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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Contribuições de Aristóteles para uma vida de sentido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Oct 2017 13:32:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[Aristóteles]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[sujeito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre o que seria uma vida com sentido baseando-se nas ideias de Aristóteles expostas no livro Ética à Nicômaco. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/contribuicoes-de-aristoteles-para-uma-vida-de-sentido/">Contribuições de Aristóteles para uma vida de sentido</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/10/Aristotle_Altemps_Detail.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1846 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/10/Aristotle_Altemps_Detail-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O ser humano não é só, ainda que o seja também, um animal. Se de um lado ele está determinado por seus imperativos biológicos (necessidade de se alimentar e de se hidratar, de dormir e de procriar, de defecar e de urinar), o homem busca também transcender sua própria existência. Em uma linguagem bíblica, o homem almeja ser à imagem e semelhança de Deus. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este seu anseio de transcendência e de superar a si mesmo é um exercício de potência realizadora que o impele sempre em direção a ser o melhor que ele pode em cada situação. Em poucas palavras, o ser humano necessita dar sentido à sua existência e anseia por uma vida de sentido, pelo menos, quando está saudável. Para Simone de Beauvoir &#8220;o Homem prefere razões de viver à vida em si mesma&#8221;. </span></p>
<p><span id="more-1845"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em psicanálise chamamos a instância responsável por este anseio de elevação moral do homem de ideal de ego ou superego e deriva-mo-la da admiração temerosa que a criança tem de seus pais, mais especialmente de seu pai que será para ela o representante da lei e das duas interdições fundamentais (tabu do incesto e do parricídio).  Freud dizia que o ideal de ego, uma espécie de formação reativa contra os desejos sexuais mais primitivos humanos, responde a tudo o que é esperado da mais alta natureza do homem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este potencial de transcendência pode ser visto já em bebês saudáveis que ao manusearem um objeto concreto, um pedaço de papel, por exemplo, conferem ao papel outros sentidos para além do concreto e do visível.  Neste momento, eles são como Deuses criando sua própria realidade, experiência que em psicanálise legou o nome de experiência de onipotência ou de ilusão. Saint-Exupéry quando escreveu o clássico “O pequeno príncipe” sabia que o essencial, ou seja, a vida de sentido não está naquilo que os olhos do corpo enxergam, mas naquilo que o nosso coração é capaz de sentir e criar enquanto potência. Daí ele ter dito que “o essencial (à vida) é invisível aos olhos”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o papel nas mãos de uma criança se transformará em um avião, na mãe amada, em um pássaro e, todos eles, na própria criança sedenta por um imprimir sua marca pessoal e criativa no mundo. Esta situação não é diferente da do cientista que faz seu experimento movido por uma ânsia enorme de transformar sua realidade factual ou do artista que cria suas obras, do escritor que escreve seus livros, do professor-artista que ama seus alunos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que todas estas situações têm em comum é a alegria genuína que se extrai da atividade realizadora. Daí que uma vida com sentido é necessariamente uma vida alegre. Fora desta situação criativa e alegre, a vida humana é vazia e tediosa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas aqui precisamos recorrer a Aristóteles para escaparmos do senso-comum a respeito do que seria uma vida feliz (embora eu prefira o termo alegre). Para este filósofo, a ação que enobrece o homem é aquela que ele faz com o único  propósito de realizá-la tão bem quanto possível, sem se ter qualquer outro tipo de objetivo subjacente à ação. Em suma, a ação deveria, em tese, visar o bem em si. Assim, o bom artesão é aquele que esculpirá sua obra o tão bem quanto o puder, sem se preocupar com o reconhecimento dos outros ou com o valor monetário que ela venha a ter no mercado. Também o bom psicanalista é aquele que tem como único propósito de sua ação realizar uma boa sessão de psicanálise, sendo que qualquer outro objetivo (agradar o paciente, ser amado, ficar rico, etc.), para Aristóteles, seria considerada menos nobre.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, uma vida com sentido é uma vida em que fazemos ações em cujo único propósito é realizarmos quão bem quanto pudermos esta ação, estando a alegria contida aí: na capacidade de termos realizado o melhor que pudemos o que nos propusemos a fazer. Como para Aristóteles a ação determina a potência do ser, podemos dizer que ao realizar uma boa ação o ser atinge sua máxima potencialidade que, para o filósofo, concretiza-se em uma vida feliz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aristóteles também diz que o homem pode ser feliz de três maneiras, bem distintas entre si: ele pode ser feliz se entregando aos gozos do corpo (esta é a forma de ser feliz do homem primitivo). Ele pode ser feliz buscando as honrarias na política e também, o que é mais interessante para ele, pode ser feliz atingindo o que ele chama de uma vida contemplativa em que seu espírito (e não mais seu corpo) é capaz de vislumbrar o sentido de sua própria  existência. Quando Saint-Exupéry disse que o essencial é invisível aos olhos estava exaltando exatamente a vida contemplativa (do espírito, do coração) em detrimento do gozo dos prazeres corporais, considerados mais baixos e menos nobres para a elevação moral do ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Interessante destacar que em psicanálise uma das primeiras ações éticas que se propõe ao paciente, quando lhe pedimos que se deite no divã, é que ele se abstenha de gozar com os olhos. Aristotelicamente é uma maneira de convidá-lo a experimentar uma posição mais contemplativa de si e menos corporalmente gozosa ou carregada de imaginário, como nos diria Lacan. Implicada nesta ideia, aristotélica e psicanalítica, está um convite ao homem para que ele contemple a si mesmo e a vida com algum distanciamento desapaixonado, já que as paixões frequentemente cegam a capacidade humana de enxergar com clareza. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Isso nos leva ainda a outro aspecto do sentido, igualmente importante. Trata-se da questão de que o sentido só se produz na falta. Para se gestar o sentido, é preciso se suportar a carência. Poeticamente podemos dizer que o sentido é irmão gêmeo da carência. Na impossibilidade de se suportá-la, só o que se produz é descarga e gozo, alegria que Aristóteles colocaria como a mais primitiva, viciante e empobrecedora de todas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Freud, sabendo ou não do pensamento de Aristóteles a este respeito, acompanha-o </span><i><span style="font-weight: 400;">pari passu</span></i><span style="font-weight: 400;"> quando aponta que o psiquismo humano é regido primariamente pelo princípio do prazer, ou seja, que busca desde sempre uma vida de gozo em que a falta está, de princípio, anulada. Na medida em que o sujeito avança e suporta suas carências ele pode acessar um nível de funcionamento mais elaborado, que ele chamou de princípio de realidade, sendo que é aí e só aí que a vida de sentido se produz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, do ponto de vista aristotélico, o princípio do prazer freudiano estaria para a vida de gozo corporal, assim como o princípio de realidade estaria para a vida contemplativa e com sentido. Mas não podemos nos iludir com falsos maniqueísmos. Nem Aristóteles, nem Freud pretenderam colocar como antíteses a vida de gozo e a vida contemplativa. Ao contrário, para ambos – e nisso reside o caráter ético de seus pensamentos – trata-se sempre de uma árdua conquista que o ser humano faz a cada instante, em cada uma de suas escolhas, e que está sempre perigando perder. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí o caráter extenuante e exigente da vida humana. Cada um de nós carrega sempre a esperança de que a vida pudesse ser mais fácil, de que não tivéssemos nenhum tipo de carência, de que pudéssemos nos abandonar aos prazeres imediatos. É nisso que se construiu, por exemplo, toda a ideia religiosa de um lugar pós-morte onde, finalmente, poderíamos deixar descansar da implicação irritante com as nossas escolhas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As pessoas não costumam pensar muito nisso. Não se dão conta do fato de que todas as suas escolhas, boas ou más, trazem consequências para sua vida no médio e longo prazo. Escolhendo a via do prazer imediato (sempre o caminho mais fácil à princípio), por exemplo, esbaldando-se de um pote de sorvete em frente a um programa de TV ruim, não se dão conta de que isso significará, num futuro não tão longínquo, um corpo doente e uma mente empobrecida. E que, de outro lado, a escolha sempre mais difícil por debater-se com um livro ou por alimentos nutritivos (que não farão gozar a boca e o cérebro) ou por movimentar o corpo, inevitavelmente culminarão em uma vida mais feliz e saudável. Portanto, aqueles que se entregam às más escolhas não poderiam, em tese, defender sua má sorte. Do ponto de vista Aristotélico, a boa ou a má vida de um ser humano depende, inextrincavelmente, de suas boas ou más escolhas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Poderíamos refletir a respeito de se vale mesmo a pena uma vida com tantos sacrifícios, se valeria mesmo a pena prolongar o tempo da vida humana, que é tão difícil e carente de satisfações, e isso seria uma questão muito interessante de se levantar. O que seria melhor? Uma vida curta vivida sem restrições? Ou uma vida longa conquistada pela renúncia dos prazeres mais “à mão”? De qualquer modo, isso também se trata de uma escolha: a de qual vida faz mais sentido para mim ou de que modo eu quero escolher viver. Escolher uma ou outra com consciência de se estar fazendo uma escolha me parece, portanto, a implicação ética que devemos assumir com nossa existência. Da mesma forma, Aristóteles nos lembra: não escolher é também fazer uma escolha! Daí que a vida humana é, deste ponto de vista ético, implacável. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que eu acho mais bonito no pensamento grego, do qual Freud é um herdeiro direto, é a premissa de que o ser humano é livre para escolher e que suas boas ou más ações repercutirão em consequências boas ou más para suas vidas. A beleza deste pensamento está, para mim, no senso de responsabilidade que cada ser humano deve ter para com suas escolhas, algo para o qual a psicanálise, herdeira da tradição grega, também aponta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca por uma vida de sentido é responsabilidade de cada ser humano e cabe a ele escolher boas ações que o levem nesta direção. Isso significa que o homem fraco ou que se acovarda diante de suas duras responsabilidades como humano, não pode alegar que a ele não foi dada à chance de escolher. Todos nós escolhemos, em certa medida, com maior ou menor consciência, como queremos viver. Obviamente, uns poderão ir mais longe que outros, dadas suas condições psíquicas herdadas, mas na medida em que a herança de nossos antepassados passa a ser nossa, é responsabilidade de cada um melhorá-la ou piorá-la. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, é importante considerarmos o caráter relativo do que é seria uma boa ou má ação. Assim, Aristóteles considera que a boa ou má ação é determinada menos pela natureza da própria ação do que por aquilo que é acordado, no pacto social, como sendo bom, justo e nobre. Esta relativização ética pode ser vislumbrada, por exemplo, na tragédia grega sofocliana Antígona. Abdicar da própria vida em nome da tradição era considerada uma ação nobre entre os gregos, e foi isso que fez Antígona quando foi condenada à morte por Creonte, por defender os direitos fúnebres do irmão. Já no paradigma da sociedade moderna, em que a vida individual vale mais do que a tradição, buscar a própria morte deliberadamente, como ela o fez, pode ser considerado um ato tresloucado e desmedido. Nota-se neste exemplo como uma mesma ação ética pode ser interpretada, a depender dos códigos sociais em que se insere, como uma boa ou má ação. Antígona poderia indagar ao homem moderno: &#8220;de que vale a minha vida se não pude honrar a memória de meu irmão?&#8221; ao que o homem moderno retrucaria: &#8220;e de que vale honrar a vida de seu irmão se não estará mais viva?&#8221; </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como podem imaginar o fato de a ação ética ser sempre relativa, torna a vida humana ainda mais complicada porque cabe ao sujeito avaliar junto à sua consciência qual a melhor maneira de agir em cada situação. Daí que nenhum tipo de formulação ética possa ser normativa, pois isso feriria a própria definição do que seja ética que, como procurei mostrar aqui, tem sempre a ver com escolha. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, para nos embrenharmos na verdade das coisas, Aristóteles pede prudência. É muito bonito ouvi-lo dizer que o homem sábio se contenta em se aproximar da verdade das coisas, buscando traçá-las somente em linhas gerais e sempre mantendo um espaço para a dúvida e para a incerteza. Cabe ao homem sábio e justo, diz ele, buscar a precisão das coisas somente na medida em que a natureza de cada assunto o permita. Daí que a busca pelo conhecimento da verdade deve necessariamente comportar humildade e tolerância à incerteza e aos paradoxos, sobretudo quando o objeto de investigação é o próprio homem, sendo esta também a postura que deve buscar adotar o psicanalista em seu ofício. </span></p>
<p>Referências bibliográficas</p>
<p>ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1973, v.4.</p>
<p>BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Pelo direito de sentir medo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2015 12:02:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[estórias de medo]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/images.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1290 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/images.jpg" alt="images" width="282" height="179" /></a>Esta semana foi noticiada uma reportagem que eu achei bastante curiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Colônias de férias de crianças estão sendo proibidas, pelos pais, de contarem estórias de medo. O argumento dado por eles, segundo a reportagem, é que este tipo de estória pode traumatizar ou amedrontar as crianças desnecessariamente. O curioso é que, na matéria, o discurso dos pais era corroborado por um dos donos da colônia, que disse:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; É um período de férias, de curtição. Então, a gente só deve falar de “coisas alto-astral, só coisas pra cima” (sic).</p>
<p style="text-align: justify;">O que podemos pensar sobre isso?</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1289"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, penso que há um sentimento de terror e de fragilidade generalizado nos pais e mães atuais. Acompanho com frequência em meu consultório o quanto os pais da atualidade têm se sentido frágeis psiquicamente para atender as demandas emocionais de seus filhos. Confundem compreensão e empatia com mimos, limites com rigidez, amor com chantagem. Não é incomum que os pais busquem um psicólogo ou analista para pedir conselhos, para ouvir do “especialista” se o que estão fazendo é certo ou errado. Sentem-se, eles próprios incapazes de se confrontarem com as dúvidas e angústias naturais e inevitáveis da difícil tarefa de cuidar de uma criança. Vão em busca de respostas prontas, mas, na verdade, precisam do auxílio do profissional para que se sintam mais fortes e confiantes para suportarem as dúvidas e incertezas que são inevitáveis ao próprio viver humano. Por isso Nietzsche disse certa vez que a resposta é a desgraça da pergunta. A graça da vida não está em respondermos às nossas perguntas, mas em podermos aguentar ficar com as dúvidas, com o mistério e com a incerteza inerente à vida. Uma criança precisa sentir que seus pais aguentam as incertezas da vida sem desmoronarem.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é a toa que um dos filmes indicados ao Oscar para este ano – Boyhood: da infância à adolescência – retrata exatamente o desenrolar do desenvolvimento de um menininho em uma família comum, com pais cheios de dúvidas, que acertam e erram, exatamente como é a vida. Acho que o gosto do público para este tipo de filme pode refletir uma carência das pessoas para aquilo que é a “vida como ela é”, feita por pessoas comuns, por seres humanos, cheios de dúvidas e falhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltemos agora à questão do medo.</p>
<p style="text-align: justify;">O medo é um sentimento inerente à nossa condição humana. Nós temos medo de coisas reais, mas temos muito mais medo das coisas que se passam dentro da nossa mente, do que desejamos e não sabemos. Temos medo do nosso desejo de que nosso pai desapareça para ficarmos com a nossa mãe ou temos medo de desejar que o nosso irmãozinho ou irmãzinha morra para termos toda a atenção da mamãe. Temos medo de realizarmos nossos arroubos de paixão infantil e perdermos o nosso pênis. Ou temos medo de já termos realizado nosso desejo e já termos perdido o nosso tão inestimável pênis. Temos medo do nosso desejo de ter um bebê com nosso pai. Temos medo de sermos punidos severamente por desejarmos tudo isso. Isso só para citar alguns dos temores que habitam nosso psiquismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, e o que fazem as estórias de medo?</p>
<p style="text-align: justify;">Elas ajudam os seres humanos a elaborarem, a colocarem em imagens e narrativas estes medos que sentimos não ter nome (pelo menos, do ponto de vista da lógica racional).</p>
<p style="text-align: justify;">Os sonhos fazem o mesmo trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que sonhamos à noite? E por que precisamos das estórias de medo? E por que precisamos do mito, do cinema, da arte?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que todas elas são formas que o ser humano encontrou de colocar em imagens, de contar uma estória sobre o que nós desejamos e não compreendemos, sobre o que nós sentimos e não conseguimos representar.</p>
<p style="text-align: justify;">Freud diz: “Os sonhos vestem psiquicamente o inconsciente”. Sem o sonho, sem as estórias de medo o contato com o inconsciente fica insustentável, insuportável porque o desejo é sempre algo da ordem do biológico, do puro pulsional, do irrepresentável.</p>
<p style="text-align: justify;">As crianças gostam tanto de estórias de medo exatamente por isso. Inclusive, pedem para que sejam repetidas muitas e muitas vezes, sobretudo se o adulto conta com paixão e entusiasmo. Porque elas dão uma cara, uma feição àquilo que as crianças sentem, mas não conseguem expressar.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, por meio das estórias de medo as crianças fazem uma espécie de treino e preparação emocional para lidarem com seus medos internos e externos. Sem estes recursos, assim como o adulto sem o recurso do sonho, a criança fica fragilizada psiquicamente porque se sente à mercê dos seus temores e fantasias mais terrificantes. Penso na tragédia que é estarmos criando crianças despreparadas internamente para dançarem de perto com seus medos. Afinal, ao contrário do que diz rapaz na reportagem, a vida não é feita só de experiências &#8220;alto-astral&#8221;. Quem tem bastante coragem de olhar para a vida perceberá logo que a vida humana é muito difícil: temos que nos confrontar com perdas, com expectativas frustadas, com a morte e a finitude e com os nossos limites vários. Tudo isso faz da vida humana um grande e heroico desafio. Tudo isso faz a vida humana dar muito medo. Guimarães Rosa disse certa vez: &#8220;A vida é coisa que espanta.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isso o homem precisa da cultura, assim como precisa do sonho para poder sobreviver psiquicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda outro elemento a ser sublinhado com relação às estórias de medo. Freud disse nos “Três ensaios” (1905) que o medo é uma fonte de grande excitação sexual para a criança, obviamente quando este medo não é muito excessivo, nem representa um perigo real para a mesma. Resumindo: as crianças sentem prazer sexual frente aquele “medinho”, aquele “frio na barriga” que vivenciam nas estórias de medo e suspense. Este é outro motivo para que elas peçam incessantemente para ouvir este tipo de estória.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, nós, como humanos, temos o direito de aprender a lidar com os nossos medos e desejos mais atávicos com estes recursos narrativos criados milenarmente. A sorte é que o humano é plástico. E se os pais não estão dando conta de seus próprios medos não elaborados – porque, no fundo, é esta a questão – a criança dará outro jeito de encontrar meios de simbolizar seus terrores, seja na brincadeira, com pais de coleguinhas que eles sentem mais disponíveis ou mesmo em uma análise.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos compreender com isso que os pais atuais têm se sentido traumatizados, ou seja, com uma mente excitada pelos excessos: de medos não metabolizados, de informações destituídas de sentido e valor, de exigências superegóicas severas que retiram deles o prazer lúdico de aprender com uma criança e de achar graça de si mesmo por estar em dúvida ou confuso sobre o que fazer com aquela criaturinha que tanto depende de você, mas que um dia irá descobrir que você também sabe tão pouco e sente tanto medo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Em parte penso que isso é reflexo de um contexto social perverso que destitui a importância do papel da tradição e dos valores, substituindo-os pelo papel do sujeito individual, cada vez mais solitário e perdido com suas próprias questões e demandas. O que quero dizer é que nossa sociedade tem se individualizado cada vez mais, as pessoas estão cada vez mais solitárias nas cidades, os pais e mães não conversam entre si, não observam o outro, não ligam para um amigo para compartilhar suas angústias, não aprendem com a experiência alheia, seja ela de seus próprios pais ou de seus pares e – o que é pior – sentem poder jogar fora recursos míticos e narrativos tão tradicionais como as estórias, que foram criadas exatamente para nos tranquilizar um pouco do susto do viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Este vazio é ocupado de forma perversa pelo discurso “científico” que se acredita imbuído do poder de dizer às pessoas o que elas devem ou não fazer, como devem ou não pensar. Destitui-se a responsabilidade do sujeito por si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês já repararam quantos programas existem na TV em que “especialistas” se colocam na duvidosa posição de “orientar” pessoas sobre como cuidar de crianças, sobre como emagrecer, sobre como ser feliz, como dormir e comer bem, como fazer sexo bem, etc. A vida se transforma em uma grande performance para ser exibida nas reuniões de condomínio, nos shoppings e nas festas infantis.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, o sujeito se vê desresponsabilizado frente à sua própria vida, frente às suas próprias angústias. Acredita, tal como uma criança ou um crente, que o especialista terá a resposta que irá mudar definitivamente a sua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Reivindiquemos, portanto, o direito de sentir medo. De sermos frágeis, de termos dúvidas, de não sabermos para onde ir, de não termos uma opinião a dar. Para que o sentido mais profundo desta palavra –humano – não acabe indo tão logo parar em um museu.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>A bondade e a maldade humana.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Sep 2014 18:33:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Aristóteles]]></category>
		<category><![CDATA[bondade]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[maldade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma entrevista exibida em meados de 2012 a atriz Camila Morgado que, na época ensaiava a peça “Palácio do Fim”, dirigida por José Wilker, conta sua difícil e dolorosa experiência nos ensaios. Sua tarefa era encarnar a figura de Lynndie England, uma das onze militares julgadas e condenadas pela corte marcial dos Estados Unidos, &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-bem-sempre-vence-o-mau/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A bondade e a maldade humana.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-bem-sempre-vence-o-mau/">A bondade e a maldade humana.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f2/Abu-ghraib-leash.jpg/220px-Abu-ghraib-leash.jpg" alt="Abu-ghraib-leash.jpg" width="220" height="186" />Em uma entrevista exibida em meados de 2012 a atriz Camila Morgado que, na época ensaiava a peça “Palácio do Fim”, dirigida por José Wilker, conta sua difícil e dolorosa experiência nos ensaios.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua tarefa era encarnar a figura de Lynndie England, uma das onze militares julgadas e condenadas pela corte marcial dos Estados Unidos, em 2005, pelas violentas e atrozes torturas cometidas contra prisioneiros em Abu Ghraib (Bagdá), durante a ocupação do Iraque.</p>
<p style="text-align: justify;">Questionada sobre qual estava sendo sua maior dificuldade durante os ensaios, ela descreve seus sentimentos da seguinte forma:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1223"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>                <strong>Ao encenar aquilo, que eu sabia ter sido real, eu tentava, de alguma forma desesperada, encontrar alguma bondade naquela pessoa, algum motivo para ela ter feito aquelas terríveis atrocidades. Era como se eu não pudesse ficar perto de todo aquele mau. Acho que fazia isso porque assim conseguia algum tipo de identificação com a personagem. Mas, o Zé (José Wilker), disse-me algo que eu nunca mais esqueci. Ele me disse que eu não podia fazer isso porque aquela seria eu. Assim eu estava colocando algo de mim na personagem. Aquele olhar bondoso, compreensivo era meu e não dela. O que eu tinha que fazer era tentar me aproximar ao máximo da realidade daquela situação, ficar em contato com a pura maldade expressa naqueles atos terríveis sem “dourar a pílula”. Estes foram tempos muito difíceis para mim</strong>.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Esta “necessidade de dourar a pílula” de que nos fala Camila pode ser vista, de forma geral, em quase todo tipo de produção artística humana, de filmes a histórias infantis (pelo menos nas mais modernas). Estou me referindo à situação, que muito nos acalma e alivia, de que no final, o mocinho sempre vence o bandido, o bem sempre vence o mau. Com isso, nós podemos ir embora felizes e aliviados, nutridos pela esperança de que, no final, a bondade prevalecerá sobre a maldade.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mas, será que é assim mesmo?</h2>
<p style="text-align: justify;">O mal-estar de Camila nos dá pistas neste sentido. Para os seres humanos – sobretudo para aqueles que desconhecem as forças demoníacas que habitam o seu mundo interno &#8211; ficar em contato direto com a maldade humana, que está dentro de cada um de nós e também no outro, é algo muito indigesto e incômodo. Provoca angústia, mal estar, revolta e dor mental. Daí a necessidade da atriz de “dourar a pílula”, emprestando à sua personagem sanguinária, algo de sua própria bondade.</p>
<p style="text-align: justify;">É como se ela dissesse a si mesma, com maior ou menor consciência disso: “É insuportável para mim enxergar o que há de pior no ser humano. A pura maldade, o gozo sádico com a tortura de um ser humano sobre outro, teoricamente seu igual é algo que minha mente não pode conceber.”</p>
<p style="text-align: justify;">No mês passado fui dar aulas a uma classe de psicólogos, em um curso de pós-graduação. Papo vai, papo vem, caímos nesta indigesta questão: a de que somos, em essência, seres cruéis, violentos e sádicos – uns mais que outros. Uma das alunas, ainda precisando se defender desta visão tão dolorosa, comentava, de modo revoltado e sofrido, sobre sua indignação frente a pais assassinos, displicentes e violentos com seus filhos. Esta, provavelmente, é uma das verdades mais dolorosas para nós: a de que pais e mães podem ser profundamente cruéis com suas crianças. Não é assassinato mental o que Laio e Jocasta cometeram contra Édipo? E a madrasta da Branca de Neve? Porque será que ela não pôde comparecer na história como sendo a mãe da jovem menina? Seria isso chocante demais para nós? Acho que sim. Penso que isso é provavelmente tão doloroso para cada um de nós por que nos faz considerar que não fomos só amados por nossos pais e mães, mas, em muitos momentos odiados por eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente a filosofia, desde Aristóteles, tendeu a discutir esta questão moral de um modo insípido e inodoro. Aristóteles, por exemplo, acreditava que a bondade era aprendida pelo hábito. Dizia ele: “Quanto mais um ser humano praticar o bem, melhor ele será. E quanto mais ele praticar o mal, mais vicioso será”.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista pragmático e fenomenológico, esta afirmativa está co<a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1224 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-4-150x150.jpg" alt="download (4)" width="150" height="150" /></a>rreta, mas ela nos leva a um beco sem saída, pois deixa em aberto a questão fundamental: De onde vem a bondade? E, de onde vem a maldade? De onde vem o amor? E, de onde vem o ódio?</p>
<p style="text-align: justify;">De onde vem aquele sentimento maléfico que sentimos no olhar ou no tom de voz de alguém comentando que “sua roupa é muito bonita e você está super bem”? De onde vem o ódio expresso pela boca daquela torcedora, chamando de macaco, com gozo e ardor, o jogador negro? De onde vem o prazer irresistível da fofoca? E, de forma ainda mais grave, de onde vem o prazer sádico de se torturar e matar alguém?</p>
<p style="text-align: justify;">A psicanálise aponta: Vem de dentro. Nós nascemos, constitucionalmente, dotados da capacidade de amar e de odiar. Alguns são mais dotados de capacidade de amar que outros. Estes acabam por sucumbir aos prazeres mortíferos do ódio e da destrutuvidade (sim, há prazer nisso!).</p>
<p style="text-align: justify;">Shakespeare, em uma passagem belíssima de “Rei Lear”, buscando compreender o mistério desta profunda questão – a de porque alguns seres humanos são predominantemente bons e outros maus – diz:</p>
<p style="text-align: justify;">                <strong><em>Deve ser por causa das estrelas a diferença de temperamento dos seres humanos. Pois, mesmo entre dois irmãos, gerados pelo mesmo pai e pela mesma mãe, quanta diferença há.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Este trecho é lindíssimo porque nos lança diretamente no misterioso da questão: de onde vem o temperamento humano? De onde vem a capacidade de perdoar? E porque algumas pessoas nunca conseguirão experimentar isso na vida?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQSpFn_--b_nlkhqFHm82ycPpjPwVmzuHkw_-VGnLtDabhakLzZNw" alt="" width="275" height="183" />No caso da peça, porque a amorosa Cordélia, mesmo tendo sido renegada pelo pai em sua necessidade de demonstração falsa de afeto, ainda assim o perdoa e cuida dele em sua loucura e velhice? E porque suas duas outras irmãs, consumidas pelo ódio e pela fúria narcísica, enredadas pelas seduções e pelas ilusões da bajulação e da cobiça, não respeitam a sagrada velhice do pai (que representa, em última instância, a sabedoria humana atingida na aurora da vida) e, ao final, se matam envenenadas pelo próprio ódio?</p>
<p style="text-align: justify;">São questões para as quais, conforme aprendemos com Shakespeare, não há respostas lógicas. Trata-se de algo misterioso, vindo das estrelas. Penso que é disso que deriva nossa condição humana: deste quantum de mistério e de enigmático que cada ser humano carrega dentro de si.</p>
<p style="text-align: justify;">E para terminar, arremato com a reflexão: o bondade é mais poderosa, mais potente que a maldade humana?</p>
<p style="text-align: justify;">É possível educarmos (utopicamente) todas as crianças de modo que elas aprendam a amar e respeitar o seu semelhante? É possível, pela psicanálise, em todos os casos, superar o ódio pelo amor?</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sempre. Acho que esta é uma visão ingênua da vida que não nos leva muito longe. Inúmeras crianças se tornarão adultos cruéis e violentos porque isso depende mais da natureza do que da educação que, em se tratando de humanos, tem sérios e profundos limites; embora também seja verdade que, sem estas instituições sociais (família, escola, sociedade) seríamos muito mais bárbaros do que somos. Inúmeras pessoas abandonarão o trabalho árduo e doloroso de busca pela verdade que a psicanálise oferece porque já foram consumidas pelas sedutoras malhas da mentira, da sedução e da arrogância. Culpa do terapeuta? Claro que não. Seria muita onipotência pensar assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma das verdades mais trágicas e dolorosas do ser humano: nós somos seres livres e dotados de livre-arbítrio, mas cada um de nós só pode ir até onde sua natureza permite. Não compartilho da ideia de que alguém é mau ou bom porque quer. Em inúmeras situações humanas, não há escolha possível, embora isso não isente as pessoas de assumirem as responsabilidades pelos seus atos, bons ou maus.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1225 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/09/download-5-150x150.jpg" alt="download (5)" width="150" height="150" /></a>Para terminar, lembro-me do comentário esperançoso de um conhecido sobre Lúcifer, o anjo caído, que foi expulso do paraíso porque, em um rompante de ódio e inveja, quis ocupar o lugar de Deus. Dizia ele, cheio de esperança: “Nunca pensei que haveria essa possibilidade &#8211; a de alguém conversar com Lúcifer para tentá-lo fazer desistir da ideia vingativa de competir e de ser Deus”. Fiquei tempos pensando sobre isso. Se, neste caso, Lúcifer vai humildemente “baixar a guarda” e se render ao amor, não sei? O que eu sei é que é preciso muita coragem para chegar, nem que seja só um pouquinho, perto dele.</p>
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		<title>Antígona e a ética trágica da vida.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Aug 2013 13:09:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Antígona]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[responsabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[tragédia grega]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Já faz um tempo que venho me dedicando a estudar as tragédias gregas, produzidas e encenadas na pólis durante o século V a.C. – período áureo e próspero vivido em Atenas que, nesta época era governada pelo tirano Pisístrato. Apesar de os gregos terem escrito muitas tragédias, muito deste material se perdeu no tempo, chegando &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/antigona-e-a-etica-tragica-da-vida/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Antígona e a ética trágica da vida.</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRHhC3-ZQ2EEUEDyXTO1nVuKx3A0GiwV3fTDihcWVWyv08XhXkhiw" alt="" width="202" height="250" />Já faz um tempo que venho me dedicando a estudar as tragédias gregas, produzidas e encenadas na <i>pólis </i>durante o século V a.C. – período áureo e próspero vivido em Atenas que, nesta época era governada pelo tirano Pisístrato. Apesar de os gregos terem escrito muitas tragédias, muito deste material se perdeu no tempo, chegando até nós algumas das produções de três autores – Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-758"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>O nascimento das tragédias</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Os helenistas (estudiosos que se debruçam sobre o período clássico da história) afirmam que a tragédia grega é fruto de um período histórico, social e cultural muito específico de Atenas – marcado por um período áureo com intenso desenvolvimento econômico, cultural e artístico. Quando Atenas entra em declínio, as tragédias desaparecem, embora deixem o seu valor imorredouro até os dias de hoje, para nossa sorte!</p>
<p style="text-align: justify;">As tragédias derivaram dos mitos, sobretudo aqueles descritos por Homero, na Ilíada e na Odisseia, mas havia uma diferença marcante entre eles. Em Ilíada e Odisseia, por exemplo, a condição humana é exaltada e as dificuldades encontradas por eles eram relacionadas aos deuses.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://4.bp.blogspot.com/_2cOT04uzTLg/TPe8xR5IzCI/AAAAAAAAAPM/OCyqLR_vuU4/s1600/pintura+de+troia.jpg" alt="" width="236" height="214" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nas tragédias, a conduta humana bem como suas escolhas e consequências são trazidas para o primeiro plano, cabendo ao humano a responsabilidade pelo seu destino e por suas decisões. É o homem, portanto, que deve arcar com suas escolhas, aceitando o seu sofrimento não como algo determinado pelos deuses, mas como fruto de suas decisões individuais. E é aí que está a riqueza das tragédias.</p>
<p style="text-align: justify;">Notem que se trata de uma visão muito diferente daquela empreendida pelo pensamento religioso que apregoa que o sofrimento é uma forma de purificação da mente para se chegar ao paraíso. Neste caso, existe, em última instância, uma visão esperançosa e otimista sobre o destino humano, já que no final todos nós poderemos ascender aos céus, se formos bons.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso dos gregos, eles acalentavam uma visão do humano bem diferente disso. Para eles, o sofrimento é parte integrante da condição humana. Também não há uma dimensão de justiça neste sofrimento – ele arrebata a todos, inclusive os bons – algo que é diametralmente oposto à visão religiosa, muito arraigada em nossa sociedade. Para o pensamento religioso, os bons serão exaltados e os maus serão julgados e punidos e, se aos bons existe o sofrimento, é para ensinar-lhes algo, para lhes purificar a alma.</p>
<h2 style="text-align: justify;">A consciência filosófica &#8211; &#8220;Penso, logo existo&#8221;</h2>
<p style="text-align: justify;">Um pouco mais tarde, com o desenvolvimento da filosofia, sobretudo com Descartes e Platão, a busca pela consciência humana se tornou mais teórica, mais especulativa e menos vivencial, como era apresentada nas tragédias. É por isso que Lacan diz que as tragédias representavam aquilo que o humano não consegue alcançar com a razão. Em suas próprias palavras, a tragédia “pensa com os pés” (Lacan, 1974/2002).</p>
<p style="text-align: justify;">Nós sabemos, filhos como somos da modernidade, que herdamos em nosso modo de conceber a nós próprios muito desta visão racionalizante e filosófica sobre o humano – algo que se resume bem na máxima de Descartes “penso, logo existo”. Mas, para os gregos, sobretudo durante o período trágico, a condição humana não é para ser pensada, é para ser colocada em ato, vivida e levada até as últimas consequências – algo que Lacan irá retomar, correlacionando isso com a ética da psicanálise, assunto que trataremos adiante.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Antígona e a ética trágica</h2>
<p style="text-align: justify;">Levando-se em conta que há muitas miríades de possibilidades para discutirmos as tragédias, escolherei uma que considero fundamental que é a questão da responsabilidade diante das próprias escolhas, levada às últimas consequências, algo que se relaciona fortemente à dimensão ética do humano – algo que chamo de ética trágica diante da vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/08/antigona.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-759 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/08/antigona.jpg" alt="antigona" width="223" height="226" /></a>Para discutir esta questão tomarei como modelo a heroína trágica Antígona, apresentada na peça de mesmo nome escrita por Sófocles. Junto de Antígona, temos Édipo Rei e Édipo em Colono – todas escritas por Sófocles – compondo o que se conhece por trilogia tebana. A meu ver, todas elas tratam desta questão da responsabilidade para com as próprias escolhas e de uma conduta ética trágica diante da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não conhece a tragédia, vou relatá-la brevemente.</p>
<p style="text-align: justify;"><i>A tragédia começa com um diálogo entre as irmãs Antígona e Ismênia, filhas de Édipo com Jocasta (sua mãe) sobre a ordem dada por Creonte (tio delas) referente ao sepultamento de seus dois irmãos – Etéocles e Polinice – que se matam em uma disputa pelo trono de Tebas. Ocorre que Creonte decretou que somente Etéocles fosse sepultado como um cidadão digno enquanto Polinice foi proibido de ser sepultado, tendo seu corpo jogado para ser comido por aves carniceiras. Isso porque, segundo ele, Etéocles lutou bravamente em prol da cidade e morreu com inigualável bravura, enquanto Polinice retornou do exílio com o propósito de destruir Tebas e ansiando derramar o sangue de seus parentes e reduzi-los a escravidão. Julgado por Creonte como criminoso, o corpo de Polinice foi proibido de receber as honras fúnebres e de ser enterrado dignamente. Antígona recusa esta ordem de Creonte e tenta pedir o auxílio de Ismênia para enterrar o irmão, sangue do seu sangue. Ismênia, preocupada com a lei de Creonte e temendo as represálias pelo seu não cumprimento, decide não ajudar Antígona que, sozinha, enterra o irmão, contrariando a ordem de Creonte.  Quando sabe que a sobrinha teve a audácia e a coragem de contrariar sua ordem – interpretada por ele como visando ao bem comum de Atenas – manda prender Antígona para deixá-la morrer enterrada viva. Seu filho Hémon, que iria se casar com Antígona, ao saber da ordem do pai, tenta dissuadi-lo, mas não consegue. Ele está cego com o seu desejo de fazer o bem! Diante disso, Antígona se enforca, em um ato de extrema coragem e Hémon, seu futuro marido, mata-se com uma espada. Por fim, Euridíce, esposa de Creonte e mãe de Hémon, ao saber do suicídio do filho, tira a própria vida com uma faca. Creonte, ao saber das mortes que sua busca incessante pelo bem comum gerou, suplica que lhe venha a morte, pois não poderá ver clarear outro dia ao que o coro responde, em um belo e profundo diálogo sobre o humano:</i></p>
<p style="text-align: justify;" align="center"><b><i>Coro: Oh, Mas isso já é futuro! Pensemos no presente, ó rei! Que cuidem do futuro os que no futuro viverem.</i></b></p>
<p style="text-align: justify;" align="center"><b><i>Creonte: Tudo o que eu quero está resumido nesta súplica (de morrer)&#8230; Ouvi!</i></b></p>
<p style="text-align: justify;" align="center"><b><i>Coro: Não formules desejos&#8230; Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva!</i></b></p>
<p style="text-align: justify;" align="center"><b><i></i></b>Obviamente esta precária descrição da tragédia não consegue transmitir ao leitor a beleza da peça, com seus diálogos repletos de significados e de compreensões profundas sobre o humano. Por isso, sugiro que a leiam na íntegra!</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos começar por este diálogo final entre o coro e Creonte. Diante do fato de ter que lidar com as consequências funestas dos seus atos (o suicídio de três pessoas, sendo duas delas seu filho e sua esposa), Creonte quer morrer. Não quer permanecer vivo para ter que arcar com as responsabilidades por seus atos! Quer que chegue logo o futuro, quer que o tempo passe para não ter que lidar com aquilo, ao que o coro responde sabiamente: “que cuidem do futuro os que vivem no futuro”. Qual a ideia central contida neste belíssimo diálogo? Estaria o coro remetendo Creonte (e a todos nós) a inelutável necessidade de nos responsabilizarmos pelas consequências de nossos atos? E por quais convicções Creonte agiu como agiu? Estaria ele cego pela necessidade de fazer o bem, de preservar o bem comum da <i>pólis</i>?</p>
<p style="text-align: justify;">Renato Trachtenberg em um interessante artigo intitulado “Cesuras e des-cesuras: as fronteiras da (na) complexidade” publicado na Revista de Psicanálise n. 2, vol. 47, escreveu que o bem em excesso se torna um mal, problematizando as concepções tão fortemente arraigadas que temos sobre o bem e o mal.</p>
<p style="text-align: justify;">Creonte estava convicto de sua decisão que era a de não conceder privilégios a pessoas de seu próprio sangue, pois, segundo ele, um governante que faz isso não é justo com o povo. Também considerava não poder conceder privilégios a um criminoso. Dentro de sua lógica, ele acreditava ter razão! Mas, como o bem levado às últimas consequências, torna-se um mal, ele acaba por ter que se responsabilizar pelo seu bem – mal cometido. Acredito que Creonte é um belíssimo modelo para problematizarmos e relativizarmos o que é o bem e o que é mal, sobretudo quando a decisão cega de seguir as regras pelo “bem comum” impede o humano de relativizar suas posições.</p>
<h2 style="text-align: justify;">E Antígona? O que faz ela diante da lei de Creonte?</h2>
<p style="text-align: justify;">Ela não recua. Solitária e contando somente com seu lastro interno – suas verdades, das quais ela não poderia abrir mão, pois aí sim estaria morta em vida – parte para realizar o que precisa. E não recua, mesmo diante da morte – aquela que todo ser humano teme, por excelência. Segundo Lacan, Antígona é o modelo máximo daquela que arca com os custos do seu desejo, mesmo que isso lhe custe a vida. É aquela que rompe com o discurso da lei e da ordem para surgir como um indivíduo que deseja e paga pra ver! Por isso, seu brilho chega a ser quase intolerável, dado o seu primitivismo e contato com o real. (Lacan, 1969-70/1988).</p>
<p style="text-align: justify;">Em nenhum momento da peça vemos Antígona recuar ou se lamentar pelo seu destino funesto – a morte. Também não sente que isso é um castigo vindo dos deuses. Ela sabe que está pagando pela sua audácia – a de problematizar o que já está dito e escrito – aquilo que não pode ser colocado em diálogo. Só que ela já tem a morte como companheira, como diz Rubem Alves, e, portanto, não a teme. Sente não poder trair suas próprias leis – as leis do sangue – as únicas que podem lhe dar algum lastro de sentido à existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, se trata de um caminhar absolutamente só – uma responsabilidade solitária e ética com a condição trágica da nossa existência. Podemos hipotetizar: e se Antígona não fosse Antígona? E se ela recuasse diante da lei de Creonte? Como viveria a partir dali? Estaria realmente viva? Ou morta em vida? Pois, ao que tudo indica, a concepção de vida expressa nesta belíssima peça nos remete àquilo que precisa ser feito por cada um de nós para que não nos tornemos meros expectadores da nossa própria existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para isso é preciso muita coragem!</p>
<p style="text-align: justify;">Para terminar, gostaria de relacionar esta peça com o que nos propõe a ética da psicanálise. Lacan considerou que Antígona personifica a própria ética da psicanálise. Eu acrescentaria, a ética trágica da psicanálise.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mas, qual a relação que podemos fazer entre estas duas coisas?</h2>
<p style="text-align: justify;">Quando Freud criou a psicanálise, mais do que criar um método de tratamento, ele criou uma nova ética. Uma ética trágica da vida que reside no seguinte: Nós seres humanos somos absolutamente responsáveis por aquilo que desejamos, mesmo que desconheçamos, em absoluto, que desejos são estes! Radicalizando esta ideia, o destino não existe, pois a vida é consequência das nossas escolhas (muitas delas inconscientes). O único destino inelutável é a morte.</p>
<p style="text-align: justify;"> É por isso que o coro diz a Creonte que ele não pode fugir para o futuro e que tem que arcar com o que o destino (a psicanálise diria, com o inconsciente) lhe reserva! Disso nenhum de nós pode fugir. Só que esta é uma máxima délfica difícil de ser acessada e colocada em prática porque se conhecer é trágico, embora não se conhecer seja catastrófico.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/08/grego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-760 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/08/grego.jpg" alt="grego" width="200" height="112" /></a>Então, a ideia de Freud e de Lacan (lembro que Freud não ampliou sua psicanálise a esta dimensão ética do humano) é a de que todos nós devemos, como fez Antígona, nos responsabilizar pelo que desejamos e arcarmos com as consequências disso. Saibamos disso ou não. Foi assim também com Creonte, embora ele tenha tido que sofrer mais para compreender isso.</p>
<p style="text-align: justify;"> Desta forma, quando uma pessoa procura análise, mais do que ser informada sobre si mesma, sobre seus sintomas, ela deverá poder tomar contato com esta ética trágica da vida, devidamente representada pela função do analista – a de que se conhecer é doloroso, mas a de que não se conhecer é mais!</p>
<p style="text-align: justify;">Não há como escaparmos disso. Por isso, trata-se de uma ética trágica. Não se trata de uma ética voltada para o bem comum (como a filosofia discute a ética), mas uma ética profundamente arraigada no humano e nas leis inexoráveis da vida!</p>
<p style="text-align: justify;">Obviamente há muito mais a ser dito e de forma alguma pretendi esgotar esta discussão profunda e complexa que o contato com a peça pode nos proporcionar.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu intuito com este texto foi o de estimular o leitor para conhecer um pouco melhor deste legado cultural incrível que nos foi deixado pelos gregos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências bibliográficas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Lacan, J. (1959-60). O seminário livro 7: <i>A ética da psicanálise. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.</p>
<p style="text-align: justify;">Lacan, J. (1974). A terceira. In: <i>Cadernos Lacan. </i>Vol. II, 2002.</p>
<p style="text-align: justify;">Trachtenberg, R. Cesuras e des-cesuras: fronteiras da (na) complexidade. In <i>Revista Brasileira de Psicanálise, </i>Vol. 47, no. 2, 2013. P. 55-66.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/antigona-e-a-etica-tragica-da-vida/">Antígona e a ética trágica da vida.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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