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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Minhas primeiras jabuticabas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Nov 2017 19:03:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[jardim como metáfora da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[realidade]]></category>
		<category><![CDATA[superação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto utiliza o cuidado de um jardim e a observação atenta do ritmo da natureza como metáfora para a vida humana.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/minhas-primeiras-jabuticabas/">Minhas primeiras jabuticabas</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/11/IMG-1115.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1851 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/11/IMG-1115-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Que feliz aprendizado estou tendo ao poder cuidar de meu jardim e observar o ritmo próprio da natureza. Tenho me impressionado ao pensar como o cuidado das plantas e a observação atenta do ritmo da Terra podem ser uma rica metáfora da própria vida e de como devemos buscar vivê-la.</p>
<p>Mudamos para nossa casa no mês de maio deste ano e iniciamos nossa jornada nela com um difícil e árido outono. Neste momento, as plantas recém-plantadas e, portanto, ainda muito frágeis, começavam a perder suas folhas, em um processo que parecia de destruição, mas que, no fundo eu sabia ser de renovação. Enfrentando uma dura estiagem, lembro-me de como me senti exigida em minha capacidade de espera pela realidade inóspita porque meus olhos me levavam a crer que aquelas plantas não iriam sobreviver, por mais água que lhe déssemos.</p>
<p><span id="more-1850"></span></p>
<p>Como elas ainda eram jovens e não tinham vigor suficiente para exibir frutos maduros (que é o que acontece no outono), não tinha a gravidez à mostra para me reassegurar de que a vida estava a salvo. Eram jovens plantas e precisariam de algum tempo para poder frutificar e o que me restava fazer era esperar pacientemente e regá-las todos os dias.</p>
<p>O solo seco fazia a água rapidamente ser sugada e eu a imaginava indo direto para as raízes sedentas pela fonte da vida. Num exercício imaginativo (porque eu que eu via estava seco e se despregando num ritmo frenético) eu apostava na força vital daquelas raízes que, longe dos meus olhos, estariam se espraiando por debaixo do solo e encontrando em si mesmas a força necessária para se desenvolverem e lutarem pela vida.</p>
<p>O difícil neste momento era acreditar que, através da paciência e do exercício diário de rega, algum milagre iria acontecer num futuro longínquo. Portanto, confiar mais no coração esperançoso do que no que os meus olhos viam foi o grande exercício da ocasião. Acreditar também na capacidade inata daquelas plantinhas de receberem e utilizarem bem os nutrientes que eu estava lhes dando era fundamental.</p>
<p>A chegada do inverno foi ainda mais difícil e exigente em termos de esperança. Os animais desapareceram da vista e eu sabia que eles estavam guardando suas últimas forças para chegarem vivos à primavera. A fonte de alimento para eles rareava porque o solo estava seco e sem água nada vive.</p>
<p>Os primeiros lampejos de inverno foram anunciados com ventos violentos que me faziam pensar que a terra estava em uma furiosa ebulição transformadora que, ainda que eu não enxergasse, podia intuir. Era como se grandes massas energéticas estivessem sendo transportadas de um lado para o outro. Como se os deuses estivessem se retesando e lutando nos céus fazendo tudo vibrar em um rancor endurecido.</p>
<p>As noites frias caiam rapidamente e os períodos de luz eram curtos. Em um piscar de olhos tudo ficava tenebrosamente escuro e eu me via em um movimento natural de buscar abrigo e luz dentro de casa. Sentia um medo irracional de sair na noite densa, exceto nos dias de lua cheia que, como mulher grávida, inundava de luz o negrume absoluto. Movimentos de esperança e desesperança, de medo e espera tensa se alternaram em meu coração nestes seis meses iniciais.</p>
<p>Entendi a partir daí porque o homem do campo ou o homem primitivo interpretavam os fenômenos climáticos como fúria ou benevolência dos deuses.</p>
<p>Um dia, relendo “O Evangelho segundo Jesus Cristo” de José Saramago encontrei a seguinte frase:</p>
<p style="text-align: right;">                 “(&#8230;) o mais eram as acostumadas e consabidas repetições duma terra que nos inverno parece morrer-nos     nos braços e nas primaveras ressuscitar, observação falsa, engano grosseiro dos sentidos, que a força da       primavera não seria nada se o inverno não tivesse dormido.”</p>
<p style="text-align: left;">Então, confirmei em uma escrita poética aquilo que estava sentindo. Tratava-se de um erro grosseiro dos meus sentidos acreditar que tudo estava morto. O dormitar invernal, ao contrário do que me diziam meus os olhos, era acúmulo de energia para a fecundidade primaveril. Assim como o organismo feminino se extenua a cada mês, em uma luta colossal, para preparar seu óvulo; assim como o bravo guerreiro acumula forças para triunfar na batalha, também a natureza se aquietava e se entesava para depois explodir em vida.</p>
<p style="text-align: left;">E eis que, então, os primeiros raios da primavera começaram a dar seus sinais. Os bichinhos hibernadores saíram de suas tocas, a chuva milagrosa começou a cair do céu e a vida se refez mais uma vez.</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/11/IMG-1113.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1852 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/11/IMG-1113-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Desde então meu coração se enche de alegria a cada manhã quando, sob um céu límpido e azulíssimo, as flores coloridas salpicam o meu querido jardim de beleza; as borboletas coloridas correm de um lado pro outro, os animais se alimentam em abundância, e o meu coração se enche de enorme fé na vida.</p>
<p style="text-align: left;">Olhando para trás, sinto que cada momento vacilante de espera foi importante para meu deslumbramento de agora.</p>
<p style="text-align: left;">Extrai desta rica experiência um significado profundo. Penso que temos muito a aprender com o ritmo próprio da natureza.</p>
<p style="text-align: left;">Quando se trata de nosso semelhante, tal como as árvores e plantas, acredito que se os ajudamos a ser o melhor que podem, na dedicação e no trabalho diário do cuidado, na enorme maioria das vezes eles respondem com exuberância.</p>
<p style="text-align: left;">Como analista, a cada pessoa que recebo, busco confiar que suas raízes serão resistentes e generosas o suficiente para receberem e utilizarem bem os nutrientes que eu lhes dou. E embora nunca haja garantia sobre isso, prefiro apostar sempre que há recursos, ainda que eles tenham ficado muito judiados pela vida ou pelos impulsos de ódio e inveja.</p>
<p style="text-align: left;">E então, assim como a planta, se você cuida com respeito e dignidade, a pessoa responde se tornando um ser humano melhor.</p>
<p style="text-align: left;">Penso ser assim com qualquer coisa viva pela qual nos responsabilizemos por cuidar. Um filho, um bichinho, uma planta devolvem para nós aquilo que damos a eles. Se dermos amor, respeito e cuidado dignificante, respondem bem; se respondemos a eles reclamando do trabalho que nos dão, se os insultamos por nos serem cansativos e incapazes, se nos frustramos por não terem nascido perfeitos e acabados, ou, ao contrário, se o mimamos em demasia, tornar-se-ão plantas fracas e não belas.</p>
<p style="text-align: left;">No caso dos seres humanos, a tragédia pela falta de amor ou pelo excesso de mimos e de proteção (que não pode ser chamado amor) é ainda mais terrível porque, ao contrário das plantas e dos bichos, nós somos muito mais dependentes do que recebemos de fora.</p>
<p style="text-align: left;">Portanto, o aprendizado que esta experiência me dá leva-me a pensar no verdadeiro amor, no amor-dom.</p>
<p style="text-align: left;">O amor-dom sabe que o esforço diário, a rega quotidiana, a poda corriqueira é o verdadeiro ato amoroso. Amar só na beleza e quando está tudo pronto é fácil. Difícil é amar na dificuldade; difícil é amar quando tudo está seco, quando há tanto trabalho a fazer, quando quase falta a esperança. Mas é aí, e só aí, que o verdadeiro amor se exerce.</p>
<p style="text-align: left;">Aquele que só consegue amar uma planta quando ela está bonita e florida, na verdade, não a ama. Está apaixonado por sua falsa miragem. Aquele que ama seu filho só quando ele está cheiroso, mas que se queixa do trabalho quando tem que educá-lo, contar-lhe estórias sobre a vida, amparar do medo e ensiná-lo a ser gente de verdade, não ama verdadeiramente seu filho. Está apaixonado por sua própria perfeição. Aquele que só ama seu companheiro quando ele está feliz e bem sucedido, da mesma forma, não o ama verdadeiramente.</p>
<p>Este falso amor, no humano, está fadado à desilusão, à prisão pelo ódio, à falsidade e à hipocrisia. Apesar do amor-dom ser algo de difícil realização no humano, é algo que podemos e devemos buscar como propósito.</p>
<p>Além desta aprendizagem, minhas árvores e plantas me ensinaram ainda outra coisa.</p>
<p>Que o verdadeiro sentido da vida está nestas pequenas tarefas quotidianas, no trabalho miúdo com a vida; que é só podendo acolher com carinho o esforço diário que implica viver, é que a vida passa a ter sentido.</p>
<p>Pessoas insatisfeitas e infelizes no mundo todo se asfixiam com ilusões de ganhar na loteria, de mudar de país ou de planeta, quando na verdade não percebem que o verdadeiro heroísmo está em aceitar a realidade tal como ela é, sem ficções, sem fantasias.</p>
<p>Minha alegria de agora só é possível porque abracei todo o esforço angustiante do outono-invernal. Por não tê-las abandonado (e a mim mesma) à própria sorte é que posso agora me alegrar com o que me aconteceu hoje pela manhã.</p>
<p>Acordei e, como toda manhã faço, fui ao jardim e eis que avistei minhas primeiras filhas-jabuticabas, lindas e robustas, nascidas dos três pezinhos que plantamos lá.</p>
<p>Estas filhas-jabuticabas que agora me dão tanto orgulho são fruto do meu casamento sólido com a realidade, à qual, com toda sua ambiguidade, me preenche de esperas e de sonhos possíveis.</p>
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