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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Wed, 22 Jun 2022 17:33:06 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Sete andarilhos no coração profundo da Canastra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jun 2022 14:04:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[contemplação]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora relata sua experiência caminhando por dois dias no coração profundo da Serra da Canastra, em Minas Gerais. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/sete-andarilhos-no-coracao-profundo-da-canastra/">Sete andarilhos no coração profundo da Canastra</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-caminhada-1.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2559 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-caminhada-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-caminhada-1-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-caminhada-1-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Já disse em outro texto o quanto caminhar prepara à contemplação estética da vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desta vez, percorri quarenta quilômetros, rumo ao coração profundo da Canastra, acompanhada de um animado grupo de seis andarilhos, numa travessia de dois dias que partiu da Serra Preta, passando pelo Vale da Gurita até o Chapadão da Babilônia. </span></p>
<p><span id="more-2542"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Minha enorme resistência ao desapego civilizatório sentiu-se logo na primeira noite, e mesmo antes, com sonhos aterrorizantes de cobras e escorpiões entrando na barraca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-barraca.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2563 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-barraca-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-barraca-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-barraca-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>O medo de acampar pela primeira vez e o pudor de defecar “em público” foram cedendo espaço ao maravilhamento quase dolorido que o recair espesso da noite densa provocaram no céu. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem luz alguma, exceto a das lanternas de nossas cabeças, que, percebi, usávamos timidamente como para não ferir o sublime, constelações inteiras puderam ser vistas à olho nú, o que nos rendeu um estado de embasbacamento completo, além de um torcicolo daqueles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que percebi sobre isso é que, rompida a primeira resistência à imersão completa na natureza, começa-se a se viver um estado de integração com ela, onde deixa de ser relevante tomar banho na água fria, ter que defecar no mato e ser picado por carrapatos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, na natureza somos todos absolutamente iguais: fedidos, picados e com intestinos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No meu caso e no do meu marido, um dos efeitos “detox” desta imersão absoluta na natureza foi um desarranjo intestinal/estomacal, que associamos ao efeito purificador da natureza em nós. Sem contar também o efeito da completa exaustão física sobre o organismo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No último dia da viagem, estava tão perigosamente identificada à natureza que não percebi o risco de hipotermia que corri ficando muito tempo na água gelada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-por-do-sol.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2566 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-por-do-sol-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-por-do-sol-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-por-do-sol-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Outra experiência sublime foi testemunhar o nascer do Sol. Vendo o céu se pintar de tons alaranjados nos primeiros raios da aurora, dei-me conta do quanto a luz solar enseja esperança e obstinada vontade de viver. Daí uma pessoa que não se alegra a cada dia que “nasce” estar seriamente doente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No último dia da travessia, em que acampamos no alto do Chapadão, acordamos às cinco horas para ver o raiar do Sol e eu quase podia tocar o sentimento de reverência que aquela beleza nos despertava. Foi algo muito bonito de se ver: todos em silêncio e em completo estado de oração. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, era o fim do percurso. Subimos em nossos carros e os nossos guias, muito perceptivos, colocaram para ouvirmos músicas bonitas e o conto A Terceira Margem do Rio, do Guimarães Rosa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste momento, à medida que o carro avançava e aquela paisagem insólita, primordial e hiperbólica de chapadões e campos penetravam nossos olhos, o desejo era o de agarrá-las para sempre na memória, pois a despedida já se anunciava. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste momento, enquanto eu derramava algumas lágrimas, tomada de muita emoção, um dos viajantes disse que em outra vida ele deve ter sido um andarilho, o que eu achei muito bonito e oportuno para a ocasião. </span></p>
<h4><b>O impacto estético das paisagens</b></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante as caminhadas do primeiro e segundo dia, o impacto estético foi ir percebendo a transição de uma paisagem à outra, sendo a Serra Preta uma região que remetia mais à sensações de rudeza e de aridez e o Vale da Gurita, à sensações de aconchego e vastidão, por suas formações geológicas arredondadas e de grande apelo cênico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já a travessia do</span><span style="font-weight: 400;"> Chapadão da Babilônia pelo alto, foi particularmente tocante para mim. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-paisagem.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-2567 alignleft" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-paisagem.jpg" alt="" width="220" height="123" /></a>Vendo aqueles grandes paredões rochosos intercalados por vastos campos com vegetação típica do cerrado a perder de vista, experimentei algo que Thomas Mann buscou descrever em A Montanha Mágica, a saber, a incômoda percepção da radical indiferença da natureza quanto a nós. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que significa que nós precisamos dela, mas ela absolutamente não precisa de nós.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fui informada depois por um dos viajantes que, neste trecho do percurso, ele foi tomado por um angustioso sentimento de despersonalização em que ele ficava se perguntando: </span><i><span style="font-weight: 400;">Que dia é hoje? Que dia é hoje? </span></i><span style="font-weight: 400;">Mecanismo que pode ser interpretado como defesa básica contra a angústia do assombro, despertada, neste caso, pela paisagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hipotetizo que algo deste tipo deve ter sido experimentado pelos homens que foram à Lua. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-por-do-sol-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2564 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/06/foto-por-do-sol-2.jpg" alt="" width="200" height="112" /></a>Finalizando, ir e voltar de uma experiência desta é um pouco mais fácil quando se gosta da vida que se tem, o que é o meu caso, onde a saudade de casa e o retorno às coisas amadas funcionam como bálsamos curativos às intensas experiências vividas. Sim, pois a beleza pode ser tão desestruturante ou até mais que a feiura. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com isso, volta-se às misérias cotidianas da vida um pouco mais energizado, avisado de que o que importa mesmo é se chegar ao “tutano da vida”, como me explicou um paciente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como cada qual fará isso, é a arte de cada um.</span></p>
<p>Para acessar o álbum completo da expedição, clique <a href="https://photos.google.com/share/AF1QipNMZ3YOa9aXnQImedV8E0n-TvsG0ktKP74BDdxqykHH41fArXbfu-PdXfC7YIFJPw?key=dnoyV2NRb0dTaW0tUll0empFSXdZWnZWMzdTa21R">aqui. </a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/sete-andarilhos-no-coracao-profundo-da-canastra/">Sete andarilhos no coração profundo da Canastra</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Impressões de uma psicanalista andarilha no Vale do Pati</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Dec 2021 23:01:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[contemplação]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões antropológicas e estéticas da autora a partir de uma experiência de trilha no Vale do Pati, na Chapada Diamantina. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/impressoes-de-uma-psicanalista-no-vale-do-pati/">Impressões de uma psicanalista andarilha no Vale do Pati</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2466 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" />O estado de expectativa que antecedeu os últimos dias da viagem prenunciava as fortes emoções que viveria no Vale do Pati, rica região geológica da Chapada Diamantina, incrustada no coração do sertão da Bahia. </span></p>
<p><span id="more-2462"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Renunciar ao conforto habitual, caminhar longas distâncias carregando só o essencial sem encontrar ninguém pelo caminho, exceto outros caminhantes, dormir em casebres de taipa sem luz elétrica em que só chegam mantimentos por mulas e estar distante um dia de caminhada do posto médico mais próximo &#8211; tudo isso em meio à paredões rochosos espetaculares de 1.8 bilhões de anos onde antes já foi mar, lançou-me num tempo fora do tempo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fazendo esta experiência, compreendi melhor porque o homem em contato direto com a natureza tem uma relação menos controladora com o tempo em comparação com o homem angustiado e apressado das grandes cidades, embora não se trate de idealizar sua vida, a propósito, bastante dura e difícil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2474 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/unnamed-1-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" />Conhecer de perto a força obstinada do sertanejo a cultivar o cacto Palma em seu quintal, um dos únicos alimentos viáveis na caatinga, fez-me compreender melhor o poderoso instinto de autopreservação que rege o homem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, constatei na pele que situações físicas extremas levam a uma recolocação das prioridades tornando um simples pão com ovo manjar dos deuses quando se está faminto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto é que, num lugar de indescritível beleza, a privação do corpo parece propiciar melhor estado de espírito à contemplação, o que os místicos e ascetas sabem há muito. Daí a combinação entre caminhar e contemplar ser um modo milenar de o homem atingir o sublime. Metáfora que também serve à psicanálise. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o impacto estético das paisagens sublimes foi tão grande que iniciei, após minha volta, uma radical desintoxicação alimentar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O maior contato do nativo com seu instinto de autopreservação fez-me pensar no porquê do homem da cidade tender a desenvolver mais psiconeuroses. Pois, neste caso, o instinto de autopreservação, dissociado de suas fontes originais, vê-se obrigado a deslocar-se para outros objetos, produzindo fobias de animais, de pessoas ou de altura, por exemplo, representando, respectivamente, o medo primitivo de ser picado, atacado e de cair de penhascos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De todo modo, não sei dizer se há psiconeurose entre as quinze famílias que vivem isoladas no Vale do Pati. Observando-os, constatei que alguns homens jovens bebem, o que parece se dever ao conflito entre permanecer no Vale e o desejo de ir para a cidade, algo de que as gerações mais antigas parecem estar imunes pelo vínculo mais sólido com <em>sua terra</em>. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2468 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/vale-do-pati27-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/vale-do-pati27-300x200.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/vale-do-pati27.jpg 642w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Conversando, descobri que muitos tentaram residir com parentes em São Paulo, mas os salários miseráveis que ganhavam, como faxineiras, pedreiros e motoristas de ônibus, fizeram-nos voltar atrás. Levaram-nos de volta também a solidão, o barulho da grande cidade e a saudade que sentiam da natureza. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como não há escola, as crianças em idade escolar são mandadas para casas de parentes para poderem estudar e quase nunca retornam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De minha parte, no último dia no Vale, depois de caminhar o dia todo por 25 Km na chuva, experimentei uma alegria indescritível ao chegar no hotel, tomar um banho quente e dormir em um quarto com teto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui disso que não suportaria morar num lugar tão selvagem, habituada demais ao conforto que estou. E que o desdém que temos dos recursos da civilização (luz elétrica, internet, fácil acesso à médicos, exames e vacinas, etc.) é pura ingratidão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, a extrema dificuldade de acesso e a pouca disponibilidade dos turistas em abdicarem do conforto, fazem do Vale do Pati um lugar intocado da degradação humana, com paisagens naturais de tirar o fôlego. Em três dias de caminhada não encontramos nenhum lixo no caminho! </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, a vastidão do lugar culmina em mudanças climáticas violentas e bruscas que vão de ventos cortantes e chuvas torrenciais à céus limpos e espetaculares em poucos minutos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, impressionou-me a profunda interação dos nativos e guias com a meteorologia, capazes de prever com precisão quase absoluta a hora que faria sol ou choveria só de olharem para o céu. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2470 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/images-1.jpg" alt="" width="275" height="183" />Assim, enquanto nós, os citadinos, desanimávamos com a chuva e nos apavorávamos com as nuvens negras à nossa frente, o guia carinhosamente dizia </span><i><span style="font-weight: 400;">que deixasse chover para refrescar a montanha</span></i><span style="font-weight: 400;">, demonstrando quão tolo é lutar contra o que não se controla</span><i><span style="font-weight: 400;">.  </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, pensando depois, concluí que ter caminhado com tempo nublado livrou-me do sol escaldante, o que teria tornado a travessia muito mais difícil e exaustiva.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De outro lado, a aceitação humilde de que quem manda é a natureza, não significava atitude de abandono nem displicência por parte dele, mas sim prudência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, carregava consigo bússola, rádio para comunicação, mantimentos extras, remédios e um kit de primeiros socorros haja vista que acidentes ali podem ser fatais, pois a única forma de se chegar ao hospital é ir sacolejando o dia todo no lombo de uma mula, que eles carinhosamente chamam de “uber-mula”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, a extrema dependência dos nativos com estes animais de tração é tradição longínqua no homem sertanejo, tal como se vê retratada nas belas narrativas de Guimarães Rosa, por exemplo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2469 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Guia-Chapada-Diamantina-Mulas-Vale-do-Pati-Caia-Pires-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Guia-Chapada-Diamantina-Mulas-Vale-do-Pati-Caia-Pires-300x200.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Guia-Chapada-Diamantina-Mulas-Vale-do-Pati-Caia-Pires.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Era muito bonito vê-las passarem por nós, em bandos de seis ou sete, agarrando-se nas pedras escorregadias pelos cascos como se fossem mãos, subindo e descendo pra lá e pra cá. Quase sempre acompanhadas por um cão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O guia nos contou que elas faziam o trajeto tantas vezes que bastava soltá-las para que fossem sozinhas, exceto uma ou outra fujona que, vez ou outra, se extraviava pelo caminho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra bonita tradição mantida no Pati é o resguardo de luto pelos mortos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Recentemente uma senhora de 89 anos havia falecido </span><i><span style="font-weight: 400;">de morte natural</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem nunca ter ido à médicos, graças possivelmente a uma feliz combinação de sua boa genética, boa alimentação e o fato dela nunca ter parado de movimentar o corpo, e todo o Vale estava em luto. O luto consiste na proibição de se fazer festas e comemorações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fato dela ter aceitado</span><i><span style="font-weight: 400;"> sua hora fatal </span></i><span style="font-weight: 400;">com humildade e </span><span style="font-weight: 400;">sem revolta parecia orgulhá-los e inspirá-los para melhor suportarem suas próprias dificuldades. O que me fez pensar quão belo é um velho sábio.</span></p>
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		<title>Memórias-sonho de uma viagem rumo à natureza selvagem.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Nov 2014 17:44:23 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Winnicott]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acabo de fazer uma viagem linda com o meu marido. Juntos, trouxemos na bagagem, além de fotos e memórias, algumas aprendizagens valiosíssimas. Uma viagem, assim como qualquer nova experiência, quando contida pela mente daquele que a vivencia, enriquece e amplia o psiquismo. Dito de outro modo, quando uma experiência desconhecida pode ser processada e sonhada &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/memorias-sonhos-de-uma-viagem-rumo-natureza-selvagem/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Memórias-sonho de uma viagem rumo à natureza selvagem.</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTd7X1AX7CmR532qSpVihB4BBjeU_11hT1htLvg_9O1gHEtGgE9" alt="" width="223" height="168" />Acabo de fazer uma viagem linda com o meu marido. Juntos, trouxemos na bagagem, além de fotos e memórias, algumas aprendizagens valiosíssimas. Uma viagem, assim como qualquer nova experiência, quando contida pela mente daquele que a vivencia, enriquece e amplia o psiquismo. Dito de outro modo, quando uma experiência desconhecida pode ser processada e sonhada pela mente, há expansão mental que leva a novos desenvolvimentos e aprendizagens. Mas, quando o contato com o desconhecido é angustiante demais e, por isso, evacuado, nada se pode aprender de novo. Volta-se o mesmo que se foi.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, vejamos o que eu pude sonhar (no sentido utilizado por Bion) nesta linda viagem.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1244"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, há a escolha do lugar. A cada viagem que fazemos noto que eu e meu marido temos escolhido cada vez mais lugares que nos coloquem em contato profundo com a natureza. É como se, mesmo sem termos tanta consciência disso, partíssemos em busca de fazer o caminho contrário à civilização (da repressão ao pulsional). Desta vez, o contato com a natureza foi intenso e vitalizante. Aos poucos, fomos esquecendo o relógio e passamos a nos guiar pelos dois parâmetros naturais mais amplamente utilizados pelo homem primitivo: a fome e o movimento do sol. Alegres, perguntávamos um ao outro. Que horas são? E ambos respondíamos: “Pela posição do sol deve ser tal hora”. Ou ainda: “Bem, como já estou sentindo fome, deve ser mais ou menos tal hora.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto que este movimento mental que Winnicott nomeou estado de não integração é algo, ao mesmo tempo, prazeroso e angustiante de ser vivido, porque o que ocorre nestas situações é um afrouxamento das defesas do ego e um aprofundamento no contato com as forças instintivas do id.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que é, em grande parte, pelo medo de se vivenciar este estado de não integração (que é vivido pela pessoa como o equivalente a um estado de desintegração) que faz com que muitas pessoas evitem a situação das “férias”. Ou seja, a perda da situação rotineira de trabalho, guiada pelos ponteiros do relógio e pelo estabelecimento dos rituais convencionais que servem como marcadores da passagem do tempo servem para proteger o psiquismo do contato com o Real (horário de almoçar, de trabalhar, de dormir, de acordar, etc.).</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, como disse certa vez um conhecido: “Ter um corpo é uma coisa que espanta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em situações de “férias” a perda ou o afrouxamento destes rituais marcadores do tempo (a chamada rotina) propicia um estado de não integração e de relaxamento profundo. Neste caso, pessoas que não se sentem bem constituídas em seus <em>selfs </em>(eu) podem vivenciar este estado de não integração como algo terrivelmente angustiante: com um sentimento de perda de identidade e de sentido da própria existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando às minhas férias, gostaria de destacar duas experiências que me possibilitaram, respectivamente, um contato profundo com a natureza e – o contraponto disso – o temor que este contato pode mobilizar em pessoas que estão em um estado altamente defensivo com relação às forças intempestivas da natureza (e do id).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSzjaG1rJyJdsOhGjdxFl60D2Go4bHaQM54XTmdKpapfhkbbWaz" alt="" width="231" height="125" />Cena 01: </strong>Eu e meu marido nos entregamos inteiramente aos costumes locais (ficamos em uma vila distante mais de duas horas de uma grande cidade, em um cenário paradisíaco, mas também selvagem). Neste clima, decidimos fazer algumas aulas de kitesurf. Este esporte é praticado utilizando-se uma pipa (também chamada kite) e uma prancha. Todo o movimento é feito na água, utilizando-se somente a força do vento. O meu professor era um jovem de mais ou menos dezoito anos, muito sábio.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, temerosa frente à situação desconhecida e ao poder implacável do vento, vi-me agarrada ao trapézio, que serve para dirigir o kite. Percebendo a situação, meu sábio e jovem professor disse: “Se você continuar brigando com o vento, você vai perder. Deixe-se levar por ele.” Aquilo não me saiu mais da cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTMIraolHp4kodREFOTf4GkqOS-jiIy6Igwk4MiFT-dw4akeAVj" alt="" width="230" height="156" />Cena 02: </strong>Fugindo da rota “turística”, conhecemos um simpático restaurante local, com comida caseira e ótimo acolhimento. Lá pude ouvir uma história linda da dona do restaurante: ela mesma estava construindo sua casa, com a ajuda de amigos e vizinhos, em um esquema de mutirão. Tudo com o dinheiro de seu pequeno restaurante. Senti-me acolhida por uma grande mãe. Mas, lá também pude presenciar uma cena curiosa: um casal de turistas de olhar assustado, pergunta à dona do restaurante: “Não é perigoso andar por aqui à noite?” A reação da dona do restaurante foi curiosa. Parecia estar ouvindo outro dialeto, outra língua. Ingenuamente, ela pergunta: “Perigoso por quê?” Era a língua do medo que um ser humano tem de outro. Esta, ela parecia não conhecer.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Como podemos fazer conversar estas duas experiências vividas por mim? Será que uma coisa tem a ver com a outra? Que saberes preciosos estes “locais” carregam e que nós, da cidade grande, vamos perdendo de vista? Por que o meu jovem e sábio professor parece tão íntimo da língua selvagem dos ventos? O que significa este saber profundo: é preciso respeitar o vento e não brigar com ele? Seriam estes temores diferentes – o temor respeitoso frente à força intempestiva do vento e o medo que um ser humano sente por outro, tal com comunicado pelo turista? E por que aquilo soou como algo tão despossuído de sentido para a cozinheira-mãe?</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos à primeira situação. Diante da força incontrolável do vento, senti medo. Muito medo. A força com que eu era levada pela pipa era imensa. Talvez pela primeira vez pude viver a experiência de “pegar o vento nas mãos”. E a constatação foi: trata-se de um “deus” muito forte e poderoso. É preciso respeitá-lo, temê-lo. Mas, também é preciso se entregar a esta força e não lutar contra ela, pois, diante de seu imenso poder, com certeza vamos perder. Na linguagem da natureza perder significa morrer. Ou, no mínimo, machucar-se seriamente. Ressalto que depois de ter podido conversar um pouco com meu temor paralisante diante do deus-vento e tendo parado de brigar com ele, entregando-me a ele (eu e a natureza em estado de comunhão), a experiência de “pegar o vento com as mãos” foi incrivelmente prazerosa. Deixar o meu corpo ser levado pela pipa, velejando no mar, foi indescritível. Mas, só pude viver isso depois que me rendi ao poder do vento. Reconheci ser ele o deus e não eu, com meus braços frágeis a tentar lutar contra ele, a tentar ser onipotentemente mais forte que ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de uma experiência que fere o nosso narcisismo. Reconhecer-me muito mais frágil que o vento, reconhecer a sua fúria e o meu ínfimo tamanho perto de sua grandiosidade, faz-me (re) conhecer mais uma vez o meu exato tamanho nesta vida. O tamanho de uma poeira cósmica diante do incomensurável poder da natureza que sempre se impõe sobre nós. Este é o saber “local” que torna estas pessoas, em profundo contato com a natureza, tão sábias. Este é um saber que nós, da cidade grande, com nossos potentes aviões que nos dão uma falsa sensação de segurança, com nossos pretensos avanços tecnológicos (como a previsão meteorológica, por exemplo), vamos perdendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com toda essa parafernália tecnológica vamos acalentando a ilusão de estarmos no controle, de termos o poder. Mas, nós não estamos. Nós não temos. E foi isso que pude apreender nesta viagem selvagem. Aliando esta ideia à psicanálise, podemos dizer que o inconsciente (nossa natureza interna) é como o deus-vento, incontrolável. Se nos rendemos a ele, se reconhecemos a sua majestade e força, podemos “surfar” na vida e sentir um baita prazer. Se lutamos contra ele, perdemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Há outro saber “local” riquíssimo a ser destacado aqui. Quando a cozinheira-mãe reconhece sua necessidade de vínculos e o fato de que sozinha nunca conseguirá fazer sua casa, outro determinante da nossa natureza humana está sendo respeitado e venerado. Trata-se do saber de que nós humanos, pela nossa imensa fragilidade, precisamos uns dos outros. Este é outro saber que nós da cidade grande negamos, esquecemos, violentamos. Pergunto eu: o medo paranoico da violência não é reflexo direto do afastamento do contato humano que vivemos em grau maciço nas grandes cidades?</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso meu impacto ao ouvir a pergunta do turista amedrontado e o estranhamento da cozinheira-mãe frente a ela. Para ele, o outro, o ser humano semelhante, é um ser perigoso, estrangeiro. É preciso se proteger dele. Para ela, o outro, o ser humano semelhante, é alguém que agrega, é alguém com quem se pode contar. Não representa uma ameaça vital.</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto que em momento algum da viagem senti medo de outro ser humano. Nesta vila, todos eram iguais-diferentes. Todos usavam chinelos, andavam de um jeito simples. Por que lá o deus não era o homem. Lá o deus era a natureza, o sol, o vento, os golfinhos, o tempo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, minha hipótese é: um ser humano só passa a sentir medo paralisante de outro ser humano, seu igual-diferente, quando perdeu o contato profundo com a sua natureza instintiva, pulsional que, em minha experiência, é o deus-vento, o deus-inconsciente.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, quando podemos entrar em contato com a nossa insignificância frente ao poder da natureza, o outro não é mais temido. Ao contrário, passa a ser um aliado. Frente à natureza selvagem, temos que nos unir e agregar, somar.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o saber local que estas pessoas preservam, possibilitado pelo seu modo de viver menos civilizado que aquele do homem da cidade grande.</p>
<p style="text-align: justify;">Ressalto que não utilizo o termo civilizado no sentido de julgamento de valor. Trata-se tão somente da ideia desenvolvida por Freud de que a civilização é desenvolvida pelo homem para se proteger da força intempestiva da natureza, tanto a externa quanto a interna (dos impulsos).</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, podemos brincar com a pergunta do turista amedrontado e arriscarmos a seguinte questão: De que ele tem medo? À qual perigo ele se refere? Terá ele medo do Outro ou de si mesmo? Terá ele medo daquilo que ele desconhece no outro, mas que também é ele? Quem é o desconhecido, o estrangeiro para ele? O outro? Ou ele mesmo?</p>
<p style="text-align: justify;">Não pude vê-lo mais ao longo da viagem nem tive o privilégio, talvez, de acompanhar os seus olhos, quem sabe agora menos assustados com a vida pulsante que lá se apresentava. Faço sinceros votos que isso tenha acontecido: que no lugar do medo, êxtase e contemplação pudessem surgir em seus olhos. Para que um novo, selvagem e desconhecido universo pudesse se descortinar ao nosso amigo tão assustado: o mundo da natureza – a de dentro e a de fora.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/11/download-7.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-thumbnail wp-image-1245" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/11/download-7-150x150.jpg" alt="download (7)" width="150" height="150" /></a>Um adendo. Não pude dormir na viagem de volta. Lembrava-me o tempo todo que do lado de fora daquela cabine quentinha do avião, o nosso amigo, o deus-vento, impunha-se, feroz. E que ali dentro, todos nós, seres humanos, erámos poeira ínfima perto dele. Travava naquele momento, no íntimo do meu ser, uma batalha feroz com a morte. Esta companheira sinistra que nos acompanha desde sempre. É neste hiato, no encontro com o sinistro da morte que surge a fé. E, assim como Gilliatt do épico “Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo, que, diante da força intempestiva do mar, morrendo de fome, de sede e de frio, ajoelha-se e pede misericórdia, agradeci, maravilhada, o fato milagroso de estar viva.</p>
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