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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Thu, 14 Apr 2022 14:01:57 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Comentários sobre o filme A Filha Perdida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Mar 2022 22:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[A Filha Perdida]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo tece comentários, a partir da visão da psicanalista, sobre o filme A Filha Perdida</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-a-filha-perdida/">Comentários sobre o filme A Filha Perdida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-2495" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-150x150.jpg" alt="Filme A Filha Perdida" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" />Numa das primeiras cenas do filme, a luz do farol que ilumina o apartamento remete à iluminação de verdades que se preferiria manter no escuro, por seu caráter demasiado perturbador. </span></p>
<p><span id="more-2494"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro e mais perturbador aspecto iluminado é que filhos dão menos satisfação aos pais do que se costuma admitir, sendo a maternidade / paternidade  mais um ato de doação que de prazer. Embora &#8220;dar prazer e &#8220;alegrar&#8221; sejam papeis frequentes atribuído às crianças em nossa cultura.      </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, Leda e Nina representam mulheres que não conseguiram corresponder ao que se espera delas, seja por se sentirem demandadas além do suportável ou por estarem terrivelmente sós para exercerem esta difícil função, já que nem Leda nem Nina contavam com os parceiros.  </span></p>
<h4>Satisfação com a maternidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso significa dizer que o grau de satisfação com a maternidade / paternidade depende da conjunção benéfica de fatores psíquicos e sociais, tornando-as uma responsabilidade coletiva, além de individual. Pois, é cruel deixar uma pessoa sozinha lidar com os duros encargos de uma criança.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As dificuldades de Leda com a maternidade levam-na à abandonar as filhas  por três anos, enquanto Nina sente-se deprimida e exausta com as demandas da pequena filha Elena e pelas intrusões constantes de sua família inadequada. </span></p>
<p>Ainda, no caso de Leda, deixar as filhas aos cuidados do companheiro até então ausente foi uma forma de forçá-lo a se envolver com elas, levando-o a experimentar na marra o que é cuidar 24 horas por dia dos filhos.</p>
<h4>Natureza tirânica de alguns filhos</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto perturbador iluminado no filme é a natureza tirânica e pulsional das crianças contraposta ao lugar imaginário adocicado que elas ocupam na cultura.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bianca, filha mais velha de Leda, comporta-se de modo arrogante e por vezes cruel. Exige da mãe, sem perceber ser ela a filha.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma cena dramática, Leda está exausta deitada no chão e Bianca penteia com agressividade seus cabelos, claramente tentando machucá-la. Em outra, Leda dá a ela sua boneca Mina para cuidar, à qual Bianca maldosamente estraga. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vendo com realismo, impulsos de ódio, inveja e competição tornam a vida de uma criança um verdadeiro tormento, repleto de angústias terrificantes, algo que Leda em sua visão ultra-realista consegue enxergar.</span></p>
<h4>Erotismo e maternidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Ilumina-se também no filme o conflito entre o erotismo e a maternidade / paternidade, como na cena em que Leda tenta se masturbar e é interrompida bruscamente pelas filhas, a ponto de muitos casais deixarem de ter vida sexual depois de tê-los, por culpa ou exaustão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conflito que parece ser quase irresolvível se não se é uma família aristocrática ou burguesa do século XIX, e se tem que criar filhos sem o auxílio de ninguém.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um terceiro elemento, este estético, iluminado no filme é a relação entre uma vida interiormente rica e a capacidade de se suportar a dor, como se vê em Leda e Lyle. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Na refeição que Lyle prepara à Leda observa-se duas pessoas vividas e maduras, que, a despeito da dureza da vida, foram capazes de se manterem alegres, joviais, bem humoradas e  pulsantes, como quando dançam alegremente no baile. Ela com um exuberante vestido vermelho; ele com a ginga e a graça de um menino. Competências psíquicas que independem da idade. </span></p>
<h4>Preconceito com a mulher que envelhece &#8220;sozinha&#8221;</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">De outro lado, vê-se a crueldade e o preconceito com que a mulher que envelhece “sozinha” é tratada, como na cena dos delinquentes no cinema, e no modo como Callie, cunhada de Nina, trata Leda na praia, não se conformando por ela estar sem as filhas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, Leda é o avesso do estereótipo da mulher velha, ressentida, amarga e infeliz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela viaja sozinha, canta em voz alta, dança, estabelece vínculos, encanta-se com as belezas naturais do lugar e gosta da sua própria companhia, embora sinta-se sozinha às vezes. Além disso, tem seus livros e interesses intelectuais próprios, companhias extraordinárias para quem tem vida interior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, Leda é a antípoda de três imperativos categóricos totalizantes que recaíram fortemente sobre a mulher a partir da modernidade: a da mulher, que &#8220;ama&#8221; ser mãe; a da criança, como única fonte de gozo para ela; a da velha, ressequida e amarga.</span></p>
<p>*O filme é uma adaptação livre da obra &#8220;La Figlia Oscura&#8221; (2012), da escritora que utiliza o pseudônimo Elena Ferrante.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Por um sentido digno à existência da mulher: reflexões sobre um domingo de Páscoa</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/por-um-sentido-digno-a-existencia-da-mulher-reflexoes-sobre-um-domingo-de-pascoa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Apr 2019 16:07:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[almoço do domingo]]></category>
		<category><![CDATA[Feminilidade]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Páscoa]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto aborda a condição feminina naturalmente vinculada à maternidade e ao cuidado com o lar a partir de uma situação vivida pela autora em um almoço de Páscoa</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1992 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2019/04/índice-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Há uma beleza dolorida na cena que deve ter se repetido em muitos lares do mundo todo neste último domingo de Páscoa: mulheres, por vezes idosas, cansadas e com dores pelo corpo todo, cozinhando para seus filhos, netos e, quem sabe, bisnetos.</p>
<p><span id="more-1991"></span></p>
<p>Com seus tachos e panelas enormes, estas mulheres fazem, com prazer ou não, o que talvez tenha sido a única coisa que lhes foi autorizado fazerem na vida, pelo menos em sua época: parir, cozinhar e alimentar sua prole.</p>
<p><!--more--></p>
<p>Ouvi de uma delas, que cozinhou para um batalhão de familiares que nem sequer a ajudaram a lavar a louça depois, embora tenham levado farta comida nas famosas “marmitas de mãe” para suas casas ao final do domingo, que, afinal, apesar de exausta, a vida não valia a pena senão por estes raros momentos.</p>
<p>Achei esta sua fala bonita e triste ao mesmo tempo. Bonita por que mostra toda a sua generosidade natural de mulher que sente prazer em doar seu tempo, sua vida, seu corpo e seu esforço físico a alguém que ama.</p>
<p>Triste porque é muito pouco para uma vida ter como único sentido que lhe cabe aguardar pelos almoços de domingo de Páscoa.</p>
<p>Olhando para ela, fiquei pensando quantos talentos esta mulher deixou de descobrir em si; quantas outras possibilidades de realização para além da maternidade e do cuidado da casa lhe escaparam por entre os dedos, seja porque ela não teve coragem de romper com os padrões ou porque acreditou mesmo que isso lhe bastaria.</p>
<p>Toda mulher que já abriu os olhos minimamente para sua condição, tenha ela setenta ou quarenta anos, sabe o quão exaustivo e por vezes frustrante pode ser alimentar uma família de folgados.</p>
<p>Gasta-se muito tempo comprando e preparando o alimento, põe-se a mesa, senta-se, come-se, levanta-se e quase sempre caberá à mulher, às avós, às mães e às filhas quando as houver em casa, retirar a louça, lavar e guardar tudo; dali quatro ou cinco horas, começa-se tudo de novo. Sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano&#8230;</p>
<p>Para as mais abastadas, para as que tiveram a sorte de estudar e ter uma profissão, livrando-se em parte do grosso do trabalho doméstico, o trabalho sobrará sempre para outra mulher, que cuidará dos nossos filhos, limpará nossas casas, fará nossas comidas e depois repetirá tudo, exatamente tudo, em seus próprios lares, à noite e aos finais de semana, quando já estão absolutamente exaustas e amortecidas pela repetição estéril deste trabalho sem fim.</p>
<p>Simone de Beauvoir dizia que o mais irritante e triste do trabalho repetitivo que se faz no lar é que ele não produz nada, não gera nada de valor para o mundo. Sua única função é lutar inutilmente contra a fatuidade da vida: limpa-se para se sujar de novo; come-se para defecar no minuto seguinte. Luta-se em vão contra a degradação que a própria vida gera para poder continuar a existir.</p>
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		<title>O problema da procriação em Freud.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jun 2017 18:34:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[procriação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda o problema da procriação em Freud, partindo do texto Sobre o Narcisismo: uma introdução. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-problema-da-procriacao-em-freud/">O problema da procriação em Freud.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/download-1.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1800 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/06/download-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O ato de procriar nos animais que têm seu comportamento sexual definido unicamente pelo instinto não é um problema moral. O que significa dizer que ele está fora do âmbito da escolha.</p>
<p>Mas o mesmo não acontece com os seres humanos, em que o ato de procriar inscreve-se – ou pelo menos deveria inscrever-se &#8211;  na problemática moral da escolha. Porque verdadeiramente desejo dar a vida a alguém é uma questão com à qual o ser humano minimamente inscrito na cultura deveria se debater em algum momento de sua vida.</p>
<p>Nesse sentido, será meu propósito neste texto, resgatar o que Freud postula a respeito do ato procriador nos seres humanos, a partir de suas reflexões no texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” e mostrar como aquilo que ele coloca lá, e que está implicado no ato procriador, costuma estar radicalmente recalcado no âmbito da cultura.</p>
<p><span id="more-1799"></span></p>
<p>Ressalto, antes de iniciar, que minha reflexão neste segundo quesito ficará centrada no âmbito do querer, ou seja, das demandas conscientes pelo ato procriador, demandas estas revestidas dos estereótipos sociais que circulam em uma dada cultura, e que estão sempre atrasadas em relação às práticas de vida dos sujeitos, colocadas em jogo no quotidiano. É exatamente este dissenso que cria as contradições entre aquilo que o sujeito diz que deveria fazer ou que deveria querer (discurso que se inscreve, sobretudo, na instância superegóica) e aquilo que ele efetivamente faz ou deseja para sua vida, que é o que está na ordem do inconsciente, e que só pode ser sondado em análise.</p>
<p>Esta diferenciação é de grande relevância para o psicanalista que na clínica escuta as abissais contradições entre o desejo emanado do inconsciente (o único verdadeiro gerador da implicação humana com seus atos) e o querer do ego-consciente, que produz atos desimplicados e, portanto, destituídos de sentido para o ser.</p>
<p><strong>Sobre o narcisismo: uma introdução.</strong></p>
<p>No texto sobre o narcisismo, escrito em 1914, Freud procura elaborar o que é este conceito, fundamental para compreender a experiência humana. Além de ligá-lo à uma perspectiva patológica inscrita no campo da perversão (que não nos interessa aqui), Freud argumenta que o narcisismo é uma experiência humana universal, ocorrida em certo momento do desenvolvimento, e que se centra em um completo e absoluto estado de apaixonamento por si mesmo e também de engrandecimento da potência do Eu. Este estado de apaixonamento por si mesmo deixará rastros inelutáveis pelo resto de nossas vidas e será algo que nenhum de nós conseguirá abandonar completamente. Freud diz que é muito difícil para o psicanalista apreender este fenômeno à olho nu, mas que ele pode observar fenômenos humanos em que seria possível inferir a presença de tal estado psíquico. Seriam eles: a vida mental das crianças e dos povos primitivos, certos estados patológicos e em determinadas formas de amar, dentre as quais, a forma como os pais “amam” sua prole.</p>
<p>Ou seja, para Freud, na forma mágica de pensar das crianças e dos povos primitivos, em determinados estados patológicos, mas sobretudo, na forma como os pais “amam” sua prole, o psicanalista poderia reconhecer traços do narcisismo, ou seja, deste estado de apaixonamento do sujeito por si mesmo. Neste último caso, o filho seria amado porque representaria narcisicamente a continuidade e o espelhamento dos pais.</p>
<p>Mas o pensamento de Freud é complexo e ele insinua ao longo do texto que haveria uma outra possibilidade amorosa implicada no ato de procriação, e que esta sim, poderia vir escrita sem aspas, porque seria o amor mesmo em um sentido altamente altruísta. Freud elabora esta ideia da seguinte maneira.</p>
<p>Partindo de uma perspectiva dúplice a respeito dos instintos, Freud acentua que a saída possível para o encimesmamento narcísico seria o amor objetal, que na prática, significaria uma abertura generosa para o estranho que o Outro sempre é para mim.</p>
<p>No âmbito da sexualidade, esta mesma existência dúplice aconteceria no sujeito. Uma que levaria em conta tão somente suas próprias finalidades individuais e narcísicas (algo como sendo minha prole um espelho meu que serviria para me satisfazer), e outra em que o sujeito estaria forçado a entrar no elo de uma corrente que o transcende, e que ele, portanto, serviria mesmo contra a sua vontade individual. Freud diz textualmente que no exercício da sexualidade procriativa o sujeito é</p>
<p>“(&#8230;) <em>um apêndice de seu germoplasma, a cuja disposição põe suas energias em troca de uma retribuição de prazer. <strong>Ele é o veículo mortal de uma substância possivelmente imortal – como o herdeiro de uma propriedade inalienável, que é o único dono temporário de um patrimônio que lhe sobrevive</strong></em>” (p. 87)</p>
<p>Esta afirmação estupenda de Freud nos leva a muitas questões.</p>
<p>Primeiro, que o exercício da sexualidade procriativa não seria fruto de uma escolha consciente do sujeito, mas um imperativo biológico, pois, neste caso, caso o sujeito pudesse, de fato escolher, talvez escolhesse não procriar, uma vez que a sua prole representaria o fim de si mesmo, portanto, sua própria morte individual. É surpreendente vermos Freud postular que, para forçar o sujeito a procriar, e de certo modo morrer, a natureza teria nos dado em troca uma quota de prazer sexual, algo sem o qual possivelmente não procriaríamos mais, ou só o faríamos com grande dose de renúncia narcísica.</p>
<p>Isso de fato acontece na prática cotidiana da procriação, embora as pessoas quase nunca se deem conta deste jogo perigoso de vida e morte que implica o ato procriador. Os futuros pais, e o caldo de cultura em geral onde circulam discursos do senso-comum que têm a função de sedimentar a continuidade destas práticas, e de recalcar a angústia implicada no ato de procriação, não se dão conta de que, no ato procriador mesmo, tal como se dá em nossa reprodução sexuada, para que um feto possa ser gerado, óvulo e espermatozoide (as células germinais que representam a sobrevivência egoísta da mãe e do pai) devem morrer. Assim, o filho gerado, será a um só tempo, a representação da continuidade, mas sobretudo da descontinuidade destes dois seres que, altruísta ou enganosamente, decidiram lhe dar a vida.</p>
<p>Seria, inclusive, muito interessante investigarmos o papel do ódio inconsciente ao estranho que representa o feto-criança, nas situações clínicas como depressão pós-parto, nos abortos espontâneos que ocorrem nos primeiros meses de gravidez, bem como nos “acidentes” que costumam acontecer envolvendo crianças pequenas e seus pais.</p>
<p>Ora, a percepção arguta de Freud a respeito da absoluta renúncia narcísica implicada no ato procriador contrasta radicalmente com as motivações que circulam no senso-comum a respeito do porque se deve querer um filho, e que dentro do discurso freudiano estaria posto do lado de um amor narcísico.</p>
<p>Diz-se, por exemplo, que se quer um filho para que ele seja um continuador de você e de seus genes, ou que se quer um filho para que ele cuide de você na velhice, ou ainda, para que ele herde os seus bens (empresa, nome da família, etc), ou simplesmente porque se quer ter um quartinho de bebê em casa.</p>
<p>Nota-se que em todas estas motivações o que está implicado é um anseio narcísico dos pais, seja por continuidade, seja por proteção infantil, em que não está preservado, nem de longe, o interesse do futuro sujeito, a quem nem sequer ainda lhe foi dada à vida, mas que já é requisitado a pagar alto preço em troca deste presente de grego.</p>
<p>Pois, esta vida, assim barganhada desde o início, mereceria mesmo ser vivida?</p>
<p>Vale mesmo a vida a pena, na medida em que quase toda ela será gasta pelo sujeito de existência barganhada, para tentar descobrir quem ele é no meio de tantas demandas alheias? E depois mais um outro tanto de tempo (talvez o próprio tempo de vida dele), para aprender a suportar a cara feia com que seus pais e seus conterrâneos o olharão por ele não mais querer aquilo que os outros quiseram que ele quisesse?</p>
<p>Não é um tanto quanto cruel pensar que queremos uma criança porque queremos que alguém cuide de nós na velhice, ou porque queremos que alguém continue a nossa empresa, ou porque amamos tanto os nossos genes que queremos que ele se perpetue na terra, ou porque queremos poder continuar brincando de mamãe e filhinho no nosso lindo quarto decorado de infância?</p>
<p>Tais motivações não seriam o antagonismo daquilo que Freud propõe que seja o verdadeiro ato ético procriador e que seria a plena aceitação da nossa morte e insignificância como indivíduos, para podermos dar lugar à um outro sujeito, pleno de potencialidades que, espera-se, possa nos superar e rapidamente esquecer que nós existimos para poder, ele mesmo, seguir o famigerado caminho em direção à sua própria morte?</p>
<p>Pois me parece que é isso que Freud quis dizer com sermos um apêndice do germoplasma que sobrevive à nós. A vida – isso que ele chamou de germoplasma – não é nossa mesma. Como me disse outro dia uma amiga: “Estamos aqui de aluguel. ”</p>
<p>A continuidade da existência do filho representa concreta e simbolicamente a morte dos pais, na sua absoluta descontinuidade e insignificância para a vida mesma. Para tomar lugar como apêndice na continuidade do germoplasma da vida, os pais enquanto sujeitos individuais devem saber perder sua existência, dando àquele que lhe sobrevive, o direito a continuar sua vida antes e depois de sua morte.</p>
<p>A negação desta realidade é tão maciça entre os seres humanos que é mesmo chocante dizer aos pais que eles precisam preparar seus filhos para o fato de que eles próprios, os pais, morrerão. O que está implicado neste ponto cego é exatamente o anseio de continuidade narcísica do eu. Também é chocante para os pais a perspectiva de que o ato de dar a vida deveria ser absolutamente altruísta: você dá a vida, cuida dela, sem esperar absolutamente nada em troca, nem reconhecimento, nem qualquer tipo de compensação. Para Lacan, esta seria a única possibilidade de se falar em uma real experiência amorosa: Dar aquilo que não se tem. Todo o resto, é barganha.</p>
<p>A experiência da procriação humana resulta, portanto, em descontinuidade narcísica e em selo de insignificância dos genitores, e não o contrário, como pensa comumemente o senso-comum. Você já parou para pensar que as crianças nem sequer sabem da existência de seus tataravôs e tataravós? Ora, se para a experiência humana continuar existindo para alguém é ser guardado na memória, em menos de duas gerações os tataravôs e tataravós deixarão de existir, ou seja, cairão no completo e poeirento vazio da inexistência.</p>
<p>Isso não é um drama no mundo dos instintos animais porque o animal não tem consciência de si mesmo e, portanto, não está aferrado narcisicamente a um anseio de continuidade, ou seja, de continuar existindo eternamente no tempo. Dito de outro modo, para o animal pouco importa se ele é insignificante para a natureza. Tudo o que ele quer é preservar sua existência a qualquer custo. Ele não é hipócrita, nesse sentido. Deste sentimento arrogante só o homem sofre porque lhe é absolutamente terrificante a perspectiva de que, tendo consciência de sua existência, ele deixará de existir um dia. Como o mundo continuará sem mim?; é o que pensará o sujeito ultrajado. Penso inclusive que o que mais aterroriza o ser humano não é o medo da morte, mas o medo de deixar de existir, que são coisas bem diferentes.</p>
<p>Entretanto, tal versão, violenta e competitiva, do ato procriador não costuma entrar em cena no discurso das pessoas, exceto em uma análise ou em sintomas patológicos, que é por onde o inconsciente tenta falar.</p>
<p>Só para citar três exemplos que me ocorrem de alguma mínima percepção deste jogo de vida e morte envolvido no ato procriador, lembro-me de uma amiga que recém descobriu sua gravidez e que se queixava comigo ao telefone de que estava extenuada e completamente sem energias. Enquanto à ouvia, pensava na relação de certo modo vampirizante que uma vida incipiente mantêm com seu objeto hospedeiro, o que explicaria bastante bem a extenuação libidinal de minha amiga.</p>
<p>Acontece então que se a mulher-hospedeira não puder abdicar de seu gozo narcísico com a criança, mas, ao contrário, solicitar dela o pagamento em troca de ter lhe dado tudo (inclusive, a vida), a relação pode vir a se tornar neurotizante no futuro. Daí a importância das mães poderem ter outras fontes de satisfação narcísica, para além da maternidade. Ou, para usar um conceito muito cara aos analistas, que ela possa ter acesso à outras formas de potência de realização fálica. Pois, se isso não acontece, a mãe tenderá a erotizar por demasia o seu bebê, colocando-o como única função de gozo em sua vida, e é aí que a relação neurotizante se instala: a criança fica impedida de crescer porque precisa satisfazer a mãe falicamente, e a mãe se sente culpada perante a criança por vir a ter outras formas de satisfação, para além da maternidade (como a realização profissional, por exemplo).</p>
<p>Esta questão que eu pontuo é importante para que possamos fazer uma psicanálise historizada, materializada. Não foi em todos os momentos históricos que a relação mãe-criança teve o potencial neurotizante tal como assistimos acontecer na aurora da modernidade. Primeiro, que antes a criança não era colocada no lugar do falo dentro da cultura. No período medieval, por exemplo, a criança era considerada um mini-adulto, daí que a categoria social criança, assim como a adolescência, nem sequer existiam.  Foi no momento em que começou a ser dada à mulher a possibilidade de alguma realização fálica pela via da maternidade que os pais, mas sobretudo as mães, viram em seus filhos e filhas a possibilidade de se realizarem falicamente. Isso aconteceu no exato momento histórico em que a família nucelar passou a ter a função de eixo estruturante da subjetividade, função esta antes realizada pelas posições simbólicas de Deus e de seu representante na terra, o Rei. Daí que quando Freud teoriza que o filho é o falo da mulher, ele estava narrativizando psicanaliticamante este momento histórico, em que foi dada à mulher alguma chance de realização de potência, ainda que no âmbito privado, algo que até então estava restrito aos homens. O que a mulher fez então? Agarrou-se à este naco de poder &#8211; o poder materno &#8211; e fez do seu filho uma extensão narcísica sua. A partir daí é que nasce o paciente psicanalítico: com uma mãe que o prende eroticamente, e um pai fragilizado que, por destituição histórica de sua função, não conseguia mais colocar um limite na desmesura feminina. Mas, este tema nos levaria a outro texto&#8230; Então, retomemos o fio da meada.</p>
<p>O outro exemplo me veio quando pensava nesta desmesura perigosa que implica a geração de uma vida foi o de um jovem e arguto psiquiatra que contou em sala de aula o caso de sua paciente que, durante toda sua gravidez, só comia miúdos de frango, algo que ninguém podia entender porquê. Disse a ele que esta sábia e astuta mulher estava percebendo inconscientemente o quão visceral e sanguinolento era gerar uma criança em seu ventre, e depois expeli-la para fora. Esta esquisitice alimentar era, portanto, o único jeito que ela estava encontrando de colocar este excesso de Real, que é a geração de uma vida, em uma cadeia de significantes. Na falta de mentes corajosas para falar sobre o quão assustadoramente visceral e assassino-suicida é um parto, só restava a ela comer miúdos de frango, identificando-se oralmente, ela própria, com as vísceras do bicho totêmico.</p>
<p>Um último exemplo que me ocorre me veio da minha insistente curiosidade a respeito de como vivem os bichos. Certo dia vi a cena de uma mãe passarinha comendo restos de seu próprio ovo. Chocante não? Só para os muito românticos. Na verdade, ela só estava fazendo aquilo que Freud pontuou insistentemente ser a lógica do instinto: colocando acima de qualquer outro imperativo biológico, sua própria sobrevivência individual. Ora, não é isso o que fazemos todos nós, mesmo que hipocritamente digamos que não?</p>
<p>Pois, finalizando, uma das grandes mensagens que Freud nos deixou neste texto, é que, por trás de todo ato amoroso, encontraremos sempre os rastros de um narcisismo nunca abandonado; porque é só com muita renúncia e dor que abdicamos do nosso Eu em detrimento do Outro. Mesmo no amor mais “altruísta”, aquilo que amamos no Outro é quase sempre um reduto do que fomos, do que somos ou do que queremos ser nós próprios.</p>
<p>Para aqueles que se interessam pelo tema e querem aprofundar suas reflexões, sugiro os livros:</p>
<p>Bataille, Georges. (1957). <em>O Erotismo.</em> Porto Alegre: L &amp; PM.</p>
<p>Cabrera, Júlio. (2009). <em>Por que te amo, não nascerás.</em> Brasília: LGE Editora.</p>
<p>Freud, Sigmund. (1996). Sobre o narcisismo: uma introdução. In.: Freud, Sigmund. <em>Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira</em>. Volume XIV, pp. 77-110. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-problema-da-procriacao-em-freud/">O problema da procriação em Freud.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Maternidade: escolha ou destino?</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maternidade-escolha-ou-destino/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2014 17:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Desejo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na semana passada vivi uma experiência desagradabilíssima, que servirá como estímulo para minhas reflexões neste texto. Vamos à cena: Eu e um médico ginecologista, bastante avançado em idade. Tratava-se de uma consulta de rotina. Depois dos procedimentos rotineiros, o médico me indaga, com olhar inquisidor: &#8211; Você não vai ter filhos? &#8211; Por enquanto não. &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maternidade-escolha-ou-destino/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Maternidade: escolha ou destino?</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/images.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1264 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/images.jpg" alt="images" width="197" height="256" /></a>Na semana passada vivi uma experiência desagradabilíssima, que servirá como estímulo para minhas reflexões neste texto. Vamos à cena:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Eu e um médico ginecologista, bastante avançado em idade. Tratava-se de uma consulta de rotina. Depois dos procedimentos rotineiros, o médico me indaga, com olhar inquisidor: </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Você não vai ter filhos?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Por enquanto não. Respondo prontamente.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Silêncio sepulcral&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1262"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ele, indignado (não sei se mais indignado com a resposta ou com o meu silêncio), continua:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Mas, você ou o seu marido tem algum problema físico?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Não. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Agora, já vermelho e com os olhos flamejantes, pergunta, em um misto de indignação e constrangimento:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Então, é uma escolha?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim, é uma escolha&#8230; </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O clima era tenso, quase prestes a explodir.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Era tragicômica a cena: eu diante daquele “bom velhinho”, cheio de “boas intenções”. Ele desesperado diante daquela jovem, grávida de desejos e de vida. Diante de alguém que já dançou muito de perto com o seu próprio desejo, para se submeter ao desejo do Outro&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Percebendo o seu constrangimento e terror diante do meu silêncio, resolvi ajudá-lo a sair do imbróglio e disse, em tom ameno:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; O senhor parece achar muito estranho uma mulher não querer ter um filho?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Minha fala foi como encostar uma agulha em uma bexiga cheia. Bum, agora explodiu &#8211; pensei com os meus botões. E, finalmente, o nosso “bom velhinho”, pôde nomear seu pensamento tenebroso:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim, eu acho um absurdo! (disse quase gritando). Você devia largar essa porcaria de remédio e viver a experiência de ter um filho</em>!</p>
<p style="text-align: justify;">Sai de lá bastante pensativa. O meu sentimento era o de estar cometendo um crime grave. De ser eu uma grave criminosa. Mas, qual seria o crime? De que é que aquele “bom velhinho” estaria me acusando? Fiquei tempos a pensar sobre isso porque intuía que nestas minhas indagações poderia descobrir coisas importantes sobre como as pessoas compreendem temas espinhosos, tão permeados por moralidades e idealizações, tais como, a maternidade, a natureza, o feminino.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, vamos a algumas das minhas associações:</p>
<p style="text-align: justify;">Qual o meu crime na visão daquele médico?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, há um crime contra a natureza. Este é da ordem do pensamento moralizante religioso. Cada espermatozóide desperdiçado em uma masturbação, cada óvulo que não é fecundado, para o pensamento religioso, é um assassinato. Um bebê potencial que deixa de nascer. O que, no pensamento primitivo, equivale a extermínio.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, há algo mais. Na perspectiva daquele médico, eu também era uma criminosa por estar desafiando a ordem da natureza dita “feminina”: a natureza fez a fêmea para parir, para procriar. Mas, nós não castramos cães e gatos para evitar a superpopulação? E, nós, humanos? Até onde eu sei a nossa espécie não está ameaça de extinção. Então, porque é que eu teria que contribuir com a propagação da nossa espécie – tão simpática, aliás – tendo um filho? Já não há seres humanos demais morando nesse planetinha azul? E, além disso – será que somos assim tão valiosos, uma raça tão boa e amistosa para se querer colocar mais um ser humano neste mundo? De minha parte, sinto que já pude elaborar um pouco do meu narcisismo e da minha necessidade de perpetuar meus genes (que nem acho tão maravilhosos assim!). Além do mais: se a questão é viver a experiência da maternidade, não há tantas crianças esperando mães e pais em abrigos? Não teríamos de pensar coletivamente como resolver o problema da falta de famílias para estas crianças antes de pensarmos em satisfazer nosso narcisismo?</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda pensando do ponto de vista evolutivo, ter um filho é uma contribuição do indivíduo com sua espécie, certo? Mas há inúmeras outras formas de uma pessoa contribuir com o desenvolvimento de sua espécie, por exemplo, fazendo avançar a ciência, governando um país, educando crianças que já foram colocadas no mundo ou , como é o meu caso, cuidando de gente já nascida &#8211; algo que tem valor inestimável para a geração presente e para as futuras.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estou querendo frisar a vocês é que ter um filho é uma responsabilidade ética para com a nossa espécie. Pois, na medida em que se decide dar vida à uma criança, os pais devem sim buscar oferecer à sociedade o melhor humano que eles puderem formar. E isso exige tempo, dedicação e muito trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, continuando minhas associações, há outros crimes envolvidos aí.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também o crime da liberdade e do prazer. Não há nada mais terrível para uma alma que já perdeu a chance de se perguntar o que anima o seu desejo do que a liberdade alheia. Talvez aquele médico, sobretudo com a proximidade da morte, ache muito arriscado viver com liberdade. Talvez também ele venha de um tempo em que mulheres não ousavam viver com liberdade, usar seus corpos e seus sexos para ter e dar prazer. Estamos aqui no campo do que se comumente chama “machismo” que nada mais é, em termos inconscientes, que o medo atávico que o homem carrega do sexo feminino.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da história, a figura feminina (este ser esquisito, castrado, sinistro e misterioso) sempre meteu medo no homem porque a mente infantil carece de condições de representar a ausência do pênis. Trocando em miúdos: para um homem, avistar uma mulher, significa lembrar-se do risco de sua própria castração. Relembro que Freud considerou que na fase fálica a criança, de ambos os sexos, considera a existência de dois tipos de seres humanos: os com pênis (meninos) e os sem pênis (meninas). A complexa noção do que é uma mulher, detentora de uma vagina e não só de um clitóris (pequeno pênis), só será constituída mais tarde, na fase genital. Só para exemplificar este temor inconsciente da figura feminina, basta nos lembrarmos das inúmeras figuras míticas construídas ao longo da história sobre a mulher: medusa (uma mulher cheia de cobras-pênis na cabeça), sereia (que enfeitiça e mata com seu canto sedutor), bruxa (figura perigosa que voa em sua vassoura-pênis), etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, para aquele médico, duplamente investido em seu narcisismo – por ser homem e por ser Deus-médico-vencedor-da-morte – aquela figura castrada e portadora de um corpo desejante, era duplamente assustadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Assustadora por ser mulher. Assustadora por desejar: não um filho (do homem), mas ser Sujeito do seu próprio desejo. Um ser que ousa não se sujeitar ao desejo do Outro (no caso que estou investigando, o saber médico, o saber masculino, o saber da natureza&#8230;).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, por outro lado, não seria este o objetivo final de uma análise? A possibilidade de um ser humano, homem ou mulher, poder encontrar sua própria trajetória narrativa marcada por infindáveis possibilidades de sentir e dar prazer na vida, para além do falo / filho?</p>
<p style="text-align: justify;">E, para terminar, há algo mais a ser dito. Trata-se do discurso: Ter um filho como uma experiência!</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um significante muito marcante quando o assunto é maternidade. Há neste mandamento a ideia implícita de que uma mulher, sem a maternidade, ficará com sua vida incompleta. Faltará a ela esta experiência sublime de parir. Ficará manca, incompleta, infeliz. Será?</p>
<p style="text-align: justify;">Pergunto duas coisas: A maternidade é mesmo uma experiência? E, aquilo que a maternidade propicia a uma mulher, só é vivida quando se tem um filho?</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos à primeira questão. Não, a maternidade não é um experimento, uma experiência na qual se pode entrar ou sair quando se quer. Não é como comprar uma roupa, escolher uma viagem, comprar um apartamento. Em todas estas situações, se você decidiu que não gostou da experiência – de ter aquela roupa, de fazer aquela viagem ou de comprar aquele apartamento – você pode voltar atrás sem grandes consequências.  A maternidade é uma escolha. Uma escolha que implica em consequências e responsabilidades para a vida toda. Uma mulher não pode querer viver a experiência da maternidade, só para experimentar, e depois não querer mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a maternidade não está no campo da experimentação. Ela está no campo das escolhas éticas e responsáveis que um ser humano adulto deveria estar preparado para fazer em sua vida. Daí a necessidade de cada um de nós se perguntar antes de ter um filho: Eu realmente quero um filho? O que significa ter um filho? Por que eu quero ter um filho? Que implicações isso vai ter em minha vida? E eu estou disponível para estas implicações?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso sem falar das motivações inconscientes para se desejar um filho, estas das quais a gente só pode conhecer algo na análise: dar um filho ao pai edípico, reparar danos feitos à mãe, reconstituir-se narcisicamente fazendo do filho um falo e por aí vai. Em um artigo muito interessante intitulado “Desejo de ter filho ou desejo de maternidade e paternidade?” a psicanalista Maria Lúcia Violante é enfática ao dizer que a maternidade / paternidade não é para quem quer, mas é para quem pode. Compartilho plenamente desta afirmação. A experiência da maternidade / paternidade requer lastro interno e percursos por dolorosas elaborações de nossas vivências edipianas.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar disso, o que eu vejo quotidianamente é muito diferente desta reflexão séria e profunda que a maternidade e a paternidade exigem: vejo mulheres e homens que decidem experimentar ter um filho, mas não levam em conta a responsabilidade implicada neste ato. Em seguida, vejo milhares de crianças sendo criadas por avós, já cansadas por terem realizado a sua dívida com a sociedade, que é cuidar de seus próprios filhos. Sinto muito, mas isso para mim não é maternidade. Maternidade implica crescimento mental, responsabilidade com a escolha, implicação do desejo!</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo o que eu disse vale também para a paternidade, embora, neste caso, a não implicação paterna seja mais fácil por não ser o homem a gestar, amamentar e ser responsável pelo cuidado primário de um bebê.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora, a segunda questão. Em 1940 ou 1950 pode ser que o único prazer acessível à mulher fosse mesmo parir. Mas, hoje, nós mulheres &#8211; graças à luta de mulheres corajosas que, a partir da década de 60, junto de outras minorias sociais, saíram às ruas em busca de reconhecimento e de direitos &#8211; temos o privilégio de ter prazer em infindáveis tarefas: escrever livros, estudar, trabalhar, gozar de uma relação satisfatória na parceria amorosa*, viajar, comer bem, dormir bem, ler livros, ver bons filmes&#8230; A lista é infindável. Então, acho ótimo que nas classes mais favorecidas, intelectual e financeiramente, a maternidade tenha sido cada vez mais uma escolha e não uma imposição da natureza. Sinal de que nós estamos evoluindo, deixando de ser só bichos. Mas, como esta minha experiência mostra, o caminho ainda é longo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, dedico este texto a todas as mulheres corajosas que insistem quotidianamente em fazer falar o seu desejo, colocando-se como sujeitos protagonistas de suas histórias e não como objeto de desejo alheio.</p>
<p style="text-align: justify;">Também dedico este texto – como um alerta – a todas as mulheres desavisadas que porventura tiveram um filho não para atenderem a um desejo vindo de suas entranhas, mas para satisfazer o desejo alheio bem como o próprio desejo de ser objeto do desejo alheio. Lamento por estas pessoas e por estarem tão desavisadas quanto ao que as anima verdadeiramente. Reafirmo que o exercício ético de sermos seres desejantes, tal como aprendemos com a figura trágica de Antígona, é uma escolha que requer muita coragem e bravura.</p>
<p style="text-align: justify;">*Não compartilho da ideia feminista que nega a diferença entre os sexos, insistindo na premissa de que “homens e mulheres são iguais” ou “não nascemos homens ou mulheres, mas nos tornamos homens e mulheres”. Esta ideia do ponto de vista psicanalítico é incompreensível. O fato de uma criança humana nascer dotada de um pênis ou uma vagina traz consequências psíquicas marcantes e indeléveis para sua identidade. Ou seja, homens e mulheres são diferentes e esta diferença está inscrita, desde sempre, em seus corpos (erógeno, social, cultural). As confusões neste campo surgem – de ambas as partes – quando a percepção da alteridade (de que homens e mulheres são diferentes, com funções complementares) cede espaço ao discurso da submissão e da superioridade / inferioridade de um sobre o outro. Isso me faz pensar que, em termos sociais, ainda temos dificuldade de sair do modo de pensamento do momento fálico em que só há duas categorias de humanos: os que dominam e os que são dominados.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/maternidade-escolha-ou-destino/">Maternidade: escolha ou destino?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Álbum de família: ódio materno e transgeracionalidade no vir a ser mulher.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jan 2014 13:03:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Álbum de família]]></category>
		<category><![CDATA[Feminilidade]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[mito do amor materno]]></category>
		<category><![CDATA[ódio materno]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Meu intuito neste texto é utilizar o filme “Álbum de família”, exibido nos cinemas brasileiros em dezembro de 2013 como um modelo para pensarmos dois aspectos fundamentais à psicanálise: Presença da transgeracionalidade na construção do inconsciente individual Necessária passagem por zonas áridas de desamparo e solidão radical do sujeito que almeja se desenvolver e se &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/album-de-familia-odio-materno-e-transgeracionalidade-vir-ser-mulher/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Álbum de família: ódio materno e transgeracionalidade no vir a ser mulher.</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRv_171isBGbG_ql5bacGQChOhnHkS0k4SYhWpLXUhGqiQjafOZ" alt="" width="298" height="169" />Meu intuito neste texto é utilizar o filme “Álbum de família”, exibido nos cinemas brasileiros em dezembro de 2013 como um modelo para pensarmos dois aspectos fundamentais à psicanálise:</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><em>Presença da transgeracionalidade na construção do inconsciente individual</em></li>
<li style="text-align: justify;"><em>Necessária passagem por zonas áridas de desamparo e solidão radical do sujeito que almeja se desenvolver e se diferenciar psiquicamente ou, dito nos termos de Lacan, daquele que busca romper com o discurso familiar.</em></li>
</ol>
<p><span id="more-846"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Nesta análise irei ainda enfatizar um aspecto muito presente nesta obra que é a presença dos sentimentos de ódio da mãe dirigido a seus filhos (as). Ressalto neste sentido que para o senso-comum é bastante aceitável a ideia de que os filhos nutram sentimentos de ódio por seus pais, mas é bastante incômodo o reconhecimento de há em todas as mães (e pais) sentimentos de ódio e de inveja por seus filhos (as), embora este elemento esteja frequentemente presente em contos de fadas e na filmologia em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">Só para citar alguns exemplos, temos os contos da Branca de Neve e da Cinderela e no cinema, o filme de Ingmar Bergman “Sonata de Outono” e o recente filme “Cisne Negro”, que fez tanto sucesso provavelmente pelo fato de ter conseguido demonstrar com clareza e pertinência a inveja que a mãe da bailarina Nina nutria pelo seu sucesso e desenvolvimento gerando na filha estados terroríficos de despersonalização psicótica.</p>
<h2 style="text-align: justify;"> Mito do amor materno:</h2>
<p style="text-align: justify;">Adiante demonstrarei que o mito do amor materno, amplamente analisado por Elizabeth Badinter pode ser considerado uma espécie de formação reativa contra a percepção da existência destes incômodos sentimentos. Ou seja, o que quero dizer é que existe uma forte idealização da maternidade, como se o amor materno fosse algo natural e divino e como se dentro da mente da mulher não existe nada mais além de sentimentos amorosos por sua criança. Por outro lado, discutirei que à medida que o sujeito (no caso, a mãe) pode se dar conta de sua ambivalência com relação a seus filhos, a maternidade pode ser vivida por esta pessoa com doses menores de culpa já que grande parte deste sentimento deriva exatamente da presença do ódio inconsciente dentro da mente da mãe dirigido à sua criança. A forte reação popular e da opinião pública frente às inúmeras mães que matam ou abandonam seus filhos demonstra-nos como é difícil para as pessoas aceitarem em si mesmas a presença de desejos filicidas. Mas, como sabemos, eles existem dentro de todos nós!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Encontros familiares de Natal:</h2>
<p style="text-align: justify;">Interessante destacar ainda que este filme foi lançado no Brasil próximo à data festiva do Natal – momento em que os encontros familiares costumam provocar tanta turbulência, não sendo incomum nestes encontros familiares a presença de brigas e discussões. Como se diz no senso-comum, o encontro de Natal é, com frequência, um momento de se “lavar roupa suja”. Deriva daí, inclusive, o fato de que muitas pessoas nesta época se queixam de estarem se sentindo deprimidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, vamos ao filme, ou melhor, ao título. Ao ouvir este título a primeira associação que me vem é a de um álbum de família. O que costumamos encontrar em álbuns de família? Alegria, encontros felizes, registros de aniversários, casamentos, formaturas, nascimento de filhos, etc. Até onde posso pensar ninguém tira retratos de momentos de morte, de brigas, de tensões familiares, ou seja, ninguém costuma retratar os momentos difíceis, feios (no sentido da desagregação provocada pela irrupção do ódio) e turbulentos que, como sabemos, estão presentes em todas as famílias.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O lado B do nosso Álbum de Família:</h2>
<p style="text-align: justify;">               A proposta deste filme é, portanto, mostrar ao expectador o lado B de um álbum de família, ou seja, aquilo que não costuma aparecer nas fotos, mas que nem por isso deixa de existir: os ódios mútuos, as mentiras e falsificações, os ataques velados ou explícitos, o suicídio, a doença mental, o desejo de destruir e assassinar o outro&#8230; Tudo isso está ali explícito neste álbum de família.</p>
<p style="text-align: justify;">A história é a seguinte: Violet (Meryl Streep) é uma mulher muito doente psiquicamente e, como ficamos sabendo mais tarde, alguém que não pôde escapar à violência de sua própria mãe. Seu ódio à vida, ao casamento e às filhas é explícito. Ela e o marido Beverly (Sam Shepard) tiveram três filhas: Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis). Violet desenvolveu um câncer na boca e encontra-se viciada em remédios contra a dor (mental?). É a boca, ou melhor, o que sai dela que a mata lenta, mas inexoravelmente. De sua boca não saem elogios, nem palavras de amor ao marido ou às filhas. Nem tampouco à funcionária índia que cuida de sua casa e de sua comida, carinhosa e silenciosamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista psicanalítico sabemos que alguém que está tomado pelo ódio está doente psiquicamente. A doença de Violet é ter sido raptada pelos impulsos de morte, pela desagregação psíquica, ficando por isso incapaz de amar a si mesma e a seus semelhantes. Seu marido, provavelmente sentindo-se muito pressionado e desesperançado diante da condição de sua esposa, desiste da vida. Deixa a ela um bilhete dizendo que iria tirar a própria vida. Fala-lhe onde e como faria isso, mas Violet não consegue salvá-lo e prefere retirar o dinheiro do marido do banco a ir a seu encontro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua condição de miserabilidade interna é visível e o seu sentimento de penúria é evidente – daí o apego excessivo ao dinheiro, que pode ser compreendido como um temor dela de sucumbir e morrer de fome (psiquicamente). Bion diz que a criança com muita dificuldade para amar pode fazer uma cisão entre o leite concreto que recebe da mãe e o afeto que vem junto com o ato de ser alimentado. Neste caso, penso que é este tipo de funcionamento que está em jogo. Ela não consegue salvar a relação afetiva porque, para ela, o sentimento de ser cuidada vem do dinheiro (concreto) e não da relação conjugal. Em suma, Violet está muito distante das verdades fundamentais que regem a vida humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desta cena psíquica catastrófica, seu marido tira a própria vida e agora as três filhas precisam se encontrar para velar o pai morto (ou assassinado pela mulher?) e para decidir o que farão com sua mãe e consigo mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontro sofrido e difícil que remete a um retorno às próprias origens, às próprias feridas narcísicas, à violência materna dirigida a elas e às suas feminilidades. Nenhuma das três, como fica evidente no filme, pôde se desenvolver plenamente o que nos faz pensar que não houve, no caso de nenhuma delas, uma boa introjeção de uma mãe acolhedora, amorosa e continente que pudesse ajuda-las a se desenvolver pela vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Barbara, interpretada por Julia Robert parece-me ser a mais preservada psiquicamente. Mulher forte e corajosa. É ela quem, a meu ver, irá com mais contundência enfrentar o que estou chamando aqui de atravessamento de zonas áridas de desemparado e solidão para confrontar o discurso familiar, ou melhor, o discurso materno. Ao longo do filme é evidente como em muitos momentos ela repete o discurso da mãe (dito de outro modo: comporta-se como a mãe), sobretudo com relação ao marido e à filha, e é frente a esta repetição que ela se será chamada a se posicionar.</p>
<h2 style="text-align: justify;">A transgeracionalidade no vir a ser mulher:</h2>
<p style="text-align: justify;">          Mas, vamos ao primeiro ponto que quero discutir aqui: o tema da transgeracionalidade; algo tão atual na psicanálise. Há uma cena do filme em que, depois de um encontro das três irmãs em que elas discutem e Ivy culpa Bárbara por tê-la deixado sozinha cuidando da mãe, elas saem para o quintal e encontram Violet sentada em uma cadeira de balanço. Remeto esta cena de Violet sentada na cadeira de balanço a uma comunicação de que algo precisava ser remetido à infância da protagonista para que pudéssemos compreender melhor o porquê de tanto ódio dirigido às filhas, ao marido e a si própria. E é exatamente isso que acontece neste momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Violet conta às filhas sobre um episódio muito doloroso (e traumático) vivido entre ela e sua própria mãe. Era véspera de Natal e Violet, então ingressando na adolescência, estava perdidamente apaixonada por um garoto da cidade. Solicita à mãe que lhe compre um lindo par de botas que viu em uma vitrine na cidade e diz à mãe que disso dependia a sua chance de, finalmente, conquistar o garoto. A mãe insinua à Violet que lhe dará o tão sonhado par de botas no dia de Natal. Diz a ela que vá se deitar porque no dia seguinte teria uma surpresa. Então, ela vai se deitar, mas não consegue dormir durante toda a noite, tamanho o desejo de finalmente poder ter as botas – representação de sua autorização para rumar à sua feminilidade. No dia seguinte, logo pela manhã, dirige-se ao lugar em que a mãe havia deixado uma bonita caixa de presentes. Abre-a, quase sem fôlego e encontra dentro um velho par de botas masculino.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Porque a mãe de Violet fez isso? Porque ela cometeu esta maldade com a filha, vivência que pela minha interpretação do filme, teve o efeito de um profundo trauma psíquico em Violet, impedindo-a para todo o sempre de usufruir do prazer de ser mulher, de amar o seu marido e suas filhas?</p>
<p style="text-align: justify;">A mensagem da mãe é bastante clara ao dar o par de botas velho e de homem. A mãe diz à filha Violet, por meio deste gesto: Eu gostaria que você fosse homem. Odeio o fato de você ter nascido mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe uma possibilidade interpretativa para este gesto da mãe bastante freudiano: ela teria permanecido aprisionada aos seus sentimentos de inveja do pênis e nunca pôde perdoar a si mesma e tampouco a sua filha por terem nascido mulher, ou seja, sem pênis. Este ódio à sua condição “sem pênis”, ou melhor, sem falo (potência em psicanálise), também explicaria bastante bem a presença, nesta família, de mulheres que frequentemente humilhavam e rebaixavam todos os homens da família.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, não é por aí que eu gostaria de ir. Esta análise é bastante pertinente do ponto de vista psicanalítico, mas a meu ver, não vai mais fundo no sentimento de ódio que Violet e sua mãe acalentavam sobre a sua condição de ser humana e mulher.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQhpLmNhPQolOIVhngAJMbCogVEsXat-ICwPoGHOqq_oq1RaEsq" alt="" width="190" height="266" />Ou seja, gostaria de enfatizar que, a meu ver, o filme fala das conflitivas transgeracionais que foram sendo repetidas e reeditadas nesta família com relação ao processo de vir a ser mulher. Ou seja, a mãe de Violet não tinha prazer em ser mulher – algo que foi comunicado muito precocemente à sua filha. Violet por sua vez (em uma versão talvez piorada da mãe, já que os conflitos inconscientes que não são elaborados em uma geração comparecem de forma mais intensa e disruptiva na geração seguinte) não pôde amar ser mulher e tampouco pôde espelhar para suas filhas a feminilidade delas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, nenhuma delas pôde se estabelecer amorosamente em uma relação conjugal, ou seja, formar um casamento sólido e amoroso. Karen se envolve com homens perversos, gigolôs que a traem e a tratam sem o menor respeito – respeito que ela não consegue sentir por si mesma; Ivy apaixona-se por seu próprio irmão, denunciando a completa falha de elaboração em suas vivências edípicas. Bárbara, por outro lado, por ser a mais preservada psiquicamente, consegue escolher um homem que a ama, mas por estar identificada demais com sua mãe, comporta-se com ele, em muitos momentos, como uma mulher fria e distante. O mesmo repete-se com sua filha.</p>
<p style="text-align: justify;">Freud, em um de seus textos sobre a feminilidade diz que qualquer psicanalista que queira compreender as complexas teias de identificações que acontecem no psiquismo da mulher, deveria remeter sua análise às primordiais e precoces relações que a menininha estabeleceu com sua mãe; complexidade da qual, pelo menos em parte, o menino se acha preservado, por ter um corpo concretamente diferente do de sua mãe (ter um pênis) e por ser alvo prioritário dos desejos libidinais dela. Neste sentido, é evidente como a relação entre uma mãe e seu filho é muito menos repleta de turbulências e de ambivalências, do que a relação de uma mãe com sua filha!</p>
<p style="text-align: justify;">Para Violet o ser mulher estava vinculado à beleza externa e não a um sentimento de prazer por Ser mulher. Por isso ela se queixava tanto de estar envelhecendo. Por isso ela odiava estar perdendo seus encantos. O que Violet não sabia é que o prazer de ser mulher é uma condição interna e não está ligado à concretude da aparência física.</p>
<p style="text-align: justify;">É para o caráter nefasto da repetição dos conflitos inconscientes que a psicanálise chama a atenção: conflitos inconscientes que não puderam ser elaborados em uma geração, serão transmitidos à geração seguinte, via linguagem inconsciente, sem que as pessoas se deem conta. Desta forma, várias gerações estariam condenadas a repetir conflitos de gerações anteriores, de forma cada vez mais destrutiva para os membros familiares. É do caráter perturbador, enlouquecedor e mortífero desta cadeia de repetições inconscientes que nos fala Álbum de Família. Neste sentido podemos nos perguntar: quando tiramos um retrato de Natal, com todos os membros da família reunidos, será mesmo que naquela foto comparecem somente as pessoas presentes? Desta perspectiva psicanalítica, certamente não. Na foto, há, além dos vivos, fantasmas, ou melhor, discursos dos fantasmas sobre como é ser daquela família; como é ser homem naquela família, como é ser mulher, ou seja, qual o papel destinado a cada um de seus membros.</p>
<h2>O atravessamento de zonas áridas de desamparo e solidão:</h2>
<p style="text-align: justify;">Então, chegamos ao segundo ponto da minha análise: para o sujeito romper com este padrão de repetição alienante ele necessitará ser corajoso o suficiente para percorrer zonas áridas de profunda solidão e de desamparo. Dito em termos de Lacan: para poder conseguir romper com o discurso familiar, alienante e mortífero, ele deverá suportar questionar seu lugar de objeto de desejo do Outro.</p>
<p style="text-align: justify;">É isso que Bárbara consegue fazer, pelo menos parcialmente. Nos momentos finais do filme, quando todos já tinham partido, ela, ao perceber o caráter alienante e alienado da fala de sua mãe – que, no fundo, nem se dava conta da presença de sua filha como uma alteridade – Bárbara parte com seu carro, rumo à estrada.</p>
<p style="text-align: justify;">  Que estrada é esta? Obviamente não se trata pura e simplesmente da estrada que leva a outra cidade. Trata-se da estrada que leva à diferenciação psíquica, da diferenciação entre ela e sua mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma das cenas mais bonitas do filme, Bárbara dirige cada vez para mais longe da casa de sua mãe (da casa do seu passado, de sua infância, de suas origens). Dirige como que automaticamente (ou desesperadamente?). Então, ela para o carro e desce: olha para trás (para sua identidade infantil que almeja ser Tudo para sua mãe); olha para frente (para sua identidade adulta, casada, feliz e diferente de sua mãe) e faz uma ESCOLHA.</p>
<p style="text-align: justify;">É aí que se instaura o sujeito. Neste ponto de convergência (ou de divergência?) entre passado e futuro, entre voltar e seguir adiante. Onde o que precisaria ser visto já está visto e não dá mais para recuar. Mas, onde também seguir adiante é doloroso porque implica na percepção de que se segue só; absolutamente só.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, milhões de pessoas no mundo não deixam sua condição infantil, muitas vezes, porque deixar isso implica em deixarem de ser Tudo na vida de alguém. Ao contrário: seguir adiante, fazer escolhas implica, por outro lado, arcar com o próprio desejo, ser guia de sua própria história e não uma mera repetição da história dos pais. Lacan chegou a dizer que só se pode falar em final de análise quando o sujeito em questão pôde se aproximar de sua condição de completo desamparo e solidão na vida. Dito de outro modo: só podemos falar em “final de análise” quando pudemos sentir no corpo e na carne o fato inexorável de que somos sós e absolutamente responsáveis por nós mesmos e mais ninguém!</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um dos aspectos mais importantes e mais dolorosos (momentos catastróficos) do desenvolvimento psíquico.</p>
<p style="text-align: justify;">Bárbara, com toda sua coragem, conseguiu seguir adiante. Meu sentimento ao sair do cinema era o de uma grande torcida – a torcida de que ao final desta estrada ela pudesse se encontrar com um divã. Afinal, o filme é uma alegoria de um processo longo, difícil e muito doloroso. O que quero dizer é que o final desta estrada é só o início de muitas outras. Chegando lá (onde quer que isso seja), Bárbara ainda tem muitas coisas a elaborar – seu casamento, sua relação com sua filha, consigo mesma, com sua própria feminilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, de qualquer forma, a mensagem do filme é de esperança: o primeiro passo para a diferenciação foi dado. A estrada poeirenta, solitária e arenosa já foi inaugurada pela protagonista – talvez a primeira de três gerações a ter a coragem necessária de seguir adiante. Neste caminhar, ela leva consigo, de forma amorosa e guerreira, todos aqueles que ficaram. Também facilita caminhos para os que virão depois dela.</p>
<h2>O ódio da mãe pela filha:</h2>
<p>Por fim, há um último elemento que gostaria de destacar. Eu disse acima que é muito difícil para as pessoas aceitarem que uma mãe possa odiar seu filho (a), embora isso aconteça muitas e muitas vezes na relação entre a mãe e sua criança.</p>
<p style="text-align: justify;">Em se tratando particularmente do ódio presente na relação da mãe com sua filha mulher – que é do que trata o filme – as motivações inconscientes para isso são várias:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;">Inveja pela juventude e beleza da filha, no momento em que a mãe se dá conta do seu envelhecimento e da perda do seu próprio encanto e beleza externa. Neste caso, se a mulher não pôde ir construindo pela vida outras formas de se sentir potente com relação à sua própria feminilidade, o sentimento de inveja e desejo de destruir o encanto da filha fica ainda maior, já que a mãe sente que não há mais nada com que possa contar internamente para se sentir uma pessoa de valor e bonita. No filme este elemento fica evidente quando Violet diz à suas filhas que elas estão horríveis e que logo serão trocadas por uma mulher mais jovem e mais bonita. Neste caso, fica evidente a depreciação feita por ela com relação à beleza das filhas. Isso pode explicar, em parte, o fato de Bárbara (interpretada por Julia Roberts, uma mulher belíssima) ter tão pouco cuidado com sua própria aparência.</li>
</ul>
<ul>
<li style="text-align: justify;">Pode haver uma identificação narcísica feita pela mãe com relação à filha, algo que também fica evidente no filme. Neste caso, a mãe vê a si mesma em sua filha e tende a se relacionar com ela (filha) do mesmo modo como se relaciona com a imagem de si mesma no passado. No caso do filme, como Violet não pôde investir em si mesma (pela impossibilidade da mãe de ajudá-la com isso) sentimentos amorosos e de respeito por quem ela era, tratava as filhas do mesmo modo, rejeitando-as e odiando-as como odiava a si mesma. Trata-se neste caso de dificuldades na elaboração de vivências precoces de separação e diferenciação eu – outro. Relembro a vocês que, conforme nos ensinou Lacan, o narcisismo de vida que a criança irá investir em si mesma, sendo capaz de se amar, depende em grande parte do olhar amoroso da mãe para com ela. Ele nomeou este processo de “fase do espelho”. Dito em termos mais poéticos, são os olhos da mãe que espelham para criança a imagem que ela terá de si própria. Esta imagem pode ser bonita ou feia, dependendo do olhar que a mãe tem sobre sua filha.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Seria necessário o desenvolvimento de outro artigo para analisarmos o ódio que pode estar presente na mente de uma mãe por seu filho, já que obviamente a questão da identidade sexual da criança a posicionará dentro do mundo fantasmático da mãe de maneira diferente e singular.</p>
<h2>O que quer uma mulher?</h2>
<p style="text-align: justify;">No texto em questão tive como objetivo discutir e pensar sobre a particularidade da relação da mãe com sua filha, e da filha com sua mãe. Penso que Freud nunca pôde chegar a fundo na questão “O que quer uma mulher” porque, como o filme evidencia, o mergulho nestas zonas áridas e repletas de rivalidades, competições, desejos assassinos, invejas e ódios não é tarefa fácil, sobretudo para um homem. Melanie Klein, talvez por ser mulher e por ter experimentado a qualidade explosiva desta relação com sua própria mãe, foi a psicanalista que mais se aproximou destas questões, apesar de ainda assim ter enfatizado prioritariamente o ódio e a inveja que a menina sente da mãe e não o contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a proposta de filmes como este, assim com a mitologia presente em contos de fadas e histórias infantis, serve bem ao propósito de oferecer estímulos ao psicanalista e às pessoas em geral para pensarem e refletirem sobre aquilo que estou chamando de lado B do álbum de família. Com sorte, se pudermos pensar e acolher o lado B de nossas histórias poderemos não mais repeti-las, mas transformá-las e a nós próprios em sujeitos de nossa própria estrada.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/album-de-familia-odio-materno-e-transgeracionalidade-vir-ser-mulher/">Álbum de família: ódio materno e transgeracionalidade no vir a ser mulher.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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