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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
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		<title>Por que não fica?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Apr 2017 13:07:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em tudo o que vivemos, em tudo o que fazemos, em cada lugar que habitamos, em cada pessoa que amamos, por cada filme ou livro que choramos, deixamos uma parte de nós. Despedir-se desta parte é como perder um dedo ou um braço, ou quem sabe, um pedaço do coração ou do fígado ou dos &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/por-que-nao-fica/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Por que não fica?</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever-150x150.jpg" width="150" height="150" /></a>Em tudo o que vivemos, em tudo o que fazemos, em cada lugar que habitamos, em cada pessoa que amamos, por cada filme ou livro que choramos, deixamos uma parte de nós. Despedir-se desta parte é como perder um dedo ou um braço, ou quem sabe, um pedaço do coração ou do fígado ou dos pulmões. E deixar para trás é sempre doloroso. Porque esta parte nossa, nunca mais a reencontramos. Aquele lugar ficará vazio para sempre. Só que para existir poesia é preciso haver vazios; é preciso o silêncio e a ausência para brotar o novo.</p>
<p><span id="more-1795"></span></p>
<p>Despedidas são, portanto, moças parteiras de vazios. Cada despedida trás ao mundo, de uma maneira inaugural e bela, uma brecha, um vazio, de onde poderá surgir – quem sabe &#8211; um raio de sol, ou fazer chover uma lágrima de dor. Para ter, é preciso suportar perder. Para nascer, é preciso deixar morrer. O novo sempre contém algo do velho em si mesmo, embrenhado nas brechas do invisível.  A mãe que pare o filho deixa morrer um pouco de si. Este é o grande altruísmo do amor. Deixar-se morrer para ir além de si mesmo.</p>
<p>Como ser humano, mulher, esposa, filha, irmã e psicanalista tenho experimentado, junto de meu esposo e grande amor, algo que Wilfred Bion designou por experiência catastrófica. É algo como uma grande morte daquilo que você vinha sendo, para ir em direção à um novo eu, absolutamente desconhecido e, por isso mesmo, temido. Temos, eu e ele, gestado e parido por um longo tempo uma linda casa no meio da mata. Como fêmea e parteira de minha cria, ainda híbrida, meio real, meio fantasmagórica, tenho sustendo angústias inimagináveis. É mais ou menos como pular de um enorme penhasco e ir se liquefazendo à medida da queda. E lá em baixo, virar uma borboleta ainda disforme e tímida no seu bater de asas.</p>
<p>Deixar para trás as pequenas extensões de minha confortável moradia para me lançar em um território misterioso, de extensões muito maiores e mais integradas com o exterior, tem sido algo de difícil elaboração. Mas como fêmea-parteira eu sigo em frente, tendo como único farol e bússola à minha frente, o sonho de ter um pé de jabuticabas à mão. Munida desta potente e fértil imagem – eu com meu pezinho de jabuticaba ao ler um livro de Guimarães Rosa – sigo em frente, amedrontada como uma criança de colo, mas com a esperança de um Hércules no coração. Sim, caro amigo, meu sonho sofreu muitas intrusões e perigos pelo caminho. Outro dia queriam exibir meu pé de jabuticaba para os olhares curiosos da rua, porque “o que era bonito era para ser exibido”. Respondi, delicada mas um pouco impaciente, que não, que a beleza deve ser protegida dos olhos vorazes, e deve deleitar tão somente aqueles que tenham o coração singelo para apreciá-la. Acharam-me muito esquisita. Não me importo. Victor Hugo dizia que o solitário, o esquisito, é um diminutivo do selvagem, aceito com muita intolerância pelos normais civilizados. Pois então, estarei no lugar onde devo estar: próximo dos selvagens, no silêncio misterioso e fecundante da noite escura, com meu pé de jabuticaba, com meu livro e com meu grande amor, a quem tive a imensa sorte de encontrar nesta vida confusa e perigosa.</p>
<p>Então, vida antiga, se me perguntares porque não fica, direi-te, tenho que ir porque senão morro. Mas vou com lágrima nos olhos porque me foi até então enormemente gentil e benfazeja. Agradeço-te a cada minuto desta linda vida que tem me dado, mas agora devo partir. Porque esta é minha natureza e porque tenho pressa de me buscar, sempre ali onde sei que não estou. Porque é lá que eu vou encontrar, não as respostas, mas outras melhores perguntas. Então, Adeus, e muito obrigado por tudo. E do vazio deixado pela despedida, uma pequena flor nascerá. Uma singela flor vermelha, que é discreta, que é linda, e que é perene.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A borboleta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Mar 2016 14:52:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto literário que descreve uma situação inusitada de uma borboleta que, temerosa frente à liberdade, refugia-se e não quer ser salva de sua prisão de vidro.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-borboleta/">A borboleta</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" rel="attachment wp-att-1332"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever-150x150.jpg" alt="maquina de escrever" width="150" height="150" /></a>A borboleta se debatia contra o vidro e pequenas gotículas de sangue já escorriam de suas delicadas asas. A cena feriu seu coração. Ela precisava salvar a pobre borboleta. E foi então que começou a luta. Seus dedos finos e longos percorriam as asas da borboleta que fugia, assustadíssima, para o outro lado. A luta foi se intensificando até se transformar em um corpo-a-corpo. Ela suava, angustiadíssima. Será que ela não quer ser salva? Será que ser salvo não é bom? Talvez a borboleta esbelta estivesse exatamente fugindo da liberdade e por isso se trancafiara olhando o lindo jardim colorido através do vidro.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1719"></span>Este pensamento fez gelar sua espinha. Por que uma borboleta fugiria da liberdade? Por que? Ela nunca havia pensando com tanta seriedade sobre isso provavelmente porque ela mesma passara longo tempo fugindo do lindo jardim, olhando a vida pelo vidro. Lembrou-se de sua amiga que, lindíssima, jogou seu corpo cheio de tédio do décimo andar do prédio depois de longos e bem vividos vinte anos de casada. Todos perguntavam-se porque aquela linda mulher havia feito isso? Ninguém sabia responder. Talvez aquela mulher tenha tentado, como a borboleta, fazer ensaios tímidos de se jogar contra o vidro na escuridão de seu quarto às quatro ou cinco da madrugada, a hora mais perigosa que existe. Devia ser por isso que os suicidas preferiam este horário para colocarem um ponto final no frenesi que é viver. Aquele horário em que a noite já faz sua despedida e os primeiros raios de sol ameaçam irromper enchendo o coração de uma esperança insuportável que faz pesar a respiração e deixa o coração oprimido de tanta náusea. Todo nascimento é doloroso e perigosíssimo. Depois de nascer, todos estamos a salvos, a borboleta e também a moça ingênua que queria a todo custo salvá-la. Acontece que neste dia, exatamente neste dia, a vertigem se deu para ela. Ao ver a borboleta se machucando contra o vidro não pôde deixar de pensar em si mesma e em seus longos anos de náusea. Não pôde deixar de pensar no olhar triste e humilhado da dona da loja da esquina que há trinta e cinco anos vende as mesmas coisas e responde sempre com seus dentes brilhantes aos seus clientes fiéis que sim, que está tudo bem e que hoje ela está felicíssima. É possível estar felicíssima? A borboleta respondia insistentemente que não. Que ela não queria ser salva, que a claridade insuportável do jardim brilhante lhe oprimia o peito de veludo, que o sol lhe era insuportável naquele dia e que tudo o que ela queria naquele momento era se debater, dura e morta, contra o vidro incolor. Por favor, que a deixassem fazer isso ao menos uma vez na vida! Porque sendo borboleta deveria almejar, com a naturalidade de um elefante, a odiosa liberdade? Estar protegida sob o vidro da realidade era muito mais tranquilizador. A claridade era tão límpida e a realidade tão duramente viva, cheia de minhocas microscópicas se mexendo sem parar que era difícil olhar sem se estar míope. A miopia salva a alma de muitos. Naquele instante a miopia vinha salvando a alma incolor da borboleta que, num pequeno suicídio quotidiano, jogava-se contra o vidro sujando-o de sangue verde e de lama. Depois da luta, do corpo-a-corpo imundo entre ela e a borboleta, finamente, seus dedos longos e finos conseguiram capturá-la e, sim, ela foi salva. Quem foi, afinal, salva? Suas asas duras bateram-se freneticamente contra o ar inerte e ela levantou voo indo na direção do seu instinto mais primitivo que era o céu. O coração dela se desoprimiu. Conseguira salvar a linda borboleta e a esperança estava enfim reconquistada. Arrumou-se de modo delicado, passou a mãos brancas pelo vestido de cambraia tirando dele qualquer vestígio da luta selvagem que havia travado com a borboleta. Não queria que ninguém descobrisse que ela havia recém-saído da luta cruel. Também não queria ser pega em seu insistente momento de quase-desesperança. Sua alma era muito cor-de-rosa. Melindrava-se com qualquer susto. Saiu de seu prédio com o olhar ainda um pouco carregado de doce culpa por ter feito a borboleta desejar o voo. Sentia-se heroica em seu ser completo e luminoso mais uma vez. Deu exatos dez passos pela rua tranquila em que morava havia pouco tempo. O dia estava lindo. A hora mais perigosa já havia passado, ela pensou. Mas ao levantar o queixo e mirar o horizonte da rua límpida avistou um corpo inerte estendido no chão. Havia acabado de se lançar contra o automóvel que, àquela altura, passava em altíssima velocidade. O morto, vestido socialmente, aparentava ser um jovem rico e bem nutrido com seu café da manhã recém-tomado. A borboleta – a mesma do sangue verde no vidro – jazia pousada em cima da cabeça do jovem defunto e olhava para a moça com o mesmo minúsculo e irritante olhar que possuem todas as coisas não compreendidas.</p>
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		<title>A lua e o mar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Jan 2016 20:00:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É com uma dor aguda que deixo ir tudo o que de belo um dia esteve em mim. A praia enternecida em seus tons crepusculares de pérola; o choro da criança amada que, como uma sinfonia límpida, regam o ar com seu desamparo de rosas; a paisagem luminosa que vai ficando para trás enquanto caminho &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-lua-e-o-mar/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A lua e o mar</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever-150x150.jpg" alt="maquina de escrever" width="150" height="150" /></a>É com uma dor aguda que deixo ir tudo o que de belo um dia esteve em mim. A praia enternecida em seus tons crepusculares de pérola; o choro da criança amada que, como uma sinfonia límpida, regam o ar com seu desamparo de rosas; a paisagem luminosa que vai ficando para trás enquanto caminho a passos rápidos para que a despedida não me despedace; os sons agudos do pássaro cantante na manhã em que se anuncia a aurora milagrosa; o olhar fugidio do ser humano que quase se deixou capturar. É com pesar inelutável que deixo cada uma das conchas que tocaram os meus pés e que me lembram que estarei morto tão logo minha consciência venha despertar do grande sono que é a vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1692"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Constato, consternado, que não é perda aquilo que vivo pois para se perder há que se ter possuído o bem almejado. E eu sei que não foi meu o luar que prateou as ondas crispantes e que não foi minha a beleza que fez transbordar de êxtase a alma. Mas eu estava ali testemunhando o espetáculo colossal, o coito entre o mar e a lua, cena herética que nenhum olho humano pode suportar sem se lançar perigosamente no abismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois disso, como continuar vivendo? Como voltar ao quotidiano das conversas cinzentas de elevador, aos debates intermináveis sobre os eventos climáticos do dia, às discussões sobre o preço do tomate, às queixas intermináveis sobre como vai mal a economia ou sobre como anda perdido o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante do burburinho, minha alma silencia. Mas não é um silêncio escuro, viscoso. É de um silêncio grávido que ela se enche. Nesta prece, fecho os olhos. E, em meio ao sono inconsequente dos viventes, reencontro em minha alma grávida o luar crispando o mar com suas pinceladas estonteantes de prata, as conchas que feriram docemente os meus calcanhares erráticos, o choro de rosas da criança amada, a paisagem luminosa, o pássaro cantante. Reencontro também o ser humano que quase se deixou capturar. Era eu a me olhar no espelho.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Prazer consumado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Nov 2015 11:31:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na noite em que Helena soube da terrível notícia foi como se um vento frio e fúnebre percorresse toda a sua espinha dorsal. Naquele exato instante, ela sentiu-se desfalecer. Um ar gelado e inóspito sombreou sua alma, estado que perdurou durante todo o final de semana. Enquanto Pedro se debatia confusamente frente à notícia, pois &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/prazer-consumado/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Prazer consumado</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever-150x150.jpg" alt="maquina de escrever" width="150" height="150" /></a>Na noite em que Helena soube da terrível notícia foi como se um vento frio e fúnebre percorresse toda a sua espinha dorsal. Naquele exato instante, ela sentiu-se desfalecer. Um ar gelado e inóspito sombreou sua alma, estado que perdurou durante todo o final de semana. Enquanto Pedro se debatia confusamente frente à notícia, pois tinha dificuldade enorme para se decidir se aquilo era bom ou ruim, motivo de alegria ou de imensa preocupação, Helena pôs-se a pensar de forma compenetrada porque reagira daquela maneira inesperada. Primeiro tentou dizer a si mesma que, afinal de contas, um bebê é sempre algo bom. Lembra esperança e renovação. Mas como sua alma não era afeita a romantismos, logo em seguida pensou consigo mesma, um pouco irada com sua tentativa de ser ingênua – coisa que nunca lhe caia muito bem – que bebês crescem e que coisas trágicas podem acontecer na vida de um infante sem que ninguém se aperceba disso. Decididamente, Helena não conseguia dar a si mesma pequenas e ilusórias alegrias mundanas que outras criaturas facilmente o faziam. Sua personalidade não deixava barato e isso lhe era mais um fardo do que uma dádiva: ela não se permitia não ir ao fundo de cada coisa.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1679"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Depois de se resignar por perceber que esta saída cor-de-rosa não lhe apaziguava o espírito, voltou à sua investigação selvagem. E a partir daí começou a compreender um pouco melhor o frio na espinha que sentira minutos antes, embora fosse verdade que o quebra-cabeça só iria se completar na segunda-feira pela manhã, logo após um sonho que tivera. Enquanto isso, era suportar este estado irritante de vazio. Mas, voltando aos motivos de seu frio na espinha, ela se lembrara, um pouco sem querer, logo depois que seu marido lhe deu a notícia, de que havia certa vez ouvido algo que lhe apavorara o espírito:  uma mulher havia pedido a seu filho que fizesse um filho naquela noite e que, juntos, cuidariam da criança. Helena quase não se sustentou nas próprias pernas.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, compreendeu o ar gelado que invadiu sua alma. Naquele instante se deu conta de que o sacrifício havia sido realizado: um infante seria entregue à mortalha. De onde viria essa fúria, Helena questionou-se confusamente. Depois, mais uma vez se negando a não ir ao fundo, lembrou-se que ela própria era mulher e por isso mesmo sabia que havia no interior de cada uma delas uma bruxa que, uma vez não podendo fazer as pazes com a sua condição, revoltava-se de forma humilhada e irascível, pedindo sacrifícios e matanças a quem se prestasse a ser devorado pela esfinge. Helena parou. Em seus olhos havia terror. Mas, ela mesma selvagem, suspirou fundo e decidiu continuar mais um pouco. A próxima pergunta seria: quem se submeteria ao sacrifício? E por que? Por que entregar-se com tanto gozo e ardor ao destino funesto? Por amor, por amor&#8230;um eco ruidoso insistia em responder. Mas que amor era esse que se entregava por sacrifício? Uma criança nascendo para logo mais morrer no caldeirão efervescente da bruxa marcada por insígnias fálicas: narigões, vassouras que espetam a alma, rabos. Tudo aquilo era decididamente muito sinistro. Acontece que todas estas ideias explodiam concomitantemente na cabeça de Helena. Imediatamente ela se deu conta de que advinha daí a sua repulsa à ideia de se ter um filho para Ser algo. Em sua condição selvagem, ela sentia que vinha dançando de muito perto com seus furos, com seus véus e suas lacunas, não sendo justo ter um filho sacrificial para cobrir seus próprios buracos. Buracos tão límpidos e criativos que a faziam sonhar à noite e gozar com seu homem. Por que não amar os buracos? Em seu corpo havia a marca. A marca do pecado original com o qual ela aprendera, dia a dia, a conviver fazendo-se Eva. Não se tratava – e ela sabia disso – de ser Eva, mas de se fazer Eva. Nisso ela pensava, residia o poder misterioso do feminino. Mas o que ela via acontecer naquele instante era o contrário disso: o filho do filho dando-se como pedaço de carne para ser mordido pela serpente, para preencher buracos primordiais, para fazer-se dejeto. Não, não, não! A natureza não podia ser tão terrivelmente cruel assim. Alguém deveria nos avisar antes da fecundação. Alguém deveria nos perguntar: Você quer? Você quer fazer parte do teatro? Por que descobrir-se fazendo parte de uma peça somente depois de trinta, quarenta anos? E o que fazer depois de se descobrir ator? O que haveria por trás da máscara? Nada? Nada? Nada&#8230; Só o furo. O buraco negro. Meu Deus, porque me abandonaste? – Esta era agora, para Helena, a única frase dotada de fundo sentido. O resto era resto. Rostos mascarados e negros vinham agora em direção à Helena que estava, ela própria, pequena. Naquele instante ela era devorada pelo furo. Devia entregar-se, ela sabia, mas era tão difícil. Tão sinistro, tão cavernoso. Seu corpo pequeno e branco relutava em ir, mas ao mesmo tempo uma força mortiça a puxava para frente. Finalmente, entregou-se. E ao se deixar, toda ela, seu corpo foi tomado por um êxtase frenético. Estremeceu toda. Mas não era o gozo que gozava nela. Era ela, ela toda, que gozava o gozo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Helena, Helena. Acorda. </em>Era Pedro, seu marido, que a sacudia levemente pelo braço.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Vamos, querida? Está na hora do nosso espetáculo.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim. </em>Helena respondeu. De seus lábios vertia um cheiro de rosa cálida; de seus olhos, um cheiro ocre de prazer consumado.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A mesma hora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2015 13:17:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um tédio imenso encheu o peito de Frida. É que ela havia percebido, pela primeira vez, que a passagem do tempo é inexorável. Tudo isso ela enxergou de uma só vez, no exato instante em que carregava a sacola de compras com dez batatas e um maço de rabanetes que iria usar logo mais para &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-mesma-hora/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A mesma hora</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever-150x150.jpg" alt="maquina de escrever" width="150" height="150" /></a>Um tédio imenso encheu o peito de Frida. É que ela havia percebido, pela primeira vez, que a passagem do tempo é inexorável. Tudo isso ela enxergou de uma só vez, no exato instante em que carregava a sacola de compras com dez batatas e um maço de rabanetes que iria usar logo mais para preparar o jantar, exatamente como fazia há trinta anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois da descoberta colossal, Frida passou a caminhar com passos duros pela rua. O inverno se extinguia e um princípio de explosão de vida começava a ensaiar seus primeiros movimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante da flor amarela, Frida fechou os olhos. Estava horrorizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhava a convulsão das folhas secas que caiam uma a uma pelo chão, deixando a rua suja como um museu. O mesmo museu que preservara por tantos anos em sua alma com seus sonhos perdidos de infância, os suspiros que nunca deu, o sorriso que morreu antes de nascer.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1652"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Espantada com a percepção inaugural de que o tempo lhe escorria das mãos, como a margarina com a qual pretendia mais tarde untar suas batatas, Frida correu para casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando lá, jogou as batatas e os rabanetes pelo chão, que se espatifaram como pedaços de um corpo morto. As netinhas lilases, que brincavam na sala, cada uma com sua boneca de veludo, não puderam se salvar.</p>
<p style="text-align: justify;">Agarrou as duas pequenas e as levou em direção ao jardim seco. Com uma voz débil, depois de colocá-las sentadas no chão duros, pediu-lhes com voz indomável que brincassem de um jeito que fizesse o tempo parar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um átimo de lucidez, ela até desejava cessar com aquilo mas não podia. Não agora. Não mais. É que ela tinha percebido no caminho entre a feira e sua casa que agora era como a folha seca abortada pela natureza. E foi porque aquela mulher não suportou tal fato é que o seu passado e o seu presente, imiscuído em um futuro inexistente, tornaram-se amorfos, caídos, insolúveis. Por isso sacrificava suas netinhas. O sacrifício, ela pensava, era por amor, mas ainda assim era sacrifício. Insana, ela não considerava as coisas terríveis que se faz por amor, este amor repleto de vermes.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois disso, Frida nunca mais foi vista. Sumiu como fumaça que desaparece, para sempre, da memória dos viventes. Assumiu, com dignidade, o desaparecimento eterno.</p>
<p style="text-align: justify;">As netinhas nunca tocaram no assunto. O dia sinistro ficou em suas memórias como um parêntese no meio da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Emudecidas, tornaram-se elas próprias, o objeto de suas brincadeiras. Viveram para sempre como se fosse A mesma hora, A mesma hora, A mesma hora&#8230;</p>
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		<title>Sobre abutres e água de alfazema</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Oct 2015 18:02:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Caio não nasceu, rebentou. Era uma criança tão desajeitada que seu pai queria amá-lo, mas não conseguiu. Tudo nele era parvo. Seu ser fazia-se estabanado; tinha ares de estupidez branca, mas não porque fosse limitado ou incapaz. Era por desarvoramento de alma que ele não conseguia pensar com lucidez. Os seus dois únicos fracos sentidos &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/sobreabutreseaguadealfazema/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Sobre abutres e água de alfazema</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever-150x150.jpg" alt="maquina de escrever" width="150" height="150" /></a>Caio não nasceu, rebentou. Era uma criança tão desajeitada que seu pai queria amá-lo, mas não conseguiu. Tudo nele era parvo. Seu ser fazia-se estabanado; tinha ares de estupidez branca, mas não porque fosse limitado ou incapaz. Era por desarvoramento de alma que ele não conseguia pensar com lucidez. Os seus dois únicos fracos sentidos na vida eram comer e dormir. Neste quesito era mais como os gatos, os cachorros, os tigres e os elefantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Selvagem, o pai de Caio havia esperado outro filho; alguém mais pronto, acabado como ele próprio julgava ser. Em sua lógica só o perfeito merecia ser salvo; o torto devia ser deixado aos abutres.</p>
<p style="text-align: justify;">Acontece que na torta vida humana faltam abutres para devorar os tortos, os mal acabados, os nunca nascidos, os carentes de espírito. Na vida humana a lei implacável da sobrevivência dos mais fortes não é um fato consumado. Sempre há um gesto de amor que adota e muda o curso.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1587"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Nesta trágica família, o gesto de amor veio da mãe, torta como Caio.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí que o pai do menino teve que suportar o lento e inexorável crescimento do filho.</p>
<p style="text-align: justify;">Os anos foram passando e a tragédia ia se tornando cada vez mais anunciada à medida que Caio assumia seu corpo adulto. O enlouquecimento frenético estava prestes a se consumar.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos poucos, a verdade, que estalava como brasa, e a proximidade da morte foram impedindo o velho pai de dormir e também de acordar. Seus pensamentos, que não mais mereciam  este nome, passaram a ser barulhos, restos de significado e, portanto, incompreensíveis à sua crueza. Se alguém tivesse lhe dito que seu sofrimento era porque nunca amara o filho torto talvez ainda houvesse salvação. Isso porque o que o enlouquecia não era propriamente a verdade, mas a sua surdez para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o descolamento da alma foi inevitável. Com o tempo, o velho deixou-se de banhar, de comer, de trabalhar, de dormir e de acordar. Tornou-se um sopro, um fiapo de aspecto cavernoso e repugnante. Cada vez mais implacável urrava de dor, de cólera, de espanto. Passou a vagar sozinho pelas ruas. Pegava bichos peçonhentos com os dentes, voava com as bruxas e com os gnomos; apartou-se para sempre da vida civilizada. Sua inteligência explodira e nada pôde fazer por si mesmo. Tornou-se um eterno parêntese.</p>
<p style="text-align: justify;">Caio, o filho torto, assumiu com entrega o cuidado do velho pai, cada vez mais verde e mais louco. No dia de seu último suspiro, o velho chamou a presença do filho. Seu pedido fora também um grito de perdão. O confronto tenebroso com a morte havia finalmente amolecido sua alma de ferro.</p>
<p style="text-align: justify;">Pela primeira vez amado e reconhecido em sua alma limpa e torta pelos olhos do velho pai, Caio, com sua força de touro, carregou o corpo moribundo para debaixo de uma figueira que havia sobrevivido às marcas do tempo. Lá despiu aquele corpo esquelético e transparente, já quase entregue ao fim, e durante três ou quatro horas, limpou-o serenamente com água de alfazema enquanto cantava uma cantiga de ninar.</p>
<p style="text-align: justify;">A tarde em seus tons melancólicos, resplandeceu. O sol foi avisado de que o milagre estava se dando. Ali, aquele menino torto e rebentado, nunca reconhecido, estava dando vida a seu pai. Numa transmutação da natureza, era o filho que gerava o pai pela primeira vez.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois deste ritual límpido, com cheiro de água de alfazema, o velho pai deu seu último suspiro. Não havia perdão em seus lábios. Mas seus olhos, vítimas de um eterno marejado, choraram pela primeira vez. A alma finalmente havia nascido e de seu corpo brotava luz.</p>
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		<title>Felicidade roubada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2015 18:43:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O mar brilhante chamava o menino com seus braços verde-esmeralda. Era manhã de um domingo quente e o menino via o mar pela primeira vez. Fora o avô, seu avô duro e bom, que lhe proporcionara o encontro tão aguardado. Fugidos como duas pequenas lesmas, lá foram eles, como ladrões em busca de um quinhão &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/felicidade-roubada/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Felicidade roubada</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>O mar brilhante chamava o menino com seus braços verde-esmeralda. Era manhã de um domingo quente e o menino via o mar pela primeira vez. Fora o avô, seu avô duro e bom, que lhe proporcionara o encontro tão aguardado. Fugidos como duas pequenas lesmas, lá foram eles, como ladrões em busca de um quinhão de prazer: o avô guiando o caminhão enorme e o menino com seus pequenos olhos transpassando o limite das ferragens, com uma fome que pretendia engolir tudo de uma vez.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegaram e mal o avô teve tempo de estacionar o grande elefante vermelho, o menino zarpara com o coração batendo frenético como tambor. Abrira a porta num relampejar de olhos e, desembestado, correu com suas perninhas finas e um pouco tortas, em direção ao grande deus. No caminho, foi jogando suas roupas sujas, furadas do trabalho duro e precoce, um pouco prejudicado, é verdade, pelas brincadeiras irresistíveis de pneu com o irmão mais novo. Jogou tudo o que era sujo e roto, ficando só de cueca, com seu corpo esquelético de felino em formação.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1395"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O mar o chamava como os braços quentes e úmidos de uma mãe amorosa. Sim, o menino sabia que lá ele poderia jogar seu corpo na imensidão azul, pois a mãe natureza, o mar de ventre infinito, iria acolhê-lo sem medo, sem culpa, sem rechaço. Com sua sensibilidade de lobo, sabia que a água do mar era como um colo quente de mãe. Por isso correu até a exaustão de suas forças, e depois nadou até se exaurir por completo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, seu avô duro e bom permanecia sentado na areia, olhando o neto como uma miragem. Por que não se jogava na água mãe? Talvez tivesse medo de tanta felicidade. Sua alma maltratada ficara com um medo colossal do acalanto. Talvez o avô sentisse que o mar fosse uma mulher traiçoeira que iria engoli-lo inteiro para depois cuspi-lo fora, tão logo ele entregasse docilmente seu corpo velho e enrugado àquele encontro, tão temido e aguardado. Por isso, o avô não ia. Sua cota de prazer era vivida à prestação. Depois, exausto de tanto sol e de tanta luz, o avô deitava seu corpo seminu na areia da praia e se entregava a um sono pacífico, enquanto seu neto agitava-se e gritava desvairadamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, quando a fome os visitava, o avô comprava um saco de pipocas. Retirava orgulhoso o dinheiro amassado de seu bolso roto e pedia ao pipoqueiro: um saco de pipocas, por favor! Seu peito se enchia. Sentia-se em um filme americano que ele via na TV. Estranhamente, ele só comprava um saco de pipocas, embora fossem dois, embora ele tivesse dinheiro, embora a fome fosse muita. E isso era tudo o que eles iriam comer até a viagem de volta.</p>
<p style="text-align: justify;">O menino, com lágrima nos olhos, não entendia aquele gesto de amor que lhe parecia um pouco duro demais. O avô lhe explicava, com voz que tentava ser doce, que a vida era dura, menino, e que ele teria que conquistar as coisas por si mesmo. O menino assentia com a cabeça, em tom grave, demonstrando que havia compreendido a sábia lição. Apesar disso, sentia seu coração apertar-se. O aperto era consequência de uma luta selvagem gerada por sentimentos tão opostos. Aridez e doçura pareciam irreconciliáveis. Logo em seguida, perdoava o avô. Lembrava-se de sua quase morte, de sua alma de leão encarniçado na luta pela sobrevivência, dos anos miseráveis passados no navio, da fome, do frio abissal, da selvageria que é a vida. Depois do perdão comia, sentado no banco do caminhão e embalado pelos braços do avô, a deliciosa pipoca que parecia mais doce e mais tenra do que todas as pipocas do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">O dia estava indo embora. O crepúsculo se aproximava tingindo o céu de um alaranjado que deixava tudo triste. O avô, agora mais duro que bom, chamava o menino com voz de touro e dizia que era hora de partir. As lágrimas vinham mais uma vez, agora em tom de despedida-despedaçada.</p>
<p style="text-align: justify;">O elefante vermelho era posto a roncar os seus motores e partia, levando dentro o menino e o seu avô, calados, ambos querendo segurar o mais que pudessem aquele mar imenso no peito. E o mar, com seus braços de mãe, ia ficando para trás como uma promessa longínqua de um sonho bom.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>O homem que prendia pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2015 08:30:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cena era brutal: pássaros que nasceram livres, lindos e coloridos, debatendo-se violentamente contra as grades da prisão. Aqueles pequenos pingos de milagre no meio do dia debatiam-se com tanta força e intensidade que de suas asas brilhantes o sangue já começava a verter; feridas fundas iam se formando por suas batidas frenéticas. A violência &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-homem-que-prendia-passaros/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O homem que prendia pássaros</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A cena era brutal: pássaros que nasceram livres, lindos e coloridos, debatendo-se violentamente contra as grades da prisão. Aqueles pequenos pingos de milagre no meio do dia debatiam-se com tanta força e intensidade que de suas asas brilhantes o sangue já começava a verter; feridas fundas iam se formando por suas batidas frenéticas. A violência havia se imposto e os seres miraculosos nada podiam fazer contra ela. Estavam presos, vítimas da brutalidade. Marina e Pedro avistaram a cena horripilante soltando um grito surdo de horror.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina, frágil demais para suportar tamanha dor, sentiu seus olhos inundarem. Queria segurar a inundação que deixava sua alma exposta, mas não podia. Era translúcida demais.</p>
<p>Pedro, mais vigoroso de alma, pôs-se imediatamente a matutar como usaria sua força de leão para salvar os pingos de vida. Marina teve medo por seu amado, pois pensou que ele teria que ser tão robusto e vigoroso quanto às grandes gotas de chuva que lavam a poeira do horizonte, tornando-o límpido e fresco.</p>
<p><span id="more-1387"></span></p>
<p>Animados um pela força do outro – Pedro, pelas lágrimas da dor criadeira dos olhos castanhos de Marina e ela, pela coragem de seu amante-amado – puseram-se a caminhar como dois valentes guerreiros que não se importariam em dar a vida pela vida. Caminhando em passos firmes, avistaram o responsável pelo crime atroz.</p>
<p style="text-align: justify;">A bocarra do homem era infernal. De seus olhos vertia sangue. Marina olhava estupefata a cena. Não conseguia tirar seus olhos do sangue nos olhos do homem. De sua boca vertia um veneno fétido e viscoso. O clima era tenso e explosivo. Alguém iria morrer ali, era o que Marina silenciosamente pensava. Ou quem sabe a morte já tivesse sido realizada tempos atrás e Pedro, com seu ar majestoso, estivesse tão somente trazendo a verdade à luz? Marina lembrou-se dos vampiros e teve febre de medo.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de instantes aterradores de silêncio denso, Pedro deu o primeiro passo:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>      &#8211; Por que você prendeu os lindos pássaros?</em></p>
<p style="text-align: justify;">O homem, como uma enguia, fez-se de desentendido.</p>
<p>Mais enfático, Pedro continuou:</p>
<p><em>     &#8211; Você não sabia que prender pássaros que nasceram livres é um crime? Por que os prendeu?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Marina, pálida, percebeu que olhos sanguinários do homem pareciam prestes a explodir de cólera. Nesta luta ferrenha entre a explosão e o contorcer da enguia, venceu a segunda. O homem começou a se contorcer freneticamente fazendo um movimento convulso pra frente e pra trás. Seus olhos, antes prestes a explodir, ganharam um ar de aparente submissão, enquanto o seu corpo todo se contorcia, liso, invertebrado e pegajoso. Marina pensou que talvez ele quisesse deixar Pedro confuso com este ziguezaguear de corpo que adquiria um ar de fragilidade artificial. Sua voz tornou-se mais melodiosa como uma sereia encantatória. Mas Pedro, que era valente de alma, não se deixou seduzir.</p>
<p style="text-align: justify;">      <em>&#8211; Fale, homem. Pare de se contorcer como uma lesma. Por que prendeu aqueles lindos pássaros? Eu vou soltá-los agora. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Com uma voz patética, o homem respondeu:</p>
<p><em>     &#8211; Eu não fiz nada demais, senhor! Eles cabem lá dentro. O que eu fiz não é ilegal, eu juro. </em></p>
<p>Pedro respondeu, retumbante:</p>
<p><em>     &#8211; Mas você também cabe lá dentro. E se fosse você a ser colocado na prisão?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Marina não podia acreditar no que estava ouvindo. O que mais doía em Marina não era propriamente os pássaros presos – isso ela sabia que iria resolver o mais breve possível com seu querido Pedro. O que mais lhe doía era a queda na mentira, o ziguezaguear da enguia, as seduções do falsear do pensamento que levam a caminhos terrivelmente perigosos e sem volta. Em um átimo de luz, então, Marina pôde compreender que o sangue nos olhos do homem era dele mesmo. Era ele que estava preso para sempre em seu ser invertebrado. E era por estar preso que prendia os lindos pássaros. A vida, para aquele homem, não valia mais nada. Deste seu vislumbre, sentiu alguma compaixão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como para o mal não há perdão (embora para o homem que o pratica sim, pois no final são como crianças), Marina e Pedro tinham pressa em salvarem os lindos pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixaram o homem-enguia contorcendo-se como um pobre diabo para trás e rumaram resolutos à prisão de pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram as mãos pequenas e frágeis de Marina que abriram as grades. Talvez Pedro sentisse que eram as mãos da infância que deveriam ajudar nascer liberdades. E então, os dois se colocaram sob o lindo sol crepuscular, debaixo de uma grande figueira para assistem ao espetáculo sublime da redenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Um a um, os pássaros brilhantes redescobriram o prazer de baterem suas asas potentes e fortes em pleno ar. Um a um, deixaram para trás a prisão que mata a vida. Um a um, como pequenos pontos de milagre no meio da tarde, conquistaram a liberdade do voo e foram para bem longe do homem de sangue nos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina chorou novamente, mas agora de alegria sublime. Seu frágil peito doía de tanta felicidade, de tanto orgulho, de tanta vida. Em tom de oração, Marina rezou e pediu ao deus-natureza que ajudasse estes pequenos pássaros a não mais voltarem para nenhum tipo de prisão, para nenhum tipo de homem de sangue nos olhos. Pensou também, como um suspiro, que a vida é frágil e milagrosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois, agarrou as mãos firmes do seu jovem Pedro e partiu feliz, como bebê recém-amamentado de amor.</p>
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		<title>Rito selvagem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2015 08:30:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ela caminhava em direção ao mar sem saber o que a movia. Alguém que a visse naquela tarde chuvosa, com seus cabelos ensebados teria pena. Mas não era pena o que ela queria do mundo. O que ela queria era sentir horror e a única forma de chegar a isso era se tornar um ser &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/rito-selvagem/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Rito selvagem</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/rito-selvagem/">Rito selvagem</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Ela caminhava em direção ao mar sem saber o que a movia. Alguém que a visse naquela tarde chuvosa, com seus cabelos ensebados teria pena.</p>
<p>Mas não era pena o que ela queria do mundo. O que ela queria era sentir horror e a única forma de chegar a isso era se tornar um ser medonho de unhas sujas e verdes.</p>
<p>O mar também a lembrava de seu próprio pai que morrera anos antes, um exímio nadador, mais peixe que humano.</p>
<p><span id="more-1385"></span></p>
<p>Tomada por um gesto inconsciente, ela caminhava em direção a ele. Queria se lembrar de quem nunca havia se esquecido.</p>
<p>Em um átimo de pensamento, ela dissera a si mesma que só se pode esquecer aquilo que se guarda bem dentro.</p>
<p>Animada por este pensamento promissor a respeito da sua própria situação, que a princípio parecia catastrófica, ela ganhou novas forças e começou a correr.</p>
<p>Tinha pressa de ir ao infinito das águas. Não. Não é que ela quisesse morrer. O que ela queria era morrer naquilo que ela vinha sendo para renascer outra, de alma expandida, brilhante e morna como uma linda tarde de sol.</p>
<p>Ela amava incondicionalmente a vida e por isso pensava tanto na morte. Para ela, de um jeito difícil de explicar, a morte vinha antes da vida; a vida era uma morte sendo, só que de uma forma bem lenta e bem cálida. Tão lenta e tão cálida que quem fosse corajoso o suficiente poderia vislumbrar todo o milagre do mundo sendo carregado pelas patas frágeis de uma borboleta.</p>
<p>Ela estava atenta para isso e ao contrário de seu pai, que brutalizara o processo, ela queria deixar-se ir. Ser capaz de enxergar tanta beleza e tanta dor.</p>
<p>Depois de correr com suas pernas frágeis, ela finalmente atingira o mar. Sentia seus pés imergirem na água gelada e viscosa. Depois seus joelhos, sua cintura, seus seios, seus braços, seus cabelos ensebados, seus olhos marejados, seu crânio.</p>
<p>Pronto.</p>
<p>Agora ela estava imersa na água viscosa. Era útero mais uma vez. Tudo ali era silencioso e eterno.</p>
<p>Depois, era preciso fazer o caminho de volta, mas ela não queria. Queria ficar ali naquele limbo do não tempo ainda um pouco mais; prolongar aquele estado de não ser o mais que pudesse.</p>
<p>Mas não teve forças. Era humana. Não peixe. Não sabia respirar em baixo da água. Lá, naquele sinistro abissal ela não poderia estar por muito tempo; não sem correr o risco de se esquecer, para sempre, do caminho de volta.</p>
<p>E foi então que, pacificada consigo mesma, ela decidiu retornar. Voltou cautelosamente para fora do útero, num nascimento ao contrário. Primeiro o crânio ainda um pouco tonto, os ouvidos, a boca, o pescoço, as mãos, os braços frágeis e seu ventre que nunca poderia parir exceto a si mesma.</p>
<p>Agora ela estava toda fora, toda exposta. Era invólucro pronto a ser preenchido novamente de luz.</p>
<p>E neste estado emancipado, renascido de si mesma, deitou-se exausta do processo na areia úmida da praia, fechou seus olhos e deixou-se secar ao sol.</p>
<p>Neste ritual primitivo, sonhou.</p>
<p>Pela primeira vez na vida, sonhou com o seu pai.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Os irmãos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2015 08:30:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[irmãos]]></category>
		<category><![CDATA[texto literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Flávio e Pedro eram irmãos gêmeos. Disputaram desde sempre o mesmo ventre, o mesmo espaço, o mesmo amor. Nascidos, a mãe chegava a confundi-los de tão iguais que eram, exceto pelo gênio. É que Flávio era mais parecido com a mãe, segundo seus próprios dizeres e por conta disso ela o amava mais que ao &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-irmaos/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Os irmãos</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-irmaos/">Os irmãos</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Flávio e Pedro eram irmãos gêmeos. Disputaram desde sempre o mesmo ventre, o mesmo espaço, o mesmo amor. Nascidos, a mãe chegava a confundi-los de tão iguais que eram, exceto pelo gênio. É que Flávio era mais parecido com a mãe, segundo seus próprios dizeres e por conta disso ela o amava mais que ao outro. Apesar de tal realidade evidente, isso nunca lhe chegou à consciência:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Imagina amar um filho mais que outro? Que pecado!</em></p>
<p style="text-align: justify;">Já crescidos, ambos ingressaram na Universidade. E, como o destino não deixa por menos, o inevitável aconteceu. Flávio e Pedro apaixonaram-se pela mesma moça: a linda Dulcinéia.</p>
<p>&#8211; <em>Adivinha quem ela escolheu?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; O Flávio. Óbvio! Ou você acha que o destino brinca em serviço?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Pedro, enlouquecido de tanta dor, não aguentou este golpe. Ao saber da escolha de Dulcinéia, esbofeteou a cara do irmão, quebrou-lhe o nariz e desapareceu para sempre em sua dor insana. Nunca mais se soube dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1376"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ao ficar sabendo do sumiço do filho, a mãe, tentando disfarçar para si mesma o alívio secreto que invadia seu peito, disse:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Coitado do Pedrinho. Sempre foi meio esquisito. Nunca entendi por que!</em></p>
<p style="text-align: justify;">Depois do sumiço do irmão, Flávio e sua mãe foram seguindo como Deus queria. Flávio casou-se com a linda Dulcinéia em parte para evitar a matriarca, cada vez mais cinza e embruxada.</p>
<p style="text-align: justify;">Sozinha em sua casa cinza, Joana foi enlouquecendo, mas era um enlouquecer difícil de ser detectado. Até a sua loucura era sorrateira, pouco honesta.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada vez mais sozinha e velha, nem morrer ela conseguia. Era arrogante demais para isso.</p>
<p style="text-align: justify;">A casa em que ela morava, caso fosse uma pessoa, pareceria uma espécie de criatura horrenda com olhos escorrendo, não se sabe se de lágrimas a quem se negou a liberdade de se deixarem chorar, ou de susto por ter que abrigar alguém de alma tão embruxada.</p>
<p style="text-align: justify;">Anos mais tarde, já bastante enlouquecida, eis que Joana tem uma visão, não se sabe se advinda de sua consciência um pouco aplacada pelo tempo ou de uma espécie de assombração saída do quinto dos infernos.</p>
<p style="text-align: justify;">Era o seu filho Pedro que retornava para casa. Seu corpo espectral estava terrivelmente branco e de sua cabeça via-se um enorme furo de onde saía uma fumaça constante e eterna.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Quem é você? </em>Joana pergunta já sabendo a resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não se lembra? Sou eu, Pedro, seu filho odiado. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; E o que faz aqui?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Vim buscar-te.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Para onde? </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Para lá de onde você nunca saiu.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Depois de dizer esta última frase, em tom filosófico e profético, Pedro soltou uma risada sinistra, daquelas de arrepiar a espinha. Depois, enganchou seus braços metálicos nos braços gordos de sua mãe, cena que lembrava um casal em marcha fúnebre. Os olhos de Joana se fecharam, pela primeira vez, em tom de leve submissão e ela então <span style="line-height: 1.5;">se deixou ir. Impossível saber o que motivou este leve e tímido f</span><span style="line-height: 1.5;">echar de pálpebras: a percepção aguda da tragédia ou o frenesi por estar se casando sob os auspícios do ódio. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> O fato é que nunca mais se soube dela. A casa permanece fechada até hoje condenada a um choro eterno que nunca foi chorado. As boas línguas dizem que é mal assombrada.</p>
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