Viajar para mim não é só conhecer lugares e tirar belas fotos. É enxergar as coisas por outras perspectivas, conhecer pesssoas e outras formas de viver e desenvolver recursos para lidar com os imprevistos que uma viagem traz.
Desta vez, fizemos uma aventura radical. Rodamos quase mil quilômetros de carro pelos Estados de Goiás e Mato Grosso, saindo de Ribeirão Preto, rumo à Serra do Roncador. Foi a primeira vez que fizemos uma viagem tão longa de carro, por estados que nos eram completamente desconhecidos.
Foi impressionante para mim o quão rápido e drasticamente a paisagem mudou assim que cruzamos a divisa entre SP e Goiás.
Trata-se de uma região inóspita, árida, completamente devastada e pouquíssimo habitada na qual rodávamos duzentos, trezentos quilômetros só avistando plantações de soja, milho e sorgo
E muitos, muitos caminhões, já que fomos na época da “safrinha” que, segundo me explicou um paciente, é o período pós-chuva no qual planta-se milho modificado, antes da estiagem total, visando um melhor aproveitamento da terra.
A música tipo “modão”
Compreendi melhor viajando por Goiás o sentido profundo da música sertaneja tipo “sofrência”, também conhecida como modão, que os goianos tanto gostam. Seu tom lamentoso, que retrata sentimentos de perdas amorosas vividas no passado, é exatamente o tom melancólico e triste que me invadiu dirigindo por aquelas estradas.
Fiquei sabendo depois que a região atrai muitos rapazes do Sul, que partem para lá em busca de trabalharem nas colheitas e quem sabe, terem novas perspectivas de vida. Plano ilusório, pois a enorme riqueza dos grãos que lá existem certamente não será para eles.
Ou seja, os sentimentos de solidão e desolação contidos nas músicas tipo “sofrência”, deve ser parte da realidade diária de todos estes homens jovens que trabalham nestes grandes campos quentes, perigosos e áridos, que precisam se aliviar de alguma forma nos braços de uma mulher. Não fiquei sabendo sobre isso se há muita prostituição e alcoolismo na região, mas eu presumo que sim.
Por causa disso, a viagem de ida foi um pouco opressiva para mim, sentimento que perdurou até eu poder compreender que tal angústia se devia à paisagem desoladora na qual estava.
Animais atropelados
Outra coisa que me entristeceu foi a quantidade de animais silvestres (emas, antas, tamanduás) atropelados à beira das rodovias, o que torna a rodagem por aquelas estradas isoladas de tudo, muito perigosa de ser feita à noite.
As cidades também são absurdamente espalhadas entre si e giram basicamente em torno do agronegócio. A presença de grandes maquinários transitando pelas ruas das cidades, tais como tratores e colheitadeiras, em meio a uma poeira constante, transmite um ar distópico que não tinha visto em outras cidades que conheci do Brasil.
Os caronistas
Sobre isso, na ida nos perdemos por algumas estradas de terra e acabamos dando carona para dois irmãos, que não deviam ter mais do que dezoito e quinze anos, o mais velho trabalhando no momento na colheita da “safrinha”.
Este nos contou dos inúmeros acidentes fatais que ocorrem praticamente toda semana, sobretudo nas colheitadeiras de cana, nas quais ele evita trabalhar.
Nenhum deles ia à escola e o mais velho vinha incentivando o mais novo à trabalhar nas safras como ele, o que parecia não empolgá-lo muito. Ou seja, as perspectivas de futuro destes garotos são quase nulas.
Chegando ao nosso destino, Barra do Garças, notei a presença de muitos indígenas na cidade, o que se deve à proximidade da cidade com a reserva indígena do Xingu.
O borracheiro
Certo dia, nosso pneu furou e, no borracheiro, conhecemos um homem da prefeitura e dois indígenas enfermeiros que estavam indo ao Xingu levar medicamentos à população indígena que permanece isolada lá. Confesso que fiquei com vontade de ir com eles. Os indígenas moradores de Barra do Garças que vi já estão totalmente integrados ao lugar e só pude notá-los por seus traços físicos típicos.
Bolha de desenvolvimento
Voltei desta experiência envergonhada por viver na bolha de desenvolvimento que é o Estado de São Paulo, e não conhecer, de fato, o Brasil profundo.
Perturbei-me também com o pensamento de que, às vésperas das eleições, é quase risível considerar que o povo vota por princípios democráticos, e não por políticos que lhes prometem alguma melhora real em suas vidas tão sofridas.
Sobre isso, um dos borracheiros disse-me que achava um absurdo o governo mandar remédios de graça para os índios, enquanto ele tinha que comprá-los para os filhos. Não tive coragem de discordar, pois apesar de eu ser instruída historicamente sobre enorme dívida histórica que o país tem com a população indígena, ele também tem razão, no sentido de que a imensa maioria de brasileiros é tão desgraçada quanto os nossos indíos.
Como era o caso dele, comendo poeira todos os dias e trabalhando num sol escandaldante de 42 graus.
O que ele não sabe é que populações inteiras de índios, crianças, mulheres e idosos, sobretudo do povo Panará, foram completamente dizimadas com a construção da estrada Cuiabá-Santarém, iniciada em 1971 como parte do Plano de Integração Nacional do governo militar da ocasião, estrada que até hoje não acabou de ser finalizada.
Além da derrubada de quilômetros e quilômetros da Floresta Amazônica.
Oásis
Contrapondo-se a este cenário distópico e empoeirado da cidade de Barra do Garças, a cada dia, depois de caminharmos por quilômetros em trilhas, em meio à campos de transição entre o cerrado e a mata amazônica, entre rochas areníticas milenares, chegávamos a verdadeiros oásis.
Era rios e mais rios, cachoeiras e mais cachoeiras de águas verdes e azuis turquesa, além de cânios espetaculares. Também vimos muitas veredas que são pontos de água cercados por buritizais, onde os animais vão beber água e se banhar. Foi impossível não me lembrar do meu amado Guimarães Rosa.
Conhecemos também um lugar mágico: um Santuário de araras vermelhas construído em meio a um paredão rochoso monumental, de onde brotava uma nascente de água que formava um grande poço de águas azuis cristalinas. Eu e meu marido não tivemos coragem de nos banhar no Santuário, pois entendemos que isso seria como devassar um lugar sagrado.
Nosso estado de contemplação silenciosa diante de tanta beleza foi tão impactante que ficamos, os dois ali, em silêncio, por quase duas horas.
Debandada das araras
Fiquei triste porque o guia nos contou que, com o número cada vez maior de turistas visitando o lugar, dos trinta casais de araras que moravam lá antigamente, agora só restam sete deles. O guia me explicou que, em sua visão, o número de visitantes diários deveria ser limitado, mas que o dono da fazenda que abriga o santuário, não via razão para isso.
Esta pouca consciência ambiental é em parte compreensível já que o turismo ecológico é bastante recente na região de Barra do Garças, tendo apenas seis ou sete anos. O que, espera-se, melhore com o tempo.
De todo modo, ao mergulhar nestas águas lindas pude lavar minha alma da rotina fatigante e me encher de profunda beleza, coisas sem as quais a vida, para mim, ficaria absolutamente intragável.
Pretendíamos ir à Goiás Velho conhecer o Museu da Cora Coralina, mas estávamos exaustos e tão cheios de impressões desta viagem rica, que decidimos voltar antes. Mas certamente voltaremos à região, que me encantou por suas contradições desconcertantes.
