Foi com grande alegria que me deparei, sem querer, com o livro Caderno Proibido, de Alba de Céspedes y Bertini, escritora ítalo-cubana a quem eu não conhecia.
O título remete à situação na qual, a protagonista do livro, Valéria, uma mulher de 43 anos bastante comum, casada há vinte anos e com filhos já grandes, decide comprar um caderno no qual passa a anotar seus pensamentos mais íntimos, experiência que se torna perigosa para ela, por trazer à tona suas frustrações com o casamento desgastado, o egoísmo dos filhos, a falta de dinheiro, a solidão e o cansaço extremo, insatisfações às quais, a princípio, ela tenta erradicar sonhando ir à Veneza com o chefe.
Caderno perigoso
Penso, nesse sentido, que o caderno, mais que proibido, era perigoso, pois, afinal, ninguém nos proíbe de pensar, nem mesmo na pior ditadura, enquanto que pensar com a própria cabeça é perigoso para muitas pessoas.
Primeiro, porque elas começam a enxergar coisas que antes não viam e, segundo, porque podem ir se paralisando com o que agora vêem, o que não é o caso da protagonista, que vai claramente amadurecendo ao longo do diário.
Um exemplo deste seu amadurecimento é ela, ao final do livro, dizer ao chefe que fugir com ele para Veneza era, no fundo, uma grande ilusão já que a relação deles nunca daria certo porque ele era rico e ela, pobre.
O mundo dos privilegiados
A propósito, esta percepção arguta de que, no fundo, muita coisa na vida de uma pessoa depende de sua classe social permeia todo o romance, estando muito bem representada, por exemplo, na figura de Mirella, filha da Valéria, moça emancipada, prática e nada romântica que lutava a qualquer custo contra o provincianismo da mãe e por independência financeira.
E também em Michelle, marido da protagonista, que carregava uma frustração enorme por ter sido obrigado a trabalhar a vida toda num banco para sustentar a família, enquanto sonhava ser roteirista de cinema.
Diferença no tratamento dos filhos
Já Ricardo, o outro filho do casal, representa no romance o homem fraco e mimado pela mãe, que nunca assume as rédeas da própria vida, por lhe ser mais vantajoso sempre viver às custas dos outros, o que ele próprio termina fazendo quando vai morar na casa dos pais assim que engravida a namorada Marina.
Nesse aspecto, Alba destrincha com maestria o modo desigual que algumas mães tratam os filhos homens e mulheres, mimando os primeiros e sendo excessivamente rígidas e severas com as filhas, o que eu mesma vivi em minha família de origem.
O motivo mais profundo para isso penso que se deve ao fato de que a mãe costuma reproduzir de modo inconsciente com a filha mulher, tal como um espelho invertido, os próprios conflitos e preconceitos não elaborados nela, sobretudo no campo sexual e moral.
O que significa dizer que é no interior das próprias famílias que toda ordem de violências, preconceitos, desigualdades de gênero, machismos, segredos e mentiras são transmitidas aos filhos.
Reputação e honra
Valéria é, nesse sentido, uma mulher típica que foi criada para cuidar da imagem pública da família em termos de reputação e honra, e que termina por cair em terríveis contradições na medida em que insiste em continuar mentindo para si mesma.
Exemplos disso são o fato de que Valéria criticava a filha por sair com um homem casado, ao mesmo tempo em que ela própria estava envolvida com o chefe, também casado. Da mesma forma que criticava a filha por ser tão obstinada com a carreira e dinheiro, enquanto ela mesma lastimava o fato de ninguém valorizar o seu trabalho, e de serem todos tão pobres.
Mulheres gostam de homens ricos
Outro ranço social trazido por Valéria, e por suas amigas, é a visão, infelizmente ainda tão atual, de que moças, afinal, só se interessam por homens ricos como forma de subir na vida, o que talvez seja verdade para um tipo de mulher, mas não para todas. Certamente, não sendo este o caso das duas protagonistas do livro, Valéria e Mirella, duas mulheres fortes e bem assentadas na vida.
Assim, a profundidade e a forma nuançada com que Alba evidencia o choque geracional entre estas duas mulheres fortes, mãe e filha, impressiona, a tal ponto que ora nos identificamos com Valéria, ora com Mirella e terminamos o livro com a incômoda constatação de que viver, seja em qual época for, é sempre muito mais difícil do que parece.
Fugindo de estereótipos
Nesse sentido, Valéria não é a caricatura da mulher infeliz, que foi obrigada a se casar e ter filhos, sendo que, ao contrário, ela gosta desta sua vida, que lhe dá segurança, preenchimento e estabilidade interior, e que, por exemplo, é invejada pela amiga Clara.
Ao mesmo tempo, conforme Alba sugere, só isso não basta para uma mulher definir quem ela é, sobretudo com a chegada da meia idade e a saída dos filhos de casa.
Curiosamente, ao final do livro Valéria termina feliz, com a perspectiva de agora voltar a se preencher cuidando do neto e chega a dizer sobre isso que o único momento no qual se sentiu realmente viva foi quando trouxe os filhos à vida, ao contrário da filha Mirella, que parecia se sentir viva e feliz em cada pequena ação diária.
Mérito não exclusivo dela, mas sim da sorte, de fazer parte de uma geração de mulheres a quem se deixou de impor, como único destino possível, casar e ter filhos.
Sobre isso, para além de uma reflexão fácil de que Valéria foi doutrinada a só encontrar sentido parindo e cuidando de bebês, penso que Alba aponta aqui, num nível mais maduro, para a questão de temperamento, a saber, de que há mulheres que gostam de bebês e de ter filhos e outras que não, sendo que somos todas diferentes umas das outras.
As ambivalências da maternidade
Sobre isso ainda, Alba mostra em seu livro, com enorme habilidade, as ambivalências da maternidade e o enorme custo que um casal paga ao ter filhos, inclusive do ponto de vista erótico.
No primeiro aspecto, cita-se a alegria e ternura que Valéria experimentava quando os filhos, já adultos, lhe demandavam algum cuidado, ao mesmo tempo em que enxergava, desconcertada, o quanto eles eram por vezes egoístas e autocentrados.
Já no segundo, cita-se sua percepção do quanto, depois da chegada dos filhos, a vida sexual entre ela e Michelle murchou, seja pelas excessivas demandas da vida diária, seja porque ambos se sentiam desconfortáveis de transar com os filhos em casa:
“Tememos que os filhos se deem conta de uma vida secreta nossa, aquilo que nos torna tão relutantes em nos entregar a ela: é porque sentimos que marido e mulher, que se unem numa relação encoberta, depois de terem falado o dia inteiro de contas, de dinheiro, depois de terem fritado ovos, lavado pratos sujos, já não obedecem a um feliz e jubiloso desejo de amor, mas a um instinto primário como sede, fome, um instinto que se faz no escuro, rapidamente, de olhos fechados”
A relação conjugal
Sobre isso, Valéria e Michelle pareciam ter um bom casamento, havendo cumplicidade e intimidade mental entre eles, apesar de que Michelle, como todo homem antigo, não se envolvia muito com a criação dos filhos e delegava toda a pesada carga para a esposa, situação que felizmente vem se modificando, ainda que muito lentamente.
Em suma, Michelle era um homem que, apesar de bom, honesto e trabalhador, havia se acomodado, como tendem a fazer todos que envelhecem. Nesse aspecto, é bonito e triste ao mesmo tempo ver no romance que uma centelha de vida volta a se reacender dentro dele quando a amiga Clara se mostra interessada em seu roteiro, promessa que terminará por não dar em nada já que os donos da indústria cinematográfica o julgaram muito ousado.
Diante de tal negativa, Valéria olhará com ternura e compaixão o marido de meia-idade, agora para sempre derrotado, que havia sacrificado tudo em nome da família, o que me fez pensar que envelhecer pode ser isso mesmo: abdicar para sempre de cada um dos nossos sonhos antigos, pois não se tem mais tempo hábil para realizá-los. Como diz Valéria:
“Aos 43 anos, se tudo o que possuímos nos vier a faltar, é muito difícil recomeçar a viver.”
Considerações finais
Há uns poucos livros que tocam em algo muito fundo em nós, sendo este o caso do livro Caderno Proibido, de Alba de Céspedes. Um livro sobre a fase madura da vida de uma mulher, na qual eu mesma me encontro.
Do ponto de vista ideológico, penso ser um livro extremamente urgente e atual, pois nele se vê demonstrado que o mal não está em se ser conservador, mas sim hipócrita. Hipocrisia que, aliás, também encontramos aos montes entre os progressistas.
O que me fez pensar que, decididamente, Alba de Céspedes é mesmo uma autora para gente adulta.
