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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Mon, 17 Nov 2014 17:47:50 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Memórias-sonho de uma viagem rumo à natureza selvagem.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Nov 2014 17:44:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[civilização]]></category>
		<category><![CDATA[estado de não integração]]></category>
		<category><![CDATA[férias]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acabo de fazer uma viagem linda com o meu marido. Juntos, trouxemos na bagagem, além de fotos e memórias, algumas aprendizagens valiosíssimas. Uma viagem, assim como qualquer nova experiência, quando contida pela mente daquele que a vivencia, enriquece e amplia o psiquismo. Dito de outro modo, quando uma experiência desconhecida pode ser processada e sonhada &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/memorias-sonhos-de-uma-viagem-rumo-natureza-selvagem/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Memórias-sonho de uma viagem rumo à natureza selvagem.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/memorias-sonhos-de-uma-viagem-rumo-natureza-selvagem/">Memórias-sonho de uma viagem rumo à natureza selvagem.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTd7X1AX7CmR532qSpVihB4BBjeU_11hT1htLvg_9O1gHEtGgE9" alt="" width="223" height="168" />Acabo de fazer uma viagem linda com o meu marido. Juntos, trouxemos na bagagem, além de fotos e memórias, algumas aprendizagens valiosíssimas. Uma viagem, assim como qualquer nova experiência, quando contida pela mente daquele que a vivencia, enriquece e amplia o psiquismo. Dito de outro modo, quando uma experiência desconhecida pode ser processada e sonhada pela mente, há expansão mental que leva a novos desenvolvimentos e aprendizagens. Mas, quando o contato com o desconhecido é angustiante demais e, por isso, evacuado, nada se pode aprender de novo. Volta-se o mesmo que se foi.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, vejamos o que eu pude sonhar (no sentido utilizado por Bion) nesta linda viagem.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1244"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, há a escolha do lugar. A cada viagem que fazemos noto que eu e meu marido temos escolhido cada vez mais lugares que nos coloquem em contato profundo com a natureza. É como se, mesmo sem termos tanta consciência disso, partíssemos em busca de fazer o caminho contrário à civilização (da repressão ao pulsional). Desta vez, o contato com a natureza foi intenso e vitalizante. Aos poucos, fomos esquecendo o relógio e passamos a nos guiar pelos dois parâmetros naturais mais amplamente utilizados pelo homem primitivo: a fome e o movimento do sol. Alegres, perguntávamos um ao outro. Que horas são? E ambos respondíamos: “Pela posição do sol deve ser tal hora”. Ou ainda: “Bem, como já estou sentindo fome, deve ser mais ou menos tal hora.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto que este movimento mental que Winnicott nomeou estado de não integração é algo, ao mesmo tempo, prazeroso e angustiante de ser vivido, porque o que ocorre nestas situações é um afrouxamento das defesas do ego e um aprofundamento no contato com as forças instintivas do id.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que é, em grande parte, pelo medo de se vivenciar este estado de não integração (que é vivido pela pessoa como o equivalente a um estado de desintegração) que faz com que muitas pessoas evitem a situação das “férias”. Ou seja, a perda da situação rotineira de trabalho, guiada pelos ponteiros do relógio e pelo estabelecimento dos rituais convencionais que servem como marcadores da passagem do tempo servem para proteger o psiquismo do contato com o Real (horário de almoçar, de trabalhar, de dormir, de acordar, etc.).</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, como disse certa vez um conhecido: “Ter um corpo é uma coisa que espanta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em situações de “férias” a perda ou o afrouxamento destes rituais marcadores do tempo (a chamada rotina) propicia um estado de não integração e de relaxamento profundo. Neste caso, pessoas que não se sentem bem constituídas em seus <em>selfs </em>(eu) podem vivenciar este estado de não integração como algo terrivelmente angustiante: com um sentimento de perda de identidade e de sentido da própria existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando às minhas férias, gostaria de destacar duas experiências que me possibilitaram, respectivamente, um contato profundo com a natureza e – o contraponto disso – o temor que este contato pode mobilizar em pessoas que estão em um estado altamente defensivo com relação às forças intempestivas da natureza (e do id).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSzjaG1rJyJdsOhGjdxFl60D2Go4bHaQM54XTmdKpapfhkbbWaz" alt="" width="231" height="125" />Cena 01: </strong>Eu e meu marido nos entregamos inteiramente aos costumes locais (ficamos em uma vila distante mais de duas horas de uma grande cidade, em um cenário paradisíaco, mas também selvagem). Neste clima, decidimos fazer algumas aulas de kitesurf. Este esporte é praticado utilizando-se uma pipa (também chamada kite) e uma prancha. Todo o movimento é feito na água, utilizando-se somente a força do vento. O meu professor era um jovem de mais ou menos dezoito anos, muito sábio.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, temerosa frente à situação desconhecida e ao poder implacável do vento, vi-me agarrada ao trapézio, que serve para dirigir o kite. Percebendo a situação, meu sábio e jovem professor disse: “Se você continuar brigando com o vento, você vai perder. Deixe-se levar por ele.” Aquilo não me saiu mais da cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTMIraolHp4kodREFOTf4GkqOS-jiIy6Igwk4MiFT-dw4akeAVj" alt="" width="230" height="156" />Cena 02: </strong>Fugindo da rota “turística”, conhecemos um simpático restaurante local, com comida caseira e ótimo acolhimento. Lá pude ouvir uma história linda da dona do restaurante: ela mesma estava construindo sua casa, com a ajuda de amigos e vizinhos, em um esquema de mutirão. Tudo com o dinheiro de seu pequeno restaurante. Senti-me acolhida por uma grande mãe. Mas, lá também pude presenciar uma cena curiosa: um casal de turistas de olhar assustado, pergunta à dona do restaurante: “Não é perigoso andar por aqui à noite?” A reação da dona do restaurante foi curiosa. Parecia estar ouvindo outro dialeto, outra língua. Ingenuamente, ela pergunta: “Perigoso por quê?” Era a língua do medo que um ser humano tem de outro. Esta, ela parecia não conhecer.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Como podemos fazer conversar estas duas experiências vividas por mim? Será que uma coisa tem a ver com a outra? Que saberes preciosos estes “locais” carregam e que nós, da cidade grande, vamos perdendo de vista? Por que o meu jovem e sábio professor parece tão íntimo da língua selvagem dos ventos? O que significa este saber profundo: é preciso respeitar o vento e não brigar com ele? Seriam estes temores diferentes – o temor respeitoso frente à força intempestiva do vento e o medo que um ser humano sente por outro, tal com comunicado pelo turista? E por que aquilo soou como algo tão despossuído de sentido para a cozinheira-mãe?</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos à primeira situação. Diante da força incontrolável do vento, senti medo. Muito medo. A força com que eu era levada pela pipa era imensa. Talvez pela primeira vez pude viver a experiência de “pegar o vento nas mãos”. E a constatação foi: trata-se de um “deus” muito forte e poderoso. É preciso respeitá-lo, temê-lo. Mas, também é preciso se entregar a esta força e não lutar contra ela, pois, diante de seu imenso poder, com certeza vamos perder. Na linguagem da natureza perder significa morrer. Ou, no mínimo, machucar-se seriamente. Ressalto que depois de ter podido conversar um pouco com meu temor paralisante diante do deus-vento e tendo parado de brigar com ele, entregando-me a ele (eu e a natureza em estado de comunhão), a experiência de “pegar o vento com as mãos” foi incrivelmente prazerosa. Deixar o meu corpo ser levado pela pipa, velejando no mar, foi indescritível. Mas, só pude viver isso depois que me rendi ao poder do vento. Reconheci ser ele o deus e não eu, com meus braços frágeis a tentar lutar contra ele, a tentar ser onipotentemente mais forte que ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de uma experiência que fere o nosso narcisismo. Reconhecer-me muito mais frágil que o vento, reconhecer a sua fúria e o meu ínfimo tamanho perto de sua grandiosidade, faz-me (re) conhecer mais uma vez o meu exato tamanho nesta vida. O tamanho de uma poeira cósmica diante do incomensurável poder da natureza que sempre se impõe sobre nós. Este é o saber “local” que torna estas pessoas, em profundo contato com a natureza, tão sábias. Este é um saber que nós, da cidade grande, com nossos potentes aviões que nos dão uma falsa sensação de segurança, com nossos pretensos avanços tecnológicos (como a previsão meteorológica, por exemplo), vamos perdendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com toda essa parafernália tecnológica vamos acalentando a ilusão de estarmos no controle, de termos o poder. Mas, nós não estamos. Nós não temos. E foi isso que pude apreender nesta viagem selvagem. Aliando esta ideia à psicanálise, podemos dizer que o inconsciente (nossa natureza interna) é como o deus-vento, incontrolável. Se nos rendemos a ele, se reconhecemos a sua majestade e força, podemos “surfar” na vida e sentir um baita prazer. Se lutamos contra ele, perdemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Há outro saber “local” riquíssimo a ser destacado aqui. Quando a cozinheira-mãe reconhece sua necessidade de vínculos e o fato de que sozinha nunca conseguirá fazer sua casa, outro determinante da nossa natureza humana está sendo respeitado e venerado. Trata-se do saber de que nós humanos, pela nossa imensa fragilidade, precisamos uns dos outros. Este é outro saber que nós da cidade grande negamos, esquecemos, violentamos. Pergunto eu: o medo paranoico da violência não é reflexo direto do afastamento do contato humano que vivemos em grau maciço nas grandes cidades?</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso meu impacto ao ouvir a pergunta do turista amedrontado e o estranhamento da cozinheira-mãe frente a ela. Para ele, o outro, o ser humano semelhante, é um ser perigoso, estrangeiro. É preciso se proteger dele. Para ela, o outro, o ser humano semelhante, é alguém que agrega, é alguém com quem se pode contar. Não representa uma ameaça vital.</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto que em momento algum da viagem senti medo de outro ser humano. Nesta vila, todos eram iguais-diferentes. Todos usavam chinelos, andavam de um jeito simples. Por que lá o deus não era o homem. Lá o deus era a natureza, o sol, o vento, os golfinhos, o tempo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, minha hipótese é: um ser humano só passa a sentir medo paralisante de outro ser humano, seu igual-diferente, quando perdeu o contato profundo com a sua natureza instintiva, pulsional que, em minha experiência, é o deus-vento, o deus-inconsciente.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, quando podemos entrar em contato com a nossa insignificância frente ao poder da natureza, o outro não é mais temido. Ao contrário, passa a ser um aliado. Frente à natureza selvagem, temos que nos unir e agregar, somar.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o saber local que estas pessoas preservam, possibilitado pelo seu modo de viver menos civilizado que aquele do homem da cidade grande.</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto que não utilizo o termo civilizado no sentido de julgamento de valor. Trata-se tão somente da ideia desenvolvida por Freud de que a civilização é desenvolvida pelo homem para se proteger da força intempestiva da natureza, tanto a externa quanto a interna (dos impulsos).</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, podemos brincar com a pergunta do turista amedrontado e arriscarmos a seguinte questão: De que ele tem medo? À qual perigo ele se refere? Terá ele medo do Outro ou de si mesmo? Terá ele medo daquilo que ele desconhece no outro, mas que também é ele? Quem é o desconhecido, o estrangeiro para ele? O outro? Ou ele mesmo?</p>
<p style="text-align: justify;">Não pude vê-lo mais ao longo da viagem nem tive o privilégio, talvez, de acompanhar os seus olhos, quem sabe agora menos assustados com a vida pulsante que lá se apresentava. Faço sinceros votos que isso tenha acontecido: que no lugar do medo, êxtase e contemplação pudessem surgir em seus olhos. Para que um novo, selvagem e desconhecido universo pudesse se descortinar ao nosso amigo tão assustado: o mundo da natureza – a de dentro e a de fora.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/11/download-7.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-thumbnail wp-image-1245" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/11/download-7-150x150.jpg" alt="download (7)" width="150" height="150" /></a>Um adendo. Não pude dormir na viagem de volta. Lembrava-me o tempo todo que do lado de fora daquela cabine quentinha do avião, o nosso amigo, o deus-vento, impunha-se, feroz. E que ali dentro, todos nós, seres humanos, erámos poeira ínfima perto dele. Travava naquele momento, no íntimo do meu ser, uma batalha feroz com a morte. Esta companheira sinistra que nos acompanha desde sempre. É neste hiato, no encontro com o sinistro da morte que surge a fé. E, assim como Gilliatt do épico “Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo, que, diante da força intempestiva do mar, morrendo de fome, de sede e de frio, ajoelha-se e pede misericórdia, agradeci, maravilhada, o fato milagroso de estar viva.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A coragem nossa de cada dia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2014 21:27:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[Guimarães Rosa]]></category>
		<category><![CDATA[medo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[pulsão de morte]]></category>
		<category><![CDATA[pulsão de vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Você já percebeu como ousar realizar um sonho pode ser muito perigoso para nós, seres humanos? Experimente contar que você está realizando um sonho há muito acalentado para ver a reação que irá provocar nas pessoas. A miríade de possibilidades é imensa. Algumas dirão que todo o sacrifício que você está fazendo em prol deste &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A coragem nossa de cada dia</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1027 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1-150x150.jpg" alt="download" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1.jpg 225w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Você já percebeu como ousar realizar um sonho pode ser muito perigoso para nós, seres humanos?</p>
<p style="text-align: justify;">Experimente contar que você está realizando um sonho há muito acalentado para ver a reação que irá provocar nas pessoas. A miríade de possibilidades é imensa. Algumas dirão que todo o sacrifício que você está fazendo em prol deste sonho não vale a pena.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-924"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Afinal – se o sonho a ser realizado for a compra de um terreno ou de uma casa, por exemplo – você tem filhos, constrói uma casa imensa. Para que? Indagam os amargurados. Depois eles crescem, casam-se e partem. Depois, o que resta é só você e o seu marido (algo que normalmente é dito em tom de desprezo por algumas mulheres, como se o marido fizesse parte do entulho que sobrou junto com a casa enorme!).</p>
<p style="text-align: justify;"> Ouvindo isso eu imediatamente me pergunto: Mas, uma casa não deveria servir para o nosso próprio prazer? Para que a unidade do ser humano, ou seja, o par possa gozar de seus momentos de intimidade juntos e consigo mesmos? Na minha casa imaginária, eu já imagino um lindo e imenso jardim com pés de jabuticabas. Em dias ensolarados, colocarei, bem ao lado do meu marido (pode ser que já estejamos velhinhos, não importa) uma cadeira confortável e me espreguiçarei ao sol, em um domingo qualquer, de um ano qualquer. Lerei Guimarães Rosa enquanto ele se especializa em seus esportes favoritos, que pode ser corrida ou natação. Juntos, ouviremos uma linda música clássica, que pode ser Bach ou Mozart. Não é isso que é felicidade? Filhos, se vierem, devem mais é partir mesmo, preferencialmente entre os dezoito e vinte anos. Sua partida será a prova máxima de que fizemos um bom trabalho em conjunto, eu e meu companheiro. E no final, estaremos a sós, cada um fazendo companhia a si mesmo e ao outro, com nossos gatos, nossos livros, nossas músicas, nossos poucos e fiéis amigos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Outros, tomados por uma inveja terrível, colocarão milhares de defeitos no seu sonho ou, então &#8211; o que é pior &#8211; mal terminarão de te ouvir falar para contar, ele próprio, seu sonho e para reafirmar, categoricamente, como este lhe saiu caro, não deu certo ou muito lhe causou frustração.</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, como são raras as pessoas que tem a nobreza de fazer companhia a seus próprios sonhos e aos sonhos alheios. Respeitá-los como se fossem pequenas pérolas ou pétalas de rosa, delicadas, miraculosas, frágeis, e muito, muito especiais.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, sem sonhos não somos nada mais do que pó. Matéria morta perambulando pela vida como zumbis. Eu não quero deixar nunca de acalentar meus pequenos-grandes sonhos e de partir em busca de cada um deles. Quando deixar de pulsar pelos meus desejos, de sentir frio na barriga diante de cada plateia nova, de vibrar com cada novo projeto, diante de cada nova página em branco, prefiro a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Só que para sonhar e acalentar os nossos sonhos-bebês é preciso muita dose de coragem, pois facilmente nós os deixamos mofarem, estragarem, azedarem. Isso acontece porque, para haver condição interna de sonhar (que é o mesmo que desejar e arcar com o custo do próprio desejo) é preciso haver condição de hospedarmos, dentro de nós próprios, uma miríade de sentimentos que o desconhecido provoca. O que quero dizer é o seguinte: quando ficamos no conhecido, ou seja, somente falando sobre os nossos sonhos e desejos sem nunca ter a coragem de concretizá-los, de realiza-los, estamos em terreno conhecido. O reclamar, o se queixar é conhecido e tolerável para a mente, por mais paradoxal que isso pareça.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, quando acalentamos um sonho e o levamos a sério; quando buscamos concretizar um desejo, um anseio, um sonho há muito acalentado, temos que nos a ver com uma série de sentimentos incômodos que a situação desconhecida provoca. Primeiro porque não sabemos se vamos conseguir realizar aquilo ou não. Segundo porque, caso consigamos, temos que suportar entrar em contato com o sucesso, algo que costuma provocar muita turbulência na mente uma vez que evoca sentimentos invejosos, tanto na pessoa que se realiza quanto naqueles que estão a sua volta.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma máxima que deveria ser levada muito a sério: é preciso ter mente para suportar o bom, o crescimento, o sucesso, o prazer, a vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque vocês acham que muitas pessoas falham na hora H, tremem nas bases, amarelam, fazem gol contra? Ou, o que é ainda pior, passam grande parte da vida reclamando?</p>
<p style="text-align: justify;">Porque existe uma espécie de intuição (mesmo que as pessoas não se deem conta disso) de que, havendo sucesso, haverá trabalho mental a ser feito para que ele possa ser sustentado e não estragado.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista teórico, é isso que Freud descobriu em 1920.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTjh67qMgp3QmtvcRVnkFvMSNv33EZbp1LQEaxAuLEbPblZmZeGPg" alt="" width="129" height="176" />Até então, ele havia considerado que a pulsão tem como finalidade última a busca pelo prazer e a evitação do desprazer. Mas, investigando a brincadeira de seu netinho que insistia em repetir a situação traumática, por meio de um carretel, da separação de sua mãe, e também das pessoas que adoeciam por traumas de guerra, Freud concluiu que, ao lado da pulsão que busca o prazer, a ligação, o crescimento (que ele cunhou de pulsão de vida), existe uma pulsão que visa à desagregação, a ruptura, o retorno ao inanimado e à inércia (chamou isso de pulsão de morte).</p>
<p style="text-align: justify;">Então, funciona da seguinte maneira: a mente necessita fazer um trabalho constante para manter-se investindo na vida. Este investimento pulsional, que na vida diária comparece sob a forma dos nossos sonhos, desejos e projetos de vida, é sempre contrabalanceada por uma força contrária que visa desinvestir, desagregar estes mesmos objetos, sonhos e desejos. Em termos práticos, surge então aquele terrível dilema que todos nós já sentimentos inúmeras vezes: Depois de conseguir dar um passo adiante, vem aquela voz que diz: “Deixa isso pra lá. Não vai dar certo mesmo! É melhor você desistir agora. Vai ser muito difícil conseguir isso que você está querendo.”</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, um dos trabalhos mais fundamentais de um analista é ajudar o seu analisando a não destruir o seu próprio potencial, seus sonhos e desejos pelas suas pulsões destrutivas. Dito em termos mais simplistas: o trabalho do analista (um deles) é ajudar o analisando a (re)conhecer a atuação de suas partes más, destrutivas e invejosas, partes estas que devem ser contidas pelos sentimentos amorosos e mais positivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que a pessoa reconhece estes sentimentos desagradáveis e de muito mau gosto em si mesmo, fica mais fácil a pessoa reconhecer (e se defender) destes mesmos sentimentos nos outros. Pois, uma vez que podemos reconhecer que, depois de um enorme sucesso ou de uma importante conquista, vem aquele desânimo (que em termos psicanalíticos significa a eclosão da inveja na mente), também podemos reconhecer este gesto maldoso no outro também.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, há um agravante que precisa ser levado em conta: o ataque maldoso de alguém que se depara com uma pessoa que está tendo coragem de sonhar e realizar seus sonhos tem uma dupla função. Primeiro, ataca-se o próprio objeto invejável (o trabalho, o terreno, a conquista, etc.). Segundo, ataca-se o próprio ato heróico e corajoso da pessoa que, a despeito do temor e do medo, ousou desejar e se responsabilizar pelo próprio desejo. Pois, se ninguém ousa sonhar e viver de forma intensa e pulsante ao meu lado, não há porque eu me sentir ameaçada e nem me lamentar pelos sonhos que foram maldosamente assassinados por mim. Mas, uma vez que eu me deparo com a coragem de alguém se realizando bravamente na vida, surge a incômoda comparação: se ele está fazendo, porque é que eu não faço também?</p>
<p style="text-align: justify;">Este é, para mim, um dos atos mais heróicos que um ser humano pode realizar: o de se tornar responsável por seu próprio desejo e, na medida do possível, não deixar que ninguém (nem suas partes más e invejosas) destrua aquilo que é precioso para ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma coisa que devia ser ensinada nas escolas, aos pequenos: não se envergonhem de serem realizados, felizes, bem estabelecidos. Não se envergonhem de suas competências, atributos e sucessos. Vão tão longe quanto puderem ir, mas não se traiam. Não sejam menos do  que aquilo que vocês podem ser, pois nunca irão se perdoar por isso. E o que é pior: passarão o resto de suas vidas punindo os seus parceiros e impedindo-os de irem tão alto quanto puderem ir. Pois, se eu não fui, você também não vai!</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ6_a9K6xCcOrQld25w_35P4oMbgSuKk6dTpj6qHM11lR_4q2iHdg" alt="" width="261" height="193" />Gostaria que todos os seres humanos pudessem ter a coragem do nobre guerreiro que prefere morrer na batalha a nunca ter guerreado por um algo em que acredita! Gostaria que vivêssemos até o limite do que pudéssemos viver, inteira e intensamente. Tudo isso devia ser ensinado nas cartilhas e pensado seriamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês já pensaram o quanto mães e pais felizes e realizados na vida poderiam facilitar a vida de seus filhos? Quanta culpa pessoas carregam pelo fato de seus pais, tios, avôs e avós não terem tido a coragem necessária de bancarem seus próprios desejos? Como se realizar quando seus antepassados não tiveram esta coragem? A coragem de assumirem-se felizes ou de, pelo menos, partirem em busca disso? Estas são reflexões profundas e muito sérias que todos aqueles que pretendem serem pais e mães deveriam se fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, como dizia Guimarães Rosa, viver é perigoso e requer muita coragem. A mesma coragem tão lindamente descrita por Gonçalves Dias em “Canção do Tamoio”:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Não chores, meu filho;</em><br />
<em>Não chores, que a vida</em><br />
<em>É luta renhida:</em><br />
<em>Viver é lutar.</em><br />
<em>A vida é combate</em><br />
<em>Que os fracos abate,</em><br />
<em>Que os fortes, os bravos</em><br />
<em>Só pode exaltar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Um dia vivemos!</em><br />
<em>O homem que é forte</em><br />
<em>Não teme da morte:</em><br />
<em>Só teme fugir;</em><br />
<em>No arco que entesa</em><br />
<em>Tem certa uma presa,</em><br />
<em>Quer seja tapuia,</em><br />
<em>Condor ou tapir.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>O forte, o cobarde</em><br />
<em>Seus feitos inveja</em><br />
<em>De o ver na peleja</em><br />
<em>Garboso e feroz;</em><br />
<em>E os tímidos velhos</em><br />
<em>Nos graves concelhos,</em><br />
<em>Curvadas as frontes,</em><br />
<em>Escutam-lhe a voz!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Domina, se vive;</em><br />
<em>Se morre, descansa</em><br />
<em>Des seus na lembrança,</em><br />
<em>Na voz do porvir.</em><br />
<em>Não cures da vida!</em><br />
<em>Sê bravo, sê forte!</em><br />
<em>Não fujas da morte,</em><br />
<em>Que a morte há de vir!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>É pois que és meu filho,</em><br />
<em>Meus brios reveste;</em><br />
<em>Tamoio nascente,</em><br />
<em>Valente serás.</em><br />
<em>Sê duro, guerreiro,</em><br />
<em>Robusto, fragueiro,</em><br />
<em>Brasão dos tamoios</em><br />
<em>Na guerra e na paz.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Teu grito de guerra</em><br />
<em>Retumbe aos ouvidos</em><br />
<em>D´inimigos transidos</em><br />
<em>Por vil comoção;</em><br />
<em>E tremam d´ouvi-lo</em><br />
<em>Pior que o sibilo</em><br />
<em>Das setas ligeiras,</em><br />
<em>Pior que o trovão</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E a mão nessas batas,</em><br />
<em>Querendo calados</em><br />
<em>Os filhos criados</em><br />
<em>Na lei do terror;</em><br />
<em>Teu nome lhes diga,</em><br />
<em>Que a gente inimiga</em><br />
<em>Talvez não escute</em><br />
<em>Sem pranto, sem dor!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Porém se a fortuna,</em><br />
<em>Traindo seus passos,</em><br />
<em>Te arroja nos laços</em><br />
<em>Do inimigo falaz!</em><br />
<em>Na última hora</em><br />
<em>Teus feitos memora,</em><br />
<em>Tranquilos nos gestos,</em><br />
<em>Impávido, audaz.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E cai como o tronco</em><br />
<em>Do raio tocado,</em><br />
<em>Partido, rojado</em><br />
<em>Por larga extensão;</em><br />
<em>Assim morre o forte!</em><br />
<em>No passo da morte</em><br />
<em>Triunfa, conquista</em><br />
<em>Mais alto brasão.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As armas ensaia,</em><br />
<em>Penetra na vida:</em><br />
<em>Pesada ou querida,</em><br />
<em>Viver é lutar.</em><br />
<em>Se o duro combate</em><br />
<em>Os fracos abate,</em><br />
<em>Aos fortes, aos bravos,</em><br />
<em>Só pode exaltar.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia/">A coragem nossa de cada dia</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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