto pelo fato de que, neste caso, concretizaram o ato delituoso, dando vazão a desejos considerados perigosos ao bom convívio social. Com isso, o escritor relativiza e problematiza a diferença entre o homem bom e o mau. Fazendo um paralelo com o pensamento psicanalítico, podemos fazer coro com Dostoiévski e nos perguntar: quem de nós já não realizou o matricídio e o parricídio, nas regiões sombrias do inconsciente? Conclusão: para a psicanálise e para Dostoiévski somos todos culpados pelos nossos desejos mais secretos e sombrios.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta percepção profunda sobre a conduta humana possibilitou ao autor criar obras em que a personalidade de seus personagens é carregada de alta densidade e complexidade psicológica, que se diferenciam de posições moralizantes com relação às condutas humanas, mas também de uma visão romântica e empobrecida do humano.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/08/download-2.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1216 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/08/download-2-104x150.jpg" alt="download (2)" width="104" height="150" /></a>Mas, vamos à primeira obra “Crime e Castigo”. A história é basicamente a seguinte: Raskólnikov, personagem principal da trama, um jovem por volta dos vinte anos, quase miserável e dotado de um alto sentimento de justiça social, decide matar uma velha agiota que vivia de explorar os pobres. Em seus questionamentos sobre a gravidade ou não de seu crime, o jovem Raskólnikov questiona-se sobre qual o valor que há na vida de uma usurária como aquela, que ele chamava de “barata”. Julgando-se menos dominado pelas culpas da consciência que outros seres humanos, o herói trágico da trama decide matar a velha e, por uma circunstância fortuita, acaba assassinando também a sua irmã, que chega no exato momento do crime.  Depois de cometido o ato, Raskólnikov não suporta o peso de sua consciência e sucumbe à necessidade de expiação pelo crime cometido. Ao final da obra, ele se entrega à polícia assumindo a responsabilidade pelas duas mortes. A expiação é conseguida ao final pela via religiosa e pela via do amor devotado de sua fiel Sônia (prostituta miserável dotada de alta capacidade empática e compreensiva acerca dos dramas humanos).</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da trama ficamos profundamente identificados com os dramas de consciência do personagem principal que, julgando-se mais frio do que realmente era, descobre-se humano e sujeito aos mesmos dramas de consciência do que qualquer outro pobre mortal. Enxergarmos nele também algo muito bem descrito por Freud – o sentimento inconsciente de culpa, que tão frequentemente acomete os neuróticos. Neste caso, a culpa intolerável (seja pelo ato cometido ou pelo ato desejado: do ponto de vista inconsciente isso é a mesma coisa) precisa ser expiada, situação que leva o sujeito a buscar de forma compulsiva a punição e o castigo. Freud, em um interessante texto chamado “Os criminosos por sentimento de culpa&#8221; (Freud, 1916), chegou a considerar que muitos ladrões e criminosos deixam inúmeras pistas de seus crimes para serem pegos. Com isso, aprendemos algo muito valioso sobre o humano: que grande parte dos membros da nossa espécie (pelo menos aqueles que atingiram algum nível de consciência moral) necessita expiar suas culpas inconscientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta questão é muito emblemática e pode ser vista cotidianamente: uma pessoa, depois de conseguir algo muito desejado (e proibido pelo inconsciente), mete-se em uma enrascada grande e perde tudo o que conquistou. Ou adoece ou bate o carro ou se esquece do compromisso importante. Enfim, as situações podem ser inúmeras, mas o que há por trás é o mesmo mecanismo: necessidade de ser punido pelo desejo realizado.</p>
<p style="text-align: justify;">Freud tinha grande apreço por esta discussão, que em última instância, questiona a própria ideia de destino. Para a psicanálise, o homem busca realizar o que há no seu inconsciente. A isso se dá o nome de destino: força inexorável, quase demoníaca, que faz o homem ir em direção àquilo que ele conscientemente mais evita e foge.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, no caso do nosso personagem, qual foi o desejo proibido realizado por ele?</p>
<p style="text-align: justify;">Bem, ele era extremamente pobre, miserável mesmo. Além disso, estava tendo que engolir o fato de ver sua querida irmã se casando com um homem por dinheiro. Há claramente uma questão edipiana aqui, pois ao longo da obra vemos ser evidente a profunda paixão proibida que Raskólnikov nutria por ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Matando a velha agiota Raskólnikov satisfazia vários de seus desejos ao mesmo tempo: tinha dinheiro para evitar o casamento da irmã sendo que, do ponto de vista inconsciente, agora ele próprio teria dinheiro para comprar o seu dote e se casar com ela. Também, num nível mais superficial, podia com isso sair de sua situação de penúria e miséria, alcançando o status social tão almejado por ele. Pois, apesar de Raskólnikov não valorizar bens materiais, luxo e riqueza (vivia rasgado e maltrapilho) valorizava muito o desenvolvimento intelectual e buscava reconhecimento social a partir daí.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, o sentimento de culpa era tão grande que Raskólnikov nem sequer conseguiu usufruir do dinheiro da velha. Durante toda a trama, o deixou escondido debaixo de uma pedra. Mais uma lição sobre as profundezas da alma humana: aprendemos com Raskólnikov que quando uma ação humana é motivada por um desejo inconsciente proibido, não podemos gozar da conquista advinda daí. Se por exemplo, a conquista da tão sonhada casa significa do ponto de vista inconsciente triunfo e tripudiação sobre o casal de pais internos (sobretudo o pai), a pessoa não conseguirá gozar desta casa. Por isso um ser humano não pode menosprezar e se dar ao luxo de não conhecer suas motivações inconscientes. Porque, de um jeito ou de outro está condenado a se encontrar consigo mesmo: pela via do amor ou pela via da dor.</p>
<p style="text-align: justify;">O erro do nosso tão humano personagem foi ter se julgado menos humano do que realmente era, algo que vem a apreender no final do drama, pela via da do amor ou pela via da dor.</p>
<p style="text-align: justify;">Interessante destacar como Raskólnikov só pôde aceitar o amor da prostituta depois de ter expiado sua culpa. É como se até então houvesse uma espécie de pensamento latente que lhe dizia não ser ele merecedor de amor, nem mesmo do amor de uma prostituta. Por isso ele andava maltrapilho e causava piedade nas pessoas. Neste sentido, também podemos hipotetizar que a figura de Sônia (a prostituta) representa o extremo oposto da figura de sua irmã. Ou seja, Raskólnikov só tinha autorização interna para se relacionar com alguém que fosse muito diferente de sua irmã, visando evitar o risco da irrupção do desejo inconsciente incestuoso.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer maneira, ao longo do drama vamos ficando penalizados com a situação interna caótica e confusa vivida por Raskólnikov que, no fundo, poderia ser qualquer um de nós, neuróticos ou “normóticos”, que sofrem, expiam e se punem pelos desejos que brotam do inconsciente, para os quais muitas vezes, de forma arrogante e onipotente, insistimos em virar as costas. Foi isso que fez Raskólnikov no início do drama: ele queria ser como Napoleão. Matar sem sentir culpa. Julgava-se superior aos outros seres humanos. Mas, descobriu pela via da dor que não era. E é isso que faz com que fiquemos tão identificados com seus dramas pessoais. O fato de ele ser tão humano. Tão confuso. Tão dominado pelos potentes jogos de forças inconscientes que lhe eram absolutamente desconhecidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Valeria a pena chamarmos a atenção para outro elemento que Dostoiévskyi apresenta ao final de sua obra. O herói trágico Raskólnikov só encontra alento depois de se encontrar com Deus. Dito em outros termos: necessitou ser perdoado de seus desejos incestuosos e proibidos por Deus-pai.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu pergunto: haveria outra saída para nós humanos que não a via da religião? E mais: qual seria a diferença entre a saída proposta pela religião e pela psicanálise?</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, apesar de alguns transformarem a psicanálise em religião, o que é uma pena, eu penso que são saídas muito diferentes para os mesmos dilemas humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">O que faz a religião, o padre? Diz para o ego infantil: “Eu te perdoo meu filho. Não se consuma em culpas, você é um homem bom. Faça uma penitência, reze um terço e logo encontrará a paz.”</p>
<p style="text-align: justify;">E o que propõe a psicanálise? O psicanalista, imbuído de ser o suposto sujeito que Sabe Tudo, questiona o homem comiserado que vê diante de si e diz: “Conheça o seu desejo, por mais abominável, abjeto e moralmente inaceitável que você julgue que ele seja. Depois de conhecê-lo, julgue você mesmo o que quer fazer com ele: se realiza-lo ou abrir mão dele, para poder viver com o seu semelhante. A escolha, em última instância, será sua.”</p>
<p style="text-align: justify;">Então, qual é a diferença? A religião trata o homem como uma criança pequena que precisa ser perdoada e redimida. Portanto, não responsabiliza o sujeito pelo seu desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">A psicanálise, com sua ética responsável e trágica, convida o sujeito a levar sua capacidade de pensar e de ser livre ao extremo, responsabilizando-o por ser aquilo que é e por desejar aquilo que deseja. Eu acho esta a coisa mais linda que Freud nos deixou como legado! Com isso podemos deixar de sermos crianças miseráveis e carentes em busca de aprovação paterna e assumirmos plenamente a condição adulta, livre e responsável por nós mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, ficamos livres da necessidade de termos um pai, um chefe, um Deus, um terapeuta que nos diga o que fazer, pensar ou falar. Nós ficamos sendo absolutamente responsáveis por aquilo que desejamos e somos. Isso é, em última instância, adquirir um posicionamento ético na vida. É o máximo da liberdade, com responsabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Raskólnikov (ou Dostoiévski) teve dificuldade de dar este passo além. Ambos nos mostram, provavelmente porque captaram intuitivamente, o quão arriscado é ser homem desejante. O quão arriscado é estar realmente vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Só para terminar, acabo de me lembrar de uma entrevista com um dos tradutores de Dostoiévski que acaba de traduzir “Crime e Castigo” do russo direto para o português. Ele disse, surpreso, que Dostoiévski parecia não saber realmente o potencial que tinha dentro de si e que seus livros saiam “meio no atropelo”, quase que acidentalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Pela psicanálise é fácil compreender isso: Dostoiévski não podia se apropriar livremente de seu imenso recurso criativo porque, afinal, este devia lhe trazer grandes doses de culpa. Então, se suas obras geniais saiam no atropelo, meio que acidentalmente, ele não poderia sentir que aqueles recursos eram seus. Talvez os interpretasse como intuição divina ou sei lá o que. De qualquer maneira, ele não podia se apropriar de quem ele era, o que é sempre uma pena porque traz muito sofrimento para o sujeito. De qualquer forma, é curioso fazermos o exercício de imaginar quão mais fundo na alma humana Dostoiévski poderia ter chegado se tivesse conseguido dar este passo além e se livrado de uma vez por todas do pensamento religioso. De qualquer forma, sua coragem por ter se arriscado em zonas tão sombrias e perigosas da mente é algo invejável. Devemos a ele esta capacidade de mergulhar fundo em regiões mentais tenebrosas em que figuras demoníacas, miseráveis e corpulentas incitam o homem a se entregar a seus desejos mais irrefreáveis para depois se afundar nos lamaçais caudalosos da culpa e da expiação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em &#8220;Irmãos Karamazov&#8221; fica ainda mais evidente a corpulência e intensidade destes personagens de Dostoiévski que se entregam de corpo e alma à vida, mesmo que isso lhe custe dor, culpa e necessidade de expiação. Impossível ler Dostoiévski sem deixar de ser inflamado por estas fagulhas pulsantes de vida.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/dostoievski-uma-leitura-profunda-sobre-alma-humana/">Dostoiévski: uma leitura profunda sobre a alma humana.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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