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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jun 2018 13:59:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
		<category><![CDATA[O segundo sexo]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo faz reflexões sobre como a instituição do casamento pode contribuir para que o erotismo entre os cônjuges seja vivido com pudor, hipocrisia, alimentando, portanto, a prática da infidelidade entre os homens, e a produção de neuroses entre as mulheres. Para adentrar o tema, a autora recorre às reflexões de Simone de Beauvoir publicadas em seu antológico O Segundo Sexo. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pudor-e-hipocrisia-no-casamento-conjugal-moderno-reflexoes-a-luz-do-pensamento-de-simone-de-beauvoir/">Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice.png"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1893 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice-150x150.png" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice-150x150.png 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/índice.png 225w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Uma mulher insatisfeita sexualmente com seu marido que ligasse a rádio na década de 80 e ouvisse a parada pop de sucesso “Amante profissional” (da banda Herva Doce) ver-se-ia seriamente tentada a contratar o serviço.</p>
<p>Na irreverente música o tal amante profissional é descrito como um homem alto, moreno, bonito, carinhoso e sensual, capaz de realizar a fantasia da mulher insatisfeita sexualmente por meio de um relacionamento íntimo e discreto e sem qualquer compromisso emocional.</p>
<p>A cena faz apelo (e sucesso) porque joga com a insatisfação da mulher com aquilo que ela tinha em casa, ou seja, o marido. O amante profissional, alto, moreno, bonito, carinhoso e sensual, é quase sempre o contrário do que era o marido da realidade: por vezes baixo, calvo, já com o abdômen avantajado e largado por anos da prática da cerveja e do exercício tipo controle remoto, estúpido e grosseiro e nem um pouco romântico com o avançar dos anos de casamento, se é que fora um dia.</p>
<p><span id="more-1892"></span></p>
<p>Ora, ninguém em sã consciência seria capaz de recriminar os devaneios eróticos da pobre mulher, tendo em vista a realidade cinzenta e nem um pouco erótica que se lhe apresentava no santo lar. O psicanalista Wilhelm Stekel que ouviu a insatisfação de muitas mulheres casadas e publicou em 1953 o livro “A mulher fria” observou o óbvio: que muitas só conseguiam o orgasmo conjugal mantendo secretamente fantasias eróticas com seus médicos ou professores de ginástica. Freud, por sua vez, demonstrou não poucas vezes como as fantasias são necessárias e fundamentais para que possamos suportar as cores por vezes sem graça e tétricas da realidade. Também demonstrou que quando o sujeito não se julga forte o suficiente para mudar sua realidade por outra mais satisfatória, infla o seu universo fantasmático e refugia-se nele, alienando-se da realidade frustrante. O problema é que não se faz isso sem o preço alto de uma clivagem no ego, que gera como uma de suas consequências funestas o pudor e a hipocrisia.</p>
<p>Foi com o mesmo espírito pudorento e hipócrita que muitos psicanalistas desenvolvimentistas atacaram o problema da insatisfação feminina no casamento relançando-o de volta ao próprio sujeito: se ela não está satisfeita, é porque não se satisfaz com nada. Ao invés de problematizarem, com a elegância que a psicanálise permite problematizar, a própria realidade, neste caso, os moldes do casamento conjugal moderno – que não teria como gerar outra coisa senão infelicidade e insatisfação, pudor e hipocrisia (para ambos os parceiros) – culpabilizaram o sujeito alegando sua incapacidade adaptativa e outras bobagens deste tipo.</p>
<p>A música da década de 80 é interessante porque nos faz pensar porque uma mulher precisaria de um serviço de amante profissional? Ora, isso se deve ao próprio pudor com que a vida erótica feminina se revestiu ao longo da história. Para uma mulher insatisfeita, admitir suas necessidades sexuais imperiosas sempre foi mais difícil do que para o homem. Além do mais, não se trata de boa prática social – ou pelo menos não se tratava – uma mulher sair à noite no encalço de um amante com quem pudesse ter um encontro sexual casual. Daí a visionária percepção mercadológica de que, entre nós, haveria uma grande procura por tal serviço.</p>
<p>Isso nos leva a pensar que o preço social que homens e mulheres, na modernidade, tiveram que pagar para terem livre intercurso sexual foi extremamente caro e oneroso. Para poder ter relações sexuais não clandestinas, o preço a ser pago deveria ser a submissão à instituição do casamento, com suas duras e nada sensuais infindáveis exigências mundanas. Em última instância, a música joga com humor com este desejo feminino, mas também masculino universal: poder usufruir do intercurso sexual sem precisar pagar o duro preço dos compromissos sociais e morais que a instituição moderna do casamento impôs a cada um de nós.</p>
<p>No caso da mulher, o preço a ser pago foi mais alto e mais oneroso do que para o homem, com quem sempre houve maior indulgência com relação às escapadelas amantisticas. Para a mulher, não só a maior rigidez da moral sexual lhe impedia o acesso ao prazer sexual livre, mas, sobretudo as exigências impostas pela maternidade também significaram a ela um importante grilhão. A uma mulher mãe era ainda mais escandoloso o reconhecimento do seu desejo sexual, do que a uma mulher sem filhos, já considerada uma pária por excelência, e, portanto, muito próxima da degradação social. Talvez o ódio que muitos casais que não desejam filhos ainda despertem nas famílias tradicionais se deva ao fato de que eles imaginam que o casal sem filhos goza loucamente sem nenhum tipo de impedimento mundano que lhe atrapalhe o prazer o que, em parte, não deixa de ter uma dose de verdade, tendo em vista que os filhos representam um grande ônus, sobretudo para o livre exercício da liberdade sexual feminina.</p>
<h3>Contribuições da filósofa Simone de Beauvoir:</h3>
<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1894 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-300x300.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-768x768.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402-1024x1024.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/06/simone-de-beauvoir-9269063-1-402.jpg 1200w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Simone de Beauvoir, filósofa francesa, debruçou-se profundamente sobre este problema e, a meu ver, trouxe contribuições valiosas. Levou tão a sério sua perspectiva de que a instituição tradicional do casamento impunha pesos insuportáveis sobre o dorso do pobre casal que radicalizou sua perspectiva e nunca aceitou coabitar com seu grande amor e parceiro intelectual, o filósofo Jean Paul Sartre. Outra grande radicalidade de sua parte foi não exercitar a imposição da monogamia.</p>
<p>Ou seja, para ela, erotismo ou prazer sexual livre não combinavam com as regras restritivas que a instituição do casamento impunha aos parceiros no que se refere à suas liberdades individuais. Nesta perspectiva, consentir com o sacrifício de tais liberdades em prol da manutenção da instituição do casamento seria, para ela, caminho certo para a morte do erotismo. Sobre tal antítese entre desejo sexual e casamento, ela diz:</p>
<p><em>O erotismo é um movimento para o Outro, ou seja, para a radicalidade da liberdade. Mas no seio do casal, os cônjuges correm o risco de se tornarem os mesmos. Nenhuma troca é mais possível, nenhum dom, nenhuma conquista. Por isso se continuam amantes na cama, fazem-no com vergonha; sentem que o <u>ato sexual não é mais que uma experiência em que cada qual se ultrapassa em direção ao Outro</u>, e sim uma espécie de exercício pudorento, uma masturbação em comum. </em></p>
<p>Ou seja, na medida em que o casamento moderno transformou o exercício da liberdade sexual em algo pecaminoso, proibido, contrário aos bons costumes e a ordem, levou junto consigo, para o mesmo limbo da negatividade, o erotismo, que para se realizar pressupõe a existência de duas liberdades igualmente preservadas. Nesse sentido, a rebelião de Simone contra a ordem estabelecida do casamento e da monogamia, escondia uma revolta ainda mais profunda da pensadora: a revolta contra o direito à liberdade de escolher como viver e amar. Deriva desta percepção arguta da filosofa acerca da íntima relação existente entre liberdade e erotismo (ou amor à vida) a ideia de que nem a psicanálise, nem as artes, nem o amor podem vicejar em sociedades tirânicas, autoritárias e ditatoriais, em que as liberdades individuais não estejam preservadas.</p>
<p>Voltando ao casamento, como nenhum ser humano razoavelmente consciente de si pode perdoar ser constrangido em seu direito à liberdade e ao prazer, homens e mulheres modernas canalizaram diferentemente seus ressentimentos para com o mundo: os primeiros procuraram suas liberdades no leito, sempre mais interessante, de suas amantes e prostitutas; as segundas ressentiram-se, amargaram-se e vingaram-se da privação sexual infligida a si pelo mundo por meio de suas doenças neuróticas e pela maternidade, reinado do qual depende inextrincavelmente a perpetuação da raça humana sobre a terra, o que não significa pouco poder dado pela natureza a nós.</p>
<p>Desde a década de 50, quando Simone sistematizou suas reflexões sobre o casamento, muita água rolou pelo rio da história e, ao que tudo indica as novas gerações ainda buscam fazer um balanço sobre as vantagens e desvantagens de ainda mantermos de pé a instituição matrimonial. Dito de outro modo, nós, os contemporâneos, ainda tateamos no escuro e buscamos equacionar esta delicada relação entre liberdade individual e compromisso social, ora pendendo para um lado, ora para outro. Filhos e netos da geração tão bem delineada por Simone, aprendemos a duras penas vendo as experiências conjugais infelizes de nossos pais que o preço de sair bem na foto de família pode ter sido custoso demais para os nossos antepassados e os benefícios deste sacrifício, ínfimos demais. Afinal, para a praga do social, que só quer uniformidade e conformismo, não importa o quanto você esteja feliz ou infeliz, só importa que você siga as regras do jogo como bois em manada.</p>
<p>Para aqueles que, como eu, buscam a maneira de Simone serem fieis a si mesmos, e não fazerem concessões com a imbecilidade reinante, o caminho é duro e por vezes solitário. Mas o sabor inigualável da liberdade e de ser fiel às próprias convicções é impagável e compensa qualquer dissabor e má compreensão.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>Stekel, Wilhelm. (1953). A mulher fria: estudo minucioso da frigidez feminina.  Editora Civilização Brasileira: Rio de Janeiro.</p>
<p>Beauvoir, Simone de. (2016). O segundo sexo: fatos e mitos. Volume 1. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. (Publicado originalmente em 1949).</p>
<p>Beauvoir, Simone de. (2016). O segundo sexo: a experiência vivida. Volume 2. Nova Fronteira: Rio de Janeiro. (Publicado originalmente em 1949).</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/pudor-e-hipocrisia-no-casamento-conjugal-moderno-reflexoes-a-luz-do-pensamento-de-simone-de-beauvoir/">Pudor e hipocrisia no casamento conjugal moderno: reflexões à luz do pensamento de Simone de Beauvoir.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Um olhar psicanalítico sobre o ritual do casamento.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-psicanalitico-sobre-o-ritual-do-casamento/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jul 2012 17:08:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Conto de fadas]]></category>
		<category><![CDATA[Feminilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões psicanalíticas sobre o casamento</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-psicanalitico-sobre-o-ritual-do-casamento/">Um olhar psicanalítico sobre o ritual do casamento.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; text-align: justify; line-height: 11.25pt; background: white;"><span style="font-size: 9.0pt; font-family: 'Verdana','sans-serif'; color: #3d3d3d;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2012/07/cinderela.gif"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1285" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2012/07/cinderela.gif" alt="cinderela" width="195" height="259" /></a><br />
</span></p>
<p>Desde pequeninas, nós mulheres,  exercitamos e construímos nossa feminilidade, sendo o ritual simbólico do casamento uma das concretizações inconscientes disso. Pois, como disse Simone de Beavouir, não se nasce mulher, aprende-se a ser.</p>
<p>Nesse aspecto, apesar de que, desde a revolução feminista, os papeis tradicionais da mulher de esposa e mãe tem sido duramente questionados como forma de submissão feminina (e com razão), na prática, o ritual do casamento ainda continua a ser uma necessidade simbólica premente na elaboração da feminilidade de uma mulher.</p>
<h2>A visão da psicanálise sobre o ritual do casamento</h2>
<p>Compreende-se na psicanálise que os rituais de passagem marcados pela cultura (festa de debutantes e casamentos, por exemplo) auxiliam a jovem no doloroso luto que ela deve fazer no sentido de abandonar sua identidade infantil para tornar-se, de fato, mulher.</p>
<p>Rituais que servirão para ela ir paulatinamente processando, em nível individual, a marcação da passagem do tempo e, no nível coletivo, a confirmação social de tal crescimento, o que se vê, por exemplo, na importância que a certidão de casamento tem como documento na vida dos casados.</p>
<p>Nesse aspecto, acompanho mulheres na clínica que vivem estados depressivos perenes porque nunca se casaram oficialmente com seus parceiros, o que é interpretado inconscientemente por elas como uma dolorosa recusa, por parte deles, em assumi-las de verdade. A tal ponto o casamento mexe com a fantasmática da mulher acerca da sua feminilidade.</p>
<p>Ressalta-se que a metamorfose da menina à mulher é um longo e delicado processo que envolverá sua relação com os pais, que deverão ser paulatinamente abandonados como objetos de amor infantil para que ela possa criar sua própria família. Luto necessário ao crescimento no qual muitas falharão, por terem uma relação de apego excessivo com os mesmos.</p>
<p>Preocupações obsessivas com pequenos detalhes do casamento e a necessidade premente de fazê-lo uma festa triunfal ou extratosférica podem, nesse aspecto, serem compreendidos como dificuldades por parte dos noivos de viverem este doloroso processo. O que explica, depois, o divórcio tão rápido.</p>
<p>Na atualidade, onde tudo se transforma em um grande show de superfialidade artifical, muitos rituais de casamentos infelizmente são vividos desta forma.</p>
<div>Elencarei agora algumas das angústias inconscientes que a jovem mulher enfrenta às vésperas de subir ao altar, a partir da fábula “Cinderela” dos irmãos Grimm.</div>
<h2>A fábula da Cinderela:</h2>
<p>A fábula conhecida como Cinderela ou Gata Borralheira possui várias versões. Uma delas foi elaborada, em 1810, pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm – dois alemães que se dedicaram à criação e registro de diversas fábulas infantis. Muitas de suas fábulas foram modificadas posteriormente por serem consideradas violentas demais para as crianças.</p>
<p>Aí vai um breve resumo da fábula Cinderela&#8230;</p>
<p><em>A mulher de um homem muito rico estava muito doente. Ao perceber a proximidade da morte, chamou sua única filha ao leito e disse a ela para ser boa e piedosa com Deus e que ela (a mãe) estaria sempre olhando por ela. Dito isso, a mulher morreu.  Durante todo o inverno rigoroso, a jovem visitou e chorou sobre o túmulo de sua mãe. Chegada à primavera, seu pai encontrou outra esposa com quem se casou. Esta esposa tinha duas filhas que eram bonitas por fora, mas feias e más por dentro. Tanto a madrasta como suas filhas tratavam a jovem moça muito mal – forçavam-na a limpar a casa, a vestir roupas velhas, a dormir no chão e a cozinhar, lavar e passar. Derramavam, só por maldade, ervilhas e lentilhas pelo chão só para que ela as catasse, uma a uma. Como a moça estava sempre suja e empoeirada as filhas da madrasta lhe deram o nome de Cinderela – nome que remete a borralho, sujeira em inglês. Certo dia, o pai estava indo à feira e perguntou às moças o que elas queriam. As filhas da madrasta disseram que queriam belas jóias e vestidos. Cinderela pediu que o pai lhe trouxesse o primeiro galho de árvore que batesse em seu chapéu. Assim foi feito. Cinderela plantou este galho no túmulo de sua mãe e, de tanto chorar sobre ele, nasceu ali uma bela árvore. Todos os dias Cinderela chorava e rezava sob a árvore e passarinhos brancos vinham realizar os seus desejos. Um belo dia foi anunciado que o filho do rei faria uma festa para escolher sua noiva. As filhas da madrasta ficaram alvoroçadas. Cinderela também queria ir, mas não tinha nem roupas nem sapatos. Além disso, tinha que catar as lentilhas e ervilhas que foram derrubadas de forma maldosa pela madrasta e suas filhas. Pediu ajuda de suas amigas pombinhas, que rapidamente lhe ajudaram. Triste por não ter roupas adequadas, foi ao túmulo da mãe e pediu “Balance e se agite, árvore adorada. Me cubra toda de ouro e prata”. O passarinho lhe deu um lindo vestido de festa e sapatos brilhantes. Assim, Cinderela foi ao baile e dançou a noite toda com o príncipe, encantado com sua beleza. No momento de ir embora, o príncipe quis acompanhá-la até em casa para saber quem era sua família, mas Cinderela fugiu dele e se escondeu no pombal. O príncipe ficou em frente à sua casa até o pai da jovem aparecer e lhe questionou quem era aquela moça com quem ele tinha dançado. E o pai pensou: “Deve ser Cinderela”. Na noite seguinte, houve mais um baile e Cinderela surgiu com um vestido ainda mais belo. No final da noite, novamente se escondeu do príncipe, mas agora no topo de uma árvore. Na terceira noite, tudo se repetiu, mas desta vez o príncipe, já sabendo da fuga de sua amada, foi mais esperto e resolveu passar piche na escadaria do palácio – assim, o sapatinho ficaria preso lá e ele saberia, finalmente, quem era aquela jovem dama. Na manhã seguinte, dirigiu-se à casa do pai de Cinderela e disse que só se casaria com a dona daquele sapato. As filhas da madrasta experimentaram o sapato, que ficou muito apertado. Desesperadas, uma delas cortou o calcanhar e outra o dedão do pé, mas o príncipe notou o sangue e descobriu o engodo. Perguntou se havia mais alguma moça na casa e o pai disse que sim, que havia a filha raquítica de sua ex-mulher. O príncipe pediu para vê-la e experimentar o calçado nela. Ao vê-la, imediatamente a reconheceu. Além disso, o sapato serviu perfeitamente. No dia do casamento do príncipe com a Cinderela, embora a madrasta e suas filhas estivessem com muita raiva, queriam voltar a ser amigas da jovem. Mas, as pombinhas furaram os olhos das duas irmãs, punindo-as por tanta maldade e inveja.</em></p>
<h2>Análise da fábula pelo vértice psicanalítico</h2>
<p>Observa-se na fábula de Cinderela que duas coisas devem ocorrer juntas, para que a feminilidade da jovem mulher se estabeleça: que ela consiga se separar da mãe, o que significará enfrentar o ódio e inveja desta pelo crescimento da filha, e que o pai a endosse e reconheça finalmente como mulher.</p>
<p>Isso dependerá, no primeiro caso, da rivalidade e ódio entre ambas não serem preponderantes, e no segundo, do pai não ficar muito angustiado sexualmente por reconhecer sua filha como uma linda mulher. Nesse aspecto, não é à toa que quem &#8220;cede a mão&#8221; da filha ao futuro marido é sempre o pai da noiva, o que pode lhe despertar, dependendo do caso, orgulho ou ciúme.</p>
<p>Já no caso da mãe da noiva, o que deverá ser elaborado, dentre outras coisas,  é o doloroso sentimento de que a filha é jovem e tem todo o tempo do mundo pela frente, enquanto ela própria envelhece e não é mais bela. Situação muito comuns de se ver em casamentos: a mãe da noiva competindo em beleza com ela própria.</p>
<p>Eu conheço uma pessoa que, no dia do seu casamento, surpreendeu-se com sua própria mãe vestida de branco, como ela!</p>
<h2><b>Considerações finais </b></h2>
<p>Conclui-se que o dia do casamento é um momento que pode ser muito bonito e inesquecível na vida dos noivos, desde que ele signifique a consolidação de um longo e angustioso processo de amadurecimento interno, que se concretiza no desejo público de dois adultos formarem um casal. O que está longe de ocorrer na grande maioria dos casos.</p>
<p>Assim como no caso da maternidade, penso que o casamento tem sido investido em nossa sociedade atual de uma forte idealização, o que não contempla a complexidade emocional implicada neste delicado processo que eu busquei descrever aqui.</p>
<p>O que pode tornar os noivos culpados e solitários para lidar com tanta carga emocional sozinhos. Ou então, perdidos em meio à tules, vestidos, penteados, e convites luxuosos de casamento, que não determinam em nada a beleza do momento.</p>
<p>Ao contrário do amor profundo que une ou não aquelas duas pessoas. Este sim fundamental para um casamento seja belo e emocionante.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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