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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Reflexões a partir da experiência de cuidar do meu gato em fase terminal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Aug 2022 16:53:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a experiência de cuidar de alguém que está morrendo a partir da vivência da autora com o seu gato em fase terminal.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cuidar-de-alguem-ate-o-fim-reflexoes-a-partir-da-experiencia-de-cuidar-do-meu-gato-em-fase-terminal/">Reflexões a partir da experiência de cuidar do meu gato em fase terminal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2580 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Cuidar do meu gato de 22 anos diagnosticado com um tumor em fase terminal tem sido uma experiência ao mesmo tempo dolorosa e rica para mim. </span></p>
<p><span id="more-2579"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, fez-me aprender quão cínico é alguém que diz para cuidadores de doentes terminais que, afinal, todos vamos morrer. Ou então, o que é ainda pior, que ele deve ter esperança e pensar positivo. </span></p>
<h4>Experiência traumática</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Cuidar até o fim de um doente terminal é uma experiência traumática e perturbadora para aqueles que a vivem de perto, pois, rompe-se a barreira necessária que separa os sãos dos doentes, a ponto de, na natureza, animais moribundos sempre se afastarem do bando para morrer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É o que percebe Hans Castorp ao presenciar o pudor de seu primo Joachim à beira da morte, em A Montanha Mágica de Thomas Mann:</span></p>
<p style="text-align: right;"><em>Como é estranho em pudor que sente em face da vida a criatura que se refugia num esconderijo para morrer, convencida de que não pode esperar da natureza exterior nenhum respeito e piedade para com o seu sofrimento e a sua morte (&#8230;)</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Thomas Mann tinha razão. Para constatar a falta de piedade dos saudáveis com os doentes basta ficar alguns dias de cama.</span></p>
<p>Penso que o motivo para isso é que o doente lembra o são de que ele também morrerá, só não se sabe quando. Algo que ninguém aceita de bom grado.</p>
<h4>Cuidado e autoestima</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao meu gato, a rotina de cuidados extenuantes que já perdura por quase um ano (soro, medicações diárias, troca de curativos, alimentação por sonda, etc.) me fez perceber o quanto o amor se expande por aqueles que cuidamos, embora as pessoas pensem o contrário. Que cuida-se melhor de quem já se ama. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso explica, por exemplo, porque muitos pais do sexo masculino não desenvolvem amor pelos filhos pequenos, na medida em que não os banham, os alimentam nem os embalam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste ponto, ao que tudo indica, amamos mais os que precisam de nós, o que talvez explique a diminuição da ternura dos pais pelos filhos na medida em que estes crescem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto que notei é que ser responsável por manter meu gato vivo, praticamente pele e osso e totalmente dependente de mim, tem-me feito sentir uma pessoa melhor e experimentar uma agradável sensação de estar vivendo coisas reais e sólidas. A ponto de que sentirei saudade da pessoa que tenho sido agora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com esta experiência compreendi melhor porque Freud disse em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, que ser capaz de amar eleva a auto-estima.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que significa dizer que aqueles que cuidam com esmero dos entes amados até o final tenderão a se sentir orgulhosas de si mesmas quando tudo acabar, ainda que fiquem exaustas</span><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Evidencia-se, portanto, que cuidar de alguém tende a elevar a autoestima e ampliar a sensação de contato com a realidade, o que obviamente só é verdadeiro nas situações em que o amor predomina sobre o ódio. </span></p>
<h4>Tristeza ou remorso?</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, observei algo muito interessante. O pensamento recorrente de que meu gato pode morrer não me desperta remorso, na medida em que sei que é por amor que eu começo a desejar seu fim. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Caso diverso seria se eu estivesse irritada com o trabalho que ele me dá, ocasião em que o pensamento de que ele bem podia morrer significaria então o meu desejo de me livrar dele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Penso que muitas pessoas que cuidam de entes queridos não podem desejar que o sofrimento interminável cesse com a morte porque ficam confusas se estão desejando isso por amor ou por quererem se livrar do fardo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, viver com tristeza ou revolta a perda de nossos entes amados dependerá inextrincavelmente da confiança em nossa própria capacidade amorosa, expressa na responsabilidade de cuidar dos que precisam de nós até o fim. O que se traduz na sabedoria popular do “eu fiz tudo o que podia por ele”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, eu não estaria sendo capaz de cuidar do meu gato de modo tão amoroso se não fosse a inestimável ajuda do meu marido. </span></p>
<h4>O amor que vem da infância</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Refletindo sobre de qual fonte inconsciente brota nosso profundo amor por animais, conclui que vem da infância. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Trata-se do amor pelo animal que representa, na criança, o anseio por um objeto confiável e sincero, cujo ambiente humano talvez tenha falhado em ser, sendo esta a base da misantropia: uma decepção ressentida com os seres humanos por sua imprevisibilidade e maldade. </span></p>
<p>O que nos leva à conclusão de que pessoas que amam animais se identificaram muito precocemente com a fragilidade e enorme dependência deles.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Experimentam-na crianças de natureza sensível que perceberam cedo demais a rudeza dos homens, e o fato de que somos sempre um pouco sós</span><span style="font-weight: 400;">. Era o que para menina-em-Clarice-Lispector, que perdeu a mãe tão cedo, significava seu cão. E para o jornalista Paulo Francis e sua companheira Sonia Nolasco, seu gato. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E isso porque, os animais, ao contrário dos humanos, amam incondicionalmente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso, o adulto racional que matou a pureza da criança em si, não enxergará, julgando tolos aqueles que amam os animais, pois afinal, eles &#8220;são só bichos&#8221;, como demonstra os bem-intencionados pais e mães que compram um cachorro idêntico ao que se afogou na piscina, para substituir o morto, convictos que a &#8220;boba&#8221; da criança não perceberá. </span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p>* O Cidão, como carinhosamente o chamávamos, faleceu no dia 26 de setembro de 2022 por meio de eutanásia.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2020 14:25:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[reflexão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a importância de nos mantermos corajosos frente à situações difíceis. Partindo de uma vivência pessoal sua, a analista faz reflexões sobre os tempos atuais e a onda do coronavírus.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/">Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2037 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2020/04/coronavirus-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Quando padeci de um quadro fisicamente muito doloroso há alguns meses não poderia imaginar que estava, sem saber, acumulando experiência para atravessar a onda do coronavírus.</p>
<p><span id="more-2036"></span></p>
<p>Na ocasião, apesar de não ter corrido sério risco de vida, convivi por alguns meses com uma dor que me incapacitou de fazer coisas simples como caminhar ou sentar.</p>
<p>E, como tive muito tempo para pensar, refleti bastante sobre o que penso ser um jeito digno de enfrentarmos uma doença ou uma situação difícil como a de agora.</p>
<p>São estas reflexões muito pessoais que me proponho a compartilhar aqui.</p>
<p>Quando perdemos a saúde repentinamente nos damos conta de um jeito radical e desesperador que a vida pode se tornar (quase) insuportável se ficamos impedidos de fazer coisas que, quando estamos sãos, são bastante banais e corriqueiras.</p>
<p>Assim a doença física, sobretudo quando se prolonga, promove um radical redimensionamento das coisas para nós. Aquilo que é banal para o são, para o doente se torna uma dádiva. Aquilo que não tem o menor valor para o saudável, para o doente se torna alvo de inveja e cobiça.</p>
<p>Isso faz frequentemente com que a doença física seja vista por muitos como uma espécie de “caminho de regeneração do homem” ou, no pensamento animista, como uma punição por um prazer proibido consumado no inconsciente.</p>
<p>Esta visão, inclusive, tem sido muito compartilhada acerca do coronavírus. A de que após ele a humanidade passará por um profundo processo de regeneração onde finalmente viveremos em maior harmonia com a natureza.</p>
<p>Ou então, numa visão mais medieva, de que a peste do coronavírus foi lançada sobre nós (por Deus?) como uma espécie de sinal de alerta para reavaliarmos o mau caminho que temos tomado como espécie.</p>
<p>Uma terceira linha de visão ainda, de cunho mais biologicista, argumenta que todas as espécies animais, incluindo a nossa, possuem predadores e que a mortandade dos indivíduos em massa serviria ao propósito de controle populacional.</p>
<p>Ressalta-se que o mesmo argumento foi encontrado muitas vezes no passado para justificar as grandes guerras mundiais: faz-se guerra para evitar a superpopulação mundial.</p>
<p>O curioso é pensar que a abordagem de um problema real &#8211; a superpopulação humana sobre a terra &#8211; possa encontrar solução no estranho caminho de justificar a morte de milhares de nós (seja por guerras ou por pestes) e não no que seria o mais óbvio e sensato como a orientação das pessoas sobre a não necessidade de se ter mais filhos e a descriminalização do aborto, por exemplo.</p>
<p>De qualquer forma, voltando ao ponto que nos interessa aqui, fato é que, do ponto de vista psicobiológico, nossos corpos e psiquismos são regidos pela busca do prazer e fuga natural da dor, algo para o qual Nietzsche já havia alertado bem antes de Freud.</p>
<p>Nesta perspectiva, ser saudável não é querer abolir a doença já que não temos nenhum controle individual sobre ela. Ser saudável é querer, uma vez doente, melhorar o mais rápido possível para voltarmos a usufruir da vida.</p>
<p>E para isso, diz Nietzsche, é preciso coragem: a coragem de dizer sim à vida e aos pensamentos alegres não à morte e aos pensamentos sombrios que, sabemos, exercem um tremendo fascínio sobre nós.</p>
<p>Acontece também que viver é extremamente trabalhoso e conflitivo. Manter-se corajoso e com o espírito elevado frente às impermanências naturais da vida, muito mais desafiador do que ser negativista e queixoso.</p>
<p>E o que pude aprender com a minha doença, e que vejo se confirmar agora com o coronavírus, é que os liames entre a covardia e a coragem são muito tênues e que vários são os labirintos em que podemos nos perder nesta busca.</p>
<p>No meu caso, a luta entre a covardia e a coragem se deu quando tentei me iludir de que meu problema poderia ser resolvido sem cirurgia, ilusão que a realidade acabou por não comprovar.</p>
<p>Ora, quando ficamos com medo de algo é natural que tentemos nos iludir. Mas quando insistimos em preferir a ilusão à verdade, para evitarmos o medo, aí é que nos tornamos covardes.</p>
<p>Decidida a operar, na ante sala do centro cirúrgico, enquanto aguardava a minha vez, pude pensar que sentir medo não nos dá o direito de nos tornarmos tiranos ou revoltados.</p>
<p>A depender de como enfrentamos as adversidades da vida, se com humildade ou com revolta, nos tornamos mais sábios ou mais patéticos e miseráveis.</p>
<p>Um senhor que seria operado antes de mim comportava-se tristemente como uma criança mimada, reclamava às enfermeiras o tempo todo que estava com fome; xingava porque a cirurgia anterior estava demorando e dizia que ia processar o hospital.</p>
<p>Era evidente que estava revoltado por estar doente e, incapaz de conter seus próprios sentimentos de medo e pânico, derramava-os em forma de raiva e de inconformismo sobre os outros. Em suma, enfrentava seu medo da maneira menos nobre e altiva possível: se acovardando e dando trabalho aos outros.</p>
<p>Fiquei triste porque pensei que ele estava perdendo uma oportunidade valiosa de aprender algo sobre a vida e sobre ele mesmo.</p>
<p>Por exemplo, que nós temos pouquíssimo controle sobre as doenças que nos acometem; e que momentos difíceis como este são ótimos para desenvolvermos a nossa capacidade de humildade e de paciência com aquilo que não podemos alterar.</p>
<p>É isso que chamo procurar enfrentar uma situação difícil com alguma nobreza e coragem. Por isso achei que estas reflexões caberiam bem no contexto do coronavírus.</p>
<p>O coronavírus trouxe, em nível mundial, a iminência de um risco de dizimação em massa de vidas humanas, seja pelo vírus, seja pela crise econômica mundial provocada por ele. Por isso é natural que tenhamos medo e até pavor de tudo o que estamos vivendo.</p>
<p>De outro lado, esta pode ser uma ótima oportunidade para cada um de nós conhecermos mais profundamente os nossos medos e de aprendermos a contê-los sem exterioriza-los, como não conseguiu fazer o senhor do hospital.</p>
<p>Também pode ser uma oportunidade valiosa de exercitarmos o espírito nietzschiano em nós, a saber, a capacidade de atravessarmos uma situação difícil como esta sem ficarmos nos lamentando nem tendo pena de nós mesmos em demasia; a capacidade de contermos os nossos pensamentos sombrios e a nossa frustração sem precisarmos destilar nossos ódios sobre os outros nem achar bodes expiatórios para as nossas desgraças.</p>
<p>Desgraças na vida acontecem aos montes. Já existiam antes e vão continuar a existir depois do coronavírus. E coisas boas também. Por isso Guimarães Rosa dizia ter mais medo de nascimentos do que de mortes. Porque viver é muito, muito mais arriscado e difícil que morrer.</p>
<p>Assim, penso que permanecermos vivos e lutarmos pelo direito que nos cabe à alegria e ao prazer pode ser tão ou mais difícil e exigente em termos de disciplina mental do que pegar coronavírus ou qualquer outra doença e, quem sabe, morrer delas. É isso o que a clínica psicanalítica sempre me mostra.</p>
<p>Porque na doença podemos nos ver justificados a nos abandonar de nós mesmos, o que frequentemente ocorre; e, na morte, tudo finalmente acaba e não há mais nada a fazer.</p>
<p>Então que, nesta quarentena, possamos sim lutar pela preservação das vidas humanas fazendo tudo o que está ao nosso alcance fazer.</p>
<p>Mas que possamos também não nos esquecer de que manter um espírito de decoro e de nobreza frente o sofrimento pode ser o ato mais inteligente que podemos ter por ora.</p>
<p>E que, se após o coronavírus sobrarem poucos de nós e se estes poucos vierem a ser visitados por alguma espécie alienígena, que a lembrança que possamos deixar aos que não puderam nos conhecer seja a de que somos seres excepcionais.</p>
<p>Porque fazemos sinfonias e sonatas, obras de arte e construções maravilhosas, descobrimos vacinas e salvamos vidas, somos generosos e ajudamos gente, adoramos samba e carnaval, somos inventivos e esperançosos sobre o futuro, fazemos muros, mas também pontes.</p>
<p>Em suma, se viemos do macaco, o deixamos para trás há muito tempo!</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/">Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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