Não costumo escrever sobre coisas muito pessoais, mas o atravessamento da meia-idade tem sido uma experiência tão difícil para mim, que pensei que valeria a pena escrever sobre ela.
Estou com quarenta e cinco anos, e há uns dois ou três anos, passei a sentir que algo muito sutil e imperceptível começou a mudar em mim.
O angustiante da situação, além da mudança em si, era que eu não conseguia nomear, descrever nem precisar o que estava acontecendo comigo, exceto a estranha e inquietante sensação de que eu estava deixando de ser eu mesma.
Como é natural de ocorrer nestes casos, passei desesperadamente a tentar reencontrar a Ana Laura de antes.
Afinal, aquela de antes sempre dormiu bem, enquanto essa acorda pontualmente às três horas da madrugada, toda noite. Aquela tinha disposição para tudo, enquanto essa se arrasta pelo dia. Aquela tinha o raciocínio ágil e afiado, enquanto essa parece ter um imenso vácuo na cabeça. Aquela era calma enquanto essa se irrita com qualquer pequeno ruído, e tem picos de ansiedade no meio da madrugada.
Outro sintoma muito estranho tem sido uma sensação noturna insuportável de que as pernas estão “nervosas” e “repuxadas”, fazendo com que você tenha que mexé-las constantemente. Descobri que o nome desta sensação torturante, fruto das alterações hormonais brutais, chama-se “síndrome das pernas inquietas” (SPI).
Sobre isso, duas situações me deixaram particularmente assustada: quando, certo dia, tive que ir para o meio da rua porque não suportava o barulho do aspirado de pó; e um dia em que, depois de várias e várias semanas acordando à noite, comecei a cochilar dirigindo.
A saga pelos especialistas
A saga pelos especialistas não ajudou muito. Ouvi de tudo. De duas médicas, que precisava tirar isso da cabeça e parar de pensar em climatério. De outros, que eu era muito jovem para pensar em reposição hormonal.
Não sou uma pessoa iludida sobre a vida e sei que os seres humanos são bastante incompetentes na arte de se colocarem no lugar do outro. Também abomino a postura impotente de ficar se lamentando diante dos fatos, e nada fazer a respeito.
Ocorre que, neste caso, eu penso que além das coisas práticas, das quais eu já estou indo atrás, como iniciar uma reposição hormonal (uma médica, que tive que consultar no particular, finalmente me ouviu!) e caprichar ainda mais nos hábitos saudáveis de vida, a mudança na psiquê feminina que se coloca em curso nesta fase da vida da mulher é tão estrutural e profunda, que precisará ser recheada também por outros elementos, sem os quais ela terá muita dificuldade em atravessar este processo de ressubjetivação sem adoecer ao final.
Estes elementos são os recursos simbólicos e psíquicos, individuais e coletivos, que farão a mulher atravessar este marco do desenvolvimento com mais consciência ou mais adoecida.
Os recursos simbólicos culturais
Sobre os recursos simbólicos oferecidos às mulheres pela cultura para atravessarem o climatério, estes têm sido desde então muito pobres, embora felizmente venham mudando. Associam-no à “fase perigosa da vida”, ao declínio, à decrepitude, à se ficar feia e velha, em grande parte pela associação que se faz entre a mulher e sua função reprodutiva.
Assim, em nível inconsciente, as próprias mulheres sentem que, uma mulher estéril, sem filhos, ou uma mulher que não pode mais engravidar, está despossuída do seu valor narcísico, tal como me explicou uma paciente acerca do motivo que a levou engravidar, a saber, de que sentiu tão potente e cheia de vida na ocasião, de que foi inevitável não fazer um bebê.
Evidencia-se um exemplo desta associação nefasta entre poder criador reprodutivo feminino e auto-estima quando se diz destas mulheres, que são “árvores secas“.
Tal visão pejorativa sempre serviu para manter o domínio sobre as mulheres, em todos os tempos, pois, se elas precisam provar seu valor reprodutivo tendo filhos e mais filhos, isso pode significar terem que abdicarem de si mesmas em muitos outros aspectos.
Assim, esta visão, ainda que válida do ponto de vista da mente inconsciente, é bastante limitada, havendo muitas maneiras de as mulheres sublimarem e realizarem sua pulsão criadora, para além de ter filhos.
Geração de vida e auto-estima
Pode parecer estranho para um leigo que a possibilidade de gerar vida (e sua interrupção, na menopausa) tenha um impacto tão crucial na auto-estima das mulheres, mas para o psicanalista não.
Para a psicanálise, a produção de bebês tem, em nível inconsciente, significados ligados à potência, capacidade criadora e de reparação, a tal ponto que quando essa possibilidade se extingue, como no caso da menopausa, a mulher pode experimentar angústias intensas ligadas à integridade do interior de seu corpo.
Cito sobre isso o exemplo de uma paciente se encaminhando para a menopausa que, enquanto esteve narcisicamente reassegurada pela possibilidade de produzir filhos (os fantasiados e os reais), manteve seu ego minimamente estruturado, mas que se desorganizou gravemente com o fim permanente das ovulações. Ocasião em que as sessões foram preenchidas por meses a fio com sonhos de bebês despedaçados e faltando partes.
Enquanto isso, mulheres psiquicamente mais saudáveis podem enfrentar e superar as angústias acerca de sua esterilidade permanente, por exemplo, encontrando novas fontes de prazer e sentido e/ou resgatando sonhos antigos que ela foi obrigada a deixar para trás, em prol de marido e filhos, por exemplo. O que pode ser problemático para mulheres com um sistema moral muito rígido.
Assim, para estas, dependendo em qual sistema moral foram criadas, o prazer na vida só será permitido se vier acompanhado pelo sofrimento, assim como o gozo sexual só não será pecaminoso se gerar vida.
Fatores sociais no climatério e menopausa
Dentre os fatores sociais que contribuem para o aumento da tristeza na meia-idade e climatério, cita-se: crises conjugais que a mulher pode estar atravessando nesta fase, se seu casamento é de longa data, que podem culminar ou não em divórcios, bastante comuns nesta fase da vida; sobrecarga de cuidado com os pais velhos, com frequência acometidos de doenças incapacitantes e graves, como demências e cânceres severos; sensação de perda de valor, sobretudo se a mulher se dedicou exclusivamente à criação dos filhos, que agora costumar estar crescidos e já saindo de casa, ou se exerce profissões e/ou atividades que a descartam quando envelhece, como as atrizes, por exemplo.
Diferem nisso profissões como a minha em que, quanto mais velha, mais experiente e competente se fica. Particularmente acerca deste aspecto, vivo um paradoxo, pois, nunca me senti tão segura e e competente no que faço como hoje, ao mesmo tempo em que às vezes tenho me entediado por estar há vinte e três anos fazendo a mesma coisa. Sentimento que ingenuamente nunca achei que iria experimentar.
Como psicanalista, acredito que estes fatores tenham impacto sobre a saúde mental das mulheres no climatério, embora não sejam determinantes para o adoecimento psíquico delas, sendo o decisivo nesse caso os recursos psíquicos que cada uma disporá ou não para enfrentar as brutais regressões desta fase.
Recursos psíquicos para se atravessar o abismo do climatério
Tenho tido sonhos recorrentes onde eu me vejo presa e sequestrada por uma força maléfica e invisível, da qual tento me desvencilhar em vão, o que eu interpreto como a minha psiquê tentando lidar com as violentíssimas movimentações pulsionais em curso, no meu corpo e mente, que se não manejadas bem, podem vir a me enlouquecer.
Sobre isso, tenho me lembrado muito do quanto a minha mãe foi se tornando cada vez mais irritada, enlouquecida e triste à medida que envelhecia, momento onde também, desafortunadamente, foi abandonada por meu pai.
Também me chegam agora lembranças de algumas mulheres, vizinhas e conhecidas nossas, que tiveram surtos psicóticos ao envelhecerem, algumas delas tendo que serem internadas. O que muitos, entre um risinho jocoso e maldoso, murmuravam dever-se “à chegada da idade perigosa”.
Em um artigo muito interessante intitulado “Regressão”, as psicanalistas Paula Heimann e Susan Isaacs abordam o tema do climatério e menopausa de um prisma psicanalítico, e alertam que, nesta etapa, as complexas imbricações mente-corpo serão colocadas à dura prova no psiquismo da mulher, pelas regressões libinais que ela provoca:
“Sabemos que as alterações no equilíbrio endócrino afetam o humor, os impulsos e fantasias da mulher. Mas também sabemos que conflitos emocionais não elaborados, nesta fase, podem perturbar o equilíbrio endócrino, a solução de tais conflitos podendo atuar favoravelmente sobre o equilíbrio dos hormônios.” (1969,p.205)
Ou seja, para o psicanalista importa que, o encerramento da vida reprodutiva poderá reativar, na mulher, conflitos emocionais antigos que, se não forem devidamente elaborados, poderão se converter em sintomas psíquicos e físicos, por vezes bastante graves, conforme citado no caso da paciente acima. Débitos psicológicos que, segundo as autoras, “permaneceram silenciosos enquanto a prosperidade biológica estava assegurada” (p.207).
Depreende-se também do raciocínio delas que, no climatério e menopausa, o corpo imporá à mente a árdua incumbência de elaborar as vultosas alterações biológicas que operam nela, com o término de sua função reprodutiva.
Sobre isso, ouvi da neurocientista Lisa Mosconi que, nesta fase, o cérebro da mulher passará por uma brutal reconfiguração, perdendo bilhões de neurônios que serviam à função reprodutiva e agora deixam de ter função.
Morrem milhares e milhares de neurônios, assim como perde-se milhares e milhares de fios de cabelos, como se a natureza, sábia e econômica, estivesse fazendo uma grande faxina em nós, para que novos neurônios e cabelos nasçam, agora não mais visando a reprodução, mas sim a fruição da vida nestas últimas décadas que se tem pela frente.
Considerações finais
De minha parte, o que tenho procurado fazer sobre isso é tentar manter a calma, viver um dia de cada vez e acolher com gentileza este novo eu que urra em mim e me deixa de olhos vidrados no meio da madrugada, algo que sem meus muitos anos de divã, tenho absoluta certeza, não conseguiria fazer.
* Dedico este texto a todas as mulheres da minha vida. Eu mesma, minha mãe, avós, analista, pacientes, amigas e as filhas que não tive. Mulheres que eu admiro cada vez mais.
Referência bibliográfica
Klein, M.; Heimann, S. I. & Riviere, J. Os progressos da psicanálise. Zahar: Rio de Janeiro, 1969.
Para assistir ao programa Roda-Viva com a neurocientista Lisa Mosconi, clique aqui.
