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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Wed, 16 Sep 2015 11:39:00 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2015 13:51:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recebi nos últimos meses alguns pedidos de leitores para que eu comentasse o filme lançado no início do ano “Cinquenta tons de cinza”, baseado no livro de mesmo nome. Confesso que não costumo fazer posts por encomenda, já que a motivação para a minha escrita nasce do desejo, de algo que eu vejo, leio ou &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1324 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images-300x156.jpg" alt="images" width="300" height="156" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images-300x156.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images.jpg 311w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Recebi nos últimos meses alguns pedidos de leitores para que eu comentasse o filme lançado no início do ano “Cinquenta tons de cinza”, baseado no livro de mesmo nome. Confesso que não costumo fazer posts por encomenda, já que a motivação para a minha escrita nasce do desejo, de algo que eu vejo, leio ou escuto e que me intriga gerando uma espécie de “comichão interno” que só passa quando eu me ponho diante da tela do computador e deixo o meu inconsciente trabalhar. E dentro de mim não havia nenhum desejo de ver o filme ou de ler o livro. Mas, pensando um pouco melhor a respeito, fiquei curiosa para saber o que, neste filme, havia atraído tantas pessoas. Por isso decidi assisti-lo e averiguar o que seria capaz de comentar sobre ele.</p>
<p><span id="more-1322"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se o livro é do mesmo teor do filme, mas assisti-lo me provocou um grande mal-estar e meu intuito neste texto é pensar por que. Depois será meu intuito refletir sobre a qualidade das vivências contidas neste filme e o que elas possivelmente evocam no espectador (ou no leitor).</p>
<p style="text-align: justify;">A história é a seguinte: Anastasia era uma jovem de 21 anos que até o presente instante não havia tido qualquer tipo de experiência sexual. Era, como ela mesma se descrevia, uma jovem romântica à espera de um grande amor para descobrir os prazeres do sexo. Trabalhava em uma loja de ferragens e morava em uma espécie de república com uma amiga que, nós poderíamos pensar, era o seu alter-ego. Esta sua amiga era concretamente o outro eu de Anastasia, ou seja, um aspecto dela própria que ela desconhecia em si mesma e que começará a se manifestar no seu encontro com o jovem sádico Christian. Esta sua amiga era atraente e mantinha relações promíscuas com os rapazes. Em suma, ela realizava os desejos sexuais perversos que, é provável, Anastasia negasse em si mesma.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Então, podemos nos perguntar: o que é uma pessoa romântica?</h2>
<p style="text-align: justify;">Uma pessoa romântica, numa reflexão psicanalítica, é alguém que nega a existência das pulsões agressivas e sexuais, em si mesma e no outro. Uma pessoa romântica quase sempre está esperando o melhor do outro, ela não enxerga os perigos da vida porque, em seu universo ideal, ela nega que o outro possa ser fonte de perigo, por causa de sua violência e crueldade ou por causa de sua sexualidade perversa. Uma pessoa romântica também costuma negar sua própria violência e sexualidade perversa, por isso tem muita dificuldade para se proteger das invasões e folgas das pessoas e acaba, quase sempre, metendo-se em enrascadas sem perceber sua parcela de responsabilidade nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">E é assim que o filme se inicia: Anastasia vai entrevistar Christian no lugar de sua amiga alter-ego. Fica bastante claro que a amiga folgada a usa nesta situação, diante da qual a romântica Anastasia mostra-se sem defesas. Em suma, ela se deixa ser usada pelo outro e é bastante provável que extraia algum tipo de prazer masoquista frente a estas situações. Anastasia, então, apresenta-se nesta entrevista ao sádico Christian (também seu alter-ego) com toda sua “docilidade” e “ingenuidade”. Pelo menos é assim que ela acredita ser; por isso uso as aspas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que Christian pressente, cheira que aquela jovem é uma potencial vítima sua. Ele cheira que ela é uma masoquista. Ele pressente que Anastasia sente prazer em ser submissa e dominada. Já ele, Christian, é a sua cara-metade. Ele é alguém que tem sua sexualidade fixada no sadismo. Ele é alguém que só sente prazer e só sabe se “relacionar” com o outro por meio da dominação e da violência. Deste encontro, fecha-se o vínculo: o sádico encontra a masoquista e eles começam a se “relacionar”. Christian dá vários indícios à Anastasia de que ela corre perigo. Ela, romântica, ingênua e negando o perigo bem como seus próprios desejos masoquistas, diz que ele pode se transformar pelo amor. Dá a entender que, no fundo, ele nunca pôde ser diferente porque nunca amou de verdade alguém. Movida por este engodo, sobre si mesma e sobre a sexualidade doentia de Christian, ela não o escuta. Ele apresenta a ela as regras contratuais, caso venham a se relacionar: ela não pode beber, ele não pode perdê-la de vista, ela tem que colocar o limite sobre o que ele pode ou não fazer com ela (introduzir objetos no ânus, dedo na vagina, amarrar, queimar, furar, etc.), eles não terão encontros “normais”, como se fossem namorados e, o mais importante, nunca vão dormir juntos (isso seria muito íntimo para ele).</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, Christian diz a ela que só consegue ficar ao seu lado se ela se apresentar a ele como um objeto e não como uma pessoa. Ela deve se submeter a ele. Depois de muito vai-e-vem, ela aceita. Há um diálogo interessante entre eles quando ela, já tentando se desvencilhar do controle sufocante de seu “amado”, vai até a casa de sua mãe (também uma romântica) e ele a segue até lá. Ele diz assim: “Você vai gostar do que vai acontecer com você. Deixar-se ser dominada é um modo de não assumir responsabilidades, não fazer escolhas. É só se deixar levar”. Ela, mais uma vez, aceita.</p>
<p style="text-align: justify;">A coisa vai seguindo até que Anastasia começa a perceber a gravidade da situação. Christian mostra-se frio, distante, não pode ser um namorado para ela, levá-la para jantar, não pode deixar que ela o toque. Em suma, não está psiquicamente disponível para ela. Então, a jovem diz: “Tudo bem, me mostre o que de pior você pode fazer comigo”. Em resumo, ela diz: “Ok, vamos parar com este jogo de faz-de-conta. Seja quem você é de verdade”. Ele mostra: leva-a a sala de tortura e bate violentamente nela.</p>
<p style="text-align: justify;">Anastasia-cinderela acorda de seu conto de fadas. Contando com seus recursos internos (seu aspecto que não cedeu ao prazer masoquista que ela sentia em ser dominada), Anastasia se dá conta de que não havia uma relação entre ela e Christian e que nunca poderia haver. Christian era uma pessoa doente, muito doente. Alguém que nunca pôde (e talvez nunca pudesse vir a) apreender o que era uma mulher. O único modo de “relação” que podia estabelecer era o da superioridade-inferioridade, do dominador-dominado, do mais (homem) e do menos (mulher). Christian era um perverso. A sexualidade de Anastasia também era animada por elementos perversos (masoquistas), como é animada a de todos nós, mas ela tinha mais recursos internos para não sucumbir à doença. Por isso partiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos agora um<a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1300 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise-150x150.jpg" alt="imagem-curso-psicanalise" width="150" height="150" /></a>a pausa para alguns alinhavos com a teoria psicanalítica das perversões.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira vez que Freud sistematizou seu pensamento acerca das perversões foi no seu célebre artigo “Três ensaios sobre a sexualidade”, publicado pela primeira vez em 1905. Curiosamente este texto, junto de “Interpretação dos sonhos” (1900) foi o que Freud mais modificou ao longo de sua obra. Em parte isso se deveu ao fato de que a teoria sexual elaborada por ele – cerne da psicanálise – foi fruto de muitas reelaborações posteriores por parte do autor.</p>
<h2 style="text-align: justify;"> Mas, o que ele diz neste texto sobre as perversões e mais especificamente sobre o sadismo / masoquismo?</h2>
<p style="text-align: justify;">Freud descobriu em suas investigações clínicas que a sexualidade infantil é orientada pelo que ele chamou de sexualidade perverso-polimorfa. O que seria isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Sexualidade perverso-polimorfa é toda forma de manifestação da sexualidade que não se relaciona aos órgãos genitais (pênis e vagina).</p>
<p style="text-align: justify;">Então, Freud descobriu que a criança sente prazer sexual de várias formas: ela sente prazer em sugar o seio da mãe, ela sente prazer em ser tocada em sua pele, em evacuar com violência, depois de reter as fezes, fazendo-as passar com volúpia pelo ânus, em ver os órgãos genitais alheios e em exibir os seus próprios.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela também sente prazer em provocar dor no outro. Esta forma de obtenção de prazer Freud chamou de sádica. Sua explicação para isso resume-se a uma espécie de fusão ou confluência entre a pulsão sexual (libido) e a agressiva. O auge da manifestação desta forma de prazer sexual se dá por volta dos dois anos, quando a criança, no auge do seu sadismo, sente prazer em controlar o outro (normalmente a mãe) com suas vontades e desejos. A mãe diz: “Vai tomar banho.” A criança responde triunfante: “Não”. Nesta fase a criança também sente prazer em maltratar animais e outras crianças. E também sente prazer em se provocar dor. A esta reversão do sadismo para o próprio ego Freud chamou masoquismo. Importante aqui é considerar que estas formas perversas da sexualidade sempre comparecem aos pares, como é bem descrito no filme. Então, temos o par sadismo-masoquismo e o par exibicionismo-voyeurismo. Dito em termos mais simplistas, onde há a pulsão sádica, há seu reverso, o masoquismo. Onde há o desejo de se ver o genital alheio, há o desejo de exibir o seu próprio.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda algo importante a ser dito. Para Freud, a expressão da sexualidade perversa, no caso, a sádica, não pode ser considerada doença enquanto se manifesta de forma plural (ou seja, de várias maneiras) na infância e nem de forma compulsiva / exclusiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ele, a perversão passa a ser considerada uma doença quando ela se manifesta na vida adulta: 1) de forma exclusiva e compulsiva, ou seja, a pessoa só sente prazer submetendo o outro ou sentindo dor, por exemplo; 2) quando esta forma de prazer substitui o prazer genital. Por isso dizemos que Anastasia era menos doente que Christian.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, na medida em que pulsão sádica se expressa, digamos, como uma forma preliminar de obtenção de prazer que culminará no encontro sexual-genital com o outro, isso não pode ser considerado doença. No senso-comum vemos a manifestação desta pulsão sádica, de forma não exclusiva, por exemplo, no dito popular: “Um tapinha não dói”, dito este que frequentemente vemos evocar músicas que fazem as pessoas dançarem mobilizadas por este tipo de fantasia sádica.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra coisa problemática do estabelecimento da sexualidade perversa de forma compulsiva e exclusiva (na psicanálise, dizemos que houve uma fixação) é que, por ela se dar no período do sadismo anal, a pessoa não pôde atingir em seu desenvolvimento aquilo que chamamos de uma relação de objeto total. Para a pessoa fixada na sexualidade perversa o outro não é uma pessoa, diferente dela. O outro é visto como um objeto (parte de si mesmo). Como nesta etapa a criança ainda não compreende a diferença entre os sexos, pessoas fixadas neste período acabarão por ver a mulher como um ser inferior (sem pênis) e o homem como um ser superior (com pênis). A única diferenciação possível aqui é entre o ativo e o passivo, o superior e o inferior. O respeito à alteridade não está presente neste tipo de vivência. Esta questão é bastante evidente no filme: Christian nutria desprezo pela figura feminina. Em seu inconsciente a figura feminina estava associada a um menos. Só servia para ser submissa e mandada. Foi isso que Anastasia não suportou e é por isso que o filme evoca mal-estar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mal-estar advém do fato de que o que vemos se desenrolar na tela não é uma história de amor (um homem e uma mulher, com funções diferentes e complementares). O que vemos é algo doentio, sufocante. É como se fossemos adentrando uma espécie de bolha no qual os dois personagens matam e deixam-se matar. Digo isso porque o sofrimento do perverso é evidente: ele está condenado a não poder se relacionar de verdade, exceto se o outro se adequar exatamente às suas premissas, o que é impossível numa relação humana. Ficamos felizes no final por Anastasia conseguir partir. Só ficamos curiosos para saber o que ela fará a partir de agora com aquilo que descobriu sobre si mesma: sua atração pelo universo mórbido das perversões, seu irrefreável desejo de ser submissa e dominada pelo homem.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação retratada no filme entre Anastasia e Christian está longe de ser uma criação distanciada do que acontece na realidade. Ao contrário. São inúmeros os casais que se destroem por causa de suas pulsões sadomasoquistas. Não é incomum que a mulher, nutrida pelo ingênuo desejo de transformar o homem (“ele vai me amar”, “eu vou transformá-lo”), como Anastasia, permaneça na relação destruindo a si mesma com uma ferocidade terrível. O homem, por seu turno, vence quando derrubar a parceira, quando transformá-la em menos que nada. Muitos crimes passionais eu penso que estejam animados por estes desejos sexuais ferozes. É o aspecto doentio da sexualidade humana que se apresenta com toda sua complexidade e sofrimento repetitivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta ainda cumprir minha segunda meta: Por que as pessoas se sentem tão atraídas por filmes (livros) com este tipo de temática?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta mais óbvia, mas também a menos simpática é: por que o filme retrata desejos sexuais que habitam o inconsciente de todos nós. Todos nós carregamos moções de sexualidade perversa, sádico-masoquistas, voyeristas-exibicionistas. Se assim não fosse porque dançar freneticamente ao som da música: “Dói, um tapinha não dói”? E este não é o problema, pois como alertava Freud: “O normal sonha à noite com aquilo que o perverso realiza”. O problema é estarmos desavisados sobre estes desejos inconscientes, que só podem ser conhecidos na análise. Era o caso de Anastasia. Em uma análise, ela certamente iria descobrir-se uma pessoa muito diferente daquilo que ela imaginava ser. Por trás de sua ingenuidade romântica o que haveria? Que desejos encontraríamos aí?</p>
<p style="text-align: justify;">Acho, então, que as pessoas se sentem atraídas e seduzidas por algo que retrata aquilo que elas sentem, mas que não conseguem nomear. Não conseguem sequer localizar que o que o filme exibe não faz parte de um universo de relações saudáveis entre um homem e uma mulher. Não conseguem localizar que o que é retratado é o indigesto e sombrio universo das relações perversas. De alguma forma, as pessoas se vêem retratadas na Anastasia e no Christian, sem poderem discriminar muito bem o que é saudável do que não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha conclusão sobre o filme é: este não é um filme pornô-soft como ouvi dizer na mídia. Este é um filme sobre como a sexualidade humana pode adotar características bizarras, doentias e empobrecedoras. Este é um filme sobre como a relação homem-mulher pode adquirir características bizarras quando os dois parceiros estão inconscientemente envolvidos num conluio sadomasoquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Como dizia Freud em “Três ensaios” (1905), a sexualidade perversa humana é a que mais resiste ao trabalho civilizatório e a “normalidade” no que tange à sexualidade humana está longe de ser um fato incontestável. Trocando em miúdos, na intimidade de um casal, desejos perversos do tipo sadomasoquistas podem ligar as pessoas muito mais do que elas imaginam. Ou você nunca reparou quanto casais extraem um prazer incrivelmente mórbido de suas brigas violentas?</p>
<p style="text-align: justify;">Se você quiser conhecer outro filme que trata do mesmo tema com uma carga de dramaticidade interessante e onde são retratadas várias perversões, inclusive o fetiche, pode assistir “Veludo azul” de David Lynch.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Pelo direito de sentir medo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2015 12:02:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[estórias de medo]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esta semana foi noticiada uma reportagem que eu achei bastante curiosa. Colônias de férias de crianças estão sendo proibidas, pelos pais, de contarem estórias de medo. O argumento dado por eles, segundo a reportagem, é que este tipo de estória pode traumatizar ou amedrontar as crianças desnecessariamente. O curioso é que, na matéria, o discurso &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pelo-direito-de-sentir-medo/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Pelo direito de sentir medo.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pelo-direito-de-sentir-medo/">Pelo direito de sentir medo.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/images.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1290 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/images.jpg" alt="images" width="282" height="179" /></a>Esta semana foi noticiada uma reportagem que eu achei bastante curiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Colônias de férias de crianças estão sendo proibidas, pelos pais, de contarem estórias de medo. O argumento dado por eles, segundo a reportagem, é que este tipo de estória pode traumatizar ou amedrontar as crianças desnecessariamente. O curioso é que, na matéria, o discurso dos pais era corroborado por um dos donos da colônia, que disse:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; É um período de férias, de curtição. Então, a gente só deve falar de “coisas alto-astral, só coisas pra cima” (sic).</p>
<p style="text-align: justify;">O que podemos pensar sobre isso?</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1289"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, penso que há um sentimento de terror e de fragilidade generalizado nos pais e mães atuais. Acompanho com frequência em meu consultório o quanto os pais da atualidade têm se sentido frágeis psiquicamente para atender as demandas emocionais de seus filhos. Confundem compreensão e empatia com mimos, limites com rigidez, amor com chantagem. Não é incomum que os pais busquem um psicólogo ou analista para pedir conselhos, para ouvir do “especialista” se o que estão fazendo é certo ou errado. Sentem-se, eles próprios incapazes de se confrontarem com as dúvidas e angústias naturais e inevitáveis da difícil tarefa de cuidar de uma criança. Vão em busca de respostas prontas, mas, na verdade, precisam do auxílio do profissional para que se sintam mais fortes e confiantes para suportarem as dúvidas e incertezas que são inevitáveis ao próprio viver humano. Por isso Nietzsche disse certa vez que a resposta é a desgraça da pergunta. A graça da vida não está em respondermos às nossas perguntas, mas em podermos aguentar ficar com as dúvidas, com o mistério e com a incerteza inerente à vida. Uma criança precisa sentir que seus pais aguentam as incertezas da vida sem desmoronarem.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é a toa que um dos filmes indicados ao Oscar para este ano – Boyhood: da infância à adolescência – retrata exatamente o desenrolar do desenvolvimento de um menininho em uma família comum, com pais cheios de dúvidas, que acertam e erram, exatamente como é a vida. Acho que o gosto do público para este tipo de filme pode refletir uma carência das pessoas para aquilo que é a “vida como ela é”, feita por pessoas comuns, por seres humanos, cheios de dúvidas e falhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltemos agora à questão do medo.</p>
<p style="text-align: justify;">O medo é um sentimento inerente à nossa condição humana. Nós temos medo de coisas reais, mas temos muito mais medo das coisas que se passam dentro da nossa mente, do que desejamos e não sabemos. Temos medo do nosso desejo de que nosso pai desapareça para ficarmos com a nossa mãe ou temos medo de desejar que o nosso irmãozinho ou irmãzinha morra para termos toda a atenção da mamãe. Temos medo de realizarmos nossos arroubos de paixão infantil e perdermos o nosso pênis. Ou temos medo de já termos realizado nosso desejo e já termos perdido o nosso tão inestimável pênis. Temos medo do nosso desejo de ter um bebê com nosso pai. Temos medo de sermos punidos severamente por desejarmos tudo isso. Isso só para citar alguns dos temores que habitam nosso psiquismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, e o que fazem as estórias de medo?</p>
<p style="text-align: justify;">Elas ajudam os seres humanos a elaborarem, a colocarem em imagens e narrativas estes medos que sentimos não ter nome (pelo menos, do ponto de vista da lógica racional).</p>
<p style="text-align: justify;">Os sonhos fazem o mesmo trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que sonhamos à noite? E por que precisamos das estórias de medo? E por que precisamos do mito, do cinema, da arte?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que todas elas são formas que o ser humano encontrou de colocar em imagens, de contar uma estória sobre o que nós desejamos e não compreendemos, sobre o que nós sentimos e não conseguimos representar.</p>
<p style="text-align: justify;">Freud diz: “Os sonhos vestem psiquicamente o inconsciente”. Sem o sonho, sem as estórias de medo o contato com o inconsciente fica insustentável, insuportável porque o desejo é sempre algo da ordem do biológico, do puro pulsional, do irrepresentável.</p>
<p style="text-align: justify;">As crianças gostam tanto de estórias de medo exatamente por isso. Inclusive, pedem para que sejam repetidas muitas e muitas vezes, sobretudo se o adulto conta com paixão e entusiasmo. Porque elas dão uma cara, uma feição àquilo que as crianças sentem, mas não conseguem expressar.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, por meio das estórias de medo as crianças fazem uma espécie de treino e preparação emocional para lidarem com seus medos internos e externos. Sem estes recursos, assim como o adulto sem o recurso do sonho, a criança fica fragilizada psiquicamente porque se sente à mercê dos seus temores e fantasias mais terrificantes. Penso na tragédia que é estarmos criando crianças despreparadas internamente para dançarem de perto com seus medos. Afinal, ao contrário do que diz rapaz na reportagem, a vida não é feita só de experiências &#8220;alto-astral&#8221;. Quem tem bastante coragem de olhar para a vida perceberá logo que a vida humana é muito difícil: temos que nos confrontar com perdas, com expectativas frustadas, com a morte e a finitude e com os nossos limites vários. Tudo isso faz da vida humana um grande e heroico desafio. Tudo isso faz a vida humana dar muito medo. Guimarães Rosa disse certa vez: &#8220;A vida é coisa que espanta.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isso o homem precisa da cultura, assim como precisa do sonho para poder sobreviver psiquicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda outro elemento a ser sublinhado com relação às estórias de medo. Freud disse nos “Três ensaios” (1905) que o medo é uma fonte de grande excitação sexual para a criança, obviamente quando este medo não é muito excessivo, nem representa um perigo real para a mesma. Resumindo: as crianças sentem prazer sexual frente aquele “medinho”, aquele “frio na barriga” que vivenciam nas estórias de medo e suspense. Este é outro motivo para que elas peçam incessantemente para ouvir este tipo de estória.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, nós, como humanos, temos o direito de aprender a lidar com os nossos medos e desejos mais atávicos com estes recursos narrativos criados milenarmente. A sorte é que o humano é plástico. E se os pais não estão dando conta de seus próprios medos não elaborados – porque, no fundo, é esta a questão – a criança dará outro jeito de encontrar meios de simbolizar seus terrores, seja na brincadeira, com pais de coleguinhas que eles sentem mais disponíveis ou mesmo em uma análise.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos compreender com isso que os pais atuais têm se sentido traumatizados, ou seja, com uma mente excitada pelos excessos: de medos não metabolizados, de informações destituídas de sentido e valor, de exigências superegóicas severas que retiram deles o prazer lúdico de aprender com uma criança e de achar graça de si mesmo por estar em dúvida ou confuso sobre o que fazer com aquela criaturinha que tanto depende de você, mas que um dia irá descobrir que você também sabe tão pouco e sente tanto medo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Em parte penso que isso é reflexo de um contexto social perverso que destitui a importância do papel da tradição e dos valores, substituindo-os pelo papel do sujeito individual, cada vez mais solitário e perdido com suas próprias questões e demandas. O que quero dizer é que nossa sociedade tem se individualizado cada vez mais, as pessoas estão cada vez mais solitárias nas cidades, os pais e mães não conversam entre si, não observam o outro, não ligam para um amigo para compartilhar suas angústias, não aprendem com a experiência alheia, seja ela de seus próprios pais ou de seus pares e – o que é pior – sentem poder jogar fora recursos míticos e narrativos tão tradicionais como as estórias, que foram criadas exatamente para nos tranquilizar um pouco do susto do viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Este vazio é ocupado de forma perversa pelo discurso “científico” que se acredita imbuído do poder de dizer às pessoas o que elas devem ou não fazer, como devem ou não pensar. Destitui-se a responsabilidade do sujeito por si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês já repararam quantos programas existem na TV em que “especialistas” se colocam na duvidosa posição de “orientar” pessoas sobre como cuidar de crianças, sobre como emagrecer, sobre como ser feliz, como dormir e comer bem, como fazer sexo bem, etc. A vida se transforma em uma grande performance para ser exibida nas reuniões de condomínio, nos shoppings e nas festas infantis.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, o sujeito se vê desresponsabilizado frente à sua própria vida, frente às suas próprias angústias. Acredita, tal como uma criança ou um crente, que o especialista terá a resposta que irá mudar definitivamente a sua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Reivindiquemos, portanto, o direito de sentir medo. De sermos frágeis, de termos dúvidas, de não sabermos para onde ir, de não termos uma opinião a dar. Para que o sentido mais profundo desta palavra –humano – não acabe indo tão logo parar em um museu.</p>
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<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pelo-direito-de-sentir-medo/">Pelo direito de sentir medo.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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