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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Fri, 13 Apr 2018 15:22:19 +0000</lastBuildDate>
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		<title>O homem forte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Apr 2018 15:03:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desejo infantil]]></category>
		<category><![CDATA[homem forte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[realidade]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
		<category><![CDATA[Wilfred Bion]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O post traz reflexões sobre o que é ser um homem forte. Utiliza para isso referências de Sigmund Freud e Wilfred Bion, respectivamente, relativas ao sentimento inconsciente de culpa e à dor inerente ao crescimento psíquico que traz mudanças internas da ordem de uma catástrofe. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-homem-forte/">O homem forte</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/11/IMG-1115.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1851 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/11/IMG-1115-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Qual a marca fundamental de um ser humano forte? O que é que se reconhece exatamente como sendo a força de uma pessoa?</p>
<p>Freud nos ajuda a pensar sobre isso.</p>
<p>Nas “Cinco lições de psicanálise” (1905) ele diz textualmente que <em>um homem enérgico e vencedor é aquele que, pelo próprio esforço, consegue transformar em realidade seus castelos no ar</em>.</p>
<p>Mas o que exatamente ele quer dizer com isso? O que seriam estes tais castelos que, no homem forte, são erguidos a partir do nada, do ar e que derivam de uma conjunção feliz entre circunstâncias externas favoráveis (Freud nunca deixou de considerar o elemento sorte) e de uma força interna descomunal?</p>
<p><span id="more-1879"></span></p>
<p>Os castelos erguidos no ar são os nossos sonhos que carregam sempre a marca do selo infantil. Trata-se daquilo com que sonhamos no mais íntimo do nosso ser e que, quase sempre, não temos coragem de dizer a nós mesmos. Vai que se realiza? Estes castelos-sonhos, quando concretizados na realidade, causam prazer e angústia, satisfação e decepção, basicamente por dois motivos.</p>
<p>Primeiro, porque precisamos deixar para trás a nossa criança que só ousava sonhar, mas que nunca se imaginou efetivamente realizando seu sonho. Também, nesse sentido, precisamos deixar para trás os nossos pais da infância que porventura não tenham conseguido ir tão longe quanto nós. Este é o âmbito do sentimento inconsciente de culpa que é despertado a cada vez que ousamos desejar a felicidade e a alegria da realização. Este é ainda o âmbito das metamorfoses e das mudanças catastróficas descritas por Wilfred Bion que significam basicamente uma profunda alteração do nosso tamanho interno, ou seja, do nosso corpo psíquico. Um modelo acessível para representar tais processos é o da metamorfose da crisálida à borboleta.</p>
<p>Segundo, este crescimento trazido pela concretização de um sonho sempre comporta uma certa decepção. Por quê? Porque, como eu disse anteriormente, como estes sonhos carregam a marca do selo infantil, o castelo construído na realidade nunca será exatamente igual ao castelo sonhado da infância. Dito de outro modo, tudo aquilo que eu encontro na realidade nunca será exatamente igual ao que eu desejo no inconsciente. Foi isso que Freud quis dizer nos “Três ensaios” com <em>o encontro do objeto é sempre um (re) encontro com o objeto primordial, </em>reencontro que sempre comporta uma decepção. <em> </em></p>
<p>Quando se acredita alucinatoriamente que o castelo construído na realidade é exatamente o castelo infantil desejado um dos resultados possíveis é a pessoa estragar aquilo que construiu, já que não era bem aquilo que ela queria. Isso acontece com praticamente todas as realizações na vida; uma casa, um namorado ou marido, uma roupa, uma viagem, um filho, um trabalho, etc. Quando estava construindo meu castelo-casa pude ver exatamente a manifestação deste quadro em alguns de meus vizinhos que, não podendo tomar consciência de sua decepção e das manifestações decorrentes dela (raiva, frustração, desânimo), mal terminavam suas casas e já começavam a denegri-las.</p>
<p>Estamos neste segundo aspecto no âmbito da onipotência primária. Neste polo, o sujeito pensa que &#8220;a vida tem obrigação de me dar tudo aquilo que eu desejo&#8221; e não pode reconhecer o quão generosa a vida foi com ele, nem o quanto ele possui dons e potenciais que milhares de outros seres humanos não possuem.</p>
<p>Como psicanalista, escutamos esta intransigência e nos calamos. Mas não podemos deixar de pensar, com pesar, em como é preciso realmente elaborarmos psiquicamente a cada instante o nosso crescimento, para não cairmos na arrogância, nem na ingratidão.</p>
<p>Uma pessoa que não é psicanalista ou que não está sendo analisada costuma pensar, de um modo simplista, que basta ir lá e fazer. Ou, ela pensa ainda, desavisadamente, que os únicos percalços que a impedirão de realizar seu sonho são externos, quando na verdade, os maiores inimigos de nossos sonhos e da nossa alegria de viver estão dentro e não fora de nós.</p>
<p>Portanto, o homem forte é aquele que faz valer na realidade o seu direito por ter e ser aquilo que deseja. Mas para isso, saiba, terá que ter fibras de aço, e coração de seda, para suportar a dor inerente ao seu crescimento. Fibras de aço para não sucumbir ao seu desejo de desistir, que é sempre o mais fácil a fazer; coração de seda para acolher, com delicadeza e ternura, as lágrimas que terá que chorar por todos aqueles que ele ama e que ficaram para trás; coração de seda, maleável e fluído, para conter o fluxo ininterrupto da vida, pois, assim como aprendemos com Heráclito que <em>não se entra duas vezes no mesmo rio</em>, aprendemos com Freud e com Bion, respectivamente, que o inconsciente é atemporal e infinito e que, portanto, está aberta para nós a possibilidade de chegarmos às estrelas. Tudo dependerá de suportarmos ou não as vertigens da viagem.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O falo como condição de alienação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jan 2018 19:25:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[angústia existencial]]></category>
		<category><![CDATA[falo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Partindo da ideia de que a eleição do pênis como falo se deve à necessidade humana de alienar-se de sua própria existência, conforme argumenta Simone de Beauvoir, o texto busca fazer reflexões a respeito de onde adviria este impulso a evadir-se de si mesmo. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/01/2008-07-16_IMG_2008-07-16_1216220135389_efe_20080716_161334.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1868 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/01/2008-07-16_IMG_2008-07-16_1216220135389_efe_20080716_161334-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Em psicanálise, uma forma de definir o falo é qualquer símbolo com função imaginária de suturar<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a> nossas faltas existenciais. Freud descobriu que o pênis, órgão corporal masculino, tem para crianças de ambos os sexos, a função privilegiada de um falo.</p>
<p>Esta significação do pênis como falo é, obviamente, determinada pela cultura, o que significa dizer que não se trata de um mero acaso que as coisas tenham se arranjado assim. Em uma sociedade matrilinear e não patrilinear como é nossa, o falo bem poderia estar do lado feminino sendo, por exemplo, os seios intumescidos de leite ou o útero.</p>
<p><span id="more-1867"></span></p>
<p>E embora Freud tenha chegado à descoberta do pênis como símbolo fálico em nossa cultura não conseguiu explicar as origens disso. Por que o falo esteve sempre do lado do homem e não da mulher ao longo da história humana, não se sabe bem ao certo dizer.</p>
<p>Mas, voltando à questão do falo, para a filósofa Simone de Beauvoir a importância fálica que o pênis adquire na configuração subjetiva da cria humana, só pode ser explicada pela tendência, no humano, em se alienar de si mesmo.</p>
<p>Diz ela:</p>
<p style="text-align: right;">“<em>A angústia frente à sua liberdade, conduz o sujeito a refugiar-se nas coisas, o que é uma maneira de fugir de si mesmo</em>” (p. 76).</p>
<p>Seguindo o seu pensamento, somos levados a nos indagar: por que o homem desejaria fugir de si mesmo? O que haveria em sua condição de sujeito que o levaria ao insuportável da angústia, de onde ele tentaria se evadir a qualquer custo, pagando com isso o duro preço da alienação? Porque o homem precisaria recorrer às garantias ilusórias do falo para proteger-se de sua existência?</p>
<p>Ora, no cerne do sujeito há a falta, o furo, o vazio. A cria humana, na medida em que se desprende do Todo no ato do nascimento, angustia-se frente ao seu enorme desamparo. Agarra-se e erotiza as carnes maternas não porque esteja condenada a desejar a mãe, mas porque este contato a coloca de volta como o centro vital de alguém, que ela também acredita ser Toda. Assim, a liberdade angustia porque ela nos lembra de que estamos à deriva em um mundo <em>a priori </em>destituído de qualquer sentido e ordem pré-estabelecida. O exercício da liberdade em um mundo onde não sabemos para onde nossas escolhas nos levarão, causa vertigens. É como se caminhássemos cegos em uma floresta densa, repleta de perigos, e tivéssemos que decidir a cada instante, para onde seguir a partir de cada passo dado.</p>
<p>Agarrar-se ao falo é, portanto, agarrar-se a uma tábua de salvação que, ainda que não me leve adiante, pelo menos não me deixa afundar no abismo das incertezas.</p>
<p>O sujeito masculino tem um caminho seguro, mas perigoso, de alienação de si, e é disso que Freud fala o tempo todo. Ele diz “Eu sou um homem dotado de um órgão viril”, e acredita que isso lhe basta para garantir o seu sentido de existência.</p>
<p>Lembro-me de um homem bastante falicizado que, na clínica, mostrava-se irritado e constrangido por estar entediado, o que ele não entendia, tendo em vista “que tinha tudo o que um homem poderia querer”. Obviamente, ele referia-se a um carro zero quilômetro, uma linda mulher, um ótimo trabalho e uma bela casa. Todos estes objetos, uma vez falicizados pela cultura de massa, são vistos pelo sujeito como acessos garantidos a uma vida feliz e sem conflitos. Este mesmo homem, já em análise, costumava dizer, indignado e arrogante: “Precisamos resolver logo os meus sentimentos.” Neste caso, seu próprio discurso era revestido, para ele, de um significado fálico, pois através de suas colocações categóricas deixava pouco espaço à reflexão e à indagação curiosa de si mesmo.  Ou seja, tudo o que produzia em termos discursivo vinha carregado de certezas, modo muito astuto de calar as dúvidas. Ao longo de alguns anos de trabalho analítico, o desmonte da falácia de sua completude foi sendo possível, abrindo espaço para a angústia, mas também para a criação e para uma vida dotada de real sentido. Neste período do trabalho, trouxe muitos sonhos em que seus objetos fálicos (computadores, o próprio pênis, dinheiro, escritório, etc.) sofriam avarias de toda ordem; até que finalmente, passou a precisar cada vez menos deles para suportar sua vacilante existência.</p>
<p>Já a mulher, uma vez percebendo a ausência do pênis em si, recorre com frequência à falicização de seu próprio corpo para fazer frente à sua angústia existencial. Superinveste libidinalmente seu próprio corpo, sua beleza, suas vestes, seus cabelos, acreditando com isso poder garantir o sentido de sua existência, embora com isso, tudo o que consiga é se alienar no olhar do outro e em uma vida entediante e sem projetos reais de superação. Um bom exemplo desta situação é a personagem Emma Bovary de Flaubert. Ensaiando entrar em contato com a falta de sentido de sua vida, a única saída que Emma encontrava para responder à sua angústia existencial era se endividar com móveis novos, sonhar com bailes de princesa e lindos vestidos, e devanear ser salva por um grande amor. O que Emma não sabia era que o destino de sua história estava em suas mãos e estava para ser inventado por ela, e por mais ninguém. Investindo móveis, vestidos, homens e amores proibidos de valor fálico, esta profunda personagem caiu no engodo de que, nestas coisas, encontraria o verdadeiro sentido de sua existência. Outro objeto eleito como símbolo fálico para a mulher é costumeiramente um filho que, no seu inconsciente, destinará ao pai, tanto para lhe devotar seu amor infantil, mas, sobretudo, para ser reparada de seu ressentimento com o mundo masculino, tornando-se tão potente quanto ele<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>.</p>
<p>O fato é que homens e mulheres ao se depararem com a falta de sentido de suas vidas recorrem aos objetos fálicos acreditando que ali encontrarão o sentido que buscam, quando na verdade deveriam fazer o caminho inverso, ou seja, voltar-se para dentro, e não para fora de si. É quando ele se volta para fora, e suporta mal as contingências de sua existência, que o homem se apega às falácias sinuosas da mentira e da hipocrisia, com as quais tenta se convencer a qualquer custo de estar fazendo um ótimo negócio. Tudo para se defender da impermanência conflituosa que é viver.</p>
<p>Para terminar, cito na íntegra uma passagem ilustrativa da filósofa que sintetiza bem algo com que lida cotidianamente o psicanalista e que é a atitude oscilante do humano em relação a si mesmo, que transita entre a covardia e o heroísmo:</p>
<p style="text-align: right;">“<em>O homem acha-se permanentemente em perigo; sua vida é uma empresa difícil que nunca se encontra assegurada. Mas ele não aprecia a dificuldade e teme o perigo. Contraditoriamente, aspira a vida e ao repouso, à existência e ao não ser. Sabe que a inquietação do espírito é o preço que terá que pagar pelo seu desenvolvimento; que sua distância em relação ao objeto é o que lhe custa sua presença consigo mesmo, mas ele sonha com a quietude na inquietude e com a plenitude opaca que sua majestosa consciência habitaria.”(p. 37)</em></p>
<p>Assim, apesar de esta filósofa ter tido uma má compreensão dos propósitos éticos do método analítico, pois deu ênfase excessiva aos elementos pulsionais da teoria freudiana como determinantes do destino humano e desconsiderou o aspecto ético e transformador do método, Simone de Beauvoir, a meu ver, faz contribuições elegantes e muito vivas ao pensamento freudiano. Ambos encontram-se imbuídos de um sincero desejo de desamarrar o sujeito de suas alienações e recolocá-lo em contato consigo mesmo para, só então, poder inventar seu modo próprio de viver.</p>
<p><strong>Referência bibliográfica:</strong></p>
<p>Beauvoir, Simone de. <em>O segundo sexo: fatos e mitos</em>. Tradução de Sérgio Milliet – 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Suturar: operação que consiste em coser ou costurar as bordas de uma ferida para fechá-las.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> Esta não é a única significação inconsciente encontrada na maternidade; tão somente são as significações mais infantis e mais recalcadas.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-falo-como-condicao-de-alienacao/">O falo como condição de alienação</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O problema da procriação em Freud.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jun 2017 18:34:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[procriação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda o problema da procriação em Freud, partindo do texto Sobre o Narcisismo: uma introdução. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-problema-da-procriacao-em-freud/">O problema da procriação em Freud.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/download-1.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1800 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/download-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O ato de procriar nos animais que têm seu comportamento sexual definido unicamente pelo instinto não é um problema moral. O que significa dizer que ele está fora do âmbito da escolha.</p>
<p>Mas o mesmo não acontece com os seres humanos, em que o ato de procriar inscreve-se – ou pelo menos deveria inscrever-se &#8211;  na problemática moral da escolha. Porque verdadeiramente desejo dar a vida a alguém é uma questão com à qual o ser humano minimamente inscrito na cultura deveria se debater em algum momento de sua vida.</p>
<p>Nesse sentido, será meu propósito neste texto, resgatar o que Freud postula a respeito do ato procriador nos seres humanos, a partir de suas reflexões no texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” e mostrar como aquilo que ele coloca lá, e que está implicado no ato procriador, costuma estar radicalmente recalcado no âmbito da cultura.</p>
<p><span id="more-1799"></span></p>
<p>Ressalto, antes de iniciar, que minha reflexão neste segundo quesito ficará centrada no âmbito do querer, ou seja, das demandas conscientes pelo ato procriador, demandas estas revestidas dos estereótipos sociais que circulam em uma dada cultura, e que estão sempre atrasadas em relação às práticas de vida dos sujeitos, colocadas em jogo no quotidiano. É exatamente este dissenso que cria as contradições entre aquilo que o sujeito diz que deveria fazer ou que deveria querer (discurso que se inscreve, sobretudo, na instância superegóica) e aquilo que ele efetivamente faz ou deseja para sua vida, que é o que está na ordem do inconsciente, e que só pode ser sondado em análise.</p>
<p>Esta diferenciação é de grande relevância para o psicanalista que na clínica escuta as abissais contradições entre o desejo emanado do inconsciente (o único verdadeiro gerador da implicação humana com seus atos) e o querer do ego-consciente, que produz atos desimplicados e, portanto, destituídos de sentido para o ser.</p>
<p><strong>Sobre o narcisismo: uma introdução.</strong></p>
<p>No texto sobre o narcisismo, escrito em 1914, Freud procura elaborar o que é este conceito, fundamental para compreender a experiência humana. Além de ligá-lo à uma perspectiva patológica inscrita no campo da perversão (que não nos interessa aqui), Freud argumenta que o narcisismo é uma experiência humana universal, ocorrida em certo momento do desenvolvimento, e que se centra em um completo e absoluto estado de apaixonamento por si mesmo e também de engrandecimento da potência do Eu. Este estado de apaixonamento por si mesmo deixará rastros inelutáveis pelo resto de nossas vidas e será algo que nenhum de nós conseguirá abandonar completamente. Freud diz que é muito difícil para o psicanalista apreender este fenômeno à olho nu, mas que ele pode observar fenômenos humanos em que seria possível inferir a presença de tal estado psíquico. Seriam eles: a vida mental das crianças e dos povos primitivos, certos estados patológicos e em determinadas formas de amar, dentre as quais, a forma como os pais “amam” sua prole.</p>
<p>Ou seja, para Freud, na forma mágica de pensar das crianças e dos povos primitivos, em determinados estados patológicos, mas sobretudo, na forma como os pais “amam” sua prole, o psicanalista poderia reconhecer traços do narcisismo, ou seja, deste estado de apaixonamento do sujeito por si mesmo. Neste último caso, o filho seria amado porque representaria narcisicamente a continuidade e o espelhamento dos pais.</p>
<p>Mas o pensamento de Freud é complexo e ele insinua ao longo do texto que haveria uma outra possibilidade amorosa implicada no ato de procriação, e que esta sim, poderia vir escrita sem aspas, porque seria o amor mesmo em um sentido altamente altruísta. Freud elabora esta ideia da seguinte maneira.</p>
<p>Partindo de uma perspectiva dúplice a respeito dos instintos, Freud acentua que a saída possível para o encimesmamento narcísico seria o amor objetal, que na prática, significaria uma abertura generosa para o estranho que o Outro sempre é para mim.</p>
<p>No âmbito da sexualidade, esta mesma existência dúplice aconteceria no sujeito. Uma que levaria em conta tão somente suas próprias finalidades individuais e narcísicas (algo como sendo minha prole um espelho meu que serviria para me satisfazer), e outra em que o sujeito estaria forçado a entrar no elo de uma corrente que o transcende, e que ele, portanto, serviria mesmo contra a sua vontade individual. Freud diz textualmente que no exercício da sexualidade procriativa o sujeito é</p>
<p>“(&#8230;) <em>um apêndice de seu germoplasma, a cuja disposição põe suas energias em troca de uma retribuição de prazer. <strong>Ele é o veículo mortal de uma substância possivelmente imortal – como o herdeiro de uma propriedade inalienável, que é o único dono temporário de um patrimônio que lhe sobrevive</strong></em>” (p. 87)</p>
<p>Esta afirmação estupenda de Freud nos leva a muitas questões.</p>
<p>Primeiro, que o exercício da sexualidade procriativa não seria fruto de uma escolha consciente do sujeito, mas um imperativo biológico, pois, neste caso, caso o sujeito pudesse, de fato escolher, talvez escolhesse não procriar, uma vez que a sua prole representaria o fim de si mesmo, portanto, sua própria morte individual. É surpreendente vermos Freud postular que, para forçar o sujeito a procriar, e de certo modo morrer, a natureza teria nos dado em troca uma quota de prazer sexual, algo sem o qual possivelmente não procriaríamos mais, ou só o faríamos com grande dose de renúncia narcísica.</p>
<p>Isso de fato acontece na prática cotidiana da procriação, embora as pessoas quase nunca se deem conta deste jogo perigoso de vida e morte que implica o ato procriador. Os futuros pais, e o caldo de cultura em geral onde circulam discursos do senso-comum que têm a função de sedimentar a continuidade destas práticas, e de recalcar a angústia implicada no ato de procriação, não se dão conta de que, no ato procriador mesmo, tal como se dá em nossa reprodução sexuada, para que um feto possa ser gerado, óvulo e espermatozoide (as células germinais que representam a sobrevivência egoísta da mãe e do pai) devem morrer. Assim, o filho gerado, será a um só tempo, a representação da continuidade, mas sobretudo da descontinuidade destes dois seres que, altruísta ou enganosamente, decidiram lhe dar a vida.</p>
<p>Seria, inclusive, muito interessante investigarmos o papel do ódio inconsciente ao estranho que representa o feto-criança, nas situações clínicas como depressão pós-parto, nos abortos espontâneos que ocorrem nos primeiros meses de gravidez, bem como nos “acidentes” que costumam acontecer envolvendo crianças pequenas e seus pais.</p>
<p>Ora, a percepção arguta de Freud a respeito da absoluta renúncia narcísica implicada no ato procriador contrasta radicalmente com as motivações que circulam no senso-comum a respeito do porque se deve querer um filho, e que dentro do discurso freudiano estaria posto do lado de um amor narcísico.</p>
<p>Diz-se, por exemplo, que se quer um filho para que ele seja um continuador de você e de seus genes, ou que se quer um filho para que ele cuide de você na velhice, ou ainda, para que ele herde os seus bens (empresa, nome da família, etc), ou simplesmente porque se quer ter um quartinho de bebê em casa.</p>
<p>Nota-se que em todas estas motivações o que está implicado é um anseio narcísico dos pais, seja por continuidade, seja por proteção infantil, em que não está preservado, nem de longe, o interesse do futuro sujeito, a quem nem sequer ainda lhe foi dada à vida, mas que já é requisitado a pagar alto preço em troca deste presente de grego.</p>
<p>Pois, esta vida, assim barganhada desde o início, mereceria mesmo ser vivida?</p>
<p>Vale mesmo a vida a pena, na medida em que quase toda ela será gasta pelo sujeito de existência barganhada, para tentar descobrir quem ele é no meio de tantas demandas alheias? E depois mais um outro tanto de tempo (talvez o próprio tempo de vida dele), para aprender a suportar a cara feia com que seus pais e seus conterrâneos o olharão por ele não mais querer aquilo que os outros quiseram que ele quisesse?</p>
<p>Não é um tanto quanto cruel pensar que queremos uma criança porque queremos que alguém cuide de nós na velhice, ou porque queremos que alguém continue a nossa empresa, ou porque amamos tanto os nossos genes que queremos que ele se perpetue na terra, ou porque queremos poder continuar brincando de mamãe e filhinho no nosso lindo quarto decorado de infância?</p>
<p>Tais motivações não seriam o antagonismo daquilo que Freud propõe que seja o verdadeiro ato ético procriador e que seria a plena aceitação da nossa morte e insignificância como indivíduos, para podermos dar lugar à um outro sujeito, pleno de potencialidades que, espera-se, possa nos superar e rapidamente esquecer que nós existimos para poder, ele mesmo, seguir o famigerado caminho em direção à sua própria morte?</p>
<p>Pois me parece que é isso que Freud quis dizer com sermos um apêndice do germoplasma que sobrevive à nós. A vida – isso que ele chamou de germoplasma – não é nossa mesma. Como me disse outro dia uma amiga: “Estamos aqui de aluguel. ”</p>
<p>A continuidade da existência do filho representa concreta e simbolicamente a morte dos pais, na sua absoluta descontinuidade e insignificância para a vida mesma. Para tomar lugar como apêndice na continuidade do germoplasma da vida, os pais enquanto sujeitos individuais devem saber perder sua existência, dando àquele que lhe sobrevive, o direito a continuar sua vida antes e depois de sua morte.</p>
<p>A negação desta realidade é tão maciça entre os seres humanos que é mesmo chocante dizer aos pais que eles precisam preparar seus filhos para o fato de que eles próprios, os pais, morrerão. O que está implicado neste ponto cego é exatamente o anseio de continuidade narcísica do eu. Também é chocante para os pais a perspectiva de que o ato de dar a vida deveria ser absolutamente altruísta: você dá a vida, cuida dela, sem esperar absolutamente nada em troca, nem reconhecimento, nem qualquer tipo de compensação. Para Lacan, esta seria a única possibilidade de se falar em uma real experiência amorosa: Dar aquilo que não se tem. Todo o resto, é barganha.</p>
<p>A experiência da procriação humana resulta, portanto, em descontinuidade narcísica e em selo de insignificância dos genitores, e não o contrário, como pensa comumemente o senso-comum. Você já parou para pensar que as crianças nem sequer sabem da existência de seus tataravôs e tataravós? Ora, se para a experiência humana continuar existindo para alguém é ser guardado na memória, em menos de duas gerações os tataravôs e tataravós deixarão de existir, ou seja, cairão no completo e poeirento vazio da inexistência.</p>
<p>Isso não é um drama no mundo dos instintos animais porque o animal não tem consciência de si mesmo e, portanto, não está aferrado narcisicamente a um anseio de continuidade, ou seja, de continuar existindo eternamente no tempo. Dito de outro modo, para o animal pouco importa se ele é insignificante para a natureza. Tudo o que ele quer é preservar sua existência a qualquer custo. Ele não é hipócrita, nesse sentido. Deste sentimento arrogante só o homem sofre porque lhe é absolutamente terrificante a perspectiva de que, tendo consciência de sua existência, ele deixará de existir um dia. Como o mundo continuará sem mim?; é o que pensará o sujeito ultrajado. Penso inclusive que o que mais aterroriza o ser humano não é o medo da morte, mas o medo de deixar de existir, que são coisas bem diferentes.</p>
<p>Entretanto, tal versão, violenta e competitiva, do ato procriador não costuma entrar em cena no discurso das pessoas, exceto em uma análise ou em sintomas patológicos, que é por onde o inconsciente tenta falar.</p>
<p>Só para citar três exemplos que me ocorrem de alguma mínima percepção deste jogo de vida e morte envolvido no ato procriador, lembro-me de uma amiga que recém descobriu sua gravidez e que se queixava comigo ao telefone de que estava extenuada e completamente sem energias. Enquanto à ouvia, pensava na relação de certo modo vampirizante que uma vida incipiente mantêm com seu objeto hospedeiro, o que explicaria bastante bem a extenuação libidinal de minha amiga.</p>
<p>Acontece então que se a mulher-hospedeira não puder abdicar de seu gozo narcísico com a criança, mas, ao contrário, solicitar dela o pagamento em troca de ter lhe dado tudo (inclusive, a vida), a relação pode vir a se tornar neurotizante no futuro. Daí a importância das mães poderem ter outras fontes de satisfação narcísica, para além da maternidade. Ou, para usar um conceito muito cara aos analistas, que ela possa ter acesso à outras formas de potência de realização fálica. Pois, se isso não acontece, a mãe tenderá a erotizar por demasia o seu bebê, colocando-o como única função de gozo em sua vida, e é aí que a relação neurotizante se instala: a criança fica impedida de crescer porque precisa satisfazer a mãe falicamente, e a mãe se sente culpada perante a criança por vir a ter outras formas de satisfação, para além da maternidade (como a realização profissional, por exemplo).</p>
<p>Esta questão que eu pontuo é importante para que possamos fazer uma psicanálise historizada, materializada. Não foi em todos os momentos históricos que a relação mãe-criança teve o potencial neurotizante tal como assistimos acontecer na aurora da modernidade. Primeiro, que antes a criança não era colocada no lugar do falo dentro da cultura. No período medieval, por exemplo, a criança era considerada um mini-adulto, daí que a categoria social criança, assim como a adolescência, nem sequer existiam.  Foi no momento em que começou a ser dada à mulher a possibilidade de alguma realização fálica pela via da maternidade que os pais, mas sobretudo as mães, viram em seus filhos e filhas a possibilidade de se realizarem falicamente. Isso aconteceu no exato momento histórico em que a família nucelar passou a ter a função de eixo estruturante da subjetividade, função esta antes realizada pelas posições simbólicas de Deus e de seu representante na terra, o Rei. Daí que quando Freud teoriza que o filho é o falo da mulher, ele estava narrativizando psicanaliticamante este momento histórico, em que foi dada à mulher alguma chance de realização de potência, ainda que no âmbito privado, algo que até então estava restrito aos homens. O que a mulher fez então? Agarrou-se à este naco de poder &#8211; o poder materno &#8211; e fez do seu filho uma extensão narcísica sua. A partir daí é que nasce o paciente psicanalítico: com uma mãe que o prende eroticamente, e um pai fragilizado que, por destituição histórica de sua função, não conseguia mais colocar um limite na desmesura feminina. Mas, este tema nos levaria a outro texto&#8230; Então, retomemos o fio da meada.</p>
<p>O outro exemplo me veio quando pensava nesta desmesura perigosa que implica a geração de uma vida foi o de um jovem e arguto psiquiatra que contou em sala de aula o caso de sua paciente que, durante toda sua gravidez, só comia miúdos de frango, algo que ninguém podia entender porquê. Disse a ele que esta sábia e astuta mulher estava percebendo inconscientemente o quão visceral e sanguinolento era gerar uma criança em seu ventre, e depois expeli-la para fora. Esta esquisitice alimentar era, portanto, o único jeito que ela estava encontrando de colocar este excesso de Real, que é a geração de uma vida, em uma cadeia de significantes. Na falta de mentes corajosas para falar sobre o quão assustadoramente visceral e assassino-suicida é um parto, só restava a ela comer miúdos de frango, identificando-se oralmente, ela própria, com as vísceras do bicho totêmico.</p>
<p>Um último exemplo que me ocorre me veio da minha insistente curiosidade a respeito de como vivem os bichos. Certo dia vi a cena de uma mãe passarinha comendo restos de seu próprio ovo. Chocante não? Só para os muito românticos. Na verdade, ela só estava fazendo aquilo que Freud pontuou insistentemente ser a lógica do instinto: colocando acima de qualquer outro imperativo biológico, sua própria sobrevivência individual. Ora, não é isso o que fazemos todos nós, mesmo que hipocritamente digamos que não?</p>
<p>Pois, finalizando, uma das grandes mensagens que Freud nos deixou neste texto, é que, por trás de todo ato amoroso, encontraremos sempre os rastros de um narcisismo nunca abandonado; porque é só com muita renúncia e dor que abdicamos do nosso Eu em detrimento do Outro. Mesmo no amor mais “altruísta”, aquilo que amamos no Outro é quase sempre um reduto do que fomos, do que somos ou do que queremos ser nós próprios.</p>
<p>Para aqueles que se interessam pelo tema e querem aprofundar suas reflexões, sugiro os livros:</p>
<p>Bataille, Georges. (1957). <em>O Erotismo.</em> Porto Alegre: L &amp; PM.</p>
<p>Cabrera, Júlio. (2009). <em>Por que te amo, não nascerás.</em> Brasília: LGE Editora.</p>
<p>Freud, Sigmund. (1996). Sobre o narcisismo: uma introdução. In.: Freud, Sigmund. <em>Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira</em>. Volume XIV, pp. 77-110. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-problema-da-procriacao-em-freud/">O problema da procriação em Freud.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Habilidades necessárias para se exercer o ofício da psicanálise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Mar 2016 13:08:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[Ciclo de Palestras]]></category>
		<category><![CDATA[O que é psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Palestra sobre as habilidades necessárias para se exercer o ofício da psicanálise proferida no Ciclo de Palestras "Reflexões sobre o trabalho analítico na psicanálise contemporânea" organizado pelo Curso de pós-graduação em psicoterapias de abordagem psicanalítica</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise.jpg" rel="attachment wp-att-1300"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1300 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise-300x94.jpg" alt="imagem-curso-psicanalise" width="300" height="94" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise-300x94.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise.jpg 950w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>O título que escolhi para minha fala de hoje evoca, para mim, pelo menos dois pontos fundamentais que eu gostaria de refletir com vocês nesta manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro e mais aparente é: <u>o que é psicanálise e o que ela não é</u>. Ora, se pensarmos que a prática da psicanálise se define pelo seu campo ético, o fazer-se psicanalista não pode vir desacoplado da <em>práxis<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a> </em>de psicanalisar alguém. Dito isso, é fundamental que definamos em que consiste o método da psicanálise, diferenciando-o do de outras terapias. Para isso seguiremos o que nos diz Freud em seu sugestivo artigo intitulado “O método psicanalítico de Freud”, escrito em 1903, mas também o paralelo que ele estabelece em um artigo de 1904 entre as diferentes técnicas psicoterápicas.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1723"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo ponto que gostaria de abordar com vocês e que deriva diretamente do primeiro é: <u>que habilidades se espera de alguém que se compromete eticamente com o ofício da psicanálise</u>? Aqui será necessário que a gente defina o que é habilidade e o que é ofício, palavras que eu não escolhi de forma gratuita.</p>
<p>Então, vamos ao primeiro ponto.</p>
<h2><strong>O que é e o que não é psicanálise nos dizeres de Freud?</strong></h2>
<p>Escutemos o que nos diz Freud sobre o seu método em 1903:</p>
<p style="text-align: right;">                <em>A principal característica do método catártico (precursor da psicanálise), em contraste com outros tipos de psicoterapia, reside em que nele, a eficácia terapêutica não se transfere para uma <strong>proibição médica</strong> veiculada por <strong>sugestão</strong>. Espera-se que <strong>os sintomas despareçam por si</strong>, tão logo a intervenção, <strong>baseada em certas premissas sobre os mecanismos psíquicos</strong>, tenha êxito em fazer com que os processos anímicos passem para um curso diferente do que então desembocava nos sintomas. ” </em>(Freud, p. 236)</p>
<p style="text-align: justify;">Freud é enfático em sua diferenciação! O método psicanalítico não busca eficácia terapêutica pela sugestão. Tampouco seu foco de interesse imediato é a remissão dos sintomas, embora isso venha a ocorrer naturalmente na medida em que o médico compreende e interpreta o dinamismo do paciente <strong><u>baseando-se em premissas próprias sobre os mecanismos psíquicos. </u></strong></p>
<h2 style="text-align: justify;">E quais seriam estas premissas teóricas, exclusivas do método psicanalítico?</h2>
<p style="text-align: justify;">        Podemos resumi-la em três pontos fundamentais:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Que todo conteúdo desprazeroso tende a ser recalcado para o inconsciente</li>
<li>Que a cada vez que o médico tentar trazer o recalcado de volta à consciência terá que se confrontar com uma força de igual magnitude que resistirá a que o conteúdo seja lembrado</li>
<li>Que os conteúdos recalcados irão se atualizar na relação atual com o médico</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Vocês já devem ter percebido que estou falando das teorias do recalque, da resistência e da transferência!</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não se recorda destas teorias fundantes, vou resumi-las brevemente.  Freud descobriu, em linhas gerais, que o psiquismo humano é regido por um princípio fundamental que ele chamou de <strong><u>princípio do prazer-desprazer</u></strong>. Este princípio faz com que a mente humana recalque qualquer tipo de conteúdo ideativo que gere desprazer na consciência. Seria, entretanto, o uso maciço do recalque o causador do sofrimento neurótico. Daí que a função do analista seria trazer à consciência os conteúdos que sofreram recalque.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, Freud se deu conta que toda vez que o médico tenta trazer à consciência algum conteúdo reprimido inconsciente encontrará uma força de igual magnitude a que foi aplicada no recalque que resistirá a que a ideia recalcada seja lembrada e trazida de volta à consciência. A este processo psíquico ele deu o nome de <strong>resistência</strong>. Só que ele descobriu ainda mais. Ele descobriu que o paciente manifestará sua resistência em se lembrar do recalcado de uma maneira muito curiosa e inusitada: repetindo com o médico aquilo que reprimiu em termos de sentimentos e lembranças da infância. Genial como era, Freud conclui: será pela análise sistemática da <strong>transferência</strong> (foi assim que ele chamou este fenômeno) que nós mostraremos ao paciente que aquilo que ele quer viver conosco não deriva de sua vida atual, mas é um desejo infantil que se reatualiza agora e busca gratificação na figura do médico.</p>
<p style="text-align: justify;">Estas premissas são tão importantes que Freud chegou a dizer que qualquer pessoa que trabalha na clínica manejando tais conceitos – recalque, resistência e transferência – poderá se designar psicanalista.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><em>Per via di porre e per via di levare</em></h2>
<p style="text-align: justify;">Tomemos agora um outro modelo muito valioso que Freud utiliza para diferenciar as psicoterapias sugestivas da psicanálise. Este modelo se encontra no texto “Sobre a psicoterapia”, escrito em 1904. Para nos apresentar a diferença entre um método e outro ele empresta o modelo utilizado por Leonardo da Vinci para explicar a diferença entre a pintura e a escultura. Ouçamos primeiro o que nos diz Leonardo sobre as diferentes técnicas artísticas.</p>
<p style="text-align: justify;">O grande artista nos explica que a técnica utilizada na pintura e na escultura são radicalmente diferentes, até mesmo opostas entre si. Na primeira utiliza-se uma técnica que ele nomeou ser <em><u>per via di porre</u></em><u>.</u> Ou seja, nesta o artista coloca, põe tintas que antes não existiam na tela incolor. Seria, digamos, uma técnica por acréscimo. Lembrando que quem faz este acréscimo é o artista que coloca as <u>suas</u> tintas na tela branca que seria o paciente. E o método da escultura? Leonardo diz que este método é o oposto do da pintura e se dá <em><u>per via di levare</u></em>, ou seja, pela via da retirada (dos excessos). Assim na escultura o artista não coloca nada seu em acréscimo à obra. Sua função é retirar da pedra todo o excesso até que se encontre a estátua nela contida. Trata-se de uma metáfora muito bonita porque nela Leonardo concebe que a estátua existe no interior da pedra, em estado potencial, desde sempre. Daí que a modesta, mas importantíssima função do artista seria a de facilitar o parto da estátua contida no interior da pedra.</p>
<p style="text-align: justify;">Impressiona-me como Leonardo parece ter sido intuitivo e verdadeiro nesta descrição. Notem, por exemplo, como na escultura “Os prisioneiros” de Michelangelo temos a impressão vívida de que aqueles homens realmente parecem nascer e se libertar do interior do mármore com o auxílio das mãos parteiras do artista.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2016/03/download.jpg" rel="attachment wp-att-1724"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-1724 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2016/03/download.jpg" alt="download" width="339" height="149" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2016/03/download.jpg 339w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2016/03/download-300x132.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 339px) 100vw, 339px" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Agora sigamos Freud em seu paralelo.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês logo perceberão que não é difícil entender o paralelismo que ele faz entre a pintura e a sugestão e a escultura e a psicanálise.</p>
<p style="text-align: justify;">Diz ele: na sugestão o terapeuta deposita algo seu na mente de seu paciente sem se importar com a origem, a força e o sentido dos sintomas patológicos. Se pensarmos bem neste modelo, tanto a pintura quanto a sugestão são técnicas invasivas em que a personalidade do pintor e do médico estão supervalorizadas. Nela, o médico toma a mente do paciente como uma tela em branco em que ele coloca suas próprias tintas. O sujeito é tomado como um ser passivo e modelável, o que a prática clínica demonstra não ser verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Freud continua: na psicanálise, o médico não pretende acrescentar nada no paciente, mas retirar, trazer algo para fora. Ora, o que é que o médico pretende “trazer para fora”, ou melhor, “revelar” na psicanálise, seguindo o modelo da estátua de Leonardo? Nós responderíamos prontamente: o inconsciente recalcado.  O inconsciente seria, portanto, para o analista como a estátua de Leonardo: tudo o que o artista tem que fazer, assim como o analista, é modesta e arduamente revelar a estátua / inconsciente que está submergida no interior da pedra / consciência. Notem que neste modelo a personalidade do médico não se impõe sobre a do paciente. Sua função, embora importantíssima, é feita de forma modesta, discreta. Quem deve brilhar é a estátua dentro da pedra e não as tintas do desejo do médico!</p>
<p style="text-align: justify;">Bem, tendo feito estas considerações, acho que já estamos prontos para sistematizar que é psicanálise e o que não é. No primeiro caso:</p>
<ul>
<li>O sintoma não é visto como algo a ser eliminado no curso prazo, mas é compreendido pelo médico como expressão de um jogo de forças entre o desejo inconsciente e o recalque.</li>
<li>Não se visa a adaptação do sujeito à sua realidade, mas o contato com aquilo que desconhece de si mesmo</li>
<li>O médico maneja com a transferência sem ceder ao desejo do doente por gratificação infantil.</li>
</ul>
<p>No segundo caso:</p>
<ul>
<li>Qualquer método que utiliza <u>prioritariamente</u> a sugestão para conseguir a melhora do paciente (o médico “coloca suas tintas”)</li>
<li>Qualquer método que visa a adaptação do sujeito à realidade</li>
<li>Qualquer método em que o médico atua na transferência gratificando o paciente</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Em um livro muito interessante intitulado “Para que serve a psicanálise” Denise Maurano explica assim a diferença de atuação entre um psicólogo e um psicanalista. Um paciente procura um destes profissionais porque está sofrendo, por exemplo, de sintomas obsessivos. O que fará o psicólogo? Proporá por meio de sugestões e aconselhamentos determinados exercícios para que o paciente aprenda a controlar os atos que lhe atravessam. Diante dos pensamentos auto acusatórios de que o obsessivo padece terrivelmente, o profissional buscará reforçar o ego do paciente, dizendo, por exemplo, que ele não é uma pessoa tão cruel quanto pensa ser. Este tipo de técnica pode ser útil, desde que seja isso que o paciente está bem busca. E o psicanalista? Indagará o sujeito acerca de sua implicação subjetiva com seu sintoma buscando compreender de que maneira aquele sintoma faz o sujeito gozar. De onde deriva este pensamento? Da consideração freudiana de que, apesar do sintoma gerar desprazer na consciência, ele gera prazer no inconsciente porque provoca descarga.</p>
<p style="text-align: justify;">De minha parte, sistematizaria assim o pensamento de Maurano: o psicólogo se preocupa com o <strong><u>como</u></strong> este paciente vai “melhorar” e o psicanalista se preocupa com o <strong><u>porquê</u></strong> deste paciente ter produzido este sintoma e não outro e com <strong><u>o que</u></strong> está motivando inconscientemente sua permanência.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora vocês devem estar se perguntando: pois bem, já entendi que o psicanalista se preocupa com o significado inconsciente do sintoma. Mas, como chegar a estes significados se eles são inconscientes?</p>
<p style="text-align: justify;">Freud responderia: o único modo de se acessar o inconsciente do paciente é com o analista abrindo mão provisoriamente do seu Eu consciente, algo que é sentido como muito arriscado pelo ego. Na prática isso significa que o analista tem que atingir junto do paciente um estado de não dirigir conscientemente seu pensamento para nada em específico, não estabelecer nenhum tipo de controle consciente sobre seu pensamento: nem para o desejo de compreender rapidamente o que o paciente lhe diz, nem para curá-lo, nem para ajudá-lo a sair do mal-estar em que se encontra, nem qualquer outro pensamento ou desejo em que seu eu esteja implicado.  Se ele for por aí, não chegará onde precisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou usar uma experiência minha para tentar explicar o que é isso. Certa vez eu saltei de parapente. Eu estava apavorada porque tinha que saltar de uma pedra altíssima e lá em baixo só havia o mar. O instrutor me disse: quando eu começar a contar você corre comigo e salta no vazio. Não pense em nada. Não trave o seu corpo. Deixe-se levar por mim. Senão cairemos lá em baixo e nos machucaremos feio. O meu coração estava acelerado e eu tremia toda. Sentia meu corpo retesado enquanto tentava pensar conscientemente sobre aquela experiência. Entretanto, quando comecei a ouvir a voz do instrutor, tal como a um mantra, senti algo dentro de mim se soltar. Penso que foi minha necessidade de controlar a situação. Foi meu ego-consciente, portanto, que se soltou. A partir daquele instante eu senti meu corpo se movimentando, mas não era mais propriamente Eu que estava no controle. E então pulei para o abismo. Interessante destacar que não é uma experiência que eu consiga recontar pela razão. O que ficou de impressão em mim foi algo muito sensorial: o corpo sem densidade, a visão magnífica e estonteante do mar azul lá visto lá do alto, as gaivotas voando ao meu lado, o prazer e o horror de estar acima das nuvens. Acredito que é algo semelhante o que atinge o homem místico em sua experiência de transubstanciação.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, é este tipo de salto que devemos ensaiar fazer a cada sessão.  Mas por que este salto no abismo, com respectiva perda do controle do eu-consciente, é sentido como tão perigoso e digno de horror?</p>
<p style="text-align: justify;">Lembremos que, em termos teóricos, o Eu protege a mente da pura pulsionalidade que rege o inconsciente, marcado pelo excesso de gozo e de horror, tal como eu vivi em minha experiência. O Eu é, portanto, uma “tábua de salvação” que nos impede de afundarmos no irrepresentável do id, onde nem tempo nem espaço nos servem mais como referências de ancoragem. É claro que na hora H o Eu reluta. Ele não quer, ele resiste. Por isso Lacan chegou a dizer algo impressionante: ele disse que a maior resistência a se chegar ao inconsciente do paciente é do analista. Porque gato escaldado tem medo de água fria! Intuitivamente nós sabemos que esta soltura no vazio é perigosa: excita, causa horror e náusea.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso do divã serve exatamente para promover esta soltura no ar, de ambos os lados. Nesta soltura, a necessidade de o analista controlar o voo atrapalha e atrasa o processo. Como disse bem meu instrutor: provoca quedas. Nesta soltura, o que o paciente espera de você? Ele espera que você interfira o mínimo possível, mas fique lá lhe dando segurança para ele poder saltar também. Se ele sentir que você está mais apavorado que ele, não saltará e aí não haverá análise. Nesta soltura, o paciente não quer saber do Eu do analista: de quem ele é na realidade factual. O que ele espera é que o analista empreste sua mente para que ele próprio, paciente, possa se encorajar a saltar. Se o terapeuta interferir em demasia no processo, por exemplo, fazendo sugestões, que é o que fazemos quando estamos assustadíssimos, o processo não acontece.</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaria de trazer-lhes um breve exemplo clínico para demonstrar como não é com o Eu factual do analista que o paciente quer se relacionar. Trata-se de um caso meu.</p>
<p style="text-align: justify;">A analisanda, uma jovem histérica de trinta e dois anos, falava efusivamente em dada sessão de como havia beijado cinco rapazes em uma só noite. Eu sigo ouvindo-a sem fazer qualquer intervenção. Logo noto uma mudança de clima na sala, embora sutil. Suas palavras se espaçam e ela parece estar esperando que eu diga algo. Pontuo esta minha percepção à paciente que responde: “É que enquanto eu falava fiquei pensando que você deve estar com nojo de mim. <u>Na sua época tudo era tão diferente</u>!!!”</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, de quem a paciente está falando? Certamente não é de mim, do meu Eu factual, tendo em vista que não sou muito mais velha que a paciente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, então quem sou eu para aquela jovem naquele instante? De que modo ela está me “usando” para encenar seus dramas internos? Lancei na ocasião a seguinte hipótese teórica: Eu Sou a mãe enojada e aviltada frente o desejo sexual da filha. A mãe assexuada e velha de uma “outra época”; uma época sem sexo, talvez.  Só que como não existe “época sem sexo”, sendo o sexo, ou melhor a sexualidade, a nossa origem e destino, penso que por meio da frase condensada “na sua época era diferente” ela faz o seguinte lamento: “<em>Se minha mãe não tivesse evitado “as coisas do sexo”, na época dela, eu teria mais recursos para lidar com meu sexo que queima e extravasa por todos os meus poros”</em> A título de curiosidade, vim a saber depois desta sessão que quando esta jovem estava na adolescência e começou a frequentar festas e a beber, já um pouco excessivamente, a mãe a esperava de madrugada, colocava-a debaixo do chuveiro e, em meio a chineladas e tapas pelo corpo, a chamava de “<em>puta vadia”</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltemos à nossa questão. Como eu consigo ouvir este lamento e esta dor, que estão lá gritando para serem ouvidos, nos quais eu sou levada pela paciente a me implicar até o último fio de cabelo?</p>
<p style="text-align: justify;">O único modo de se chegar ao Isso do paciente é eu poder fazer silêncio e me lançar quando for a hora de dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu não tivesse conseguido silenciar no momento oportuno, poderia ter falado qualquer coisa do tipo “não se julgue com tanta severidade e moralismo” e teria perdido a preciosa chance de ouvir a paciente dizendo, logo depois do meu silêncio, que ela beijava os rapazes para provocar o olhar das mulheres (representantes do olhar materno), que ela sabia estarem-na observando.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem, acho que já temos elementos suficientes para sistematizarmos algumas ideias sobre as habilidades que uma pessoa deve ter (ou buscar ter) para exercer o ofício da psicanálise.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas antes gostaria de fazer um comentário a respeito da escolha destas duas palavras: habilidade e ofício.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>Habilidade / ofício</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">No dicionário Silveira Bueno a palavra habilidade significa: <em>inteligência, capacidade, jeito, destreza. </em>Já a palavra ofício deriva de oficina que significa <em>lugar onde se criam ou concertam coisas, lugar onde ocorrem grandes transformações (laboratório, ateliê, oficina de automóvel, etc.)</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em>Ora, acho que ninguém contestaria a afirmativa de que para se manejar um consultório analítico – lugar de grandes explosões emocionais – é preciso “levar um certo jeito para a coisa”, ou, ter algumas habilidades específicas. Listarei algumas que eu considero essenciais:</p>
<ul>
<li>Ser profundamente apaixonado pela psicanálise</li>
<li>Ser capaz de suportar grandes doses de angústia diárias</li>
<li>Ser corajoso para dizer o que for preciso</li>
<li>Gostar de estar consigo mesmo e de se conhecer</li>
<li>Ser generoso para deixar o paciente, quando possível, chegar por si mesmo às suas verdades</li>
<li>Ser humilde e curioso frente o saber inconsciente</li>
<li>Ser capaz de sentir compaixão pela miséria humana, mas não compactuar com tudo o que assassina a vida</li>
<li>Ser tenaz diante das pressões por “melhora rápida”, vinda por parte dos pacientes e da nossa sociedade “anti-mente”.</li>
</ul>
<h2>Potencialidades e não pontos de chegada</h2>
<p style="text-align: justify;">Estes itens que eu elenquei são potencialidades e não pontos de chegada. Ou seja, para aqueles que querem se dedicar à psicanálise estes itens devem servir como pontos de mira, sabendo-se que nesta busca vale muito mais a intenção de busca do que o final a ser atingido. Cada um de nós possui em seu inconsciente potencialidades inatas que podem ou não ser desenvolvidas ao longo da vida, sobretudo com a ajuda de uma análise.</p>
<p style="text-align: justify;">De outro lado – e isso não é muito fácil de se dizer, mas eu preciso fazê-lo – acredito que nem todos os seres humanos tem o potencial inato para serem analistas, ainda que queiram muito fazê-lo conscientemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, uma pessoa muito narcísica que precisa do reconhecimento constante dos outros para sentir-se alguém de valor sofreria muito se viesse a ser psicanalista. É o que ocorre, por exemplo, com pessoas que seguem carreiras artísticas ou algumas carreiras médicas em que o glamour, o culto narcísico à imagem e a tentativa de negar a morte estão presentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, pessoas que foram excessivamente poupadas das dificuldades reais que existem na vida humana, poderão achar muito penoso não satisfazer os anseios infantis de seus pacientes por gratificação, situação que poderia culminar em um clima de sedução perversa do terapeuta para com o paciente.</p>
<p style="text-align: justify;">É um pouco estranho dizer isso, mas penso ser verdade: pessoas que tiveram uma vida mais dura e que conheceram precocemente as mazelas humanas parecem ter um solo interno mais favorável para realizar o árduo trabalho de uma análise do que aquelas que foram excessivamente privadas de frustrações e mimadas em demasia na infância. Dito em outros termos: é desejável um certo espírito monástico para gostar de passar horas diárias na solidão de um consultório, em meio a livros e indagações sobre as questões fundamentais da vida humana. Uma pessoa excessivamente “pra cima” poderia vir a se frustrar com o silêncio monástico requerido em nosso trabalho, além do que esta pessoa não acharia interessante ficar se embrenhando a fundo com os problemas humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensando nisso, acho que um bom modelo a ser buscado para o nosso trabalho seja aquele que nos oferecem os homens e mulheres que buscaram na vida mística, no claustro e na pobreza material um caminho de elevação e de encontro às verdades fundamentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que assim como o místico, o psicanalista faz do seu ofício – marcado pela abdicação do brilho reluzente das necessidades do Eu &#8211; um chamado de vida, vocação muito mais do que meramente o seu trabalho remunerado. Quem tem como único e principal motivador para esta profissão o reconhecimento social e financeiro deve buscar outro ofício.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer maneira, cada um de nós que se vê internamente chamado a este árduo e belo ofício deve buscar em si mesmo, em suas terapias e análises, respostas para a questão inapelável: tenho em estado potencial as condições desejáveis para me casar permanentemente com o meu mundo inconsciente?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong><strong>Referências bibliográficas</strong></p>
<p>Bueno, F. S. (1996). <em>Dicionário de língua portuguesa.</em> São Paulo: FTD.</p>
<p>Freud, S. (1996). O método psicanalítico de Sigmund Freud. In: Freud, S. <em>Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira. </em>Vol. VII, pp. 233-240. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado escrito em 1903 e publicado em 1904)</p>
<p>Freud, S. (1996). Sobre a psicoterapia. In: Freud, S. <em>Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira. </em>Vol. VII, pp. 241-254. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original escrito em 1904 e publicado em 1905)</p>
<p>Maurano, D. (2010). <em>Para que serve a psicanálise?</em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar.</p>
<p style="text-align: justify;">*Palestra proferida no dia 12 de março no Ciclo de Palestras &#8220;Reflexões sobre o trabalho analítico na psicanálise contemporânea&#8221;organizado pelo curso de Pós-Graduação em psicoterapias de abordagem psicanalítica.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> O conceito de práxis deriva da filosofia marxista e significa qualquer atividade humana em o homem, a um só tempo, é capaz de intervir na natureza por meio de uma prática e também de refletir sobre o seu fazer. Ressalta-se que esta capacidade prático-analítica é exclusiva do ser humano. Em outros termos, para Marx, na medida em que o homem interfere na natureza, também é modificado por ela.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/habilidades-necessarias-para-se-exercer-o-oficio-da-psicanalise/">Habilidades necessárias para se exercer o ofício da psicanálise</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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