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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>O problema da procriação em Freud.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jun 2017 18:34:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[procriação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda o problema da procriação em Freud, partindo do texto Sobre o Narcisismo: uma introdução. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-problema-da-procriacao-em-freud/">O problema da procriação em Freud.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/download-1.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1800 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/download-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O ato de procriar nos animais que têm seu comportamento sexual definido unicamente pelo instinto não é um problema moral. O que significa dizer que ele está fora do âmbito da escolha.</p>
<p>Mas o mesmo não acontece com os seres humanos, em que o ato de procriar inscreve-se – ou pelo menos deveria inscrever-se &#8211;  na problemática moral da escolha. Porque verdadeiramente desejo dar a vida a alguém é uma questão com à qual o ser humano minimamente inscrito na cultura deveria se debater em algum momento de sua vida.</p>
<p>Nesse sentido, será meu propósito neste texto, resgatar o que Freud postula a respeito do ato procriador nos seres humanos, a partir de suas reflexões no texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” e mostrar como aquilo que ele coloca lá, e que está implicado no ato procriador, costuma estar radicalmente recalcado no âmbito da cultura.</p>
<p><span id="more-1799"></span></p>
<p>Ressalto, antes de iniciar, que minha reflexão neste segundo quesito ficará centrada no âmbito do querer, ou seja, das demandas conscientes pelo ato procriador, demandas estas revestidas dos estereótipos sociais que circulam em uma dada cultura, e que estão sempre atrasadas em relação às práticas de vida dos sujeitos, colocadas em jogo no quotidiano. É exatamente este dissenso que cria as contradições entre aquilo que o sujeito diz que deveria fazer ou que deveria querer (discurso que se inscreve, sobretudo, na instância superegóica) e aquilo que ele efetivamente faz ou deseja para sua vida, que é o que está na ordem do inconsciente, e que só pode ser sondado em análise.</p>
<p>Esta diferenciação é de grande relevância para o psicanalista que na clínica escuta as abissais contradições entre o desejo emanado do inconsciente (o único verdadeiro gerador da implicação humana com seus atos) e o querer do ego-consciente, que produz atos desimplicados e, portanto, destituídos de sentido para o ser.</p>
<p><strong>Sobre o narcisismo: uma introdução.</strong></p>
<p>No texto sobre o narcisismo, escrito em 1914, Freud procura elaborar o que é este conceito, fundamental para compreender a experiência humana. Além de ligá-lo à uma perspectiva patológica inscrita no campo da perversão (que não nos interessa aqui), Freud argumenta que o narcisismo é uma experiência humana universal, ocorrida em certo momento do desenvolvimento, e que se centra em um completo e absoluto estado de apaixonamento por si mesmo e também de engrandecimento da potência do Eu. Este estado de apaixonamento por si mesmo deixará rastros inelutáveis pelo resto de nossas vidas e será algo que nenhum de nós conseguirá abandonar completamente. Freud diz que é muito difícil para o psicanalista apreender este fenômeno à olho nu, mas que ele pode observar fenômenos humanos em que seria possível inferir a presença de tal estado psíquico. Seriam eles: a vida mental das crianças e dos povos primitivos, certos estados patológicos e em determinadas formas de amar, dentre as quais, a forma como os pais “amam” sua prole.</p>
<p>Ou seja, para Freud, na forma mágica de pensar das crianças e dos povos primitivos, em determinados estados patológicos, mas sobretudo, na forma como os pais “amam” sua prole, o psicanalista poderia reconhecer traços do narcisismo, ou seja, deste estado de apaixonamento do sujeito por si mesmo. Neste último caso, o filho seria amado porque representaria narcisicamente a continuidade e o espelhamento dos pais.</p>
<p>Mas o pensamento de Freud é complexo e ele insinua ao longo do texto que haveria uma outra possibilidade amorosa implicada no ato de procriação, e que esta sim, poderia vir escrita sem aspas, porque seria o amor mesmo em um sentido altamente altruísta. Freud elabora esta ideia da seguinte maneira.</p>
<p>Partindo de uma perspectiva dúplice a respeito dos instintos, Freud acentua que a saída possível para o encimesmamento narcísico seria o amor objetal, que na prática, significaria uma abertura generosa para o estranho que o Outro sempre é para mim.</p>
<p>No âmbito da sexualidade, esta mesma existência dúplice aconteceria no sujeito. Uma que levaria em conta tão somente suas próprias finalidades individuais e narcísicas (algo como sendo minha prole um espelho meu que serviria para me satisfazer), e outra em que o sujeito estaria forçado a entrar no elo de uma corrente que o transcende, e que ele, portanto, serviria mesmo contra a sua vontade individual. Freud diz textualmente que no exercício da sexualidade procriativa o sujeito é</p>
<p>“(&#8230;) <em>um apêndice de seu germoplasma, a cuja disposição põe suas energias em troca de uma retribuição de prazer. <strong>Ele é o veículo mortal de uma substância possivelmente imortal – como o herdeiro de uma propriedade inalienável, que é o único dono temporário de um patrimônio que lhe sobrevive</strong></em>” (p. 87)</p>
<p>Esta afirmação estupenda de Freud nos leva a muitas questões.</p>
<p>Primeiro, que o exercício da sexualidade procriativa não seria fruto de uma escolha consciente do sujeito, mas um imperativo biológico, pois, neste caso, caso o sujeito pudesse, de fato escolher, talvez escolhesse não procriar, uma vez que a sua prole representaria o fim de si mesmo, portanto, sua própria morte individual. É surpreendente vermos Freud postular que, para forçar o sujeito a procriar, e de certo modo morrer, a natureza teria nos dado em troca uma quota de prazer sexual, algo sem o qual possivelmente não procriaríamos mais, ou só o faríamos com grande dose de renúncia narcísica.</p>
<p>Isso de fato acontece na prática cotidiana da procriação, embora as pessoas quase nunca se deem conta deste jogo perigoso de vida e morte que implica o ato procriador. Os futuros pais, e o caldo de cultura em geral onde circulam discursos do senso-comum que têm a função de sedimentar a continuidade destas práticas, e de recalcar a angústia implicada no ato de procriação, não se dão conta de que, no ato procriador mesmo, tal como se dá em nossa reprodução sexuada, para que um feto possa ser gerado, óvulo e espermatozoide (as células germinais que representam a sobrevivência egoísta da mãe e do pai) devem morrer. Assim, o filho gerado, será a um só tempo, a representação da continuidade, mas sobretudo da descontinuidade destes dois seres que, altruísta ou enganosamente, decidiram lhe dar a vida.</p>
<p>Seria, inclusive, muito interessante investigarmos o papel do ódio inconsciente ao estranho que representa o feto-criança, nas situações clínicas como depressão pós-parto, nos abortos espontâneos que ocorrem nos primeiros meses de gravidez, bem como nos “acidentes” que costumam acontecer envolvendo crianças pequenas e seus pais.</p>
<p>Ora, a percepção arguta de Freud a respeito da absoluta renúncia narcísica implicada no ato procriador contrasta radicalmente com as motivações que circulam no senso-comum a respeito do porque se deve querer um filho, e que dentro do discurso freudiano estaria posto do lado de um amor narcísico.</p>
<p>Diz-se, por exemplo, que se quer um filho para que ele seja um continuador de você e de seus genes, ou que se quer um filho para que ele cuide de você na velhice, ou ainda, para que ele herde os seus bens (empresa, nome da família, etc), ou simplesmente porque se quer ter um quartinho de bebê em casa.</p>
<p>Nota-se que em todas estas motivações o que está implicado é um anseio narcísico dos pais, seja por continuidade, seja por proteção infantil, em que não está preservado, nem de longe, o interesse do futuro sujeito, a quem nem sequer ainda lhe foi dada à vida, mas que já é requisitado a pagar alto preço em troca deste presente de grego.</p>
<p>Pois, esta vida, assim barganhada desde o início, mereceria mesmo ser vivida?</p>
<p>Vale mesmo a vida a pena, na medida em que quase toda ela será gasta pelo sujeito de existência barganhada, para tentar descobrir quem ele é no meio de tantas demandas alheias? E depois mais um outro tanto de tempo (talvez o próprio tempo de vida dele), para aprender a suportar a cara feia com que seus pais e seus conterrâneos o olharão por ele não mais querer aquilo que os outros quiseram que ele quisesse?</p>
<p>Não é um tanto quanto cruel pensar que queremos uma criança porque queremos que alguém cuide de nós na velhice, ou porque queremos que alguém continue a nossa empresa, ou porque amamos tanto os nossos genes que queremos que ele se perpetue na terra, ou porque queremos poder continuar brincando de mamãe e filhinho no nosso lindo quarto decorado de infância?</p>
<p>Tais motivações não seriam o antagonismo daquilo que Freud propõe que seja o verdadeiro ato ético procriador e que seria a plena aceitação da nossa morte e insignificância como indivíduos, para podermos dar lugar à um outro sujeito, pleno de potencialidades que, espera-se, possa nos superar e rapidamente esquecer que nós existimos para poder, ele mesmo, seguir o famigerado caminho em direção à sua própria morte?</p>
<p>Pois me parece que é isso que Freud quis dizer com sermos um apêndice do germoplasma que sobrevive à nós. A vida – isso que ele chamou de germoplasma – não é nossa mesma. Como me disse outro dia uma amiga: “Estamos aqui de aluguel. ”</p>
<p>A continuidade da existência do filho representa concreta e simbolicamente a morte dos pais, na sua absoluta descontinuidade e insignificância para a vida mesma. Para tomar lugar como apêndice na continuidade do germoplasma da vida, os pais enquanto sujeitos individuais devem saber perder sua existência, dando àquele que lhe sobrevive, o direito a continuar sua vida antes e depois de sua morte.</p>
<p>A negação desta realidade é tão maciça entre os seres humanos que é mesmo chocante dizer aos pais que eles precisam preparar seus filhos para o fato de que eles próprios, os pais, morrerão. O que está implicado neste ponto cego é exatamente o anseio de continuidade narcísica do eu. Também é chocante para os pais a perspectiva de que o ato de dar a vida deveria ser absolutamente altruísta: você dá a vida, cuida dela, sem esperar absolutamente nada em troca, nem reconhecimento, nem qualquer tipo de compensação. Para Lacan, esta seria a única possibilidade de se falar em uma real experiência amorosa: Dar aquilo que não se tem. Todo o resto, é barganha.</p>
<p>A experiência da procriação humana resulta, portanto, em descontinuidade narcísica e em selo de insignificância dos genitores, e não o contrário, como pensa comumemente o senso-comum. Você já parou para pensar que as crianças nem sequer sabem da existência de seus tataravôs e tataravós? Ora, se para a experiência humana continuar existindo para alguém é ser guardado na memória, em menos de duas gerações os tataravôs e tataravós deixarão de existir, ou seja, cairão no completo e poeirento vazio da inexistência.</p>
<p>Isso não é um drama no mundo dos instintos animais porque o animal não tem consciência de si mesmo e, portanto, não está aferrado narcisicamente a um anseio de continuidade, ou seja, de continuar existindo eternamente no tempo. Dito de outro modo, para o animal pouco importa se ele é insignificante para a natureza. Tudo o que ele quer é preservar sua existência a qualquer custo. Ele não é hipócrita, nesse sentido. Deste sentimento arrogante só o homem sofre porque lhe é absolutamente terrificante a perspectiva de que, tendo consciência de sua existência, ele deixará de existir um dia. Como o mundo continuará sem mim?; é o que pensará o sujeito ultrajado. Penso inclusive que o que mais aterroriza o ser humano não é o medo da morte, mas o medo de deixar de existir, que são coisas bem diferentes.</p>
<p>Entretanto, tal versão, violenta e competitiva, do ato procriador não costuma entrar em cena no discurso das pessoas, exceto em uma análise ou em sintomas patológicos, que é por onde o inconsciente tenta falar.</p>
<p>Só para citar três exemplos que me ocorrem de alguma mínima percepção deste jogo de vida e morte envolvido no ato procriador, lembro-me de uma amiga que recém descobriu sua gravidez e que se queixava comigo ao telefone de que estava extenuada e completamente sem energias. Enquanto à ouvia, pensava na relação de certo modo vampirizante que uma vida incipiente mantêm com seu objeto hospedeiro, o que explicaria bastante bem a extenuação libidinal de minha amiga.</p>
<p>Acontece então que se a mulher-hospedeira não puder abdicar de seu gozo narcísico com a criança, mas, ao contrário, solicitar dela o pagamento em troca de ter lhe dado tudo (inclusive, a vida), a relação pode vir a se tornar neurotizante no futuro. Daí a importância das mães poderem ter outras fontes de satisfação narcísica, para além da maternidade. Ou, para usar um conceito muito cara aos analistas, que ela possa ter acesso à outras formas de potência de realização fálica. Pois, se isso não acontece, a mãe tenderá a erotizar por demasia o seu bebê, colocando-o como única função de gozo em sua vida, e é aí que a relação neurotizante se instala: a criança fica impedida de crescer porque precisa satisfazer a mãe falicamente, e a mãe se sente culpada perante a criança por vir a ter outras formas de satisfação, para além da maternidade (como a realização profissional, por exemplo).</p>
<p>Esta questão que eu pontuo é importante para que possamos fazer uma psicanálise historizada, materializada. Não foi em todos os momentos históricos que a relação mãe-criança teve o potencial neurotizante tal como assistimos acontecer na aurora da modernidade. Primeiro, que antes a criança não era colocada no lugar do falo dentro da cultura. No período medieval, por exemplo, a criança era considerada um mini-adulto, daí que a categoria social criança, assim como a adolescência, nem sequer existiam.  Foi no momento em que começou a ser dada à mulher a possibilidade de alguma realização fálica pela via da maternidade que os pais, mas sobretudo as mães, viram em seus filhos e filhas a possibilidade de se realizarem falicamente. Isso aconteceu no exato momento histórico em que a família nucelar passou a ter a função de eixo estruturante da subjetividade, função esta antes realizada pelas posições simbólicas de Deus e de seu representante na terra, o Rei. Daí que quando Freud teoriza que o filho é o falo da mulher, ele estava narrativizando psicanaliticamante este momento histórico, em que foi dada à mulher alguma chance de realização de potência, ainda que no âmbito privado, algo que até então estava restrito aos homens. O que a mulher fez então? Agarrou-se à este naco de poder &#8211; o poder materno &#8211; e fez do seu filho uma extensão narcísica sua. A partir daí é que nasce o paciente psicanalítico: com uma mãe que o prende eroticamente, e um pai fragilizado que, por destituição histórica de sua função, não conseguia mais colocar um limite na desmesura feminina. Mas, este tema nos levaria a outro texto&#8230; Então, retomemos o fio da meada.</p>
<p>O outro exemplo me veio quando pensava nesta desmesura perigosa que implica a geração de uma vida foi o de um jovem e arguto psiquiatra que contou em sala de aula o caso de sua paciente que, durante toda sua gravidez, só comia miúdos de frango, algo que ninguém podia entender porquê. Disse a ele que esta sábia e astuta mulher estava percebendo inconscientemente o quão visceral e sanguinolento era gerar uma criança em seu ventre, e depois expeli-la para fora. Esta esquisitice alimentar era, portanto, o único jeito que ela estava encontrando de colocar este excesso de Real, que é a geração de uma vida, em uma cadeia de significantes. Na falta de mentes corajosas para falar sobre o quão assustadoramente visceral e assassino-suicida é um parto, só restava a ela comer miúdos de frango, identificando-se oralmente, ela própria, com as vísceras do bicho totêmico.</p>
<p>Um último exemplo que me ocorre me veio da minha insistente curiosidade a respeito de como vivem os bichos. Certo dia vi a cena de uma mãe passarinha comendo restos de seu próprio ovo. Chocante não? Só para os muito românticos. Na verdade, ela só estava fazendo aquilo que Freud pontuou insistentemente ser a lógica do instinto: colocando acima de qualquer outro imperativo biológico, sua própria sobrevivência individual. Ora, não é isso o que fazemos todos nós, mesmo que hipocritamente digamos que não?</p>
<p>Pois, finalizando, uma das grandes mensagens que Freud nos deixou neste texto, é que, por trás de todo ato amoroso, encontraremos sempre os rastros de um narcisismo nunca abandonado; porque é só com muita renúncia e dor que abdicamos do nosso Eu em detrimento do Outro. Mesmo no amor mais “altruísta”, aquilo que amamos no Outro é quase sempre um reduto do que fomos, do que somos ou do que queremos ser nós próprios.</p>
<p>Para aqueles que se interessam pelo tema e querem aprofundar suas reflexões, sugiro os livros:</p>
<p>Bataille, Georges. (1957). <em>O Erotismo.</em> Porto Alegre: L &amp; PM.</p>
<p>Cabrera, Júlio. (2009). <em>Por que te amo, não nascerás.</em> Brasília: LGE Editora.</p>
<p>Freud, Sigmund. (1996). Sobre o narcisismo: uma introdução. In.: Freud, Sigmund. <em>Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira</em>. Volume XIV, pp. 77-110. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-problema-da-procriacao-em-freud/">O problema da procriação em Freud.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Mata-se uma criança &#8211; parte I</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Oct 2014 18:56:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[amor materno]]></category>
		<category><![CDATA[Badinter]]></category>
		<category><![CDATA[complexo de édipo]]></category>
		<category><![CDATA[Narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas. Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Mata-se uma criança &#8211; parte I</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/10/download-6.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1241 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/10/download-6-150x150.jpg" alt="download (6)" width="150" height="150" /></a>Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e a mãe da criança edipiana. Mas, a fantasia de matar crianças, animada pela mente dos genitores, é algo, segundo ele, fortemente evitado e que causa repulsa.</p>
<p style="text-align: justify;">Sustentando sua argumentação, cita que na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, o personagem trágico Édipo só assassinou o pai e desposou a mãe porque a criança, que foi enviada pelo pai para morrer no monte Citerão, foi encontrada por um pastor. Para quem não conhece a tragédia, vamos a um breve resumo:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1240"></span></p>
<p style="text-align: justify;">                <em>Laio, pai de Édipo e rei de Tebas, foi amaldiçoado pelos deuses por ter seduzido Crisipo, filho do rei Pélope. Consultando o oráculo de Delfos, Laio é informado de que sua maldição consistia em que seu filho primogênito ainda não nascido, Édipo, o mataria e desposaria sua mulher, Jocasta. Frente ao horror deste possível desfecho – de parricídio e incesto – Laio manda matar Édipo assim que a criança nasce. Encontrado por um pastor no monte Citerão com os pés amarrados e prestes a morrer, Édipo é entregue a Pólipo, rei de Corinto e criado por ele e sua esposa como se fosse seu filho legítimo. Já adulto e, interessado em saber sobre origens, consulta o oráculo de Delfos que, mais uma vez, lhe fala a respeito de sua maldição: matar seu pai e casar com sua mãe. Horrorizado frente à possibilidade de matar Pólipo, foge de Corinto para Atenas. Sem saber, ia ao encontro do seu destino tão temido. No caminho, encontra uma caravana, liderada por Laio (seu pai verdadeiro) e mata a todos, inclusive Laio. Já em Tebas, resolve o enigma da esfinge e, como recompensa, casa-se com a viúva Jocasta, com quem tem vários filhos (Antígona, Polinices, Etéocles e Eumênides). A partir daí a cidade começa a ser dizimada por um terrível peste. Questionando o oráculo, este lhe informa que a peste se deve ao fato de que o verdadeiro assassino do rei Laio estava na cidade. A peste só cessaria quando o assassino fosse descoberto. Depois de investigações do próprio Édipo que vai paulatinamente se aproximando da verdade – que era ele o assassino do pai e o filho incestuoso – o cego Tirésias lhe revela toda a verdade confirmando ser ele o parricida gerador da peste. Frente ao horror da verdade, Édipo fura os olhos e é exilado, por longos anos, em Colono. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Leclaire chama a atenção para o pouco foco que se dá aos elementos da tragédia que antecedem o parricídio e o incesto embora determinantes no destino funesto de Édipo. São eles: homossexualidade de Laio e intento de assassinar o filho que, vivo, revelaria ao pai seu crime sexual e maldição. E é por aí que transita Leclaire.</p>
<p style="text-align: justify;">Questionando, a partir da peça trágica, quais as motivações inconscientes que animam o desejo dos genitores de matar sua criança, ele enumera algumas delas, que eu pretendo discutir neste e nos próximos textos. São elas:</p>
<p>1)      A criança real não é a “criança maravilhosa” do narcisismo dos pais.</p>
<p>2)      A criança carrega consigo segredos sexuais dos pais.</p>
<p>3)      A criança revela, em estado bruto, a ausência do recalque.</p>
<p>4)      A criança fala, embora esta seja uma “outra” fala.</p>
<p>Vejamos o primeiro aspecto:</p>
<p style="text-align: justify;">O que é a “criança maravilhosa”? Em &#8220;As sete invejas capitais&#8221; Chuster e Trachtemberg (2009), comentando as ideias de Leclaire, lembram o seguinte: que apesar de Freud ter dito que o ódio é mais antigo que o amor no psiquismo, esta premissa não é válida quando se trata do eu. Ou seja, somente no caso do eu, o amor é mais antigo que o ódio. O que significa isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Que o primeiro objeto de amor que nós temos na vida é a gente mesmo. Na psicanálise chamamos isso de narcisismo primário. Dito em termos bem simplistas: cada ser humano, lá nos recônditos de sua mente, nutre uma profunda paixão por si mesmo (já repararam como a gente não resiste a um espelho e quão fascinados ficamos pela nossa própria imagem?). Esta é a nossa “criança maravilhosa” ou “sua majestade, o bebê” (como Freud chamava) que habita desde sempre o nosso psiquismo. Pois bem. Quando um casal vai ter um bebê, Freud (1914) diz, eles depositam neste bebê imaginário (que ainda não nasceu, exceto na cabeça dos futuros pais) esta “criança maravilhosa” que eles, os pais, foram e no inconsciente ainda são. Então estes futuros pais acalentam a ideia inconsciente de que irão poder reencontrar suas “crianças maravilhosas” em seus filhos. Por isso Freud diz: é o narcisismo dos pais que anima o narcisismo da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aí tudo bem. Mas, qual o entrave aqui? Quando a criança real nasce os pais, paulatinamente, terão que ir fazendo o luto pelo fato de que esta criança real não é a “criança maravilhosa” (eles próprios) que esperavam. Por ser, como o nome diz, uma criança real, é diferente dos pais. Acontece que, de forma muito inconsciente, a criança percebe as expectativas que os pais depositam nela (de suas “crianças maravilhosas”) e para receber o que consideram o amor destes, ela fará de tudo para corresponder a esta “criança maravilhosa” que há dentro da mente dos pais. Bem, já podem imaginar a quantidade de enroscos que isso gera, tanto na vida dos pais quanto na vida da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai espera que seu filho seja mais bem sucedido, mais feliz, mais esportista, mais potente do que ele foi. A mãe espera que sua filha se case com o homem dos seus sonhos ou que ela não se destaque mais do que ela própria (quando há competição e rivalidade excessivas). O sofrimento é geral, principalmente porque esta “criança maravilhosa” não é consciente para os pais. Ou seja, eles não sabem que nutrem estas expectativas com relação aos filhos.  Lacan partiu daí para considerar, no campo da patologia, que, por exemplo, a mãe  histérica goza com o filho como se este fosse seu falo.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom, então já dá pra começar a entender porque os pais nutrem, lá no fundo de suas almas, um desejo inconfessável de que seu filho ou filha morra: ele ou ela me frustra, frustra a minha “criança maravilhosa”. Isso explica bastante bem a depressão pós-parto e o incontável número de “acidentes” que ocorrem com bebês pequenos. Também explica o “esquecimento” de crianças dentro de carros, a queda de janelas, a violência física e sexual cometida contra crianças na família e na escola. Para Chuster e Trachtemberg, não dá pra entender o comportamento humano com as crianças sem levar em conta o desejo de “matar a criança”. Citam e se perguntam: quando uma criança é abusada sexualmente, o que o abusador mata nela não é a criança que é morta por não estar preparada para lidar com aquele excesso de sexualidade?</p>
<p style="text-align: justify;">No indigesto filme “Anticristo” esta questão – a concretização do desejo de assassinato da criança em um casal bastante narcísico – é retratada de forma nua e crua.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, quando a mãe não é muito narcísica os sentimentos de ódio e desejo de que a criança morra são recalcados e transformados no seu contrário: amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Inclusive, do ponto de vista histórico, é possível hipotetizar que ao longo da evolução cultural – o que significa em termos psicanalíticos a instância superegóica, representante da lei, colocando algum freio nos impulsos – houve tentativas cada vez mais substanciais de recalque desde desejo de matar a criança. Badinter (1980) em “O mito do amor materno” faz uma extensa revisão histórica para mostrar como na Idade Média, por exemplo, era extremamente comum e corriqueiro que uma mãe deixasse seu filho no lixo ou o desse para alguém. O sentimento de “amor materno” não existia, tal como o compreendemos hoje. Do ponto de vista psicanalítico, os mecanismos de recalque ainda não estavam bem instalados culturalmente. Portanto, noções como culpa e remorso não fazia parte do vocabulário daquelas mulheres. Pois, este sentimento só existe quando, no psiquismo, está havendo uma luta intensa entre os sentimentos de amor e ódio, sendo a culpa o resultado desta disputa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à questão “mata-se uma criança”, podemos fazer um exercício interessante de pensar como este desejo comparece em nossa sociedade dita “civilizada” como uma forma de solução de compromisso entre o desejo e a repressão.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas coisas me vêm à mente: Rituais de iniciação como batismo, por exemplo. Como não pensar na cena da criança tendo a cabeça molhada ou afundada na água (como acontece em algumas religiões) como uma cena que representa a um só tempo, um novo nascimento, mas também a cena de um afogamento? Sabe-se, por exemplo, que em povos ditos mais “primitivos” rituais de iniciação que marcam diferentes fases da vida costumam ser bastante violentos.  E as cantigas infantis? “Dorme neném que a cuca vem pegar. Papai foi na roça, mamãe foi passear”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que diz esta aparentemente tão inocente canção: papai e mamãe foram cuidar da vida deles e você ficará dormindo sozinho. Qualquer alusão à cena edípica (pai e mãe fazendo coisas juntos e um bebê sozinho não é mera coincidência). E o que acontece com uma criança que fica sozinha? Morre&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, os exemplos são inúmeros. Já fui questionada se estas cantigas de ninar “fazem mal”. Certamente que não. Se elas foram criadas ao longo do processo de formação cultural, devem servir a algum propósito. E a psicanálise nos ajuda a entender qual seja ele: transformar em narrativa, em uma história possível desejos sinistros que assombram a mente de pais, mães e filhos desde sempre. Por isso, viva as cantigas de ninar e os rituais de passagem!</p>
<p style="text-align: justify;">Nos próximos textos comentarei os demais itens elencados por Serge Leclaire.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/">Mata-se uma criança &#8211; parte I</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O mito de Narciso sob a ótica da Psicanálise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 May 2012 12:00:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[Narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar Wilde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta sexta-feira estive no Cinema e Psicanálise e assisti ao filme &#8220;O retrato de Dorian Gray&#8221;, baseado no livro de mesmo título escrito por Oscar Wilde. Vale lembrar que, além deste filme, há outras filmagens da mesma obra, embora eu não as tenha visto. Grande parte das discussões após a exibição do filme giraram em &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-mito-de-narciso-sob-a-otica-da-psicanalise/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O mito de Narciso sob a ótica da Psicanálise</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft  wp-image-502" title="Mito de Narciso" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/04/250px-Michelangelo_Caravaggio_065-247x300.jpg" alt="Mito de Narciso" width="211" height="256" />Nesta sexta-feira estive no Cinema e Psicanálise e assisti ao filme &#8220;O retrato de Dorian Gray&#8221;, baseado no livro de mesmo título escrito por Oscar Wilde. Vale lembrar que, além deste filme, há outras filmagens da mesma obra, embora eu não as tenha visto.</p>
<p style="text-align: justify;">Grande parte das discussões após a exibição do filme giraram em torno da temática do narcisismo. Como o propósito do post não é analisar o filme e sim o narcisismo, sugiro que leiam a obra de Oscar Wilde e assistam ao filme para compreender melhor a discussão.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-501"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, resolvi revisitar mais uma vez o mito de Narciso e passo agora a descrevê-lo na íntegra para que nenhum detalhe se perca.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O mito:</h2>
<p style="text-align: justify;">Narciso, em grego  <em>Nárkissos </em>(<em>nárkes</em>= torpor, de onde deriva a palavra narcótico), era filho de Liríope e Cefiso. Sua mãe muito assustada com a beleza do filho foi procurar o sábio Tirésias que tinha a capacidade de ver o futuro. Ela perguntou se Narciso viveria até ficar velho e ele responde: &#8220;Sim, desde que não veja a própria imagem&#8221;. Narciso seguia rejeitando todas as belas donzelas que, exatamente por isso, nutriam profunda paixão por ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia a bela ninfa Eco (a quem Hera condenou a repetir sempre a última palavra proferida pelos outros dada sua necessidade de sempre ter a última palavra nas discussões) avistou Narciso, que caçava nas montanhas, e se encantou por tamanha beleza. Narciso ouvindo o barulho, perguntou: &#8220;Há alguém aqui?&#8221; e Eco respondeu: &#8220;Aqui?&#8221; Então, Narciso, vendo a ninfa correr em sua direção disse: &#8220;Afaste-se. Prefiro morrer a te deixar me possuir&#8221;. Eco fugiu envergonhada e se refugiou para sempre nas cavernas. Suas carnes definharam de tanta tristeza. Por isso, Narciso fora castigado por Nêmesis a ter um amor impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, um dia, enquanto Narciso caminhava próximo a uma fonte clara, por estar exausto, debruçou-se sobre a fonte e avistou a figura mais perfeita que jamais tinha visto. Não pôde se conter e lançou seus braços em direção àquele ser maravilhoso. Nesse instante, o ser sumiu, para depois retornar. Narciso perguntou: &#8220;Porque me rejeitas, bela criatura? Se quando eu sorrio, você sorri? Se não posso te possuir, que pelo menos eu possa mirar para sempre a sua beleza&#8221;. E assim, Narciso ficou por dias, meses e anos a mirar a imagem maravilhosa na água. Esquecendo-se de se alimentar, seu corpo perdeu paulatinamente o vigor e as cores, até morrer. As ninfas choraram o seu triste destino e no lugar em que estava seu corpo sem vida, nasceu uma linda flor amarela de mesmo nome.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Considerações psicanalíticas sobre o mito:</h2>
<p style="text-align: justify;">Sabemos que os mitos gregos transmitem de forma intensa e poética dramas universais humanos. Penso que a palavra grega <em>nárkes </em>já carrega em si mesma um sentido interessante para discutirmos o torpor, o efeito narcótico e hipnótico que a auto-imagem de Narciso (e de todos nós) possuía sobre ele. E é por isso que o sábio Tirésias disse que ele só poderia chegar à velhice se não avistasse a sua imagem. Nesse sentido, o mito de Narciso contêm uma ideia preciosa sobre a vida e o desenvolvimento mental (chegada à velhice): se não abandonamos esta espécie de torpor ou efeito narcotizante que a nossa imagem (o nosso narcisismo) exerce sobre nós, a vida corre perigo. De acordo com Bion, teremos dificuldade de ir do Narcismo para o Socialismo (vínculos, relação com o outro).</p>
<h2 style="text-align: justify;">Eco busca Narciso:</h2>
<p style="text-align: justify;">É interessante também no mito que seja Eco (que usualmente conhecemos pelo som gerado por uma única voz em lugares grandes e vazios, condição frequentemente encontrada em cavernas) a buscar Narciso. Nesse sentido, podemos considerar que Narciso (aquele que está condenado a amar a si mesmo) não pode se relacionar com nada a não ser com seu próprio Eco.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta passagem, é muito interessante quando Eco diz para Narciso se juntar a ela e ele diz: &#8220;Prefiro morrer a te deixar me possuir&#8221;. Ou seja, não há nada mais assustador e terrível para o narcisismo que se deixar possuir por um outro, que não ele mesmo. E, tanto no caso do mito quanto no caso de Dorian Gray, a &#8220;moral da história&#8221; é a mesma: quando a necessidade dos vínculos é negada, quando há um fechamento da libido em si mesmo, negando-se a própria condição de dependência e fragilidade humana, o que resta é a inanição e a morte.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-511" title="Eco e Narciso" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/05/10056445.jpg" alt="Eco e Narciso" width="276" height="206" /><span style="text-align: justify;">Mas porque assumir a necessidade dos vínculos e a condição de dependência é tão terrível ao narcista? Porque, no caso de Dorian Gray, havia um pacto de amor à própria imagem, que o levou ao enlouquecimento e à morte? Outra questão importante: não haveria dentro de todos nós um estado narcísico (ou pactos narcísicos), que em graus menos ou mais graves, nos levariam à inanição e morte em vida?</span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Vínculos e dependência</h2>
<p style="text-align: justify;">Para responder à primeira questão, é necessário recorrer brevemente a algumas das teorias sobre o narcismo. Freud trouxe contribuições importantes para compreender o narcisismo que, segundo ele, seria um momento desenvolvimental vivido pelo bebê, anterior à descoberta do objeto materno. Segundo Freud, a libido (amor, sexualidade vital) pode estar investida ou catexizada em dois &#8220;lugares&#8221;: 1) no próprio corpo (o que configuraria uma libido narcísica); 2) no objeto, no outro (libido objetal). Para ele, no início, o bebê investe toda sua libido em si mesmo vivendo um estado de completa completude e onipotência. Por isso ele chama o bebê de &#8220;sua majestade&#8221;. Aos poucos, este bebê vai descobrindo a necessidade do objeto (leite, afeto materno) e passa a investir sua libido em seu primeiro objeto de amor: a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Winnicott contribuiu ainda mais com esta compreensão do narcisismo quando disse que, na condição de uma necessidade absoluta do ambiente e de fragilidade física e mental, o bebê precisa que a mãe vá apresentando a ele o mundo em pequenas doses. Por isso, nos primeiros meses de vida, o bebê precisa achar que é ele que cria tudo: o leite, o mundo. É o que ele chama de momento de ilusão. Se a mãe não é sensível o suficiente para tolerar este estado precário do bebê e apresentar a ele o mundo em pequenas doses (porque aqui ele ainda não tem condições de compreender, por exemplo, o que é o tempo e o espaço do seu corpo), falhas cruciais em seu narcisismo vão permanecer e este indivíduo, mesmo adulto, terá dificuldades para dirigir sua libido ao outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns outros autores que discutem o narcisismo, por outro lado, consideram que, muito mais do que falhas ambientais, a organização narcisista da personalidade é gerada por uma intensa ação da pulsão de morte que nega toda a realidade da condição humana: a morte, a precariedade física e mental e a necessidade de dependermos do outro. Segundo tais autores, o narcisista (em graus menos acentuados, todos nós temos uma porção narcisista em nossas personalidades), negariam esta realidade, bem como suas realidades internas (dores, angústias e frustrações).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-513" title="dorian gray" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/05/resenha-dorian-gray-0011-300x164.jpg" alt="dorian gray" width="300" height="164" /></p>
<p style="text-align: justify;">Era o que parecia fazer Dorian quando passou a depositar no quadro (duplo dele) todos os aspectos de sua personalidade que não podiam ser tolerados, sonhados e pensados por ele. Esta realidade alucinatória criada por ele obviamente não poderia se manter por muito tempo porque é falsa e contraria totalmente a condição humana finita, limitada e precária. Por isso, o filme mostra a sua paulatina decadência, sofrimento mental e morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, seja por falhas ambientais (traumas precoces) vividas pelo bebê, seja por fatores constitucionais que carregam a personalidade com altas doses de pulsão de morte, o fato é que o narcisismo, tal como mito mostra tão bem, por negar a dependência e a importância dos vínculos, remete o sujeito à inanição mental e à morte.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O narcisismo nosso de cada dia:</h2>
<p style="text-align: justify;">Levantei uma outra questão intrigante no texto: o narcisismo é um estado patológico ou uma vivência presente (e necessária também) para a manutenção da vida de todos nós? E, se o narcisismo é necessário, quando é que ele começa a ser mortífero e perigoso à vida?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma questão difícil. André Green, importante autor psicanalítico contemporâneo, assevera ser necessário discriminarmos o que é narcisismo de vida e narcisismo de morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Narcisismo de vida, conforme eu compreendo, é tudo aquilo que nos mantêm em contato conosco, com a nossa auto-estima, com o respeito necessário que temos que ter para conosco, para com as nossas ideias, com o nosso corpo e mente. Alimentar-se bem, exercitar-se com regularidade, amar as próprias ideias e criações, embora também sendo capaz de aceitar e conter o diferente&#8230;tudo isso a meu ver é narcisismo de vida e absolutamente crucial para não nos perdermos no outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o narcisismo de morte estaria ligado à uma excessiva e desmedida preocupação consigo mesmo a ponto de nos esquecermos da existência e necessidades do outro que está ao nosso lado bem como o ódio à nossa condição de dependência e finitude. Estas vivências patológicas e intensas, muito presentes em patologias atuais, tais como, os transtornos de personalidade, são muito danosas ao desenvolvimento porque matam qualquer possibilidade de que o sujeito se abra para os vínculos e para o reconhecimento de suas falhas e limitações.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Dorian Gray e Narciso:</h2>
<p style="text-align: justify;">Tanto no caso de Dorian Gray quanto de Narciso o que estava presente era o narcisismo de morte. O que regia suas personalidades era um absoluto ódio diante da condição humana, a arrogância diante do outro e a onipotência. Ressalto que no caso de Dorian Gray, em um dos momentos dramáticos do filme, quando ele mata um de seus melhores amigos, ele parte em uma viagem e envia cartas a um conhecido dizendo que ele era um Deus. Trata-se de um estado delirante e psicótico em que as delimitações entre a realidade e as fantasias ficam borradas, impedindo cada vez mais o sujeito de tolerar suas percepções externas e internas.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Narcisismo e cultura:</h2>
<p>Para finalizar, gostaria de situar que, apesar da obra de Oscar Wilde ter sido escrita em 1890, esta é uma temática ainda muito atual e considero que permanecerá sendo enquanto houver humanos sobre a terra.</p>
<p>Particularmente hoje em dia, pelo fato de vivermos um momento histórico em que as pessoas toleram pouco suas frustrações e condição humana, a temática do narcisismo nunca foi mais atual.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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