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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 29 Jul 2014 21:29:05 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Até quando devemos prolongar a vida humana?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jan 2013 18:08:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[mecanismo de defesa negação]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o suicídio e sobre a necessidade de negação da morte. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-negacao-da-angustia-diante-da-morte-e-suas-consequencias-para-a-vida/">Até quando devemos prolongar a vida humana?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-680 " src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/suicidio1w-300x216.jpg" alt="suicidio1w" width="238" height="171" />As ideias contidas neste texto são fruto de uma série de reflexões que pude fazer ao longo da semana passada e que foram motivadas pelo suicídio do ator Walmor Chagas e pelo filme francês “Amor”, de Michel Haneke, em exibição nos cinemas.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-679"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">O suicídio de Walmor Chagas:</h2>
<p style="text-align: justify;">Vamos ao primeiro. Em junho do ano passado, assisti no canal Globo News a uma entrevista do ator Walmor Chagas, divulgada no programa Starte.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-681 size-medium" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/esperando-a-godot-300x300.jpg" alt="esperando-a-godot" width="300" height="300" />Nesta entrevista, logo depois em que ele contou sobre a morte de sua companheira Cacilda Beker, que teve um infarto fulminante apos encenar “Esperando Godot” de Samuel Beckett, a entrevistadora pergunta a ele sobre suas perspectivas futuras, que responde: “Que venha a morte. Eu não tenho medo de morrer. Afinal, o que um homem na minha idade pode esperar mais? Eu só quero que seja uma morte interessante. Morrer de avião deve ser bastante interessante.”</p>
<p style="text-align: justify;">A entrevistadora, visivelmente incomodada com a resposta do ator, tentou encorajá-lo e animá-lo “a não pensar nestas coisas”. Eu achei muito corajosa e autêntica sua resposta. Mas, a questão é que, em meio a estas reflexões, eu também me perguntava: Mas o que é que ela espera ouvir de um homem de oitenta e tantos anos? Que ele queira viver até os cento e vinte?  Por que é tão incomodo ouvir que uma pessoa está cansada de viver? Walmor nesta entrevista pareceu deixar muito claro que não pôde suportar a dor pela perda de sua esposa e que, depois disso, sua vida perdera o sentido, algo que o levou a se isolar em seu sítio de onde só saia raramente.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Em janeiro de 2013, neste mesmo canal televisivo, a seguinte notícia é veiculada por uma repórter: Walmor Chagas morreu!</p>
<p style="text-align: justify;">Muito interessante o modo como a informação foi noticiada e as tentativas de esconder o incômodo fato de que ele havia se matado. A repórter dizia que o grande ator havia morrido e que, apesar de ter sido encontrado sentado na cozinha com uma arma no colo e um tiro na cabeça, pelo caseiro da fazenda às cinco horas da tarde, a polícia ainda estava investigando a causa da morte e que havia uma chance de ter sido furto!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mecanismo de defesa da negação:</h2>
<p style="text-align: justify;">Nesta situação vemos um exemplo emblemático do uso do mecanismo de defesa da negação visando a evitação da dor provocada pela percepção da existência do anseio pela morte.  Em seguida, é anunciado o programa Starte. Penso eu: será reprisada a entrevista de Walmor, como uma forma de se prestar homenagem a ele. Não é isso que acontece com os atores queridos?</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi assim que aconteceu com a morte de Hebe Camargo (que morreu de câncer, ou seja, uma morte não intencional), a quem tivemos que assistir por meses a fio programas e homenagens? Para minha surpresa, mas nem tanta, o programa não seria a reprise da entrevista, mas sim sobre um pintor francês, apontando para a necessidade de silenciamento sobre o assunto.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Suicídio em massa e não visibilidade do sofrimento mental:</h2>
<p style="text-align: justify;">Rossevelt Cassorla, <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">psicanalista</a> que desenvolveu muitos estudos sobre o suicídio, afirma em um de seus textos sobre o tema, que um dos argumentos para que a mídia evite o uso desta palavra diz respeito ao medo de que a notícia estimule suicídios em massa. Eu acrescentaria a este motivo, que a negação da informação do suicídio de Walmor se deve a dificuldade que existe, no âmbito social, de se valorizar e discutir as questões do sofrimento mental, que podem levar um sujeito a tirar a própria vida. Então, funciona mais ou menos assim: Se a gente não falar do bicho, ele passa a não existir!</p>
<p style="text-align: justify;">E aí entra o segundo fato, que veio dialogar diretamente com o meu incômodo “televisivo”.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Filme &#8220;Amor&#8221; de Michel Haneke:</h2>
<p style="text-align: justify;">Para quem ainda não viu, não pode perder o filme “Amor” do diretor Michel Haneke.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-682" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/Amor-de-Michael-Haneke-208x300.jpg" alt="Amor-de-Michael-Haneke" width="208" height="300" />Vou contar a história de forma bem resumida: retrata a vida de um casal de idosos por volta dos oitenta anos, ambos musicistas brilhantes. Anne, a esposa, depois de assistir à apresentação de um aluno seu sofre uma isquemia que paralisa o lado esquerdo de seu corpo. Sua condição, agora de extrema dependência do marido, vai se deteriorando cada vez mais e ela pede a ele: “Não deixem que me vejam desse jeito. Não quero que se lembrem de mim assim!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Junto da paralisia, surge um quadro demencial que deixa Anne na cama, usando fraldas, sendo alimentada por sondas e cuidada pelo marido zeloso. A filha, incapaz de suportar a percepção da condição deteriorada de sua mãe, sugere ao pai que a coloque em uma clínica. Em suma, solicita a ele que leve para longe dela o mal cheiro que exalam a deterioração humana e a proximidade da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">O marido, devotado à promessa que fez a sua mulher, de que não a levaria para o hospital em hipótese alguma, recusa veementemente a solicitação da filha e passa a evitar cada vez mais que esta veja a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Isolado com sua profunda dor de ver sua mulher, outrora tão ativa e vivaz, minguar na cama, cheia de feridas e gritando incessantemente que “dói”, ele, depois de contar a ela uma dolorosa história sobre sua própria infância, a mata asfixiada com um travesseiro.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Até quando devemos prolongar a vida humana?</h2>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me que quando estagiava no hospital atendendo pacientes terminais, ficava muito intrigada com a raiva que eles despertavam na equipe quando diziam que não queriam mais viver. O discurso comum entre médicos e enfermeiros era normalmente este: “Mas como? Você não pode entregar os pontos deste jeito?”</p>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me também da minha profunda angústia diante da morte, do mal cheiro exalado pelas doenças e pelo imenso vazio deixado pelos pacientes que eu atendia em uma tarde e que na manhã seguinte haviam &#8220;partido&#8221;. Nos momentos em que, auxiliada pela minha análise, podia ter um olhar mais expandido, eu frequentemente me perguntava quem estaria mais assustado neste momento? O paciente que estava cansado de viver ou a equipe que teria que lidar com seus sentimentos de impotência e de não compreensão diante do fim?</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, quando a repórter insiste para que Walmor se anime ou quando o nosso sistema de saúde gasta contas altíssimas para se preservar a vida vegetativa, a quem é que estamos servindo? A qual desejo? Estaríamos servindo realmente a um real desejo destas pessoas de não querem morrer? Ou estaríamos tentando nos acalmar e fazer as pazes com os nossos mais terríveis e assustadores sentimentos, despertados pelo contato direto com a morte?</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de suicídio talvez não chocasse tanto as pessoas em geral e a opinião pública se pudéssemos tomar contato profundo com a percepção de que viver é um peso e uma luta constante entre o desejo de viver e o desejo de morrer, ao qual todos nós respondemos todos os dias.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Amor?</h2>
<p style="text-align: justify;">Acho que o nome do filme faz uma alusão interessante a esta discussão. Qual seria uma real atitude amorosa por parte do marido de Anne? Prorrogar a sua vida em condições debilitantes e não humanas? Ou, num ato de compaixão e profunda compreensão do sofrimento de sua esposa, acabar com o seu sofrimento, como de fato ele fez? Em minha perspectiva, o marido de Anne não cometeu nenhum crime. Muito pelo contrário! Pôde compreender, num momento de profunda comunicação com a dor de sua esposa (e de sua própria) que a vida precisaria chegar ao fim naquele momento. Afinal, tudo o que é vivo, morre. Tudo o que floresce, também fenece. Este é o ciclo da vida-e-morte que marca a todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de Walmor, quem de nós poderá dizer qual o nível de sofrimento que suporta uma mente? Quem de nós poderá dizer, diante de um sofrimento que às vezes é insuportável, que a vida precisa ser preservada a qualquer custo?</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que este tipo de discussão, sobre até quando deve ser prorrogada a vida humana e em quais condições, normalmente é emperrada por discursos religiosos  e &#8220;científicos&#8221; que apregoam que a vida precisa ser mantida custe o que custar, inclusive a de fetos anencéfalos! Da minha parte, acredito que este tipo de discussão moralizante pode esconder dificuldades mais profundas no enfrentamento da nossa condição humana mortal, finita e absolutamente frágil. Além disso, tomam como óbvia a definição do que seja vida.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer forma, não há respostas prontas para todas estas indagações, mas como aprendemos com a <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Psicanálise</a>, mais importante do que termos respostas, é não deixarmos de fazer perguntas, as únicas que podem nos ajudar a colocar algum sentido naquilo que, às vezes, parece não ter sentido algum.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-negacao-da-angustia-diante-da-morte-e-suas-consequencias-para-a-vida/">Até quando devemos prolongar a vida humana?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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