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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Thu, 09 Jul 2015 13:00:14 +0000</lastBuildDate>
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		<title>A morte é um borrão na natureza.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Dec 2014 19:05:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhadores do Mar]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Hugo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em “Os trabalhadores do mar”, de Vitor Hugo, diz o narrador sobre o desespero de Gilliatt, diante do risco de sua própria morte:             O homem diante da noite reconhece-se incompleto. O céu negro é o homem cego. Com a noite o homem abate-se, ajoelha-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A morte é um borrão na natureza.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/">A morte é um borrão na natureza.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/download.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1278 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/download.jpg" alt="download" width="300" height="168" /></a>Em “Os trabalhadores do mar”, de Vitor Hugo, diz o narrador sobre o desespero de Gilliatt, diante do risco de sua própria morte:</p>
<p style="text-align: justify;">            <em>O homem diante da noite reconhece-se incompleto. O céu negro é o homem cego. Com a noite o homem abate-se, ajoelha-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido. Pergunta: O que é; treme, curva-se, ignora; às vezes, quer ir lá. Todo o número é zero diante do infinito. Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro. Mas, este prodígio universal não se realiza sem atritos e os atritos é o que chamamos de Mal. O Mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro e o planeta pelo cometa. O Mal é um borrão na natureza.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1277"></span></p>
<p style="text-align: justify;">De que nos fala Vitor Hugo nesta bela passagem?</p>
<p style="text-align: justify;">O que quer dizer ele com: O Mal é aquilo que atrita este prodígio universal chamado vida? Ou ainda, o Mal desconcerta a vida, que é uma lógica. O Mal é um borrão na natureza.</p>
<p style="text-align: justify;">Para refletir sobre esta questão, partirei de algo que estou vivendo neste momento. Tenho acompanhado de perto uma pessoa da família com diagnóstico de câncer.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que é deste Mal que nos fala Vitor Hugo. Ele não fala do mal que o homem causa, consciente ou inconscientemente, a si mesmo por causa de sua própria miopia. Vitor Hugo, na voz de Gilliatt fala do Mal que vem bagunçar a lógica e a estética da vida, sobre o qual nós não temos nenhum controle: a doença, a nossa impotência diante da força da natureza (por exemplo, nas grandes catástrofes naturais), a fome, a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Para começar, o homem anseia deste sempre a perfeição e a imortalidade. Freud chegou a dizer que para o inconsciente o tempo não existe. Por isso olhamos com tanto estranhamento e até um pouco de desdém a desgraça dos outros, o envelhecimento dos outros, a morte dos outros. Lá no fundo de nossas almas nós pensamos: isso nunca vai acontecer comigo! Eu nunca vou ficar doente! Eu nunca vou envelhecer. Certo dia uma pessoa já velha me disse com pesar que sentia que seus filhos a desprezavam, algo que ela relacionava com o fato dela própria estar velha e próxima da morte. Acho que ela está certa em sua percepção. Nós seres humanos não gostamos da velhice e da doença porque ela nos sinaliza a proximidade da nossa própria morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, Vitor Hugo não nos ensina somente que o Mal – estas coisas que nos acontecem sobre as quais não temos o menor controle – atrita a lógica da vida. Ele nos ensina mais. Fala que diante do Mal o homem tem pelo menos duas saídas: ou ele se ajoelha e se arrasta para o buraco, acovardando-se em sua luta, ou ele cria asas. Se ele pode criar asas e ficar frente a frente com o desconhecido, algo sublime acontece: sua alma cresce pelo assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos agora a esta pessoa diagnosticada com câncer. O que ela pode fazer diante deste Mal, deste borrão da natureza, deste atrito que vem retirar dela a ilusão narcísica de que com ela isso nunca aconteceria, de que ela tinha um tempo infinito para realizar-se como ser humano?</p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhando Vitor Hugo, ela pode ajoelhar-se e meter-se em um buraco negro e sombrio. Estamos aqui no campo dos sentimentos depressivos e melancólicos, que tem como raiz a revolta, filha do ódio. Em termos poéticos, neste caso a dor se transformou em ódio, como nos ensinou Guimarães Rosa na voz de Riobaldo. O desconhecido é evitado e nada de sublime acontecerá. Sua alma não crescerá e não poderá aprender nada sobre a vida pelo assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, há outra saída. Diante do Mal-borrão-da-natureza, sua mente pode criar asas. Esta pessoa pode, em um casamento profundo com as forças de vida, dançar de perto com o abismo, repensar sua própria vida, fazer um balanço, reencontrar novos sentidos, transformar-se profundamente. É verdade que para isso é preciso ter muita coragem. É verdade que para isso é preciso já se ter alguma familiaridade com esta lógica ilógica que é a vida-morte. Caso contrário, o choque é muito grande e talvez ela não possa sobreviver a ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Se ela pode criar asas e perceber que, na natureza, a mosca é devorada pelo pássaro (não há violência nem intencionalidade nisso) e que o nosso planeta pode, a qualquer momento, ser destruído por um cometa qualquer, ou seja, que somos poeira cósmica diante do infinito, sua mente se torna também infinita e aberta para pensar pensamentos nunca antes sonháveis. Eis aqui o milagre!</p>
<p style="text-align: justify;">Penso, portanto, que Vitor Hugo nos alerta para algo crucial na vida: o corpo que envelhece, adoece só é sentido como prisão quando o que se está aprisionada é a mente. Uma mente dotada de asas não se abate diante do perecimento do corpo. Ela se solta, deixa ir quando for a hora. Ela aceita que tudo que é vivo, perece; que nós estamos morrendo sempre um pouco por dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para isso é preciso ter alma antiga, algo que não depende da idade cronológica, mas do quanto já se pôde crescer pelo espanto!</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma música linda feita por Raul Seixas que diz assim:<em> </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Eu sei que determinada rua que eu passei</em><br />
<em>Não tornará a ouvir o som dos meus passos</em><br />
<em>Tem uma revista que eu guardo há muitos anos</em><br />
<em>E que nunca mais eu vou abrir.</em><br />
<em>Cada vez que me despeço de uma pessoa</em><br />
<em>Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez</em><br />
<em>A morte, surda, caminha ao meu lado</em><br />
<em>E eu não sei em que esquina ela vai me beijar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Com que rosto ela virá?<br />
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?<br />
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?<br />
Na música que eu deixei para compor amanhã?<br />
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?<br />
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,<br />
E que está em algum lugar me esperando<br />
Embora eu ainda não a conheça?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Vou te encontrar vestida de cetim,<br />
Pois em qualquer lugar esperas só por mim<br />
E no teu beijo provar o gosto estranho<br />
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar<br />
Vem, mas demore a chegar.<br />
Eu te detesto e amo morte, morte, morte<br />
Que talvez seja o segredo desta vida<br />
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Qual será a forma da minha morte?<br />
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.<br />
Existem tantas&#8230; Um acidente de carro.<br />
O coração que se recusa a bater no próximo minuto,<br />
A anestesia mal aplicada,<br />
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida<br />
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,<br />
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Oh morte, tu que és tão forte,<br />
Que matas o gato, o rato e o homem.<br />
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar<br />
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva<br />
E que a erva alimente outro homem como eu<br />
Porque eu continuarei neste homem,<br />
Nos meus filhos, na palavra rude<br />
Que eu disse para alguém que não gostava<br />
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Vou te encontrar vestida de cetim,<br />
Pois em qualquer lugar esperas só por mim<br />
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar<br />
Vem, mas demore a chegar.<br />
Eu te detesto e amo morte, morte, morte<br />
Que talvez seja o segredo desta vida<br />
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente ou não, Raul Seixas morreu jovem, pelo menos em termos cronológicos. Morreu dormindo. Ou seja, a vida foi generosa com ele e lhe enviou a morte vestida em uma bonita roupa. Enquanto vivo Raul parece ter podido dançar de perto com o abismo, com o desconhecido, algo que sempre traz um imenso prazer, mas também uma imensa dor. Para ele, o véu do Real se descortinou e ele pôde olhar para aquilo que cega, de tanta beleza, de tanta dor, de tanto assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste universo mítico, representado pelo mar em Vitor Hugo, e pela &#8220;metamorfose ambulante&#8221; de Raul Seixas que encontramos o inconsciente, o pulsional, aquilo que está além ou aquém da representação, fonte de energia criativa e de angústia, pela proximidade com o inanimado. Neste caos mítico, o mergulho é silencioso, profundo e alto, denso, escuro, sinistro, criativo e doloroso como um parto. Deste mergulho, nunca sabemos bem o que irá nascer. É espantosa a transformação.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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