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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>O que eu refleti vendo a morte de perto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 14:13:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora reflete sobre o medo que os seres humanos têm da morte a partir de uma experiência pessoal de internação</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-que-eu-refleti-vendo-a-morte-de-perto/">O que eu refleti vendo a morte de perto</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/11/WhatsApp-Image-2023-11-21-at-14.07.16-2.jpeg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2831 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/11/WhatsApp-Image-2023-11-21-at-14.07.16-2-150x150.jpeg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/11/WhatsApp-Image-2023-11-21-at-14.07.16-2-150x150.jpeg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/11/WhatsApp-Image-2023-11-21-at-14.07.16-2-120x120.jpeg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Minha internação de urgência na noite de 26 de outubro de 2023 devido a uma infecção grave por bactéria nos rins, que chegou a atingir o sangue, foi o mais próximo que estive até hoje de experimentar um risco real de morrer.  </span></p>
<p><span id="more-2823"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Descobri depois que muitas mulheres são internadas diariamente por pielonefrite com sepse (quando a bactéria atinge o sangue), sendo esta uma das maiores causas de internações e óbitos em UTI´s. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vivendo esta experiência infeliz, descobri que estar prestes a morrer dá muito medo, apesar de nenhum ser humano admiti-lo abertamente, já que falar sobre a morte é um tabu. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não sei se um velho tem menos medo do instante da morte por já ter vivido mais, mas desconfio que não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, o que entendi do instante final é que o aterrorizante desta situação é simplesmente deixar de existir, o que deve envolver algum tipo de enorme capacidade de desapego egóico, que nas filosofias orientais se costuma exercitar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso obviamente só vale para os que morrem</span> em estado de plena consciência, o que não deve valer para os hospitalizados graves que, quase sempre, morrem sedados e inconscientes da sua situação.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, rimos à beça disso, eu e um enfermeiro muito engraçado, que me dizia que </span><i><span style="font-weight: 400;">viúvo mesmo é quem vai, </span></i><span style="font-weight: 400;">o que eu entendi como a vida terminando mesmo só para quem morre. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pensei sobre isso ser mesmo compreensível um viúvo ou viúva sentir alívio por não ser ele ou ela o morto, sentimento egoísta que só parece ser superado no amor por um filho. Mas nunca do filho pelos pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra coisa que aprendi dessa experiência é que o instinto de autoconservação é tão forte em nós que suportamos o inimaginável em termos de procedimentos médicos dolorosos, se isso significar a esperança de um dia voltarmos a ficar minimamente bem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi o que aprendi observando o seu Manoel, que conheci na interminável semana que tive que ir ao hospital três vezes por dia tomar antibiótico endovenoso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Olhando-o de fora, pensava como esse homem suportava a desgraça de sua vida com tão alto-astral e bom humor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto ele próprio me explicava que, afinal, tomar mais quarenta e cinco dias de antibióticos pela rejeição da placa de titânio em seu ombro, não era nada perto das oito cirurgias que já tinha feito. O que ocorreu por ter sido atropelado por um carro, em sua moto, quando ia trabalhar lavando vidros.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ou então, D. Marisa, uma aristocrática senhora com quem dividi quarto em minha internação, que suportava com uma elegância estóica sua bolsa de colostomia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vendo-os, senti uma admiração profunda pela coragem e bravura dos homens e pensei que a doença e a morte só nos degrada, subtraindo-nos a meros corpos, humilhados por bactérias, cheiro de fezes, pus e células cancerosas que não deviam existir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso minha enorme dificuldade de acreditar em Deus. </span>E minha convicção, agora já absoluta, de não haver nenhuma dignidade na morte.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lembro-me que, no dia em que cheguei a este pensamento, a angústia foi quase insuportável, e só cessou um pouco quando ouvi Noturno em Fá menor Op. 9 No. 1 de Chopin, o que me ajudou a me libertar, por alguns instantes, daquele corpo debilitado e fraco, imaginando-me como um pássaro e um balão que coincidentemente voavam, leves e lindos no céu, bem de frente à minha vidraça. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Disto, compreendi muito melhor a ideia grega de que, sem alguma transcendência, a realidade concreta e primitiva dos nossos corpos, com suas necessidades peremptórias e decadência inevitável, nos humilha e apequena, sendo o ser humano muito mais do que isso. Daí não podermos condenar ninguém por seus vícios. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não à toa, praticamente todas as religiões e doutrinas filosóficas orientais como o budismo e o hinduísmo, por exemplo, propõem algum tipo de transcendência e superação em relação ao que significa estar aprisionado num corpo, que se degrada a cada dia e caminha paulatinamente para o fim.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também não à toa é que Deus, na figura de Cristo, só se apiedou dos homens quando experimentou, ele próprio, sentir fome, frio e dor como um deles.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De todo modo, ainda não me recuperei por completo desta visão insuportável, nauseante e odiosa do Real, que me gerou um dolorido estado depressivo, do qual eu sinto que começo a me recuperar só agora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, uma das únicas coisas boas que esta experiência me trouxe foi a reaproximação com meu pai, uma pessoa exótica de quem eu herdei muitos traços. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Levando-me vinte e uma vezes ao hospital para tomar antibiótico na veia, o que nos rendeu rodar setecentos quilômetros em uma semana, pude sentir, afinal, como é bom ser cuidada por alguém que te ama. </span></p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/chTvivcxlqg?si=MBJbe-EOUhYG200w" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p><iframe title="Saudade de mim quando eu morrer (feat. Cláudia Ventura, Cláudio Gabriel, Juliana Linhares,..." width="660" height="495" src="https://www.youtube.com/embed/8Ljg93oF-Lo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Reflexões a partir da experiência de cuidar do meu gato em fase terminal</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cuidar-de-alguem-ate-o-fim-reflexoes-a-partir-da-experiencia-de-cuidar-do-meu-gato-em-fase-terminal/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Aug 2022 16:53:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a experiência de cuidar de alguém que está morrendo a partir da vivência da autora com o seu gato em fase terminal.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2580 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/08/4735dd1e-7463-4ae6-9959-df3b301a9ab7-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Cuidar do meu gato de 22 anos diagnosticado com um tumor em fase terminal tem sido uma experiência ao mesmo tempo dolorosa e rica para mim. </span></p>
<p><span id="more-2579"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, fez-me aprender quão cínico é alguém que diz para cuidadores de doentes terminais que, afinal, todos vamos morrer. Ou então, o que é ainda pior, que ele deve ter esperança e pensar positivo. </span></p>
<h4>Experiência traumática</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Cuidar até o fim de um doente terminal é uma experiência traumática e perturbadora para aqueles que a vivem de perto, pois, rompe-se a barreira necessária que separa os sãos dos doentes, a ponto de, na natureza, animais moribundos sempre se afastarem do bando para morrer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É o que percebe Hans Castorp ao presenciar o pudor de seu primo Joachim à beira da morte, em A Montanha Mágica de Thomas Mann:</span></p>
<p style="text-align: right;"><em>Como é estranho em pudor que sente em face da vida a criatura que se refugia num esconderijo para morrer, convencida de que não pode esperar da natureza exterior nenhum respeito e piedade para com o seu sofrimento e a sua morte (&#8230;)</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Thomas Mann tinha razão. Para constatar a falta de piedade dos saudáveis com os doentes basta ficar alguns dias de cama.</span></p>
<p>Penso que o motivo para isso é que o doente lembra o são de que ele também morrerá, só não se sabe quando. Algo que ninguém aceita de bom grado.</p>
<h4>Cuidado e autoestima</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao meu gato, a rotina de cuidados extenuantes que já perdura por quase um ano (soro, medicações diárias, troca de curativos, alimentação por sonda, etc.) me fez perceber o quanto o amor se expande por aqueles que cuidamos, embora as pessoas pensem o contrário. Que cuida-se melhor de quem já se ama. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso explica, por exemplo, porque muitos pais do sexo masculino não desenvolvem amor pelos filhos pequenos, na medida em que não os banham, os alimentam nem os embalam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste ponto, ao que tudo indica, amamos mais os que precisam de nós, o que talvez explique a diminuição da ternura dos pais pelos filhos na medida em que estes crescem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto que notei é que ser responsável por manter meu gato vivo, praticamente pele e osso e totalmente dependente de mim, tem-me feito sentir uma pessoa melhor e experimentar uma agradável sensação de estar vivendo coisas reais e sólidas. A ponto de que sentirei saudade da pessoa que tenho sido agora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com esta experiência compreendi melhor porque Freud disse em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, que ser capaz de amar eleva a auto-estima.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que significa dizer que aqueles que cuidam com esmero dos entes amados até o final tenderão a se sentir orgulhosas de si mesmas quando tudo acabar, ainda que fiquem exaustas</span><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Evidencia-se, portanto, que cuidar de alguém tende a elevar a autoestima e ampliar a sensação de contato com a realidade, o que obviamente só é verdadeiro nas situações em que o amor predomina sobre o ódio. </span></p>
<h4>Tristeza ou remorso?</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, observei algo muito interessante. O pensamento recorrente de que meu gato pode morrer não me desperta remorso, na medida em que sei que é por amor que eu começo a desejar seu fim. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Caso diverso seria se eu estivesse irritada com o trabalho que ele me dá, ocasião em que o pensamento de que ele bem podia morrer significaria então o meu desejo de me livrar dele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Penso que muitas pessoas que cuidam de entes queridos não podem desejar que o sofrimento interminável cesse com a morte porque ficam confusas se estão desejando isso por amor ou por quererem se livrar do fardo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, viver com tristeza ou revolta a perda de nossos entes amados dependerá inextrincavelmente da confiança em nossa própria capacidade amorosa, expressa na responsabilidade de cuidar dos que precisam de nós até o fim. O que se traduz na sabedoria popular do “eu fiz tudo o que podia por ele”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, eu não estaria sendo capaz de cuidar do meu gato de modo tão amoroso se não fosse a inestimável ajuda do meu marido. </span></p>
<h4>O amor que vem da infância</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Refletindo sobre de qual fonte inconsciente brota nosso profundo amor por animais, conclui que vem da infância. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Trata-se do amor pelo animal que representa, na criança, o anseio por um objeto confiável e sincero, cujo ambiente humano talvez tenha falhado em ser, sendo esta a base da misantropia: uma decepção ressentida com os seres humanos por sua imprevisibilidade e maldade. </span></p>
<p>O que nos leva à conclusão de que pessoas que amam animais se identificaram muito precocemente com a fragilidade e enorme dependência deles.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Experimentam-na crianças de natureza sensível que perceberam cedo demais a rudeza dos homens, e o fato de que somos sempre um pouco sós</span><span style="font-weight: 400;">. Era o que para menina-em-Clarice-Lispector, que perdeu a mãe tão cedo, significava seu cão. E para o jornalista Paulo Francis e sua companheira Sonia Nolasco, seu gato. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E isso porque, os animais, ao contrário dos humanos, amam incondicionalmente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso, o adulto racional que matou a pureza da criança em si, não enxergará, julgando tolos aqueles que amam os animais, pois afinal, eles &#8220;são só bichos&#8221;, como demonstra os bem-intencionados pais e mães que compram um cachorro idêntico ao que se afogou na piscina, para substituir o morto, convictos que a &#8220;boba&#8221; da criança não perceberá. </span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p>* O Cidão, como carinhosamente o chamávamos, faleceu no dia 26 de setembro de 2022 por meio de eutanásia.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cuidar-de-alguem-ate-o-fim-reflexoes-a-partir-da-experiencia-de-cuidar-do-meu-gato-em-fase-terminal/">Reflexões a partir da experiência de cuidar do meu gato em fase terminal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Comentários sobre o filme Aos olhos de Ernesto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jan 2021 14:24:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Aos olhos de Ernesto]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O post faz algumas reflexões sobre a velhice e a morte a partir do filme Aos Olhos de Ernesto.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2293 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/01/download-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />O filme da diretora Ana Luiza Azevedo (2020) é um convite para enxergar a vida pelos olhos de Ernesto. Um homem na faixa dos setenta anos, parcialmente cego.</p>
<p><span id="more-2291"></span></p>
<p>Além de fotógrafo sensível, ex-militante e exilado político que teve que deixar sua terra natal, o Uruguai, por causa da ditatura.</p>
<p>Retrata a luta de Ernesto por manter-se autônomo, apesar das horrendas limitações da velhice, piorada pela cegueira.</p>
<p>Autonomia interior vivida em sua paixão pelos livros, pelas músicas e pelas memórias de luta na juventude, compartilhadas com a amiga e antiga namorada Lucía, com quem troca cartas.</p>
<p>O gabinete de leitura, que tranca a chaves, representando nesse aspecto aquilo que de mais sagrado existe para ele: conhecimento, privacidade e autonomia. Experiências cada vez mais ameaçadas com sua degenerescência física.</p>
<p>O filho, por amor ou por desconhecer a natureza indômita do pai, quer levá-lo para morar com ele; algo de que Ernesto se horroriza. Não quer “<em>depositar sobre os ombros do filho o fardo de sua velhice</em>”.</p>
<p>Lembra neste aspecto a tradição dos orgulhosos e autossuficientes povos esquimós onde os velhos iam morrer sozinhos nas montanhas quando já não eram mais úteis à comunidade.</p>
<p>O contraponto dele é Javier: seu velho vizinho que, perdendo a esposa, não suporta a solidão e vai morar com a filha. Dois modelos de velhice distintos. O de Ernesto talvez carecendo de uma força interior muito maior, que nem todos tenham. Talvez uma pequena minoria.</p>
<p>Ter vivido intensamente a vida e cultivado um mundo interior rico, como é o caso de Ernesto, parecendo ser crucial para esta vida interior forte. Que se traduz em temer menos a solidão e a morte, nos anos finais de vida. O que não exclui o horror de uma velhice incapacitante e de uma morte dolorosa e solitária.</p>
<p>Por afinidade, Ernesto se liga à Bia, uma jovem de vinte e três anos, cuidadora de cães, com quem estabelece uma bonita relação de enriquecimento mútuo.</p>
<p>Ele dá a ela estabilidade, cama e comida. Ela o ensina a mexer no celular e a não ser tão formal. Lê e escreve as cartas à Lucía para ele, estimulando-o a retomar a paixão interrompida no passado. Para ambos, a vida devendo ser vivida com paixão até enquanto se está vivo.</p>
<p>Extraem esta paixão compartilhada pela vida da língua, das letras e dos livros que amam. Ela o leva a uma roda de poesia, onde ele declama lindamente um poema do poeta e ensaísta uruguaio Mario Benedetti, intitulado <em>Porque cantamos?</em>.</p>
<p>Ora, encontrar afinidades é uma sorte. Não podia ser Bia sua filha?</p>
<p>Mas de outro lado a filiação é um peso. E Bia se assusta ao perceber o desejo de Ernesto.</p>
<p>Só que ele é um homem excepcional e não quer ser infantilizado, como os velhos costumam ser, sobretudo pelos familiares.</p>
<p>Quer continuar adulto e preservar sua dignidade até o fim. Isso não significando nem falta de amor à família, nem misantropia.</p>
<p>Por isso, Ernesto, em ato de profunda coragem, despede-se em carta do filho, deixa o apartamento para Bia e parte para viver o último capítulo de sua vida.</p>
<p>Retorna à cidade natal para viver (e morrer) na companhia de Lucía.</p>
<p>Motivam-lhe o fato de não querer ser um peso para o filho mas também o desejo de experimentar amizade e afeto numa relação de iguais. Como é a que se vive entre marido e mulher. Algo que os filhos não podem oferecer.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="André Morais | Por que cantamos | Poesia de Mario Benedetti" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/x-4RDyrxhUE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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		<item>
		<title>Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2020 14:25:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[coragem]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[reflexão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a importância de nos mantermos corajosos frente à situações difíceis. Partindo de uma vivência pessoal sua, a analista faz reflexões sobre os tempos atuais e a onda do coronavírus.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/medo-e-coragem-em-tempos-de-coronavirus-reflexoes-a-luz-de-uma-experiencia-pessoal/">Medo e coragem em tempos de coronavírus: reflexões à luz de uma experiência pessoal</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2037 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2020/04/coronavirus-1-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />Quando padeci de um quadro fisicamente muito doloroso há alguns meses não poderia imaginar que estava, sem saber, acumulando experiência para atravessar a onda do coronavírus.</p>
<p><span id="more-2036"></span></p>
<p>Na ocasião, apesar de não ter corrido sério risco de vida, convivi por alguns meses com uma dor que me incapacitou de fazer coisas simples como caminhar ou sentar.</p>
<p>E, como tive muito tempo para pensar, refleti bastante sobre o que penso ser um jeito digno de enfrentarmos uma doença ou uma situação difícil como a de agora.</p>
<p>São estas reflexões muito pessoais que me proponho a compartilhar aqui.</p>
<p>Quando perdemos a saúde repentinamente nos damos conta de um jeito radical e desesperador que a vida pode se tornar (quase) insuportável se ficamos impedidos de fazer coisas que, quando estamos sãos, são bastante banais e corriqueiras.</p>
<p>Assim a doença física, sobretudo quando se prolonga, promove um radical redimensionamento das coisas para nós. Aquilo que é banal para o são, para o doente se torna uma dádiva. Aquilo que não tem o menor valor para o saudável, para o doente se torna alvo de inveja e cobiça.</p>
<p>Isso faz frequentemente com que a doença física seja vista por muitos como uma espécie de “caminho de regeneração do homem” ou, no pensamento animista, como uma punição por um prazer proibido consumado no inconsciente.</p>
<p>Esta visão, inclusive, tem sido muito compartilhada acerca do coronavírus. A de que após ele a humanidade passará por um profundo processo de regeneração onde finalmente viveremos em maior harmonia com a natureza.</p>
<p>Ou então, numa visão mais medieva, de que a peste do coronavírus foi lançada sobre nós (por Deus?) como uma espécie de sinal de alerta para reavaliarmos o mau caminho que temos tomado como espécie.</p>
<p>Uma terceira linha de visão ainda, de cunho mais biologicista, argumenta que todas as espécies animais, incluindo a nossa, possuem predadores e que a mortandade dos indivíduos em massa serviria ao propósito de controle populacional.</p>
<p>Ressalta-se que o mesmo argumento foi encontrado muitas vezes no passado para justificar as grandes guerras mundiais: faz-se guerra para evitar a superpopulação mundial.</p>
<p>O curioso é pensar que a abordagem de um problema real &#8211; a superpopulação humana sobre a terra &#8211; possa encontrar solução no estranho caminho de justificar a morte de milhares de nós (seja por guerras ou por pestes) e não no que seria o mais óbvio e sensato como a orientação das pessoas sobre a não necessidade de se ter mais filhos e a descriminalização do aborto, por exemplo.</p>
<p>De qualquer forma, voltando ao ponto que nos interessa aqui, fato é que, do ponto de vista psicobiológico, nossos corpos e psiquismos são regidos pela busca do prazer e fuga natural da dor, algo para o qual Nietzsche já havia alertado bem antes de Freud.</p>
<p>Nesta perspectiva, ser saudável não é querer abolir a doença já que não temos nenhum controle individual sobre ela. Ser saudável é querer, uma vez doente, melhorar o mais rápido possível para voltarmos a usufruir da vida.</p>
<p>E para isso, diz Nietzsche, é preciso coragem: a coragem de dizer sim à vida e aos pensamentos alegres não à morte e aos pensamentos sombrios que, sabemos, exercem um tremendo fascínio sobre nós.</p>
<p>Acontece também que viver é extremamente trabalhoso e conflitivo. Manter-se corajoso e com o espírito elevado frente às impermanências naturais da vida, muito mais desafiador do que ser negativista e queixoso.</p>
<p>E o que pude aprender com a minha doença, e que vejo se confirmar agora com o coronavírus, é que os liames entre a covardia e a coragem são muito tênues e que vários são os labirintos em que podemos nos perder nesta busca.</p>
<p>No meu caso, a luta entre a covardia e a coragem se deu quando tentei me iludir de que meu problema poderia ser resolvido sem cirurgia, ilusão que a realidade acabou por não comprovar.</p>
<p>Ora, quando ficamos com medo de algo é natural que tentemos nos iludir. Mas quando insistimos em preferir a ilusão à verdade, para evitarmos o medo, aí é que nos tornamos covardes.</p>
<p>Decidida a operar, na ante sala do centro cirúrgico, enquanto aguardava a minha vez, pude pensar que sentir medo não nos dá o direito de nos tornarmos tiranos ou revoltados.</p>
<p>A depender de como enfrentamos as adversidades da vida, se com humildade ou com revolta, nos tornamos mais sábios ou mais patéticos e miseráveis.</p>
<p>Um senhor que seria operado antes de mim comportava-se tristemente como uma criança mimada, reclamava às enfermeiras o tempo todo que estava com fome; xingava porque a cirurgia anterior estava demorando e dizia que ia processar o hospital.</p>
<p>Era evidente que estava revoltado por estar doente e, incapaz de conter seus próprios sentimentos de medo e pânico, derramava-os em forma de raiva e de inconformismo sobre os outros. Em suma, enfrentava seu medo da maneira menos nobre e altiva possível: se acovardando e dando trabalho aos outros.</p>
<p>Fiquei triste porque pensei que ele estava perdendo uma oportunidade valiosa de aprender algo sobre a vida e sobre ele mesmo.</p>
<p>Por exemplo, que nós temos pouquíssimo controle sobre as doenças que nos acometem; e que momentos difíceis como este são ótimos para desenvolvermos a nossa capacidade de humildade e de paciência com aquilo que não podemos alterar.</p>
<p>É isso que chamo procurar enfrentar uma situação difícil com alguma nobreza e coragem. Por isso achei que estas reflexões caberiam bem no contexto do coronavírus.</p>
<p>O coronavírus trouxe, em nível mundial, a iminência de um risco de dizimação em massa de vidas humanas, seja pelo vírus, seja pela crise econômica mundial provocada por ele. Por isso é natural que tenhamos medo e até pavor de tudo o que estamos vivendo.</p>
<p>De outro lado, esta pode ser uma ótima oportunidade para cada um de nós conhecermos mais profundamente os nossos medos e de aprendermos a contê-los sem exterioriza-los, como não conseguiu fazer o senhor do hospital.</p>
<p>Também pode ser uma oportunidade valiosa de exercitarmos o espírito nietzschiano em nós, a saber, a capacidade de atravessarmos uma situação difícil como esta sem ficarmos nos lamentando nem tendo pena de nós mesmos em demasia; a capacidade de contermos os nossos pensamentos sombrios e a nossa frustração sem precisarmos destilar nossos ódios sobre os outros nem achar bodes expiatórios para as nossas desgraças.</p>
<p>Desgraças na vida acontecem aos montes. Já existiam antes e vão continuar a existir depois do coronavírus. E coisas boas também. Por isso Guimarães Rosa dizia ter mais medo de nascimentos do que de mortes. Porque viver é muito, muito mais arriscado e difícil que morrer.</p>
<p>Assim, penso que permanecermos vivos e lutarmos pelo direito que nos cabe à alegria e ao prazer pode ser tão ou mais difícil e exigente em termos de disciplina mental do que pegar coronavírus ou qualquer outra doença e, quem sabe, morrer delas. É isso o que a clínica psicanalítica sempre me mostra.</p>
<p>Porque na doença podemos nos ver justificados a nos abandonar de nós mesmos, o que frequentemente ocorre; e, na morte, tudo finalmente acaba e não há mais nada a fazer.</p>
<p>Então que, nesta quarentena, possamos sim lutar pela preservação das vidas humanas fazendo tudo o que está ao nosso alcance fazer.</p>
<p>Mas que possamos também não nos esquecer de que manter um espírito de decoro e de nobreza frente o sofrimento pode ser o ato mais inteligente que podemos ter por ora.</p>
<p>E que, se após o coronavírus sobrarem poucos de nós e se estes poucos vierem a ser visitados por alguma espécie alienígena, que a lembrança que possamos deixar aos que não puderam nos conhecer seja a de que somos seres excepcionais.</p>
<p>Porque fazemos sinfonias e sonatas, obras de arte e construções maravilhosas, descobrimos vacinas e salvamos vidas, somos generosos e ajudamos gente, adoramos samba e carnaval, somos inventivos e esperançosos sobre o futuro, fazemos muros, mas também pontes.</p>
<p>Em suma, se viemos do macaco, o deixamos para trás há muito tempo!</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Hoje estou de luto.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Sep 2017 17:03:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[incêndio em mata]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[riqueza]]></category>
		<category><![CDATA[tédio]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre o individualismo do sujeito contemporâneo a partir de narração de uma situação de incêndio. Também faz um contraponto destas condutas humanas contrastando-a com a generosidade e o heroísmo que podemos encontrar entre os outros animais. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/09/images.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1835 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/09/images-300x151.jpg" alt="" width="300" height="151" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/09/images-300x151.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2017/09/images.jpg 316w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Hoje estou de luto por alguns de meus vizinhos que, perplexos, me perguntaram por que eu chorava se minha casa estava protegida do incêndio que devorou por dois dias ininterruptos a mata e matou milhares de vidas mais honestas que a nossa.</p>
<p>Estou de luto pela falta de paixão de algumas das pessoas vestidas de vermelho que foram enviadas para nos ajudar, mas que se mostraram terrivelmente presas nas malhas da inércia. Desalmadas e carcomidas no ser por um salário miserável e por um Município que não as valoriza como salvadoras que em tese são, mostraram-me o quão triste é um coração sem alma, desacreditado de sua própria importância no mundo.</p>
<p>Estou de luto por aqueles que conseguiram chegar em casa após um dia de trabalho e ligar a TV mesmo com labaredas enormes devastando a vida e empesteando o ar a alguns metros de suas lindas e envidraçadas janelas.</p>
<p><span id="more-1833"></span></p>
<p>Estou de luto por aqueles que passaram curiosos em seus carros de luxo e, sem nenhuma bondade, mas cheios de curiosidade mórbida simplesmente levantaram o pescoço para perscrutar a desgraça alheia.</p>
<p>Estou de luto por aquelas crianças medíocres e más que vi debochando das aves que voavam desesperadas tentando salvar seus filhotes. Mas por estas eu não estou de luto!</p>
<p>Por estas, nestes dois dias difíceis que vivi, meu coração se encheu de esperança na vida. Mais uma vez pude aprender com estes meus delicados companheiros de caminhada qual o verdadeiro sentido da nossa existência neste pequeno planeta azul à deriva no meio do universo.</p>
<p>Aprendi com o heroísmo bravo e guerreiro destas lindas aves que tentavam salvar seus pequenos filhotes já devastados porque sabiam que o gesto amoroso e cuidador da vida é tudo o que importa.</p>
<p>Aprendi com a majestade estupenda das árvores frondosas que vi lutando bravamente contra o fogo e que, tenho certeza, logo ressurgirão magníficas porque, muito melhor que nós, elas sabem que a vida é um grande ciclo ininterrupto de construção e destruição do qual todos nós fazemos parte.</p>
<p>Aprendi também com meu amado marido que, depois de um ato de desespero e dor, saiu como um Hércules em busca de salvar o que ainda pudesse de nossas amadas árvores em meio ao fogo e bombeiros. Uma alma bondosa e simples, trabalhador braçal de uma das obras ao lado da nossa casa, enxergou a nobreza de sua atitude e me disse: “Ele é um homem de coragem.” Senti orgulho por ser sua esposa.</p>
<p>Minha gratidão também ao bravo e devotado Fernando que pôde nos mostrar, em toda sua simplicidade, que a tenacidade do espírito é superior à qualquer regra. Fernando e Rodrigo, bravos guerreiros da esperança, continuem a trabalhar pela vida! Também minha gratidão por alguns vizinhos que, naquela noite, nos ofereceram abrigo porque não tínhamos condição de permanecer em nossa casa.</p>
<p>Aprendo mais uma vez com esta experiência que a vida é um fluxo ininterrupto de acontecimentos e que cabe a cada um de nós aprendermos, mediante a nossa maior ou menor capacidade de dar sentido ao que nos acontece. Quanto mais podemos aprender que a vida não é justa e nem “rosinha flores” como disse certa vez o sábio Guimarães Rosa, mas uma guerra brutal, paradoxalmente marcada por desamparo e beleza, menos melindrosos nos tornamos e mais capazes de valorizar o que realmente importa: nutrir bons sentimentos e amar o belo.</p>
<p>Vivemos hoje em um tempo sinistro em que a casa vale mais que a vida, em que o valor de uma pessoa não está mais em suas ações mas nos bens que ela possui; vivemos um tempo sinistro em que as manifestações de carinho e de compreensão pela dor alheia são raras; vivemos em um tempo sinistro em que as pessoas acreditam poder se blindar em suas casas de ferro sem perceberem que o que estão matando com este isolamento egoísta são seus próprios corações e suas próprias humanidades.</p>
<p>O que sobra daí é uma existência de plástico, estéril e sem sentido. Para preencher o buraco que fica bem no meio do coração, consome-se tudo que se pode: viagens, roupas lindas, belas joias, bebês loiros, casamentos estupendos, esquecendo-se com isso da regra mais importante do bem-viver: que tudo é transitório e passageiro; que nada é nosso, mas emprestado. No fim da jornada, cada qual só terá como parceiro de balanço final a própria consciência com as boas ou más escolhas que se pôde fazer pelo caminho afora.</p>
<p>E que sorte eu tenho de poder ser relembrada disso por algumas pessoas fortes que me acompanham no caminho e que me ajudam a ser o melhor que posso, mesmo que isso me cause dor e, às vezes, alguma solidão.</p>
<p>Na noite da tormenta fui relembrada pelo meu querido pai, homem que me deu de presente parte da força selvagem que tenho, que aqueles companheirinhos que morriam, dos quais eu podia ouvir choros lamentosos porque o fogo insano os cercou impiedosamente impedindo qualquer fuga, morriam de maneira heroica: lutando e sem medo de deixar ir.</p>
<p>No reino destes nobres companheiros, relembrou meu pai, não há hipocrisia, nem fingimento, nem egoísmo, nem covardia. Há sim uma espécie de inteligência do instinto que sabe que toda vida é feita para morrer. Não há, portanto, beleza maior do que a ave que morre em pleno vôo ou do ser que morre no puro exercício de sua máxima potencialidade. Tristeza, disse ele, é morrer por covardia, por medo fraco, por não escolher ser o melhor que se pode a cada momento e até o final. Pois não há preguiça ou covardia entre as formigas. Esta é uma praga que acomete somente a raça humana, da qual às vezes eu não gosto de fazer parte.</p>
<p>Mas quando meu coração se acalma e eu retomo meu santuário repleto de luz, de calor e de belas cores, resgato o meu lugar no mundo. E relembro que cada ser vivo tem uma missão na vida. E que renegá-la, isso sim, é a pior morte que existe!</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A morte é um borrão na natureza.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Dec 2014 19:05:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhadores do Mar]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Hugo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em “Os trabalhadores do mar”, de Vitor Hugo, diz o narrador sobre o desespero de Gilliatt, diante do risco de sua própria morte:             O homem diante da noite reconhece-se incompleto. O céu negro é o homem cego. Com a noite o homem abate-se, ajoelha-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A morte é um borrão na natureza.</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/download.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1278 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/12/download.jpg" alt="download" width="300" height="168" /></a>Em “Os trabalhadores do mar”, de Vitor Hugo, diz o narrador sobre o desespero de Gilliatt, diante do risco de sua própria morte:</p>
<p style="text-align: justify;">            <em>O homem diante da noite reconhece-se incompleto. O céu negro é o homem cego. Com a noite o homem abate-se, ajoelha-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido. Pergunta: O que é; treme, curva-se, ignora; às vezes, quer ir lá. Todo o número é zero diante do infinito. Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro. Mas, este prodígio universal não se realiza sem atritos e os atritos é o que chamamos de Mal. O Mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro e o planeta pelo cometa. O Mal é um borrão na natureza.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1277"></span></p>
<p style="text-align: justify;">De que nos fala Vitor Hugo nesta bela passagem?</p>
<p style="text-align: justify;">O que quer dizer ele com: O Mal é aquilo que atrita este prodígio universal chamado vida? Ou ainda, o Mal desconcerta a vida, que é uma lógica. O Mal é um borrão na natureza.</p>
<p style="text-align: justify;">Para refletir sobre esta questão, partirei de algo que estou vivendo neste momento. Tenho acompanhado de perto uma pessoa da família com diagnóstico de câncer.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que é deste Mal que nos fala Vitor Hugo. Ele não fala do mal que o homem causa, consciente ou inconscientemente, a si mesmo por causa de sua própria miopia. Vitor Hugo, na voz de Gilliatt fala do Mal que vem bagunçar a lógica e a estética da vida, sobre o qual nós não temos nenhum controle: a doença, a nossa impotência diante da força da natureza (por exemplo, nas grandes catástrofes naturais), a fome, a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Para começar, o homem anseia deste sempre a perfeição e a imortalidade. Freud chegou a dizer que para o inconsciente o tempo não existe. Por isso olhamos com tanto estranhamento e até um pouco de desdém a desgraça dos outros, o envelhecimento dos outros, a morte dos outros. Lá no fundo de nossas almas nós pensamos: isso nunca vai acontecer comigo! Eu nunca vou ficar doente! Eu nunca vou envelhecer. Certo dia uma pessoa já velha me disse com pesar que sentia que seus filhos a desprezavam, algo que ela relacionava com o fato dela própria estar velha e próxima da morte. Acho que ela está certa em sua percepção. Nós seres humanos não gostamos da velhice e da doença porque ela nos sinaliza a proximidade da nossa própria morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, Vitor Hugo não nos ensina somente que o Mal – estas coisas que nos acontecem sobre as quais não temos o menor controle – atrita a lógica da vida. Ele nos ensina mais. Fala que diante do Mal o homem tem pelo menos duas saídas: ou ele se ajoelha e se arrasta para o buraco, acovardando-se em sua luta, ou ele cria asas. Se ele pode criar asas e ficar frente a frente com o desconhecido, algo sublime acontece: sua alma cresce pelo assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos agora a esta pessoa diagnosticada com câncer. O que ela pode fazer diante deste Mal, deste borrão da natureza, deste atrito que vem retirar dela a ilusão narcísica de que com ela isso nunca aconteceria, de que ela tinha um tempo infinito para realizar-se como ser humano?</p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhando Vitor Hugo, ela pode ajoelhar-se e meter-se em um buraco negro e sombrio. Estamos aqui no campo dos sentimentos depressivos e melancólicos, que tem como raiz a revolta, filha do ódio. Em termos poéticos, neste caso a dor se transformou em ódio, como nos ensinou Guimarães Rosa na voz de Riobaldo. O desconhecido é evitado e nada de sublime acontecerá. Sua alma não crescerá e não poderá aprender nada sobre a vida pelo assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, há outra saída. Diante do Mal-borrão-da-natureza, sua mente pode criar asas. Esta pessoa pode, em um casamento profundo com as forças de vida, dançar de perto com o abismo, repensar sua própria vida, fazer um balanço, reencontrar novos sentidos, transformar-se profundamente. É verdade que para isso é preciso ter muita coragem. É verdade que para isso é preciso já se ter alguma familiaridade com esta lógica ilógica que é a vida-morte. Caso contrário, o choque é muito grande e talvez ela não possa sobreviver a ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Se ela pode criar asas e perceber que, na natureza, a mosca é devorada pelo pássaro (não há violência nem intencionalidade nisso) e que o nosso planeta pode, a qualquer momento, ser destruído por um cometa qualquer, ou seja, que somos poeira cósmica diante do infinito, sua mente se torna também infinita e aberta para pensar pensamentos nunca antes sonháveis. Eis aqui o milagre!</p>
<p style="text-align: justify;">Penso, portanto, que Vitor Hugo nos alerta para algo crucial na vida: o corpo que envelhece, adoece só é sentido como prisão quando o que se está aprisionada é a mente. Uma mente dotada de asas não se abate diante do perecimento do corpo. Ela se solta, deixa ir quando for a hora. Ela aceita que tudo que é vivo, perece; que nós estamos morrendo sempre um pouco por dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para isso é preciso ter alma antiga, algo que não depende da idade cronológica, mas do quanto já se pôde crescer pelo espanto!</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma música linda feita por Raul Seixas que diz assim:<em> </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Eu sei que determinada rua que eu passei</em><br />
<em>Não tornará a ouvir o som dos meus passos</em><br />
<em>Tem uma revista que eu guardo há muitos anos</em><br />
<em>E que nunca mais eu vou abrir.</em><br />
<em>Cada vez que me despeço de uma pessoa</em><br />
<em>Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez</em><br />
<em>A morte, surda, caminha ao meu lado</em><br />
<em>E eu não sei em que esquina ela vai me beijar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Com que rosto ela virá?<br />
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?<br />
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?<br />
Na música que eu deixei para compor amanhã?<br />
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?<br />
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,<br />
E que está em algum lugar me esperando<br />
Embora eu ainda não a conheça?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Vou te encontrar vestida de cetim,<br />
Pois em qualquer lugar esperas só por mim<br />
E no teu beijo provar o gosto estranho<br />
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar<br />
Vem, mas demore a chegar.<br />
Eu te detesto e amo morte, morte, morte<br />
Que talvez seja o segredo desta vida<br />
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Qual será a forma da minha morte?<br />
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.<br />
Existem tantas&#8230; Um acidente de carro.<br />
O coração que se recusa a bater no próximo minuto,<br />
A anestesia mal aplicada,<br />
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida<br />
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,<br />
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Oh morte, tu que és tão forte,<br />
Que matas o gato, o rato e o homem.<br />
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar<br />
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva<br />
E que a erva alimente outro homem como eu<br />
Porque eu continuarei neste homem,<br />
Nos meus filhos, na palavra rude<br />
Que eu disse para alguém que não gostava<br />
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite&#8230;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Vou te encontrar vestida de cetim,<br />
Pois em qualquer lugar esperas só por mim<br />
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar<br />
Vem, mas demore a chegar.<br />
Eu te detesto e amo morte, morte, morte<br />
Que talvez seja o segredo desta vida<br />
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente ou não, Raul Seixas morreu jovem, pelo menos em termos cronológicos. Morreu dormindo. Ou seja, a vida foi generosa com ele e lhe enviou a morte vestida em uma bonita roupa. Enquanto vivo Raul parece ter podido dançar de perto com o abismo, com o desconhecido, algo que sempre traz um imenso prazer, mas também uma imensa dor. Para ele, o véu do Real se descortinou e ele pôde olhar para aquilo que cega, de tanta beleza, de tanta dor, de tanto assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste universo mítico, representado pelo mar em Vitor Hugo, e pela &#8220;metamorfose ambulante&#8221; de Raul Seixas que encontramos o inconsciente, o pulsional, aquilo que está além ou aquém da representação, fonte de energia criativa e de angústia, pela proximidade com o inanimado. Neste caos mítico, o mergulho é silencioso, profundo e alto, denso, escuro, sinistro, criativo e doloroso como um parto. Deste mergulho, nunca sabemos bem o que irá nascer. É espantosa a transformação.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/morte-e-um-borrao-na-natureza/">A morte é um borrão na natureza.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Até quando devemos prolongar a vida humana?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jan 2013 18:08:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[mecanismo de defesa negação]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[suicídio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o suicídio e sobre a necessidade de negação da morte. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-680 " src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/suicidio1w-300x216.jpg" alt="suicidio1w" width="238" height="171" />As ideias contidas neste texto são fruto de uma série de reflexões que pude fazer ao longo da semana passada e que foram motivadas pelo suicídio do ator Walmor Chagas e pelo filme francês “Amor”, de Michel Haneke, em exibição nos cinemas.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-679"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">O suicídio de Walmor Chagas:</h2>
<p style="text-align: justify;">Vamos ao primeiro. Em junho do ano passado, assisti no canal Globo News a uma entrevista do ator Walmor Chagas, divulgada no programa Starte.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-681 size-medium" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/esperando-a-godot-300x300.jpg" alt="esperando-a-godot" width="300" height="300" />Nesta entrevista, logo depois em que ele contou sobre a morte de sua companheira Cacilda Beker, que teve um infarto fulminante apos encenar “Esperando Godot” de Samuel Beckett, a entrevistadora pergunta a ele sobre suas perspectivas futuras, que responde: “Que venha a morte. Eu não tenho medo de morrer. Afinal, o que um homem na minha idade pode esperar mais? Eu só quero que seja uma morte interessante. Morrer de avião deve ser bastante interessante.”</p>
<p style="text-align: justify;">A entrevistadora, visivelmente incomodada com a resposta do ator, tentou encorajá-lo e animá-lo “a não pensar nestas coisas”. Eu achei muito corajosa e autêntica sua resposta. Mas, a questão é que, em meio a estas reflexões, eu também me perguntava: Mas o que é que ela espera ouvir de um homem de oitenta e tantos anos? Que ele queira viver até os cento e vinte?  Por que é tão incomodo ouvir que uma pessoa está cansada de viver? Walmor nesta entrevista pareceu deixar muito claro que não pôde suportar a dor pela perda de sua esposa e que, depois disso, sua vida perdera o sentido, algo que o levou a se isolar em seu sítio de onde só saia raramente.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Em janeiro de 2013, neste mesmo canal televisivo, a seguinte notícia é veiculada por uma repórter: Walmor Chagas morreu!</p>
<p style="text-align: justify;">Muito interessante o modo como a informação foi noticiada e as tentativas de esconder o incômodo fato de que ele havia se matado. A repórter dizia que o grande ator havia morrido e que, apesar de ter sido encontrado sentado na cozinha com uma arma no colo e um tiro na cabeça, pelo caseiro da fazenda às cinco horas da tarde, a polícia ainda estava investigando a causa da morte e que havia uma chance de ter sido furto!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Mecanismo de defesa da negação:</h2>
<p style="text-align: justify;">Nesta situação vemos um exemplo emblemático do uso do mecanismo de defesa da negação visando a evitação da dor provocada pela percepção da existência do anseio pela morte.  Em seguida, é anunciado o programa Starte. Penso eu: será reprisada a entrevista de Walmor, como uma forma de se prestar homenagem a ele. Não é isso que acontece com os atores queridos?</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi assim que aconteceu com a morte de Hebe Camargo (que morreu de câncer, ou seja, uma morte não intencional), a quem tivemos que assistir por meses a fio programas e homenagens? Para minha surpresa, mas nem tanta, o programa não seria a reprise da entrevista, mas sim sobre um pintor francês, apontando para a necessidade de silenciamento sobre o assunto.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Suicídio em massa e não visibilidade do sofrimento mental:</h2>
<p style="text-align: justify;">Rossevelt Cassorla, <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">psicanalista</a> que desenvolveu muitos estudos sobre o suicídio, afirma em um de seus textos sobre o tema, que um dos argumentos para que a mídia evite o uso desta palavra diz respeito ao medo de que a notícia estimule suicídios em massa. Eu acrescentaria a este motivo, que a negação da informação do suicídio de Walmor se deve a dificuldade que existe, no âmbito social, de se valorizar e discutir as questões do sofrimento mental, que podem levar um sujeito a tirar a própria vida. Então, funciona mais ou menos assim: Se a gente não falar do bicho, ele passa a não existir!</p>
<p style="text-align: justify;">E aí entra o segundo fato, que veio dialogar diretamente com o meu incômodo “televisivo”.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Filme &#8220;Amor&#8221; de Michel Haneke:</h2>
<p style="text-align: justify;">Para quem ainda não viu, não pode perder o filme “Amor” do diretor Michel Haneke.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-682" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2013/01/Amor-de-Michael-Haneke-208x300.jpg" alt="Amor-de-Michael-Haneke" width="208" height="300" />Vou contar a história de forma bem resumida: retrata a vida de um casal de idosos por volta dos oitenta anos, ambos musicistas brilhantes. Anne, a esposa, depois de assistir à apresentação de um aluno seu sofre uma isquemia que paralisa o lado esquerdo de seu corpo. Sua condição, agora de extrema dependência do marido, vai se deteriorando cada vez mais e ela pede a ele: “Não deixem que me vejam desse jeito. Não quero que se lembrem de mim assim!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Junto da paralisia, surge um quadro demencial que deixa Anne na cama, usando fraldas, sendo alimentada por sondas e cuidada pelo marido zeloso. A filha, incapaz de suportar a percepção da condição deteriorada de sua mãe, sugere ao pai que a coloque em uma clínica. Em suma, solicita a ele que leve para longe dela o mal cheiro que exalam a deterioração humana e a proximidade da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">O marido, devotado à promessa que fez a sua mulher, de que não a levaria para o hospital em hipótese alguma, recusa veementemente a solicitação da filha e passa a evitar cada vez mais que esta veja a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Isolado com sua profunda dor de ver sua mulher, outrora tão ativa e vivaz, minguar na cama, cheia de feridas e gritando incessantemente que “dói”, ele, depois de contar a ela uma dolorosa história sobre sua própria infância, a mata asfixiada com um travesseiro.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Até quando devemos prolongar a vida humana?</h2>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me que quando estagiava no hospital atendendo pacientes terminais, ficava muito intrigada com a raiva que eles despertavam na equipe quando diziam que não queriam mais viver. O discurso comum entre médicos e enfermeiros era normalmente este: “Mas como? Você não pode entregar os pontos deste jeito?”</p>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me também da minha profunda angústia diante da morte, do mal cheiro exalado pelas doenças e pelo imenso vazio deixado pelos pacientes que eu atendia em uma tarde e que na manhã seguinte haviam &#8220;partido&#8221;. Nos momentos em que, auxiliada pela minha análise, podia ter um olhar mais expandido, eu frequentemente me perguntava quem estaria mais assustado neste momento? O paciente que estava cansado de viver ou a equipe que teria que lidar com seus sentimentos de impotência e de não compreensão diante do fim?</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, quando a repórter insiste para que Walmor se anime ou quando o nosso sistema de saúde gasta contas altíssimas para se preservar a vida vegetativa, a quem é que estamos servindo? A qual desejo? Estaríamos servindo realmente a um real desejo destas pessoas de não querem morrer? Ou estaríamos tentando nos acalmar e fazer as pazes com os nossos mais terríveis e assustadores sentimentos, despertados pelo contato direto com a morte?</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de suicídio talvez não chocasse tanto as pessoas em geral e a opinião pública se pudéssemos tomar contato profundo com a percepção de que viver é um peso e uma luta constante entre o desejo de viver e o desejo de morrer, ao qual todos nós respondemos todos os dias.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Amor?</h2>
<p style="text-align: justify;">Acho que o nome do filme faz uma alusão interessante a esta discussão. Qual seria uma real atitude amorosa por parte do marido de Anne? Prorrogar a sua vida em condições debilitantes e não humanas? Ou, num ato de compaixão e profunda compreensão do sofrimento de sua esposa, acabar com o seu sofrimento, como de fato ele fez? Em minha perspectiva, o marido de Anne não cometeu nenhum crime. Muito pelo contrário! Pôde compreender, num momento de profunda comunicação com a dor de sua esposa (e de sua própria) que a vida precisaria chegar ao fim naquele momento. Afinal, tudo o que é vivo, morre. Tudo o que floresce, também fenece. Este é o ciclo da vida-e-morte que marca a todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de Walmor, quem de nós poderá dizer qual o nível de sofrimento que suporta uma mente? Quem de nós poderá dizer, diante de um sofrimento que às vezes é insuportável, que a vida precisa ser preservada a qualquer custo?</p>
<p style="text-align: justify;">Acho que este tipo de discussão, sobre até quando deve ser prorrogada a vida humana e em quais condições, normalmente é emperrada por discursos religiosos  e &#8220;científicos&#8221; que apregoam que a vida precisa ser mantida custe o que custar, inclusive a de fetos anencéfalos! Da minha parte, acredito que este tipo de discussão moralizante pode esconder dificuldades mais profundas no enfrentamento da nossa condição humana mortal, finita e absolutamente frágil. Além disso, tomam como óbvia a definição do que seja vida.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer forma, não há respostas prontas para todas estas indagações, mas como aprendemos com a <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Psicanálise</a>, mais importante do que termos respostas, é não deixarmos de fazer perguntas, as únicas que podem nos ajudar a colocar algum sentido naquilo que, às vezes, parece não ter sentido algum.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Oct 2012 16:50:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento humano]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[maturidade]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/?p=635</guid>

					<description><![CDATA[<p>Texto que faz reflexões sobre o envelhecimento e a morte à luz da Psicologia e da cultura atual.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/">Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft  wp-image-637" title="envelhecimento" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/565041_379559605458208_504394231_n-300x199.jpg" alt="" width="238" height="158" />Minha motivação inicial para escrever este artigo se deve ao fato de haver, sobretudo em nossa cultura atual, um grande silenciamento ou, no mínimo, certo mal-estar quando o assunto é <a href="http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/">envelhecimento</a> e morte, algo que noto muito em minhas aulas de Desenvolvimento Humano quando trato do envelhecimento e morte com meus jovens alunos.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-635"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">Paradoxo da condição humana</h2>
<p style="text-align: justify;">O fato é que desde que temos consciência da nossa existência como humanos temos medo de envelhecer e de morrer. E este é o grande paradoxo da vida, pois, só um humano tem consciência de sua existência e, portanto, de sua morte.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que em muitos mitos encontramos deuses lutando contra a morte. É por isso também que nas concepções religiosas a vida após a morte ou a ressurreição é apresentada como possibilidade de vida eterna. Entretanto, só deuses podem vencer a morte. Humanos não. Porque nós humanos somos mortais, não somos eternos, sendo esta uma realidade inexorável e inevitável – a de que todos nós iremos morrer um dia. Na Psicologia dizemos que a morte é irreversível.</p>
<h2 style="text-align: justify;">&#8220;Eu posso comprar tudo&#8221;</h2>
<p style="text-align: justify;">Mas é fato também que ninguém gosta de pensar na morte, sobretudo na própria. Na verdade, em nossa cultura atual regida pela lógica do consumo em que “se eu tenho poder de compra, eu posso tudo”, envelhecimento e morte são assuntos considerados fora de moda porque abalam a ilusão de sermos eternos, de podermos tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, verdadeiras corridas contra o tempo são travadas: plástica, botox, exercícios desmedidos e exagerados, tudo para evitar o correr do tempo e manter a ilusão da eterna juventude. Mas, não pensem que esta evitação é bem sucedida e exitosa, pois, uma das regras do mundo mental é a de que quanto mais evitamos uma percepção, mais ela nos ameaça. Não será por isso que atualmente temos tantos filmes que apresentam o fim da espécie humana de maneira catastrófica e terrível? Outra consequência nefasta desta evitação fóbica do envelhecimento / morte é a perda do sentido da vida, já que não podemos ser aquilo que não somos mais.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Concepção de desenvolvimento</h2>
<p style="text-align: justify;">Em grande parte, esta desvalorização do envelhecimento é fortemente estimulada em nossa cultura pela visão de desenvolvimento em arco, conforme chamamos na<a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br"> Psicologia</a>. Trata-se de uma concepção que enxerga o auge da vida ocorrendo na fase adulta. Depois disso, é queda e morte. Ou seja, é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;">Problematizando esta visão, a atriz americana Jane Fonda em uma <a href="http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/jane_fonda_life_s_third_act.html"><span style="text-decoration: underline;">palestra</span></a>  muito estimulante, propõe que o terceiro ato da vida não precisa necessariamente ser vivido como uma derrota. Tudo irá depender de como “encaramos a música”.</p>
<p style="text-align: justify;">Explico-me. É realmente um fato que o corpo sofre profundamente deteriorações com a passagem do tempo. Dores, limitações, dificuldades de locomoção, etc. Mas, segundo ela, pensando do ponto de vista do desenvolvimento da mente, a melhor metáfora para expressar o envelhecimento não é a de um arco, mas a de uma escada.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Metáfora da escada</h2>
<p style="text-align: justify;">Por que uma escada? Porque a mente humana, que ela chama de espírito, não precisa se atrofiar com as limitações do tempo. Como diria <a href="www.psicologiaribeiraopreto.com.br?phpMyAdmin=4cc11f03eb035fbcbab3a1d1f8c346d4">Bion</a>, um importante psicanalista contemporâneo de Freud, a expansão da mente tende ao infinito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, o que determinará o modo como iremos “encarar a música” da vida, do envelhecimento e da morte? Não será o que vivemos, ou seja, as frustrações que a vida nos reserva, estas sim inevitáveis, mas, o modo como encaramos as nossas vivências. Dito de outro modo: o que seremos ou não capazes de aprender com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu discordo sempre de uma visão muito arraigada em nossa cultura de que envelhecer é sinônimo de maturidade. Porque envelhecimento não tem a ver com a idade cronológica. Tem a ver com a expansão da mente, com o aprender com as experiências, com expandir-se, expandir o seu olhar sobre a vida, sobre si mesmo e sobre os outros.</p>
<p style="text-align: justify;">E isso tem muito mais a ver com sabedoria do que com o fato de fazermos aniversário.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Corpo &#8211; mente</h2>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-638" title="5668591a8dd0a6b643691842acc52ec6e67bd1ff" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/5668591a8dd0a6b643691842acc52ec6e67bd1ff-300x251.jpeg" alt="" width="300" height="251" />Ainda, se pensarmos que conforme nos lembrou <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br">Winnicott</a>, corpo e mente são um todo indissociável e não duas entidades isoladas, é possível compreendermos como o enrijecimento do funcionamento mental,algo  tão comum  em pessoas idosas, leva à deteriorações e perdas na funcionalidade orgânica. Assim como também é possível pensarmos que uma mente expandida e criativa na velhice (na verdade, isso é válido para toda a vida), implicará em um corpo mais saudável, dinâmico e criativo. Entretanto, parece-me que infelizmente a nossa sociedade atual ainda não levou a sério a seguinte máxima: mente saudável é igual a corpo saudável!</p>
<h2 style="text-align: justify;">Perspectivas para o presente e o futuro</h2>
<p style="text-align: justify;">Não é possível sabermos como iremos lidar com estes fatos tão incômodos daqui a uns anos &#8211; o de que todos nós envelhecemos e morremos. O fato é que hoje lidamos mal. E a saída para construirmos uma sociedade que lida melhor com este processo inevitável da vida passa pela educação. Não aquela formal, da escola. Mas, sim pela possibilidade de podermos conversar, pensar, dialogar a respeito. Escrever um texto como este. Ler, discutir e não silenciar.</p>
<p style="text-align: justify;">E para terminar, deixo aqui uma citação belíssima de<a href="http://www.rubemalves.com.br/"> Rubem Alves</a> sobre a morte:</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Diante da morte tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar para mentiras. E a gente então se defronta com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso à nossa Verdade, para ouvir de novo a voz do Desejo mais profundo, é preciso tornar-se discípulo da Morte. Pois só ela nos dá lições de Vida se a acolhemos como amiga. A morte é nossa eterna companheira.” </em>(Alves, 1991, p. 14).</p>
<p>Para quem se interessar mais pelo tema, deixo aqui indicações de bibliografia:</p>
<p>1)      KOVÁCS, M. J. (1992). <em>Morte e desenvolvimento humano</em>. São Paulo: Casa do Psicólogo.</p>
<p>2)      ALVES, R. (1991). A morte como conselheira. In.: CASSORLA, R. M. S. (Org.). <em>Da morte estudos brasileiros</em>. Campinas: Papirus: 11-15.</p>
<p>Abraços a todos</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/envelhecimento-e-morte-estes-nossos-incomodos-des-conhecidos/">Envelhecimento e morte: estes nossos incômodos (des)conhecidos.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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