<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Blog de Psicanálise</title>
	<atom:link href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/tag/guimaraes-rosa/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/tag/guimaraes-rosa/</link>
	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 29 Jul 2014 21:18:54 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	
	<item>
		<title>A coragem nossa de cada dia</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/</link>
					<comments>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2014 21:27:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[Guimarães Rosa]]></category>
		<category><![CDATA[medo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[pulsão de morte]]></category>
		<category><![CDATA[pulsão de vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/?p=924</guid>

					<description><![CDATA[<p>Você já percebeu como ousar realizar um sonho pode ser muito perigoso para nós, seres humanos? Experimente contar que você está realizando um sonho há muito acalentado para ver a reação que irá provocar nas pessoas. A miríade de possibilidades é imensa. Algumas dirão que todo o sacrifício que você está fazendo em prol deste &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A coragem nossa de cada dia</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/">A coragem nossa de cada dia</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1027 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1-150x150.jpg" alt="download" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1.jpg 225w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Você já percebeu como ousar realizar um sonho pode ser muito perigoso para nós, seres humanos?</p>
<p style="text-align: justify;">Experimente contar que você está realizando um sonho há muito acalentado para ver a reação que irá provocar nas pessoas. A miríade de possibilidades é imensa. Algumas dirão que todo o sacrifício que você está fazendo em prol deste sonho não vale a pena.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-924"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Afinal – se o sonho a ser realizado for a compra de um terreno ou de uma casa, por exemplo – você tem filhos, constrói uma casa imensa. Para que? Indagam os amargurados. Depois eles crescem, casam-se e partem. Depois, o que resta é só você e o seu marido (algo que normalmente é dito em tom de desprezo por algumas mulheres, como se o marido fizesse parte do entulho que sobrou junto com a casa enorme!).</p>
<p style="text-align: justify;"> Ouvindo isso eu imediatamente me pergunto: Mas, uma casa não deveria servir para o nosso próprio prazer? Para que a unidade do ser humano, ou seja, o par possa gozar de seus momentos de intimidade juntos e consigo mesmos? Na minha casa imaginária, eu já imagino um lindo e imenso jardim com pés de jabuticabas. Em dias ensolarados, colocarei, bem ao lado do meu marido (pode ser que já estejamos velhinhos, não importa) uma cadeira confortável e me espreguiçarei ao sol, em um domingo qualquer, de um ano qualquer. Lerei Guimarães Rosa enquanto ele se especializa em seus esportes favoritos, que pode ser corrida ou natação. Juntos, ouviremos uma linda música clássica, que pode ser Bach ou Mozart. Não é isso que é felicidade? Filhos, se vierem, devem mais é partir mesmo, preferencialmente entre os dezoito e vinte anos. Sua partida será a prova máxima de que fizemos um bom trabalho em conjunto, eu e meu companheiro. E no final, estaremos a sós, cada um fazendo companhia a si mesmo e ao outro, com nossos gatos, nossos livros, nossas músicas, nossos poucos e fiéis amigos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Outros, tomados por uma inveja terrível, colocarão milhares de defeitos no seu sonho ou, então &#8211; o que é pior &#8211; mal terminarão de te ouvir falar para contar, ele próprio, seu sonho e para reafirmar, categoricamente, como este lhe saiu caro, não deu certo ou muito lhe causou frustração.</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, como são raras as pessoas que tem a nobreza de fazer companhia a seus próprios sonhos e aos sonhos alheios. Respeitá-los como se fossem pequenas pérolas ou pétalas de rosa, delicadas, miraculosas, frágeis, e muito, muito especiais.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, sem sonhos não somos nada mais do que pó. Matéria morta perambulando pela vida como zumbis. Eu não quero deixar nunca de acalentar meus pequenos-grandes sonhos e de partir em busca de cada um deles. Quando deixar de pulsar pelos meus desejos, de sentir frio na barriga diante de cada plateia nova, de vibrar com cada novo projeto, diante de cada nova página em branco, prefiro a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Só que para sonhar e acalentar os nossos sonhos-bebês é preciso muita dose de coragem, pois facilmente nós os deixamos mofarem, estragarem, azedarem. Isso acontece porque, para haver condição interna de sonhar (que é o mesmo que desejar e arcar com o custo do próprio desejo) é preciso haver condição de hospedarmos, dentro de nós próprios, uma miríade de sentimentos que o desconhecido provoca. O que quero dizer é o seguinte: quando ficamos no conhecido, ou seja, somente falando sobre os nossos sonhos e desejos sem nunca ter a coragem de concretizá-los, de realiza-los, estamos em terreno conhecido. O reclamar, o se queixar é conhecido e tolerável para a mente, por mais paradoxal que isso pareça.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, quando acalentamos um sonho e o levamos a sério; quando buscamos concretizar um desejo, um anseio, um sonho há muito acalentado, temos que nos a ver com uma série de sentimentos incômodos que a situação desconhecida provoca. Primeiro porque não sabemos se vamos conseguir realizar aquilo ou não. Segundo porque, caso consigamos, temos que suportar entrar em contato com o sucesso, algo que costuma provocar muita turbulência na mente uma vez que evoca sentimentos invejosos, tanto na pessoa que se realiza quanto naqueles que estão a sua volta.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma máxima que deveria ser levada muito a sério: é preciso ter mente para suportar o bom, o crescimento, o sucesso, o prazer, a vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque vocês acham que muitas pessoas falham na hora H, tremem nas bases, amarelam, fazem gol contra? Ou, o que é ainda pior, passam grande parte da vida reclamando?</p>
<p style="text-align: justify;">Porque existe uma espécie de intuição (mesmo que as pessoas não se deem conta disso) de que, havendo sucesso, haverá trabalho mental a ser feito para que ele possa ser sustentado e não estragado.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista teórico, é isso que Freud descobriu em 1920.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTjh67qMgp3QmtvcRVnkFvMSNv33EZbp1LQEaxAuLEbPblZmZeGPg" alt="" width="129" height="176" />Até então, ele havia considerado que a pulsão tem como finalidade última a busca pelo prazer e a evitação do desprazer. Mas, investigando a brincadeira de seu netinho que insistia em repetir a situação traumática, por meio de um carretel, da separação de sua mãe, e também das pessoas que adoeciam por traumas de guerra, Freud concluiu que, ao lado da pulsão que busca o prazer, a ligação, o crescimento (que ele cunhou de pulsão de vida), existe uma pulsão que visa à desagregação, a ruptura, o retorno ao inanimado e à inércia (chamou isso de pulsão de morte).</p>
<p style="text-align: justify;">Então, funciona da seguinte maneira: a mente necessita fazer um trabalho constante para manter-se investindo na vida. Este investimento pulsional, que na vida diária comparece sob a forma dos nossos sonhos, desejos e projetos de vida, é sempre contrabalanceada por uma força contrária que visa desinvestir, desagregar estes mesmos objetos, sonhos e desejos. Em termos práticos, surge então aquele terrível dilema que todos nós já sentimentos inúmeras vezes: Depois de conseguir dar um passo adiante, vem aquela voz que diz: “Deixa isso pra lá. Não vai dar certo mesmo! É melhor você desistir agora. Vai ser muito difícil conseguir isso que você está querendo.”</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, um dos trabalhos mais fundamentais de um analista é ajudar o seu analisando a não destruir o seu próprio potencial, seus sonhos e desejos pelas suas pulsões destrutivas. Dito em termos mais simplistas: o trabalho do analista (um deles) é ajudar o analisando a (re)conhecer a atuação de suas partes más, destrutivas e invejosas, partes estas que devem ser contidas pelos sentimentos amorosos e mais positivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que a pessoa reconhece estes sentimentos desagradáveis e de muito mau gosto em si mesmo, fica mais fácil a pessoa reconhecer (e se defender) destes mesmos sentimentos nos outros. Pois, uma vez que podemos reconhecer que, depois de um enorme sucesso ou de uma importante conquista, vem aquele desânimo (que em termos psicanalíticos significa a eclosão da inveja na mente), também podemos reconhecer este gesto maldoso no outro também.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, há um agravante que precisa ser levado em conta: o ataque maldoso de alguém que se depara com uma pessoa que está tendo coragem de sonhar e realizar seus sonhos tem uma dupla função. Primeiro, ataca-se o próprio objeto invejável (o trabalho, o terreno, a conquista, etc.). Segundo, ataca-se o próprio ato heróico e corajoso da pessoa que, a despeito do temor e do medo, ousou desejar e se responsabilizar pelo próprio desejo. Pois, se ninguém ousa sonhar e viver de forma intensa e pulsante ao meu lado, não há porque eu me sentir ameaçada e nem me lamentar pelos sonhos que foram maldosamente assassinados por mim. Mas, uma vez que eu me deparo com a coragem de alguém se realizando bravamente na vida, surge a incômoda comparação: se ele está fazendo, porque é que eu não faço também?</p>
<p style="text-align: justify;">Este é, para mim, um dos atos mais heróicos que um ser humano pode realizar: o de se tornar responsável por seu próprio desejo e, na medida do possível, não deixar que ninguém (nem suas partes más e invejosas) destrua aquilo que é precioso para ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma coisa que devia ser ensinada nas escolas, aos pequenos: não se envergonhem de serem realizados, felizes, bem estabelecidos. Não se envergonhem de suas competências, atributos e sucessos. Vão tão longe quanto puderem ir, mas não se traiam. Não sejam menos do  que aquilo que vocês podem ser, pois nunca irão se perdoar por isso. E o que é pior: passarão o resto de suas vidas punindo os seus parceiros e impedindo-os de irem tão alto quanto puderem ir. Pois, se eu não fui, você também não vai!</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ6_a9K6xCcOrQld25w_35P4oMbgSuKk6dTpj6qHM11lR_4q2iHdg" alt="" width="261" height="193" />Gostaria que todos os seres humanos pudessem ter a coragem do nobre guerreiro que prefere morrer na batalha a nunca ter guerreado por um algo em que acredita! Gostaria que vivêssemos até o limite do que pudéssemos viver, inteira e intensamente. Tudo isso devia ser ensinado nas cartilhas e pensado seriamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês já pensaram o quanto mães e pais felizes e realizados na vida poderiam facilitar a vida de seus filhos? Quanta culpa pessoas carregam pelo fato de seus pais, tios, avôs e avós não terem tido a coragem necessária de bancarem seus próprios desejos? Como se realizar quando seus antepassados não tiveram esta coragem? A coragem de assumirem-se felizes ou de, pelo menos, partirem em busca disso? Estas são reflexões profundas e muito sérias que todos aqueles que pretendem serem pais e mães deveriam se fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, como dizia Guimarães Rosa, viver é perigoso e requer muita coragem. A mesma coragem tão lindamente descrita por Gonçalves Dias em “Canção do Tamoio”:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Não chores, meu filho;</em><br />
<em>Não chores, que a vida</em><br />
<em>É luta renhida:</em><br />
<em>Viver é lutar.</em><br />
<em>A vida é combate</em><br />
<em>Que os fracos abate,</em><br />
<em>Que os fortes, os bravos</em><br />
<em>Só pode exaltar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Um dia vivemos!</em><br />
<em>O homem que é forte</em><br />
<em>Não teme da morte:</em><br />
<em>Só teme fugir;</em><br />
<em>No arco que entesa</em><br />
<em>Tem certa uma presa,</em><br />
<em>Quer seja tapuia,</em><br />
<em>Condor ou tapir.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>O forte, o cobarde</em><br />
<em>Seus feitos inveja</em><br />
<em>De o ver na peleja</em><br />
<em>Garboso e feroz;</em><br />
<em>E os tímidos velhos</em><br />
<em>Nos graves concelhos,</em><br />
<em>Curvadas as frontes,</em><br />
<em>Escutam-lhe a voz!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Domina, se vive;</em><br />
<em>Se morre, descansa</em><br />
<em>Des seus na lembrança,</em><br />
<em>Na voz do porvir.</em><br />
<em>Não cures da vida!</em><br />
<em>Sê bravo, sê forte!</em><br />
<em>Não fujas da morte,</em><br />
<em>Que a morte há de vir!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>É pois que és meu filho,</em><br />
<em>Meus brios reveste;</em><br />
<em>Tamoio nascente,</em><br />
<em>Valente serás.</em><br />
<em>Sê duro, guerreiro,</em><br />
<em>Robusto, fragueiro,</em><br />
<em>Brasão dos tamoios</em><br />
<em>Na guerra e na paz.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Teu grito de guerra</em><br />
<em>Retumbe aos ouvidos</em><br />
<em>D´inimigos transidos</em><br />
<em>Por vil comoção;</em><br />
<em>E tremam d´ouvi-lo</em><br />
<em>Pior que o sibilo</em><br />
<em>Das setas ligeiras,</em><br />
<em>Pior que o trovão</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E a mão nessas batas,</em><br />
<em>Querendo calados</em><br />
<em>Os filhos criados</em><br />
<em>Na lei do terror;</em><br />
<em>Teu nome lhes diga,</em><br />
<em>Que a gente inimiga</em><br />
<em>Talvez não escute</em><br />
<em>Sem pranto, sem dor!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Porém se a fortuna,</em><br />
<em>Traindo seus passos,</em><br />
<em>Te arroja nos laços</em><br />
<em>Do inimigo falaz!</em><br />
<em>Na última hora</em><br />
<em>Teus feitos memora,</em><br />
<em>Tranquilos nos gestos,</em><br />
<em>Impávido, audaz.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E cai como o tronco</em><br />
<em>Do raio tocado,</em><br />
<em>Partido, rojado</em><br />
<em>Por larga extensão;</em><br />
<em>Assim morre o forte!</em><br />
<em>No passo da morte</em><br />
<em>Triunfa, conquista</em><br />
<em>Mais alto brasão.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As armas ensaia,</em><br />
<em>Penetra na vida:</em><br />
<em>Pesada ou querida,</em><br />
<em>Viver é lutar.</em><br />
<em>Se o duro combate</em><br />
<em>Os fracos abate,</em><br />
<em>Aos fortes, aos bravos,</em><br />
<em>Só pode exaltar.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/">A coragem nossa de cada dia</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>6</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Grande Sertão: Veredas &#8211; uma experiência estética e psicanalítica sobre o processo de vir a ser quem se é.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/grande-sertao-veredas-uma-experiencia-estetica-e-psicanalitica-sobre-o-processo-de-vir-a-ser-quem-se-e/</link>
					<comments>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/grande-sertao-veredas-uma-experiencia-estetica-e-psicanalitica-sobre-o-processo-de-vir-a-ser-quem-se-e/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Oct 2013 19:00:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[análise]]></category>
		<category><![CDATA[grande sertão: veredas]]></category>
		<category><![CDATA[Guimarães Rosa]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/?p=775</guid>

					<description><![CDATA[<p>Meu intuito neste texto é tecer algumas reflexões acerca da obra-prima Grande Sertão: Veredas, escrita por Guimarães Rosa (psicanalista nato por intuição profunda sobre a vida) quando este contava com mais ou menos quarenta anos de idade. A saga épica A saga sertaneja versa sobre a trajetória de Riobaldo em direção a ser quem ele &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/grande-sertao-veredas-uma-experiencia-estetica-e-psicanalitica-sobre-o-processo-de-vir-a-ser-quem-se-e/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Grande Sertão: Veredas &#8211; uma experiência estética e psicanalítica sobre o processo de vir a ser quem se é.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/grande-sertao-veredas-uma-experiencia-estetica-e-psicanalitica-sobre-o-processo-de-vir-a-ser-quem-se-e/">Grande Sertão: Veredas &#8211; uma experiência estética e psicanalítica sobre o processo de vir a ser quem se é.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSscDhRRLWoDdbWtK4rCTNVN7oki38vZKRrBPUt8jqGky9O7q1oKg" alt="" width="291" height="173" />Meu intuito neste texto é tecer algumas reflexões acerca da obra-prima Grande Sertão: Veredas, escrita por Guimarães Rosa (psicanalista nato por intuição profunda sobre a vida) quando este contava com mais ou menos quarenta anos de idade.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-775"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">A saga épica</h2>
<p style="text-align: justify;">A saga sertaneja versa sobre a trajetória de Riobaldo em direção a ser quem ele era, ou melhor, em direção a si mesmo em um casamento profundo com suas percepções sobre a realidade trágica que rege a vida humana. Neste caso, penso que a alegoria do sertão nos remete ao sertão que é a vida humana, com suas misérias, encantos, feiuras e belezas.</p>
<p style="text-align: justify;">No início de sua longa saga, Riobaldo perambula pelo sertão sem saber muito bem quem ele era. Pula de um bando para o outro, sem convicções próprias, recebendo os mandos dos chefes sobre o que devia fazer e pensar. Neste instante, Riobaldo passava pela vida, simplesmente passava, assujeitado de si mesmo. Em termos psicanalíticos, podemos considerar que ele não havia podido realizar até aquele momento um casamento profundo com suas dimensões mentais inconscientes, as únicas que poderiam auxiliá-lo a fertilizar o sertão que é a vida e a dar algum sentido à sua existência e passagem por este mundo tão carente de sentido e de lógica.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Diadorim: através de</h2>
<p style="text-align: justify;">Mas, em suas andanças, Riobaldo conhece Diadorim. Diadorim em grego (vejam como Guimarães Rosa sabia das coisas!) significa através de (<i>dia </i>– de, <i>dorim</i> – através). A partir do instante em que Riobaldo conhece este menino de olhos vivos, conhece o amor. Neste sentido, podemos pensar que Diadorim foi o meio através do qual Riobaldo pôde se encontrar consigo mesmo. Notem que o meio através do qual isso foi possível foi um meio amoroso, fruto de uma relação de beleza poética e fertilizante quando comparado ao sertão que é a vida e ao sertão ao qual Riobaldo estava mergulhado internamente. Seria esta uma metáfora de Guimarães que nos alerta para o fato de que nós só podemos vir a ser o melhor da gente através de uma relação amorosa, conosco e com o outro? Penso que sim.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro segue e Riobaldo sofre por não conseguir compreender o seu amor por outro homem. Diadorim – seu grande amor &#8211; havia se embrenhado pelas jagunçagens do sertão para vingar a morte do pai Joca Ramiro, cometida pelo maldoso Hermógenes – representação exemplar da pura maldade que habita os recônditos da mente humana. Neste sentido, Diadorim é uma alegoria da coragem humana necessária para transitarmos por esta vida. Em meio à crueldade e violência da jagunçagem, Diadorim enfrenta todo tido de dificuldades para lutar por algo em que acreditava e para, finalmente, poder vingar a morte do pai. Com isso, mostra-se forte para enfrentar a maldade, mantendo uma postura digna e corajosa frente à vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Em muitos momentos da saga, Diadorim alerta Riobaldo sobre a necessidade de tomar as rédeas de sua própria vida e de agir por convicção própria. Também diz a ele que ele teria condições de liderar o bando (ser o líder de si mesmo), desde que pudesse vencer o medo paralisante e a insegurança aterradora que o assolava. São passagens belíssimas que nos remetem a esta verdade inexorável da vida humana – a que diz que um ser humano só pode se assenhorar de si mesmo, encontrando alguma autoria de pensamento no mundo, quando é capaz de vencer corajosamente o medo de pensar por si mesmo e fazer um casamento fértil com a dimensão do seu inconsciente. É só isso que nos salva da paralisia mental, da mesmice e da repetição estéril.</p>
<p style="text-align: justify;">Este caminhar no sentido de tomar contato com o real da vida humana, trágica por excelência, faz com que Riobaldo possa fazer reflexões como estas:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            Vivendo, se aprende; mas, o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.</i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza.</i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            Eu tinha medo de homem humano.</i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais. </i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            Assaz a gente vive, assaz alguma vez raciocina.</i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            Os fatos passados obedecem à gente; os em vir também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – é o que é. </i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><i>            O ódio – é a gente se lembrar do que não deve-de; o amor é a gente querendo achar o que é da gente.</i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><i> </i>São percepções belíssimas e de profundo impacto estético e emocional sobre o leitor porque falam da humanidade de cada um de nós, da imprevisibilidade e da falta de controle que marcam a vida humana, ao mesmo tempo em que também apontam para a importância de podermos transitar por esta vida em um estado amoroso, querendo encontrar o que é da gente, e só da gente – única condição que faz com que a vida humana possa encontrar algum sentido.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O encontro com o inconsciente</h2>
<p style="text-align: justify;">Retomando a saga, depois de muitas perambulações pelos sertões, e, Riobaldo, cada vez mais decidido a tomar contato com as profundezas da sua existência, certa noite, assustado com aquelas sensações novas que o invadiam porque algo já estava em transformação dentro de si, decide procurar o demônio, fazendo um pacto com ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que o demônio representa exatamente as forças dionisíacas &#8211; como diria Nietzche – ou, em termos psicanalíticos, as forças do inconsciente para as quais um ser humano não pode dar às costas, não sem pagar um preço alto por isso – o preço de monotonia, da repetição, da ausência de sentido na vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, Riobaldo, em um ato de plena coragem e determinação – que lembra muito o processo vivido por um sujeito em análise quando este deixa de ser dominado e controlado pelas forças inconscientes, para se apossar delas, através do conhecimento íntimo e profundo de si – vai em direção ao demônio e se casa com ele.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Associações com o dionisíaco de Nietzsche</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://elementochao.files.wordpress.com/2012/07/dioniso.jpg" alt="" width="345" height="440" />Aqui vale uma reflexão interessante. Porque nesta e em tantas outras obras (só para citar uma delas, temos o caso de Fausto de Goethe) as forças vitais do inconsciente são associadas ao demônio, ao diabo? Penso que isso se relaciona a algo que Nietzsche formulou tão bem sobre as forças apolíneas e dionisíacas que regem a vida humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Para este filósofo, as forças dionisíacas – as únicas que levam à desacomodação, à ruptura, ao novo – são também muito impactantes e causam temor exatamente pela sua força disruptiva. Daí ser considerada por muitas pessoas algo perigoso e nefasto – exatamente como a imagem mítica do demônio.  Nietzsche associava estas forças dionisíacas às forças da natureza e dizia que o homem não pode se apartar delas – das forças que o lembram de que é um ser da natureza, antes de ser social e cultural – sem pagar um preço alto por isso. Esta concepção do filósofo é muito semelhante à concepção de inconsciente, desenvolvida por Freud.</p>
<p style="text-align: justify;">Em ambos os casos &#8211; no do filósofo Nietzsche com as forças dionisíacas e no caso do inconsciente freudiano &#8211; a ideia é a mesma. Trata-se das forças pulsionais (representante psíquico dos instintos, ou seja, da nossa ligação mais primitiva com a nossa condição animal) que desacomodam a mente e que por isso são associadas com forças do demônio, por desarrumarem tudo, deixarem tudo fora do lugar. Entretanto, são estas forças que tiram tudo fora do lugar &#8211; a força do inconsciente &#8211; que definem intimamente a nossa vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, enquanto estamos vivos, há desacomodação, movimento, subidas e descidas. Exatamente como um ecocardiograma. São as forças de morte (pulsão de morte para Freud) que nos levam a querer a inércia, a ausência de movimento, a ausência de conflitos e tensões. Ou seja, podemos conjecturar que foram as forças de vida de Riobaldo que o levaram a se encontrar com o demônio, ou seja, com aquilo que tira tudo fora do lugar, que desacomoda. E, por outro lado, eram suas forças mortíferas ou, sua pulsão de morte, que regia sua vida até o seu encontro com o demônio, pois, neste caso, para não viver a desacomodação de estar vivo, Riobaldo se submetia ao seu próprio medo&#8230;da vida.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O demônio no pensamento judaico-cristão:</h2>
<p style="text-align: justify;">Em nossa sociedade, regida pelo pensamento judaico-cristão, a imagem do demônio é frequentemente associada a algo negativo, em parte porque exatamente o demônio é aquele que desarruma, desaloja, incita a transgressão. Lembra vocês que a figura de Satã, descrita por Milton em &#8220;O paraíso perdido&#8221;, que reconta o mito de criação de Adão e Eva da perspectiva do diabo, é uma das figuras mais interessantes da história. Ele fora expulso do paraíso e invadido por um ódio e inveja terrível pela figura de Deus-todo poderoso, vai até o paraíso, onde nós homens vivíamos tranquilos e sem conflito algum, e nos incita a comer a maça, o fruto proibido que representa o conhecimento. Ou seja, desde que comemos o fruto do conhecimento e passamos a ter consciência de nossa própria existência, de nossa condição mortal e finita, nunca mais tivemos sossego&#8230;porque assim é a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à saga épica. Depois que Riobaldo se encontra com o anjo caído – aquele que não se diz o nome – sua mente e seu modo de estar no mundo sofrem profundas transformações. Ele se torna mais corajoso e aquilo que o assolava no sertão (do seu mundo interno) não lhe mete mais medo. E ele faz o que precisa ser feito: segue sertão (vida) adentro. Agora na condição de líder de seu próprio bando. Sua voz agora sai firme de sua garganta porque ele pôde vencer o pior medo, o mais paralisante medo que um ser humano pode ter: o medo de enfrentar a si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento, as passagens do livro se tornam épicas e muito inspiradoras. Riobaldo ordena, antevê situações de perigo, organiza e cuida de seu bando, não com um ar de superioridade sobre eles, mas como alguém que conseguiu atingir um estado mental de sabedoria profunda diante da vida. Com isso, todos o ouvem e o respeitam, porque ele próprio aprendeu a ouvir as vozes silenciosas que o habitaram desde sempre. Então, ele parte em caçada ao maldoso Hermógenes, não para humilhá-lo, mas para resgatar sua honra e a de seu amado Diadorim.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu percurso pela vida, pelo sertão, Riobaldo nos inspira, assim como Diadorim, a poder realizar e se desenvolver apesar do medo. No caso de Riobaldo, foi somente depois de ter se apossado firmemente de quem ele era, em um casamento com as dimensões profundas de sua mente inconsciente, é que pôde encontrar sua voz.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, Guimarães demonstrou, neste livro, ter conseguido acessar, por meio de sua forte sensibilidade, verdades profundas sobre a vida humana. Por exemplo: que o único caminho possível ao homem é aquele que o leva dele até ele mesmo. Sem este encontro – às vezes tão temido e evitado pelas pessoas – estamos, de certa forma, condenados como Riobaldo no início da saga, a temer os próprios desejos. E aí, não podemos desejar nada. Nem mesmo podemos desejar viver.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O encontro consigo mesmo na análise</h2>
<p style="text-align: justify;">Na <a href="http://http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/">análise</a>, algo muito parecido com o que vivenciou Riobaldo em seu encontro consigo mesmo (e com o diabo) se dá, pois, passamos a perceber cada vez mais a nossa profunda responsabilidade sobre o que nos acontece, e sobre o que não nos acontece na vida. Também aprendemos que a maior coragem que um ser humano pode ter na vida é a de se conhecer em profundidade, apesar do medo. Aprendemos também que, quando o medo pode ser suportado com a coragem típica de um bravo sertanejo, ele aos poucos se enfraquece e aquela forte luz que ameaçou nos cegar o olhar – a luz de tanta verdade nos olhos – passa a ser uma espécie de lampadazinha a nos guiar, agora como verdadeiros sábios, pela vida afora.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/grande-sertao-veredas-uma-experiencia-estetica-e-psicanalitica-sobre-o-processo-de-vir-a-ser-quem-se-e/">Grande Sertão: Veredas &#8211; uma experiência estética e psicanalítica sobre o processo de vir a ser quem se é.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/grande-sertao-veredas-uma-experiencia-estetica-e-psicanalitica-sobre-o-processo-de-vir-a-ser-quem-se-e/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
