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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Impressões de uma psicanalista andarilha no Vale do Pati</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Dec 2021 23:01:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[contemplação]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<category><![CDATA[trilha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões antropológicas e estéticas da autora a partir de uma experiência de trilha no Vale do Pati, na Chapada Diamantina. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/impressoes-de-uma-psicanalista-no-vale-do-pati/">Impressões de uma psicanalista andarilha no Vale do Pati</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2466 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" />O estado de expectativa que antecedeu os últimos dias da viagem prenunciava as fortes emoções que viveria no Vale do Pati, rica região geológica da Chapada Diamantina, incrustada no coração do sertão da Bahia. </span></p>
<p><span id="more-2462"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Renunciar ao conforto habitual, caminhar longas distâncias carregando só o essencial sem encontrar ninguém pelo caminho, exceto outros caminhantes, dormir em casebres de taipa sem luz elétrica em que só chegam mantimentos por mulas e estar distante um dia de caminhada do posto médico mais próximo &#8211; tudo isso em meio à paredões rochosos espetaculares de 1.8 bilhões de anos onde antes já foi mar, lançou-me num tempo fora do tempo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fazendo esta experiência, compreendi melhor porque o homem em contato direto com a natureza tem uma relação menos controladora com o tempo em comparação com o homem angustiado e apressado das grandes cidades, embora não se trate de idealizar sua vida, a propósito, bastante dura e difícil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-2474 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/unnamed-1-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" />Conhecer de perto a força obstinada do sertanejo a cultivar o cacto Palma em seu quintal, um dos únicos alimentos viáveis na caatinga, fez-me compreender melhor o poderoso instinto de autopreservação que rege o homem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, constatei na pele que situações físicas extremas levam a uma recolocação das prioridades tornando um simples pão com ovo manjar dos deuses quando se está faminto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto é que, num lugar de indescritível beleza, a privação do corpo parece propiciar melhor estado de espírito à contemplação, o que os místicos e ascetas sabem há muito. Daí a combinação entre caminhar e contemplar ser um modo milenar de o homem atingir o sublime. Metáfora que também serve à psicanálise. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o impacto estético das paisagens sublimes foi tão grande que iniciei, após minha volta, uma radical desintoxicação alimentar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O maior contato do nativo com seu instinto de autopreservação fez-me pensar no porquê do homem da cidade tender a desenvolver mais psiconeuroses. Pois, neste caso, o instinto de autopreservação, dissociado de suas fontes originais, vê-se obrigado a deslocar-se para outros objetos, produzindo fobias de animais, de pessoas ou de altura, por exemplo, representando, respectivamente, o medo primitivo de ser picado, atacado e de cair de penhascos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De todo modo, não sei dizer se há psiconeurose entre as quinze famílias que vivem isoladas no Vale do Pati. Observando-os, constatei que alguns homens jovens bebem, o que parece se dever ao conflito entre permanecer no Vale e o desejo de ir para a cidade, algo de que as gerações mais antigas parecem estar imunes pelo vínculo mais sólido com <em>sua terra</em>. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2468 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/vale-do-pati27-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/vale-do-pati27-300x200.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/vale-do-pati27.jpg 642w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" />Conversando, descobri que muitos tentaram residir com parentes em São Paulo, mas os salários miseráveis que ganhavam, como faxineiras, pedreiros e motoristas de ônibus, fizeram-nos voltar atrás. Levaram-nos de volta também a solidão, o barulho da grande cidade e a saudade que sentiam da natureza. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como não há escola, as crianças em idade escolar são mandadas para casas de parentes para poderem estudar e quase nunca retornam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De minha parte, no último dia no Vale, depois de caminhar o dia todo por 25 Km na chuva, experimentei uma alegria indescritível ao chegar no hotel, tomar um banho quente e dormir em um quarto com teto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui disso que não suportaria morar num lugar tão selvagem, habituada demais ao conforto que estou. E que o desdém que temos dos recursos da civilização (luz elétrica, internet, fácil acesso à médicos, exames e vacinas, etc.) é pura ingratidão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, a extrema dificuldade de acesso e a pouca disponibilidade dos turistas em abdicarem do conforto, fazem do Vale do Pati um lugar intocado da degradação humana, com paisagens naturais de tirar o fôlego. Em três dias de caminhada não encontramos nenhum lixo no caminho! </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, a vastidão do lugar culmina em mudanças climáticas violentas e bruscas que vão de ventos cortantes e chuvas torrenciais à céus limpos e espetaculares em poucos minutos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, impressionou-me a profunda interação dos nativos e guias com a meteorologia, capazes de prever com precisão quase absoluta a hora que faria sol ou choveria só de olharem para o céu. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2470 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-1.jpg" alt="" width="275" height="183" />Assim, enquanto nós, os citadinos, desanimávamos com a chuva e nos apavorávamos com as nuvens negras à nossa frente, o guia carinhosamente dizia </span><i><span style="font-weight: 400;">que deixasse chover para refrescar a montanha</span></i><span style="font-weight: 400;">, demonstrando quão tolo é lutar contra o que não se controla</span><i><span style="font-weight: 400;">.  </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, pensando depois, concluí que ter caminhado com tempo nublado livrou-me do sol escaldante, o que teria tornado a travessia muito mais difícil e exaustiva.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De outro lado, a aceitação humilde de que quem manda é a natureza, não significava atitude de abandono nem displicência por parte dele, mas sim prudência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, carregava consigo bússola, rádio para comunicação, mantimentos extras, remédios e um kit de primeiros socorros haja vista que acidentes ali podem ser fatais, pois a única forma de se chegar ao hospital é ir sacolejando o dia todo no lombo de uma mula, que eles carinhosamente chamam de “uber-mula”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, a extrema dependência dos nativos com estes animais de tração é tradição longínqua no homem sertanejo, tal como se vê retratada nas belas narrativas de Guimarães Rosa, por exemplo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2469 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Guia-Chapada-Diamantina-Mulas-Vale-do-Pati-Caia-Pires-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Guia-Chapada-Diamantina-Mulas-Vale-do-Pati-Caia-Pires-300x200.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Guia-Chapada-Diamantina-Mulas-Vale-do-Pati-Caia-Pires.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Era muito bonito vê-las passarem por nós, em bandos de seis ou sete, agarrando-se nas pedras escorregadias pelos cascos como se fossem mãos, subindo e descendo pra lá e pra cá. Quase sempre acompanhadas por um cão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O guia nos contou que elas faziam o trajeto tantas vezes que bastava soltá-las para que fossem sozinhas, exceto uma ou outra fujona que, vez ou outra, se extraviava pelo caminho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra bonita tradição mantida no Pati é o resguardo de luto pelos mortos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Recentemente uma senhora de 89 anos havia falecido </span><i><span style="font-weight: 400;">de morte natural</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem nunca ter ido à médicos, graças possivelmente a uma feliz combinação de sua boa genética, boa alimentação e o fato dela nunca ter parado de movimentar o corpo, e todo o Vale estava em luto. O luto consiste na proibição de se fazer festas e comemorações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fato dela ter aceitado</span><i><span style="font-weight: 400;"> sua hora fatal </span></i><span style="font-weight: 400;">com humildade e </span><span style="font-weight: 400;">sem revolta parecia orgulhá-los e inspirá-los para melhor suportarem suas próprias dificuldades. O que me fez pensar quão belo é um velho sábio.</span></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A Peste da Psicanálise.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jul 2012 12:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que pretende discutir as resistências e ódios nutridos pela Psicanálise desde o seu surgimento. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/">A Peste da Psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">              <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-569" title="Freud - Psicanálise" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/07/freud-destranca-a-mente-228x300.jpg" alt="Freud - Psicanálise" width="228" height="300" />Antes de iniciar minhas reflexões, gostaria também de comentar que este texto foi suscitado pelo ótimo encontro que tivemos no evento &#8220;Psicanálise e Universidade&#8221;, ocorrido em Ribeirão Preto no final do mês passado (26 de maio). Neste encontro, que foi muito frutífero para mim, havia um &#8220;discurso comum&#8221; de todos os participantes que era o incômodo frente à uma visão de homem mecanizada, fragmentada e organicista muito disseminada pela Psiquiatria e pela cultura atual em geral. Como possibilidade de luta e resistência, todos eles apresentaram a Psicanálise como proposta para humanizar o contato de estudantes de medicina, psicologia e áreas afins com seus pacientes. Enfim, para humanizar o humano&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-540"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">A previsão de Freud:</h2>
<p style="text-align: justify;">               Quando Freud viajou com Jung à América e divulgou pela primeira vez a Psicanálise no continente, ele perguntou ao colega, de forma irônica, mas também realista, se “eles” (os americanos) sabiam que ambos estavam levando a “peste” ao novo mundo. Creio que ao dizer isso, Freud já estava tendo uma captação profunda das resistências que sua ciência recém-nascida iria enfrentar.</p>
<p style="text-align: justify;">               <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-542" title="Sigmund Freud" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/freud-em-foto-de-1922-1272370099405_300x300.jpg" alt="Sigmund Freud" width="300" height="300" /> Mas, porque Freud se referia à sua ciência recém-criada como sendo “a peste”? Se pensarmos do ponto de vista histórico, a Psicologia, criada como ciência no século XIX, nunca foi considerada “uma peste”, mas a Psicanálise sim.</p>
<p style="text-align: justify;">                Em primeiro lugar acredito que a Psicologia não é “a peste” porque fora criada dentro dos ditames tradicionais da Ciência, cujo objetivo último é descrever, de uma forma que às vezes me parece circular e óbvia, as leis do comportamento<em> visível </em>(grifo meu).</p>
<p style="text-align: justify;">                Já a “peste” da Psicanálise teve, desde o início, a proposta fundante de desvelar o que é invisível ou, dito de outro modo, o que está inconsciente no comportamento humano tornando explícito “aquilo que não queremos ver de nós mesmos”. Desde então, várias ciências humanas, dentre elas a Sociologia e a Antropologia, vêm brigando com a “peste”, pois a consideram uma anti-ciência que desmonta todas as utopias sociais possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia estava conversando com um colega da área social e eis que surge o seguinte mal-estar: ele apregoava sua crença de que haveria no futuro inúmeras possibilidades de nos organizarmos em comunidades que pudessem fazer frente ao “mal” do capitalismo. Nestas comunidades, dizia ele, iria reinar a paz e a harmonia entre os pares. Eu, intrigada com o seu grau de idealismo, propus a ele pensar que o “mal” não estava somente fora, no capitalismo, mas que havia também um “mal” dentro, inerente à condição humana que era próprio e derivado dos impulsos e que este “mal interno” não poderia ser negado. Se não fosse assim, como ele poderia explicar tantas mortes no trânsito, tantas guerras sangrentas, tanta violência&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">                E mais, se o capitalismo é um sistema criado pelos homens que visa à acumulação do capital nas mãos de uns poucos em detrimento da exploração de muitos, como poderíamos explicar a organização da sociedade nestes moldes sem partirmos da premissa de que haveria um desejo humano pelo poder e a ação de impulsos destrutivos que fizessem este mesmo homem explorar e espoliar seu “semelhante”? Afinal, o capitalismo não é uma coisa ou uma entidade externa ao próprio homem. Ao contrário, fora criado e executado por este.</p>
<p style="text-align: justify;">                Ele, visivelmente irritado, disse que não era possível conversar com “psicólogos”  porque eram extremistas demais. Fiquei surpresa com a sua reação, mas depois compreendi o seu furor. Eu estava cometendo uma falta de educação que era trazer a tona o que precisava ficar negado que, naquele caso, era o reconhecimento da existência de sentimentos de ódio e de maldade, reconhecimento este que sempre gera angústia e dor.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Recorrendo à teoria:</h2>
<p style="text-align: justify;">                E aqui faço uma pausa para explicar teoricamente este mecanismo. Segundo nos ensinou Melanie Klein, quando o ego do bebê (e o nosso também) está muito frágil para suportar reconhecer a maldade e o ódio principalmente com relação ao seio, o bebê irá projetar estes sentimentos intoleráveis fora de si. Esta projeção pode ser feita num objeto específico (numa pessoa, por exemplo) ou pode ser projetado de maneira mais extensiva, no mundo todo, na nação vizinha, nos judeus, nos homossexuais ou no capitalismo. Klein frisa que este é um mecanismo de defesa <span style="text-decoration: underline;">necessário</span> e muito bem vindo já que o bebezinho ainda não suporta enxergar a realidade total, sem fazer dissociações ou fragmentações. Sem desconsiderar a importância crucial deste mecanismo de defesa que é, em última instância, nos livrar da dor, o problema é que quando este mecanismo de defesa projetivo é usado maciçamente começamos a habitar um mundo binário, ou seja, um mundo dividido e cindido em bons e maus, em mocinhos e bandidos e esta percepção parcial impede que tenhamos uma apreensão global das situações vividas.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia estava lendo um livro muito interessante do Marcelo Gleiser chamado “A dança do Universo” e ele descrevia este mesmo mecanismo mental, embora em outros termos. Segundo ele, desde os primórdios do homem, nós tentamos compreender de onde viemos, ou seja, como o Universo foi criado e por não termos recursos cognitivos e intelectuais para compreender conceitos tão abstratos como o nada, a ausência de tempo e espaço e o infinito, nós necessariamente passamos a utilizar recursos binários para “explicar” como tudo surgiu. Notem como nós utilizamos estes binarismos para compreender e organizar nossos sentidos: preto e branco, claro e escuro, ausência e presença, etc. Segundo ele, foi somente com o nascimento da física quântica, área científica ainda muito incipiente, é que estes binarismos passaram a ser questionados.</p>
<p style="text-align: justify;">                Vejam que a teoria das posições esquizo-paranóide e depressiva explicam perfeitamente bem a necessidade humana de manter estas percepções binárias e cindidas. Esta mesma teoria também explica a intenção humana, tão velha quanto a própria humanidade, de construir utopias de que um dia teremos um mundo melhor. Da mesma forma, a teoria kleiniana explica perfeitamente bem as teorias catastróficas sobre o fim do mundo e tudo mais. Penso que a Psicanálise propôs uma verdadeira revolução na forma de pensamento humano quando considerou que toda a maneira de significarmos o mundo e a nós mesmos deriva, sobretudo, de mecanismos mentais que podem engessar ou expandir nossa capacidade de pensar. Bion foi quem, de maneira mais extensiva, ampliou esta discussão.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia conversava com minha analista, e ela me dizia: “<em>a verdade está aí para ser vista. Basta observá-la”. </em>De qual verdade ela estaria falando? Não da verdade com V maiúsculo, a verdade moral, universal e que pretende domesticar o pensamento humano com explicações causais e simplistas, explicações estas que normalmente estão alçadas numa tentativa de eleger um bode-expiatório: o problema é o capitalismo! O problema são os EUA! O problema é a pobreza! Todas estas são visões que deformam e fragmentam a realidade e, portanto, estão ancoradas num funcionamento tipicamente esquizo-paranóide (ver Melanie Klein).</p>
<p style="text-align: justify;">               <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-541" title="litografia de Escher" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/Sem_sentido-300x282.jpg" alt="litografia de Escher" width="300" height="282" /> A verdade da qual minha analista falava e que eu compartilho é a verdade que comporta em si contradições e paradoxos (por exemplo, quando eu sou capaz de perceber que os mesmos seres humanos que me chateiam são aqueles que me proporcionam desenvolvimento e expansão). A verdade é que não existem mocinhos e bandidos como as novelas pretendem vender. A verdade é que não existem culpados e inocentes. Esta visão binária de mundo (bom e mau, certo e errado, feio e bonito) é um recurso precário que nossa mente encontra para colocar alguma ordem no caos e para suportarmos o fato de termos de lidar o tempo todo com o desconhecido. E é por isso que toda esta discussão sociológica e / ou psicológica que apregoa causas, culpados e reféns me irrita às vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">                Mas, retomando a provocação inicial – por que Freud disse que a Psicanálise era a “peste”? Penso que é porque ela nos lembrar que quando elegemos um culpado, estamos colocando nele aspectos odiados, negados e excindidos nossos, que não podemos reconhecer ainda como sendo nossos. Esta é a peste! E é por isso que a Psicanálise é sempre tão atacada: porque ela nos convida o tempo todo a nos responsabilizarmos pelo sublime e pelo medíocre que há em cada um de nós. E é por isso que penso também que nossa relação amorosa e interna com a Psicanálise tem que ser sempre refeita e reparada dos estragos que nós fazemos a ela.</p>
<p style="text-align: justify;">                Abraços a todos.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/">A Peste da Psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Para quê serve mesmo a Universidade?</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/para-que-serve-mesmo-a-universidade/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Jun 2012 12:00:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[massificação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Universidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz considerações sobre os destinos do ensino superior no Brasil, à luz das ideias discutidas no encontro Psicanálise e Universidade (Ribeirão Preto, 2012). </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/para-que-serve-mesmo-a-universidade/">Para quê serve mesmo a Universidade?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-553" title="images" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/images.jpg" alt="" width="214" height="121" />Gostaria de compartilhar com vocês a minha alegria ao perceber, participando do evento ocorrido em Ribeirão Preto no dia 26 de maio sobre <a href="http://http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/atendimento-clinico/nao-percam-simposio-psicanalise-e-universidade">Psicanálise e Universidade</a>, que não estou sozinha em minhas angústias e reflexões sobre os caminhos que o ensino superior tem tomado no nosso país.</p>
<p style="text-align: justify;">Leciono no Ensino Superior há mais ou menos seis anos. Além disso, experimentei a universidade como aluna durante onze anos da minha vida (cinco de graduação, dois de mestrado e quatro de doutorado).</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-552"></span></p>
<p style="text-align: justify;">E foi com grande alívio que ouvi a instigante e provocativa fala do psicanalista Cláudio Eizirik (SPPA/UFRGS) que abriu o nosso dia de trabalho. Vou buscar reproduzir algumas das suas ideias&#8230;</p>
<h2 style="text-align: justify;">Os hereges do conhecimento:</h2>
<p style="text-align: justify;">Cláudio começou a mesa apresentando-nos uma interessante retrospectiva histórica do surgimento das primeiras universidades europeias, chamando a atenção para o fato de que, se as primeiras universidades (Universidade da Bolonha, criada em 1150 e Universidade de Pari, criada em 1214) eram dominadas pela Igreja, logo elas passaram a ser reduto dos hereges, ou seja, daqueles que “queriam saber demais”, algo que certamente se contrapunha às imposições doutrinárias das religiões. Desta forma, as Universidades retratavam o nascimento do iluminismo e a busca do homem para conhecer o mundo e a si mesmo através da razão. Tratava-se, portanto, do espaço do questionamento e, por isso, da heresia.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Pensamento crítico ou manutenção da &#8220;burrice&#8221;?</h2>
<p style="text-align: justify;">Ocorre que, segundo ele, atualmente não só as Universidades, mas a cultura em geral está vivendo uma espécie de guerra entre o pensamento crítico e a “<em>manutenção da burrice”</em>. Para ele, tem sido cada vez mais difícil a manutenção de espaços, dentro e fora dos muros das Universidades, críticos e questionadores.</p>
<p style="text-align: justify;">E é aí que entra a <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/abordagem-teorica-em-psicanalise.php">Psicanálise</a>. Para Cláudio, apesar de Freud ter mantido uma relação ambivalente e até ressentida com a Universidade (ele lembrou que Freud nunca teve uma cadeira cativa para ensinar Psicanálise na Universidade), a ciência psicanalítica, quando ensinada aos jovens e futuros médicos, pode ser uma saída possível contra o emburrecimento e embrutecimento das relações humanas. Em sua experiência, os jovens alunos residentes em psiquiatria “<em>têm fome de pelo psíquico</em>”. Portanto, ele chama a atenção, os docentes têm uma função crucial na formação humanista destes jovens.</p>
<p style="text-align: justify;">Para trazer um exemplo específico do que ele trata em sua fala: há quem argumente que o ensino das psicopatologias tem que ser a-teórico, ou seja, baseado única e exclusivamente em uma visão diagnóstica. Entretanto, para Cláudio, isso é um engodo porque esta visão diagnóstica presente, por exemplo, no DSM não é a-teórica. Ao contrário, ela está assentada exatamente no paradigma da fragmentação e da coisificação do homem quando pretende “encaixotar” a complexidade dos seres humanos em diagnósticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam bem, a questão não é banir os diagnósticos psiquiátricos porque alguma compreensão diagnóstica é necessária. A questão que ele coloca é mais complexa: até que ponto o diagnóstico passa a ser mais importante que a própria pessoa, com sua história de vida e subjetividade?</p>
<p style="text-align: justify;">Vale ressaltar que a prática mecanicista e robotizada da Medicina tem sido ao que me parece, uma constante na atualidade, seja pela explosão do número de convênios que pagam mal a seus médicos, seja pela má formação acadêmica de nossos alunos. Vocês já viveram a terrível experiência de irem a um médico de convênio e se sentirem completamente invisíveis?</p>
<h2 style="text-align: justify;">Fome pelo psíquico:</h2>
<p style="text-align: justify;">Eu, como docente das disciplinas ligadas à <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Psicanálise</a> em um curso de Graduação de Psicologia, tenho a mesma percepção que Cláudio sobre a “<em>fome dos alunos pelo psíquico</em>”. É incrível como os meus alunos se interessam pela Psicanálise desde seus primeiros contatos com as teorias de personalidade provavelmente porquê vêem nesta disciplina alguma possibilidade de viver criativo e de expansão de suas percepções de si mesmo e do mundo.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mal-estar social:</h2>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, na realidade quotidiana de nossas instituições de ensino, observo que há uma espécie de força oculta (derivadas obviamente do inconsciente, mais propriamente da pulsão de morte) que nos impulsiona para o fazer repetitivo, compulsivo e pouco reflexivo. Com isso, todos adoecem pela impossibilidade de manterem a capacidade de pensar genuína e verdadeira, única forma de pensamento que leva à expansão mental.</p>
<p style="text-align: justify;">Não acho que este seja um movimento exclusivo das  Universidades. Ao contrário, acho que nossas instituições de ensino tão somente tem sido reflexo de um modo de funcionamento social e cultural global, típico da nossa época, e que está intimamente ligado ao lugar pouco privilegiado que a mente, os sentimentos e a subjetividade têm ocupado em nossa sociedade como um todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como diz Bauman, vivemos na cultura do espetáculo e da infantilização das relações. Portanto, ficam aqui algumas questões para serem discutidas:</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>1) Como a Psicanálise pode ser aplicada enquanto forma de compreensão do sofrimento humano em instituições sociais que transcendem o consultório?</strong></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>2) É possível resgatarmos a identidade herege das Universidades ou o que estamos reproduzindo nelas é a apatia e o culto ao emburrecimento?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Não tenho respostas para todos estes questionamentos, mas arrisco dizer que, em se tratando da primeira questão, tenho pensado cada vez mais que a entrada da Psicanálise nas Universidades, para que seja mais efetiva, tem que se dar de uma maneira que eu chamaria de &#8220;clandestina&#8221; (não sei se esta é a melhor palavra, mas a usei no sentido de uma entrada furtiva, &#8220;comendo pelas beiradas&#8221;). O que quero dizer com isso? Acho que a forma de estar no mundo que a Psicanálise propõe, além de ser ensinada em termos teóricos aos nossos alunos, pode ser transmitida muito mais como um modelo de &#8220;funcionar na vida&#8221; &#8211; modelo que dependerá da personalidade e da conduta daqueles que a apresentam e a representam na instituição.</p>
<p style="text-align: justify;">Um silêncio, um espaço que parece &#8220;vazio&#8221;, um não sei&#8230;formas que possam provocar algum estranhamento e quem sabe fazer nascer a curiosidade e a criatividade legítima. Pois, para que nasça algo novo, é necessária algum dor, alguma frustração&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Os desafios são muitos e isso é inegável. Mas, penso que quem se propõe a esta difícil, mas também fascinante tarefa de ajudar os mais jovens nos desafios de se tornarem verdadeiramente adultos (no amplo sentido do termo), não poderá se furtar a esta discussão. Caso contrário, correrá o risco de também sucumbir neste grande buraco negro da repetição alienante.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/para-que-serve-mesmo-a-universidade/">Para quê serve mesmo a Universidade?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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