Uma breve reflexão sobre o Dia dos Pais

Eu sou de uma geração na qual os pais não participavam em nada da criação dos filhos, o que cabia exclusivamente às mães. Assim, na minha casa cabia ao meu pai trazer o sustento material da família e à minha mãe, cuidar da casa, de mim e do meu irmão. 

Inclusive quando eu nasci, meu pai fez com que minha mãe deixasse um ótimo emprego que ela tinha na ocasião, para cuidar de mim. Pois era inconcebível para um homem tradicional como ele, criado para ser o provedor, que sua mulher trabalhasse fora e o ajudasse no sustento da família.

Por outro lado, aos finais de semana ele sempre nos levava para passear de carro em algum lugar, e eu adorava. Também nos levava a todos, a mim, meu irmão e meus primos, de vez em quando, na carroceria de um caminhão que ele tinha, até a praia. Não devia ser nada seguro, mas era divertidíssimo!

Em suma, tenho boas memórias com meu pai de quando eu era pequena, mas são poucas, pois o que predominou entre nós durante muitos anos foi o distanciamento afetivo, que para minha enorme alegria, tem sido reduzido nos últimos anos, por uma troca muito rica, afetiva, profunda e respeitosa entre nós.

Tal distanciamento afetivo, medo e respeito excessivo são as consequências diretas deste modelo tradicional de paternidade no qual eu cresci, já que cabe ao pai prover materialmente a família, mas não se envolver emocionalmente com os filhos, o que deixa um enorme buraco afetivo neles.

Mudanças no modelo de parentalidade

Felizmente este modelo tradicional de paternidade vem se alterando, embora não para todos. Estima-se sobre isso que, das 72 milhões de famílias brasileiras com filhos, de 12 e a 18 milhões delas, segundo o último censo do IBGE, ainda são geridas unicamente pelas mães, sendo os pais omissos ou simplesmente inexistentes em sua função.  

Na minha clínica, ainda noto muito sofrimento psíquico nas pessoas pela falta do pai.

Nesse aspecto, desidealizar estas datas festivas e compreender que toda relação familiar traz impasses e algum tipo de sofrimento, que as pessoas costumas esconder, é imprescindível para não se sentir a pessoa mais infeliz e desgraçada do mundo em datas como esta.

De minha parte, olho com alegria e encanto as crianças que hoje têm a sorte de poderem ter suas fraldas trocadas pelos pais, banhadas, penteadas e alimentadas por eles; levadas por eles à escola, aos médicos e à natação. São muito sortudas e certamente se tornarão adultos muito mais seguros e enraizados no futuro, já que a figura paterna é essencial nisso. 

De outro lado, penso que elas são muito menos livres do que as crianças da minha geração, dos anos 80 e 90, foram, já que cada época tem seus prós e contras.

E no meu caso, apesar de ter sentido muita falta da sensação de segurança de ter um pai por perto para me socorrer no que fosse preciso, sinto também uma enorme gratidão por ele ter me transmitido seus valores humanos essenciais.

Transmissão paterna que é sempre muito misteriosa, e que Freud aponta ter a ver com um certo Ideal que o pai sempre representa e representará para seus filhos.

 

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