Acabo de ler o belo romance Ressurreição, publicado em 1899 por Liev Tolstói, seu último grande livro.
Nele, Tolstói narra a profunda redenção moral pela qual passa o príncipe Dmitri Ivánovich Nekhliúdov, depois de ter sido leviano com os sentimentos de uma jovem empregada chamada Maslova, com quem ele teve um envolvimento sexual que resultou numa gravidez, e que a levou a ser expulsa de casa pelas tias do rapaz, e se tornar prostituta.
Mas, Dmitri não é um homem repulsivo que só quer levar jovens para cama, para depois exibi-las como troféus. Sobre isso, Tolstói narra com grande profundidade psicológica o embate que se estabelece dentro dele entre a ânsia de conquistar e possuir sexualmente a jovem e seus crescentes sentimentos humanos de amor, enlevo e ternura por ela, que ele decide suprimir por medo.
Lendo este magistral romance, pensei que a conquista sexual por mera tolice e espírito orgulhoso é um artifício que pode ser igualmente usado por homens e mulheres, com a diferença de que os homens podem recorrer da força física para conseguirem o que querem. Eu mesma tenho pacientes homens e mulheres que usam deste tolo recurso para se sentirem poderosos e superiores em relação ao outro sexo.
No próprio romance, quando Maslova acaba por se tornar prostituta, Tolstói mostra como ela se tornou cínica e manipuladora e aprendeu a usar de seu enorme poder de sedução para tirar vantagem e se vingar dos homens, tornando-se um ser humano cada vez mais decadente com isso, o que leva Dmitri a questionar se havia salvação para ela.
Arrependimento
O romance é muito tocante neste sentido porque retoma a ideia cristã de que não há salvação fora do arrependimento e da transformação sincera, algo muito difícil de acontecer no coração dos homens, em parte por causa do orgulho.
Assim, é muito bonito acompanharmos a transformação espiritual que vai se processando em Dmitri, pois quanto mais ele reconhece a maldade que cometeu com Maslova, mais humilde, silencioso e não julgador ele vai se tornando com seus semelhantes. O que me fez pensar que as pessoas muito julgadoras e críticas dos outros, são as que menos enxergam a si mesmas.
Outra coisa que muda nele é que ele passa a sentir cada vez mais repulsa por seu ambiente de origem, a saber, a alta sociedade, com suas etiquetas, excessos de conforto e falsas relações, preferindo estar entre os criminosos e pobres, o que evidencia a intensidade com que Tolstói repudiava os valores de sua classe.
Assim, a enorme beleza do texto está em que o autor retrata dois seres humanos profundamente morais, ou seja, pessoas cujos erros cometidos na vida serviram para que eles pudessem aprender e refletir, transformação interior que será iniciada por Dmitri.
A transformação
O disparador deste processo se dará, no momento em que, anos depois do envolvimento com Maslova, Dmitri a reencontra como ré num tribunal, onde ele é jurado. Tal júri acaba por condená-la injustamente a trabalhos forçados nas galés por um crime que não cometeu.
As críticas que o autor faz ao direito aqui são evidentes, sendo algumas delas, a absoluta indiferença dos poderosos em relação aos pobres e o fato de o direito não estar necessariamente preocupado com a Justiça.
Sabe-se sobre isso que, para se tornarem justos, os operadores do direito devem ser capazes de transcender a mera e fria aplicação da lei introduzindo em si elementos como compaixão, misericórdia e perdão (graça). Tema, aliás, belamente tratado no filme de Paolo Sorrentino chamado “A Graça”.
Na contramão disso, Dmitri viverá uma verdadeira saga entre advogados, juristas e recursos para tentar reverter o veredito absurdo do júri, que, por estarem cansados e com vontade de irem logo para casa, julgaram Maslova culpada de envenenar Smelkóv, mas não de roubá-lo. Veredito absurdo, pois a ré não teria nenhuma motivação para envenená-lo, a não ser que quisesse depois roubá-lo.
Assim, o livro é também uma denúncia às terríveis condições das prisões russas e da condição miserável a que o povo russo esteve condenado. A revolta de Tolstói acerca isso é sentida com toda força, a tal ponto o personagem Dmitri terminará por doar todas suas terras aos mujiques, assim como o próprio Tolstói abriu mão, na segunda metade de sua vida, de sua riqueza, títulos de nobreza e propriedades, para viver uma vida simples e de auxílio aos necessitados. O que me fez pensar que a crise moral vivida pelo personagem reflete a crise moral do próprio autor.
O perdão
O livro termina de forma bela e aberta, com Maslova negando o ato sacrificial de Dmitri de se casar com ela, o que, afinal, já não importa mais já que ele parece finalmente ter conseguido se perdoar.
Assim, penso que o livro é um extraordinário libelo em favor do perdão e dos destinos salutares que sentimentos como remorso, vergonha, ódio e culpa podem vir a ter quando, afinal, pode-se perdoar. Embora, nem tudo seja perdoável.
