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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 31 Mar 2026 18:05:49 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2026 15:44:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[climatério]]></category>
		<category><![CDATA[menopausa]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O autora reflete sobre sua própria experiência no climatério, a partir do olhar psicanalítico.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/minha-experiencia-com-o-climaterio-e-algumas-reflexoes-psicanaliticas-a-respeito/">Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1.webp"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-3366 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1-300x203.webp" alt="" width="300" height="203" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1-300x203.webp 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1.webp 414w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Não costumo escrever sobre coisas muito pessoais, mas o atravessamento da meia-idade tem sido uma experiência tão difícil para mim, que pensei que valeria a pena escrever sobre ela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estou com quarenta e cinco anos, e há uns dois ou três anos, passei a sentir que algo muito sutil e imperceptível começou a mudar em mim. </span></p>
<p><span id="more-3365"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O angustiante da situação, além da mudança em si, era que eu não conseguia nomear, descrever nem precisar o que estava acontecendo comigo, exceto a estranha e inquietante sensação de que eu estava deixando de ser eu mesma. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como é natural de ocorrer nestes casos, passei  desesperadamente a tentar reencontrar a Ana Laura de antes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, aquela de antes sempre dormiu bem, enquanto essa acorda pontualmente às três horas da madrugada, toda noite. Aquela tinha disposição para tudo, enquanto essa se arrasta pelo dia. Aquela tinha o raciocínio ágil e afiado, enquanto essa parece ter um imenso vácuo na cabeça. Aquela era calma enquanto essa se irrita com qualquer pequeno ruído, e tem picos de ansiedade no meio da madrugada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Outro sintoma muito estranho tem sido uma sensação noturna insuportável de que as pernas estão &#8220;nervosas&#8221; e &#8220;repuxadas&#8221;, fazendo com que você tenha que mexé-las constantemente. Descobri que o nome desta sensação torturante, fruto das alterações hormonais brutais, chama-se &#8220;síndrome das pernas inquietas&#8221; (SPI). </span></p>
<p>Sobre isso, duas situações me deixaram particularmente assustada: quando, certo dia, tive que ir para o meio da rua porque não suportava o barulho do aspirado de pó; e um dia em que, depois de várias e várias semanas acordando à noite, comecei a cochilar dirigindo.</p>
<h2>A saga pelos especialistas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A saga pelos especialistas não ajudou muito. Ouvi de tudo. De duas médicas, que precisava tirar isso da cabeça e parar de pensar em climatério. De outros, que eu era muito jovem para pensar em reposição hormonal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não sou uma pessoa iludida sobre a vida e sei que os seres humanos são bastante incompetentes na arte de se colocarem no lugar do outro. Também abomino a postura impotente de ficar se lamentando diante dos fatos, e nada fazer a respeito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocorre que, neste caso, eu penso que além das coisas práticas, das quais eu já estou indo atrás, como iniciar uma reposição hormonal (uma médica, que tive que consultar no particular, finalmente me ouviu!) e caprichar ainda mais nos hábitos saudáveis de vida, a mudança na psiquê feminina que se coloca em curso nesta fase da vida da mulher é tão estrutural e profunda, que precisará ser recheada também por outros elementos, sem os quais ela terá muita dificuldade em atravessar este processo de ressubjetivação sem adoecer ao final. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estes elementos são os recursos simbólicos e psíquicos, individuais e coletivos, que farão a mulher atravessar este marco do desenvolvimento com mais consciência ou mais adoecida.</span></p>
<h2><b>Os recursos simbólicos culturais </b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre os recursos simbólicos oferecidos às mulheres pela cultura para atravessarem o climatério, estes têm sido desde então muito pobres, embora felizmente venham mudando. Associam-no à “fase perigosa da vida”,  ao declínio, à decrepitude, à se ficar feia e velha, em grande parte pela associação que se faz entre a mulher e sua função reprodutiva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, em nível inconsciente, as próprias mulheres sentem que, uma mulher estéril, sem filhos, ou uma mulher que não pode mais engravidar, está despossuída do seu valor narcísico, tal como me explicou uma paciente acerca do motivo que a levou engravidar, a saber, de que sentiu tão potente e cheia de vida na ocasião, de que foi inevitável não fazer um bebê. </span></p>
<p>Evidencia-se um exemplo desta associação nefasta entre poder criador reprodutivo feminino e auto-estima quando se diz destas mulheres, que são &#8220;<em>árvores secas</em>&#8220;.</p>
<p>Tal visão pejorativa sempre serviu para manter o domínio sobre as mulheres, em todos os tempos, pois, se elas precisam provar seu valor reprodutivo tendo filhos e mais filhos, isso pode significar terem que abdicarem de si mesmas em muitos outros aspectos.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, esta visão, ainda que válida do ponto de vista da mente inconsciente, é bastante limitada, havendo muitas maneiras de as mulheres sublimarem e realizarem sua pulsão criadora, para além de ter filhos.  </span></p>
<h2>Geração de vida e auto-estima</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode parecer estranho para um leigo que a possibilidade de gerar vida (e sua interrupção, na menopausa) tenha um impacto tão crucial na auto-estima das mulheres, mas para o psicanalista não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a psicanálise, a produção de bebês tem, em nível inconsciente, significados ligados à potência,  capacidade criadora e de reparação, a tal ponto que quando essa possibilidade se extingue, como no caso da menopausa, a mulher pode experimentar angústias intensas ligadas à integridade do interior de seu corpo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cito sobre isso o exemplo de uma paciente se encaminhando para a menopausa que, enquanto esteve narcisicamente reassegurada pela possibilidade de produzir filhos (os fantasiados e os reais), manteve seu ego minimamente estruturado, mas que se desorganizou gravemente com o fim permanente das ovulações. Ocasião em que as sessões foram preenchidas por meses a fio com sonhos de bebês despedaçados e faltando partes. </span></p>
<p>Enquanto isso, mulheres psiquicamente mais saudáveis podem enfrentar e superar as angústias acerca de sua esterilidade permanente, por exemplo, encontrando novas fontes de prazer e sentido e/ou resgatando sonhos antigos que ela foi obrigada a deixar para trás, em prol de marido e filhos, por exemplo. O que pode ser problemático para mulheres com um sistema moral muito rígido.</p>
<p>Assim, para estas, dependendo em qual sistema moral foram criadas, o prazer na vida só será permitido se vier acompanhado pelo sofrimento, assim como o gozo sexual só não será pecaminoso se gerar vida.</p>
<h2>Fatores sociais no climatério e menopausa</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre os fatores sociais que contribuem para o</span><span style="font-weight: 400;"> aumento da tristeza na meia-idade e climatério, cita-se: crises conjugais que a mulher pode estar atravessando nesta fase, se seu casamento é de longa data, que podem culminar ou não em divórcios, bastante comuns nesta fase da vida; sobrecarga de cuidado com os pais velhos, com frequência acometidos de doenças incapacitantes e graves, como demências e cânceres severos; sensação de perda de valor, sobretudo se a mulher se dedicou exclusivamente à criação dos filhos, que agora costumar estar crescidos e já saindo de casa, ou se exerce profissões e/ou atividades que a descartam quando envelhece, como as atrizes, por exemplo. </span></p>
<p>Diferem nisso profissões como a minha em que, quanto mais velha, mais experiente e competente se fica. Particularmente acerca deste aspecto, vivo um paradoxo, pois, nunca me senti tão segura e e competente no que faço como hoje, ao mesmo tempo em que às vezes tenho me entediado por estar há vinte e três anos fazendo a mesma coisa. Sentimento que ingenuamente nunca achei que iria experimentar.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como psicanalista, acredito que estes fatores tenham impacto sobre a saúde mental das mulheres no climatério, embora não sejam determinantes para o adoecimento psíquico delas, sendo o decisivo nesse caso os recursos psíquicos que cada uma disporá ou não para enfrentar as brutais regressões desta fase. </span></p>
<h2><b>Recursos psíquicos para se atravessar o abismo do climatério</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Tenho tido sonhos recorrentes onde eu me vejo presa e sequestrada por uma força maléfica e invisível, da qual tento me desvencilhar em vão, o que eu interpreto como a minha psiquê tentando lidar com as violentíssimas movimentações pulsionais em curso, no meu corpo e mente, que se não manejadas bem, podem vir a me enlouquecer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, tenho me lembrado muito do quanto a minha mãe foi se tornando cada vez mais irritada, enlouquecida e triste à medida que envelhecia, momento onde também, desafortunadamente, foi abandonada por meu pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também me chegam agora lembranças de algumas mulheres, vizinhas e conhecidas nossas, que tiveram surtos psicóticos ao envelhecerem, algumas delas tendo que serem internadas. O que muitos, entre um risinho jocoso e maldoso, murmuravam dever-se “à chegada da idade perigosa”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um artigo muito interessante intitulado “Regressão”, as psicanalistas Paula Heimann e Susan Isaacs abordam o tema do climatério e menopausa de um prisma psicanalítico, e alertam que, nesta etapa, as complexas imbricações mente-corpo serão colocadas à dura prova no psiquismo da mulher, pelas regressões libinais que ela provoca:</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Sabemos que as alterações no equilíbrio endócrino afetam o humor, os impulsos e fantasias da mulher. Mas também sabemos que conflitos emocionais não elaborados, nesta fase, podem perturbar o equilíbrio endócrino, a solução de tais conflitos podendo atuar favoravelmente sobre o equilíbrio dos hormônios.” (1969,p.205)</span></i></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Ou seja, para o psicanalista importa que, o encerramento da vida reprodutiva poderá reativar, na mulher, conflitos emocionais antigos  que, se não forem devidamente elaborados, poderão se converter em sintomas psíquicos e físicos, por vezes bastante graves, conforme citado no caso da paciente acima. Débitos psicológicos que, segundo as autoras, &#8220;<em>permaneceram silenciosos enquanto a prosperidade biológica estava assegurada&#8221; (p.207). </em></span></p>
<p style="text-align: left;">Depreende-se também do raciocínio delas que, no climatério e <span style="font-weight: 400;">menopausa, o corpo imporá à mente a árdua incumbência de elaborar as vultosas alterações biológicas que operam nela, com o término de sua função reprodutiva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, ouvi da neurocientista Lisa Mosconi que, nesta fase, o cérebro da mulher passará por uma brutal reconfiguração, perdendo bilhões de neurônios que serviam à função reprodutiva e agora deixam de ter função. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Morrem milhares e milhares de neurônios, assim como perde-se milhares e milhares de fios de cabelos, como se a natureza, sábia e econômica, estivesse fazendo uma grande faxina em nós, para que novos neurônios e cabelos nasçam, agora não mais visando a reprodução, mas sim a fruição da vida nestas últimas décadas que se tem pela frente. </span></p>
<h2>Considerações finais</h2>
<p><span style="font-weight: 400;"> De minha parte, o que tenho procurado fazer sobre isso é tentar manter a calma, viver um dia de cada vez e acolher com gentileza este novo eu que urra em mim e me deixa de olhos vidrados no meio da madrugada, algo que sem meus muitos anos de divã, tenho absoluta certeza, não conseguiria fazer. </span></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">* Dedico este texto a todas as mulheres da minha vida. Eu mesma, minha mãe, avós, analista, pacientes, amigas e as filhas que não tive. Mulheres que eu admiro cada vez mais.</span></em></p>
<h2>Referência bibliográfica</h2>
<p>Klein, M.; Heimann, S. I. &amp; Riviere, J.<em> Os progressos da psicanálise. </em>Zahar: Rio de Janeiro, 1969.</p>
<p>Para assistir ao programa Roda-Viva com a neurocientista Lisa Mosconi, clique <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tWqmZVjlEQc">aqui. </a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/minha-experiencia-com-o-climaterio-e-algumas-reflexoes-psicanaliticas-a-respeito/">Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Um achado especial: Caderno Proibido, de Alba de Céspedes</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-achado-especial-o-livro-caderno-proibido-de-alba-de-cespedes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 13:25:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Alba de Céspedes]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora faz uma resenha do livro Caderno Proibido, da escrita ítalo-cubana Alba de Céspedes, cotejando-o com suas reflexões pessoais</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-achado-especial-o-livro-caderno-proibido-de-alba-de-cespedes/">Um achado especial: Caderno Proibido, de Alba de Céspedes</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1.webp"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3332 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1-300x169.webp" alt="" width="300" height="169" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1-300x169.webp 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1-768x432.webp 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1.webp 1024w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Foi com grande alegria que me deparei, sem querer, com o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Caderno Proibido</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Alba de Céspedes y Bertini, escritora ítalo-cubana a quem eu não conhecia. </span></p>
<p><span id="more-3331"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O título remete à situação na qual, a protagonista do livro, Valéria, uma mulher de 43 anos bastante comum, casada há vinte anos e com filhos já grandes, decide comprar um caderno no qual passa a anotar seus pensamentos mais íntimos, experiência que se torna perigosa para ela, por trazer à tona suas frustrações com o casamento desgastado, o egoísmo dos filhos, a falta de dinheiro, a solidão e o cansaço extremo, insatisfações às quais, a princípio, ela tenta erradicar sonhando ir à Veneza com o chefe. </span></p>
<h2><b>Caderno perigoso</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364.webp"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3334 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364-225x300.webp" alt="" width="225" height="300" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364-225x300.webp 225w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364.webp 350w" sizes="(max-width: 225px) 100vw, 225px" /></a>Penso, nesse sentido, que o caderno, mais que proibido, era perigoso, pois, afinal, ninguém nos proíbe de pensar, nem mesmo na pior ditadura, enquanto que pensar com a própria cabeça é perigoso  para muitas pessoas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, porque elas começam a enxergar coisas que antes não viam e, segundo, porque podem ir se paralisando com o que agora vêem, o que não é o caso da protagonista, que vai claramente amadurecendo ao longo do diário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um exemplo deste seu amadurecimento é ela, ao final do livro,  dizer ao chefe que fugir com ele para Veneza era, no fundo, uma grande ilusão já que a relação deles nunca daria certo porque ele era rico e ela, pobre. </span></p>
<h2><b>O mundo dos privilegiados</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, esta percepção arguta de que, no fundo, muita coisa na vida de uma pessoa depende de sua classe social permeia todo o romance, estando muito bem representada, por exemplo, na figura de Mirella, filha da Valéria, moça emancipada, prática e nada romântica que lutava a qualquer custo contra o provincianismo da mãe e por independência financeira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E também em Michelle, marido da protagonista, que carregava uma frustração enorme por ter sido obrigado a trabalhar a vida toda num banco para sustentar a família, enquanto sonhava ser roteirista de cinema. </span></p>
<h2><b>Diferença no tratamento dos filhos</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Já Ricardo, o outro filho do casal, representa no romance o homem fraco e mimado pela mãe, que nunca assume as rédeas da própria vida, por lhe ser mais vantajoso sempre viver às custas dos outros, o que ele próprio termina fazendo quando vai morar na casa dos pais assim que engravida a namorada Marina. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, Alba destrincha com maestria o modo desigual que algumas mães tratam os filhos homens e mulheres, mimando os primeiros e sendo excessivamente rígidas e severas com as filhas, o que eu mesma vivi em minha família de origem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O motivo mais profundo para isso penso que se deve ao fato de que a mãe costuma reproduzir de modo inconsciente com a filha mulher, tal como um espelho invertido, os próprios conflitos e preconceitos não elaborados nela, sobretudo no campo sexual e moral. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que significa dizer que é no interior das próprias famílias que toda ordem de violências, preconceitos, desigualdades de gênero, machismos, segredos e mentiras são transmitidas aos filhos.  </span></p>
<h2><b>Reputação e honra</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Valéria é, nesse sentido, uma mulher típica que foi criada para cuidar da imagem pública da família em termos de reputação e honra, e que termina por cair em terríveis contradições na medida em que insiste em continuar mentindo para si mesma. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Exemplos disso são o fato de que Valéria criticava a filha por sair com um homem casado, ao mesmo tempo em que ela própria estava envolvida com o chefe, também casado. Da mesma forma que criticava a filha por ser tão obstinada com a carreira e dinheiro, enquanto ela mesma lastimava o fato de ninguém valorizar o seu trabalho, e de serem todos tão pobres. </span></p>
<h2><b>Mulheres gostam de homens ricos</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ranço social trazido por Valéria, e por suas amigas, é a visão, infelizmente ainda tão atual, de que moças, afinal, só se interessam por homens ricos como forma de subir na vida, o que talvez seja verdade para um tipo de mulher, mas não para todas. Certamente, não sendo este o caso das duas protagonistas do livro, Valéria e Mirella, duas mulheres fortes e bem assentadas na vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, a profundidade e a forma nuançada com que Alba evidencia o choque geracional entre estas duas mulheres fortes, mãe e filha, impressiona, a tal ponto que ora nos identificamos com Valéria, ora com Mirella e terminamos o livro com a incômoda constatação de que viver, seja em qual época for, é sempre muito mais difícil do que parece. </span></p>
<h2><b>Fugindo de estereótipos</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, Valéria não é a caricatura da mulher infeliz, que foi obrigada a se casar e ter filhos, sendo que, ao contrário, ela gosta desta sua vida, que lhe dá segurança, preenchimento e estabilidade interior, e que, por exemplo, é invejada pela amiga Clara.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo, conforme Alba sugere, só isso não basta para uma mulher definir quem ela é, sobretudo com a chegada da meia idade e a saída dos filhos de casa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Curiosamente, ao final do livro Valéria termina feliz, com a perspectiva de agora voltar a se preencher cuidando do neto e chega a dizer sobre isso que o único momento no qual se sentiu realmente viva foi quando trouxe os filhos à vida, ao contrário da filha Mirella, que parecia se sentir viva e feliz em cada pequena ação diária. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mérito não exclusivo dela, mas sim da sorte, de fazer parte de uma geração de mulheres a quem se deixou de impor, como único destino possível, casar e ter filhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, para além de uma reflexão fácil de que Valéria foi doutrinada a só encontrar sentido parindo e cuidando de bebês, penso que Alba aponta aqui, num nível mais maduro, para a questão de temperamento,  a saber, de que há mulheres que gostam de bebês e de ter filhos e outras que não, sendo que somos todas diferentes umas das outras. </span></p>
<h2><b>As ambivalências da maternidade</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso ainda, Alba mostra em seu livro, com enorme habilidade, as ambivalências da maternidade e o enorme custo que um casal paga ao ter filhos, inclusive do ponto de vista erótico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No primeiro aspecto, cita-se a alegria e ternura que Valéria experimentava quando os filhos, já adultos, lhe demandavam algum cuidado, ao mesmo tempo em que enxergava, desconcertada, o quanto eles eram por vezes egoístas e autocentrados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no segundo, cita-se sua percepção do quanto, depois da chegada dos filhos, a vida sexual entre ela e Michelle murchou, seja pelas excessivas demandas da vida diária, seja porque ambos se sentiam desconfortáveis de transar com os filhos em casa:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Tememos que os filhos se deem conta de uma vida secreta nossa, aquilo que nos torna tão relutantes em nos entregar a ela: é porque sentimos que marido e mulher, que se unem numa relação encoberta, depois de terem falado o dia inteiro de contas, de dinheiro, depois de terem fritado ovos, lavado pratos sujos, já não obedecem a um feliz e jubiloso desejo de amor, mas a um instinto primário como sede, fome, um instinto que se faz no escuro, rapidamente, de olhos fechados&#8221; </span></i></p>
<h2 style="text-align: left;"><b>A relação conjugal</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, Valéria e Michelle pareciam ter um bom casamento, havendo cumplicidade e intimidade mental entre eles, apesar de que Michelle, como todo homem antigo, não se envolvia muito com a criação dos filhos e delegava toda a pesada carga para a esposa, situação que felizmente vem se modificando, ainda que muito lentamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, Michelle era um homem que, apesar de bom, honesto e trabalhador, havia se acomodado, como tendem a fazer todos que envelhecem. Nesse aspecto, é bonito e triste ao mesmo tempo ver no romance que uma centelha de vida volta a se reacender dentro dele quando a amiga Clara se mostra interessada em seu roteiro, promessa que terminará por não dar em nada já que os donos da indústria cinematográfica o julgaram muito ousado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante de tal negativa, Valéria olhará com ternura e compaixão o marido de meia-idade, agora para sempre derrotado, que havia sacrificado tudo em nome da família, o que me fez pensar que envelhecer pode ser isso mesmo: abdicar para sempre de cada um dos nossos sonhos antigos, pois não se tem mais tempo hábil para realizá-los. Como diz Valéria:</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8220;Aos 43 anos, se tudo o que possuímos nos vier a faltar, é muito difícil recomeçar a viver.&#8221;</span></em></p>
<h2><b>Considerações finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uns poucos livros que tocam em algo muito fundo em nós, sendo este o caso do livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Caderno Proibido, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Alba de Céspedes. Um livro sobre a fase madura da vida de uma mulher, na qual eu mesma me encontro. </span></p>
<p>Do ponto de vista ideológico, penso ser um livro extremamente urgente e atual, pois nele se vê demonstrado que o mal não está em se ser conservador, mas sim hipócrita. Hipocrisia que, aliás, também encontramos aos montes entre os progressistas.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que me fez pensar que, decididamente, Alba de Céspedes é mesmo uma autora para gente adulta. </span></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-achado-especial-o-livro-caderno-proibido-de-alba-de-cespedes/">Um achado especial: Caderno Proibido, de Alba de Céspedes</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Por que sofrem os homens?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Nov 2025 12:36:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[sofrimento humano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora reflete sobre os conceitos de pecado e culpa a partir das noções de livre-arbítrio e responsabilidade, buscando compreender as causas de sofrimento dos homens</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/por-que-sofrem-os-homens/">Por que sofrem os homens?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-criacao-de-Adao.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-3310" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-criacao-de-Adao.jpeg" alt="" width="611" height="284" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-criacao-de-Adao.jpeg 329w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-criacao-de-Adao-300x140.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 611px) 100vw, 611px" /></a>Os conceitos religiosos de pecado e culpa são bastante mal compreendidos pelas pessoas que frequentemente os associam erroneamente à punição ou castigo divino.  </span></p>
<p><span id="more-3304"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na verdade, tais conceitos teológicos recuperam as noções filosóficas fundamentais de livre-arbítrio e responsabilidade, a saber, que os homens são livres até certo ponto para decidirem como querem viver, devendo ser capazes de arcar com as consequências, boas e más, de suas ações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por exemplo, uma pessoa que opta por fumar ao longo de toda a vida não pode blasfemar contra Deus porque desenvolveu câncer nos pulmões.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, uma parte do sofrimento que assola as pessoas não deriva da contingência, mas é gerada, com intencionalidade ou não, por elas mesmas, embora culpem os outros, tamanha é a dificuldade de uma pessoa se responsabilizar pelos próprios atos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro fator que faz os homens sofrerem muito é o temperamento com o qual nasceram, a tal ponto Jesus ter dito “</span><i><span style="font-weight: 400;">bem-aventurados os mansos de coração porque herdarão a terra</span></i><span style="font-weight: 400;">” (Mateus, 5:3:12)</span></p>
<h2><b>A contingência</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Já outra parte do sofrimento que assola os homens deriva da contingência, que os gregos designavam por </span><i><span style="font-weight: 400;">Moiras </span></i><span style="font-weight: 400;">(destino), e que na literatura religiosa é representada pelo Deus do Antigo Testamento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São exemplos da contingência grandes desastres climáticos, uma doença mortal em alguém que sempre cuidou bem da própria saúde ou  ter nascido em uma família péssima, por exemplo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este é o argumento das pessoas que buscam viver de forma hedonista, já que não há nenhuma garantia de que se elas fizerem o certo, não sofrerão. Então, dirão elas, o melhor mesmo é viver o momento, entregar-se aos prazeres e não pensar no amanhã, pois o futuro não se pode prever. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, pode-se adoecer de algo grave, mesmo tendo cuidado a vida toda da própria saúde, ou ser atropelado por um homem bêbado na rua, mesmo sendo correto e justo, se a contingência estiver contra nós. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, a realidade está cheia de exemplos de pessoas sortudas e azaradas na vida, sem que elas tenham feito nada para merecer aquilo. </span></p>
<h2><b>Contingência cega</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o fato da contingência ser completamente cega torna os argumentos que levariam o homem a agir corretamente muito precários, pois, não há nenhuma garantia de que uma pessoa que foi justa, viveu corretamente, cuidou bem da própria saúde e fez boas escolhas, não vá sofrer, exceto pela sensação de paz em relação à própria consciência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como psicanalista, penso que isso não é pouco, pois a consciência pesada em relação a alguma má ação que se teve ou por se ter vivido uma “vida errada” é um dos piores sentimentos que existem, podendo até mesmo vir a destruir um homem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, os seres humanos são tão díspares em termos de graus de amadurecimento moral que contar com a moralidade deles para fazerem o certo, é algo bastante ingênuo de se considerar, pois só um homem com alguma moralidade pode se sentir mal com algo que tenha feito, podendo vir a aprender com os próprios erros, o que não é ocorre para muitas pessoas. </span></p>
<h2><b>Um pequeno deslize</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando às más escolhas humanas, um aspecto perturbador sobre isso é que às vezes basta um pequeno momento de deslize ou de guarda baixa para uma vida toda ser destruída, a tal ponto a vida é implacável nesse sentido, o que torna o homem moralista bastante limitado para compreender os verdadeiros dramas humanos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, conheço uma mulher já idosa que sempre sentiu muito prazer à mesa, e que vinha se tratando heroicamente de um câncer no intestino. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Num momento de fraqueza de sua rígida dieta alimentar, ela fraquejou e comeu um bife inteiro de carne, o que a rendeu uma nova cirurgia, vários dias na UTI com risco de vida, a perda de um novo pedaço do intestino e uma bolsa de colostomia, da qual não se sabe se se livrará. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta situação me fez pensar em quão violentos e cegos são os desejos humanos e em como é importante conhecê-los intimamente em nós, de modo a não sermos destruídos por eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto que esta situação me fez pensar é na importância de estarmos sempre vigilantes em relação a nós mesmos, pois uma pequena fraquejada, pode destruir a vida não só da pessoa, mas dos entes que estão à sua volta, como no caso da velha senhora. E as situações nas quais seremos tentados pela vida em relação às nossas fraquezas, nunca faltarão. </span></p>
<h2><b>A dificuldade de ser humano</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Penso sobre isso que gostamos de considerar, por pura maldade, que os seres humanos erram porque são maus, pecadores e fracos, quando, na verdade, o fato é que ser ser humano é tremendamente difícil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, somos não só ignorantes, no sentido de que não sabemos quais serão as consequências futuras das nossas ações, mas que também temos que administrar, a todo momento, a delicada equação entre nossa inteligência, nossos desejos, vícios de temperamento com os quais nascemos e outras tantas corrupções morais que internalizamos dos outros, principalmente na infância dos nossos pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí que culpabilizar inteiramente uma pessoa pela vida que se tem ou se teve é algo bastante maldoso. </span></p>
<h2><b>Considerações finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se das reflexões acima que os homens sofrem por muitos motivos, a começar pela natureza de que são feitos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, sofrem porque nascem com temperamentos difíceis; porque aprendem coisas equivocadas com seus pais e repetem depois; porque fazem coisas erradas e se culpam; porque se entregam às cegas e sem peias aos seus impulsos; porque querem ser bons e não conseguem; porque têm dificuldade de se tratarem bem; ou simplesmente porque são azarados demais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, compreender o sofrimento humano como parte da difícil e heróica tarefa que nos foi incumbida, e não como fruto da corrupção moral dos homens, é, penso eu, um caminho promissor para se começar a amá-los. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, parafraseando meu amado escritor Thomas Mann, “</span><i><span style="font-weight: 400;">não considero estranho a mim nada daquilo que é humano</span></i><span style="font-weight: 400;">”. (Mann, 1954).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Termino este texto com um poema lindíssimo enviado por um dos meus pacientes, da autoria de Leandro Goes de Barros*, que tem tudo a ver com estas minhas reflexões:</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Se eu conversasse com Deus<br />
Iria lhe perguntar:<br />
Por que é que sofremos tanto<br />
Quando se chega pra cá?<br />
Perguntaria também<br />
Como é que ele é feito<br />
Que não dorme, que não come<br />
E assim vive satisfeito.<br />
Por que é que ele não fez<br />
A gente do mesmo jeito?</p>
<p style="text-align: center;">Por que existem uns felizes<br />
E outros que sofrem tanto?<br />
Nascemos do mesmo jeito,<br />
Vivemos no mesmo canto.<br />
Quem foi temperar o choro<br />
E acabou salgando o pranto?</p>
</blockquote>
<p>*Leandro Gomes de Barros é paraibano, nascido em 19/11/1865, no Município de Pombal, é considerado o rei dos poetas populares do seu tempo.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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			</item>
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		<title>O Humanismo de Thomas Mann em &#8220;Doutor Fausto&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Oct 2025 07:30:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Doutor Fausto]]></category>
		<category><![CDATA[Thomas Mann]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda os inúmeros elementos do humanismo presentes na obra Doutor Fausto, de Thomas Mann</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/doutor-fausto.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3269 " src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/doutor-fausto-150x150.png" alt="" width="182" height="182" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/doutor-fausto-150x150.png 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/doutor-fausto-120x120.png 120w" sizes="auto, (max-width: 182px) 100vw, 182px" /></a>Foi preciso vencer um forte ímpeto de reverência interior para conseguir escrever sobre Thomas Mann. Acabo de ler <em>Doutor Fausto</em> e o impacto estético que a obra teve sobre mim, à semelhança da <em>A</em> <em>Montanha Mágica</em>, foi enorme. </span></p>
<p><span id="more-3268"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mann trabalhou nesta obra entre 1943 e 1947, já exilado nos Estados Unidos, propondo-se a refletir através dela sobre a ascensão do nazismo e a degeneração da cultura alemã.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nela, o narrador Serenus Zeitblom incumbe-se da difícil tarefa de biografar a vida de seu grande amigo e ídolo, que conheceu ainda criança, o genial compositor Adrian Leverkühn que, a certa altura, fará um pacto com o demônio (pacto fáustico) para transcender em suas criações musicais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sentimentos de Serenus por Adrian são dúbios, pois ao mesmo tempo em que ele o idealiza e se orgulha de ter um amigo tão acima das necessidades comezinhas humanas, também teme por seu futuro, dada a frieza e indiferença de Adrian com todos, conflito de sentimentos que só sentimos por pessoas que amamos muito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mann delineia, portanto, as delicadezas e idiossincrasias de uma verdadeira adoração que Serenus nutre por Adrian, o que pode até mesmo levar o leitor a concluir sobre a existência de uma forte e platônica ligação homoerótica daquele pelo amigo, como provam os sentimentos de ciúme e posse que Serenus muitas vezes experimentava em relação a ele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Interessante sublinhar sobre isso que a forte impressão erótica causada por um rapaz nos anos escolares já aparece em <em>A Montanha Mágica</em>, onde Hans Castorp desenvolve uma paixão platônica por um colega de escola, que irá se reatualizar anos mais tarde na paixão por Clawdia Chauchat, figura que faz Hans relembrar, por alguns traço específicos, o amigo adorado da infância. </span></p>
<h2><em>Filia </em></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Penso que o que Mann retrata nestas relações tão eróticas e belas, mais do que o homoerotismo em si, é o próprio sentido de </span><i><span style="font-weight: 400;">filia </span></i><span style="font-weight: 400;">grego</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">que é o estado de adoração e verdadeira paixão que algumas amizades são capazes de despertar em nós, e que nos deixam reminscências por toda a vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tais amores raros talvez sejam, neste aspecto, os mais perfeitos que possam existir, pois unem amizade e paixão erótica num mesmo ser, conforme Luca Guadagnino retratou tão belamente em seu filme “Me chame pelo seu nome” (2018). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas somente pessoas sensíveis como Serenus e Castorp, humanistas no sentido preciso do termo, poderiam ser capazes de se abrir para viverem experiências como estas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, penso que Serenus é na obra de Mann, o representante do profundo humanismo do autor, conforme podemos ver nesta bela defesa que Serenus faz em relação à dignidade, força e beleza dos homens frente à gélida indiferença do Universo para com eles:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“A imensidão horrenda da criação física não contribui em nada para o sentimento religioso. Só o transcendente mistério do homem e sua soberba consciência de que ele não é apenas uma criatura meramente biológica, mas, ao contrário, pertence com uma parte decisiva do seu ser a um mundo espiritual, da mesma forma que lhe foi dado o absoluto com seus conceitos de verdade, liberdade e justiça. Nessa reverência que o homem sente para consigo é que existe Deus. Não posso encontrá-lo em bilhões de Vias Lácteas.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Trata-se aqui de uma belíssima declaração de amor aos homens, pois somos a única espécie capaz de compreendermos conceitos abstratos como verdade, liberdade e justiça e, portanto, de criarmos Deus. Mas também de sofrermos e amarmos.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A levar-se em conta que Mann devia estar muito desiludido com os descaminhos de sua amada Alemanhã e com a destruição de tudo o que de mais belo e sagrado sua cultura representava, penso que ele precisou escrever esta obra extraordinária para refazer intimamente seu amor aos homens e à sua amada pátria, que a ascensão do nazismo tinha devastado perigosamente dentro dele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vejo confirmada esta minha hipótese na última frase que Serenus diz depois de ter ido, pela última vez, visitar seu amigo, agora perdido para sempre para a loucura: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Que Deus tenha misericórdia da vossa pobre alma, meu amigo, minha pátria.”, </span></i><span style="font-weight: 400;">o que significa que, para Serenus, seu amigo era, de fato, sua última e derradeira pátria. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre o que ocorria à sua volta, em termos políticos e sociais, Serenus procurava manter-se sóbrio, apesar dos horrores que testemunhava e, com enorme lucidez dirá a certa altura que, afinal, é “</span><i><span style="font-weight: 400;">preciso inspirar confiança no mundo ao invés de instigar suas paixões”. </span></i></p>
<h2>Fascismos</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário disso, os fascismos de toda ordem, cuja origem Mann denuncia tornando</span> <span style="font-weight: 400;">o seu</span><i><span style="font-weight: 400;"> Fausto</span></i><span style="font-weight: 400;"> tão atual, operam na contramão disso, instigando as paixões destruidoras que habitam o interior dos homens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, são proféticas as passagens em que Serenus nos descreve as discussões travadas no círculo intelectual ocorridas na casa de Sixtus Kridwiss, ocasião que o fez emagrecer mais de quatorze libras ouvindo, entre encantado e aterrorizado, as sombrias previsões que o grupo fazia para o futuro:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“surgirão forças míticas destinadas a desenfrear e ativar as forças políticas, à maneira dos primitivos gritos de guerra. A razão e a ciência serão inócuas para combater essas ficções; todas as instâncias do pensamento não farão mais do que reafirmar a legitimidade desse mito. Os homens serão apenas uma modulação da força dessa ficção e cada um deles não fará outra coisa senão se acrescentar à massa objetificada e coisificada. A linguagem se tornará guardiã dessa ficção, pois ela será responsável pela imposição dos limites das significações.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Impossível encontrarmos uma descrição mais precisa e sombria do que essa para os nossos tempos atuais, e de cuja longínqua deterioração, como nos mostra Mann, a Grande Guerra foi só o primeiro sinal. </span></p>
<h2><b>O compositor Adrian Leverkühn</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Adrian é um personagem denso que desperta no leitor ora exasperação, pela sua soberba e alheamento dos homens, ora temor, porque intuímos, sem saber muito bem porquê, que ele caminha para a própria ruína, e não há nada que se possa fazer a respeito.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, penso que Adrian simboliza no romance a ideia da </span><i><span style="font-weight: 400;">fortuna, sorte ou destino </span></i><span style="font-weight: 400;">(<em>Túkhe</em> grega)</span> <span style="font-weight: 400;">, no sentido profundo do termo, a saber, o lugar para o qual os homens caminham, quase sempre às cegas, perspectiva humana trágica que Freud busca traduzir em seu conceito de Inconsciente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Adrian é, nesse sentido, o próprio destino alemão pensado por Mann, caminhando para a própria ruína sem poder parar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um exemplo disso é a tentativa fracassada de Adrian em pedir a mão da jovem Marie Godeau, que ele o faz solicitando a intermediação do amigo Rudolf Schwerdtfeger, violinista mulherengo, e que termina com Rudolf o traindo e se casando, ele próprio, com Marie. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Horrorizado com a traição, que será um golpe fatal para Adrian, Serenus se indaga se teria sido pura ingenuidade do amigo, ou necessidade involuntária auto-expiação, o que teria levado Adrian a agir tão descuidadamente em relação a si, o fato sendo que nunca saberemos, pois, como dizia Pascal, &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">o coração tem razões que a própria razão desconhece.&#8221; </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta é uma visão madura da vida que problematiza a ideia bastante pueril de que o destino de um homem está sempre em suas mãos, e que sua racionalidade é tão somente a que o guia em tudo. </span></p>
<h2><strong>Um homem dionisíaco</strong></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Adrian, portanto, encarna no romance o homem dionisíaco que arrisca tudo no campo da sua arte, vindo a pagar um preço altíssimo por isso. Mas, como sempre me lembram alguns pacientes, </span><i><span style="font-weight: 400;">a gente sempre paga um preço por ser quem se é… </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Mann parece insinuar no romance que há mais salvação para quem se arrisca, do que para quem calcula e controla milimetricamente sua existência, buscando mostrar, através de Adrian, que a graça só se dá na iminência do desastre. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal raciocínio reevoca algo muito estranho ao homem moderno, que ilusória e arrogantemente julga ter tudo sob o seu controle, mas que está, por exemplo, muito presente nos mitos do Velho Testamento.</span></p>
<h2>Deus ordena que Abraão mate seu filho</h2>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/Sacrificio-de-Isaac-Rembrandt.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3323 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/Sacrificio-de-Isaac-Rembrandt-207x300.jpg" alt="" width="207" height="300" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/Sacrificio-de-Isaac-Rembrandt-207x300.jpg 207w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/Sacrificio-de-Isaac-Rembrandt.jpg 500w" sizes="auto, (max-width: 207px) 100vw, 207px" /></a>Cita-se um exemplo disso quando Deus leva Abraão ao extremo do limite, ordenando-lhe que matasse o seu filho Isaac, só para no último momento liberá-lo, no que se vê uma prova radical de fé, em nome da qual um homem deve estar disposto a perder tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na contramão disso, o homem moderno é um homem vazio, entediado e sem fé, pois não há mais nada, ou quase nada, pelo que ele aceitaria morrer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, Mann parece considerar que o homem medíocre, ou seja, aquele que mede e calcula cada mínimo passo de sua vida, terá menos valor aos olhos de Deus do que o que arrisca tudo e se lança inteiro no jogo da vida, tal como fez o Caim bíblico, e o próprio Adrian:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“A mediocridade não tem nenhum status teológico. Uma pecaminosidade tão desgraçada que deixa o homem perder quaisquer esperanças na graça (Caim) é o verdadeiro caminho teológico para levá-lo à salvação.” </span></i></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/68b0dc2f062f3151c5278e32_Friedrich-Nietzsche-capa.webp"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3270 " src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/68b0dc2f062f3151c5278e32_Friedrich-Nietzsche-capa-150x150.webp" alt="" width="185" height="185" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/68b0dc2f062f3151c5278e32_Friedrich-Nietzsche-capa-150x150.webp 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/10/68b0dc2f062f3151c5278e32_Friedrich-Nietzsche-capa-120x120.webp 120w" sizes="auto, (max-width: 185px) 100vw, 185px" /></a>Isso talvez explique o alheamento e a indiferença de Adrian com os homens, como se ele estivesse sempre se preparando para </span><i><span style="font-weight: 400;">um vôo maior</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">e mais ousado em um lugar alhures, </span></i><span style="font-weight: 400;"> o que significava que sua fome pelo extraordinário nunca pudesse se preencher nas relações comezinhas e tediosas entre os homens. Interpretação que parece fazer sentido na medida em que Mann se inspirou no filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche para criar Adrian. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, foi seu descontentamento com o cinza e o tedioso da vida e a ânsia de criar algo verdadeiramente novo no campo da composição musical, parece-me, sua motivação central para pactuar com o Demônio, a partir do que ele irá conseguir, às custas de muito sofrimento físico e angústia, criar o dodecafonismo. </span></p>
<h2>Vínculos humanos</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, Mann também parece insinuar que não há salvação fora dos vínculos humanos, o que Adrian vem a experimentar, talvez pela primeira vez, com a chegada do sobrinho Nepumuk, carinhosamente chamado por todos de Nepo ou Echo, que ele recebe por um tempo em sua casa, em virtude de uma doença da irmã, sendo que, para mim, esta é uma das partes mais tocantes do romance. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocorre que infelizmente o menininho vem a contrair meningite e tem uma morte pavorosa, o que significará para Adrian, a perda definitiva da “solução” para os homens, a saber,  sua esperança no amor e na felicidade. Excruciado em profunda dor, dirá ele ao amigo após a morte do sobrinho:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“ &#8211; Achei a solução. Aquilo não deve existir. (&#8230;) O bom e o nobre, aquilo que qualificamos de humano, embora seja bom e nobre. Aquilo por cuja causa os homens têm lutado e têm tomado bastilhas de assalto; aquilo cuja glória os extáticos proclamam jubilosamente; aquilo não deve existir. Será revogado. Eu o revogarei.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após esta perda trágica, Adrian terminará de se identificar para sempre com a figura do homem maldito e desgraçado, a saber, aquele a quem o destino abandonou à completa falta de graça e má sorte, que ele próprio interpretará como sendo uma punição pelo pacto que fez com o Mal. </span></p>
<h2>As mães</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, a obra termina com Adrian completamente inválido e inconsciente de si mesmo, sendo cuidado pela mãe, descrição que desperta no leitor uma compaixão profunda, pela perspectiva de quanta vida e potencial se perderam com o apagamento para sempre daquele homem extraordinário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora quem cuidará até o fim de Adrian será sua mãe, que Serenus percebe ter ficado muito feliz por recuperar o filho de volta, já que Adrian nunca foi afetivo com os pais. Este reencontro forçado com a mãe pela doença de Adrian fará Serenus refletir ao mesmo tempo sobre a dor das mães cujos filhos as rechaçam, mas também sobre a crueldade envolvida neste amor possessivo, onde a mãe preferirá o filho doente mas perto dela, ao invés de longe, mas saudável:</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Para a mãe, o voo de Ícaro executado pelo filho heróico, a ousada aventura viril do rebento que se subtraiu à sua guarda, representam, no fundo, uma aberração tão pecaminosa quanto incompreensível, na qual, secretamente melindrada, ela sempre perceberá aquela atitude dura que nas palavras, &#8220;Mulher, que tenho eu contigo?&#8221;, revela a profundeza do estranhamento; mas, oferecendo o perdão total, reacolherá em seu seio o derribado, o aniquilado, &#8220;a pobre, querida criança&#8221;, persuadida de que seria melhor se esta jamais se tivesse separado dela”. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não penso em absoluto que todas as mães sejam assim, embora é verdade que muitas delas se ressintam profundamente dos filhos que a deixam para trás, para cuidar da própria vida.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no fim do romance, a mãe de Adrian consegue evitar uma tentativa de suicídio do filho, que na visão de Serenus teria sido sua última busca desesperada por liberdade, o que ele lamenta ela ter intervido:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Nem tudo o que se comete num estado de insânia carece ser estorvado, e o dever de conservar uma vida humana foi cumprido nesse caso unicamente no interesse da mãe e de mais ninguém, pois a mãe prefere certamente reencontrar um filho inconsciente em vez de um defunto”</span></i><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Novamente vê-se aqui um valor profundamente humanista ser evocado pelo autor, para quem a vida sem liberdade não faz qualquer sentido.  </span></p>
<h2>A posição de Jesus</h2>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Ainda sobre esta posição radical de Serenus em relação à progenitura, lembrei-me que esta também foi a posição adotada por Jesus, onde ele renegou algumas vezes seus pais e irmãos de sangue, visando uma ampliação radical do conceito de família. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cito um exemplo desta posição profundamente anti-familista de Jesus no Evangelho de Lucas, onde Joana, grávida, faz um elogio efusivo à mãe de Jesus, dizendo:</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"> “</span><i><span style="font-weight: 400;">feliz o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram. Gerar um filho é a melhor benção de Deus. Mulheres existem para serem mães”,  </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao que ele retruca, irritado:</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Mais felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”, </span></i><span style="font-weight: 400;">tendo percebido que a fala de Joana era bastante preconceituosa e patriarcal e, portanto, nada amorosa com os diferentes dela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também sobre isso, em outra ocasião, Jesus disse:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Não vim trazer paz, mas espada. Vim separar filho do pai, filha da mãe, nora da sogra. Por vezes, tereis como inimigos os próprios familiares”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E finalmente, em outra ocasião na qual uma pessoa queria segui-lo, mas antes precisava antes enterrar o pai, para quem ele respondeu:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Deixai que os mortos enterrem seus mortos”, diz Jesus. “Vinde anunciar o reino.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Interpreto este radicalismo de Jesus, que pode hoje ser chocante ao homem moderno, como ele querendo ensinar aos homens que esta vida terrena é ilusória e vã, sendo que a única e verdadeira vida é a espiritual, para a qual cada homem deve em algum momento nascer. </span></p>
<h2><b>Palavras finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Doutor Fausto de Thomas Mann é uma obra clássica, profunda, densa e perturbadora em muitos aspectos, sendo um livro que deve ser lido e relido muitas e muitas vezes na vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tentei nestas páginas elencar algumas das reflexões que sua leitura evocou em mim, mas seu conteúdo humano é tão denso e profundo, que seria impossível esgotá-lo numa única vida, sendo este o valor imaterial de uma obra clássica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Espero com estas linhas instigar em outros leitores interesse e, quem sabe, o mesmo amor que sinto pela obra deste extraordinário escritor que foi Paul Thomas Mann. </span></p>
<p>* Para quem se interessar em aprofundar sua leitura sobre livro, sugiro a interessantíssima tese de Diego Rogério Ramos, &#8220;<em>Os lamentos da Razão &#8211; Mito e História em Doutor Fausto de Thomas Mann&#8221;, </em>que você pode acessar <a href="https://drive.google.com/file/d/1MUN4PLqvHLcA9_MWzFZUpwzELDhlaSz8/view?usp=sharing">aqui</a>.</p>
<p>Há também o livro que Mann escreveu sobre a gênese do romance, &#8220;<em>A gênese do Doutor Fausto &#8211; Romance sobre um Romance&#8221;, </em>publicado em 1949.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-humanismo-de-thomas-mann-em-doutor-fausto/">O Humanismo de Thomas Mann em &#8220;Doutor Fausto&#8221;</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Sep 2025 14:31:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[historiografia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora faz uma resenha do livro A Descoberta do Inconsciente, do psiquiatra e historiador franco-canadense Henri Frédéric Ellenberger, apontando o que a leitura desta obra monumental despertou nela. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-leitura-obrigatoria-para-todo-psicoterapeuta-em-alguma-fase-da-vida/">Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/livro-Ellenberger.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3242 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/livro-Ellenberger.jpg" alt="" width="187" height="269" /></a>Foi por acaso que cheguei ao livro “A Descoberta do Inconsciente: história e evolução da psiquiatria dinâmica”, publicado em 1970 pelo psiquiatra e historiador franco-canadense Henri Frédéric Ellenberger. E eis que me deparo com uma obra monumental e de inestimável envergadura na minha área.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ler as quase mil páginas de “A Descoberta do Inconsciente” expandiu muitas coisas em mim. </span></p>
<p><span id="more-3241"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, fez-me conhecer uma grave lacuna na minha formação como psicóloga, pois ignorava por completo a historiografia e as origens remotas do meu próprio trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Assim, costuma-se erroneamente ensinar nas Universidades que foram homens como Charcot, Freud e Jung os iniciadores da psicoterapia, o que Ellenberger demonstra ser um grave erro histórico, pois a psicoterapia já vinha se desenvolvendo, através de homens como  Johann Joseph Gassner e Franz Anton Mesmer, desde 1775. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para ser mais exata sobre isso, a primeira cura primitiva de uma afecção mental de que se tem relato, foi descrita pelo antropólogo alemão Adolf Bastian em 1890, conforme ele testemunhou sendo realizada por um pajé, numa tribo da Guiana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, ler Ellenberger foi como conhecer pela primeira vez meus bisavós e tataravós de profissão, e ampliar o conhecimento da minha ascendência para além dos meus grandes mestres. </span></p>
<h2>Apagamento das origens</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">O motivo para tal apagamento da história na psiquiatria dinâmica, conforme mostra Ellenberger, é que, ao contrário das ciências físicas, a psiquiatria dinâmica não teve uma evolução linear. Assim, muitas das coisas que foram descobertas numa certa fase, foram simplesmente negadas pelos pesquisadores da fase seguinte, conforme se vê, por exemplo, no grave erro de Freud em considerar que o método catártico era invenção sua quando, na verdade, Pierre Janet já o vinha desenvolvendo há muito tempo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Ellenberger.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3244 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Ellenberger.jpg" alt="" width="186" height="271" /></a>Nesse sentido, o livro de Ellenberger tem a inestimável importância de fazer uma reparação à propriedade intelectual de homens brilhantes e sóbrios que foram simplesmente apagados da historiografia oficial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, sobre isso Ellenberger propõe que a decisão sobre qual autor será laureado e qual será esquecido numa dada época depende de coisas como a personalidade dos autores em questão e as preferências e os embates de uma dada época pelas ideias em voga. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, explica Ellenberger, autores como Pierre Janet e Adler não fizeram tanto sucesso na ocasião, pois eram representantes de um iluminismo tardio, ao passo que Freud e Jung, retomavam conceitos da velha psiquiatria romântica, ideais estes mais compatíveis ao gosto da época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, foi muito iluminador para mim enxergar que a história do meu campo de trabalho foi consolidada em ondas e, porque não dizer até mesmo em modismos, ora predominando o iluminismo, ora o organicismo, ora o romantismo. O que explica a existência de tantas “escolas” díspares na psicologia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma outra riqueza do livro de Ellenberger é sua capacidade de mostrar ao leitor como foram as condições históricas, econômicas e o espírito de uma dada época que propiciaram o surgimento ou ressurgimento de determinadas ideias na psiquiatria dinâmica, as coisas estando sempre mais ligadas do que imaginamos. Daí a importância, a meu ver, do psicólogo ser uma pessoa culta e bem instruída em campos que vão muito além da sua área. </span></p>
<h2>Psicólogos das profundezas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ponto de destaque no livro para mim foi o reconhecimento mais profundo de que todos estes psicólogos das profundezas, desde o exorcista e padre Gassner, passando pelo reverendo Oskar Pfister, o magnetizador Mesmer, o marquês de Puységur, os hipnotizadores Jean Martin Charcot e Auguste Ambroise Liébeault e tantos outros que não teria condições de citar aqui, estiveram desde o início envolvidos e lutando com misteriosas forças mentais que faziam seus pacientes falarem outras línguas, apresentarem múltiplas personalidades, entrarem em hipnose profunda e desenvolverem graves contágios psíquicos, tudo isso causando  por vezes sofrimento mental no próprio médico que tentava curá-los. Risco de profissão que todo psicoterapeuta experimentado conhece bem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vejo isso como um alerta já que tentar psicoterapizar pacientes sem uma sólida formação prévia, significa evocar forças mentais perigosas tanto para o paciente quanto para o psicoterapeuta, uma vez que o poder de sugestionabilidade da mente humana é brutal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, se a cura das almas foi se tornando mais sofisticada e científica com o tempo, passando do exorcismo e da confissão dos pecados à cura pela fala no divã, isso não significa que deixamos de lidar com as mesmas forças obscuras da mente humana, da qual ainda seguimos conhecendo muito pouco.</span></p>
<h2><b>Fim da leitura</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei o livro de Ellenberger sentindo um misto de coisas. Vazio e tristeza por tê-lo terminado, já que sua leitura, apesar de densa é muito prazerosa e instigante, mas também com vontade de me debruçar e estudar a fundo estes meus bisavós e tataravós, a quem agora percebo que devo muito. Um deles que pretendo estudar é Pierra Janet à quem Freud parece dever muito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra consequência desta leitura é que, como psicanalista, oriunda direta da psiquiatria e da filosofia romântica, Ellenberger aguçou em mim o desejo de me debruçar sobre outros autores românticos além de Freud, sendo eles Schelling, von Schubert, Ignaz Paul Vital Troxler, Carl Gustav Carus, Arthur Schopenhauer, Eduard von Hartmann , Gustav Theodor Fechner e Johann Jakob Bachofen. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, para se fazer justiça, é a tais autores que devemos atribuir a descoberta do inconsciente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Termino também o livro de Ellenberger admirando ainda mais Freud e nutrindo uma admiração incipiente por outro autor que desconheço por completo, Carl Gustav Jung. Pois, segundo ele, Freud e Jung foram os únicos desta grande linhagem que arriscaram tudo, sua própria psiquê e sua sanidade mental, em nome de sua obra, num processo que Ellenberger chamou de afecção criativa. </span></p>
<p>De Freud, podemos conhecer um pouco do enorme sofrimento mental vivido por ele em sua afecção criativa, através das cartas enviadas ao amigo e médico Wilhelm Fliess entre 1887 e 1904, reunidas e publicadas por Jeffrey Moussaieff Masson em 1986.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta consiste num estado de grave adoecimento psíquico pelo qual passam determinados descobridores antes de descobrirem algo realmente colossal. Penso sobre isso na coragem que ambos tiveram que ter ter, o que idealmente deveria ser também o propósito de uma análise didática: o analisando podendo adoecer a tal ponto de si mesmo, que a sua cura correspondesse à aquisição de um novo olhar, convicto e profundo, sobre si e sobre a vida. Mas talvez isso seja pedir demais.</span></p>
<h2><b>Considerações finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura do livro de Ellenberger me fez sentir alegria por fazer parte, ainda que ínfima, desta grande linhagem de homens que se propuseram a estudar e tratar a insondável mente humana. Além disso, ampliou-se enormemente em mim a dívida simbólica com meus ascendentes espirituais, já que aprendi com ele, de uma maneira muito elegante, que cada estudioso é tão somente um continuador de muitos outros que o antecederam. </span></p>
<p>A partir do que nos mostra Ellenberger, penso que também seria providencial que os cursos de Graduação em Psicologia pudessem ensinar uma historiagrafia mais completa das origens da psicoterapia aos alunos, fazendo juz a autores que, apesar de menos famosos, são tão importantes quanto. Apagamento curricular grave que acaba por formar psicoterapeutas bastante mal informados e repetidores de informações falsas.</p>
<p>Mas isso não significa que o livro seja interessante só aos psicólogos, podendo agradar qualquer leitor curioso e sagaz interessado nas questões da mente.</p>
<p>Por fim, Ellenberger me fez sentir algo que Sócrates já sabia, a saber, o quão estimulante é se saber ignorante de tudo o que ainda há para se estudar nesta vida.</p>
<p><em>*Agradeço em especial ao pesquisador Flávio F. Fontes, professor adjunto do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que me colocou pela primeira vez em contato com a obra de Henri Frédéric Ellengerger, enviando-me dois artigos do autor sobre a vida da paciente Berta Pappeheim.</em></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-leitura-obrigatoria-para-todo-psicoterapeuta-em-alguma-fase-da-vida/">Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Uma visita especial à Júlia Mann</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jun 2025 17:46:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Thomas Mann]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora narra sua experiência de ter visitado a casa onde Júlia Mann, mãe do escritor Thomas Mann, nasceu e viveu até os sete anos, na cidade de Paraty, Rio de Janeiro. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-visita-especial-a-julia-mann/">Uma visita especial à Júlia Mann</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3214 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-300x226.jpg" alt="" width="300" height="226" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-1024x771.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-768x578.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-1536x1156.jpg 1536w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Neste feriado fiz algo que me deixou muito emocionada. Visitei a casa que a mãe de Thomas Mann nasceu, em Paraty. O casarão do século XVIII é lindo e imponente, envolvido, de um lado, pela exuberante Mata Atlântica e, de outro, por um mar translúcido e calmo verde-esmeralda. </span></p>
<p><span id="more-3212"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Júlia da Silva Bruhns (1851-1923) viveu ali até os sete anos e, após sua mãe, Maria Senhorinha da Silva, ter morrido em um parto, emigrou com o pai, o abastado fazendeiro alemão Johann Ludwig Hermann Bruhns e seus irmãos para a Alemanha, de onde nunca mais voltou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647.webp"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3213 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647-300x180.webp" alt="" width="300" height="180" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647-300x180.webp 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647-768x461.webp 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647.webp 820w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Na Alemanhã, Júlia se casou aos dezessete anos com Thomas Johann Heinrich Mann, na ocasião com vinte e nove anos, e teve com ele cinco filhos: Heinrich, Thomas, Julia, Carla e Viktor, sendo que o caçula chegou a escrever sobre a infância da mãe no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, a menina Júlia era conhecida como Dodô e vê-se seu veio literário, herdado pelos dois filhos, Heinrich e Thomas, em seu livro autobiográfico “Da infância de Dodô”, publicado em 1903, onde ela narra seus primeiros anos vividos “</span><i><span style="font-weight: 400;">na selva, ao lado do Oceano Atlântico, ao Sul do Equador, entre macacos e papagaios</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imagino que ela tenha tido uma infância muito feliz ali,  repleta de experiências sensoriais e estéticas, em meio à bichos, plantas,  banhos de mar e paisagens luxuriantes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Marca psíquica materna que depois talvez Thomas Mann irá desenvolver e ampliar em personagens como Hans Castorp, o engenheiro “</span><i><span style="font-weight: 400;">à paisana</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que ama a beleza e a natureza, e experimenta, no cume da Montanha, o inenarrável prazer de chegar ao âmago das coisas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há, de fato, em vários personagens de Thomas Mann, como no próprio Castorp, e no inesquecível Thomas Buddenbrook, de “Os Buddenbrook &#8211; decadência duma família”, um desassossego interior que bem pode ter sido também o de Dodô. A tal ponto sabemos que a nostalgia de deixar a terra natal pode provocar em nós. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, teria ela saudades de sua terra natal? Lembrar-se-ia por vezes de sua língua materna, o português com que aprendeu a falar? E que marcas aquelas paisagens luxuriantes da costa brasileira teriam deixado em seu coração?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não tenho respostas para isso. Mas o que eu sei é que, tendo estado ali, pude ver a menina Dodô perseguindo os pássaros, mergulhando no mar e com medo das cobras. E senti uma gratidão enorme por esta mulher ter trazido ao mundo um escritor que, a mim, não sei nem dizer de quantas maneiras marca a minha vida.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, a escritora portuguesa Teolinda Gersão lançou em 2021 o livro “O retorno de Júlia Mann a Paraty”, obra na qual o título se serve de uma licença poética, já que Júlia efetivamente nunca voltou ao Brasil. </span></p>
<h2>Relação de Thomas Mann com o Brasil</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre a relação de Thomas Mann com o Brasil, em um <a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2022/04/03/interna_cultura,1357200/casarao-abandonado-em-paraty-e-o-elo-perdido-de-thomas-mann-com-o-brasil.shtml">artigo</a> publicado no caderno cultura do Estado de Minas, Gustavo Werneck, que também esteve no antigo casarão em 2022, recupera uma carta trocada entre Thomas Mann e Karl Lustig-Prean em 8 de abril de 1943, publicada no livro “A família de Thomas Mann e o Brasil” (2013), no qual o escritor fala sobre o Brasil:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Cedo soou em meus ouvidos o louvor de sua beleza, pois minha mãe veio de lá, era uma filha da terra brasileira; e o que ela me contou sobre essa terra e sua gente foram as primeiras coisas que ouvi sobre o mundo estrangeiro. Também sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista. Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda da minha terra pátria (&#8216;mein vaterland&#8217;) deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria (&#8216;mein mutterland&#8217;). Ainda chegará essa hora, espero.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Felizmente, desde que Werneck esteve lá em 2022 até o momento, pelo menos o casarão foi restaurado por fora, e estava em melhores condições do que quando ele o visitou. Mas ainda há muito que poderia ser feito em termos da preservação histórica de um lugar tão importante em termos memorialísticos para o país. </span></p>
<h2>Preservação histórica</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Este era o intento do neto de Thomas Mann, o escritor Frido Mann, que visitou várias vezes o casarão e tinha interesse de instalar ali a Casa Mann, para guardar a memória da família, o que até o momento ainda não se realizou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escutei de alguns moradores da marina do Engenho ser uma pena aquele casarão lindo estar fechado, sugerindo que ali poderia ser um restaurante ou algo do tipo. O que, a meu ver, seria uma imensa tragédia, pois é assim que se apaga a história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas há tantas condições para alguém poder amar e reconhecer o valor artístico de um escritor da envergadura de Mann, que não se pode exigir muito das pessoas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, amar os livros e reconhecer o valor de um clássico, ter sensibilidade estética e vida interior, gostar de personagens bem construídos e complexos, e saber valorizar o que a meu ver é um ponto forte em Mann, que é o olhar sagaz de seus narradores, não é algo que se encontre com frequência nas pessoas comuns. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso talvez explique a sensação de imenso conforto e identificação que senti estando lá. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como se ali, na companhia de Dodô, e de seu filho Thomas, mas também na de Hans Castorp, Clawdia Chauchat, Joachim, Settembrini, Krokowski, Naptha, Dr. Behrens e Marusja, e outros tantos personagens maravilhosos que ele criou, eu me sentisse por alguns instantes um pouco menos só. </span></p>
<p>Segue um vídeo e mais algumas fotos que tirei do casarão</p>
<p><iframe loading="lazy" title="Visita ao casarão em que Júlia Mann nasceu, em Paraty" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/ZN_fx_3g7as?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3215 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-300x226.jpg" alt="" width="300" height="226" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-1024x771.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-768x578.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-1536x1156.jpg 1536w, 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href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-3219" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-300x226.jpg" alt="" width="300" height="226" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-1024x771.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-768x578.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-1536x1156.jpg 1536w, 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<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-visita-especial-a-julia-mann/">Uma visita especial à Júlia Mann</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<item>
		<title>Uma jornada pela Patagônia</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/</link>
					<comments>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Mar 2025 19:11:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Patagônia]]></category>
		<category><![CDATA[relato de viagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora narra suas experiências vividas nos dez dias em que esteve na Patagônia</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/">Uma jornada pela Patagônia</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-scaled.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-3162 size-large" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-1024x461.jpg" alt="" width="660" height="297" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-1024x461.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-300x135.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-768x346.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-1536x691.jpg 1536w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_133347884-2048x922.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px" /></a><span style="font-weight: 400;">Rodar por dez dias na Patagônia foi uma experiência extasiante. Trata-se de um lugar inóspito e frio, com ventos intensos e constantes, o que a torna um lugar extremamente hostil à presença do homem. </span></p>
<p><span id="more-3145"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Suas paisagens são constituídas por estepes em tons terrosos a perder de vista emoldurados, de ambos os lados, por montanhas rochosas nevadas e lagos de um azul turquesa translúcido, compondo um conjunto cênico de extraordinária beleza, quase impossível de ser colocado em palavras.</span></p>

<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250313_081253198/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_081253198-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_081253198-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_081253198-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250310_200101448_hdr/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250310_200101448_HDR-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250310_200101448_HDR-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250310_200101448_HDR-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250311_181708303/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_181708303-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_181708303-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_181708303-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>

<p><span style="font-weight: 400;">Assim, dirigir por aquelas estradas estreitas e infinitas que cortam os campos patagônicos, que eu nunca me cansava de olhar, é como estar num </span><i><span style="font-weight: 400;">road movie</span></i><span style="font-weight: 400;"> onde a vastidão infinita da paisagem evoca no viajante solitário uma potente e inebriante sensação de liberdade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, sobre isso, conheci inúmeros viajantes que deixaram tudo para trás para viajarem, de carro, bicicleta ou mesmo a pé. Estilo de vida pelo qual eu me sinto muito atraída, pelo espírito de desprendimento que ele comporta. E também porque herdei do meu pai um profundo amor pela liberdade que, em excesso, pode ser perigosa porque pode nos tornar excessivamente solitários. </span></p>

<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250311_133215825/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_133215825-scaled-e1742649555844-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_133215825-scaled-e1742649555844-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_133215825-scaled-e1742649555844-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250311_132054573/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_132054573-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_132054573-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_132054573-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250311_140334448/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_140334448-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_140334448-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_140334448-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>

<p><span style="font-weight: 400;">Foi o que eu pude observar em muitos dos viajantes que conheci , sobretudo no camping em que ficamos, no primeiro dia de viagem, em Puerto Natales, onde pude cozinhar em uma cozinha compartilhada com muitos deles. São em sua maioria estrangeiros, que viajam sozinhos ou em casal, e estão há muito tempo na estrada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, percebi que estas pessoas conhecem muita gente, mas como estão sempre de passagem, estão sempre sós, o que talvez lhes pese às vezes, não sei. </span></p>
<h3>Acampando no Parque Torres del Paine</h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250309_193924619-scaled-e1742647586797.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3167 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250309_193924619-scaled-e1742647586797-273x300.jpg" alt="" width="273" height="300" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250309_193924619-scaled-e1742647586797-273x300.jpg 273w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250309_193924619-scaled-e1742647586797-931x1024.jpg 931w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250309_193924619-scaled-e1742647586797-768x845.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250309_193924619-scaled-e1742647586797.jpg 1152w" sizes="auto, (max-width: 273px) 100vw, 273px" /></a>Outro ponto alto da viagem foi o fato de termos alugado uma camper van, que é uma caminhonete com uma barraca em cima, para acampar no belíssimo <a href="https://parquetorresdelpaine.cl/">Parque Nacional Torres del Paine</a>, no Chile, onde ficamos por cinco dias. Esta foi minha primeira experiência acampando sozinha com o meu marido e houve momentos bem difíceis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por exemplo, no último dia em que acampamos à beira do lindo rio Serrano, por volta das quatro da madrugada começou um vento violentíssimo que nos fez temer seriamente que o carro e a barraca virassem com a gente dentro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E também, no primeiro dia dormindo na camper van, quando ainda só tínhamos dois sacos de dormir, o que me fez não pregar o olho a noite toda por conta do frio cortante. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos esses apertos que eu vivi acampando me fazem admirar ainda mais esses viajantes corajosos que eu conheci na Patagônia, que abrem mão de todo o conforto de uma casa para estarem soltos no mundo. </span></p>
<h3>Desafio físico e psicológico</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aperto grande que passei foi nas duas trilhas que fizemos. Ambas desafios físicos e psicológicos que eu me propus vencer, para os quais me preparei com afinco por meses antes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> <a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-scaled.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3176 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-300x135.jpg" alt="" width="300" height="135" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-300x135.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-1024x461.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-768x346.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-1536x691.jpg 1536w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_132631343_HDR-2048x922.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Trata-se da subida até a base das torres Paine, que dá nome ao Parque Torres del Paine, no Chile, e do imponente Fitz Roy, que fica em El Chaltén, na Argentina, e faz parte do <a href="https://pnlosglaciares.ar/">Parque Nacional los Glaciares</a>. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambas as trilhas têm vinte quilômetros cada, que conseguimos percorrer num total de dez horas de caminhada.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Não sei se foi o acúmulo de noites mal dormidas, a dificuldade de aclimatação num clima muito frio e árido ou o cálculo errado com os provimentos de comida para as trilhas, mas nas duas passei fisicamente muito mal, sentindo mal-estar, náusea e fraqueza, que rapidamente passou após um banho quente e uma noite revigorante de sono. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-10.03.26.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3179 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-10.03.26-225x300.jpeg" alt="" width="225" height="300" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-10.03.26-225x300.jpeg 225w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-10.03.26-768x1024.jpeg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-10.03.26.jpeg 780w" sizes="auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px" /></a>Também tive algo nos tornozelos que nem conhecia, chamado Púrpura por Esforço Físico. Eles ficam roxos e cheios de hematomas porque o esforço físico extenuante leva à uma falência circulatória. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nestes dias experimentei o que significa, na prática, lutar contra sua própria mente e corpo, que imploram por parar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Impressionou-me sobre isso a agilidade dos incontáveis estrangeiros que encontramos nas trilhas, inclusive muitos deles, bastante idosos. Vimos algumas pessoas por volta dos setenta anos fazendo estas trilhas, e ficamos maravilhados! </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tanto as Torres Paine quanto o Fitz Roy são paisagens monumentais, difíceis de serem colocadas em palavras. Certamente, foram os lugares mais surreais em que já estive até hoje. Entretanto, em ambas o lugar é tão inóspito e hostil à presença humana por se tratar de uma área muito exposta ao vento e ao sol, que não é possível permanecer ali muito tempo. </span></p>

<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250313_142123421/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_142123421-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_142123421-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_142123421-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250313_143609418/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_143609418-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_143609418-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_143609418-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/whatsapp-image-2025-03-22-at-09-54-21/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-09.54.21-150x150.jpeg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-09.54.21-150x150.jpeg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-09.54.21-120x120.jpeg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250307_151926093/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250307_151926093-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250307_151926093-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250307_151926093-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250313_110848763_hdr-1/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_110848763_HDR-1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_110848763_HDR-1-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250313_110848763_HDR-1-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250307_145103581/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250307_145103581-scaled-e1742650123883-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250307_145103581-scaled-e1742650123883-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250307_145103581-scaled-e1742650123883-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>

<p><span style="font-weight: 400;">Lembro-me de que, vendo aquelas montanhas nevadas majestosas envolvidas por um lago azul turquesa, pude pensar que só eu podia amá-las e venerá-las ao passo que elas nem registravam a minha insignificante presença. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda sobre isso, vendo tantos caminhantes subindo em fila indiana o pesado e íngreme aclive que levava aos cumes, não pude deixar de pensar que todos ali eram peregrinos em busca do nosso próprio Deus, que no nosso caso se chama Beleza, a tal ponto precisamos de um sentido maior que nós próprios. </span></p>
<h3>Um russo em nosso quarto</h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-12.37.38.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3197 " src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-12.37.38-260x300.jpeg" alt="" width="224" height="258" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-12.37.38-260x300.jpeg 260w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-22-at-12.37.38.jpeg 438w" sizes="auto, (max-width: 224px) 100vw, 224px" /></a>Uma parte engraçada da viagem foi num dia em que estávamos dormindo num hostel e um jovem nômade russo bateu à nossa porta à meia-noite e meia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele tinha uma cara engraçada e bondosa. Era extremamente alto e meio desengonçado. Ocorre que o hostel havia vendido o mesmo quarto para nós e para ele, e meu marido ficou com tanta pena do russo que o chamou para dormir no nosso quarto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi bonito ver sua estupefação ao encontrar tamanha bondade em alguém. Por fim, meu marido e ele engataram numa conversa tão animada, que o russo nos contou que havia nascido em uma cidadezinha próxima de São Petersburgo, e já viajava pelo mundo há muito tempo, ao passo que meu marido lhe contou que eu amava os escritores russos. Não vimos o russo partir no dia seguinte, mas vou me lembrar para sempre da sua carinha simpática. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Meu marido anotou o instagram dele:</span> https://www.instagram.com/andrewxengineer</p>
<h3>A morte dos guanacos</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas assim como todo lugar, a Patagônia também tem seu lado sombrio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, ficamos tremendamente tristes ao descobrirmos que os criadores de ovelhas, que são muitos na Patagônia, colocam arames farpados nas cercas que margeiam todas as estradas patagônicas, para que os guanacos não as pulem, o que os acaba deixando presos nelas. </span></p>

<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250308_143031270/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_143031270-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_143031270-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250308_143031270-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/img_20250314_114300980/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250314_114300980-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250314_114300980-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250314_114300980-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>
<a href='https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/whatsapp-image-2025-03-21-at-16-25-36/'><img loading="lazy" decoding="async" width="150" height="150" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-21-at-16.25.36-150x150.jpeg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail" alt="" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-21-at-16.25.36-150x150.jpeg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-21-at-16.25.36-120x120.jpeg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>

<p><span style="font-weight: 400;">Um argentino frio e truculento nos explicou que esta é uma forma de se controlar a “praga” que os guanacos se tornaram na região, e ficamos estupefatos com a frieza de alguém que nem sequer imagina como deve ser terrível morrer agonizando, por dias a fio, preso num arame farpado. Em todo o trajeto de El Chaltén a El Calafate, contamos mais de duzentas carcaças de guanacos presos nas cercas. </span></p>
<h3>Glaciar Perito Moreno</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Também constatamos que algo, de fato, está se alterando no clima, pois, desde a década de 70, o belíssimo e extraordinário Glaciar Perito Moreno, que fica em El Calafate, na Argentina, está perdendo ano a ano grandes somas de sua massa. </span></p>
<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-scaled.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-3152 size-large" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-1024x461.jpg" alt="" width="660" height="297" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-1024x461.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-300x135.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-768x346.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-1536x691.jpg 1536w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250311_160916667-2048x922.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px" /></a></p>
<h3>Pinguins na Isla Magdalena</h3>
<h3><span style="font-weight: 400;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-scaled.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-3149 alignnone" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-1024x461.jpg" alt="" width="616" height="277" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-1024x461.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-300x135.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-768x346.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-1536x691.jpg 1536w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/03/IMG_20250315_165533014-2048x922.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 616px) 100vw, 616px" /></a></span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminamos nossa viagem indo conhecer a colônia de Pinguins na Isla Magdalena, em Punta Arenas &#8211; Chile. Trata-se de uma colônia com mais ou menos 7.000 casais de pinguins que vão todos os anos para a ilha para procriar e trocar de penas. Este passeio me despertou uma ternura profunda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no barco é possível avistar os incontáveis casaizinhos de pinguins, que permanecem juntos a vida inteira (vivem, em média, 25 anos) e só mudam de parceiro se um deles morre. Também é possível avistar na ilha que a luta pela sobrevivência na natureza é violenta e atroz. Assim, havia muitas aves mortas e Gaivotas que predam os pinguins filhotes, o que torna o trabalho dos pais pinguins de proteger suas crias, extenuante e incansável. </span></p>
<h3>O retorno</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora estou aqui de volta tentando achar de novo algum sentido na rotina, depois de dez dias de um contato intenso com as belezas naturais da Patagônia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, como achar alguma graça na pequena lida diária da vida depois de viver coisas tão intensas e contemplar paisagens tão belas? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Refletindo sobre isso concluo que, afinal, ninguém escapa da rotina e nem vive o tempo todo só de aventuras. Cito sobre isso um casal que conhecemos no camping de Puerto Natales, ela brasileira, ele norte-americano, que optaram por se desfazerem de tudo e morarem num carro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No momento, estavam vivendo um grande aperto porque o carro havia quebrado e precisavam aguardar a peça. Assim, fizeram questão de nos deixar muito claro que, viver na estrada não é um estado permanente de férias, mas a escolha por um estilo de vida que, além de aventuras, é cheio de desconfortos e privações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chega-se então, ao óbvio, mas que sempre precisa ser dito. Que escolher é ganhar coisas e perder outras. Embora, tristemente nós tenhamos o péssimo hábito de achar que a vida dos outros é sempre melhor que a nossa, tal é a magnitude da nossa natureza eternamente insatisfeita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De minha parte, volto desta viagem cada vez mais resoluta de que vez ou outra preciso estar na natureza porque contemplar belas paisagens é um bálsamo para a minha alma. Nesse aspecto, sou como Byron que diz:</span></p>
<pre style="text-align: right; padding-left: 40px;"><i><span style="font-weight: 400;">Há um prazer nas florestas desconhecidas.</span></i>

<i><span style="font-weight: 400;">Um entusiasmo nas costas solitárias.</span></i>

<i><span style="font-weight: 400;">Uma sociedade onde ninguém penetra</span></i>

<i><span style="font-weight: 400;">Pelo mar profundo e música em seu rugir.</span></i>

<i><span style="font-weight: 400;">Não que eu não ame o homem, mas amo mais a natureza.</span></i></pre>
<p><span style="font-weight: 400;">Além do que, a repetição fatigante do dia-a-dia anestesia e embrutece o  espírito e sair do conforto e abrir-se para viver novas experiências transforma a alma, sendo esta a diferença entre um turista e um viajante. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo o primeiro aquele que busca sempre lugares novos para se distrair do seu tédio enquanto que o segundo se desloca de um lugar ao outro para se transformar radicalmente nesta jornada.</span></p>
<p>Outra diferença entre ambos é que o viajante respeita e busca aprender com a cultura local, ao passo que o turista não.</p>
<h3>Imersão cultural</h3>
<p>Sobre este último ponto, como foi a primeira vez que sai do Brasil foi muito excitante estar na área internacional do aeroporto ouvindo idiomas do mundo todo, o que evocou em mim a curiosa sensação de estar numa área fora do espaço-tempo comum, nem dentro nem fora do Brasil. Espécie de parânteses, ao mesmo tempo um lugar e um não lugar.</p>
<p>Também foi muito excitante estar estes dez dias ouvindo e tentando conversar em outra língua, observando modos de ser, gostos, hábitos, atmosferas e paisagens totalmente diversas do Brasil.</p>
<p>Como não estive nas capitais Santiago do Chile e Buenos Aires, mas sim em áreas bastante remotas e pouquissimo povoadas de ambos os países, Chile e Argentina, no extremo sul do continente, consegui perceber a presença forte, na cultura local, dos povos originários da região, presentes na região muito antes da chegada dos colonizadores, sendo os principais deles os Tehuelches e os Mapuches.</p>
<p>Sobre isso, me impressionou a capacidade que eles tinham de sobreviver em um ambiente tão hostil e inóspito, conforme aprendi no Centro de Intepretação Histórica, em El Calafate &#8211; Argentina.</p>
<p>Penso que este sentimento de volta a um tempo ancestral onde podemos nos dar conta do quanto o planeta terra é antigo, gigantesco e possuidor de uma dinâmica própria, e nós, meros acidentes de um longuíssimo percurso evolutivo, só se pode ter em lugares como estes.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-jornada-pela-patagonia/">Uma jornada pela Patagônia</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Reflexões sobre a melancolia e o tédio em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jan 2025 15:01:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[tédio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo reflete sobre o tema da melancolia e do tédio presentes na novela Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-a-melancolia-e-o-tedio-em-felicidade-conjugal-de-liev-tolstoi/">Reflexões sobre a melancolia e o tédio em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://static.wixstatic.com/media/d61ae6_d12cfcc4076448f3b02b6cd12afb4b14~mv2.jpg/v1/fill/w_1000,h_749,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01/d61ae6_d12cfcc4076448f3b02b6cd12afb4b14~mv2.jpg" alt="" width="203" height="152" />Em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói, encontramos um estudo profundo sobre a melancolia e o tédio, que pode ocorrer em qualquer fase da vida, embora costume se agravar com a chegada da meia idade.</span></p>
<p><span id="more-3122"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos motivos para isso é que, enquanto o jovem percorre seus sonhos e desejos com obstinada empolgação, o homem e a mulher de meia idade começam a perceber que há muito de ilusório nestas ambições. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que os obriga, ao chegar à meia idade, a rever e aprofundar seus valores. Daí Nelson Rodrigues dizer aos jovens que, por favor, envelheçam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, por exemplo, a mulher e o homem que sonharam ser pais, com os filhos mais velhos, podem se decepcionar com o que estes se tornaram, e que o tempo maravilhoso em que eram pequenos não volta mais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já aqueles que dão muito valor ao trabalho, podem, na meia idade, começar a se entediar com o que passaram seus últimos vinte ou trinta anos fazendo. Ou, então, a perceber que só se cansaram e não chegaram a lugar algum.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, a possibilidade de salvar-se do tédio e da melancolia passará por um aprofundamento no olhar sobre as coisas e uma revisão honesta sobre as rotas tomadas, o que nunca é fácil. </span></p>
<h2>Felicidade conjugal</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">É este aprofundamento de valores do homem que sabe envelhecer que encontramos em Serguei Mikháilitch, marido da protagonista Macha, na novela Felicidade Conjugal de Liev Tolstói. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, em dado momento em que ela está profundamente entediada com a vida familiar e conjugal, e fica caçando briga com o marido só para sair da pasmaceira e da angústia em que se encontra, acusa-o de ser um bobo e estar sempre satisfeito com tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que ele lhe explica sobre isso é que sua insatisfação juvenil fazem-na desdenhar de uma vida tranquila, quando na verdade, ter paz é tudo o que importa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Algo que ele obviamente só pôde aprender depois de já ter sido jovem e ter perdido bastante tempo sendo bobo. Daí não se poder condenar os jovens por sua tolice, que faz parte do seu amadurecimento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, ser feliz na maturidade poderá  significar ser capaz de enxergar beleza nas pequenas alegrias diárias da vida. Como regar uma planta, cultivar velhos hábitos, dormir uma boa noite de sono, ter o intestino regular e nenhuma doença grave à vista. O que não significa que, de vez em quando, não se será assaltado pelo tédio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já para a jovem Macha ser feliz era ir à bailes, ser cortejada pelos homens e admirada pelas mulheres, e estar sempre em busca de novidades.</span></p>
<h2>Rotina x novidade</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim penso que Macha e Serguei representam duas dimensões da condição humana que conflitam em nós a vida toda, sendo elas, respectivamente, a busca por novidade e mudança versus o prazer na estabilidade e na rotina, tendo ambas o seu valor, desde que na medida certa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, erroneamente se associa o desejo por novidades à juventude e o gosto pela estabilidade aos adultos e velhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Prova-se o preconceito desta visão no fato de ser muito comum adultos de meia idade serem assaltados por um desejo louco e irrefreável por mudança, que pode levá-los, por exemplo, à se divorciar repentinamente, abandonar suas carreiras e largar tudo, mudar de estilo de vida ou de cidade ou mesmo envolver-se em casos extraconjugais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí ser crucial não moralizar o sentimento de insatisfação nem o gosto por rotina, tudo dependendo da dose e de se ter um espaço de reflexão, antes de se tomar qualquer decisão.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, se a insatisfação é o que nos leva a mudar situações ruins, em excesso, pode tornar uma pessoa exigente e incapaz de valorizar o que possui. Cita-se sobre isso o exemplo de pessoas que, tomadas por um ímpeto de tédio e insatisfação, divorciam-se de casamentos felizes, e depois se arrependem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma que gostar da rotina diária e ser organizado pode significar sabedoria e capacidade de ser feliz com coisas simples, apegar-se em excesso à rotina e à estabilidade pode tornar uma pessoa excessivamente medrosa, controladora, acomodada e despreparada para lidar com mudanças inevitáveis da vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Nesse aspecto, entendo que o tédio pode ser expressão de um desejo incipiente por mudanças e transformações que brotam de dentro. Desejos, que, se bem entendidos, podem culminar em verdadeiros pontos de virada na vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro destino ao tédio, infelizmente muito comum, é a pessoa não fazer nada a respeito e passar o resto da vida reclamando.    </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, como psicanalista, considero muito seriamente o tédio e a melancolia em meus pacientes como podendo ser a expressão de verdadeiros desejos por mudança ainda não muito bem formulados pela própria pessoa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Princípio de um longo e doloroso processo de desalienação no qual a pessoa começará a se indagar, por exemplo, se valeu tanto assim a pena ter sido o filho ou os pais perfeitos, o trabalhador ou o aluno obcecado com a perfeição de suas tarefas ou o amigo que nunca expôs o que sentia.</span></p>
<p>Outros fatores que parecem gerar tédio são o excesso de conforto material e ausência de desafios e dificuldades a serem superadas e a ação massiva do ódio na mente.</p>
<h2>O amadurecimento de Macha</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, vemos na novela Macha encaminhar-se para um amadurecimento e aprofundamento do seu olhar. Assim, por exemplo, aprende que o amor inflamado e febril que experimentou pelo marido nos primeiros tempos de casamento, afinal, não poderia durar para sempre, já que “</span><i><span style="font-weight: 400;">cada tempo tem seu amor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais madura, também aprende a enxergar beleza nas pequenas coisas singelas da vida como os pezinhos do filho e a rotina de chá com o marido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, terminada a crise, a ingênua e insatisfeita Macha deixará de desprezar o marido por seu jeito simples e fácil de ser feliz, finalmente descobrindo que ninguém escapa em alguma medida à monotonia e ao tédio da vida, que pode ter lá sua grande beleza. </span></p>
<p style="text-align: right;">* <em>Não é imprescindível que o leitor conheça a novela para acompanhar o artigo. Mas, se quiser se deleitar com a leitura deste clássico, <a href="https://drive.google.com/file/d/171lqB2f3jS0uxQOH2b0C36nPR8mQTL8_/view?usp=drive_link" target="_blank" rel="noopener">clique aqui para baixar o livro Novelas Completas &#8211; Liev Tolstói</a>.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>** O uso do termo melancolia no presente artigo não corresponde ao conceito estritamente freudiano conforme descrito em Luto e Melancolia (1915), mas à presença de sentimentos de tristeza, apatia e desânimo que se experimenta ao longo da vida.</em></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-a-melancolia-e-o-tedio-em-felicidade-conjugal-de-liev-tolstoi/">Reflexões sobre a melancolia e o tédio em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Um olhar honesto sobre o casamento</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-honesto-sobre-o-casamento/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2024 14:30:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo reflete sobre o casamento a partir dos achados da etologia, ciência que investiga os comportamentos humanos a partir de padrões inatos da espécie. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-honesto-sobre-o-casamento/">Um olhar honesto sobre o casamento</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://img.freepik.com/fotos-premium/um-casal-de-idosos-de-maos-dadas-e-caminhando-por-um-caminho_250469-19222.jpg?w=1800" alt="" width="234" height="131" />Os equívocos e mal-entendidos sobre o casamento são amplos e disseminados na sociedade atual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, ao mesmo tempo em que um casal de velhos que andam de mãos dadas num shopping e estão juntos há cinquenta anos, gera admiração e inveja nas pessoas, também os julgam com desprezo, pensando-se que, afinal, um casal que vive décadas juntos só pode ter se tornado irmãos. A tal ponto são ambivalentes os sentimentos que o casamento desperta nas pessoas. </span></p>
<p><span id="more-3046"></span></p>
<h3>A fenomenologia de um casal</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Em termos fenomenológicos, define-se um casal bem-sucedido como aquele capaz experimentar amor, respeito e admiração mútua mesmo após muitas décadas de coabitação e compartilhamento de hábitos comuns. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra marca de um casal feliz é o fato de experimentarem uma agradável sensação  de conforto, intimidade e confiança na presença um do outro, o que não se sente facilmente com familiares, por exemplo, com quem por vezes não nos sentimos íntimos. </span></p>
<p>Soma-se aqui o enorme desafio de manter vivo, íntimo e profundo o vínculo entre um casal após a chegada dos filhos, que pode se deterioriar por conflitos de valores na criação dos mesmos ou conluios inconscientes, como por exemplo, quando a mãe se alinha com os filhos contra o marido ou vice-versa.</p>
<p>A propósito, sobre isso é bastante comum a visão de o propósito supremo de um casal é gerar e criar filhos, quando, na verdade, sem um sólido amor conjugal prévio, é quase impossível um casamento continuar de pé depois dos filhos criados.</p>
<h3>A formação de casais na natureza</h3>
<p>Voltando ao tema, evolutivamente a formação de casais parece ser uma engenhosa criação da natureza para nos proteger do desamparo<span style="font-weight: 400;"> (Bowlby, 1982), quer estas duas pessoas continuem transando ou não, sendo amor e sexo, como já dizia a grande Rita Lee, coisas relacionadas porém distintas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de que o que observo sobre isso é que, à excessão dos verdadeiros perversos, sendo talvez o maior exemplar deles Marques de Sade, o sexo feito sem amor é quase sempre sentido pelas pessoas como uma compulsão degradante. <em> </em>Como se o amor &#8220;limpasse&#8221; a conscupiscência e a baixeza com que vimos o sexo. </span></p>
<h3>Monogamia</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se do dito acima que a monogamia da espécie não corresponde, neste caso, à quantidade de parceiros sexuais que uma pessoa tem, mas ao número reduzido de vínculos afetivos que a espécie humana é capaz de criar ao longo da vida. O que também ocorre em outras espécies. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Exemplifica-se o quão sexo e companheirismo não estão necessariamente ligados, no caso de muitas espécies onde tanto o macho quanto a fêmea buscarão outros parceiros para se reproduzirem no tempo devido, e depois retornarão ao outro membro do casal. Ou ainda aqueles que, tendo morrido o(a) parceiro(a), vítima de doença ou ataque, permanecerão sozinhos até o final da vida.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí que, ao contrário do que se pensa, evolucionariamente, a criação de um casal estável, em muitas espécies animais, inclusive a humana, não visa o sexo, mas sim à estabilidade, proteção e segurança.  </span></p>
<h3>Atração sexual</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Disso se conclui que, se a atração sexual pode ser um dos gatilhos para a formação de um casal, não parece ser a única, e nem mesmo a mais importante, havendo muitos outros elementos que levarão duas pessoas a permanecerem juntas, tais como segurança, proteção, admiração, estima, afinidade de gostos e ideias e senso de estabilidade. A hipervalorização da atração sexual na manutenção de um casal, neste caso, parecendo ser mais um preconceito do que um fato. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em casamentos longevos, a realidade demonstra que a atração sexual vai perdendo importância como um gatilho sexual, ao longo do tempo e graças ao envelhecimento, passando a ganhar destaque o senso de intimidade entre ambos, que tenderá a tornar o sexo cada vez melhor, pois não há mais vergonha entre eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário disso, casais que transam sem intimidade afetiva tenderão, após uma noite de sexo, a sentir muita vergonha um do outro e irem embora correndo.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, o que observo em minha prática clínica é que o imperativo de que todo casal deve começar com uma paixão arrebatadora dificulta enormemente a vida das pessoas, pelo enorme grau de idealização e infantilismo que comporta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em síntese, os motivos pelos quais amamos alguém são tão misteriosos e insondáveis que reduzir tudo à coisas como beleza e atração sexual me parece simplificar demais as coisas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A capacidade de amar sendo, portanto, uma competência psíquica que envolve grande maturidade e sabedoria.</span></p>
<h3><b>O vínculo afetivo no casamento</b></h3>
<p>O vínculo afetivo que se cria entre um casal que permanece décadas juntos tende a ser extremamente forte e marcado por intensa interdependência afetiva entre eles. A tal ponto que um deles pode ficar gravemente prostrado e chegar a morrer, se o outro o abandonar ou vier a falecer, o que se vê algumas vezes entre casal de velhos, ou em alguns divórcios onde antes havia amor.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto importante é que é próprio dos vínculos afetivos provocar nos envolvidos reações afetivas intensas, dada à enorme importância que o ser amado passa a ter na vida do sujeito, e o estrago que este pode causar se vier a traí-lo, decepcioná-lo ou mesmo morrer.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Disso decorre que a perda de alguns vínculos afetivos, por morte ou separação, efetivamente nunca serão completamente superadas, a tal ponto amar e se entregar comporta enormes riscos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Observando como psicanalista casais estáveis que permanecem juntos por décadas, eu mesma sendo um exemplo disso, observo que o sucesso deles deve-se ao fato de serem capazes de repactuarem entre si, a cada nova e inevitável crise, o desejo de continuarem juntos, movimento que exige enorme maturidade e disponibilidade para o diálogo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro fator crucial no sucesso de um casal é ambos poderem reconhecer que precisam um do outro, o que as pessoas imaturas e tolas erroneamente intepretarão como um sinal de fraqueza. Contempla-se tal ideia na formulação madura de que fica-se bem só, embora muito melhor com aquela pessoa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, considerar que envelhecer completamente só é uma das coisas mais tristes que pode existir, conforme observo em pacientes mais velhos, e em velhos da minha convivência, pode ser um importante caminho para se sair mais rápido da arrogância. </span></p>
<h3>Posição ideológica</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Posições ideológicas também devem ser consideradas aqui, já que a generalização de que todo homem é um potencial opressor, algo típico da esquerda, gera um estado de paranoia permanente, sobretudo nas mulheres, e dificulta enormemente a formação de casais numa certa classe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto isso, nas camadas populares, a valorização dos vínculos familiares deve-se a um fator prioritário de sobrevivência, já que todo pobre aprenderá desde cedo que sem a ajuda da família ele não terá a menor chance.   </span></p>
<h3><b>Considerações finais</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Do dito acima, conclui-se que nós não fomos programados pela natureza para desenvolver uma quantidade muito grande de vínculos afetivos ao longo da vida, o que talvez explique a recusa de muitas pessoas que se divorciaram ou enviuvaram, após longos anos de um casamento bem-sucedido, a se vincularem de novo tão profundamente a alguém. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, o homem moderno tem esquecido com enorme facilidade de sua origem comum a outros animais, o que significa que nele continuarão a operar poderosos instintos de ligação, quer ele queira, quer não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A formação de casais é uma expressão deste impulso; necessidade tão antiga na história da nossa espécie quanto nosso impulso por guerrear e fofocar. </span></p>
<p>Referência bibliográfica</p>
<p>Bowlby, John. <strong>Formação e rompimento dos laços afetivos. </strong>São Paulo: Martins Fontes, 1982.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-honesto-sobre-o-casamento/">Um olhar honesto sobre o casamento</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2024 18:50:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo faz reflexões sobre a sociedade brasileira, marcada por privilégios materiais e simbólicos, a partir do filme Ainda estou aqui. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-ainda-estou-aqui/">Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Ainda-estou-aqui-5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3006" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Ainda-estou-aqui-5.jpg" alt="" width="250" height="156" /></a>O filme <em>Ainda estou aqui</em>, dirigido por Walter Salles, me tocou de um jeito inesperado.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais identificada à empregada doméstica Zezé do que à Eunice ou suas filhas, lembrei-me das inúmeras vezes em que senti, tal como Raskólnikov, inveja das minhas colegas que tinham famílias cultas, politizadas e unidas como a de Rubens, Eunice e seus filhos, e que pude conhecer nos meus únicos dois anos de colégio privado, e, depois, na USP.   </span></p>
<p><span id="more-3003"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não tive a sorte de pertencer a uma. Assim como milhões de brasileiros, nasci de pais pobres, pouco escolarizados e despolitizados que, na época da ditadura, lutavam com outros monstros: alcoolismo, falta de perspectiva e violência sexual e doméstica.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso acho graça quando alguém politizado fica bravo com a indiferença e alienação do povo em relação à sua história. Pois, na classe de onde eu vim, é do padre e não do político que vem o amparo diário. O que me faz lamentar profundamente o fim da teologia da libertação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na minha segunda análise, minha analista, que veio de uma família culta e letrada, como, aliás, quase todos os psicanalistas, demorou muitos anos para compreender que o ódio que me corroria o espírito não era vergonha das minhas origens. E sim revolta por não ter tido as mesmas oportunidades que os bem nascidos, de estudar em bons colégios, cursar outras línguas e conhecer o exterior.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, minha vontade insana de fugir da falta de perspectivas da minha classe, foi tanta que consegui, estudando feito um cão, passar na USP.  O que só consegui porque, por sorte, nasci inteligente e sistemática como um relógio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como uma trânsfuga de classe (termo que ouvi do escritor Edouard Louis), carrego marcas até hoje. Por exemplo, semana retrasada consegui comprar minha primeira passagem aérea ao exterior e fiquei duas noites sem dormir, vítima de uma ansiedade terrível. </span></p>
<h3><b>Modos de ser que vêm da classe</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao filme, a postura sóbria, discreta e pragmática com que Eunice enfrenta o drama do desaparecimento do marido, também é fruto de um modo de ser da classe a qual estas pessoas pertencem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, pertencer aos Paiva, aos Arraes, ou casar-se com um, significa, no Brasil, integrar famílias tradicionais de longa linhagem aristocrática, com grande influência política e alto capital simbólico, educados nos melhores modos e na ilustração. Sendo estas as pessoas que compõem hoje o que chamamos de elite pensante brasileira, grande parte dela representantes da esquerda (ou do que restou dela).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, são pessoas que, ao contrário de mim, carregam um inabalável senso de autoestima e uma noção clara de seus direitos, devido ao fato de serem quem são. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, vendo a postura estóica de Eunice, foi inevitável não compará-la à minha mãe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há dez anos, seu companheiro morreu misteriosamente na prisão sem ela nunca ter sabido a causa, e nunca lhe passou pela cabeça, como fez Eunice, lutar pelos seus direitos de viúva, pois para ela, seus únicos direitos na vida são resignar-se e apegar-se à Deus. </span></p>
<p>Assim, do que ocorrem nas prisões brasileiras conclui que, no Brasil, a ditadura, entendida como uso indevido da violência pelo Estado sem quaisquer garantias de direitos para o lado mais fraco, nunca terminou, com a diferença de que hoje ela só atinge os mais pobres.</p>
<h3>Quartinho de empregada</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Já do quartinho de empregada da Zezé, lembrei-me das inúmeras vezes em que eu, minha mãe e meu irmão tivemos que dormir no “puxadinho” do apartamento de praia da minha rica tia avó. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nestas ocasiões, para “pagar” a estadia, minha mãe trabalhava feito louca, servindo e carregando sacolas de compras, como se fosse uma empregada. Destas lembranças amargas, herdei minha jura de nunca mais me humilhar em troca de férias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma, invejando o modo terno com que Eunice tratava seus filhos, mas sobretudo Vera, a filha mais velha à quem ela empresta um casaco para ir à Londres, pensei que minha mãe nunca pôde nos tratar assim porque a falta de perspectiva em sua vida brutalizou-lhe o espírito, tornando-a uma mãe impaciente e dura. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma que o lugar de onde eu vim me roubou a chance de me relacionar com meu único irmão, pois ele nunca me perdoou por eu ter escapado e ele não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, tive a impressão de que aqueles homens horríveis, assassinos, brutos, sujos e esfaimados que ficaram na casa de Eunice enquanto seu marido era levado para a morte, não queriam sair daquela família, onde o clima era íntegro, respeitoso e bom, ambiente provavelmente muito diferente das famílias das quais vieram.   </span></p>
<h3>Considerações finais</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, este filme me fez refletir que enquanto a elite pensante brasileira não conhecer, de fato, os problemas reais enfrentados pelos pobres; e, enquanto os próprios pobres não forem capazes de refletir e produzir saberes sobre si mesmos, temas “chiques” como ditadura e democracia continuarão a ser assunto só de acadêmicos e jornalistas.</span></p>
<p>O problema, sobre o último ponto é que, pelo menos foi assim comigo, demora-se muito para conseguir entender o que está errado na sua situação. E nem posso imaginar como é ainda mais difícil para os pobres negros e homossexuais.</p>
<p>Por exemplo, demorei muitos anos para conseguir formular que miséria não tem só a ver com falta de comida na mesa, mas com se ter nascido em um bairro onde só há igrejas, bares, drogrados e meninas grávidas, por exemplo.</p>
<p>Outro ponto que podemos aprender com a postura corajosa e extrordinária de Eunice é que dificuldades e tragédias nunca faltarão nessa vida, independende da classe social que se venha, cabendo a cada um escolher entre a pena de si mesmo ou a transformação amorosa do mundo.</p>
<p>Transformação que depende, sobretudo, como disse lindamente certa vez a escritora francesa Marguerite Yourcenar, da capacidade interna de &#8220;<em>cada um de ser capaz de lançar, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre si&#8221;</em>.</p>
<p>Assim como fez Sérgio. Um homem bom que morreu simplesmente por levar cartas de entes desaparecidos à famílias desesperadas. E que de subversivo não tinha nada.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-ainda-estou-aqui/">Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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