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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Thu, 10 Sep 2020 23:14:12 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2020 14:25:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[reflexão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a importância de nos mantermos corajosos frente à situações difíceis. Partindo de uma vivência pessoal sua, a analista faz reflexões sobre os tempos atuais e a onda do coronavírus.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/">Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2037 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2020/04/coronavirus-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Quando padeci de um quadro fisicamente muito doloroso há alguns meses não poderia imaginar que estava, sem saber, acumulando experiência para atravessar a onda do coronavírus.</p>
<p><span id="more-2036"></span></p>
<p>Na ocasião, apesar de não ter corrido sério risco de vida, convivi por alguns meses com uma dor que me incapacitou de fazer coisas simples como caminhar ou sentar.</p>
<p>E, como tive muito tempo para pensar, refleti bastante sobre o que penso ser um jeito digno de enfrentarmos uma doença ou uma situação difícil como a de agora.</p>
<p>São estas reflexões muito pessoais que me proponho a compartilhar aqui.</p>
<p>Quando perdemos a saúde repentinamente nos damos conta de um jeito radical e desesperador que a vida pode se tornar (quase) insuportável se ficamos impedidos de fazer coisas que, quando estamos sãos, são bastante banais e corriqueiras.</p>
<p>Assim a doença física, sobretudo quando se prolonga, promove um radical redimensionamento das coisas para nós. Aquilo que é banal para o são, para o doente se torna uma dádiva. Aquilo que não tem o menor valor para o saudável, para o doente se torna alvo de inveja e cobiça.</p>
<p>Isso faz frequentemente com que a doença física seja vista por muitos como uma espécie de “caminho de regeneração do homem” ou, no pensamento animista, como uma punição por um prazer proibido consumado no inconsciente.</p>
<p>Esta visão, inclusive, tem sido muito compartilhada acerca do coronavírus. A de que após ele a humanidade passará por um profundo processo de regeneração onde finalmente viveremos em maior harmonia com a natureza.</p>
<p>Ou então, numa visão mais medieva, de que a peste do coronavírus foi lançada sobre nós (por Deus?) como uma espécie de sinal de alerta para reavaliarmos o mau caminho que temos tomado como espécie.</p>
<p>Uma terceira linha de visão ainda, de cunho mais biologicista, argumenta que todas as espécies animais, incluindo a nossa, possuem predadores e que a mortandade dos indivíduos em massa serviria ao propósito de controle populacional.</p>
<p>Ressalta-se que o mesmo argumento foi encontrado muitas vezes no passado para justificar as grandes guerras mundiais: faz-se guerra para evitar a superpopulação mundial.</p>
<p>O curioso é pensar que a abordagem de um problema real &#8211; a superpopulação humana sobre a terra &#8211; possa encontrar solução no estranho caminho de justificar a morte de milhares de nós (seja por guerras ou por pestes) e não no que seria o mais óbvio e sensato como a orientação das pessoas sobre a não necessidade de se ter mais filhos e a descriminalização do aborto, por exemplo.</p>
<p>De qualquer forma, voltando ao ponto que nos interessa aqui, fato é que, do ponto de vista psicobiológico, nossos corpos e psiquismos são regidos pela busca do prazer e fuga natural da dor, algo para o qual Nietzsche já havia alertado bem antes de Freud.</p>
<p>Nesta perspectiva, ser saudável não é querer abolir a doença já que não temos nenhum controle individual sobre ela. Ser saudável é querer, uma vez doente, melhorar o mais rápido possível para voltarmos a usufruir da vida.</p>
<p>E para isso, diz Nietzsche, é preciso coragem: a coragem de dizer sim à vida e aos pensamentos alegres não à morte e aos pensamentos sombrios que, sabemos, exercem um tremendo fascínio sobre nós.</p>
<p>Acontece também que viver é extremamente trabalhoso e conflitivo. Manter-se corajoso e com o espírito elevado frente às impermanências naturais da vida, muito mais desafiador do que ser negativista e queixoso.</p>
<p>E o que pude aprender com a minha doença, e que vejo se confirmar agora com o coronavírus, é que os liames entre a covardia e a coragem são muito tênues e que vários são os labirintos em que podemos nos perder nesta busca.</p>
<p>No meu caso, a luta entre a covardia e a coragem se deu quando tentei me iludir de que meu problema poderia ser resolvido sem cirurgia, ilusão que a realidade acabou por não comprovar.</p>
<p>Ora, quando ficamos com medo de algo é natural que tentemos nos iludir. Mas quando insistimos em preferir a ilusão à verdade, para evitarmos o medo, aí é que nos tornamos covardes.</p>
<p>Decidida a operar, na ante sala do centro cirúrgico, enquanto aguardava a minha vez, pude pensar que sentir medo não nos dá o direito de nos tornarmos tiranos ou revoltados.</p>
<p>A depender de como enfrentamos as adversidades da vida, se com humildade ou com revolta, nos tornamos mais sábios ou mais patéticos e miseráveis.</p>
<p>Um senhor que seria operado antes de mim comportava-se tristemente como uma criança mimada, reclamava às enfermeiras o tempo todo que estava com fome; xingava porque a cirurgia anterior estava demorando e dizia que ia processar o hospital.</p>
<p>Era evidente que estava revoltado por estar doente e, incapaz de conter seus próprios sentimentos de medo e pânico, derramava-os em forma de raiva e de inconformismo sobre os outros. Em suma, enfrentava seu medo da maneira menos nobre e altiva possível: se acovardando e dando trabalho aos outros.</p>
<p>Fiquei triste porque pensei que ele estava perdendo uma oportunidade valiosa de aprender algo sobre a vida e sobre ele mesmo.</p>
<p>Por exemplo, que nós temos pouquíssimo controle sobre as doenças que nos acometem; e que momentos difíceis como este são ótimos para desenvolvermos a nossa capacidade de humildade e de paciência com aquilo que não podemos alterar.</p>
<p>É isso que chamo procurar enfrentar uma situação difícil com alguma nobreza e coragem. Por isso achei que estas reflexões caberiam bem no contexto do coronavírus.</p>
<p>O coronavírus trouxe, em nível mundial, a iminência de um risco de dizimação em massa de vidas humanas, seja pelo vírus, seja pela crise econômica mundial provocada por ele. Por isso é natural que tenhamos medo e até pavor de tudo o que estamos vivendo.</p>
<p>De outro lado, esta pode ser uma ótima oportunidade para cada um de nós conhecermos mais profundamente os nossos medos e de aprendermos a contê-los sem exterioriza-los, como não conseguiu fazer o senhor do hospital.</p>
<p>Também pode ser uma oportunidade valiosa de exercitarmos o espírito nietzschiano em nós, a saber, a capacidade de atravessarmos uma situação difícil como esta sem ficarmos nos lamentando nem tendo pena de nós mesmos em demasia; a capacidade de contermos os nossos pensamentos sombrios e a nossa frustração sem precisarmos destilar nossos ódios sobre os outros nem achar bodes expiatórios para as nossas desgraças.</p>
<p>Desgraças na vida acontecem aos montes. Já existiam antes e vão continuar a existir depois do coronavírus. E coisas boas também. Por isso Guimarães Rosa dizia ter mais medo de nascimentos do que de mortes. Porque viver é muito, muito mais arriscado e difícil que morrer.</p>
<p>Assim, penso que permanecermos vivos e lutarmos pelo direito que nos cabe à alegria e ao prazer pode ser tão ou mais difícil e exigente em termos de disciplina mental do que pegar coronavírus ou qualquer outra doença e, quem sabe, morrer delas. É isso o que a clínica psicanalítica sempre me mostra.</p>
<p>Porque na doença podemos nos ver justificados a nos abandonar de nós mesmos, o que frequentemente ocorre; e, na morte, tudo finalmente acaba e não há mais nada a fazer.</p>
<p>Então que, nesta quarentena, possamos sim lutar pela preservação das vidas humanas fazendo tudo o que está ao nosso alcance fazer.</p>
<p>Mas que possamos também não nos esquecer de que manter um espírito de decoro e de nobreza frente o sofrimento pode ser o ato mais inteligente que podemos ter por ora.</p>
<p>E que, se após o coronavírus sobrarem poucos de nós e se estes poucos vierem a ser visitados por alguma espécie alienígena, que a lembrança que possamos deixar aos que não puderam nos conhecer seja a de que somos seres excepcionais.</p>
<p>Porque fazemos sinfonias e sonatas, obras de arte e construções maravilhosas, descobrimos vacinas e salvamos vidas, somos generosos e ajudamos gente, adoramos samba e carnaval, somos inventivos e esperançosos sobre o futuro, fazemos muros, mas também pontes.</p>
<p>Em suma, se viemos do macaco, o deixamos para trás há muito tempo!</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/">Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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