Uma breve reflexão sobre o Dia dos Pais

Eu sou de uma geração na qual os pais não participavam em nada da criação dos filhos, o que cabia exclusivamente às mães. Assim, na minha casa cabia ao meu pai trazer o sustento material da família e à minha mãe, cuidar da casa, de mim e do meu irmão. 

Inclusive quando eu nasci, meu pai fez com que minha mãe deixasse um ótimo emprego que ela tinha na ocasião, para cuidar de mim. Ou seja, era inconcebível para um homem tradicional como ele que sua mulher trabalhasse fora de casa e deixasse sua filha com outra pessoa. 

Lembro-me sobre isso que, quando ele chegava do trabalho, todos tínhamos que ficar quietos para que ele pudesse ver TV e descansar. Também me lembro de que era minha mãe quem tinha que servi-lo à mesa. 

Por outro lado, aos finais de semana ele sempre nos levava para passear de carro em algum lugar, e eu adorava. Também nos levava a todos, a mim, meu irmão e meus primos, de vez em quando, na carroceria de um caminhão que ele tinha, até a praia. Não devia ser nada seguro, mas era divertidíssimo. 

Em suma, tenho boas memórias de quando eu era pequena com meu pai, mas são muito poucas, pois o que predominou até bem pouco tempo atrás no nosso vínculo foram os sentimentos de medo, respeito e uma sensação clara de que minha mãe sempre esteve muito sozinha para nos criar, nos levando aos médicos, dentistas e às reuniões escolares. 

Este modelo tradicional de paternidade felizmente vem se alterando, mas tais mudanças ainda fazem parte somente de uma pequena bolha. Estima-se sobre isso que, das 72 milhões de famílias brasileiras com filhos, de 12 e a 18 milhões delas, segundo o último censo do IBGE, ainda contam só com as mães na criação dos filhos. 

Reflito sobre isso o quanto meu pai perdeu em termos de experiências com os filhos, assim como nós com ele, por causa dessa cultura machista e canhestra de que cabe somente à mãe lidar com as crianças.  

Nunca soube avaliar muito bem, em relação a ele, o quanto isso se deu por preguiça, porque simplesmente nunca teve vontade de ser pai e por conservadorismo. Talvez um pouco de tudo. 

Sobre a falta da vontade dele de ser pai, ele próprio já me disse isso algumas vezes, o que compreendi ser uma posição ética sua, já que, na sua perspectiva “seres humanos, quando colocados neste mundo, sofrem muito”.  Além do que meu pai tem uma alma aventureira, e devia se sentir muito frustrado, preso para sempre às obrigações chatérrimas de uma família.  

Sobre tudo isso, nem meu pai nem minha mãe puderam conversar quando se casaram – se queriam filhos ou não; e que planos tinham para suas vidas – coisas sobre as quais hoje, felizmente, os casais conversam muito mais.  

Mas, nada disso me torna infeliz na data do Dia dos Pais.

Olho com alegria e encanto as crianças que hoje têm a sorte de poderem ter suas fraldas trocadas pelos pais, banhadas, penteadas e alimentadas por eles; levadas por eles à escola, aos médicos e à natação. São muito sortudas e certamente se tornarão adultos muito mais seguros e enraizados do que eu, já que a figura paterna é essencial nisso. 

E mesmo assim, apesar de toda a falta que senti da sua presença e segurança, sinto uma enorme gratidão por meu pai ter me ensinado uma das lições mais importantes de se aprender nesta vida.

A de que não existe felicidade absoluta em nenhum ser humano que tenha existido, exista ou vá existir sobre este planeta, pois a falta e a carência são condições intrínsecas à nós. Condições às quais nós ainda não aprendemos a prestar a devida atenção. 

Dedico, pois, este Dia dos Pais ao meu tortuoso e esquisito pai, de quem herdei tantas esquisites:        

“As coisas acontecem como acontecem, mais tortuosas e sinuosas do que sempre poderiam ter sido. Encontramo-nos em condições que não são, de fato, as mais adequadas e, a partir destas lacunas, começamos a existir”.  (Liza Ginzburg)

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