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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>A morte é um borrão na natureza.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Dec 2014 19:05:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhadores do Mar]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Hugo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em “Os trabalhadores do mar”, de Vitor Hugo, diz o narrador sobre o desespero de Gilliatt, diante do risco de sua própria morte:             O homem diante da noite reconhece-se incompleto. O céu negro é o homem cego. Com a noite o homem abate-se, ajoelha-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A morte é um borrão na natureza.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/">A morte é um borrão na natureza.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/download.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1278 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/download.jpg" alt="download" width="300" height="168" /></a>Em “Os trabalhadores do mar”, de Vitor Hugo, diz o narrador sobre o desespero de Gilliatt, diante do risco de sua própria morte:</p>
<p style="text-align: justify;">            <em>O homem diante da noite reconhece-se incompleto. O céu negro é o homem cego. Com a noite o homem abate-se, ajoelha-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido. Pergunta: O que é; treme, curva-se, ignora; às vezes, quer ir lá. Todo o número é zero diante do infinito. Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro. Mas, este prodígio universal não se realiza sem atritos e os atritos é o que chamamos de Mal. O Mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro e o planeta pelo cometa. O Mal é um borrão na natureza.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1277"></span></p>
<p style="text-align: justify;">De que nos fala Vitor Hugo nesta bela passagem?</p>
<p style="text-align: justify;">O que quer dizer ele com: O Mal é aquilo que atrita este prodígio universal chamado vida? Ou ainda, o Mal desconcerta a vida, que é uma lógica. O Mal é um borrão na natureza.</p>
<p style="text-align: justify;">Para refletir sobre esta questão, partirei de algo que estou vivendo neste momento. Tenho acompanhado de perto uma pessoa da família com diagnóstico de câncer.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que é deste Mal que nos fala Vitor Hugo. Ele não fala do mal que o homem causa, consciente ou inconscientemente, a si mesmo por causa de sua própria miopia. Vitor Hugo, na voz de Gilliatt fala do Mal que vem bagunçar a lógica e a estética da vida, sobre o qual nós não temos nenhum controle: a doença, a nossa impotência diante da força da natureza (por exemplo, nas grandes catástrofes naturais), a fome, a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Para começar, o homem anseia deste sempre a perfeição e a imortalidade. Freud chegou a dizer que para o inconsciente o tempo não existe. Por isso olhamos com tanto estranhamento e até um pouco de desdém a desgraça dos outros, o envelhecimento dos outros, a morte dos outros. Lá no fundo de nossas almas nós pensamos: isso nunca vai acontecer comigo! Eu nunca vou ficar doente! Eu nunca vou envelhecer. Certo dia uma pessoa já velha me disse com pesar que sentia que seus filhos a desprezavam, algo que ela relacionava com o fato dela própria estar velha e próxima da morte. Acho que ela está certa em sua percepção. Nós seres humanos não gostamos da velhice e da doença porque ela nos sinaliza a proximidade da nossa própria morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, Vitor Hugo não nos ensina somente que o Mal – estas coisas que nos acontecem sobre as quais não temos o menor controle – atrita a lógica da vida. Ele nos ensina mais. Fala que diante do Mal o homem tem pelo menos duas saídas: ou ele se ajoelha e se arrasta para o buraco, acovardando-se em sua luta, ou ele cria asas. Se ele pode criar asas e ficar frente a frente com o desconhecido, algo sublime acontece: sua alma cresce pelo assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos agora a esta pessoa diagnosticada com câncer. O que ela pode fazer diante deste Mal, deste borrão da natureza, deste atrito que vem retirar dela a ilusão narcísica de que com ela isso nunca aconteceria, de que ela tinha um tempo infinito para realizar-se como ser humano?</p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhando Vitor Hugo, ela pode ajoelhar-se e meter-se em um buraco negro e sombrio. Estamos aqui no campo dos sentimentos depressivos e melancólicos, que tem como raiz a revolta, filha do ódio. Em termos poéticos, neste caso a dor se transformou em ódio, como nos ensinou Guimarães Rosa na voz de Riobaldo. O desconhecido é evitado e nada de sublime acontecerá. Sua alma não crescerá e não poderá aprender nada sobre a vida pelo assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, há outra saída. Diante do Mal-borrão-da-natureza, sua mente pode criar asas. Esta pessoa pode, em um casamento profundo com as forças de vida, dançar de perto com o abismo, repensar sua própria vida, fazer um balanço, reencontrar novos sentidos, transformar-se profundamente. É verdade que para isso é preciso ter muita coragem. É verdade que para isso é preciso já se ter alguma familiaridade com esta lógica ilógica que é a vida-morte. Caso contrário, o choque é muito grande e talvez ela não possa sobreviver a ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Se ela pode criar asas e perceber que, na natureza, a mosca é devorada pelo pássaro (não há violência nem intencionalidade nisso) e que o nosso planeta pode, a qualquer momento, ser destruído por um cometa qualquer, ou seja, que somos poeira cósmica diante do infinito, sua mente se torna também infinita e aberta para pensar pensamentos nunca antes sonháveis. Eis aqui o milagre!</p>
<p style="text-align: justify;">Penso, portanto, que Vitor Hugo nos alerta para algo crucial na vida: o corpo que envelhece, adoece só é sentido como prisão quando o que se está aprisionada é a mente. Uma mente dotada de asas não se abate diante do perecimento do corpo. Ela se solta, deixa ir quando for a hora. Ela aceita que tudo que é vivo, perece; que nós estamos morrendo sempre um pouco por dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para isso é preciso ter alma antiga, algo que não depende da idade cronológica, mas do quanto já se pôde crescer pelo espanto!</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma música linda feita por Raul Seixas que diz assim:<em> </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Eu sei que determinada rua que eu passei</em><br />
<em>Não tornará a ouvir o som dos meus passos</em><br />
<em>Tem uma revista que eu guardo há muitos anos</em><br />
<em>E que nunca mais eu vou abrir.</em><br />
<em>Cada vez que me despeço de uma pessoa</em><br />
<em>Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez</em><br />
<em>A morte, surda, caminha ao meu lado</em><br />
<em>E eu não sei em que esquina ela vai me beijar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Com que rosto ela virá?<br />
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?<br />
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?<br />
Na música que eu deixei para compor amanhã?<br />
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?<br />
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,<br />
E que está em algum lugar me esperando<br />
Embora eu ainda não a conheça?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Vou te encontrar vestida de cetim,<br />
Pois em qualquer lugar esperas só por mim<br />
E no teu beijo provar o gosto estranho<br />
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar<br />
Vem, mas demore a chegar.<br />
Eu te detesto e amo morte, morte, morte<br />
Que talvez seja o segredo desta vida<br />
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Qual será a forma da minha morte?<br />
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.<br />
Existem tantas&#8230; Um acidente de carro.<br />
O coração que se recusa a bater no próximo minuto,<br />
A anestesia mal aplicada,<br />
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida<br />
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,<br />
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Oh morte, tu que és tão forte,<br />
Que matas o gato, o rato e o homem.<br />
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar<br />
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva<br />
E que a erva alimente outro homem como eu<br />
Porque eu continuarei neste homem,<br />
Nos meus filhos, na palavra rude<br />
Que eu disse para alguém que não gostava<br />
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Vou te encontrar vestida de cetim,<br />
Pois em qualquer lugar esperas só por mim<br />
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar<br />
Vem, mas demore a chegar.<br />
Eu te detesto e amo morte, morte, morte<br />
Que talvez seja o segredo desta vida<br />
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente ou não, Raul Seixas morreu jovem, pelo menos em termos cronológicos. Morreu dormindo. Ou seja, a vida foi generosa com ele e lhe enviou a morte vestida em uma bonita roupa. Enquanto vivo Raul parece ter podido dançar de perto com o abismo, com o desconhecido, algo que sempre traz um imenso prazer, mas também uma imensa dor. Para ele, o véu do Real se descortinou e ele pôde olhar para aquilo que cega, de tanta beleza, de tanta dor, de tanto assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste universo mítico, representado pelo mar em Vitor Hugo, e pela &#8220;metamorfose ambulante&#8221; de Raul Seixas que encontramos o inconsciente, o pulsional, aquilo que está além ou aquém da representação, fonte de energia criativa e de angústia, pela proximidade com o inanimado. Neste caos mítico, o mergulho é silencioso, profundo e alto, denso, escuro, sinistro, criativo e doloroso como um parto. Deste mergulho, nunca sabemos bem o que irá nascer. É espantosa a transformação.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Até quando devemos prolongar a vida humana?</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-negacao-da-angustia-diante-da-morte-e-suas-consequencias-para-a-vida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jan 2013 18:08:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[mecanismo de defesa negação]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o suicídio e sobre a necessidade de negação da morte. </p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-680 " src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/suicidio1w-300x216.jpg" alt="suicidio1w" width="238" height="171" />As ideias contidas neste texto são fruto de uma série de reflexões que pude fazer ao longo da semana passada e que foram motivadas pelo suicídio do ator Walmor Chagas e pelo filme francês “Amor”, de Michel Haneke, em exibição nos cinemas.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-679"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">O suicídio de Walmor Chagas:</h2>
<p style="text-align: justify;">Vamos ao primeiro. Em junho do ano passado, assisti no canal Globo News a uma entrevista do ator Walmor Chagas, divulgada no programa Starte.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-681 size-medium" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/esperando-a-godot-300x300.jpg" alt="esperando-a-godot" width="300" height="300" />Nesta entrevista, logo depois em que ele contou sobre a morte de sua companheira Cacilda Beker, que teve um infarto fulminante apos encenar “Esperando Godot” de Samuel Beckett, a entrevistadora pergunta a ele sobre suas perspectivas futuras, que responde: “Que venha a morte. Eu não tenho medo de morrer. Afinal, o que um homem na minha idade pode esperar mais? Eu só quero que seja uma morte interessante. Morrer de avião deve ser bastante interessante.”</p>
<p style="text-align: justify;">A entrevistadora, visivelmente incomodada com a resposta do ator, tentou encorajá-lo e animá-lo “a não pensar nestas coisas”. Eu achei muito corajosa e autêntica sua resposta. Mas, a questão é que, em meio a estas reflexões, eu também me perguntava: Mas o que é que ela espera ouvir de um homem de oitenta e tantos anos? Que ele queira viver até os cento e vinte?  Por que é tão incomodo ouvir que uma pessoa está cansada de viver? Walmor nesta entrevista pareceu deixar muito claro que não pôde suportar a dor pela perda de sua esposa e que, depois disso, sua vida perdera o sentido, algo que o levou a se isolar em seu sítio de onde só saia raramente.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Em janeiro de 2013, neste mesmo canal televisivo, a seguinte notícia é veiculada por uma repórter: Walmor Chagas morreu!</p>
<p style="text-align: justify;">Muito interessante o modo como a informação foi noticiada e as tentativas de esconder o incômodo fato de que ele havia se matado. A repórter dizia que o grande ator havia morrido e que, apesar de ter sido encontrado sentado na cozinha com uma arma no colo e um tiro na cabeça, pelo caseiro da fazenda às cinco horas da tarde, a polícia ainda estava investigando a causa da morte e que havia uma chance de ter sido furto!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mecanismo de defesa da negação:</h2>
<p style="text-align: justify;">Nesta situação vemos um exemplo emblemático do uso do mecanismo de defesa da negação visando a evitação da dor provocada pela percepção da existência do anseio pela morte.  Em seguida, é anunciado o programa Starte. Penso eu: será reprisada a entrevista de Walmor, como uma forma de se prestar homenagem a ele. Não é isso que acontece com os atores queridos?</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi assim que aconteceu com a morte de Hebe Camargo (que morreu de câncer, ou seja, uma morte não intencional), a quem tivemos que assistir por meses a fio programas e homenagens? Para minha surpresa, mas nem tanta, o programa não seria a reprise da entrevista, mas sim sobre um pintor francês, apontando para a necessidade de silenciamento sobre o assunto.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Suicídio em massa e não visibilidade do sofrimento mental:</h2>
<p style="text-align: justify;">Rossevelt Cassorla, <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">psicanalista</a> que desenvolveu muitos estudos sobre o suicídio, afirma em um de seus textos sobre o tema, que um dos argumentos para que a mídia evite o uso desta palavra diz respeito ao medo de que a notícia estimule suicídios em massa. Eu acrescentaria a este motivo, que a negação da informação do suicídio de Walmor se deve a dificuldade que existe, no âmbito social, de se valorizar e discutir as questões do sofrimento mental, que podem levar um sujeito a tirar a própria vida. Então, funciona mais ou menos assim: Se a gente não falar do bicho, ele passa a não existir!</p>
<p style="text-align: justify;">E aí entra o segundo fato, que veio dialogar diretamente com o meu incômodo “televisivo”.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Filme &#8220;Amor&#8221; de Michel Haneke:</h2>
<p style="text-align: justify;">Para quem ainda não viu, não pode perder o filme “Amor” do diretor Michel Haneke.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-682" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/Amor-de-Michael-Haneke-208x300.jpg" alt="Amor-de-Michael-Haneke" width="208" height="300" />Vou contar a história de forma bem resumida: retrata a vida de um casal de idosos por volta dos oitenta anos, ambos musicistas brilhantes. Anne, a esposa, depois de assistir à apresentação de um aluno seu sofre uma isquemia que paralisa o lado esquerdo de seu corpo. Sua condição, agora de extrema dependência do marido, vai se deteriorando cada vez mais e ela pede a ele: “Não deixem que me vejam desse jeito. Não quero que se lembrem de mim assim!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Junto da paralisia, surge um quadro demencial que deixa Anne na cama, usando fraldas, sendo alimentada por sondas e cuidada pelo marido zeloso. A filha, incapaz de suportar a percepção da condição deteriorada de sua mãe, sugere ao pai que a coloque em uma clínica. Em suma, solicita a ele que leve para longe dela o mal cheiro que exalam a deterioração humana e a proximidade da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">O marido, devotado à promessa que fez a sua mulher, de que não a levaria para o hospital em hipótese alguma, recusa veementemente a solicitação da filha e passa a evitar cada vez mais que esta veja a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Isolado com sua profunda dor de ver sua mulher, outrora tão ativa e vivaz, minguar na cama, cheia de feridas e gritando incessantemente que “dói”, ele, depois de contar a ela uma dolorosa história sobre sua própria infância, a mata asfixiada com um travesseiro.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Até quando devemos prolongar a vida humana?</h2>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me que quando estagiava no hospital atendendo pacientes terminais, ficava muito intrigada com a raiva que eles despertavam na equipe quando diziam que não queriam mais viver. O discurso comum entre médicos e enfermeiros era normalmente este: “Mas como? Você não pode entregar os pontos deste jeito?”</p>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me também da minha profunda angústia diante da morte, do mal cheiro exalado pelas doenças e pelo imenso vazio deixado pelos pacientes que eu atendia em uma tarde e que na manhã seguinte haviam &#8220;partido&#8221;. Nos momentos em que, auxiliada pela minha análise, podia ter um olhar mais expandido, eu frequentemente me perguntava quem estaria mais assustado neste momento? O paciente que estava cansado de viver ou a equipe que teria que lidar com seus sentimentos de impotência e de não compreensão diante do fim?</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, quando a repórter insiste para que Walmor se anime ou quando o nosso sistema de saúde gasta contas altíssimas para se preservar a vida vegetativa, a quem é que estamos servindo? A qual desejo? Estaríamos servindo realmente a um real desejo destas pessoas de não querem morrer? Ou estaríamos tentando nos acalmar e fazer as pazes com os nossos mais terríveis e assustadores sentimentos, despertados pelo contato direto com a morte?</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de suicídio talvez não chocasse tanto as pessoas em geral e a opinião pública se pudéssemos tomar contato profundo com a percepção de que viver é um peso e uma luta constante entre o desejo de viver e o desejo de morrer, ao qual todos nós respondemos todos os dias.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Amor?</h2>
<p style="text-align: justify;">Acho que o nome do filme faz uma alusão interessante a esta discussão. Qual seria uma real atitude amorosa por parte do marido de Anne? Prorrogar a sua vida em condições debilitantes e não humanas? Ou, num ato de compaixão e profunda compreensão do sofrimento de sua esposa, acabar com o seu sofrimento, como de fato ele fez? Em minha perspectiva, o marido de Anne não cometeu nenhum crime. Muito pelo contrário! Pôde compreender, num momento de profunda comunicação com a dor de sua esposa (e de sua própria) que a vida precisaria chegar ao fim naquele momento. Afinal, tudo o que é vivo, morre. Tudo o que floresce, também fenece. Este é o ciclo da vida-e-morte que marca a todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de Walmor, quem de nós poderá dizer qual o nível de sofrimento que suporta uma mente? Quem de nós poderá dizer, diante de um sofrimento que às vezes é insuportável, que a vida precisa ser preservada a qualquer custo?</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que este tipo de discussão, sobre até quando deve ser prorrogada a vida humana e em quais condições, normalmente é emperrada por discursos religiosos  e &#8220;científicos&#8221; que apregoam que a vida precisa ser mantida custe o que custar, inclusive a de fetos anencéfalos! Da minha parte, acredito que este tipo de discussão moralizante pode esconder dificuldades mais profundas no enfrentamento da nossa condição humana mortal, finita e absolutamente frágil. Além disso, tomam como óbvia a definição do que seja vida.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer forma, não há respostas prontas para todas estas indagações, mas como aprendemos com a <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Psicanálise</a>, mais importante do que termos respostas, é não deixarmos de fazer perguntas, as únicas que podem nos ajudar a colocar algum sentido naquilo que, às vezes, parece não ter sentido algum.</p>
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		<title>Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Oct 2012 16:50:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento humano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[maturidade]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o envelhecimento e a morte à luz da Psicologia e da cultura atual.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft  wp-image-637" title="envelhecimento" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/565041_379559605458208_504394231_n-300x199.jpg" alt="" width="238" height="158" />Minha motivação inicial para escrever este artigo se deve ao fato de haver, sobretudo em nossa cultura atual, um grande silenciamento ou, no mínimo, certo mal-estar quando o assunto é <a href="http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/">envelhecimento</a> e morte, algo que noto muito em minhas aulas de Desenvolvimento Humano quando trato do envelhecimento e morte com meus jovens alunos.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-635"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Paradoxo da condição humana</h2>
<p style="text-align: justify;">O fato é que desde que temos consciência da nossa existência como humanos temos medo de envelhecer e de morrer. E este é o grande paradoxo da vida, pois, só um humano tem consciência de sua existência e, portanto, de sua morte.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que em muitos mitos encontramos deuses lutando contra a morte. É por isso também que nas concepções religiosas a vida após a morte ou a ressurreição é apresentada como possibilidade de vida eterna. Entretanto, só deuses podem vencer a morte. Humanos não. Porque nós humanos somos mortais, não somos eternos, sendo esta uma realidade inexorável e inevitável – a de que todos nós iremos morrer um dia. Na Psicologia dizemos que a morte é irreversível.</p>
<h2 style="text-align: justify;">&#8220;Eu posso comprar tudo&#8221;</h2>
<p style="text-align: justify;">Mas é fato também que ninguém gosta de pensar na morte, sobretudo na própria. Na verdade, em nossa cultura atual regida pela lógica do consumo em que “se eu tenho poder de compra, eu posso tudo”, envelhecimento e morte são assuntos considerados fora de moda porque abalam a ilusão de sermos eternos, de podermos tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, verdadeiras corridas contra o tempo são travadas: plástica, botox, exercícios desmedidos e exagerados, tudo para evitar o correr do tempo e manter a ilusão da eterna juventude. Mas, não pensem que esta evitação é bem sucedida e exitosa, pois, uma das regras do mundo mental é a de que quanto mais evitamos uma percepção, mais ela nos ameaça. Não será por isso que atualmente temos tantos filmes que apresentam o fim da espécie humana de maneira catastrófica e terrível? Outra consequência nefasta desta evitação fóbica do envelhecimento / morte é a perda do sentido da vida, já que não podemos ser aquilo que não somos mais.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Concepção de desenvolvimento</h2>
<p style="text-align: justify;">Em grande parte, esta desvalorização do envelhecimento é fortemente estimulada em nossa cultura pela visão de desenvolvimento em arco, conforme chamamos na<a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br"> Psicologia</a>. Trata-se de uma concepção que enxerga o auge da vida ocorrendo na fase adulta. Depois disso, é queda e morte. Ou seja, é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;">Problematizando esta visão, a atriz americana Jane Fonda em uma <a href="http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/jane_fonda_life_s_third_act.html"><span style="text-decoration: underline;">palestra</span></a>  muito estimulante, propõe que o terceiro ato da vida não precisa necessariamente ser vivido como uma derrota. Tudo irá depender de como “encaramos a música”.</p>
<p style="text-align: justify;">Explico-me. É realmente um fato que o corpo sofre profundamente deteriorações com a passagem do tempo. Dores, limitações, dificuldades de locomoção, etc. Mas, segundo ela, pensando do ponto de vista do desenvolvimento da mente, a melhor metáfora para expressar o envelhecimento não é a de um arco, mas a de uma escada.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Metáfora da escada</h2>
<p style="text-align: justify;">Por que uma escada? Porque a mente humana, que ela chama de espírito, não precisa se atrofiar com as limitações do tempo. Como diria <a href="www.psicologiaribeiraopreto.com.br?phpMyAdmin=4cc11f03eb035fbcbab3a1d1f8c346d4">Bion</a>, um importante psicanalista contemporâneo de Freud, a expansão da mente tende ao infinito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, o que determinará o modo como iremos “encarar a música” da vida, do envelhecimento e da morte? Não será o que vivemos, ou seja, as frustrações que a vida nos reserva, estas sim inevitáveis, mas, o modo como encaramos as nossas vivências. Dito de outro modo: o que seremos ou não capazes de aprender com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu discordo sempre de uma visão muito arraigada em nossa cultura de que envelhecer é sinônimo de maturidade. Porque envelhecimento não tem a ver com a idade cronológica. Tem a ver com a expansão da mente, com o aprender com as experiências, com expandir-se, expandir o seu olhar sobre a vida, sobre si mesmo e sobre os outros.</p>
<p style="text-align: justify;">E isso tem muito mais a ver com sabedoria do que com o fato de fazermos aniversário.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Corpo &#8211; mente</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-638" title="5668591a8dd0a6b643691842acc52ec6e67bd1ff" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/5668591a8dd0a6b643691842acc52ec6e67bd1ff-300x251.jpeg" alt="" width="300" height="251" />Ainda, se pensarmos que conforme nos lembrou <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Winnicott</a>, corpo e mente são um todo indissociável e não duas entidades isoladas, é possível compreendermos como o enrijecimento do funcionamento mental,algo  tão comum  em pessoas idosas, leva à deteriorações e perdas na funcionalidade orgânica. Assim como também é possível pensarmos que uma mente expandida e criativa na velhice (na verdade, isso é válido para toda a vida), implicará em um corpo mais saudável, dinâmico e criativo. Entretanto, parece-me que infelizmente a nossa sociedade atual ainda não levou a sério a seguinte máxima: mente saudável é igual a corpo saudável!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Perspectivas para o presente e o futuro</h2>
<p style="text-align: justify;">Não é possível sabermos como iremos lidar com estes fatos tão incômodos daqui a uns anos &#8211; o de que todos nós envelhecemos e morremos. O fato é que hoje lidamos mal. E a saída para construirmos uma sociedade que lida melhor com este processo inevitável da vida passa pela educação. Não aquela formal, da escola. Mas, sim pela possibilidade de podermos conversar, pensar, dialogar a respeito. Escrever um texto como este. Ler, discutir e não silenciar.</p>
<p style="text-align: justify;">E para terminar, deixo aqui uma citação belíssima de<a href="http://www.rubemalves.com.br/"> Rubem Alves</a> sobre a morte:</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Diante da morte tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar para mentiras. E a gente então se defronta com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso à nossa Verdade, para ouvir de novo a voz do Desejo mais profundo, é preciso tornar-se discípulo da Morte. Pois só ela nos dá lições de Vida se a acolhemos como amiga. A morte é nossa eterna companheira.” </em>(Alves, 1991, p. 14).</p>
<p>Para quem se interessar mais pelo tema, deixo aqui indicações de bibliografia:</p>
<p>1)      KOVÁCS, M. J. (1992). <em>Morte e desenvolvimento humano</em>. São Paulo: Casa do Psicólogo.</p>
<p>2)      ALVES, R. (1991). A morte como conselheira. In.: CASSORLA, R. M. S. (Org.). <em>Da morte estudos brasileiros</em>. Campinas: Papirus: 11-15.</p>
<p>Abraços a todos</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/">Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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