Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.

Não costumo escrever sobre coisas muito pessoais, mas o atravessamento da meia-idade tem sido uma experiência tão difícil para mim, que pensei que valeria a pena escrever sobre ela. 

Estou com quarenta e cinco anos, e há uns dois ou três anos, passei a sentir que algo muito sutil e imperceptível começou a mudar em mim. 

O angustiante da situação, além da mudança em si, era que eu não conseguia nomear, descrever nem precisar o que estava acontecendo comigo, exceto a estranha e inquietante sensação de que eu estava deixando de ser eu mesma. 

Como é natural de ocorrer nestes casos, passei  desesperadamente a tentar reencontrar a Ana Laura de antes. 

Afinal, aquela de antes sempre dormiu bem, enquanto essa acorda pontualmente às três horas da madrugada, toda noite. Aquela tinha disposição para tudo, enquanto essa se arrasta pelo dia. Aquela tinha o raciocínio ágil e afiado, enquanto essa parece ter um imenso vácuo na cabeça. 

A saga pelos especialistas

A saga pelos especialistas não ajudou muito. Ouvi de tudo. De duas médicas, que precisava tirar isso da cabeça e parar de pensar em climatério. De outros, que eu era muito jovem para pensar em reposição hormonal. 

Não sou uma pessoa iludida sobre a vida e sei que os seres humanos são bastante incompetentes na arte de se colocarem no lugar do outro. Também abomino a postura impotente de ficar se lamentando diante dos fatos, e nada fazer a respeito. 

Ocorre que, neste caso, eu penso que além das coisas práticas, das quais eu já estou indo atrás, como iniciar uma reposição hormonal e caprichar ainda mais nos hábitos saudáveis de vida, a mudança na psiquê feminina que se coloca em curso nesta fase da vida da mulher é tão estrutural e profunda, que precisará ser recheada também por outros elementos, sem os quais ela terá muita dificuldade em atravessar este processo de ressubjetivação sem adoecer ao final. 

Estes elementos são os recursos simbólicos e psíquicos, individuais e coletivos, que farão a mulher atravessar este marco do desenvolvimento com mais consciência ou mais adoecida.

Os recursos simbólicos culturais 

Sobre os recursos simbólicos oferecidos às mulheres pela cultura para atravessarem o climatério, estes têm sido desde então muito pobres, embora felizmente venham mudando. Associam-no à “fase perigosa da vida”,  ao declínio, à decrepitude e ao que é velho e feio, em grande parte pela associação que se faz entre a mulher e sua função reprodutiva. 

Assim, na mente das próprias mulheres, uma mulher sem filhos, ou uma mulher que não pode mais engravidar, perde completamente seu valor narcísico. 

Isso ocorre porque, para a mente da criança pequena, que continua existindo para sempre dentro de nós, poder produzir bebês como a nossa mãe fez um dia, é uma das mais formas mais poderosas de mulheres e homens se sentirem criativos e potentes, a tal ponto que ser mãe e pai é sempre, no inconsciente, voltar à onipotência do nosso quarto de brinquedos da infância.

Tal crença imaginária gera muito problema na relação das mães e pais com seus filhos e filhas reais, pois filhos são pessoas, e não nossos bonecos da infância.

Dito isso, na realidade, a presença de filhos, normalmente já um pouco crescidos, quando a mulher ingressa no climatério, tem pouquíssimo impacto sobre o seu bem-estar nesta fase, sendo, ao contrário, frequentemente fonte de preocupação para ela. 

E mesmo as afortunadas que têm filhos bacanas, não poderão contar com eles para atravessarem o abismo por elas, pois filhos crescem e vão cuidar de suas próprias vidas.

Outros fatores sociais que também contribuem para o aumento da tristeza na meia-idade, é que é nesta fase da vida onde os casamentos costumam acabar ou ficarem terrivelmente tediosos.

Como psicanalista, acredito que estes fatores tenham impacto sobre a saúde mental das mulheres no climatério, embora não sejam determinantes para o adoecimento psíquico delas, sendo o decisivo nesse caso os recursos psíquicos que cada uma disporá ou não para enfrentar as brutais regressões desta fase. 

Recursos psíquicos para se atravessar o abismo do climatério

Tenho tido sonhos recorrentes onde eu me vejo presa e sequestrada por uma força maléfica e invisível, da qual tento me desvencilhar em vão, o que eu interpreto como a minha psiquê tentando lidar com as violentíssimas movimentações pulsionais em curso, no meu corpo e mente, que se não manejadas bem, podem vir a me enlouquecer.

Sobre isso, tenho me lembrado muito do quanto a minha mãe foi se tornando cada vez mais irritada, enlouquecida e triste à medida que envelhecia, momento onde também, desafortunadamente, foi abandonada por meu pai.

Também me chegam agora lembranças de algumas mulheres, vizinhas e conhecidas nossas, que tiveram surtos psicóticos ao envelhecerem, algumas delas tendo que serem internadas. O que muitos, entre um risinho jocoso e maldoso, murmuravam dever-se “à chegada da idade perigosa”. 

Em um artigo muito interessante intitulado “Regressão”, as psicanalistas Paula Heimann e Susan Isaacs abordam o tema do climatério e menopausa de um prisma psicanalítico, e alertam que, nesta etapa, as complexas imbricações mente-corpo serão colocadas à dura prova no psiquismo da mulher, pelas regressões libinais que ela provoca:

Sabemos que as alterações no equilíbrio endócrino afetam o humor, os impulsos e fantasias da mulher. Mas também sabemos que conflitos emocionais não elaborados, nesta fase, podem perturbar o equilíbrio endócrino, a solução de tais conflitos podendo atuar favoravelmente sobre o equilíbrio dos hormônios.” (1969,p.205)

Isso significa que, no climatério e menopausa, o corpo e a mente da mulher serão igualmente requeridos na função de lidar com as vultosas transformações biológicas que operam nela, com o término de sua função reprodutiva.

Ouvi sobre isso a neurocientista Lisa Mosconi explicar que, nesta fase, o cérebro da mulher passará por uma brutal reconfiguração, uma vez bilhões de neurônios que serviam à função reprodutiva deixam de ter serventia e por isso precisam morrer. 

Morrem milhares e milhares de neurônios, assim como perde-se milhares e milhares de fios de cabelos, como se a natureza, sábia e econômica, estivesse fazendo uma grande faxina em nós, para que novos neurônios e cabelos nasçam, agora não mais visando a reprodução, mas sim a fruição da vida nestas últimas décadas que se tem pela frente. 

 De minha parte, o que tenho procurado fazer sobre isso é tentar manter a calma, viver um dia de cada vez e acolher com gentileza este novo eu que urra em mim e me deixa de olhos vidrados no meio da madrugada, algo que sem meus muitos anos de divã, tenho absoluta certeza, não conseguiria fazer. 

* Dedico este texto a todas as mulheres da minha vida. Eu mesma, minha mãe, avós, analista, pacientes, amigas e as filhas que não tive. Mulheres que eu admiro cada vez mais.

Referência bibliográfica

Klein, M.; Heimann, S. I. & Riviere, J. Os progressos da psicanálise. Zahar: Rio de Janeiro, 1969.

Para assistir ao programa Roda-Viva com a neurocientista Lisa Mosconi, clique aqui. 

 

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