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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Wed, 11 Jul 2018 21:44:47 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Maria, Maria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Jul 2018 14:11:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[herança psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[prosa poética]]></category>
		<category><![CDATA[transmissão psíquica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexão, a partir de uma prosa poética, sobre o feminino. A partir da morte de minha avó materna busco neste texto elaborar a condição sempre errante do feminino, que é missão de cada mulher que nasce elaborar a partir de sua herança psíquica. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maria-maria/">Maria, Maria</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/07/Casamento-Diguim-100-MT-ed-390.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1899 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/07/Casamento-Diguim-100-MT-ed-390-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Recentemente enterrei minha avó materna. Ela se chamava Maria. A mesma Maria da música de Milton Nascimento e Fernando Brant: uma mulher que merecia ter vivido e amado como outra qualquer do planeta. Mas, como comportada Maria que era a minha Maria ria quando devia chorar e estava mais habituada a aguentar do que a viver. Por isso se despediu da vida com os mesmos olhinhos tristonhos  com os quais eu me lembro dela em grande parte da vida.</p>
<p><span id="more-1897"></span></p>
<p>No ataúde, vestiram-na de cor-de-rosa, pintaram seus lábios de rubro como se lhe tentassem reparar uma feminilidade que a minha Maria nunca conseguiu realizar em vida, no prazer estonteante de ser mulher. Como todas as Marias do planeta, a minha Maria também trazia no corpo a marca. Mas a ela não foi ensinado, por outra Maria já iniciada nos mistérios, que a marca que lhe cingia o corpo era estado de pura poesia e de puro amor, capaz de curar as feridas do mundo todo, caso ela assim quisesse.</p>
<p>A esta Maria, pobre Maria, foi transmitido que se devotar ao homem amado era conduta humilhante e não sábia; que ter prazer sexual junto ao  seu corpo, era ser puta e não santa; que não desejar uma nova gravidez, era pecado e não inteligência; que ser despudoradamente feliz e sensual, como se em estado de gestação perene do mundo inteiro, era falta de educação com todas aquelas Marias que, por covardia ou medo, desistiram de si mesmas pelo caminho.</p>
<p>Mas agora tudo findou. Sua existência sobrevivente, de mulher Maria sofrida, finalmente chegou ao fim. Resta dela a missão, herdada por suas filhas e netas, de elaborar o nunca completamente elaborado mistério do que é, afinal, ser uma mulher. Como herdeira de minha querida Maria, orgulho-me de estar no caminho, à procura, não de respostas, mas de entendimentos. Faço-o por ela, por minha querida mãe, e por todas as minhas companheiras Marias que habitam este planetinha azul. Descubro quotidianamente junto de minhas pacientes, de minhas queridas alunas e, por que não, das filhas que nunca terei, que ser mulher-Maria é ter guarra, mas sem nunca perder a graça; é dizer a palavra certa, mas sem perder a doçura; é ter entranhas de ferro para carregar as dores do mundo e, ainda assim, nunca perder a estranha mania de ter fé na vida.</p>
<p>No frenesi do último instante em que sabia tocar seu corpo frio de menina nunca nascida pela última vez, coloquei junto aos seus dedos hirtos uma foto de nossa família e lhe cantei bem baixinho no ouvido, agora já surdo para as dores e alegrias do mundo, uma prece de gratidão.</p>
<p>Cada mulher tem uma sina, uma missão destinada a cumprir. A de minha Maria foi dar ao mundo quatro Marias boas e honestas, e nisso ela cumpriu sua meta. Ficou a se realizar a tarefa mais árdua e também a mais arriscada: parir indefinidamente a si mesma. Por isso, prometo-lhe: farei isso por nós todas! Viverei a cada instante como uma mística santa, indo à cata de cada fragmentozinho meu espalhado por entre as terras, as formigas, os bosques densos, as luas grávidas de luz; buscar-me-ei incansavelmente nas águas das chuvas, dos rios e dos mares quentes, no sol poente de cada dia que morre e no sol nascente de cada dia que brota. Lançarei meu espírito em cada um destes seres miraculosos, copularei com eles, e, nesta cópula, parirei a mim mesma muitas e muitas vezes. Desta, nascerá um lindo ser híbrido, meio-jovem, meio-velho, meio -sábio, meio-criança, meio-vivo, meio-morto. Porque eu sei que é lá, no entre-mundos, entre o passado e o futuro, que eu ei sempre de encontrar a minha doce Maria.</p>
<p><iframe title="Elis Regina - Maria Maria" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/7Jcc9LOipRg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jun 2018 13:59:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[masculino]]></category>
		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
		<category><![CDATA[O segundo sexo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo faz reflexões sobre como a instituição do casamento pode contribuir para que o erotismo entre os cônjuges seja vivido com pudor, hipocrisia, alimentando, portanto, a prática da infidelidade entre os homens, e a produção de neuroses entre as mulheres. Para adentrar o tema, a autora recorre às reflexões de Simone de Beauvoir publicadas em seu antológico O Segundo Sexo. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pudor-e-hipocrisia-no-casamento-conjugal-moderno-reflexoes-a-luz-do-pensamento-de-simone-de-beauvoir/">Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice.png"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1893 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice-150x150.png" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice-150x150.png 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice.png 225w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Uma mulher insatisfeita sexualmente com seu marido que ligasse a rádio na década de 80 e ouvisse a parada pop de sucesso “Amante profissional” (da banda Herva Doce) ver-se-ia seriamente tentada a contratar o serviço.</p>
<p>Na irreverente música o tal amante profissional é descrito como um homem alto, moreno, bonito, carinhoso e sensual, capaz de realizar a fantasia da mulher insatisfeita sexualmente por meio de um relacionamento íntimo e discreto e sem qualquer compromisso emocional.</p>
<p>A cena faz apelo (e sucesso) porque joga com a insatisfação da mulher com aquilo que ela tinha em casa, ou seja, o marido. O amante profissional, alto, moreno, bonito, carinhoso e sensual, é quase sempre o contrário do que era o marido da realidade: por vezes baixo, calvo, já com o abdômen avantajado e largado por anos da prática da cerveja e do exercício tipo controle remoto, estúpido e grosseiro e nem um pouco romântico com o avançar dos anos de casamento, se é que fora um dia.</p>
<p><span id="more-1892"></span></p>
<p>Ora, ninguém em sã consciência seria capaz de recriminar os devaneios eróticos da pobre mulher, tendo em vista a realidade cinzenta e nem um pouco erótica que se lhe apresentava no santo lar. O psicanalista Wilhelm Stekel que ouviu a insatisfação de muitas mulheres casadas e publicou em 1953 o livro “A mulher fria” observou o óbvio: que muitas só conseguiam o orgasmo conjugal mantendo secretamente fantasias eróticas com seus médicos ou professores de ginástica. Freud, por sua vez, demonstrou não poucas vezes como as fantasias são necessárias e fundamentais para que possamos suportar as cores por vezes sem graça e tétricas da realidade. Também demonstrou que quando o sujeito não se julga forte o suficiente para mudar sua realidade por outra mais satisfatória, infla o seu universo fantasmático e refugia-se nele, alienando-se da realidade frustrante. O problema é que não se faz isso sem o preço alto de uma clivagem no ego, que gera como uma de suas consequências funestas o pudor e a hipocrisia.</p>
<p>Foi com o mesmo espírito pudorento e hipócrita que muitos psicanalistas desenvolvimentistas atacaram o problema da insatisfação feminina no casamento relançando-o de volta ao próprio sujeito: se ela não está satisfeita, é porque não se satisfaz com nada. Ao invés de problematizarem, com a elegância que a psicanálise permite problematizar, a própria realidade, neste caso, os moldes do casamento conjugal moderno – que não teria como gerar outra coisa senão infelicidade e insatisfação, pudor e hipocrisia (para ambos os parceiros) – culpabilizaram o sujeito alegando sua incapacidade adaptativa e outras bobagens deste tipo.</p>
<p>A música da década de 80 é interessante porque nos faz pensar porque uma mulher precisaria de um serviço de amante profissional? Ora, isso se deve ao próprio pudor com que a vida erótica feminina se revestiu ao longo da história. Para uma mulher insatisfeita, admitir suas necessidades sexuais imperiosas sempre foi mais difícil do que para o homem. Além do mais, não se trata de boa prática social – ou pelo menos não se tratava – uma mulher sair à noite no encalço de um amante com quem pudesse ter um encontro sexual casual. Daí a visionária percepção mercadológica de que, entre nós, haveria uma grande procura por tal serviço.</p>
<p>Isso nos leva a pensar que o preço social que homens e mulheres, na modernidade, tiveram que pagar para terem livre intercurso sexual foi extremamente caro e oneroso. Para poder ter relações sexuais não clandestinas, o preço a ser pago deveria ser a submissão à instituição do casamento, com suas duras e nada sensuais infindáveis exigências mundanas. Em última instância, a música joga com humor com este desejo feminino, mas também masculino universal: poder usufruir do intercurso sexual sem precisar pagar o duro preço dos compromissos sociais e morais que a instituição moderna do casamento impôs a cada um de nós.</p>
<p>No caso da mulher, o preço a ser pago foi mais alto e mais oneroso do que para o homem, com quem sempre houve maior indulgência com relação às escapadelas amantisticas. Para a mulher, não só a maior rigidez da moral sexual lhe impedia o acesso ao prazer sexual livre, mas, sobretudo as exigências impostas pela maternidade também significaram a ela um importante grilhão. A uma mulher mãe era ainda mais escandoloso o reconhecimento do seu desejo sexual, do que a uma mulher sem filhos, já considerada uma pária por excelência, e, portanto, muito próxima da degradação social. Talvez o ódio que muitos casais que não desejam filhos ainda despertem nas famílias tradicionais se deva ao fato de que eles imaginam que o casal sem filhos goza loucamente sem nenhum tipo de impedimento mundano que lhe atrapalhe o prazer o que, em parte, não deixa de ter uma dose de verdade, tendo em vista que os filhos representam um grande ônus, sobretudo para o livre exercício da liberdade sexual feminina.</p>
<h3>Contribuições da filósofa Simone de Beauvoir:</h3>
<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1894 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-300x300.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-768x768.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-1024x1024.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Simone de Beauvoir, filósofa francesa, debruçou-se profundamente sobre este problema e, a meu ver, trouxe contribuições valiosas. Levou tão a sério sua perspectiva de que a instituição tradicional do casamento impunha pesos insuportáveis sobre o dorso do pobre casal que radicalizou sua perspectiva e nunca aceitou coabitar com seu grande amor e parceiro intelectual, o filósofo Jean Paul Sartre. Outra grande radicalidade de sua parte foi não exercitar a imposição da monogamia.</p>
<p>Ou seja, para ela, erotismo ou prazer sexual livre não combinavam com as regras restritivas que a instituição do casamento impunha aos parceiros no que se refere à suas liberdades individuais. Nesta perspectiva, consentir com o sacrifício de tais liberdades em prol da manutenção da instituição do casamento seria, para ela, caminho certo para a morte do erotismo. Sobre tal antítese entre desejo sexual e casamento, ela diz:</p>
<p><em>O erotismo é um movimento para o Outro, ou seja, para a radicalidade da liberdade. Mas no seio do casal, os cônjuges correm o risco de se tornarem os mesmos. Nenhuma troca é mais possível, nenhum dom, nenhuma conquista. Por isso se continuam amantes na cama, fazem-no com vergonha; sentem que o <u>ato sexual não é mais que uma experiência em que cada qual se ultrapassa em direção ao Outro</u>, e sim uma espécie de exercício pudorento, uma masturbação em comum. </em></p>
<p>Ou seja, na medida em que o casamento moderno transformou o exercício da liberdade sexual em algo pecaminoso, proibido, contrário aos bons costumes e a ordem, levou junto consigo, para o mesmo limbo da negatividade, o erotismo, que para se realizar pressupõe a existência de duas liberdades igualmente preservadas. Nesse sentido, a rebelião de Simone contra a ordem estabelecida do casamento e da monogamia, escondia uma revolta ainda mais profunda da pensadora: a revolta contra o direito à liberdade de escolher como viver e amar. Deriva desta percepção arguta da filosofa acerca da íntima relação existente entre liberdade e erotismo (ou amor à vida) a ideia de que nem a psicanálise, nem as artes, nem o amor podem vicejar em sociedades tirânicas, autoritárias e ditatoriais, em que as liberdades individuais não estejam preservadas.</p>
<p>Voltando ao casamento, como nenhum ser humano razoavelmente consciente de si pode perdoar ser constrangido em seu direito à liberdade e ao prazer, homens e mulheres modernas canalizaram diferentemente seus ressentimentos para com o mundo: os primeiros procuraram suas liberdades no leito, sempre mais interessante, de suas amantes e prostitutas; as segundas ressentiram-se, amargaram-se e vingaram-se da privação sexual infligida a si pelo mundo por meio de suas doenças neuróticas e pela maternidade, reinado do qual depende inextrincavelmente a perpetuação da raça humana sobre a terra, o que não significa pouco poder dado pela natureza a nós.</p>
<p>Desde a década de 50, quando Simone sistematizou suas reflexões sobre o casamento, muita água rolou pelo rio da história e, ao que tudo indica as novas gerações ainda buscam fazer um balanço sobre as vantagens e desvantagens de ainda mantermos de pé a instituição matrimonial. Dito de outro modo, nós, os contemporâneos, ainda tateamos no escuro e buscamos equacionar esta delicada relação entre liberdade individual e compromisso social, ora pendendo para um lado, ora para outro. Filhos e netos da geração tão bem delineada por Simone, aprendemos a duras penas vendo as experiências conjugais infelizes de nossos pais que o preço de sair bem na foto de família pode ter sido custoso demais para os nossos antepassados e os benefícios deste sacrifício, ínfimos demais. Afinal, para a praga do social, que só quer uniformidade e conformismo, não importa o quanto você esteja feliz ou infeliz, só importa que você siga as regras do jogo como bois em manada.</p>
<p>Para aqueles que, como eu, buscam a maneira de Simone serem fieis a si mesmos, e não fazerem concessões com a imbecilidade reinante, o caminho é duro e por vezes solitário. Mas o sabor inigualável da liberdade e de ser fiel às próprias convicções é impagável e compensa qualquer dissabor e má compreensão.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>Stekel, Wilhelm. (1953). A mulher fria: estudo minucioso da frigidez feminina.  Editora Civilização Brasileira: Rio de Janeiro.</p>
<p>Beauvoir, Simone de. (2016). O segundo sexo: fatos e mitos. Volume 1. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. (Publicado originalmente em 1949).</p>
<p>Beauvoir, Simone de. (2016). O segundo sexo: a experiência vivida. Volume 2. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. (Publicado originalmente em 1949).</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pudor-e-hipocrisia-no-casamento-conjugal-moderno-reflexoes-a-luz-do-pensamento-de-simone-de-beauvoir/">Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Crônica de um casal quase moderno</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cronica-de-um-casal-quase-moderno/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Jun 2017 15:51:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desmesura feminina]]></category>
		<category><![CDATA[erotismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
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		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a relação entre a mulher e o homem moderno tendo como mote a cena cotidiana de um casal. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cronica-de-um-casal-quase-moderno/">Crônica de um casal quase moderno</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/breve.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1805 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/breve-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O casal unido há quase vinte anos, com uma convivência tão satisfatória quanto pode ser a convivência entre dois seres humanos, acaba de ter uma relação sexual.</p>
<p>Com o auxílio de um vibrador, a esposa chega ao orgasmo e com isso se sente animada para continuar aproveitando a penetração. Satisfaz-se de novo. Terminado o jogo erótico, levantam-se, banham-se e vão à cozinha. Há uma louça a ser lavada e como um bom casal quase moderno, que divide todas as contas da casa igualmente, a esposa, entre ingênua e curiosa, pergunta:</p>
<p>&#8211; Quem vai lavar a louça hoje? Eu ou você?</p>
<p>&#8211; Você. Eu te fiz gozar&#8230;</p>
<p><em>Silêncio magoado e constrangido.</em></p>
<p>&#8211; Eu também te fiz gozar. Então, você lava a louça hoje!</p>
<p><span id="more-1804"></span></p>
<p>O meu leitor, filho ou neto da modernidade, certamente irá se identificar ou um dia se identificará com esta pequena crônica do cotidiano de um casal. Pois, como um bom filho ou neto da modernidade, toma-se como um sujeito livre para gozar de que modo for. Além disso, sente-se já despido das romantizações e dos pudores passados em que a presença de um vibrador no meio do casal poderia ser interpretada como falência da potência masculina. Como um bom sujeito moderno ainda, ele aceita jogar o jogo da vida, sem tantas idealizações, com mais liberdade, inclusive, para transitar entre papeis de gênero há muito superados. Será?</p>
<p>Minha pergunta neste texto é: como os homens têm se sentido frente à maior liberdade sexual que as mulheres vêm conquistando desde a década de 60? Penso que esta pequena crônica do quotidiano de um casal qualquer nos ajuda a pensar sobre isso.</p>
<p>É inegável que a desmesura feminina frente ao próprio gozo sempre causou temor e insegurança nos homens. Como argumenta a psicanalista Maria Rita Kehl, como a mulher porta-se diante da castração como aquela que não tem mais nada a perder, sua posição de gozo diante da vida tende a ser mais livre e mais solta.</p>
<p>Não estou dizendo que isso seja uma regra entre as mulheres, mas sobretudo entre aquelas que já puderam transitar pelas dores e prazeres de sua posição, a liberdade de que não há mais nada a perder ou a provar é impagável. Esta mulher também já descobriu algo que suas avós não sabiam, ou que foram impedidas de pensar: que a responsabilidade pelo seu gozo e pelo seu cuidado é sua e não do homem. Logo, a esposa de nossa crônica poderia responder ao seu marido que quem a fez gozar, ou melhor, quem a autorizou a gozar na vida foi ela mesma e não ele. O que, aliás, requer muita coragem.</p>
<p>A cultura falocêntrica encontrou historicamente muitas maneiras de domesticar o gozo feminino: deixar as mulheres analfabetas, não dar a elas o direito de votar e de escolher o próprio destino, aprisioná-las a uma única e empobrecida forma de realização fálica que é a maternidade, tornar o seu adultério crime, condená-la pelo desejo de divórcio, fazê-la queimar na fogueira como bruxa perigosa e, na aurora do século XX, tomá-la como histérica, ou seja, louca e sem razão. Há maneira mais brutal de fazer calar a voz de alguém do que a tomá-la por louca?</p>
<p>É bem verdade que muitas mulheres, por falta de outros modelos identificatórios ou por um ressentimento irado, ocuparam bem este lugar e se perderam para sempre. Mas muitas outras, puderam encontrar maneiras lógicas e razoáveis de expressarem sua indignação por serem tratadas como mero objeto de decoração.</p>
<p>Freud, que foi um homem revolucionário, mas também um homem burguês de seu tempo, oscila entre perceber o difícil lugar ocupado pela mulher de seu tempo e naturalizar algo que seria uma dita “essência feminina”.</p>
<p>No texto “Sobre o narcisismo: uma introdução”, há passagens interessantes que revelam este conflito entre o psicanalista revolucionário e o homem burguês. Em determinado momento ele diz que as mulheres tendem a amar apenas a si mesmas, o que ele chama de amor narcísico, colocando-se na prática erótica como aquela que almeja ser amada, muito mais do que aquela que ama (generosamente) o seu homem. Por outro lado, em certa passagem ele diz:</p>
<p><em>“As mulheres, especialmente se forem belas ao crescerem desenvolvem certo autocontentamento que <u>as compensa pelas restrições sociais que lhes são impostas em sua escolha objetal</u>. ” (p. 95)</em></p>
<p>Ou seja, o psicanalista compreendia que o casamento impunha fortes restrições sociais à mulher, e que a beleza (para sorte das belas e azar das feias) poderia ser utilizada por esta como uma espécie de compensação, ou pelo menos como uma mínima possibilidade de escolha, frente às duras restrições do casamento.</p>
<p>Na prática isso poderia significar, por exemplo, uma mulher bela ter um número maior de pretendentes, o que significava ela poder escolher um homem que, ainda que não amasse, pelo menos que lhe fosse suportável. As feias não teriam esta possibilidade, já que as ofertas de casamento lhe seriam escassas. Além disso, as belas poderiam exercitar seu poder de atração com outros homens, fora do casamento, alimentando o seu amor próprio, algo que uma mulher destruída por cinco ou seis gestações seguidas, abandonada de si mesma e pelo marido, não teria mais chance de realizar.</p>
<p>Como homem burguês, ele continua dizendo que, ainda que a mulher insistisse em amar apenas a si mesma (sobretudo as belas), ainda havia uma chance de ela conhecer o “verdadeiro amor objetal”. Seria na experiência da maternidade quando a mulher teria que acolher o estranho que seria o filho, algo que a abriria para amar alguém além de si mesma. Mas, ainda assim, Freud reconsidera que a mãe ainda manteria vivo em si o anseio de se realizar por um ideal masculino, o que seria conquistado através do seu marido ou, sobretudo, do filho homem.</p>
<p>Do que Freud estava falando? Não me agrada uma leitura psicanalítica a-histórica que culpalizaria as mulheres por uma incurável “inveja do pênis”. Cabe, ao contrário, nos perguntarmos: porque razão uma mulher teria inveja do pênis? Resposta: porque ela sabe que o detentor do pênis pode realizar, na cultura, aquilo que ela nunca pôde por não ter este símbolo fálico. Esta seria a verdadeira razão da tão famigerada “inveja do pênis”.</p>
<p>Mas, voltemos à nossa crônica. O marido quase moderno, assim como o Freud homem de seu tempo, possivelmente se sentem inseguros diante da possibilidade de indagarem, afinal, o que deseja uma mulher, para além deles próprios? Ora, se nos deixarem falar a resposta que daremos será: &#8220;Sim, nós queremos vocês como maridos, namorados e amantes, mas não queremos só isso. Queremos também nos realizar profissionalmente, queremos gozar a vida e a liberdade como vocês, queremos aprender a ser responsáveis por nós mesmas, queremos poder negociar o nosso destino, de modo que o seu desejo e o meu possam ser contemplados. E queremos fazer tudo isso sem que vocês imediatamente se sintam inúteis em nossas vidas.&#8221;</p>
<p>No caso do nosso casal hipotético, na medida que a esposa não aceita entrar no jogo erótico de ser ele o portador do falo responsável por dar prazer e não se coloca, ela mesma, como escrava (objeto), que em troca de prazer e proteção, cuidará dele e da casa como forma de pagamento e adoração venerável, algo se desarticula e se tensiona na relação. Papeis que no imaginário deste casal, ou pelo menos deste homem, estavam solidamente instaurados e já designados pela cultura, sofrem um abalo e são questionados. O que acontece a partir daí é que o homem se sente ameaçado: se eu não sirvo para ser o seu provedor de prazer, o macho-alfa, para que eu sirvo então? No imaginário deste homem, os papeis masculinos e femininos estão designados já pela natureza: eu, com meu pênis, sirvo para dar prazer e em troca você cuida de mim e da louça. Eu sou o senhor e você a escrava (do ponto de vista do imaginário, bem entendido). Mas, a resposta da esposa, de que ela também, com seu corpo feminino-castrado,  o faz gozar, levam-no a uma crise identitária, que ele tenta resolver recorrendo a conhecidos papeis: eu dou prazer, você lava a louça.</p>
<p>A resposta da esposa o leva a uma outra crise, ainda mais dramática, porque toca no âmago da problemática da castração masculina e do horror frente ao feminino. Pois, para o imaginário deste homem, lavar a louça pode significar, para ele, feminilizar-se, ou seja, perder o seu pênis e se tornar &#8220;mulherzinha&#8221;, algo que é insuportável para o psiquismo de muitos homens.</p>
<p>Daí que a crise se instaura e nela estão tensionados o conhecido e o naturalizado a respeito do que é ser homem e do que é ser mulher, mas também aquilo que é aberto para a indagação e o questionamento bem-humorado (com alguma sorte e inteligência entre os parceiros). E assim se dá a dança da cultura: entre o velho e o novo, entre a continuidade e a disruptura, sempre um pouco dramática enquanto se a vivencia.</p>
<p>Penso que diálogos como este, que o analista colhe em sua clínica e em suas observações do mundo em que vive, representam a própria riqueza e efervescência dos sujeitos em mutação, no confronto com aquilo que lhe foi transmitido pela inércia da cultura, e com aquilo a partir do qual o seu desejo fala, e que tende sempre à transformação e ao novo. Na medida em que estes discursos circulam e se confrontam entre si, com alguma elegância e inteligência na vida à dois, os caminhos são interessantes. Interessante também é o endereçamento do sujeito acerca de sua angústia de castração à uma análise, em que se pode confrontar, o tão famigerado horror ao feminino.</p>
<p>Ou seja, as saídas criativas para esta arte erótica à dois  estão sempre à espera de serem descobertas e não há caminhos definidos <em>a priori</em>. Caberá às possibilidades inventivas de cada casal negociar cotidianamente com suas mínimas diferenças, de certo modo, irredutíveis.</p>
<p>O que eu penso que não se sustenta mais no jogo da cultura, nem para homens nem para mulheres, é a supremacia do maior ou menor valor humano, associado a um pedaço de carne que, se para a criança é signo de diferenciação entre grandes e pequenos, entre machos e fêmeas, para o adulto apequenam e empobrecem as possibilidades de encontro genuíno com o Outro que pode vir a ser fonte de muito prazer e enriquecimento nas trocas afetivas humanas, desde que esteja preservado o respeito à sua subjetividade de cada um.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cronica-de-um-casal-quase-moderno/">Crônica de um casal quase moderno</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Maternidade: escolha ou destino?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2014 17:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Desejo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na semana passada vivi uma experiência desagradabilíssima, que servirá como estímulo para minhas reflexões neste texto. Vamos à cena: Eu e um médico ginecologista, bastante avançado em idade. Tratava-se de uma consulta de rotina. Depois dos procedimentos rotineiros, o médico me indaga, com olhar inquisidor: &#8211; Você não vai ter filhos? &#8211; Por enquanto não. &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maternidade-escolha-ou-destino/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Maternidade: escolha ou destino?</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maternidade-escolha-ou-destino/">Maternidade: escolha ou destino?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/images.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1264 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/images.jpg" alt="images" width="197" height="256" /></a>Na semana passada vivi uma experiência desagradabilíssima, que servirá como estímulo para minhas reflexões neste texto. Vamos à cena:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Eu e um médico ginecologista, bastante avançado em idade. Tratava-se de uma consulta de rotina. Depois dos procedimentos rotineiros, o médico me indaga, com olhar inquisidor: </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Você não vai ter filhos?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Por enquanto não. Respondo prontamente.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Silêncio sepulcral&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1262"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ele, indignado (não sei se mais indignado com a resposta ou com o meu silêncio), continua:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Mas, você ou o seu marido tem algum problema físico?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Não. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Agora, já vermelho e com os olhos flamejantes, pergunta, em um misto de indignação e constrangimento:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Então, é uma escolha?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim, é uma escolha&#8230; </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O clima era tenso, quase prestes a explodir.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Era tragicômica a cena: eu diante daquele “bom velhinho”, cheio de “boas intenções”. Ele desesperado diante daquela jovem, grávida de desejos e de vida. Diante de alguém que já dançou muito de perto com o seu próprio desejo, para se submeter ao desejo do Outro&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Percebendo o seu constrangimento e terror diante do meu silêncio, resolvi ajudá-lo a sair do imbróglio e disse, em tom ameno:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; O senhor parece achar muito estranho uma mulher não querer ter um filho?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Minha fala foi como encostar uma agulha em uma bexiga cheia. Bum, agora explodiu &#8211; pensei com os meus botões. E, finalmente, o nosso “bom velhinho”, pôde nomear seu pensamento tenebroso:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim, eu acho um absurdo! (disse quase gritando). Você devia largar essa porcaria de remédio e viver a experiência de ter um filho</em>!</p>
<p style="text-align: justify;">Sai de lá bastante pensativa. O meu sentimento era o de estar cometendo um crime grave. De ser eu uma grave criminosa. Mas, qual seria o crime? De que é que aquele “bom velhinho” estaria me acusando? Fiquei tempos a pensar sobre isso porque intuía que nestas minhas indagações poderia descobrir coisas importantes sobre como as pessoas compreendem temas espinhosos, tão permeados por moralidades e idealizações, tais como, a maternidade, a natureza, o feminino.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, vamos a algumas das minhas associações:</p>
<p style="text-align: justify;">Qual o meu crime na visão daquele médico?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, há um crime contra a natureza. Este é da ordem do pensamento moralizante religioso. Cada espermatozóide desperdiçado em uma masturbação, cada óvulo que não é fecundado, para o pensamento religioso, é um assassinato. Um bebê potencial que deixa de nascer. O que, no pensamento primitivo, equivale a extermínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, há algo mais. Na perspectiva daquele médico, eu também era uma criminosa por estar desafiando a ordem da natureza dita “feminina”: a natureza fez a fêmea para parir, para procriar. Mas, nós não castramos cães e gatos para evitar a superpopulação? E, nós, humanos? Até onde eu sei a nossa espécie não está ameaça de extinção. Então, porque é que eu teria que contribuir com a propagação da nossa espécie – tão simpática, aliás – tendo um filho? Já não há seres humanos demais morando nesse planetinha azul? E, além disso – será que somos assim tão valiosos, uma raça tão boa e amistosa para se querer colocar mais um ser humano neste mundo? De minha parte, sinto que já pude elaborar um pouco do meu narcisismo e da minha necessidade de perpetuar meus genes (que nem acho tão maravilhosos assim!). Além do mais: se a questão é viver a experiência da maternidade, não há tantas crianças esperando mães e pais em abrigos? Não teríamos de pensar coletivamente como resolver o problema da falta de famílias para estas crianças antes de pensarmos em satisfazer nosso narcisismo?</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda pensando do ponto de vista evolutivo, ter um filho é uma contribuição do indivíduo com sua espécie, certo? Mas há inúmeras outras formas de uma pessoa contribuir com o desenvolvimento de sua espécie, por exemplo, fazendo avançar a ciência, governando um país, educando crianças que já foram colocadas no mundo ou , como é o meu caso, cuidando de gente já nascida &#8211; algo que tem valor inestimável para a geração presente e para as futuras.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estou querendo frisar a vocês é que ter um filho é uma responsabilidade ética para com a nossa espécie. Pois, na medida em que se decide dar vida à uma criança, os pais devem sim buscar oferecer à sociedade o melhor humano que eles puderem formar. E isso exige tempo, dedicação e muito trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, continuando minhas associações, há outros crimes envolvidos aí.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também o crime da liberdade e do prazer. Não há nada mais terrível para uma alma que já perdeu a chance de se perguntar o que anima o seu desejo do que a liberdade alheia. Talvez aquele médico, sobretudo com a proximidade da morte, ache muito arriscado viver com liberdade. Talvez também ele venha de um tempo em que mulheres não ousavam viver com liberdade, usar seus corpos e seus sexos para ter e dar prazer. Estamos aqui no campo do que se comumente chama “machismo” que nada mais é, em termos inconscientes, que o medo atávico que o homem carrega do sexo feminino.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da história, a figura feminina (este ser esquisito, castrado, sinistro e misterioso) sempre meteu medo no homem porque a mente infantil carece de condições de representar a ausência do pênis. Trocando em miúdos: para um homem, avistar uma mulher, significa lembrar-se do risco de sua própria castração. Relembro que Freud considerou que na fase fálica a criança, de ambos os sexos, considera a existência de dois tipos de seres humanos: os com pênis (meninos) e os sem pênis (meninas). A complexa noção do que é uma mulher, detentora de uma vagina e não só de um clitóris (pequeno pênis), só será constituída mais tarde, na fase genital. Só para exemplificar este temor inconsciente da figura feminina, basta nos lembrarmos das inúmeras figuras míticas construídas ao longo da história sobre a mulher: medusa (uma mulher cheia de cobras-pênis na cabeça), sereia (que enfeitiça e mata com seu canto sedutor), bruxa (figura perigosa que voa em sua vassoura-pênis), etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, para aquele médico, duplamente investido em seu narcisismo – por ser homem e por ser Deus-médico-vencedor-da-morte – aquela figura castrada e portadora de um corpo desejante, era duplamente assustadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Assustadora por ser mulher. Assustadora por desejar: não um filho (do homem), mas ser Sujeito do seu próprio desejo. Um ser que ousa não se sujeitar ao desejo do Outro (no caso que estou investigando, o saber médico, o saber masculino, o saber da natureza&#8230;).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, por outro lado, não seria este o objetivo final de uma análise? A possibilidade de um ser humano, homem ou mulher, poder encontrar sua própria trajetória narrativa marcada por infindáveis possibilidades de sentir e dar prazer na vida, para além do falo / filho?</p>
<p style="text-align: justify;">E, para terminar, há algo mais a ser dito. Trata-se do discurso: Ter um filho como uma experiência!</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um significante muito marcante quando o assunto é maternidade. Há neste mandamento a ideia implícita de que uma mulher, sem a maternidade, ficará com sua vida incompleta. Faltará a ela esta experiência sublime de parir. Ficará manca, incompleta, infeliz. Será?</p>
<p style="text-align: justify;">Pergunto duas coisas: A maternidade é mesmo uma experiência? E, aquilo que a maternidade propicia a uma mulher, só é vivida quando se tem um filho?</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos à primeira questão. Não, a maternidade não é um experimento, uma experiência na qual se pode entrar ou sair quando se quer. Não é como comprar uma roupa, escolher uma viagem, comprar um apartamento. Em todas estas situações, se você decidiu que não gostou da experiência – de ter aquela roupa, de fazer aquela viagem ou de comprar aquele apartamento – você pode voltar atrás sem grandes consequências.  A maternidade é uma escolha. Uma escolha que implica em consequências e responsabilidades para a vida toda. Uma mulher não pode querer viver a experiência da maternidade, só para experimentar, e depois não querer mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a maternidade não está no campo da experimentação. Ela está no campo das escolhas éticas e responsáveis que um ser humano adulto deveria estar preparado para fazer em sua vida. Daí a necessidade de cada um de nós se perguntar antes de ter um filho: Eu realmente quero um filho? O que significa ter um filho? Por que eu quero ter um filho? Que implicações isso vai ter em minha vida? E eu estou disponível para estas implicações?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso sem falar das motivações inconscientes para se desejar um filho, estas das quais a gente só pode conhecer algo na análise: dar um filho ao pai edípico, reparar danos feitos à mãe, reconstituir-se narcisicamente fazendo do filho um falo e por aí vai. Em um artigo muito interessante intitulado “Desejo de ter filho ou desejo de maternidade e paternidade?” a psicanalista Maria Lúcia Violante é enfática ao dizer que a maternidade / paternidade não é para quem quer, mas é para quem pode. Compartilho plenamente desta afirmação. A experiência da maternidade / paternidade requer lastro interno e percursos por dolorosas elaborações de nossas vivências edipianas.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar disso, o que eu vejo quotidianamente é muito diferente desta reflexão séria e profunda que a maternidade e a paternidade exigem: vejo mulheres e homens que decidem experimentar ter um filho, mas não levam em conta a responsabilidade implicada neste ato. Em seguida, vejo milhares de crianças sendo criadas por avós, já cansadas por terem realizado a sua dívida com a sociedade, que é cuidar de seus próprios filhos. Sinto muito, mas isso para mim não é maternidade. Maternidade implica crescimento mental, responsabilidade com a escolha, implicação do desejo!</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo o que eu disse vale também para a paternidade, embora, neste caso, a não implicação paterna seja mais fácil por não ser o homem a gestar, amamentar e ser responsável pelo cuidado primário de um bebê.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora, a segunda questão. Em 1940 ou 1950 pode ser que o único prazer acessível à mulher fosse mesmo parir. Mas, hoje, nós mulheres &#8211; graças à luta de mulheres corajosas que, a partir da década de 60, junto de outras minorias sociais, saíram às ruas em busca de reconhecimento e de direitos &#8211; temos o privilégio de ter prazer em infindáveis tarefas: escrever livros, estudar, trabalhar, gozar de uma relação satisfatória na parceria amorosa*, viajar, comer bem, dormir bem, ler livros, ver bons filmes&#8230; A lista é infindável. Então, acho ótimo que nas classes mais favorecidas, intelectual e financeiramente, a maternidade tenha sido cada vez mais uma escolha e não uma imposição da natureza. Sinal de que nós estamos evoluindo, deixando de ser só bichos. Mas, como esta minha experiência mostra, o caminho ainda é longo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, dedico este texto a todas as mulheres corajosas que insistem quotidianamente em fazer falar o seu desejo, colocando-se como sujeitos protagonistas de suas histórias e não como objeto de desejo alheio.</p>
<p style="text-align: justify;">Também dedico este texto – como um alerta – a todas as mulheres desavisadas que porventura tiveram um filho não para atenderem a um desejo vindo de suas entranhas, mas para satisfazer o desejo alheio bem como o próprio desejo de ser objeto do desejo alheio. Lamento por estas pessoas e por estarem tão desavisadas quanto ao que as anima verdadeiramente. Reafirmo que o exercício ético de sermos seres desejantes, tal como aprendemos com a figura trágica de Antígona, é uma escolha que requer muita coragem e bravura.</p>
<p style="text-align: justify;">*Não compartilho da ideia feminista que nega a diferença entre os sexos, insistindo na premissa de que “homens e mulheres são iguais” ou “não nascemos homens ou mulheres, mas nos tornamos homens e mulheres”. Esta ideia do ponto de vista psicanalítico é incompreensível. O fato de uma criança humana nascer dotada de um pênis ou uma vagina traz consequências psíquicas marcantes e indeléveis para sua identidade. Ou seja, homens e mulheres são diferentes e esta diferença está inscrita, desde sempre, em seus corpos (erógeno, social, cultural). As confusões neste campo surgem – de ambas as partes – quando a percepção da alteridade (de que homens e mulheres são diferentes, com funções complementares) cede espaço ao discurso da submissão e da superioridade / inferioridade de um sobre o outro. Isso me faz pensar que, em termos sociais, ainda temos dificuldade de sair do modo de pensamento do momento fálico em que só há duas categorias de humanos: os que dominam e os que são dominados.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maternidade-escolha-ou-destino/">Maternidade: escolha ou destino?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O feminino na Psicanálise e na tragédia grega.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Apr 2013 16:46:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[diferenciação sexual]]></category>
		<category><![CDATA[falo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em suas elaborações sobre o feminino, Freud lançou a seguinte questão, para ele enigmática e difícil de ser respondida: “O que quer uma mulher?”. Para mim, há ainda outra questão anterior a esta e talvez mais importante: “O que é uma mulher?”. Freud foi duramente criticado por analistas que se seguiram a ele e também &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-feminino-na-psicanalise-e-na-tragedia-grega/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O feminino na Psicanálise e na tragédia grega.</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Femininity_1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-727 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Femininity_1-150x150.jpg" alt="Femininity_1" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Femininity_1-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/Femininity_1-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Em suas elaborações sobre o feminino, <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Freud </a>lançou a seguinte questão, para ele enigmática e difícil de ser respondida: “O que quer uma mulher?”. Para mim, há ainda outra questão anterior a esta e talvez mais importante: “O que é uma mulher?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Freud foi duramente criticado por analistas que se seguiram a ele e também por correntes feministas que consideraram sua teoria falocêntrica. Explico-me. Todo o embasamento teórico que Freud deu no que se refere à construção das identidades masculinas e femininas foi assentada na presença ou ausência do pênis, ou seja, no modo como cada ser humano vivência e se coloca diante da castração.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-726"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Explicações dadas por Freud: </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para ele, o menino renuncia ao seu objeto amoroso, no caso a mãe, por medo de perder o seu pênis, parte do corpo fortemente investida narcisicamente pelo pequeno infante. É assim que ele abandona seu objeto de amor primordial e introjeta o superego, herdeiro direto do Complexo de Édipo e fonte das regras e normas sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a menina, este processo se dá, segundo Freud, de maneira diferente. No caso dela, é pelo ressentimento de ter sentido que foi a mãe que a privou de ter o órgão tão desejado – o pênis – e por ser ela mesma castrada, que a menina passa a dirigir agora não mais o seu amor, mas o seu ódio à mãe e seu amor pelo pai. Neste caso, Freud também diz que a menina não só desejará ter o pênis do pai para si, mas também desejará ter um filho dele, o que, em termos inconscientes, continua representando o seu desejo de ter um pênis, já que no início a criança faz equivalências entre pênis, fezes e bebês. É por isso que, segundo ele, muitas mulheres adultas abdicam de suas relações com os maridos, quando estes lhes dão um lindo bebê do sexo masculino, detentor do pênis outrora tão desejado. É só neste momento que a menina ingressa no Complexo de Édipo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O que disse Melanie Klein sobre isso?</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Melanie <a href="http://http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Klein</a> fez importantes críticas a esta teoria falocêntrica freudiana e assegurou que a primeira parte do corpo invejada por meninos e meninas não seria o pênis, mas sim o seio, fonte por excelência de nutrição e amor. Ou seja, seria a figura feminina e não a masculina, detentora do pênis, a ser invejada inicialmente pela criança pequena. Ressalta-se que esta questão, fortemente assentada em um fundo ideológico de “guerra entre os sexos” nunca foi devidamente resolvida pela Psicanálise.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O misterioso do feminino:</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Fato também a ser considerado é que, no caso do<a href="http://http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br"> feminino</a>, muito já foi dito e escrito a respeito, embora se tenha a impressão de que sempre algo de misterioso e não acessível transite pelas questões da feminilidade. Melanie Klein explicou esta dificuldade em apreender o feminino da seguinte forma: para ela, como os órgãos femininos são todos internos e não externos como no caso do menino, que tem fácil acesso visual ao seu pênis, a menina terá mais dificuldade em apreender o que se passa dentro dela. Vale lembrar, por exemplo, o difícil e angustiante momento vivido pela menina em sua primeira menstruação, quando a visualização do sangue menstrual liga-se a profundas angústias e temores inconscientes de ataques e danos a seus órgãos sexuais, vivência que não tem equivalente no menino. É por isso, continua Klein, que os processos introjetivos e consequentes sentimentos culposos são mais presentes em meninas, e processos projetivos em meninos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/joana-dark.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-730 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/joana-dark-300x300.jpg" alt="joana-dark" width="180" height="180" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/joana-dark-300x300.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/joana-dark-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/joana-dark-120x120.jpg 120w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/joana-dark.jpg 360w" sizes="auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px" /></a>Fazendo uma retrospectiva histórica, vale lembrar também como a figura feminina esteve fortemente associada à imagem de bruxas, feiticeiras, demônios e figuras perigosas, imagens estas normalmente elaboradas por homens. Desta forma, não podemos nos esquecer das dificuldades que se impõem quando se trata de um homem (mesmo genial como era Freud) que tenta responder o que é uma mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, considero que responder o que é uma mulher é algo profundamente complexo que passa por questões culturais, sociais, históricas e percepções individuais, estas também afetadas por conflitivas inconscientes. Ressalto ainda que em nossa cultura ocidental, embora isso esteja sofrendo profundas modificações, ser uma mulher ainda parece estar muito associado à experiência da maternidade, algo que também foi fruto de contextos históricos específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Winnicott, a meu ver, foi o que mais propôs uma solução interessante para esta questão. Para ele, o feminino e o masculino são elementos da personalidade que estão presentes em homens e mulheres. O feminino está ligado ao ser, ou seja, vincula-se ao campo do sentir, e o masculino, ao fazer, ou seja, ao campo da ação. Para ele, todos nós temos porções de elementos masculinos e femininos em nossa personalidade, independente de sermos homens ou mulheres, embora sempre haja o predomínio de um elemento sobre o outro.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Recorrendo aos mitos e tragédias gregas: </strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Diante das dificuldades que o conhecimento psicanalítico encontra para apreender o que é o feminino, considero que uma importante fonte de compreensão profunda sobre esta temática possa ser encontrada nos mitos e tragédias gregas. Segundo Freud, os mitos equivalem, em termos de dinâmica e funcionamento, aos sonhos, ou seja, são manifestações diretas de desejos inconscientes. Além disso, são um arsenal cultural disponível e extremamente rico do ponto de vista simbólico para se compreender como o homem primitivo, não no sentido linear, mas no sentido do primitivo que nos habita, lida com os dramas humanos – morte e vida, destino ou escolha, paixões e instintos, etc.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/250px-Aischylos_Büste.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-728 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/250px-Aischylos_Büste-187x300.jpg" alt="250px-Aischylos_Büste" width="131" height="210" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/250px-Aischylos_Büste-187x300.jpg 187w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/250px-Aischylos_Büste.jpg 250w" sizes="auto, (max-width: 131px) 100vw, 131px" /></a>Como não é possível considerar o feminino de um ponto de vista geral, por ser temática ampla e complexa demais, elencarei dois aspectos do feminino – esposa / amante e mãe – retratados respectivamente nas tragédias gregas Orestéia, trilogia escrita por Ésquilo, e Medéia, escrita por Eurípedes, para investigar como estes componentes do feminino são compreendidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na trilogia Orestéia, temos a personagem Clitemnestra como figura central. Esposa de Agamêmnon, mata o marido para vingar a morte da filha Ifigênia, que fora morta em sacrifício à deusa Artêmis pelo próprio pai. Já em Medéia, encontramos uma mulher que, pelo terrível ciúme do marido Jasão que a troca por Créusa, mata os próprios filhos para se vingar dele. Deixa sua terra natal Cólquida e se desenraiza por “amor”, amor este que transcende a ela própria.</p>
<p style="text-align: justify;">Intensidades amorosas, pulsões violentas marcam a ambas. Seria este um elemento do feminino, não pelo vértice somente pejorativo da loucura, mas da intensidade necessária à vida, ao crescimento? E qual seria o limite entre intensidades amorosas que fazem vigorar o novo, o criativo e aquela que curto-circuita o desejo, o narcisismo de vida? Medéia amava mais a Jasão que a ela própria. Por isso, aceita deixar suas raízes que a definem e lhe dão lastro, em nome do amor, fazendo uma alusão à expressão atual tão conhecida das “mulheres que amam demais”. Cega por este amor-paixão mata os filhos dele, mas que também são filhos dela. Seria esta uma referência à impossibilidade de se criar algo novo (filhos) em uma relação em que a economia pulsional pende mais ao lado do objeto do que do próprio ego? Penso que a compreensão mais profunda desta tragédia pode nos ajudar a compreender mais a fundo, e sem uma visão pejorativa, os cada vez mais comuns crimes amorosos passionais que envolvem tanto mulheres quanto homens.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/medeia.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-729 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/medeia-209x300.jpg" alt="medeia" width="146" height="210" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/medeia-209x300.jpg 209w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/04/medeia.jpg 223w" sizes="auto, (max-width: 146px) 100vw, 146px" /></a>No caso de Clitemnestra, vemos uma mulher que faz a escolha pela filha e não só mata o marido, mas toma dele o trono, junto de seu amante. Seria este o outro lado da moeda de Medéia? Mulheres que amam demais, mulheres que amam de menos. Mulheres que, enlouquecidas, são tomadas por paixões violentas e às vezes mortíferas que lhe tomam tudo, sugam seus egos e às colocam num vazio sem fim. Lembro-me das inúmeras mulheres que pude atender em meu consultório e que traziam uma queixa muda, às vezes expressa no corpo e que precisava ser colocada para falar, mas que muitas vezes eram compreendidas pelo seu entorno como “frescura”, “histeria” e “falta do que fazer”.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual é esta incômoda falta de sentido da qual se queixam as mulheres e que muitas vezes é tão difícil de ser compreendida de uma forma positivada, sem clichês pejorativos? Penso que os mitos e tragédias podem nos ajudar a compreender esta dimensão profunda do feminino – para além da ausência do falo e da castração, que me parecem explicações pobres – e que comumente é rechaçada, inclusive pelas próprias mulheres, não encontrando lugar para serem gestadas e transformadas em algo pensável e criativo.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-feminino-na-psicanalise-e-na-tragedia-grega/">O feminino na Psicanálise e na tragédia grega.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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