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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>A velhice</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2023 10:30:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
		<category><![CDATA[velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a velhice a partir do olhar da autora sobre o tema</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-velhice/">A velhice</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/02/a014bcd27aee1d339a4fcf97163fef5a-book-storage-painting-art.jpg"><br />
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<p><span style="font-weight: 400;">Isso significa, por exemplo, que o desejo de prolongar em demasia a vida é quase sempre do moço, mas nunca do velho, conhecedor íntimo da sua degradação, da qual evidentemente nunca poderá falar. Daí talvez não haver nada mais deprimente e tristonho que um velho otimista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span><span id="more-2739"></span><span style="font-weight: 400;"> Diz-se a ele que se mova, quando tudo já lhe dói; que seja otimista, com os filhos infelizes; que ame a vida, quando todos já se foram; e que seja grato, quando lhe falta dinheiro. A tal ponto se mente em nossa sociedade sobre tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos sinais de que se mente sobre os velhos são os altos índices de suicídio entre eles, podendo isso significar: tanto a última tentativa de um homem reaver sua dignidade, quanto o desespero de não encontrar quem lhe reconheça a dor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se daí que, encorajando-se a um olhar objetivo sobre a velhice, ver-se-á que ser velho é muito difícil, ainda mais quando se é pobre. O que corresponde, no Brasil, à 70 % da população velha, que vive apenas com um salário mínimo por mês. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tendência preocupante que acompanha muitos países do mundo, graças ao aumento da longevidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Destes, muitos vivem na miséria ou são obrigados a continuar trabalhando, frequentemente para ajudar os filhos, muitos destes vivendo com eles.  </span></p>
<h3><b>O mito dos filhos como amparo aos pais na velhice</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal realidade desmorona o mito pessoal de muitas pessoas que ainda insistem na ideia ultrapassada de que filhos significam amparo financeiro e afetivo na velhice.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ora, observando velhos da minha convivência e psicanalisado alguns outros, tenho observado que, na prática, filhos adultos constituem fonte de preocupação e transtorno para pais velhos, muito mais do que amparo e proteção para eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo amparo e fonte de proteção outros fatores tais como: ter uma boa saúde, residência para morar, contar com uma boa fonte de renda, um companheiro de quem se goste, amigos, atividades diárias que lhe dêem sentido e algum dinheiro para viajar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filhos não são boas fontes de amparo para os pais na velhice porque: gastam-lhes as míseras aposentadorias, torcem para que morram logo para venderem-lhes os imóveis e gastarem a herança, fazem empréstimos consignados em seu nome, divorciam-se e voltam a morar com eles, e lhes dão desgosto e tristeza por serem maus pais. Negligência e sofrimento dos netos que os avós nunca conseguem suportar sem intervir.</span></p>
<p>E quando se tornam bons filhos, vão viver e lutar pelas próprias vidas. Que é como se deve ser.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se daí que tal mito não se comprova na realidade, e só parece persistir na mente das pessoas como forma de buscarem algum tipo de reconhecimento, nos filhos, pelo extenuante trabalho que significou criá-los.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desejo até bem compreensível e  justo, porém ilógico, já que, além de ter ou não um filho ser escolha dos pais, nada garante a gratidão daquele em relação a estes. </span></p>
<h3><b>Familismo e religião no Brasil</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda nesse aspecto, no Brasil, em que o familismo e religião impõem rígidas normas sociais, reprova-se severamente filhos que se distanciam dos familiares e “negligenciam” seus velhos pais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal situação culmina em um aparente menor estado de solidão entre os membros familiares, já que se forçam a ficarem juntos para: manter as aparências, evitarem o julgamento alheio e, sobretudo, o implacável sentimento de culpa que sentirão, caso infringam tão sagrada lei: a de amar incondicionalmente pais e irmãos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo, nesse aspecto, para Freud, o sentimento de culpa um dos maiores agregadores dos agrupamentos humanos, dentre eles a família.</span></p>
<h3><b>Outras culturas</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Já em outras culturas, em que elementos como liberdade de escolha e individualidade são preferidos em relação ao espírito de rebanho, enfrenta-se o problema da velhice com outros recursos, por exemplo, criando-se condomínios ou prédios de velhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Situação que implica, de um lado, em vínculos familiares mais fracos e  pessoas mais solitárias e, de outro, em menos expectativas frustradas por parte dos velhos e menos culpabilidade nos filhos. </span></p>
<p>Tal observação comprova o vínculo diretamente proporcional entre dedicação parental e expectativa de cuidado na velhice, onde quanto mais os pais &#8220;se dedicam&#8221; aos filhos, mais esperam ser cuidados por estes. E quanto menos se dedicam à eles, menos esperam em troca.</p>
<h3>Solidão ou culpa?</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Cabe nesse aspecto a cada país, cultura e indivíduo escolher o que lhe faz mais sentido na própria velhice: ter a companhia dos filhos instaurando-lhe culpa ou assumir sua solidão radical sem chantagear ninguém. Não havendo situação em que se pode ganhar tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, cultura que conheço mais, o imperativo social de que filhos devem sacrificar tudo em nome dos pais, culmina, sobretudo se estes se tornaram um fardo na velhice, em enormes conflitos e impasses. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por exemplo, desejo que os velhos pais morram logo, brigas conjugais e entre irmãos, de quem se acusa, velada ou diretamente, um ao outro qual se é “melhor, mau filho ou egoísta”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem citar o afastamento permanente da vida produtiva por parte do cuidador, frequentemente a filha mulher, de quem se espera o cuidado dos velhos (assim como das crianças). Única saída possível quando não se tem dez mil reais por mês para gastar com cuidadores, e lhes repugnam os asilos. </span></p>
<h3><b>Pequenos avanços no Brasil</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, mudanças de paradigma timidamente se iniciam nesse sentido, as famílias começando a aceitar as casas de idosos e estas mesmas deixando de serem aqueles horrorosos asilos de antigamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pelo menos é o que caso de onde se instalam (ou são instalados) velhos ricos ou os que acumularam algum patrimônio, imóveis e rendas, ao longo da vida, dos quais agora poderão se valer para pagar seus altos custos, sem precisar onerar nem depender dos filhos. </span></p>
<h3>A boa velhice</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se disso tudo que uma boa velhice, na modernidade, dependerá, dentre outras coisas, da capacidade de cada pessoa de planejar e poupar dinheiro ao longo da vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Práticas infelizmente ainda muito mal vistas pelo brasileiro comum. Alguém que frequentemente gosta de parecer mais rico do que, de fato, é e chama “turco, mão de vaca ou avaro”, o homem previdente e poupador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Costumes que o farão gastar tudo ou quase tudo o que recebe ao longo do mês, a fim de manter seu <em>status</em>. Sem restar-lhe nada para a velhice.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, aprender com outras culturas, tão bem descritas por Simone de Beauvoir em “A velhice”, nas quais o velho retira-se para morrer por compreender já ter tido o suficiente da vida, quase sempre tão generosa, pode sinalizar um razoável amadurecimento no enfrentamento de tão delicado tema. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Dedico este texto às mulheres velhas da minha vida, Cora, Sueli, Rosa e Maria, que me encorajaram, direta ou indiretamente,  a  pensar nestas coisas.</span></i></p>
<ul>
<li>No dia 28 de março de 2023, fui convidada a falar deste artigo no Fórum de Biodireito, bioética e gerontologia, organizado pela Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Segue o vídeo completo para quem se interessar:</li>
</ul>
<p><iframe title="Webinar: “A BOA VELHICE: IDEOLOGIA, RELIGIÃO E FAMÍLIA”" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/RcrCtvtBNi8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Por um sentido digno à existência da mulher: reflexões sobre um domingo de Páscoa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Apr 2019 16:07:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[almoço do domingo]]></category>
		<category><![CDATA[Feminilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto aborda a condição feminina naturalmente vinculada à maternidade e ao cuidado com o lar a partir de uma situação vivida pela autora em um almoço de Páscoa</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/por-um-sentido-digno-a-existencia-da-mulher-reflexoes-sobre-um-domingo-de-pascoa/">Por um sentido digno à existência da mulher: reflexões sobre um domingo de Páscoa</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1992 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2019/04/índice-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Há uma beleza dolorida na cena que deve ter se repetido em muitos lares do mundo todo neste último domingo de Páscoa: mulheres, por vezes idosas, cansadas e com dores pelo corpo todo, cozinhando para seus filhos, netos e, quem sabe, bisnetos.</p>
<p><span id="more-1991"></span></p>
<p>Com seus tachos e panelas enormes, estas mulheres fazem, com prazer ou não, o que talvez tenha sido a única coisa que lhes foi autorizado fazerem na vida, pelo menos em sua época: parir, cozinhar e alimentar sua prole.</p>
<p><!--more--></p>
<p>Ouvi de uma delas, que cozinhou para um batalhão de familiares que nem sequer a ajudaram a lavar a louça depois, embora tenham levado farta comida nas famosas “marmitas de mãe” para suas casas ao final do domingo, que, afinal, apesar de exausta, a vida não valia a pena senão por estes raros momentos.</p>
<p>Achei esta sua fala bonita e triste ao mesmo tempo. Bonita por que mostra toda a sua generosidade natural de mulher que sente prazer em doar seu tempo, sua vida, seu corpo e seu esforço físico a alguém que ama.</p>
<p>Triste porque é muito pouco para uma vida ter como único sentido que lhe cabe aguardar pelos almoços de domingo de Páscoa.</p>
<p>Olhando para ela, fiquei pensando quantos talentos esta mulher deixou de descobrir em si; quantas outras possibilidades de realização para além da maternidade e do cuidado da casa lhe escaparam por entre os dedos, seja porque ela não teve coragem de romper com os padrões ou porque acreditou mesmo que isso lhe bastaria.</p>
<p>Toda mulher que já abriu os olhos minimamente para sua condição, tenha ela setenta ou quarenta anos, sabe o quão exaustivo e por vezes frustrante pode ser alimentar uma família de folgados.</p>
<p>Gasta-se muito tempo comprando e preparando o alimento, põe-se a mesa, senta-se, come-se, levanta-se e quase sempre caberá à mulher, às avós, às mães e às filhas quando as houver em casa, retirar a louça, lavar e guardar tudo; dali quatro ou cinco horas, começa-se tudo de novo. Sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano&#8230;</p>
<p>Para as mais abastadas, para as que tiveram a sorte de estudar e ter uma profissão, livrando-se em parte do grosso do trabalho doméstico, o trabalho sobrará sempre para outra mulher, que cuidará dos nossos filhos, limpará nossas casas, fará nossas comidas e depois repetirá tudo, exatamente tudo, em seus próprios lares, à noite e aos finais de semana, quando já estão absolutamente exaustas e amortecidas pela repetição estéril deste trabalho sem fim.</p>
<p>Simone de Beauvoir dizia que o mais irritante e triste do trabalho repetitivo que se faz no lar é que ele não produz nada, não gera nada de valor para o mundo. Sua única função é lutar inutilmente contra a fatuidade da vida: limpa-se para se sujar de novo; come-se para defecar no minuto seguinte. Luta-se em vão contra a degradação que a própria vida gera para poder continuar a existir.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jun 2018 13:59:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[masculino]]></category>
		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
		<category><![CDATA[O segundo sexo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo faz reflexões sobre como a instituição do casamento pode contribuir para que o erotismo entre os cônjuges seja vivido com pudor, hipocrisia, alimentando, portanto, a prática da infidelidade entre os homens, e a produção de neuroses entre as mulheres. Para adentrar o tema, a autora recorre às reflexões de Simone de Beauvoir publicadas em seu antológico O Segundo Sexo. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pudor-e-hipocrisia-no-casamento-conjugal-moderno-reflexoes-a-luz-do-pensamento-de-simone-de-beauvoir/">Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1893 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice-150x150.png" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice-150x150.png 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice.png 225w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Uma mulher insatisfeita sexualmente com seu marido que ligasse a rádio na década de 80 e ouvisse a parada pop de sucesso “Amante profissional” (da banda Herva Doce) ver-se-ia seriamente tentada a contratar o serviço.</p>
<p>Na irreverente música o tal amante profissional é descrito como um homem alto, moreno, bonito, carinhoso e sensual, capaz de realizar a fantasia da mulher insatisfeita sexualmente por meio de um relacionamento íntimo e discreto e sem qualquer compromisso emocional.</p>
<p>A cena faz apelo (e sucesso) porque joga com a insatisfação da mulher com aquilo que ela tinha em casa, ou seja, o marido. O amante profissional, alto, moreno, bonito, carinhoso e sensual, é quase sempre o contrário do que era o marido da realidade: por vezes baixo, calvo, já com o abdômen avantajado e largado por anos da prática da cerveja e do exercício tipo controle remoto, estúpido e grosseiro e nem um pouco romântico com o avançar dos anos de casamento, se é que fora um dia.</p>
<p><span id="more-1892"></span></p>
<p>Ora, ninguém em sã consciência seria capaz de recriminar os devaneios eróticos da pobre mulher, tendo em vista a realidade cinzenta e nem um pouco erótica que se lhe apresentava no santo lar. O psicanalista Wilhelm Stekel que ouviu a insatisfação de muitas mulheres casadas e publicou em 1953 o livro “A mulher fria” observou o óbvio: que muitas só conseguiam o orgasmo conjugal mantendo secretamente fantasias eróticas com seus médicos ou professores de ginástica. Freud, por sua vez, demonstrou não poucas vezes como as fantasias são necessárias e fundamentais para que possamos suportar as cores por vezes sem graça e tétricas da realidade. Também demonstrou que quando o sujeito não se julga forte o suficiente para mudar sua realidade por outra mais satisfatória, infla o seu universo fantasmático e refugia-se nele, alienando-se da realidade frustrante. O problema é que não se faz isso sem o preço alto de uma clivagem no ego, que gera como uma de suas consequências funestas o pudor e a hipocrisia.</p>
<p>Foi com o mesmo espírito pudorento e hipócrita que muitos psicanalistas desenvolvimentistas atacaram o problema da insatisfação feminina no casamento relançando-o de volta ao próprio sujeito: se ela não está satisfeita, é porque não se satisfaz com nada. Ao invés de problematizarem, com a elegância que a psicanálise permite problematizar, a própria realidade, neste caso, os moldes do casamento conjugal moderno – que não teria como gerar outra coisa senão infelicidade e insatisfação, pudor e hipocrisia (para ambos os parceiros) – culpabilizaram o sujeito alegando sua incapacidade adaptativa e outras bobagens deste tipo.</p>
<p>A música da década de 80 é interessante porque nos faz pensar porque uma mulher precisaria de um serviço de amante profissional? Ora, isso se deve ao próprio pudor com que a vida erótica feminina se revestiu ao longo da história. Para uma mulher insatisfeita, admitir suas necessidades sexuais imperiosas sempre foi mais difícil do que para o homem. Além do mais, não se trata de boa prática social – ou pelo menos não se tratava – uma mulher sair à noite no encalço de um amante com quem pudesse ter um encontro sexual casual. Daí a visionária percepção mercadológica de que, entre nós, haveria uma grande procura por tal serviço.</p>
<p>Isso nos leva a pensar que o preço social que homens e mulheres, na modernidade, tiveram que pagar para terem livre intercurso sexual foi extremamente caro e oneroso. Para poder ter relações sexuais não clandestinas, o preço a ser pago deveria ser a submissão à instituição do casamento, com suas duras e nada sensuais infindáveis exigências mundanas. Em última instância, a música joga com humor com este desejo feminino, mas também masculino universal: poder usufruir do intercurso sexual sem precisar pagar o duro preço dos compromissos sociais e morais que a instituição moderna do casamento impôs a cada um de nós.</p>
<p>No caso da mulher, o preço a ser pago foi mais alto e mais oneroso do que para o homem, com quem sempre houve maior indulgência com relação às escapadelas amantisticas. Para a mulher, não só a maior rigidez da moral sexual lhe impedia o acesso ao prazer sexual livre, mas, sobretudo as exigências impostas pela maternidade também significaram a ela um importante grilhão. A uma mulher mãe era ainda mais escandoloso o reconhecimento do seu desejo sexual, do que a uma mulher sem filhos, já considerada uma pária por excelência, e, portanto, muito próxima da degradação social. Talvez o ódio que muitos casais que não desejam filhos ainda despertem nas famílias tradicionais se deva ao fato de que eles imaginam que o casal sem filhos goza loucamente sem nenhum tipo de impedimento mundano que lhe atrapalhe o prazer o que, em parte, não deixa de ter uma dose de verdade, tendo em vista que os filhos representam um grande ônus, sobretudo para o livre exercício da liberdade sexual feminina.</p>
<h3>Contribuições da filósofa Simone de Beauvoir:</h3>
<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1894 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-300x300.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-768x768.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-1024x1024.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Simone de Beauvoir, filósofa francesa, debruçou-se profundamente sobre este problema e, a meu ver, trouxe contribuições valiosas. Levou tão a sério sua perspectiva de que a instituição tradicional do casamento impunha pesos insuportáveis sobre o dorso do pobre casal que radicalizou sua perspectiva e nunca aceitou coabitar com seu grande amor e parceiro intelectual, o filósofo Jean Paul Sartre. Outra grande radicalidade de sua parte foi não exercitar a imposição da monogamia.</p>
<p>Ou seja, para ela, erotismo ou prazer sexual livre não combinavam com as regras restritivas que a instituição do casamento impunha aos parceiros no que se refere à suas liberdades individuais. Nesta perspectiva, consentir com o sacrifício de tais liberdades em prol da manutenção da instituição do casamento seria, para ela, caminho certo para a morte do erotismo. Sobre tal antítese entre desejo sexual e casamento, ela diz:</p>
<p><em>O erotismo é um movimento para o Outro, ou seja, para a radicalidade da liberdade. Mas no seio do casal, os cônjuges correm o risco de se tornarem os mesmos. Nenhuma troca é mais possível, nenhum dom, nenhuma conquista. Por isso se continuam amantes na cama, fazem-no com vergonha; sentem que o <u>ato sexual não é mais que uma experiência em que cada qual se ultrapassa em direção ao Outro</u>, e sim uma espécie de exercício pudorento, uma masturbação em comum. </em></p>
<p>Ou seja, na medida em que o casamento moderno transformou o exercício da liberdade sexual em algo pecaminoso, proibido, contrário aos bons costumes e a ordem, levou junto consigo, para o mesmo limbo da negatividade, o erotismo, que para se realizar pressupõe a existência de duas liberdades igualmente preservadas. Nesse sentido, a rebelião de Simone contra a ordem estabelecida do casamento e da monogamia, escondia uma revolta ainda mais profunda da pensadora: a revolta contra o direito à liberdade de escolher como viver e amar. Deriva desta percepção arguta da filosofa acerca da íntima relação existente entre liberdade e erotismo (ou amor à vida) a ideia de que nem a psicanálise, nem as artes, nem o amor podem vicejar em sociedades tirânicas, autoritárias e ditatoriais, em que as liberdades individuais não estejam preservadas.</p>
<p>Voltando ao casamento, como nenhum ser humano razoavelmente consciente de si pode perdoar ser constrangido em seu direito à liberdade e ao prazer, homens e mulheres modernas canalizaram diferentemente seus ressentimentos para com o mundo: os primeiros procuraram suas liberdades no leito, sempre mais interessante, de suas amantes e prostitutas; as segundas ressentiram-se, amargaram-se e vingaram-se da privação sexual infligida a si pelo mundo por meio de suas doenças neuróticas e pela maternidade, reinado do qual depende inextrincavelmente a perpetuação da raça humana sobre a terra, o que não significa pouco poder dado pela natureza a nós.</p>
<p>Desde a década de 50, quando Simone sistematizou suas reflexões sobre o casamento, muita água rolou pelo rio da história e, ao que tudo indica as novas gerações ainda buscam fazer um balanço sobre as vantagens e desvantagens de ainda mantermos de pé a instituição matrimonial. Dito de outro modo, nós, os contemporâneos, ainda tateamos no escuro e buscamos equacionar esta delicada relação entre liberdade individual e compromisso social, ora pendendo para um lado, ora para outro. Filhos e netos da geração tão bem delineada por Simone, aprendemos a duras penas vendo as experiências conjugais infelizes de nossos pais que o preço de sair bem na foto de família pode ter sido custoso demais para os nossos antepassados e os benefícios deste sacrifício, ínfimos demais. Afinal, para a praga do social, que só quer uniformidade e conformismo, não importa o quanto você esteja feliz ou infeliz, só importa que você siga as regras do jogo como bois em manada.</p>
<p>Para aqueles que, como eu, buscam a maneira de Simone serem fieis a si mesmos, e não fazerem concessões com a imbecilidade reinante, o caminho é duro e por vezes solitário. Mas o sabor inigualável da liberdade e de ser fiel às próprias convicções é impagável e compensa qualquer dissabor e má compreensão.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>Stekel, Wilhelm. (1953). A mulher fria: estudo minucioso da frigidez feminina.  Editora Civilização Brasileira: Rio de Janeiro.</p>
<p>Beauvoir, Simone de. (2016). O segundo sexo: fatos e mitos. Volume 1. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. (Publicado originalmente em 1949).</p>
<p>Beauvoir, Simone de. (2016). O segundo sexo: a experiência vivida. Volume 2. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. (Publicado originalmente em 1949).</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pudor-e-hipocrisia-no-casamento-conjugal-moderno-reflexoes-a-luz-do-pensamento-de-simone-de-beauvoir/">Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O falo como condição de alienação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jan 2018 19:25:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Eventos e textos psicanalíticos]]></category>
		<category><![CDATA[angústia existencial]]></category>
		<category><![CDATA[falo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Partindo da ideia de que a eleição do pênis como falo se deve à necessidade humana de alienar-se de sua própria existência, conforme argumenta Simone de Beauvoir, o texto busca fazer reflexões a respeito de onde adviria este impulso a evadir-se de si mesmo. </p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/01/2008-07-16_IMG_2008-07-16_1216220135389_efe_20080716_161334.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1868 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/01/2008-07-16_IMG_2008-07-16_1216220135389_efe_20080716_161334-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Em psicanálise, uma forma de definir o falo é qualquer símbolo com função imaginária de suturar<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a> nossas faltas existenciais. Freud descobriu que o pênis, órgão corporal masculino, tem para crianças de ambos os sexos, a função privilegiada de um falo.</p>
<p>Esta significação do pênis como falo é, obviamente, determinada pela cultura, o que significa dizer que não se trata de um mero acaso que as coisas tenham se arranjado assim. Em uma sociedade matrilinear e não patrilinear como é nossa, o falo bem poderia estar do lado feminino sendo, por exemplo, os seios intumescidos de leite ou o útero.</p>
<p><span id="more-1867"></span></p>
<p>E embora Freud tenha chegado à descoberta do pênis como símbolo fálico em nossa cultura não conseguiu explicar as origens disso. Por que o falo esteve sempre do lado do homem e não da mulher ao longo da história humana, não se sabe bem ao certo dizer.</p>
<p>Mas, voltando à questão do falo, para a filósofa Simone de Beauvoir a importância fálica que o pênis adquire na configuração subjetiva da cria humana, só pode ser explicada pela tendência, no humano, em se alienar de si mesmo.</p>
<p>Diz ela:</p>
<p style="text-align: right;">“<em>A angústia frente à sua liberdade, conduz o sujeito a refugiar-se nas coisas, o que é uma maneira de fugir de si mesmo</em>” (p. 76).</p>
<p>Seguindo o seu pensamento, somos levados a nos indagar: por que o homem desejaria fugir de si mesmo? O que haveria em sua condição de sujeito que o levaria ao insuportável da angústia, de onde ele tentaria se evadir a qualquer custo, pagando com isso o duro preço da alienação? Porque o homem precisaria recorrer às garantias ilusórias do falo para proteger-se de sua existência?</p>
<p>Ora, no cerne do sujeito há a falta, o furo, o vazio. A cria humana, na medida em que se desprende do Todo no ato do nascimento, angustia-se frente ao seu enorme desamparo. Agarra-se e erotiza as carnes maternas não porque esteja condenada a desejar a mãe, mas porque este contato a coloca de volta como o centro vital de alguém, que ela também acredita ser Toda. Assim, a liberdade angustia porque ela nos lembra de que estamos à deriva em um mundo <em>a priori </em>destituído de qualquer sentido e ordem pré-estabelecida. O exercício da liberdade em um mundo onde não sabemos para onde nossas escolhas nos levarão, causa vertigens. É como se caminhássemos cegos em uma floresta densa, repleta de perigos, e tivéssemos que decidir a cada instante, para onde seguir a partir de cada passo dado.</p>
<p>Agarrar-se ao falo é, portanto, agarrar-se a uma tábua de salvação que, ainda que não me leve adiante, pelo menos não me deixa afundar no abismo das incertezas.</p>
<p>O sujeito masculino tem um caminho seguro, mas perigoso, de alienação de si, e é disso que Freud fala o tempo todo. Ele diz “Eu sou um homem dotado de um órgão viril”, e acredita que isso lhe basta para garantir o seu sentido de existência.</p>
<p>Lembro-me de um homem bastante falicizado que, na clínica, mostrava-se irritado e constrangido por estar entediado, o que ele não entendia, tendo em vista “que tinha tudo o que um homem poderia querer”. Obviamente, ele referia-se a um carro zero quilômetro, uma linda mulher, um ótimo trabalho e uma bela casa. Todos estes objetos, uma vez falicizados pela cultura de massa, são vistos pelo sujeito como acessos garantidos a uma vida feliz e sem conflitos. Este mesmo homem, já em análise, costumava dizer, indignado e arrogante: “Precisamos resolver logo os meus sentimentos.” Neste caso, seu próprio discurso era revestido, para ele, de um significado fálico, pois através de suas colocações categóricas deixava pouco espaço à reflexão e à indagação curiosa de si mesmo.  Ou seja, tudo o que produzia em termos discursivo vinha carregado de certezas, modo muito astuto de calar as dúvidas. Ao longo de alguns anos de trabalho analítico, o desmonte da falácia de sua completude foi sendo possível, abrindo espaço para a angústia, mas também para a criação e para uma vida dotada de real sentido. Neste período do trabalho, trouxe muitos sonhos em que seus objetos fálicos (computadores, o próprio pênis, dinheiro, escritório, etc.) sofriam avarias de toda ordem; até que finalmente, passou a precisar cada vez menos deles para suportar sua vacilante existência.</p>
<p>Já a mulher, uma vez percebendo a ausência do pênis em si, recorre com frequência à falicização de seu próprio corpo para fazer frente à sua angústia existencial. Superinveste libidinalmente seu próprio corpo, sua beleza, suas vestes, seus cabelos, acreditando com isso poder garantir o sentido de sua existência, embora com isso, tudo o que consiga é se alienar no olhar do outro e em uma vida entediante e sem projetos reais de superação. Um bom exemplo desta situação é a personagem Emma Bovary de Flaubert. Ensaiando entrar em contato com a falta de sentido de sua vida, a única saída que Emma encontrava para responder à sua angústia existencial era se endividar com móveis novos, sonhar com bailes de princesa e lindos vestidos, e devanear ser salva por um grande amor. O que Emma não sabia era que o destino de sua história estava em suas mãos e estava para ser inventado por ela, e por mais ninguém. Investindo móveis, vestidos, homens e amores proibidos de valor fálico, esta profunda personagem caiu no engodo de que, nestas coisas, encontraria o verdadeiro sentido de sua existência. Outro objeto eleito como símbolo fálico para a mulher é costumeiramente um filho que, no seu inconsciente, destinará ao pai, tanto para lhe devotar seu amor infantil, mas, sobretudo, para ser reparada de seu ressentimento com o mundo masculino, tornando-se tão potente quanto ele<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>.</p>
<p>O fato é que homens e mulheres ao se depararem com a falta de sentido de suas vidas recorrem aos objetos fálicos acreditando que ali encontrarão o sentido que buscam, quando na verdade deveriam fazer o caminho inverso, ou seja, voltar-se para dentro, e não para fora de si. É quando ele se volta para fora, e suporta mal as contingências de sua existência, que o homem se apega às falácias sinuosas da mentira e da hipocrisia, com as quais tenta se convencer a qualquer custo de estar fazendo um ótimo negócio. Tudo para se defender da impermanência conflituosa que é viver.</p>
<p>Para terminar, cito na íntegra uma passagem ilustrativa da filósofa que sintetiza bem algo com que lida cotidianamente o psicanalista e que é a atitude oscilante do humano em relação a si mesmo, que transita entre a covardia e o heroísmo:</p>
<p style="text-align: right;">“<em>O homem acha-se permanentemente em perigo; sua vida é uma empresa difícil que nunca se encontra assegurada. Mas ele não aprecia a dificuldade e teme o perigo. Contraditoriamente, aspira a vida e ao repouso, à existência e ao não ser. Sabe que a inquietação do espírito é o preço que terá que pagar pelo seu desenvolvimento; que sua distância em relação ao objeto é o que lhe custa sua presença consigo mesmo, mas ele sonha com a quietude na inquietude e com a plenitude opaca que sua majestosa consciência habitaria.”(p. 37)</em></p>
<p>Assim, apesar de esta filósofa ter tido uma má compreensão dos propósitos éticos do método analítico, pois deu ênfase excessiva aos elementos pulsionais da teoria freudiana como determinantes do destino humano e desconsiderou o aspecto ético e transformador do método, Simone de Beauvoir, a meu ver, faz contribuições elegantes e muito vivas ao pensamento freudiano. Ambos encontram-se imbuídos de um sincero desejo de desamarrar o sujeito de suas alienações e recolocá-lo em contato consigo mesmo para, só então, poder inventar seu modo próprio de viver.</p>
<p><strong>Referência bibliográfica:</strong></p>
<p>Beauvoir, Simone de. <em>O segundo sexo: fatos e mitos</em>. Tradução de Sérgio Milliet – 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Suturar: operação que consiste em coser ou costurar as bordas de uma ferida para fechá-las.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> Esta não é a única significação inconsciente encontrada na maternidade; tão somente são as significações mais infantis e mais recalcadas.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-falo-como-condicao-de-alienacao/">O falo como condição de alienação</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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