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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Thu, 11 Sep 2025 13:39:26 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Sep 2025 14:31:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[historiografia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora faz uma resenha do livro A Descoberta do Inconsciente, do psiquiatra e historiador franco-canadense Henri Frédéric Ellenberger, apontando o que a leitura desta obra monumental despertou nela. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-leitura-obrigatoria-para-todo-psicoterapeuta-em-alguma-fase-da-vida/">Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/livro-Ellenberger.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-3242 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/livro-Ellenberger.jpg" alt="" width="187" height="269" /></a>Foi por acaso que cheguei ao livro “A Descoberta do Inconsciente: história e evolução da psiquiatria dinâmica”, publicado em 1970 pelo psiquiatra e historiador franco-canadense Henri Frédéric Ellenberger. E eis que me deparo com uma obra monumental e de inestimável envergadura na minha área.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ler as quase mil páginas de “A Descoberta do Inconsciente” expandiu muitas coisas em mim. </span></p>
<p><span id="more-3241"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, fez-me conhecer uma grave lacuna na minha formação como psicóloga, pois ignorava por completo a historiografia e as origens remotas do meu próprio trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Assim, costuma-se erroneamente ensinar nas Universidades que foram homens como Charcot, Freud e Jung os iniciadores da psicoterapia, o que Ellenberger demonstra ser um grave erro histórico, pois a psicoterapia já vinha se desenvolvendo, através de homens como  Johann Joseph Gassner e Franz Anton Mesmer, desde 1775. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para ser mais exata sobre isso, a primeira cura primitiva de uma afecção mental de que se tem relato, foi descrita pelo antropólogo alemão Adolf Bastian em 1890, conforme ele testemunhou sendo realizada por um pajé, numa tribo da Guiana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, ler Ellenberger foi como conhecer pela primeira vez meus bisavós e tataravós de profissão, e ampliar o conhecimento da minha ascendência para além dos meus grandes mestres. </span></p>
<h2>Apagamento das origens</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">O motivo para tal apagamento da história na psiquiatria dinâmica, conforme mostra Ellenberger, é que, ao contrário das ciências físicas, a psiquiatria dinâmica não teve uma evolução linear. Assim, muitas das coisas que foram descobertas numa certa fase, foram simplesmente negadas pelos pesquisadores da fase seguinte, conforme se vê, por exemplo, no grave erro de Freud em considerar que o método catártico era invenção sua quando, na verdade, Pierre Janet já o vinha desenvolvendo há muito tempo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Ellenberger.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3244 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Ellenberger.jpg" alt="" width="186" height="271" /></a>Nesse sentido, o livro de Ellenberger tem a inestimável importância de fazer uma reparação à propriedade intelectual de homens brilhantes e sóbrios que foram simplesmente apagados da historiografia oficial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, sobre isso Ellenberger propõe que a decisão sobre qual autor será laureado e qual será esquecido numa dada época depende de coisas como a personalidade dos autores em questão e as preferências e os embates de uma dada época pelas ideias em voga. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, explica Ellenberger, autores como Pierre Janet e Adler não fizeram tanto sucesso na ocasião, pois eram representantes de um iluminismo tardio, ao passo que Freud e Jung, retomavam conceitos da velha psiquiatria romântica, ideais estes mais compatíveis ao gosto da época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, foi muito iluminador para mim enxergar que a história do meu campo de trabalho foi consolidada em ondas e, porque não dizer até mesmo em modismos, ora predominando o iluminismo, ora o organicismo, ora o romantismo. O que explica a existência de tantas “escolas” díspares na psicologia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma outra riqueza do livro de Ellenberger é sua capacidade de mostrar ao leitor como foram as condições históricas, econômicas e o espírito de uma dada época que propiciaram o surgimento ou ressurgimento de determinadas ideias na psiquiatria dinâmica, as coisas estando sempre mais ligadas do que imaginamos. Daí a importância, a meu ver, do psicólogo ser uma pessoa culta e bem instruída em campos que vão muito além da sua área. </span></p>
<h2>Psicólogos das profundezas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ponto de destaque no livro para mim foi o reconhecimento mais profundo de que todos estes psicólogos das profundezas, desde o exorcista e padre Gassner, passando pelo reverendo Oskar Pfister, o magnetizador Mesmer, o marquês de Puységur, os hipnotizadores Jean Martin Charcot e Auguste Ambroise Liébeault e tantos outros que não teria condições de citar aqui, estiveram desde o início envolvidos e lutando com misteriosas forças mentais que faziam seus pacientes falarem outras línguas, apresentarem múltiplas personalidades, entrarem em hipnose profunda e desenvolverem graves contágios psíquicos, tudo isso causando  por vezes sofrimento mental no próprio médico que tentava curá-los. Risco de profissão que todo psicoterapeuta experimentado conhece bem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vejo isso como um alerta já que tentar psicoterapizar pacientes sem uma sólida formação prévia, significa evocar forças mentais perigosas tanto para o paciente quanto para o psicoterapeuta, uma vez que o poder de sugestionabilidade da mente humana é brutal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, se a cura das almas foi se tornando mais sofisticada e científica com o tempo, passando do exorcismo e da confissão dos pecados à cura pela fala no divã, isso não significa que deixamos de lidar com as mesmas forças obscuras da mente humana, da qual ainda seguimos conhecendo muito pouco.</span></p>
<h2><b>Fim da leitura</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei o livro de Ellenberger sentindo um misto de coisas. Vazio e tristeza por tê-lo terminado, já que sua leitura, apesar de densa é muito prazerosa e instigante, mas também com vontade de me debruçar e estudar a fundo estes meus bisavós e tataravós, a quem agora percebo que devo muito. Um deles que pretendo estudar é Pierra Janet à quem Freud parece dever muito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra consequência desta leitura é que, como psicanalista, oriunda direta da psiquiatria e da filosofia romântica, Ellenberger aguçou em mim o desejo de me debruçar sobre outros autores românticos além de Freud, sendo eles Schelling, von Schubert, Ignaz Paul Vital Troxler, Carl Gustav Carus, Arthur Schopenhauer, Eduard von Hartmann , Gustav Theodor Fechner e Johann Jakob Bachofen. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, para se fazer justiça, é a tais autores que devemos atribuir a descoberta do inconsciente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Termino também o livro de Ellenberger admirando ainda mais Freud e nutrindo uma admiração incipiente por outro autor que desconheço por completo, Carl Gustav Jung. Pois, segundo ele, Freud e Jung foram os únicos desta grande linhagem que arriscaram tudo, sua própria psiquê e sua sanidade mental, em nome de sua obra, num processo que Ellenberger chamou de afecção criativa. </span></p>
<p>De Freud, podemos conhecer um pouco do enorme sofrimento mental vivido por ele em sua afecção criativa, através das cartas enviadas ao amigo e médico Wilhelm Fliess entre 1887 e 1904, reunidas e publicadas por Jeffrey Moussaieff Masson em 1986.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta consiste num estado de grave adoecimento psíquico pelo qual passam determinados descobridores antes de descobrirem algo realmente colossal. Penso sobre isso na coragem que ambos tiveram que ter ter, o que idealmente deveria ser também o propósito de uma análise didática: o analisando podendo adoecer a tal ponto de si mesmo, que a sua cura correspondesse à aquisição de um novo olhar, convicto e profundo, sobre si e sobre a vida. Mas talvez isso seja pedir demais.</span></p>
<h2><b>Considerações finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura do livro de Ellenberger me fez sentir alegria por fazer parte, ainda que ínfima, desta grande linhagem de homens que se propuseram a estudar e tratar a insondável mente humana. Além disso, ampliou-se enormemente em mim a dívida simbólica com meus ascendentes espirituais, já que aprendi com ele, de uma maneira muito elegante, que cada estudioso é tão somente um continuador de muitos outros que o antecederam. </span></p>
<p>A partir do que nos mostra Ellenberger, penso que também seria providencial que os cursos de Graduação em Psicologia pudessem ensinar uma historiagrafia mais completa das origens da psicoterapia aos alunos, fazendo juz a autores que, apesar de menos famosos, são tão importantes quanto. Apagamento curricular grave que acaba por formar psicoterapeutas bastante mal informados e repetidores de informações falsas.</p>
<p>Mas isso não significa que o livro seja interessante só aos psicólogos, podendo agradar qualquer leitor curioso e sagaz interessado nas questões da mente.</p>
<p>Por fim, Ellenberger me fez sentir algo que Sócrates já sabia, a saber, o quão estimulante é se saber ignorante de tudo o que ainda há para se estudar nesta vida.</p>
<p><em>*Agradeço em especial ao pesquisador Flávio F. Fontes, professor adjunto do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que me colocou pela primeira vez em contato com a obra de Henri Frédéric Ellengerger, enviando-me dois artigos do autor sobre a vida da paciente Berta Pappeheim.</em></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Livraria da Travessa do Ribeirão Shopping &#8211; Noite de autógrafos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jul 2014 17:37:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Livros Publicados]]></category>
		<category><![CDATA[livro O divã no dia a dia]]></category>
		<category><![CDATA[Noite de autógrafos Livraria da Travessa]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>  No dia 11 de julho (sexta-feira), a partir das 19 horas, participarei de mais uma noite de autógrafos do meu primeiro livro O divã no dia a dia, organizada pela editora IELD de Ribeirão Preto. O espaço não poderia ser mais agradável. Será na lindíssima Livraria da Travessa, inaugurada recentemente na ala nova do &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/noite-autografos-livraria-da-travessa-ribeirao-shopping/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Livraria da Travessa do Ribeirão Shopping &#8211; Noite de autógrafos</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">  <img decoding="async" class="alignleft wp-image-1031 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/07/download-2-150x150.jpg" alt="livraria da travessa do ribeirao shopping" width="150" height="150" />No <strong>dia 11 de julho</strong> (sexta-feira), <strong>a partir das 19 horas</strong>, participarei de mais uma noite de autógrafos do meu primeiro livro <em>O divã no dia a dia</em>, organizada pela editora IELD de Ribeirão Preto.</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço não poderia ser mais agradável. Será na lindíssima Livraria da Travessa, inaugurada recentemente na ala nova do Ribeirão Shopping.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-936"></span>Essa noite de autógrafos será uma nova oportunidade de usufruir da beleza e do aconchego da livraria (estar em meio aos livros é sempre algo muito prazeroso), conversar e aproveitar o gostoso coquetel, carinhosamente preparado pela editora.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Venha conhecer o meu primeiro livro na Livraria da Travessa!</h2>
<p><em><strong>Local: Livraria da Travessa</strong></em> <em><strong>Data: 11 de julho de 2014 (sexta-feira)</strong></em> <em><strong>Horário: a partir das 19 horas.</strong></em> Confira o livro &#8220;<a href="http://ield.com.br/produto.php?id=22" target="_blank">O Diva no dia dia</a>&#8220;</p>
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		<title>Reflexões sobre a escolha pelo curso de psicologia.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Feb 2013 17:29:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[escolha profissional]]></category>
		<category><![CDATA[Graduação em Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Costumo receber muitos e-mails de estudantes de psicologia e de pessoas que têm interesse na área me perguntando como é atuar como psicólogo. Desta forma, achei que seria relevante produzir um texto sobre o tema e para isso vou me basear em algumas percepções que pude ir acumulando durante os meus anos de experiência como &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-a-escolha-pelo-curso-de-psicologia/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Reflexões sobre a escolha pelo curso de psicologia.</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicologo.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-700 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicologo-300x240.jpg" alt="psicologo" width="180" height="144" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicologo-300x240.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicologo.jpg 400w" sizes="auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px" /></a>Costumo receber muitos e-mails de estudantes de psicologia e de pessoas que têm interesse na área me perguntando como é atuar como psicólogo. Desta forma, achei que seria relevante produzir um texto sobre o tema e para isso vou me basear em algumas percepções que pude ir acumulando durante os meus anos de experiência como docente em cursos de psicologia.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-699"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Toda vez que assumo uma turma nova, tenho o costume de perguntar a cada um dos alunos o que motivou a sua escolha. Apesar de cada um ter uma motivação particular, chama minha atenção o número grande de alunos que respondem que buscaram o curso para ajudar um membro “doente” da família. Outros, também em número considerável, respondem que buscaram o curso porque eles próprios já estiveram ou estão deprimidos e apresentam algum tipo de sofrimento emocional, para os quais desejam obter respostas através da Psicologia. Ainda, uma pequena parcela responde que é para compreender o ser humano e os mistérios da mente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>A escolha profissional para a Psicanálise</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista da Psicanálise, sabemos que estas respostas se configuram como falas, manifestações de desejos que precisam ser lidas a partir da ótica do inconsciente. Desta maneira, estes alunos buscam, através da ciência, respostas racionais para questões emocionais e que, portanto não podem ser respondidas a partir daí.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta constatação – a de que muitos alunos têm buscado no conhecimento racional respostas para questões que são de ordem  inconsciente – leva a algumas consequências que vou procurar elencar agora, algumas de ordem pessoal, ou seja, para a vida e saúde mental do aluno, e outras de ordem profissional, podendo acarretar num sentimento de falta de identificação com a profissão do psicólogo, algo que tenderá a eclodir nos últimos anos de formação.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/portas2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-704 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/portas2-300x217.jpg" alt="portas2" width="240" height="174" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/portas2-300x217.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/portas2.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px" /></a>Vamos à primeira. Sabemos pela Psicanálise que toda escolha tem significados inconscientes. Sabemos, portanto, que a escolha pela psicologia, assim como a escolha de qualquer outra profissão, tem ressonância direta com desejos e fantasias do inconsciente que precisam ser analisadas caso a caso. Sabemos também que o trabalho (no sentido de realizar um ofício) pode ser compreendido em termos psicanalíticos como uma forma de sublimação, ou, dito em termos kleinianos, de reparação aos nossos objetos internos danificados, algo que penso ser verdadeiro no caso de muitas profissões que visam oferecer algum auxílio ao outro, dentre elas a profissão de psicólogo. Lembro-me de uma conferência de Psicanálise em que a palestrante alertava para o fato de que, no inconsciente de todo psicanalista, havia uma culpa inconsciente que precisava ser reparada através do fazer psicanalítico. Outra motivação muito comum, esta encontrada sobretudo na profissão médica, liga-se a um desejo inconsciente de vencer a morte, desejo que se não puder ser elaborado, pode trazer grandes doses de angústia para o profissional que inevitavelmente “perderá” pacientes em sua carreira. O problema é que estas significações inconscientes só podem ser conhecidas em uma análise e não nos bancos universitários!</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, chegamos à segunda consequência, de ordem profissional. Quando um estudante de psicologia tem como motivação fundante para sua escolha questões inconscientes assentadas em problemáticas pessoais, pode haver com isso uma confusão no que se refere ao  papel de um profissional da Psicologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me de inúmeras situações de supervisão de estágio em que alunos, carentes de um espaço psicoterapêutico para poderem sonhar suas próprias experiências e dores, tinham muita dificuldade para enxergar o paciente como alguém com questões, necessidades e dramas próprios. Ou seja, a angústia destes alunos, a falta da psicoterapia, somada à alta angústia gerada pela proximidade da formatura, impedia-os de conseguirem delimitar o que eram suas próprias angústias e o que eram angústias do paciente.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, em muitos momentos, ou o paciente interrompia o processo levando o estagiário a pensar no contexto da supervisão sobre a sua participação nesta interrupção, ou continuava, embora sem a perspectiva de se criar verdadeiramente uma relação terapêutica, baseada numa relação assimétrica de ajuda em que um (o terapeuta-estagiário) está  um pouco mais amadurecido em termos emocionais para oferecer ajuda ao outro (o paciente).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Características de personalidade importantes para ser um psicólogo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Acho importante clarificarmos que quando a escolha pela psicologia baseia-se no anseio de se &#8220;resolver&#8221; questões emocionais de ordem pessoal, uma espécie de crise profissional provavelmente será vivida pelo estudante ou pelo profissional em seus primeiros anos de atuação, pois, para se atuar com relativo sucesso nesta área, espera-se que o profissional tenha podido avançar um pouco mais que o seu paciente no conhecimento de sua própria mente.  Diante disso, tentarei elencar algumas das características humanas ou de personalidade que eu considero fundamentais para se exercer o ofício de maneira satisfatória e prazerosa para o futuro profissional.</p>
<p style="text-align: justify;">Falarei baseando-me no fazer clínico / psicanalítico que é o único que eu conheço mais a fundo, embora eu considere que a atuação do psicólogo, independente do contexto, deva se guiar por tais habilidades que se congregam, todas elas, em um desejo genuíno de auxiliar o outro a suportar melhor suas dores mentais, amparando-se em uma abordagem científica X ou Y.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, acredito que dentre as características importantes para se exercer este bonito, mas árduo ofício, uma pessoa deve ter:</p>
<p style="text-align: justify;">1) <b>Profundo respeito pela condição humana,</b> que marca a todos nós de igual modo.  Além de ser profissional, ele deve ser capaz de ser um humano, no sentido mais amplo do termo, com capacidade para fazer companhia a dores humanas que às vezes beiram o indescritível. Para isso, é importante poder manter uma atitude de não arrogância e superioridade com relação ao semelhante, embora podendo manter uma relação assimétrica e respeitosa com relação aos limites da relação terapêutica.  Para isso, ele precisa gostar de ser humano e gostar de outros humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">2<b>) Amor à verdade.</b> É importante que esta pessoa seja íntegra, algo que não tem a ver com moralismo. Assim, ela deve ser uma guardiã atenta, sem dogmatismo, mas com acolhimento das verdades humanas, das quais todos nós, em algum momento, tendemos a fugir. Algumas destas verdades essenciais são a de que somos seres absolutamente dependentes e frágeis, a de que somos mortais, porém potentes para fazermos algo pelo bem comum enquanto estamos vivos, a de que somos essencialmente diferentes, mas semelhantes, a de que somos essencialmente sós, mas sociais, a de que não somos nem só bons, nem só maus.</p>
<p style="text-align: justify;">3) <b>Gosto pela palavra.</b> O psicólogo deve ter prazer em utilizar palavras, pois, em muitos momentos a nossa função será colocar em narrativas possíveis o que às vezes parece escapar de qualquer compreensão verbal e humana. Associo o psicólogo / psicanalista a um pintor que pinta um quadro do que se passa numa relação humana específica utilizando como tintas as palavras.</p>
<p style="text-align: justify;">4) <b>Condição mental para suportar altas cargas emocionais, mantendo a capacidade para sonhar. </b>O psicólogo será submetido, em seu trabalho quotidiano, a altas doses de emoções intensas (amor, ódio, inveja, rivalidade, ciúme, persecutoriedade, além das emoções que ainda não foram nomeadas pela dupla) e é importante que ele tenha um continente preparado para acolhê-las sem perder a capacidade para pensar. O lugar privilegiado de construção deste continente é a análise. Sem isso, ele não só não conseguirá auxiliar seu paciente, como também poderá criar confusões geradas pelas suas próprias emoções ainda não desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A idealização do trabalho clínico</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Observo entre os alunos uma espécie de idealização do trabalho do psicólogo, sobretudo do clínico, idealização talvez criada a partir da imagem clichê de um terapeuta tranquilamente sentado em seu consultório ouvindo pessoas em sua sala ricamente decorada, com o seu ar condicionado. Esta é uma visão muito parcial do trabalho. Mesmo que tenhamos o privilégio  de passarmos o dia em uma sala bonita, com ar condicionado ouvindo os dramas e histórias das pessoas que toparam confiar em nós, a realidade do trabalho não é tão colorida assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicanalista.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-705 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicanalista-300x226.jpg" alt="psicanalista" width="270" height="203" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicanalista-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/psicanalista.jpg 320w" sizes="auto, (max-width: 270px) 100vw, 270px" /></a>Apesar de ser um trabalho extremamente enriquecedor do ponto de vista humano, pois, pelo menos isso é real para mim, a cada nova sessão me sinto diferente, modificada em minha forma de compreender o mundo a partir daquela interação, o trabalho clínico é extremamente solitário, silencioso e difícil. Um psicólogo / terapeuta, portanto, deve gostar imensamente da sua companhia e saber ouvir a voz do silêncio, sem se angustiar com isso. Deve gostar de ler poesia e ser curioso sobre os seus próprios pensamentos. Associo a função de um terapeuta interessado em descobrir as verdades emocionais penosas do paciente à figura de Virgílio que acompanha o poeta Dante em sua dolorosa descida ao inferno e purgatório.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, como todo trabalho criativo há belezas e dramas, assim como tudo na vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Responsabilidade dos cursos univeristários que formam psicólogos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Acredito que todo docente de psicologia deva estar preparado para discutir estas questões fundamentais com os seus alunos, questões estas que serão o alicerce de sua formação. Acho muito positivo que os cursos de psicologia estejam repletos de alunos, pois, isso é sinal de que muita gente tem se interessado pelas questões mentais. Entretanto, também acho importante clarificarmos e fazermos discriminações junto aos alunos entre o que é ser psicólogo e o que é buscar a ciência psicológica para entender a si próprio, pois, penso que são coisas muito distintas, conforme tentei mostrar aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Caso contrário, corremos o risco de banalizarmos o conhecimento psicológico transformando-o em uma espécie de jargão mágico que tudo pode explicar. Com isso, pervertemos o uso do conhecimento, que passa a ser usado como um atalho, utilizado para se fazer o trabalho necessário com o mínimo de esforço, já que se deitar no divã ou fazer uma boa psicoterapia costuma ser mais custoso, pelo menos emocionalmente, do que frequentar os bancos escolares. Em tempos de solução mágica e rápida para quase tudo, a busca por um curso ao invés do auxílio psicológico pode estar a serviço de desejos onipotentes e mágicos de cura rápida, evitando-se passar pelo sofrimento necessário a qualquer transformação emocional verdadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Para uma discussão mais aprofundada sobre as características de personalidade necessárias a um terapeuta, sugiro o bonito livro de Contardo Calligaris “Cartas a um jovem terapeuta”. <a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/cartas-a-um-jovem-terapeuta.gif"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-702 alignleft" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2013/02/cartas-a-um-jovem-terapeuta-196x300.gif" alt="cartas a um jovem terapeuta" width="110" height="168" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-a-escolha-pelo-curso-de-psicologia/">Reflexões sobre a escolha pelo curso de psicologia.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Oct 2012 16:50:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento humano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[maturidade]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o envelhecimento e a morte à luz da Psicologia e da cultura atual.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/">Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft  wp-image-637" title="envelhecimento" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/565041_379559605458208_504394231_n-300x199.jpg" alt="" width="238" height="158" />Minha motivação inicial para escrever este artigo se deve ao fato de haver, sobretudo em nossa cultura atual, um grande silenciamento ou, no mínimo, certo mal-estar quando o assunto é <a href="http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/">envelhecimento</a> e morte, algo que noto muito em minhas aulas de Desenvolvimento Humano quando trato do envelhecimento e morte com meus jovens alunos.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-635"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Paradoxo da condição humana</h2>
<p style="text-align: justify;">O fato é que desde que temos consciência da nossa existência como humanos temos medo de envelhecer e de morrer. E este é o grande paradoxo da vida, pois, só um humano tem consciência de sua existência e, portanto, de sua morte.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que em muitos mitos encontramos deuses lutando contra a morte. É por isso também que nas concepções religiosas a vida após a morte ou a ressurreição é apresentada como possibilidade de vida eterna. Entretanto, só deuses podem vencer a morte. Humanos não. Porque nós humanos somos mortais, não somos eternos, sendo esta uma realidade inexorável e inevitável – a de que todos nós iremos morrer um dia. Na Psicologia dizemos que a morte é irreversível.</p>
<h2 style="text-align: justify;">&#8220;Eu posso comprar tudo&#8221;</h2>
<p style="text-align: justify;">Mas é fato também que ninguém gosta de pensar na morte, sobretudo na própria. Na verdade, em nossa cultura atual regida pela lógica do consumo em que “se eu tenho poder de compra, eu posso tudo”, envelhecimento e morte são assuntos considerados fora de moda porque abalam a ilusão de sermos eternos, de podermos tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, verdadeiras corridas contra o tempo são travadas: plástica, botox, exercícios desmedidos e exagerados, tudo para evitar o correr do tempo e manter a ilusão da eterna juventude. Mas, não pensem que esta evitação é bem sucedida e exitosa, pois, uma das regras do mundo mental é a de que quanto mais evitamos uma percepção, mais ela nos ameaça. Não será por isso que atualmente temos tantos filmes que apresentam o fim da espécie humana de maneira catastrófica e terrível? Outra consequência nefasta desta evitação fóbica do envelhecimento / morte é a perda do sentido da vida, já que não podemos ser aquilo que não somos mais.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Concepção de desenvolvimento</h2>
<p style="text-align: justify;">Em grande parte, esta desvalorização do envelhecimento é fortemente estimulada em nossa cultura pela visão de desenvolvimento em arco, conforme chamamos na<a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br"> Psicologia</a>. Trata-se de uma concepção que enxerga o auge da vida ocorrendo na fase adulta. Depois disso, é queda e morte. Ou seja, é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;">Problematizando esta visão, a atriz americana Jane Fonda em uma <a href="http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/jane_fonda_life_s_third_act.html"><span style="text-decoration: underline;">palestra</span></a>  muito estimulante, propõe que o terceiro ato da vida não precisa necessariamente ser vivido como uma derrota. Tudo irá depender de como “encaramos a música”.</p>
<p style="text-align: justify;">Explico-me. É realmente um fato que o corpo sofre profundamente deteriorações com a passagem do tempo. Dores, limitações, dificuldades de locomoção, etc. Mas, segundo ela, pensando do ponto de vista do desenvolvimento da mente, a melhor metáfora para expressar o envelhecimento não é a de um arco, mas a de uma escada.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Metáfora da escada</h2>
<p style="text-align: justify;">Por que uma escada? Porque a mente humana, que ela chama de espírito, não precisa se atrofiar com as limitações do tempo. Como diria <a href="www.psicologiaribeiraopreto.com.br?phpMyAdmin=4cc11f03eb035fbcbab3a1d1f8c346d4">Bion</a>, um importante psicanalista contemporâneo de Freud, a expansão da mente tende ao infinito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, o que determinará o modo como iremos “encarar a música” da vida, do envelhecimento e da morte? Não será o que vivemos, ou seja, as frustrações que a vida nos reserva, estas sim inevitáveis, mas, o modo como encaramos as nossas vivências. Dito de outro modo: o que seremos ou não capazes de aprender com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu discordo sempre de uma visão muito arraigada em nossa cultura de que envelhecer é sinônimo de maturidade. Porque envelhecimento não tem a ver com a idade cronológica. Tem a ver com a expansão da mente, com o aprender com as experiências, com expandir-se, expandir o seu olhar sobre a vida, sobre si mesmo e sobre os outros.</p>
<p style="text-align: justify;">E isso tem muito mais a ver com sabedoria do que com o fato de fazermos aniversário.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Corpo &#8211; mente</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-638" title="5668591a8dd0a6b643691842acc52ec6e67bd1ff" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/5668591a8dd0a6b643691842acc52ec6e67bd1ff-300x251.jpeg" alt="" width="300" height="251" />Ainda, se pensarmos que conforme nos lembrou <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Winnicott</a>, corpo e mente são um todo indissociável e não duas entidades isoladas, é possível compreendermos como o enrijecimento do funcionamento mental,algo  tão comum  em pessoas idosas, leva à deteriorações e perdas na funcionalidade orgânica. Assim como também é possível pensarmos que uma mente expandida e criativa na velhice (na verdade, isso é válido para toda a vida), implicará em um corpo mais saudável, dinâmico e criativo. Entretanto, parece-me que infelizmente a nossa sociedade atual ainda não levou a sério a seguinte máxima: mente saudável é igual a corpo saudável!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Perspectivas para o presente e o futuro</h2>
<p style="text-align: justify;">Não é possível sabermos como iremos lidar com estes fatos tão incômodos daqui a uns anos &#8211; o de que todos nós envelhecemos e morremos. O fato é que hoje lidamos mal. E a saída para construirmos uma sociedade que lida melhor com este processo inevitável da vida passa pela educação. Não aquela formal, da escola. Mas, sim pela possibilidade de podermos conversar, pensar, dialogar a respeito. Escrever um texto como este. Ler, discutir e não silenciar.</p>
<p style="text-align: justify;">E para terminar, deixo aqui uma citação belíssima de<a href="http://www.rubemalves.com.br/"> Rubem Alves</a> sobre a morte:</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Diante da morte tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar para mentiras. E a gente então se defronta com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso à nossa Verdade, para ouvir de novo a voz do Desejo mais profundo, é preciso tornar-se discípulo da Morte. Pois só ela nos dá lições de Vida se a acolhemos como amiga. A morte é nossa eterna companheira.” </em>(Alves, 1991, p. 14).</p>
<p>Para quem se interessar mais pelo tema, deixo aqui indicações de bibliografia:</p>
<p>1)      KOVÁCS, M. J. (1992). <em>Morte e desenvolvimento humano</em>. São Paulo: Casa do Psicólogo.</p>
<p>2)      ALVES, R. (1991). A morte como conselheira. In.: CASSORLA, R. M. S. (Org.). <em>Da morte estudos brasileiros</em>. Campinas: Papirus: 11-15.</p>
<p>Abraços a todos</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/">Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O amor está em extinção?</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-amor-esta-em-extincao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Aug 2012 21:23:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[contos de fadas]]></category>
		<category><![CDATA[Melanie Klein]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o amor na atualidade. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-amor-esta-em-extincao/">O amor está em extinção?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2 style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-605" title="casal Shrek" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/08/images.jpg" alt="" width="273" height="185" /></h2>
<p style="text-align: justify;">Outro dia falava sobre o amor em sala de aula e fiquei surpresa com a descrença de meus jovens alunos neste sentimento tão sublime e belo. Perguntavam-me eles se o amor ainda existe porque em suas concepções, o amor, principalmente entre os casais, é item em extinção.</p>
<p style="text-align: justify;">Tranquilizei-os dizendo que o amor existe sim entre casais, mas, acrescentei, que para experimentá-lo é preciso tolerância, maturidade e muito amor.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-604"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Para amar é necessário&#8230;.amor:</h2>
<p style="text-align: justify;">Pode parecer redundante dizer que para experimentar o sentimento amoroso numa relação a dois é necessário muito amor, mas não é. Vejo hoje muitos casais desistindo facilmente de uma relação, sobretudo nos momentos em que o outro “não corresponde exatamente aquilo que eu desejo”. Este é um grande problema e é por isso que este sentimento tão sublime é difícil de ser atingido e requer uma alta dose de maturidade emocional.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que não existe nenhuma relação, e isso inclui uma relação amorosa, em que o outro vai corresponder exatamente às minhas expectativas e não vai me frustrar nunca. Acredito que existe uma grande idealização em torno de uma relação amorosa e, sobretudo, do casamento. Acho que muitas pessoas imaginam que, ao se casarem ou ao construírem uma relação estável com alguém, nunca mais se sentirão sós, inseguras ou incompletas. Elas passam a acreditar numa espécie de ilusão – a de que se eu tiver alguém sempre ao meu lado, nunca mais terei que me deparar com estes sentimentos humanos tão incômodos.</p>
<h2 style="text-align: justify;">A nossa incompletude é inerente à condição humana:</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-607" title="incompletude humana" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/08/imagesCA9YYL8M1.jpg" alt="" width="118" height="89" />O problema (e isso nem é um problema) é que estes “sentimentos incômodos” são constitucionais de todos nós e o casamento, uma amizade ou mesmo filhos não podem ser vistos como antídotos que vão, finalmente, nos fazer ficar livre destas dores.</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que muitas vezes podemos cair na armadilha de buscar uma parceira amorosa, um filho, uma amizade ou um trabalho para evitarmos nos deparar com quem de fato somos – com nossas incompletudes, imperfeições, frustrações e limitações e aí fica fácil porque passamos a culpar o outro por tudo o que nos falta.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O que significa, verdadeiramente, amar alguém?</h2>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à questão do amor, o que significa verdadeiramente amar alguém? Segundo Klein, o verdadeiro sentimento de amor deriva da capacidade de suportarmos ficar na posição depressiva que nada mais é do que percebermos que aquela mesma pessoa que nos frustra é aquela que nos traz imensas alegrias.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro aspecto inerente à posição depressiva liga-se à possibilidade de a pessoa poder se responsabilizar pelos seus próprios sentimentos, inclusive, os sentimentos de raiva e de ódio. Isso implica numa grande conquista em termos do desenvolvimento porque, conquistada esta condição, eu não preciso mais dizer que é o outro que esta estragando o meu dia, mas eu posso dizer que são os meus sentimentos (o meu ódio, a minha raiva, a minha dor) que está estragando tudo naquele momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Vale ressaltar que esta condição interna “sublime” não é conquistada e nunca mais perdida, mas, é perdida e (re) conquistada a cada momento da nossa vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, eu acredito que poder amar verdadeiramente alguém implica, em primeiro lugar, em reconhecer que aquela pessoa que eu amo e que me alegra o dia irá, inevitavelmente, me frustrar em outro momento. Ou seja, implica em não idealizar esta relação. Em segundo lugar, amar alguém (não como criação minha, mas como alguém diferente – uma alteridade) implica em eu poder me responsabilizar “pela dor e pela delícia” de ser quem eu sou.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro dia, só para me distrair, estava assistindo a um filme estilo comédia romântica americana chamado “Não sei como ela consegue”. A estória é simples e banal: uma mulher moderna casada com um homem compreensivo e amoroso, bem sucedida e com dois filhos. Está no auge da carreira e exatamente por isso imensamente culpada e dividida entre família e trabalho. Eis que ela conhece seu novo chefe: um homem jovem, belo e SOLTEIRO. Ou seja, representação de tudo o que ela almejava naquele momento, simplesmente porque era completamente diferente de sua realidade familiar caótica e cheia de conflitos.</p>
<h2 style="text-align: justify;">A escolha de Sofia:</h2>
<p style="text-align: justify;">Esta é a escolha de Sofia – escolherá ela, iludida pelo aceno de uma vida perfeita e feliz, pelo prazer de estar ao lado de um homem jovem, belo e solteiro? Ou conseguirá perceber que esta escolha se trata muito mais de uma ilusão já que, na medida em que este homem perfeito, belo e solteiro virar seu namorado ou marido, grande parte dos conflitos vividos anteriormente vão ressurgir porque assim é a vida?</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem que o autor foi coerente e permitiu à mocinha escolher a realidade e não uma ilusão. Deve ser por isso que todos os contos de fada terminam exatamente no momento em que o príncipe encontra a princesa – linda, penteada e cheirosa – e a estória termina com um belo FELIZES PARA SEMPRE.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Felizes para sempre?</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-606" title="contos de fadas" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/08/download.jpg" alt="" width="186" height="139" />Mas, será que se a estória continuasse, esta ilusão conseguiria se manter? Penso que não. Penso que aí teríamos que nos deparar, inevitavelmente com uma princesa com olheiras, cansada e às vezes muito estressada e um príncipe que às vezes ronca, às vezes solta pum e outras tantas adora ver o futebol no momento em que a princesa quer discutir a relação.</p>
<p style="text-align: justify;">Poderíamos começar a pensar em reivindicar estórias infantis com finais mais reais ou pelo menos começar a discutir com nossas crianças que a realidade é muito diferente dos contos de fadas, pois, aí, com certeza, teríamos adultos muito mais preparados para lidar com a realidade, que é sempre &#8220;mais ou menos daquilo que nós queremos, pois, só nós somos iguais a nós próprios, como diria Fernando Pessoa.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-amor-esta-em-extincao/">O amor está em extinção?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A Peste da Psicanálise.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jul 2012 12:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/?p=540</guid>

					<description><![CDATA[<p>Texto que pretende discutir as resistências e ódios nutridos pela Psicanálise desde o seu surgimento. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/">A Peste da Psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">              <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-569" title="Freud - Psicanálise" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/07/freud-destranca-a-mente-228x300.jpg" alt="Freud - Psicanálise" width="228" height="300" />Antes de iniciar minhas reflexões, gostaria também de comentar que este texto foi suscitado pelo ótimo encontro que tivemos no evento &#8220;Psicanálise e Universidade&#8221;, ocorrido em Ribeirão Preto no final do mês passado (26 de maio). Neste encontro, que foi muito frutífero para mim, havia um &#8220;discurso comum&#8221; de todos os participantes que era o incômodo frente à uma visão de homem mecanizada, fragmentada e organicista muito disseminada pela Psiquiatria e pela cultura atual em geral. Como possibilidade de luta e resistência, todos eles apresentaram a Psicanálise como proposta para humanizar o contato de estudantes de medicina, psicologia e áreas afins com seus pacientes. Enfim, para humanizar o humano&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-540"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">A previsão de Freud:</h2>
<p style="text-align: justify;">               Quando Freud viajou com Jung à América e divulgou pela primeira vez a Psicanálise no continente, ele perguntou ao colega, de forma irônica, mas também realista, se “eles” (os americanos) sabiam que ambos estavam levando a “peste” ao novo mundo. Creio que ao dizer isso, Freud já estava tendo uma captação profunda das resistências que sua ciência recém-nascida iria enfrentar.</p>
<p style="text-align: justify;">               <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-542" title="Sigmund Freud" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/freud-em-foto-de-1922-1272370099405_300x300.jpg" alt="Sigmund Freud" width="300" height="300" /> Mas, porque Freud se referia à sua ciência recém-criada como sendo “a peste”? Se pensarmos do ponto de vista histórico, a Psicologia, criada como ciência no século XIX, nunca foi considerada “uma peste”, mas a Psicanálise sim.</p>
<p style="text-align: justify;">                Em primeiro lugar acredito que a Psicologia não é “a peste” porque fora criada dentro dos ditames tradicionais da Ciência, cujo objetivo último é descrever, de uma forma que às vezes me parece circular e óbvia, as leis do comportamento<em> visível </em>(grifo meu).</p>
<p style="text-align: justify;">                Já a “peste” da Psicanálise teve, desde o início, a proposta fundante de desvelar o que é invisível ou, dito de outro modo, o que está inconsciente no comportamento humano tornando explícito “aquilo que não queremos ver de nós mesmos”. Desde então, várias ciências humanas, dentre elas a Sociologia e a Antropologia, vêm brigando com a “peste”, pois a consideram uma anti-ciência que desmonta todas as utopias sociais possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia estava conversando com um colega da área social e eis que surge o seguinte mal-estar: ele apregoava sua crença de que haveria no futuro inúmeras possibilidades de nos organizarmos em comunidades que pudessem fazer frente ao “mal” do capitalismo. Nestas comunidades, dizia ele, iria reinar a paz e a harmonia entre os pares. Eu, intrigada com o seu grau de idealismo, propus a ele pensar que o “mal” não estava somente fora, no capitalismo, mas que havia também um “mal” dentro, inerente à condição humana que era próprio e derivado dos impulsos e que este “mal interno” não poderia ser negado. Se não fosse assim, como ele poderia explicar tantas mortes no trânsito, tantas guerras sangrentas, tanta violência&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">                E mais, se o capitalismo é um sistema criado pelos homens que visa à acumulação do capital nas mãos de uns poucos em detrimento da exploração de muitos, como poderíamos explicar a organização da sociedade nestes moldes sem partirmos da premissa de que haveria um desejo humano pelo poder e a ação de impulsos destrutivos que fizessem este mesmo homem explorar e espoliar seu “semelhante”? Afinal, o capitalismo não é uma coisa ou uma entidade externa ao próprio homem. Ao contrário, fora criado e executado por este.</p>
<p style="text-align: justify;">                Ele, visivelmente irritado, disse que não era possível conversar com “psicólogos”  porque eram extremistas demais. Fiquei surpresa com a sua reação, mas depois compreendi o seu furor. Eu estava cometendo uma falta de educação que era trazer a tona o que precisava ficar negado que, naquele caso, era o reconhecimento da existência de sentimentos de ódio e de maldade, reconhecimento este que sempre gera angústia e dor.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Recorrendo à teoria:</h2>
<p style="text-align: justify;">                E aqui faço uma pausa para explicar teoricamente este mecanismo. Segundo nos ensinou Melanie Klein, quando o ego do bebê (e o nosso também) está muito frágil para suportar reconhecer a maldade e o ódio principalmente com relação ao seio, o bebê irá projetar estes sentimentos intoleráveis fora de si. Esta projeção pode ser feita num objeto específico (numa pessoa, por exemplo) ou pode ser projetado de maneira mais extensiva, no mundo todo, na nação vizinha, nos judeus, nos homossexuais ou no capitalismo. Klein frisa que este é um mecanismo de defesa <span style="text-decoration: underline;">necessário</span> e muito bem vindo já que o bebezinho ainda não suporta enxergar a realidade total, sem fazer dissociações ou fragmentações. Sem desconsiderar a importância crucial deste mecanismo de defesa que é, em última instância, nos livrar da dor, o problema é que quando este mecanismo de defesa projetivo é usado maciçamente começamos a habitar um mundo binário, ou seja, um mundo dividido e cindido em bons e maus, em mocinhos e bandidos e esta percepção parcial impede que tenhamos uma apreensão global das situações vividas.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia estava lendo um livro muito interessante do Marcelo Gleiser chamado “A dança do Universo” e ele descrevia este mesmo mecanismo mental, embora em outros termos. Segundo ele, desde os primórdios do homem, nós tentamos compreender de onde viemos, ou seja, como o Universo foi criado e por não termos recursos cognitivos e intelectuais para compreender conceitos tão abstratos como o nada, a ausência de tempo e espaço e o infinito, nós necessariamente passamos a utilizar recursos binários para “explicar” como tudo surgiu. Notem como nós utilizamos estes binarismos para compreender e organizar nossos sentidos: preto e branco, claro e escuro, ausência e presença, etc. Segundo ele, foi somente com o nascimento da física quântica, área científica ainda muito incipiente, é que estes binarismos passaram a ser questionados.</p>
<p style="text-align: justify;">                Vejam que a teoria das posições esquizo-paranóide e depressiva explicam perfeitamente bem a necessidade humana de manter estas percepções binárias e cindidas. Esta mesma teoria também explica a intenção humana, tão velha quanto a própria humanidade, de construir utopias de que um dia teremos um mundo melhor. Da mesma forma, a teoria kleiniana explica perfeitamente bem as teorias catastróficas sobre o fim do mundo e tudo mais. Penso que a Psicanálise propôs uma verdadeira revolução na forma de pensamento humano quando considerou que toda a maneira de significarmos o mundo e a nós mesmos deriva, sobretudo, de mecanismos mentais que podem engessar ou expandir nossa capacidade de pensar. Bion foi quem, de maneira mais extensiva, ampliou esta discussão.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia conversava com minha analista, e ela me dizia: “<em>a verdade está aí para ser vista. Basta observá-la”. </em>De qual verdade ela estaria falando? Não da verdade com V maiúsculo, a verdade moral, universal e que pretende domesticar o pensamento humano com explicações causais e simplistas, explicações estas que normalmente estão alçadas numa tentativa de eleger um bode-expiatório: o problema é o capitalismo! O problema são os EUA! O problema é a pobreza! Todas estas são visões que deformam e fragmentam a realidade e, portanto, estão ancoradas num funcionamento tipicamente esquizo-paranóide (ver Melanie Klein).</p>
<p style="text-align: justify;">               <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-541" title="litografia de Escher" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/Sem_sentido-300x282.jpg" alt="litografia de Escher" width="300" height="282" /> A verdade da qual minha analista falava e que eu compartilho é a verdade que comporta em si contradições e paradoxos (por exemplo, quando eu sou capaz de perceber que os mesmos seres humanos que me chateiam são aqueles que me proporcionam desenvolvimento e expansão). A verdade é que não existem mocinhos e bandidos como as novelas pretendem vender. A verdade é que não existem culpados e inocentes. Esta visão binária de mundo (bom e mau, certo e errado, feio e bonito) é um recurso precário que nossa mente encontra para colocar alguma ordem no caos e para suportarmos o fato de termos de lidar o tempo todo com o desconhecido. E é por isso que toda esta discussão sociológica e / ou psicológica que apregoa causas, culpados e reféns me irrita às vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">                Mas, retomando a provocação inicial – por que Freud disse que a Psicanálise era a “peste”? Penso que é porque ela nos lembrar que quando elegemos um culpado, estamos colocando nele aspectos odiados, negados e excindidos nossos, que não podemos reconhecer ainda como sendo nossos. Esta é a peste! E é por isso que a Psicanálise é sempre tão atacada: porque ela nos convida o tempo todo a nos responsabilizarmos pelo sublime e pelo medíocre que há em cada um de nós. E é por isso que penso também que nossa relação amorosa e interna com a Psicanálise tem que ser sempre refeita e reparada dos estragos que nós fazemos a ela.</p>
<p style="text-align: justify;">                Abraços a todos.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/">A Peste da Psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Os assuntos tratados nas sessões são sigilosos?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 11:44:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dúvidas frequentes sobre o atendimento]]></category>
		<category><![CDATA[atendimento clínico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sim. Além desta ser uma normativa ética que consta no Código de Ética Profissional do Psicólogo, a questão do sigilo nos atendimentos é compreendida como um direito do paciente e da dupla de trabalho, a ser garantido e assegurado pelo profissional. O Código de Ética do Psicólogo é bastante claro ao dizer que, em linhas &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-assuntos-tratados-nas-sessoes-sao-sigilosos/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Os assuntos tratados nas sessões são sigilosos?</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-assuntos-tratados-nas-sessoes-sao-sigilosos/">Os assuntos tratados nas sessões são sigilosos?</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2010/03/images-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1145 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2010/03/images-3-150x150.jpg" alt="images (3)" width="150" height="150" /></a>Sim. Além desta ser uma normativa ética que consta no Código de Ética Profissional do <strong>Psicólogo</strong>, a questão do sigilo nos atendimentos é compreendida como um direito do paciente e da dupla de trabalho, a ser garantido e assegurado pelo profissional.</p>
<p style="text-align: justify;">O Código de Ética do Psicólogo é bastante claro ao dizer que, em linhas gerais, tudo o que é conversado durante o<a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/"> atendimento psicológico</a> é absolutamente sigiloso (Art. 9º.).</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-117"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Quando o sigilo é quebrado no atendimento psicológico?</h2>
<p style="text-align: justify;">A quebra do sigilo no <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/">atendimento psicológico</a> só ocorrerá em situações excepcionais, sendo que a conduta adotada pelo profissional deverá ser avaliada por ele ou em contexto de supervisão, caso a caso. Normalmente estas são situações muito delicadas e trazem grande nível de angústia para o profissional envolvido, sobretudo para os iniciantes. Daí a importância de se buscar o aconselhamento de outros profissionais mais experimentados.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Exemplo:</h2>
<p style="text-align: justify;">Um paciente vem comentando nas sessões que está pretendo se matar ou a matar alguém que lhe causa muito ódio.  O que deve fazer o profissional? Em linhas gerais, segundo o código de ética, depois de avaliar o real potencial suicida e homicida do paciente (pois há pacientes que falam e não fazem e há outros que não falam e fazem) ele é obrigado a comunicar membros da família que possam assumir a função de cuidado do paciente, já que este não está podendo cuidar de si mesmo e de seus aspectos auto-agressivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma se um paciente notifica em sessão que violentou sexualmente uma criança, o profissional deve imediatamente fazer a notificação junto ao Conselho Tutelar de sua região e avisar o paciente de sua notificação.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Preservação e respeito à vida:</h2>
<p style="text-align: justify;">Em linhas gerais, portanto, o profissional deve se guiar prioritariamente pela preservação e respeito à vida, do paciente e de pessoas com as quais ele se relaciona. Ou seja, há ocasiões em que o paciente está tão doente e enlouquecido que precisará  de um continente externo para ajudá-lo a não se destruir ou destruir o outro. Nesses casos, é responsabilidade do <strong>terapeuta</strong> preservar a vida, ainda que isso signifique a quebra do sigilo.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de crianças e adolescentes atendidos, a mesma prerrogativa é válida: nada do que é dito em sessão pelos pequenos ou pelos adolescentes deverá ser compartilhado com os pais, mesmo que estes insistam. Ou seja, somente situações que possam vir a colocar em risco a vida da criança ou do jovem em atendimento deverão ser compartilhados com os pais.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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