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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Mata-se uma criança &#8211; parte I</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Oct 2014 18:56:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas. Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Mata-se uma criança &#8211; parte I</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/">Mata-se uma criança &#8211; parte I</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/10/download-6.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1241 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/10/download-6-150x150.jpg" alt="download (6)" width="150" height="150" /></a>Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e a mãe da criança edipiana. Mas, a fantasia de matar crianças, animada pela mente dos genitores, é algo, segundo ele, fortemente evitado e que causa repulsa.</p>
<p style="text-align: justify;">Sustentando sua argumentação, cita que na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, o personagem trágico Édipo só assassinou o pai e desposou a mãe porque a criança, que foi enviada pelo pai para morrer no monte Citerão, foi encontrada por um pastor. Para quem não conhece a tragédia, vamos a um breve resumo:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1240"></span></p>
<p style="text-align: justify;">                <em>Laio, pai de Édipo e rei de Tebas, foi amaldiçoado pelos deuses por ter seduzido Crisipo, filho do rei Pélope. Consultando o oráculo de Delfos, Laio é informado de que sua maldição consistia em que seu filho primogênito ainda não nascido, Édipo, o mataria e desposaria sua mulher, Jocasta. Frente ao horror deste possível desfecho – de parricídio e incesto – Laio manda matar Édipo assim que a criança nasce. Encontrado por um pastor no monte Citerão com os pés amarrados e prestes a morrer, Édipo é entregue a Pólipo, rei de Corinto e criado por ele e sua esposa como se fosse seu filho legítimo. Já adulto e, interessado em saber sobre origens, consulta o oráculo de Delfos que, mais uma vez, lhe fala a respeito de sua maldição: matar seu pai e casar com sua mãe. Horrorizado frente à possibilidade de matar Pólipo, foge de Corinto para Atenas. Sem saber, ia ao encontro do seu destino tão temido. No caminho, encontra uma caravana, liderada por Laio (seu pai verdadeiro) e mata a todos, inclusive Laio. Já em Tebas, resolve o enigma da esfinge e, como recompensa, casa-se com a viúva Jocasta, com quem tem vários filhos (Antígona, Polinices, Etéocles e Eumênides). A partir daí a cidade começa a ser dizimada por um terrível peste. Questionando o oráculo, este lhe informa que a peste se deve ao fato de que o verdadeiro assassino do rei Laio estava na cidade. A peste só cessaria quando o assassino fosse descoberto. Depois de investigações do próprio Édipo que vai paulatinamente se aproximando da verdade – que era ele o assassino do pai e o filho incestuoso – o cego Tirésias lhe revela toda a verdade confirmando ser ele o parricida gerador da peste. Frente ao horror da verdade, Édipo fura os olhos e é exilado, por longos anos, em Colono. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Leclaire chama a atenção para o pouco foco que se dá aos elementos da tragédia que antecedem o parricídio e o incesto embora determinantes no destino funesto de Édipo. São eles: homossexualidade de Laio e intento de assassinar o filho que, vivo, revelaria ao pai seu crime sexual e maldição. E é por aí que transita Leclaire.</p>
<p style="text-align: justify;">Questionando, a partir da peça trágica, quais as motivações inconscientes que animam o desejo dos genitores de matar sua criança, ele enumera algumas delas, que eu pretendo discutir neste e nos próximos textos. São elas:</p>
<p>1)      A criança real não é a “criança maravilhosa” do narcisismo dos pais.</p>
<p>2)      A criança carrega consigo segredos sexuais dos pais.</p>
<p>3)      A criança revela, em estado bruto, a ausência do recalque.</p>
<p>4)      A criança fala, embora esta seja uma “outra” fala.</p>
<p>Vejamos o primeiro aspecto:</p>
<p style="text-align: justify;">O que é a “criança maravilhosa”? Em &#8220;As sete invejas capitais&#8221; Chuster e Trachtemberg (2009), comentando as ideias de Leclaire, lembram o seguinte: que apesar de Freud ter dito que o ódio é mais antigo que o amor no psiquismo, esta premissa não é válida quando se trata do eu. Ou seja, somente no caso do eu, o amor é mais antigo que o ódio. O que significa isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Que o primeiro objeto de amor que nós temos na vida é a gente mesmo. Na psicanálise chamamos isso de narcisismo primário. Dito em termos bem simplistas: cada ser humano, lá nos recônditos de sua mente, nutre uma profunda paixão por si mesmo (já repararam como a gente não resiste a um espelho e quão fascinados ficamos pela nossa própria imagem?). Esta é a nossa “criança maravilhosa” ou “sua majestade, o bebê” (como Freud chamava) que habita desde sempre o nosso psiquismo. Pois bem. Quando um casal vai ter um bebê, Freud (1914) diz, eles depositam neste bebê imaginário (que ainda não nasceu, exceto na cabeça dos futuros pais) esta “criança maravilhosa” que eles, os pais, foram e no inconsciente ainda são. Então estes futuros pais acalentam a ideia inconsciente de que irão poder reencontrar suas “crianças maravilhosas” em seus filhos. Por isso Freud diz: é o narcisismo dos pais que anima o narcisismo da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aí tudo bem. Mas, qual o entrave aqui? Quando a criança real nasce os pais, paulatinamente, terão que ir fazendo o luto pelo fato de que esta criança real não é a “criança maravilhosa” (eles próprios) que esperavam. Por ser, como o nome diz, uma criança real, é diferente dos pais. Acontece que, de forma muito inconsciente, a criança percebe as expectativas que os pais depositam nela (de suas “crianças maravilhosas”) e para receber o que consideram o amor destes, ela fará de tudo para corresponder a esta “criança maravilhosa” que há dentro da mente dos pais. Bem, já podem imaginar a quantidade de enroscos que isso gera, tanto na vida dos pais quanto na vida da criança.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai espera que seu filho seja mais bem sucedido, mais feliz, mais esportista, mais potente do que ele foi. A mãe espera que sua filha se case com o homem dos seus sonhos ou que ela não se destaque mais do que ela própria (quando há competição e rivalidade excessivas). O sofrimento é geral, principalmente porque esta “criança maravilhosa” não é consciente para os pais. Ou seja, eles não sabem que nutrem estas expectativas com relação aos filhos.  Lacan partiu daí para considerar, no campo da patologia, que, por exemplo, a mãe  histérica goza com o filho como se este fosse seu falo.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom, então já dá pra começar a entender porque os pais nutrem, lá no fundo de suas almas, um desejo inconfessável de que seu filho ou filha morra: ele ou ela me frustra, frustra a minha “criança maravilhosa”. Isso explica bastante bem a depressão pós-parto e o incontável número de “acidentes” que ocorrem com bebês pequenos. Também explica o “esquecimento” de crianças dentro de carros, a queda de janelas, a violência física e sexual cometida contra crianças na família e na escola. Para Chuster e Trachtemberg, não dá pra entender o comportamento humano com as crianças sem levar em conta o desejo de “matar a criança”. Citam e se perguntam: quando uma criança é abusada sexualmente, o que o abusador mata nela não é a criança que é morta por não estar preparada para lidar com aquele excesso de sexualidade?</p>
<p style="text-align: justify;">No indigesto filme “Anticristo” esta questão – a concretização do desejo de assassinato da criança em um casal bastante narcísico – é retratada de forma nua e crua.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, quando a mãe não é muito narcísica os sentimentos de ódio e desejo de que a criança morra são recalcados e transformados no seu contrário: amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Inclusive, do ponto de vista histórico, é possível hipotetizar que ao longo da evolução cultural – o que significa em termos psicanalíticos a instância superegóica, representante da lei, colocando algum freio nos impulsos – houve tentativas cada vez mais substanciais de recalque desde desejo de matar a criança. Badinter (1980) em “O mito do amor materno” faz uma extensa revisão histórica para mostrar como na Idade Média, por exemplo, era extremamente comum e corriqueiro que uma mãe deixasse seu filho no lixo ou o desse para alguém. O sentimento de “amor materno” não existia, tal como o compreendemos hoje. Do ponto de vista psicanalítico, os mecanismos de recalque ainda não estavam bem instalados culturalmente. Portanto, noções como culpa e remorso não fazia parte do vocabulário daquelas mulheres. Pois, este sentimento só existe quando, no psiquismo, está havendo uma luta intensa entre os sentimentos de amor e ódio, sendo a culpa o resultado desta disputa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à questão “mata-se uma criança”, podemos fazer um exercício interessante de pensar como este desejo comparece em nossa sociedade dita “civilizada” como uma forma de solução de compromisso entre o desejo e a repressão.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas coisas me vêm à mente: Rituais de iniciação como batismo, por exemplo. Como não pensar na cena da criança tendo a cabeça molhada ou afundada na água (como acontece em algumas religiões) como uma cena que representa a um só tempo, um novo nascimento, mas também a cena de um afogamento? Sabe-se, por exemplo, que em povos ditos mais “primitivos” rituais de iniciação que marcam diferentes fases da vida costumam ser bastante violentos.  E as cantigas infantis? “Dorme neném que a cuca vem pegar. Papai foi na roça, mamãe foi passear”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que diz esta aparentemente tão inocente canção: papai e mamãe foram cuidar da vida deles e você ficará dormindo sozinho. Qualquer alusão à cena edípica (pai e mãe fazendo coisas juntos e um bebê sozinho não é mera coincidência). E o que acontece com uma criança que fica sozinha? Morre&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, os exemplos são inúmeros. Já fui questionada se estas cantigas de ninar “fazem mal”. Certamente que não. Se elas foram criadas ao longo do processo de formação cultural, devem servir a algum propósito. E a psicanálise nos ajuda a entender qual seja ele: transformar em narrativa, em uma história possível desejos sinistros que assombram a mente de pais, mães e filhos desde sempre. Por isso, viva as cantigas de ninar e os rituais de passagem!</p>
<p style="text-align: justify;">Nos próximos textos comentarei os demais itens elencados por Serge Leclaire.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/mata-se-uma-crianca-parte/">Mata-se uma criança &#8211; parte I</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A Peste da Psicanálise.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jul 2012 12:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que pretende discutir as resistências e ódios nutridos pela Psicanálise desde o seu surgimento. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/">A Peste da Psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">              <img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-569" title="Freud - Psicanálise" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/07/freud-destranca-a-mente-228x300.jpg" alt="Freud - Psicanálise" width="228" height="300" />Antes de iniciar minhas reflexões, gostaria também de comentar que este texto foi suscitado pelo ótimo encontro que tivemos no evento &#8220;Psicanálise e Universidade&#8221;, ocorrido em Ribeirão Preto no final do mês passado (26 de maio). Neste encontro, que foi muito frutífero para mim, havia um &#8220;discurso comum&#8221; de todos os participantes que era o incômodo frente à uma visão de homem mecanizada, fragmentada e organicista muito disseminada pela Psiquiatria e pela cultura atual em geral. Como possibilidade de luta e resistência, todos eles apresentaram a Psicanálise como proposta para humanizar o contato de estudantes de medicina, psicologia e áreas afins com seus pacientes. Enfim, para humanizar o humano&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-540"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">A previsão de Freud:</h2>
<p style="text-align: justify;">               Quando Freud viajou com Jung à América e divulgou pela primeira vez a Psicanálise no continente, ele perguntou ao colega, de forma irônica, mas também realista, se “eles” (os americanos) sabiam que ambos estavam levando a “peste” ao novo mundo. Creio que ao dizer isso, Freud já estava tendo uma captação profunda das resistências que sua ciência recém-nascida iria enfrentar.</p>
<p style="text-align: justify;">               <img decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-542" title="Sigmund Freud" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/freud-em-foto-de-1922-1272370099405_300x300.jpg" alt="Sigmund Freud" width="300" height="300" /> Mas, porque Freud se referia à sua ciência recém-criada como sendo “a peste”? Se pensarmos do ponto de vista histórico, a Psicologia, criada como ciência no século XIX, nunca foi considerada “uma peste”, mas a Psicanálise sim.</p>
<p style="text-align: justify;">                Em primeiro lugar acredito que a Psicologia não é “a peste” porque fora criada dentro dos ditames tradicionais da Ciência, cujo objetivo último é descrever, de uma forma que às vezes me parece circular e óbvia, as leis do comportamento<em> visível </em>(grifo meu).</p>
<p style="text-align: justify;">                Já a “peste” da Psicanálise teve, desde o início, a proposta fundante de desvelar o que é invisível ou, dito de outro modo, o que está inconsciente no comportamento humano tornando explícito “aquilo que não queremos ver de nós mesmos”. Desde então, várias ciências humanas, dentre elas a Sociologia e a Antropologia, vêm brigando com a “peste”, pois a consideram uma anti-ciência que desmonta todas as utopias sociais possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia estava conversando com um colega da área social e eis que surge o seguinte mal-estar: ele apregoava sua crença de que haveria no futuro inúmeras possibilidades de nos organizarmos em comunidades que pudessem fazer frente ao “mal” do capitalismo. Nestas comunidades, dizia ele, iria reinar a paz e a harmonia entre os pares. Eu, intrigada com o seu grau de idealismo, propus a ele pensar que o “mal” não estava somente fora, no capitalismo, mas que havia também um “mal” dentro, inerente à condição humana que era próprio e derivado dos impulsos e que este “mal interno” não poderia ser negado. Se não fosse assim, como ele poderia explicar tantas mortes no trânsito, tantas guerras sangrentas, tanta violência&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">                E mais, se o capitalismo é um sistema criado pelos homens que visa à acumulação do capital nas mãos de uns poucos em detrimento da exploração de muitos, como poderíamos explicar a organização da sociedade nestes moldes sem partirmos da premissa de que haveria um desejo humano pelo poder e a ação de impulsos destrutivos que fizessem este mesmo homem explorar e espoliar seu “semelhante”? Afinal, o capitalismo não é uma coisa ou uma entidade externa ao próprio homem. Ao contrário, fora criado e executado por este.</p>
<p style="text-align: justify;">                Ele, visivelmente irritado, disse que não era possível conversar com “psicólogos”  porque eram extremistas demais. Fiquei surpresa com a sua reação, mas depois compreendi o seu furor. Eu estava cometendo uma falta de educação que era trazer a tona o que precisava ficar negado que, naquele caso, era o reconhecimento da existência de sentimentos de ódio e de maldade, reconhecimento este que sempre gera angústia e dor.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Recorrendo à teoria:</h2>
<p style="text-align: justify;">                E aqui faço uma pausa para explicar teoricamente este mecanismo. Segundo nos ensinou Melanie Klein, quando o ego do bebê (e o nosso também) está muito frágil para suportar reconhecer a maldade e o ódio principalmente com relação ao seio, o bebê irá projetar estes sentimentos intoleráveis fora de si. Esta projeção pode ser feita num objeto específico (numa pessoa, por exemplo) ou pode ser projetado de maneira mais extensiva, no mundo todo, na nação vizinha, nos judeus, nos homossexuais ou no capitalismo. Klein frisa que este é um mecanismo de defesa <span style="text-decoration: underline;">necessário</span> e muito bem vindo já que o bebezinho ainda não suporta enxergar a realidade total, sem fazer dissociações ou fragmentações. Sem desconsiderar a importância crucial deste mecanismo de defesa que é, em última instância, nos livrar da dor, o problema é que quando este mecanismo de defesa projetivo é usado maciçamente começamos a habitar um mundo binário, ou seja, um mundo dividido e cindido em bons e maus, em mocinhos e bandidos e esta percepção parcial impede que tenhamos uma apreensão global das situações vividas.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia estava lendo um livro muito interessante do Marcelo Gleiser chamado “A dança do Universo” e ele descrevia este mesmo mecanismo mental, embora em outros termos. Segundo ele, desde os primórdios do homem, nós tentamos compreender de onde viemos, ou seja, como o Universo foi criado e por não termos recursos cognitivos e intelectuais para compreender conceitos tão abstratos como o nada, a ausência de tempo e espaço e o infinito, nós necessariamente passamos a utilizar recursos binários para “explicar” como tudo surgiu. Notem como nós utilizamos estes binarismos para compreender e organizar nossos sentidos: preto e branco, claro e escuro, ausência e presença, etc. Segundo ele, foi somente com o nascimento da física quântica, área científica ainda muito incipiente, é que estes binarismos passaram a ser questionados.</p>
<p style="text-align: justify;">                Vejam que a teoria das posições esquizo-paranóide e depressiva explicam perfeitamente bem a necessidade humana de manter estas percepções binárias e cindidas. Esta mesma teoria também explica a intenção humana, tão velha quanto a própria humanidade, de construir utopias de que um dia teremos um mundo melhor. Da mesma forma, a teoria kleiniana explica perfeitamente bem as teorias catastróficas sobre o fim do mundo e tudo mais. Penso que a Psicanálise propôs uma verdadeira revolução na forma de pensamento humano quando considerou que toda a maneira de significarmos o mundo e a nós mesmos deriva, sobretudo, de mecanismos mentais que podem engessar ou expandir nossa capacidade de pensar. Bion foi quem, de maneira mais extensiva, ampliou esta discussão.</p>
<p style="text-align: justify;">                Outro dia conversava com minha analista, e ela me dizia: “<em>a verdade está aí para ser vista. Basta observá-la”. </em>De qual verdade ela estaria falando? Não da verdade com V maiúsculo, a verdade moral, universal e que pretende domesticar o pensamento humano com explicações causais e simplistas, explicações estas que normalmente estão alçadas numa tentativa de eleger um bode-expiatório: o problema é o capitalismo! O problema são os EUA! O problema é a pobreza! Todas estas são visões que deformam e fragmentam a realidade e, portanto, estão ancoradas num funcionamento tipicamente esquizo-paranóide (ver Melanie Klein).</p>
<p style="text-align: justify;">               <img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-541" title="litografia de Escher" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/Sem_sentido-300x282.jpg" alt="litografia de Escher" width="300" height="282" /> A verdade da qual minha analista falava e que eu compartilho é a verdade que comporta em si contradições e paradoxos (por exemplo, quando eu sou capaz de perceber que os mesmos seres humanos que me chateiam são aqueles que me proporcionam desenvolvimento e expansão). A verdade é que não existem mocinhos e bandidos como as novelas pretendem vender. A verdade é que não existem culpados e inocentes. Esta visão binária de mundo (bom e mau, certo e errado, feio e bonito) é um recurso precário que nossa mente encontra para colocar alguma ordem no caos e para suportarmos o fato de termos de lidar o tempo todo com o desconhecido. E é por isso que toda esta discussão sociológica e / ou psicológica que apregoa causas, culpados e reféns me irrita às vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">                Mas, retomando a provocação inicial – por que Freud disse que a Psicanálise era a “peste”? Penso que é porque ela nos lembrar que quando elegemos um culpado, estamos colocando nele aspectos odiados, negados e excindidos nossos, que não podemos reconhecer ainda como sendo nossos. Esta é a peste! E é por isso que a Psicanálise é sempre tão atacada: porque ela nos convida o tempo todo a nos responsabilizarmos pelo sublime e pelo medíocre que há em cada um de nós. E é por isso que penso também que nossa relação amorosa e interna com a Psicanálise tem que ser sempre refeita e reparada dos estragos que nós fazemos a ela.</p>
<p style="text-align: justify;">                Abraços a todos.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-peste-da-psicanalise/">A Peste da Psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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