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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>O tempo é um monstro que engole tudo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2014 22:56:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O tempo é um monstro que engole tudo. Esse foi o pensamento que me ocorreu hoje, logo pela manhã, sobre o qual me coloquei a pensar seriamente. Por que esta frase, categórica, enfática, povoa minha mente justo nesta terça-feira, dia 02 de dezembro, às sete da manhã? Penso na proximidade do final de ano. Data &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-tempo-e-um-monstro-que-engole-tudo/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O tempo é um monstro que engole tudo.</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1259 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/salvador-dali-thumb-600x426-30442-300x213.jpg" alt="imagem sobre tempo - salvador dali" width="300" height="213" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/salvador-dali-thumb-600x426-30442-300x213.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/salvador-dali-thumb-600x426-30442.jpg 563w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" />O tempo é um monstro que engole tudo. Esse foi o pensamento que me ocorreu hoje, logo pela manhã, sobre o qual me coloquei a pensar seriamente. Por que esta frase, categórica, enfática, povoa minha mente justo nesta terça-feira, dia 02 de dezembro, às sete da manhã? Penso na proximidade do final de ano. Data ingrata, sinistra, que sempre mobiliza angústias intensas, atávicas. O ser humano transita entre dois pólos, a vida toda. Busca estabilidade e busca mudança, transformação.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1250"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Os analistas estão habituados a esta luta infindável: o paciente nos procura em busca de transformação, porque aquilo que ele é – consequência de um jogo complexo de defesas, que o enrijecem e o protegem, frente ao susto de viver, frente à passagem do tempo &#8211; torna sua vida insustentável. Impede o balanço necessário à vida. Mas, à medida que o trabalho analítico progride e ele abandona suas defesas protetoras, vê-se às voltas com o abismo de dentes abissais do desconhecido, daquilo que ele não controla, do imponderável da vida, do tempo que passa e não volta.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso Nietzsche dizia que o homem é uma corda atada entre o abismo e o mais-além. Ou seja, para se abrir ao máximo à sua experiência vital, o homem necessita se deparar com o abismo, com o desconhecido. E isso o angustia e muito. A angústia deriva do fato de que temos fortes limitações para representar psiquicamente a realidade, seja interna, seja externa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à minha frase: O tempo é um mostro que engole tudo. Ocorreu-me que a proximidade do final do ano nos traz algo de sinistro. Já repararam como a contagem regressiva para o ano novo guarda semelhanças com o misterioso nascimento de uma criança? Cinco, quatro, três, dois, um&#8230; Mas, onde há nascimento, há também morte. Quando nascemos, deixamos de não ser. Assim como quando morremos, deixamos de ser. Tudo na vida e na natureza é dialético, processual. Nesta relação do nosso ser com o tempo, só o que permanece é ele – o tempo é Absoluto, Infinito.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desta constatação trágica, como sobreviver? Como continuar investindo na vida que passa a despeito do tempo que se foi e não volta mais? Como continuar amando a vida e as pessoas mesmo quando não se é mais aquela criança cheia de esperança frente aos presentes embrulhados em papel vibrante, sentindo a doçura cálida da proteção familiar frente ao desamparo radical que nos marca desde sempre?</p>
<p style="text-align: justify;">A saída que encontro é o desapego. Para sobrevivermos ao sentimento melancólico que pode nos assolar nestes períodos – e que carrega consigo sempre o sentimento de “saudade da aurora da minha vida, da minha infância querida” (“Meus oito anos” de Casemiro de Abreu) – é preciso se desapegar. É preciso deixar os mortos, o passado e a criança que nós fomos um dia ir embora. É preciso enterrá-los, fazer o luto por eles e seguir adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso seguir pela travessia da vida somente com a bagagem essencial à viagem: nós mesmos e as nossas boas lembranças, às quais poderemos sempre recorrer nos momentos mais difíceis. É preciso compreender que o passado, as pessoas (pais, filhos, maridos e esposas) não são nossas posses. Não nos pertencem. Ao contrário. Nós todos é que pertencemos a este fluxo infindável de mutações a que batizamos Vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Com relação ao monstro do tempo, se reagirmos a ele, se desejarmos que ele estacione, que tudo fique estático e imutável, perderemos. A nossa vida perderá. Porque viver é passagem, transição, travessia. Não é ponto de paragem, lugar onde nos hospedamos confortavelmente para nunca mais sair, para nunca mais mudar.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o meu encontro sinistro com este pensamento em pleno início de dezembro. A cidade se acende, repleta de luzes bonitas e vibrantes, como para nos acalentar dizendo: “Calma, há esperança na vida. O menino Jesus vai nascer” Mas, em seguida, há o corte abissal, o se lançar no desconhecido de um novo ano que, a meu ver, representa o ciclo de morte-e-vida. Aquilo que Bion chamaria de cesura.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é a toa que muitas pessoas se deprimem nesta época. Para fazer frente às angústias primordiais despertadas nesta época, agarram-se a projetos, a mandingas, a rituais de passagem. Tudo para poderem construir um kit mínimo de sobrevivência para se confrontar, no dia 31 de dezembro, com o monstro que engole tudo: o temível tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">De minha parte, neste meu embate interno com o sinistro monstro do tempo, (re) encontro mais uma vez minhas lembranças, minhas fotos, meus Natais vividos. Mas, sobretudo (re) encontro o hoje que, no final das contas, é tudo o que temos pra ser vivido.  Reconecto-me mais uma vez com a passagem do tempo – percepção turbulenta que está sempre sendo perdida para depois ser reencontrada. Usando uma linguagem teórica, especialmente utilizada pelo casal Botella (2002), reencontro, mais uma vez, dentro de mim a possibilidade de representar psiquicamente meus objetos internos, os quais – estes sim – são imperecíveis à passagem do tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que certa vez disse Rubem Alves: “Nunca cometa a bobagem de querer revisitar lugares especiais do seu passado. Você não os encontrará mais. O tempo os varreu. Eles não mais existem. Fique com as suas lembranças e você se dará melhor”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sábio Rubem Alves, sábia vida&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Então, que venha o Natal e que venha o Ano Novo. Que venham as luzes e que venha a esperança. E que depois venha a cesura, a ruptura, o salto no desconhecido. Porque isso sim é vida!</p>
<p style="text-align: justify;">* Em outra ocasião, dedicarei alguns textos à apresentação do interessante pensamento de César e Sara Botella que, a meu ver, representam o que de mais avançado há na produção psicanalítica atual. O pensamento destes psicanalistas encontra-se sistematizado em: Botella, C. e S. (2002). <em>Irrepresentável: mais além da representação. </em>Porto Alegre: Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul: Criação Humana.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A coragem nossa de cada dia &#8211; parte II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jul 2014 16:39:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[bebês]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
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		<category><![CDATA[Nietzsche]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Em virtude dos comentários interessantíssimos que recebi sobre o meu último texto, A coragem nossa de cada dia, resolvi escrever novamente sobre este tema, que me parece central à vida humana.   Vou sistematizar os comentários que recebi para depois propor um diálogo com eles, a partir da perspectiva que já é incorporada no meu modo &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/coragem-nossa-de-cada-dia-parte-ii/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A coragem nossa de cada dia &#8211; parte II</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"> <a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1027 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1-150x150.jpg" alt="download" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download1.jpg 225w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Em virtude dos comentários interessantíssimos que recebi sobre o meu último texto, <i>A coragem nossa de cada dia</i>, resolvi escrever novamente sobre este tema, que me parece central à vida humana.</p>
<p style="text-align: justify;">  Vou sistematizar os comentários que recebi para depois propor um diálogo com eles, a partir da perspectiva que já é incorporada no meu modo de interpretar o mundo e a minha presença nele, ou seja, a psicanálise.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-948"></span></p>
<p style="text-align: justify;">  Comentando sobre o conteúdo do texto, algumas pessoas disseram o seguinte:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Que, diante de uma conquista, costumam se sentir muito culpadas e que este sentimento incômodo surge quando elas se dão conta de que há muitas pessoas que nunca terão aquilo que elas têm. Por exemplo: se a pessoa se sente afortunada por morar em uma casa confortável, fica imaginando quantas pessoas não têm casa para morar, são pobres e sem recursos materiais. Ou, se a pessoa reconhece a sua inteligência e competência profissional, sente-se culpada por imaginar quantas pessoas não têm condição, sequer, de compreender um texto lido.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><!--more--></p>
<p style="text-align: justify;">Esta questão levantada pelas pessoas, conforme observo em minha clínica, são muito recorrentes quando se trata de sustentar internamente o sucesso ou a conquista obtida na vida. Por isso, achei que valia a pena aprofundá-las aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a questão colocada, parece-me que este é um sentimento comum às pessoas que nasceram com mais recursos internos que outras. Vou explicar melhor o que quero dizer com isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mantendo uma visão bem corajosa sobre a vida, notaremos que os seres humanos são muito diferentes entre si. Isso parece uma coisa óbvia mais não é. <span style="text-decoration: underline;">Assim como do ponto de vista físico somos diferentes, do ponto de vista mental também.</span> Assim diz Nietzsche sobre isso:</p>
<p style="text-align: right;"><em><strong>De onde surgiu a lógica na cabeça humana? Com certeza foi da não lógica, cujo reino na origem há de ter sido descomunal. A tendência preponderante a tratar o semelhante como igual (uma tendência ilógica, pois não há nada em si igual) foi a primeira a criar todos os fundamentos em que se assenta a lógica</strong>&#8220;</em></p>
<p style="text-align: justify;"> Se vocês observarem bem a realidade, verão que há seres humanos que são mais competentes e se saem melhor quando o assunto é amar a vida e a si mesmos. Isso se concretiza, obviamente, em maior sucesso e felicidade. Quem mais nos ajuda a compreender esta questão é Melanie Klein.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta psicanalista considerou que cada ser humano nasce (ou seja, isso é inato!) com potencial para amar e para odiar. Dito em termos mais simplistas: cada um de nós nasce com potencial para investir na vida, para construir e também para destruir. Isso faz parte da nossa condição instintual. Esta questão pode ser bem visualizada em bebês.</p>
<p style="text-align: justify;"> Há bebês que, dotados de uma alta capacidade de amar a vida e investir nela, toleram melhor as frustrações da mãe (ter que esperar por ela, por exemplo, na hora da mamada) e rapidamente a perdoam, pegando mais rapidamente o seio e mamando com satisfação. Outros demoram mais para perdoar as falhas da mãe e, às vezes, tomados por um intenso ódio pela frustração sofrida, fecham a boquinha ou cospem o leite. Neste caso, em que dizemos que constitucionalmente a criança nasceu com maior intolerância à frustração, ele deverá ter tido a sorte de ter uma mãe mais paciente e compreensiva. Pois, se a mãe não suporta a expressão de ódio do bebê e devolve “na mesma moeda”, o ódio da criança se intensifica e cresce; o que torna seu investimento na vida e sua capacidade de amar paralisada pelos sentimentos de frustração e ódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou dar outro exemplo acerca desta condição de amar a vida para clarear o que quero dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Reparem na casa das pessoas. A casa é expressão máxima do que carregamos dentro de nós! Podemos ir à casa de uma pessoa muito pobre e sem recursos materiais, mas riquíssima do ponto de vista da capacidade de amar a vida e a si mesma. Essa pessoa, por mais que sua casa seja pequena e humilde, manterá sua moradia (reflexo de si mesma) limpa e asseada. Suas roupas serão bem lavadas e cuidadas, mesmo que para isso ela tenha que fazer o maior esforço para conseguir água em um lugar distante. Pode até ser que haja uma florzinha em cima da mesa, que ela conseguiu pegar em um jardim qualquer. Ela será capaz de enxergar beleza nas pequenas coisas da vida. Isso não tem a ver com riqueza ou pobreza material! Isso é condição interna de amar a vida e investir nela. Essa pessoa terá orgulho de si mesma e de sua condição de trabalhar honestamente, de ganhar sua vida e de pagar suas contas. Não importa que seu trabalho não tenha tanto status, do ponto de vista social. Ela sente orgulho por ser quem ela é. Em termos psicanalíticos, dizemos que esta pessoa é dotada de alta condição inata de amar e ser grata pela vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Outras tantas que vivem na pobreza não tiveram a mesma sorte de nascer como esta pessoa hipotética e de contar com vínculos primordiais que pudessem ensiná-las a amar e respeitar a vida. Elas não ligarão de viver na sujeira, de fazer trabalhos ilícitos ou de depender integralmente de bolsas governamentais. Falta a estas pessoas o sentimento básico de orgulho e de amor à vida e àquilo que elas são.</p>
<p style="text-align: justify;">Na minha perspectiva, quando se discute este tipo de questão social, os sociólogos e antropólogos acabam por focalizar sua atenção somente no aspecto externo, no concreto, que, obviamente, também é importante. Mas, com isso, desconsideram que o social e o contextual só faz sentido em relação a algo que é subjetivo e, portanto, interno a cada um de nós. Se não fosse assim, porque, afinal, dois irmãos que vivenciaram mais ou menos o mesmo contexto familiar, social e cultural desenvolvem-se de formas tão diferentes? Porque dois irmãos moradores da favela se comportam de forma tão diferenciada com relação ao tráfico – um se envolve com a criminalidade, enquanto o outro luta para se desenvolver de forma honesta e íntegra? Isso é compreendido pelo que carregamos, desde muito cedo, internamente, ou seja, o que nos constitui enquanto subjetividades; nosso sentimento de riqueza ou de pobreza que determinará profundamente o modo como vivemos a nossa vida.</p>
<p style="text-align: justify;"> Pois, uma pessoa dotada de um mundo interno em que predominam sentimentos de ódio, revolta e desrespeito por si mesma, não vai poder usufruir daquilo que lhe é dado. Vai sujar e estragar as roupas que ganha, vai gastar de forma errônea o dinheiro recebido. Enfim, não vai conseguir se desenvolver, algo que, como estou mostrando, tem muito mais a ver com questões internas do que externas. É por isso que na psicanálise somos contrários à ideia de um tratamento gratuito. Porque uma pessoa para se desenvolver, necessita sentir que são os seus recursos internos que estão lhe proporcionando o crescimento (o terapeuta, neste caso, é um facilitador). Obviamente, como nos ensinou Melanie Klein, uma criança aprende a fortalecer seus sentimentos amorosos na vida por meio do intenso e árduo trabalho feito por seus pais, sobretudo por sua mãe. Mas, para que a mãe possa fazer este trabalho de maternagem, ela também necessita manter dentro de si uma visão respeitosa e amorosa sobre a vida; algo que vai sendo transmitido e sendo ensinado de geração a geração.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste sentido que a educação deveria ser pensada: educação para ajudar as pessoas a desenvolverem recursos de vida, de fortalecimento no amor à vida e de respeito à verdade! O problema é que se costuma pensar educação somente do ponto de vista formal e externo à subjetividade do indivíduo. Por exemplo: não basta ensinar às pessoas educação financeira. É preciso discutir a fundo questões como capacidade de diferenciar desejo e realidade, respeito à verdade e à realidade, honestidade e desonestidade, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, retomando a questão e, levando-se em conta que somos todos diferentes em nossas capacidades de amarmos a vida e sermos gratos por ela, como podemos pensar o comentário feito pelas pessoas que me escreveram?</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, como podemos elaborar este terrível sentimento de culpa por percebermos que há inúmeras pessoas que não tiveram a mesma competência e sorte, de terem nascido com alta capacidade de amar a vida, com inteligência e terem sido criados por pais que, a despeito de suas falhas, terem lhe dado o essencial? Em suma, como podemos nos dar o direito de sermos felizes, bem sucedidos e satisfeitos em um mundo tão cheio de misérias e pobrezas (interna e externa)?</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei uma saída para isso em Nietzsche.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho aprendido com Nietzsche que nós não escolhemos quem nós somos. É uma ilusão acharmos que somos competentes, felizes e inteligentes porque escolhemos ser assim. Nós não escolhemos!</p>
<p style="text-align: justify;">Quando nascemos, não pedimos a alguém no céu que queríamos ser assim ou assado. Aliás, nem temos condição nem de escolher se queremos viver ou não. Por isso, Guimarães dizia que tinha mais medo de nascimentos do que de mortes! Nós nascemos e pronto. Sem escolha. Afinal, se pudéssemos escolher, obviamente escolheríamos ser felizes, capazes de amar, inteligentes, etc. Mas, não é assim que acontece.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um é como é: mais ou menos limitado em termos de inteligência, mais ou menos corajoso, mais ou menos invejoso, mais ou menos capaz de amar a vida.  Não consigo apreender que um ser humano escolha ser mau, assassino, muito invejoso ou infeliz. Infelizmente, faltam-lhe recursos internos e encontros amorosos capazes de fazê-los investir mais amorosamente na vida. A vida é misteriosa nesse sentido – nós nunca vamos poder compreender a fundo o que vai à alma de outro ser humano; que tipo de situações catastróficas vive alguém que precisa matar para não ser morto! Qualquer ser humano em contato com o misterioso da vida não ousaria fazer previsões nem querer explicar, por meio de rótulos e categorias, o comportamento de seu semelhante.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, há outra coisa a ser dita sobre o comentário: o fato de nos sentirmos culpados por haver pessoas que nunca vão ser tão desenvolvidas quanto nós não faz com que estas pessoas, magicamente, se tornem melhores e mais felizes. Se isso pudesse acontecer, até concordo que este sentimento valeria a pena: nós ficaríamos culpados e tristes com aqueles que não são tão afortunados quanto nós e eles mudariam e passariam a ser mais felizes, mais competentes, etc. Isso, aliás, é muito comum de vivermos com nossos familiares. Suponhamos que você foi mais longe que seu irmão ou irmã e que sente muita culpa por isso. É fundamental questionarmos isso que diz Nietzsche: você não escolheu ter mais recursos internos que seu irmão ou irmã, mas, uma vez o tendo, isso faz de você mais responsável pelo seu crescimento. A responsabilidade de ir até o máximo que puder. Esta seria sua retribuição à humanidade por ter nascido com maiores recursos! Este, para mim, é o sentido máximo da passagem bíblica: “A quem muito foi dado, muito será exigido”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que quero questionar é o seguinte: as pessoas não mudam porque nós nos sentimos mais culpadas ou infelizes. O mundo vai continuar como é, ou seja, as pessoas vão continuar a ser aquilo que elas são, mesmo que nós estraguemos os nossos recursos nos culpando ou ficando tristes. Porque as pessoas são o que são. Este é um modo onipotente de pensar e que é compreensível. Afinal, quem não gostaria de ter o poder de mudar sua realidade, de ajudar as pessoas que sofrem inutilmente? Mas, nós não temos este poder de transformar as pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">A nossa única responsabilidade (e isso já não é pouco) é com nós mesmos. É a de podermos cuidar bem daquilo que nos foi dado generosamente pela vida!</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma visão profunda sobre a vida que tenho adquirido: a de que nosso poder de transformação da realidade e de outros seres humanos é quase nulo; exceto se eles próprios sentirem a necessidade pela mudança. E este anseio vem de dentro e não de fora! Isso faz de nós seres profundamente limitados e impotentes diante do imponderável da vida. É contra esta percepção que nos rebelamos. Foi isso que compreendeu Sófocles, na figura de Édipo em Colono, quando este disse: “Quer dizer que quando não sou nada, sou homem?”</p>
<p style="text-align: justify;">Assim diz Nietzsche sobre isso:</p>
<p style="text-align: right;"><strong><i>“O que é mais útil ao outro? Saltar imediatamente em sua direção e ajudá-lo – o que ocorre só muito superficialmente – ou, formando a partir de si mesmo algo que o outro vê com prazer: um belo, tranquilo jardim fechado em si mesmo, que tem altos muros contra tempestades e poeiras da estrada, mas também um portão hospitaleiro?”</i></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> Trocando em miúdos: Nietzsche nos ensina que a melhor coisa que podemos fazer pelo outro é podermos ser os mais felizes e realizados que pudermos, pois, é por meio de exemplos, muito mais do que palavras que o humano aprende e se transforma. Ver alguém feroz e corajoso lutando pela vida é muito mais estimulante do que “ganhar de mão beijada”.</p>
<p style="text-align: justify;">Poder avistar alguém que se respeita, assim como à vida, que cuida de seus pequenos tesouros internos como se fossem pérolas, que busca a verdade e a compaixão sem grandes arroubos de onipotência é, para Nietzsche, a grande contribuição que podemos fazer à humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">E há ainda mais. Segundo ele, existe uma espécie de vício humano a exagerar a dor e a infelicidade, enquanto se cala a respeito da alegria e do bem viver. É como se houvesse, dentro de cada ser humano, uma espécie de olhar viciado e maldoso sobre si mesmo e sobre a vida que tende a valorizar muito mais o sofrimento do que a alegria do viver. Assim ele diz:</p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>&#8220;Quer-me parecer que de dor  e de infelicidade sempre se fala com exagero, como se fosse uma questão de arte de bem viver exagerar nisso. Em contrapartida, cala-se obstinadamente que contra a dor há um sem número de meios de alívios. Uma perda, por exemplo, dificilmente continua sendo uma perda por uma hora. De algum modo, com ela, também um presente nos caiu da vida: uma nova força, por exemplo. E mesmo que seja apenas uma nova ocasião para reencontrarmos a força.&#8221; </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, resta-nos sentirmos felizes com a sorte de termos nascidos com mais capacidade para amar do que para destruir e O MAIS IMPORTANTE – nos responsabilizarmos por esta dádiva que ganhamos. E irmos tão longe quanto pudermos!</p>
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		<title>Aproximações entre o pensamento de Nietzsche e a psicanálise.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/aproximacoes-entre-o-pensamento-de-nietzsche-e-psicanalise/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 May 2014 19:26:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[Nietzsche]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filósofo alemão Nietzsche (1879-1900) morreu exatamente no mesmo ano em que Freud publicava o seu magistral livro “Interpretação dos sonhos”. Freud certamente leu Nietzsche, mas o contrário não aconteceu. Entretanto, para aqueles que estudam Freud e começam a tomar contato com o pensamento do filósofo, logo percebem os inúmeros pontos de contato entre ambos. &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/aproximacoes-entre-o-pensamento-de-nietzsche-e-psicanalise/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Aproximações entre o pensamento de Nietzsche e a psicanálise.</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/05/download-4.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1044 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/05/download-4-150x150.jpg" alt="download (4)" width="150" height="150" /></a>O filósofo alemão Nietzsche (1879-1900) morreu exatamente no mesmo ano em que<a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/abordagem-teorica-em-psicanalise.php"> Freud</a> publicava o seu magistral livro “Interpretação dos sonhos”. Freud certamente leu Nietzsche, mas o contrário não aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, para aqueles que estudam Freud e começam a tomar contato com o pensamento do filósofo, logo percebem os inúmeros pontos de contato entre ambos. E é sobre alguns destes pontos de convergência que eu quero tratar aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-888"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;"> Mas, quem foi Nietzsche?</h2>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista da história da filosofia, Nietzsche foi o primeiro filósofo, em pleno século XIX (século das luzes) que questionou a centralidade da racionalidade e a supremacia do pensamento humano sobre a natureza. Suas duras críticas ao pensamento socrático-platônico, que surge no século V a.C., e que marcam o início da história da filosofia, ecoam de forma contundente em todas as suas obras. Mas, antes do início da filosofia, ou seja, na era pré-socrática, o que havia?</p>
<p style="text-align: justify;">Havia os mitos: interpretações humanas sobre a origem da vida, do mundo e do próprio homem. Estes mitos, ao contrário do que aconteceu com o pensamento socrático-platônico, não tinham a pretensão de explicar e dominar a natureza ou a vida, pois, para os gregos, a vida era indomável. Ao homem que refletia sobre ela, cabia não explicar A Vida, mas vivê-la em sua plenitude, encarando seus conflitos e dilemas. Nos mitos trágicos, o homem grego refletia sua profunda consciência de sua pequenez e incapacidade para controlar as forças da natureza e da vida, que eles chamavam de <i>devir.</i></p>
<h2>O que era o <i>devir</i>?</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSRc9FM7-EKoZ6YrhtBg8w3HbUICQo9uTncW-gH8z2VH3VP1_f1" alt="" width="215" height="235" /> Era a percepção que os gregos tinham de que a vida é regida por uma constante transformação, que não pode ser controlada, prevista, nem modificada pelos poderes “supremos” ou racionais do homem.</p>
<p style="text-align: justify;"> Então, o que Nietzsche critica no pensamento socrático-platônico, que irá formatar toda a constituição do homem moderno – de onde herdamos nosso modelo de compreensão do mundo – é a arrogância com que o homem se coloca no centro da natureza. Neste modelo, que predominou nas ciências e nas artes dos séculos posteriores (até chegar a nós) havia e há a crença suprema no poder do pensamento e da racionalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é utilizada, não para interpretar e dar um sentido ao mundo, como faziam os gregos, mas para dizer o que ele É! Deriva daí a ideia de liberdade e autonomia plena do sujeito. Nietzsche, ao contrário &#8211; em sua perspectiva trágica do homem &#8211; considera que os conceitos de liberdade e de autonomia são uma herança maléfica do racionalismo socrático.  O que ele quer dizer com isso é que o homem não é livre para fazer o que quiser. O homem é parte de um todo, está inserido em um sistema social, político, econômico e depende intimamente das forças tempestivas da natureza para realizar o que quer que seja. Em suma, o homem é mortal. Não controla o tempo. Está inserido nele. O tempo não tem início nem fim. Só o homem é finito, nasce e morre.</p>
<p style="text-align: justify;"> <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTi2riIqOM3tYKA6Rv0HoWbqniTsn4HF-K6KsnQ6iBaQla6AGKX1Q" alt="" width="276" height="183" /> Outra consequência deste pensamento é a seguinte: nós não somos o que somos por causa do nosso desejo e vontade. Pensar assim seria uma grande onipotência! Nossas potencialidades – por exemplo, a minha habilidade para escrever ou dar aulas – não foi uma escolha minha (eu não teria poder para isso), mas algo dado a mim pela minha própria natureza. No meu caso, por exemplo, eu gostaria muito de ter sido bailarina, ou seja, trabalhar com arte, mas não tinha habilidade para isso. Desde pequena fui pouco flexível em termos corporais. Eu não escolhi ser pouco flexível, assim como não escolhi ter habilidade com as palavras, falada ou escrita. Ou seja, grande parte do que nos constitui não é escolhido por nós. Resta-nos aprender a fazer algo com aquilo que somos e aceitar aquilo que não podemos ser. Esta visão, ao contrário do que pode parecer, não é de resignação diante da vida, mas de potência e de plena responsabilidade para com aquilo que eu sou.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro exemplo: em nossa interpretação antropocêntrica do mundo (o homem no centro), um homem aguarda meses suas férias que serão em uma belíssima na praia. Chegando lá, chove a semana toda. O que este homem moderno diz? Tinha que ser comigo! É só eu sair de férias que chove. Ora, o fato de chover não tem nada a ver com as suas férias. Trata-se de um fenômeno da natureza, completamente alheio à nossa vontade. O que diz Nietzsche sobre isso? Ele diz que nós, homens modernos, interpretamos as coisas assim porque sentimos medo e pavor de perceber que nós não temos qualquer controle sobre eventos climáticos, sobre a economia, sobre o fato de adoecermos de um vírus ou não e sobre a nossa morte. Todos estes são eventos são absolutamente incontroláveis. OK. Nós fazemos vacinas, manipulamos a genética para vivermos mais, mas, ainda assim a morte, as doenças, a chuva, o frio, o calor, tudo isso vai continuar existindo porque independe da nossa vontade. Em uma linguagem psicanalítica, dizemos que o homem é um ser desamparado, frágil e extremamente limitado.</p>
<h2>Mas, diante de tantas determinações, o que faz o homem? Senta e espera? Não.</h2>
<p style="text-align: justify;"> Para Nietzsche, a potência do homem está em sua capacidade de tolerar o conflito, inerente à vida, e de se colocar nesta adotando a postura de um soldado forte e corajoso. Para Nietzsche, humildade, resignação e bondade excessiva são características dos fracos.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, a radicalidade do pensamento de Nietzsche está em sua capacidade de se distanciar de todas as “Verdades” que a filosofia vinha construindo, de seus dogmas e modelos de pensamento, para questionar o próprio pensamento e a sua centralidade na vida humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Nietzsche não se pergunta qual filósofo tinha a verdade. Ele se pergunta: o que é a verdade? Quem determina o que é a verdade? É verdade para quem? E por quem? Exatamente aí reside a beleza e profundidade de suas reflexões filosóficas.</p>
<p style="text-align: justify;">Aprofundando esta questão, Nietzsche chega à doutrina religiosa judaico-cristã e afirma que esta é um platonismo para o povo. O que ele quer dizer com isso? Quer dizer que as noções de céu e inferno, bom e mau, pecado e culpa, certo e errado foram construídas como Verdades com um propósito muito específico: dominar e domesticar os pobres. Deixar o ser humano bem domesticado e incapaz de questionar o que é verdade e por quem ela foi construída.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo ele, estas noções são nocivas à vida porque matam no humano sua vontade de potência, seu poder de transformação no aqui-agora de sua vida. Nesta perspectiva, o foco está na felicidade que será atingida em outra vida, ou em um futuro longínquo. A felicidade no hoje é pecado. Com isso, o homem não pode gozar sua vida no aqui-e-agora. Ou, se goza, o faz com culpa e sentimento de autocomiseração. Não é isso mesmo que dizem as religiões? Que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus? Que se deve amar o inimigo? Ora, não há nada mais antinatural do que isso. Não há nada mais contrário à natureza instintiva e primitiva humana do que amar aquilo que não lhe é prazeroso ou lhe traz algum tipo de ganho!</p>
<p style="text-align: justify;">Com este modelo de Verdade, o homem segue matando e abafando suas forças dionisíacas – forças vitais e pulsionais, que nos lembram de que somos seres da natureza (somos bicho), submetidos às suas poderosas manifestações.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Não é exatamente isso que diz <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/abordagem-teorica-em-psicanalise.php">Freud</a>?</h2>
<p style="text-align: justify;">Quando ele teoriza que o id é constituído de pulsões, sexuais e agressivas, e que a meta do ego é mediar este constante fluxo de energia instintual com a realidade, não é exatamente às forças dionisíacas de Nietzsche a que ele se refere? Assim também, ele considera que para o id não há moralidade, certo, errado, bom e mau. No id, os desejos são absolutos, inexoráveis. É por isso que diz Lacan, um dos maiores leitores e estudiosos de Freud: ao sujeito em análise, cabe se responsabilizar única e exclusivamente pelos seus próprios desejos. Tornar-se, por si mesmo, um sujeito desejante no mundo, aceitando sua condição de ser desamparado.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspectiva, e também na nietzschiana, o sujeito (trágico, por excelência) vive quando se responsabiliza pelos próprios desejos, pelo próprio inconsciente, o que lhe configura uma nova posição no mundo: a posição de um sujeito ético. Na perspectiva racionalista socrático-platônica, que apregoa o ideário de felicidade absoluta, de gozo ilimitado e de liberdade e autonomia plena, há um apagamento do outro e do contexto em que se está inserido. Busca-se, neste modelo, a eternização, o vencer a morte e as doenças, o apagamento e anulação dos conflitos que são inerentes à vida. Pois, se ao sujeito é imputada liberdade absoluta, ele merece tudo: ser feliz, gozar sem responsabilidade, tornar-se imortal.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, Deus está morto (como havia apregoado Nietzsche), mas há um endeusamento do próprio homem e de uma busca incessante e obsessiva pela felicidade absoluta, pelo gozo pleno e ilimitado. O próprio homem se endeusou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nietzsche e a <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/abordagem-teorica-em-psicanalise.php">psicanálise</a> vêm lembrar ao sujeito, com toda pertinência e propriedade, que os conflitos são inerentes à nossa existência, que a dor, a frustração, a perda, a morte fazem parte do pacote de sermos humanos e que a potência transformadora do sujeito pode ser buscada em sua luta diária, travada consigo mesmo e com as dificuldades e labutas da vida. O poder de potência do homem está em sua capacidade de transformar a si mesmo, aceitar a imponderabilidade da vida, a falta de controle e de ingerência sobre os outros (cada um é responsável por si mesmo) e, mais importante de tudo, a sua responsabilidade por si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRu0F3DjcqlZ2FLCx5zLqcbGuT0C2HwjtvWTzFgZ47woyl7ucyusA" alt="" width="194" height="259" />Paradoxalmente, ao avistar este conhecimento trágico sobre a vida, o homem conquista um incrível sentimento de liberdade e quietude interior: não a liberdade idealizada e narcísica, de gozo absoluto; mas, a liberdade sábia da maturidade, que olha para o mundo e não se choca mais tanto com as tortuosidades humanas, pois, sabe-se que o homem é feito disso tudo: matéria vil e nobre; tal como a consciência profunda adquirida por Édipo em Colono. Assim foi, é e será. Enquanto habitarmos este planetinha azul.</p>
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