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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Wed, 11 Dec 2024 11:32:50 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2024 18:50:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo faz reflexões sobre a sociedade brasileira, marcada por privilégios materiais e simbólicos, a partir do filme Ainda estou aqui. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-ainda-estou-aqui/">Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Ainda-estou-aqui-5.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3006" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Ainda-estou-aqui-5.jpg" alt="" width="250" height="156" /></a>O filme <em>Ainda estou aqui</em>, dirigido por Walter Salles, me tocou de um jeito inesperado.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais identificada à empregada doméstica Zezé do que à Eunice ou suas filhas, lembrei-me das inúmeras vezes em que senti, tal como Raskólnikov, inveja das minhas colegas que tinham famílias cultas, politizadas e unidas como a de Rubens, Eunice e seus filhos, e que pude conhecer nos meus únicos dois anos de colégio privado, e, depois, na USP.   </span></p>
<p><span id="more-3003"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não tive a sorte de pertencer a uma. Assim como milhões de brasileiros, nasci de pais pobres, pouco escolarizados e despolitizados que, na época da ditadura, lutavam com outros monstros: alcoolismo, falta de perspectiva e violência sexual e doméstica.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso acho graça quando alguém politizado fica bravo com a indiferença e alienação do povo em relação à sua história. Pois, na classe de onde eu vim, é do padre e não do político que vem o amparo diário. O que me faz lamentar profundamente o fim da teologia da libertação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na minha segunda análise, minha analista, que veio de uma família culta e letrada, como, aliás, quase todos os psicanalistas, demorou muitos anos para compreender que o ódio que me corroria o espírito não era vergonha das minhas origens. E sim revolta por não ter tido as mesmas oportunidades que os bem nascidos, de estudar em bons colégios, cursar outras línguas e conhecer o exterior.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, minha vontade insana de fugir da falta de perspectivas da minha classe, foi tanta que consegui, estudando feito um cão, passar na USP.  O que só consegui porque, por sorte, nasci inteligente e sistemática como um relógio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como uma trânsfuga de classe (termo que ouvi do escritor Edouard Louis), carrego marcas até hoje. Por exemplo, semana retrasada consegui comprar minha primeira passagem aérea ao exterior e fiquei duas noites sem dormir, vítima de uma ansiedade terrível. </span></p>
<h3><b>Modos de ser que vêm da classe</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao filme, a postura sóbria, discreta e pragmática com que Eunice enfrenta o drama do desaparecimento do marido, também é fruto de um modo de ser da classe a qual estas pessoas pertencem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, pertencer aos Paiva, aos Arraes, ou casar-se com um, significa, no Brasil, integrar famílias tradicionais de longa linhagem aristocrática, com grande influência política e alto capital simbólico, educados nos melhores modos e na ilustração. Sendo estas as pessoas que compõem hoje o que chamamos de elite pensante brasileira, grande parte dela representantes da esquerda (ou do que restou dela).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, são pessoas que, ao contrário de mim, carregam um inabalável senso de autoestima e uma noção clara de seus direitos, devido ao fato de serem quem são. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, vendo a postura estóica de Eunice, foi inevitável não compará-la à minha mãe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há dez anos, seu companheiro morreu misteriosamente na prisão sem ela nunca ter sabido a causa, e nunca lhe passou pela cabeça, como fez Eunice, lutar pelos seus direitos de viúva, pois para ela, seus únicos direitos na vida são resignar-se e apegar-se à Deus. </span></p>
<p>Assim, do que ocorrem nas prisões brasileiras conclui que, no Brasil, a ditadura, entendida como uso indevido da violência pelo Estado sem quaisquer garantias de direitos para o lado mais fraco, nunca terminou, com a diferença de que hoje ela só atinge os mais pobres.</p>
<h3>Quartinho de empregada</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Já do quartinho de empregada da Zezé, lembrei-me das inúmeras vezes em que eu, minha mãe e meu irmão tivemos que dormir no “puxadinho” do apartamento de praia da minha rica tia avó. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nestas ocasiões, para “pagar” a estadia, minha mãe trabalhava feito louca, servindo e carregando sacolas de compras, como se fosse uma empregada. Destas lembranças amargas, herdei minha jura de nunca mais me humilhar em troca de férias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma, invejando o modo terno com que Eunice tratava seus filhos, mas sobretudo Vera, a filha mais velha à quem ela empresta um casaco para ir à Londres, pensei que minha mãe nunca pôde nos tratar assim porque a falta de perspectiva em sua vida brutalizou-lhe o espírito, tornando-a uma mãe impaciente e dura. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma que o lugar de onde eu vim me roubou a chance de me relacionar com meu único irmão, pois ele nunca me perdoou por eu ter escapado e ele não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, tive a impressão de que aqueles homens horríveis, assassinos, brutos, sujos e esfaimados que ficaram na casa de Eunice enquanto seu marido era levado para a morte, não queriam sair daquela família, onde o clima era íntegro, respeitoso e bom, ambiente provavelmente muito diferente das famílias das quais vieram.   </span></p>
<h3>Considerações finais</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, este filme me fez refletir que enquanto a elite pensante brasileira não conhecer, de fato, os problemas reais enfrentados pelos pobres; e, enquanto os próprios pobres não forem capazes de refletir e produzir saberes sobre si mesmos, temas “chiques” como ditadura e democracia continuarão a ser assunto só de acadêmicos e jornalistas.</span></p>
<p>O problema, sobre o último ponto é que, pelo menos foi assim comigo, demora-se muito para conseguir entender o que está errado na sua situação. E nem posso imaginar como é ainda mais difícil para os pobres negros e homossexuais.</p>
<p>Por exemplo, demorei muitos anos para conseguir formular que miséria não tem só a ver com falta de comida na mesa, mas com se ter nascido em um bairro onde só há igrejas, bares, drogrados e meninas grávidas, por exemplo.</p>
<p>Outro ponto que podemos aprender com a postura corajosa e extrordinária de Eunice é que dificuldades e tragédias nunca faltarão nessa vida, independende da classe social que se venha, cabendo a cada um escolher entre a pena de si mesmo ou a transformação amorosa do mundo.</p>
<p>Transformação que depende, sobretudo, como disse lindamente certa vez a escritora francesa Marguerite Yourcenar, da capacidade interna de &#8220;<em>cada um de ser capaz de lançar, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre si&#8221;</em>.</p>
<p>Assim como fez Sérgio. Um homem bom que morreu simplesmente por levar cartas de entes desaparecidos à famílias desesperadas. E que de subversivo não tinha nada.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-ainda-estou-aqui/">Reflexões sobre o filme Ainda estou aqui</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Comentários sobre o filme A Filha Perdida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Mar 2022 22:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[A Filha Perdida]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo tece comentários, a partir da visão da psicanalista, sobre o filme A Filha Perdida</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-2495" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-150x150.jpg" alt="Filme A Filha Perdida" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-120x120.jpg 120w" sizes="(max-width: 150px) 100vw, 150px" />Numa das primeiras cenas do filme, a luz do farol que ilumina o apartamento remete à iluminação de verdades que se preferiria manter no escuro, por seu caráter demasiado perturbador. </span></p>
<p><span id="more-2494"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro e mais perturbador aspecto iluminado é que filhos dão menos satisfação aos pais do que se costuma admitir, sendo a maternidade / paternidade  mais um ato de doação que de prazer. Embora &#8220;dar prazer e &#8220;alegrar&#8221; sejam papeis frequentes atribuído às crianças em nossa cultura.      </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, Leda e Nina representam mulheres que não conseguiram corresponder ao que se espera delas, seja por se sentirem demandadas além do suportável ou por estarem terrivelmente sós para exercerem esta difícil função, já que nem Leda nem Nina contavam com os parceiros.  </span></p>
<h4>Satisfação com a maternidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso significa dizer que o grau de satisfação com a maternidade / paternidade depende da conjunção benéfica de fatores psíquicos e sociais, tornando-as uma responsabilidade coletiva, além de individual. Pois, é cruel deixar uma pessoa sozinha lidar com os duros encargos de uma criança.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As dificuldades de Leda com a maternidade levam-na à abandonar as filhas  por três anos, enquanto Nina sente-se deprimida e exausta com as demandas da pequena filha Elena e pelas intrusões constantes de sua família inadequada. </span></p>
<p>Ainda, no caso de Leda, deixar as filhas aos cuidados do companheiro até então ausente foi uma forma de forçá-lo a se envolver com elas, levando-o a experimentar na marra o que é cuidar 24 horas por dia dos filhos.</p>
<h4>Natureza tirânica de alguns filhos</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto perturbador iluminado no filme é a natureza tirânica e pulsional das crianças contraposta ao lugar imaginário adocicado que elas ocupam na cultura.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bianca, filha mais velha de Leda, comporta-se de modo arrogante e por vezes cruel. Exige da mãe, sem perceber ser ela a filha.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma cena dramática, Leda está exausta deitada no chão e Bianca penteia com agressividade seus cabelos, claramente tentando machucá-la. Em outra, Leda dá a ela sua boneca Mina para cuidar, à qual Bianca maldosamente estraga. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vendo com realismo, impulsos de ódio, inveja e competição tornam a vida de uma criança um verdadeiro tormento, repleto de angústias terrificantes, algo que Leda em sua visão ultra-realista consegue enxergar.</span></p>
<h4>Erotismo e maternidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Ilumina-se também no filme o conflito entre o erotismo e a maternidade / paternidade, como na cena em que Leda tenta se masturbar e é interrompida bruscamente pelas filhas, a ponto de muitos casais deixarem de ter vida sexual depois de tê-los, por culpa ou exaustão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conflito que parece ser quase irresolvível se não se é uma família aristocrática ou burguesa do século XIX, e se tem que criar filhos sem o auxílio de ninguém.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um terceiro elemento, este estético, iluminado no filme é a relação entre uma vida interiormente rica e a capacidade de se suportar a dor, como se vê em Leda e Lyle. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Na refeição que Lyle prepara à Leda observa-se duas pessoas vividas e maduras, que, a despeito da dureza da vida, foram capazes de se manterem alegres, joviais, bem humoradas e  pulsantes, como quando dançam alegremente no baile. Ela com um exuberante vestido vermelho; ele com a ginga e a graça de um menino. Competências psíquicas que independem da idade. </span></p>
<h4>Preconceito com a mulher que envelhece &#8220;sozinha&#8221;</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">De outro lado, vê-se a crueldade e o preconceito com que a mulher que envelhece “sozinha” é tratada, como na cena dos delinquentes no cinema, e no modo como Callie, cunhada de Nina, trata Leda na praia, não se conformando por ela estar sem as filhas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, Leda é o avesso do estereótipo da mulher velha, ressentida, amarga e infeliz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela viaja sozinha, canta em voz alta, dança, estabelece vínculos, encanta-se com as belezas naturais do lugar e gosta da sua própria companhia, embora sinta-se sozinha às vezes. Além disso, tem seus livros e interesses intelectuais próprios, companhias extraordinárias para quem tem vida interior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, Leda é a antípoda de três imperativos categóricos totalizantes que recaíram fortemente sobre a mulher a partir da modernidade: a da mulher, que &#8220;ama&#8221; ser mãe; a da criança, como única fonte de gozo para ela; a da velha, ressequida e amarga.</span></p>
<p>*O filme é uma adaptação livre da obra &#8220;La Figlia Oscura&#8221; (2012), da escritora que utiliza o pseudônimo Elena Ferrante.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-a-filha-perdida/">Comentários sobre o filme A Filha Perdida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Um príncipe em crise: o homem por trás do mito em um episódio de The Crown.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Apr 2021 13:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Astronautas que pisaram na Lua]]></category>
		<category><![CDATA[comentário The Crown]]></category>
		<category><![CDATA[Episódio Poeira Lunar]]></category>
		<category><![CDATA[Príncipe Philip]]></category>
		<category><![CDATA[Rainha Elizabeth]]></category>
		<category><![CDATA[Terceira temporada The Crown]]></category>
		<category><![CDATA[The Crown]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O post faz reflexões sobre o episódio Poeira Lunar, da Terceira Temporada da série The Crown. Nele, a autora investiga a crise depressiva vivida pelo príncipe Philip a partir de um vértice psicanalítico e social.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-principe-em-crise-o-homem-por-tras-do-mito-em-um-episodio-de-the-crown/">Um príncipe em crise: o homem por trás do mito em um episódio de The Crown.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><img decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-2029" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2019/12/the-crown-tobias-menzies-como-principe-philip-1535453057718_v2_900x506-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />* O artigo está sendo republicado em homenagem à morte do príncipe Philip, em 09 de abril de 2021.</em></p>
<p>No episódio “Poeira Lunar” da nova temporada de The Crown, o príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth, deprime. Sem que se dê conta, vai ficando desanimado e insatisfeito com sua vida quotidiana, queixoso e entediado.</p>
<p><span id="more-2028"></span></p>
<p>Ocorre que, de repente, Philip começou a duvidar do valor de tudo aquilo que vinha sendo e fazendo. Seu modo de viver organizado, responsável e estável passou a não ter mais valor aos seus olhos. E tudo o que antes lhe dava prazer em fazer deixou de dar.</p>
<p>No âmbito de suas responsabilidades como príncipe, começou a colocar em xeque o valor das tarefas burocráticas e administrativas que realizava com êxito para ajudar sua esposa, a rainha.</p>
<p>Vivendo uma espécie de “crise do macho alfa”, agravada pelo envelhecimento, Philip se ressente por se sentir à sombra. Com isso, perde a motivação e o sentido em continuar vivo. Em suma, perde a fé.</p>
<p>Neste estado frágil, começa a pensar que seria realizando algum feito significativo que poderia recuperar o sentido das coisas. Sua tese é que agindo no mundo é que o homem recupera a fé.</p>
<p>E é por um acaso que encontra os personagens perfeitos em quem mirar seus anseios insatisfeitos de realização.</p>
<p>Trata-se dos três astronautas norte-americanos que haviam acabado de pisar pela primeira vez em solo lunar. Assim, de repente, eles se tornam o ideal de eu de Philip.</p>
<p>Neles, o príncipe projeta todos os seus anseios não atendidos pela realidade. Desejo de liberdade e de aventura, de uma vida emocionante e de autoafirmação; tudo isso se torna, para ele, o pote de ouro atrás do arco-íris.</p>
<p>Mas Philip era um homem esperto e sensível. Além disso, tinha a seu favor uma subjetividade construída na solidez não metafísica da tradição inglesa. Por isso, não tardará a se desfazer da ilusão. E para isso bastará um encontro presencial.</p>
<p>Mas antes disso, é comovente ver como o príncipe se prepara para o encontro com seus mitos. Na verdade, o que ele quer saber é se estes três rapazes encontraram respostas satisfatórias sobre o sentido da vida quando avistaram, da Lua, o nosso lindo planeta azul.</p>
<p>No encontro ele não demora a perceber que nenhuma reflexão existencial foi feita por eles. Na verdade, nota que estes jovens são bastante tolos e medianos e se irrita por eles terem desperdiçado a chance de evoluírem com esta experiência única.</p>
<p>Para um psicanalista, pode ficar evidente que os astronautas se defenderam da experiência estética com manobras obsessivas. Ao serem indagados sobre o que aprenderam com a experiência respondem de modo pobre que estavam tão cansados e tinham tantos protocolos a seguir que não puderam pensar em nada.</p>
<p>Philip fica com raiva. Provavelmente pensa que reflexões maravilhosas ele próprio poderia ter feito se tivesse sido tido a chance de ir à Lua, com sua maturidade e capacidade de pensamento profundo.</p>
<p>E é neste momento, em que se compara com os seus mitos, de perto tão ordinários, que eu tenho a impressão que ele volta a sentir amor e respeito por si mesmo. E assim encontra a porta de saída para sua crise.</p>
<p>Talvez ele tenha se dado conta naquele instante que ter uma personalidade profunda e não superficial é uma grande sorte na vida. E que seria uma grande tolice se comparar e invejar a vida de outras pessoas, sobretudo daquelas que ainda têm ainda tanto a aprender.</p>
<p>Podemos pensar que Philip e os astronautas representam dois estados de mente potenciais em nós, embora qualitativamente muito distintos entre si; o primeiro representando a experiência da interioridade e os segundos da exterioridade.</p>
<p>No primeiro, filiado a uma tradição filosófica socrática, o sentido da existência encontra-se na verdade introspectiva a ser buscada dentro do próprio homem, algo que no filme é representado, por exemplo, pelo esforço filosófico e espiritual dos padres de olharem para dentro de si mesmos.</p>
<p>No segundo, é a experiência que excita os sentidos e as trocas imediatas que imprimem significado à vida, sendo a identidade do sujeito designada pelo olhar de um outro indiferenciado e movido a paixões voláteis. Um exemplo disso no filme é a relação dos astronautas com seus fãs (fã = fanático).</p>
<p>Trata-se de dois<em> ethos</em> que entraram em choque com a paulatina modernização do mundo onde se deu a passagem da aristocracia ao capitalismo burguês, da tradição à inovação, do discurso religioso ao científico, e onde valores como transmissão e ordem foram sendo substituídos pelo foco na experiência e na autonomia.</p>
<p>Nesse sentido, seria muito interessante pensar se e em que medida o homem é capaz de desenvolver um senso de interioridade quando ele próprio passa a ser a medida de todas as coisas, posição que obviamente dificulta o colocar-se em perspectiva.</p>
<p>Outro aspecto é até que ponto a hipertrofia do pensamento, decorrência direta da supremacia de Descartes no mundo moderno, tem contribuído ou atrapalhado o contato do homem consigo mesmo, algo que a clínica com obsessivos e a febre do &#8220;autoconhecimento&#8221;  dos tempos atuais nos leva a problematizar.</p>
<p>E se é verdade que o homem se empobrece se perde contato consigo mesmo, fica a questão de saber por onde e de forma, nos tempos atuais, este contato poderá ser retomado. Acreditamos que a psicanálise caminha no sentido desta restauração.</p>
<p>Há ou haverá ainda lugar no mundo para um homem como Philip? Ou estará ele fadado à extinção? Para um jovem empreendedor da bolsa de valores, Philip talvez será um homem fraco e submisso, frustrado em suas realizações pessoais.</p>
<p>Cogitará se não seria melhor ele se divorciar da rainha para fazer “carreira solo” de modo que ela não o ofusque mais.</p>
<p>E isso porque o valor deste novo homem estará todo em seus projetos pessoais, que ele acredita ilusoriamente ter conseguido sem o auxílio de ninguém.</p>
<p>Encontramos então a tendência cada vez maior de mitificação do próprio homem, do homem tornado o ideal de si mesmo, o que explica sua vida ser vivida agora predominantemente na exterioridade.</p>
<p>Assim, penso que é o predomínio da vida em exterioridade do homem contemporâneo uma das grandes fontes de seu tédio.</p>
<p>Entretanto, não se trata de adotarmos uma atitude pessimista ou nostálgica frente ao nosso tempo.</p>
<p>Trata-se de refletir de que modos poderemos reconstruir nosso seu senso de interioridade em meio a uma crise moral sem precedentes.</p>
<p>Como reflexão, eu apontaria que as recentes preocupações climáticas bem como o anseio pelo retorno a um modo de vida mais natural que temos visto em muitos movimentos atuais, pode significar uma tentativa de reencontro consigo mesmo.</p>
<p>De qualquer modo, o eco da voz de Philip, a indicar que as respostas para as inquietações humanas estão dentro do próprio homem continuará a nos inspirar porque são belas e verdadeiras.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-principe-em-crise-o-homem-por-tras-do-mito-em-um-episodio-de-the-crown/">Um príncipe em crise: o homem por trás do mito em um episódio de The Crown.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Comentários sobre o filme Aos olhos de Ernesto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jan 2021 14:24:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Aos olhos de Ernesto]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O post faz algumas reflexões sobre a velhice e a morte a partir do filme Aos Olhos de Ernesto.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-aos-olhos-de-ernesto/">Comentários sobre o filme Aos olhos de Ernesto</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2293 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/01/download-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" />O filme da diretora Ana Luiza Azevedo (2020) é um convite para enxergar a vida pelos olhos de Ernesto. Um homem na faixa dos setenta anos, parcialmente cego.</p>
<p><span id="more-2291"></span></p>
<p>Além de fotógrafo sensível, ex-militante e exilado político que teve que deixar sua terra natal, o Uruguai, por causa da ditatura.</p>
<p>Retrata a luta de Ernesto por manter-se autônomo, apesar das horrendas limitações da velhice, piorada pela cegueira.</p>
<p>Autonomia interior vivida em sua paixão pelos livros, pelas músicas e pelas memórias de luta na juventude, compartilhadas com a amiga e antiga namorada Lucía, com quem troca cartas.</p>
<p>O gabinete de leitura, que tranca a chaves, representando nesse aspecto aquilo que de mais sagrado existe para ele: conhecimento, privacidade e autonomia. Experiências cada vez mais ameaçadas com sua degenerescência física.</p>
<p>O filho, por amor ou por desconhecer a natureza indômita do pai, quer levá-lo para morar com ele; algo de que Ernesto se horroriza. Não quer “<em>depositar sobre os ombros do filho o fardo de sua velhice</em>”.</p>
<p>Lembra neste aspecto a tradição dos orgulhosos e autossuficientes povos esquimós onde os velhos iam morrer sozinhos nas montanhas quando já não eram mais úteis à comunidade.</p>
<p>O contraponto dele é Javier: seu velho vizinho que, perdendo a esposa, não suporta a solidão e vai morar com a filha. Dois modelos de velhice distintos. O de Ernesto talvez carecendo de uma força interior muito maior, que nem todos tenham. Talvez uma pequena minoria.</p>
<p>Ter vivido intensamente a vida e cultivado um mundo interior rico, como é o caso de Ernesto, parecendo ser crucial para esta vida interior forte. Que se traduz em temer menos a solidão e a morte, nos anos finais de vida. O que não exclui o horror de uma velhice incapacitante e de uma morte dolorosa e solitária.</p>
<p>Por afinidade, Ernesto se liga à Bia, uma jovem de vinte e três anos, cuidadora de cães, com quem estabelece uma bonita relação de enriquecimento mútuo.</p>
<p>Ele dá a ela estabilidade, cama e comida. Ela o ensina a mexer no celular e a não ser tão formal. Lê e escreve as cartas à Lucía para ele, estimulando-o a retomar a paixão interrompida no passado. Para ambos, a vida devendo ser vivida com paixão até enquanto se está vivo.</p>
<p>Extraem esta paixão compartilhada pela vida da língua, das letras e dos livros que amam. Ela o leva a uma roda de poesia, onde ele declama lindamente um poema do poeta e ensaísta uruguaio Mario Benedetti, intitulado <em>Porque cantamos?</em>.</p>
<p>Ora, encontrar afinidades é uma sorte. Não podia ser Bia sua filha?</p>
<p>Mas de outro lado a filiação é um peso. E Bia se assusta ao perceber o desejo de Ernesto.</p>
<p>Só que ele é um homem excepcional e não quer ser infantilizado, como os velhos costumam ser, sobretudo pelos familiares.</p>
<p>Quer continuar adulto e preservar sua dignidade até o fim. Isso não significando nem falta de amor à família, nem misantropia.</p>
<p>Por isso, Ernesto, em ato de profunda coragem, despede-se em carta do filho, deixa o apartamento para Bia e parte para viver o último capítulo de sua vida.</p>
<p>Retorna à cidade natal para viver (e morrer) na companhia de Lucía.</p>
<p>Motivam-lhe o fato de não querer ser um peso para o filho mas também o desejo de experimentar amizade e afeto numa relação de iguais. Como é a que se vive entre marido e mulher. Algo que os filhos não podem oferecer.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="André Morais | Por que cantamos | Poesia de Mario Benedetti" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/x-4RDyrxhUE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>Bird Box: a vida em uma caixa de pássaros.</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/bird-box-a-vida-em-uma-caixa-de-passaros/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Feb 2019 17:10:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filme“Bird Box” é um recurso simbólico interessante e que pode nos ajudar a compreender como, no âmago de uma experiência traumática, pode se dar a elaboração do que em psicanálise chamamos impulso de morte, a partir da personagem Malorie. Tomando-a como modelo, ele também nos provoca a pensar que características de personalidade são favoráveis &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/bird-box-a-vida-em-uma-caixa-de-passaros/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Bird Box: a vida em uma caixa de pássaros.</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2019/02/BIRD_BOX_018-e1545548194708-2.jpg" alt="" class="wp-image-1982" width="500" height="250"/></figure>



<p></p>



<p></p>



<p>O filme“Bird Box” é um recurso simbólico interessante e que pode nos ajudar a compreender como, no âmago de uma experiência traumática, pode se dar a elaboração do que em psicanálise chamamos impulso de morte, a partir da personagem Malorie. </p>



<p>Tomando-a como modelo, ele também nos provoca a pensar que características de personalidade são favoráveis à sobrevivência na vida e quais não são. </p>



<span id="more-1978"></span>



<p>Para dar visibilidade ao desejo de se fazer mal, que em <strong>psicanálise </strong>corresponde à atuação do <strong>instinto de morte </strong>na mente, o filme leva os humanos a serem misteriosamente dominados por uma <strong>força sinistra</strong> e que ninguém sabe de onde veio. </p>



<p>Encarnado por esta força, a pessoa enfeitiçada sente uma <strong>atração irresistível pela morte</strong>: seu olhar fica petrificado e perdido e ela manifesta verbalmente estar vendo algo maravilhoso que beira a perfeição. Tal estado, parecido com um <strong>transe hipnótico</strong>,logo a leva ao ato que dará fim à sua existência, ou seja, ao suicídio. Outro elemento é que tal estado é contagioso, sendo o contágio feito por <strong>contato visual</strong>, o que faz com que as pessoas não contaminadas tenham que vendar os olhos. </p>



<p>A ideia está longe de ser nova e pode ser facilmente remetida ao <strong>êxtase religioso</strong> ou ao <strong>transe hipnótico&nbsp;</strong>que, como sabemos, é atingido pelo “enfeitiçamento dos olhos”, que pode ser atingido através de um objeto de movimento pendular ao qual o doente olha fixamente ou simplesmente pela fixação no olhar do hipnotizador. </p>



<p>Sabemos o quanto o ser humano anseia <strong>perder-se no outro</strong>, anseio que engendra os movimentos de massa em que as pressões inelutáveis do Eu podem encontrar trégua no poder atraente, irresistível e despersonalizado da multidão. </p>



<p>Nesse sentido, a massa pode liberar desejos que individualmente uma pessoa é forçada a reprimir, e dentre eles,sabemos que está o <strong>desejo suicida</strong> (e <strong>homicida</strong>, que é só o outro lado da moeda).</p>



<p>Só para nos lembrarmos de que isso não é ficção, citemos só um caso, dentre inúmeros que provam a <strong>tese freudiana</strong> de que, em massa, a repressão é suspensa e o <strong>desejo de morte</strong>, dentre outros,pode se realizar sem o peso inexorável da culpa. </p>



<p>Em 18 de novembro de 1979, 918 pessoas se mataram bebendo veneno misturado ao ponche sob a ordem do líder religioso Jim Jones, pastor e fundador de uma seita pentecostal de orientação socialista.</p>



<p>Assim, os inúmeros exemplos reais de<strong> suicídio </strong>(e homicídio) coletivos nos leva a pensar que o desejo de <strong>dar cabo da própria vida</strong> existe dentro de cada um de nós, mas que não é colocado em prática, e menos ainda tornado consciente, porque esta sob o forte cabresto da <strong>repressão</strong>. </p>



<p>É por isso, por exemplo, que jornalistas são ensinados a não utilizar a palavra suicídio num noticiário de TV e que médicos psiquiatras que lidam cotidianamente com suicidas tendem a sofrer uma pressão interna severa quando um de seus pacientes se mata.</p>



<p>O <strong>desejo de morte </strong>colocado em prática por alguém “acorda” o nosso próprio desejo de morte, impulso que <strong>Freud </strong>descreveu como algo sinistro, que age dentro de nós sorrateiramente e que temum poder de atração irresistível naqueles que estão sob o seu julgo. </p>



<p>Outro motivo que leva o <strong>potencial suicida</strong> a querer contaminar os outros com o seu desejo é porque, conseguindo destruir a <strong>esperança</strong> naqueles que continuam vivos, ele não precisa mais sentir culpa ou, o que é pior, fracassado por estar desistindo da vida. </p>



<p>Se todos desistem de viver, ou, se todos perdem a esperança na vida, eu não me preciso mais me esforçar pra continuar vivendo. E todos nós sabemos que continuar vivendo exige de cada um de nós <strong>doses cavalares de coragem</strong> e de<strong> obstinação</strong> digna de um herói do porte de Aquiles. </p>



<p>Enlouquecer, num certo sentido, é <strong>desresponsabilizar-se de si mesmo</strong> e não há nada mais irritante do que vermos alguém que aceita com alegria cuidar da própria vida quando eu próprio odeio ter de fazer isso. </p>



<p>Isso explicaria no filme, a meu ver,o comportamento dos loucos que sadicamente forçavam as pessoas não contaminadas a que abrissem os olhos e se deixassem vencer irresistivelmente pelo <strong>desejo de morte. </strong></p>



<p>Talvez em um filme tipo “Blockbuster”como este, ou seja, dirigido à grande massa, só seja possível abordar esta temática tão dolorosa que é a presença do <strong>desejo de aniquilação da vida em nós</strong> pela via do sobrenatural. </p>



<p>É assim também que povos primitivos, crianças e neuróticos tendem a lidar com seus <strong>maus impulsos</strong>: negando-os em si e projetando-os no mundo externo e designando-os a deuses, espíritos ou seres sobrenaturais. </p>



<p><strong>Freud </strong>tinha esperança de que, com o<strong> advento da era científica</strong>, o homem seria capaz de simbolizar seu universo psíquico através da<strong> racionalidade, </strong>da<strong> lógica </strong>e do <strong>bom senso</strong>. Visão de certo modo otimista que desconsiderava até certo ponto o quanto muitos de nós continuarão necessitando acreditar em ilusões e em miragens por vezes muito mais agradáveis e palatáveis do que as complicações da realidade. </p>



<p>Estas pessoas, que <strong>Freud</strong> considerou ser a maioria da humanidade, tendem a serem personalidades ingênuas, pouco preparadas para lidar de forma racional com o mal e com os conflitos inerentes à realidade; personalidade amável e tola que no filme é representada por <strong>Olympia</strong>. </p>



<p>Esta mulher explica que sua fraqueza de caráter se deve ao fato de ter sido muito mimada pelo marido, o que parece abrir um caminho interessante para compreendermos a relação entre <strong>superproteção </strong>e<strong> fraqueza de caráter</strong>. Sabendo-se pouco preparada para sobreviver, ela pede a <strong>Malorie</strong>, grávida como ela, que cuide de seu filho caso ela venha morrer. </p>



<p>Pessoas como Olympia tendem a negar a presença do mal e do conflito nas escolhas humanas e por isso mesmo frequentemente são vítimas de sua própria pobreza espiritual. Quantas pessoas perigosamente ingênuas não se queixam de terem sido enganadas quando, na verdade, elas mesmas fizeram de tudo para não enxergar a realidade? </p>



<p>Lembremos que no filme foi Olympia que prontamente abriu a porta para o homem que viria a matar todos na casa,erro que foi cometido por seu <strong>excesso de piedade </strong>e de <strong>confiança </strong>em pessoas estranhas. </p>



<p>Isso possibilita uma <strong>reflexão interessante </strong>e muito atual, que pode se estender a vários problemas de nossa sociedade (pense,por exemplo, no problema dos<strong> imigrantes</strong>) e que tendem a ser tratadas de forma polarizada e demasiadamente simplista: de um lado, um <strong>discurso humanitário</strong> (tipo Olympia) que diz que se deve abrir a porta a todos, de outro, um<strong> discurso conservador</strong> e desconfiado que tende a julgar bons os que “são dos nossos” e maus todos os que estão do lado de fora. </p>



<p>Qual dois corresponde à realidade?</p>



<p>Provavelmente nenhum, haja vista que a realidade é sempre mais <strong>complexa,</strong> e o buraco é sempre mais embaixo do que parece ser numa primeira olhada. &nbsp;</p>



<p>De qualquer modo, o <strong>discurso humanitário</strong> (“amamos a todos igualmente, sem distinção”) representado por Olympia carece de substância e é fraco em termos de sustentação. </p>



<p>É isso o que vemos ser questionado pelo autor quando <strong>Malorie </strong>se vê tentada a sacrificar a<strong> filha de Olympia </strong>em detrimento do seu filho biológico. No final, ela não sacrifica ninguém, mas, não sejamos ingênuos, o dilema é deveras difícil e atire a primeira pedra quem não pensaria dez vezes sobre o assunto! </p>



<p>Já ouvi este <strong>dilema</strong>, em seu aspecto real e cru, na situação em que a pessoa se viu dividida entre <strong>dar abrigo a um preso político ou judeu fugindo do nazismo </strong>e <strong>proteger sua própria família</strong>, que certamente seria colocada em risco com a presença da pessoa perseguida em sua própria casa. <br /></p>



<p>Assim, o contraponto da personalidade ingênua de Olympia, no filme, é representado por <strong>Malorie</strong>, uma jovem mulher obstinada, corajosa e que descobriu muito precocemente que a vida não é “<em>rosinha flores</em>” (Guimarães Rosa) e que por isso mesmo sabe colocar os valores nos lugares certos.&nbsp; </p>



<p>Filha de <strong>pais desajustados</strong>, Malorie é pintora e capta em suas telas quanto desencontro e distanciamento pode existir nas relações humanas. Daí ela não se deixar capturar facilmente por nenhuma ilusão, nem mesmo a doce e romântica ilusão do dito “<strong>instinto materno</strong>”. </p>



<p>Excessivamente endurecida pela vida, Malorie acredita que o amor enfraquece; visão acertada,embora realista e dura demais. Ao fazer Malorie ser a única capaz de sobreviver ao mal, o artista parece nos contar que só uma personalidade não iludida é capaz de sustentar a dureza da vida sem romantizações terá alguma chance de sobrevivência, visão com a qual a <strong>psicanálise</strong> parece tender a concordar. </p>



<p>Outro elemento que parece imprescindível à sobrevivência de Malorie diz respeito ao modo realista como ela encara a<strong> solidão</strong>. Ela sabe que cada um de nós é só e por isso encara a solidão (ou solitude) não como uma tragédia, mas como fazendo parte da nossa <strong>condição humana</strong>. </p>



<p>Esta força de caráter fica expressa,por exemplo, na cena em que o namorado Tom morre para protegê-la, bem como às crianças, tragédia diante da qual ela tem duas formas de confrontar: ou permanecer chorando (e provavelmente morrer), ou se encher de coragem para seguir sozinha, que é o que ela faz. </p>



<p>&nbsp;Acontece também que Malorie está grávida de um homem que, somos levados a pensar, não quis assumir a paternidade. E ela teme não ser capaz de amar a sua criança. Mas Malorie não é uma mulher má; ao contrário, sua <strong>bondade realista </strong>é muito mais substanciosa do que uma bondade mole e flácida, que é tudo o que um bebê não precisa de sua mãe. </p>



<p> Ao mesmo tempo em que é forte como um touro, Malorie também é frágil e teme se <strong>apegar às crianças </strong>(seu filho e a filha de Olympia, que ela cuida depois que a mãe morre) , vindo a sofrer mais uma vez. Isso costuma acontecer com pessoas que já foram muito machucadas pela vida e que, como forma de defesa, endurecem por dentro temendo que o amor as deixe vulneráveis mais uma vez. </p>



<p>Para Malorie, assumir as crianças como seus filhos significa ter que <strong>enfrentar o medo de repetir com eles a história trágica de abandono sofrida por ela própria na infância</strong>, algo que uma pessoa inteligente como ela sabe ser muito difícil evitar. </p>



<p><strong>Freud explicava esta tendência à repetição do passado traumático</strong> como um aspecto inerente do impulso a quem falta maleabilidade e flexibidade trazidas pelas novas experiências. De certo modo, podemos dizer que o impulso é estúpido: se aprendeu de um jeito, tenderá a fazer sempre do mesmo jeito.  </p>



<p>É por isso que é tão comum vermos pessoas que sofreram na infância com a inadequação de seus pais fazerem exatamente o mesmo de que se queixam com seus próprios filhos, criando um ciclo ininterrupto de tragédia e destruição transgeracional. </p>



<p>De certo modo Malorie não confiava em si mesma e em sua capacidade de ser uma mãe diferente daquela que tivera no passado e era em parte por isso que <strong>rejeitava a maternidade</strong>. </p>



<p>Além disso, aprendeu por suas próprias experiências precoces a<strong> não confiar</strong> nos vínculos afetivos que, ao que tudo indica, para ela, sempre foram mais frustrantes do que satisfatórios. Em seu universo psíquico, o mundo é constituído de seres humanos tolos, superficiais e egoístas, o que é também verdade, embora não seja toda a verdade. </p>



<p>O que Malorie irá aprender ao longo da trama é que <strong>não existem só pessoas más e decepcionantes no mund</strong>o. Existem também pessoas como Tom, capazes de dar sua vida às pessoas que ama, e existem crianças doces (filha de Olympia) e também corajosas e íntegras (seu filho). </p>



<p> Afinal, se o mundo deve ser encarado de forma realista, ele também precisa ser temperado como <strong>sal dos afetos</strong>, para que a vida não fique intragável e dura demais de ser vivida. </p>



<p>Assim, <strong>moralizando</strong> Malorie podemos dizer que ela tinha “dificuldade em se relacionar”. Ou, o que eu penso ser mais rico, podemos dizer que ela enxergava com <strong>demasiada lucidez</strong> que se relacionar como outro é deveras difícil, e por enxergar tanto não sabia muito bem o que fazer com tanta realidade. Penso que isso corresponde mais à verdade dos fatos. </p>



<p>&nbsp;Outra forma de compreender a instigante personalidade de Malorie é recorrendo à <strong>bissexualidade psíquica</strong>, conceito muito caro à psicanálise. </p>



<p>&nbsp;Em Malorie, predominavam os <strong>elementos masculinos da personalidade </strong>enquanto os <strong>femininos </strong>estavam em estado de suspensão. </p>



<p>Os<strong> elementos masculinos </strong>correspondem à função de sobrevivência, de ação rápida frente ao perigo, de força e do predomínio da razão sobre a emoção, ao passo que os<strong> femininos</strong> correspondem à languidez, à passividade e ao uso da emoção e dos afetos como forma predominante de comunicação (muito presentes em Olympia). </p>



<p>&nbsp;A lição final do filme, quando ela e as crianças estão perdidas na floresta, parece ser que uma <strong>personalidade de êxito</strong> é aquela que consegue <strong>compor em si </strong>elementos masculinos (que Malorie já tinha) e elementos femininos (que ela desenvolveu através das crianças), numa espécie de bom casamento psíquico. </p>



<p>Assim, na floresta densa, ela só consegue encontra-los quando assume a si mesma o quanto os amava, e então pode finalmente localizá-los dentro de si como seus filhos. </p>



<p>Depois disso, finalmente conseguem chegar ao “<strong>novo Éden</strong>”, a partir do qual a humanidade terá que recomeçar mais uma vez. </p>



<p>A <strong>esperança</strong>, então, finalmente venceu o <strong>medo</strong>!</p>



<p>Lá, os pássaros, símbolos da esperança e da renovação, são soltos e ela finalmente pode <strong>batizar os filhos com um nome</strong>, o que significa que agora ela havia conseguido finalmente <strong>adotá-los psiquicamente</strong>, pouco importando se se tratava de uma filiação biológica ou não, realizando com isso a modalidade de <strong>amor mais nobre e sofisticada</strong> que um ser humano pode sentir: o amor que ultrapassa as barreiras narcísicas de pertencimento.<br /></p>



<p>&nbsp;Aqui a mensagem do filme parece ser precisa.</p>



<p>&nbsp;A <strong>vida humana em comunidade </strong>só é viável se pudermos, como a corajosa Malorie, integrar dentro de nós elementos do viver aparentemente antagônicos e que a psicanálise vincula à <strong>bissexualidade psíquica</strong>, que são: coragem e doçura; firmeza e acolhimento; verdade e piedade; objetividade para se viver o amor e o ódio.</p>



<p>Pois, coragem sem amor é frieza; mas amor sem coragem é mentira. Verdade sem doçura é crueldade, mas doçura sem verdade é hipocrisia. </p>



<p>E mais, se pudermos <strong>transcender </strong>os demarcadores mais óbvios em termos de eleição de nossos objetos de amor, que costumam ser bastante narcísicos e, portanto, <strong>egoístas</strong>: minha cor de pele, meu sangue, minha classe social, minha família, etc.<br /></p>



<p>Cada criança que nasce, cada ser humano que respira sobre este planeta, precisa encontrar estes dois elementos conjugados no outro com o qual ele se relaciona, sob o risco, de não os encontrando, perder a fé na humanidade. </p>



<p>E talvez estejamos meio perdidos nesta nossa tão famigerada e sofrida <strong>conjugação bissexual.</strong></p>



<p>&nbsp;A <strong>moda</strong><em><strong> cool</strong></em><strong> da maternidade</strong>, com a indústria marqueteira que dela se alimenta, vendem que a maternidade é doce, limpa e fácil, quando a realidade é o oposto disso. </p>



<p>A algo de<strong> selvagem</strong> na aprendizagem que uma criança deve ser capaz de fazer para poder sobreviver sozinha depois;algo que Malorie sabe e busca transmitir às crianças quando fala duramente com elas de que o que vão fazer é muito perigoso (iam descer o rio) e que precisam ser responsáveis e atentas, caso contrário irão morrer. </p>



<p>De outro lado, a<strong> nomeação simbólica do sujeito,</strong> fruto de um sentimento de adoção afetiva (daí que não importa ser filho biológico ou não, como Malorie mostrou) também será crucial para a sobrevivência deste, dando-lhe um lugar único no mundo, algo que vem sendo difícil de se efetivar pela predominância ainda muito grande da <strong>valorização dos vínculos consanguíneos</strong>, herança de uma aquisição moderna não muito tardia da qual não nos desprendemos sem dificuldade. </p>



<p>Não podemos saber ao certo qual era a intenção do autor com sua obra, mas podemos conjecturar que, através dela, ele faça algum tipo de crítica às carências simbólicas da sociedade moderna em oferecer suportes significantes para a <strong>dureza da vida</strong>, talvez porque estejamos ainda muito embevecidos de um iluminismo esperançoso que facilmente se perverte hoje em dia em um discurso de autoajuda do tipo “<em>pense positivo que tudo vai dar certo</em>”! Ora, não há nada mais ingênuo e tétrico do que isso. Se seguirmos assim, precisaremos mesmo de outro apocalipse pra começar de novo. </p>



<p>De outro lado, um <strong>discurso conservador e nostálgico </strong>ainda insiste em fazer da família consanguínea e de algumas outras instituições ultrapassadas símbolos entronizados da tradição e dos bons costumes, enquanto basta alguns anos como psicanalista para saber que esta família entrópica produziu sujeitos neuróticos e profundamente infelizes. </p>



<p>Nesse sentido, e isso talvez seja outra mensagem do filme, devamos satisfazer nosso anseio de comunidade em <strong>modelos familiares mais abertos</strong>, flexíveis e arejados – uma espécie de grande família fraterna constituída por pessoas com objetivos afins, que é o que vemos se formar na casa dos sobreviventes (primeira parte do filme), e no “novo Éden de cegos” (última parte do filme). </p>



<p>Nesta <strong>grande família</strong> haverá conflitos como em qualquer outra, mas sem mais o peso sufocante da idealização; nela também, nenhum valor moral estará dado <em>a priori</em>; tudo estará para ser construído, destruído e reconstruído a cada instante seguindo o mesmo movimento dialético que compõe o universo; e não haverá lamento porque nada é fixo e permanente porque se saberá que a permanência e a fixidez logo podem se converter em tédio e prisão (isso a história já mostrou). </p>



<p>Nesta grande família, que poderá se recompor e se reconfigurar quantas vezes se fizer necessário, cada membro será uma entidade única (como um átomo), que poderá existir, simultaneamente, tanto sozinho quanto combinado quimicamente com outros elementos. Quem sabe desta grande família fraterna surgirão rebentos mais interessantes, mais fortes,menos mimados? Quem sabe esta família seja o modelo ultramoderno que nos aguarda daqui há cem anos ou duzentos anos? </p>



<p>Pena que não estarei viva para ver!</p>
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		<title>Reflexões sobre o filme Na natureza selvagem</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-na-natureza-selvagem/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Nov 2016 18:40:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Christopher McCandless]]></category>
		<category><![CDATA[filme Natureza Selvagem]]></category>
		<category><![CDATA[Lorde Byron]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[romantismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/?p=1771</guid>

					<description><![CDATA[<p>O texto propõe reflexões a partir da história verídica do norte-americano Christopher McCandless, contada pelo escritor John Krakauer no livro Na natureza selvagem e pelo cineasta Sean Pean no filme de mesmo nome.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-o-filme-na-natureza-selvagem/">Reflexões sobre o filme Na natureza selvagem</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2016/11/nns00.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1772 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2016/11/nns00-150x150.jpg" alt="nns00" width="150" height="150" /></a>Na natureza selvagem: o homem que caminha só em direção a si mesmo.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"> A história verídica do norte-americano Christopher Johnson McCandless, encontrado morto aos 24 anos em um ônibus abandonado, próximo do Parque Nacional Denali depois de sobreviver com pouca comida e equipamento no Alasca selvagem, nos convida a reflexões importantes sobre o sentido último da vida humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os interessados em conhecê-la sugiro a leitura do livro “Na natureza selvagem”, publicado em 1992 pelo jornalista John Krakauer, bem como o filme escrito e dirigido por Sean Pean, de mesmo título, lançado em 2007.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1771"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Meu interesse neste texto não será analisar o drama pessoal do jovem, nem propor motivações individuais ligadas à sua história familiar que talvez o tenham feito tomar a direção da estrada solitária rumo ao Alasca, pois isso só poderíamos compreender ouvindo sua própria voz.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguirei, neste caso, em outra direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomarei esta história como uma metáfora da busca humana por sentido, sendo esta a busca de cada um de nós. Para mim, esta narrativa metaforiza a busca de um homem corajoso e impetuoso que decide iniciar sua viagem solitária em direção à beleza selvagem e à violência primitiva com as quais inevitavelmente ele deve se confrontar, na medida em que se engaja na empreitada de conhecer a si mesmo, algo que não se sustenta sem obstinação e fé.</p>
<p style="text-align: justify;"> Lá ele chegará muito perto do Nada, do puro pulsional, da natureza selvagem, conceito metapsicológico que Freud cunhou por <em>Trieb</em> e que significa o puro instintual.  Nesse sentido, será meu propósito também refletir a respeito de alguns itens essenciais de sobrevivência, sem os quais a viagem se torna perigosa, para não dizer mortífera. Como vocês verão ao longo do texto, proponho que a viagem que Christopher empreendeu também pode se dar em uma análise (mas não só), cujo propósito último, conforme nos ensinou Freud, é tornarmo-nos mais íntimos do estranho e do selvagem que nos habita.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme tem início com uma belíssima citação do poeta Lorde Byron, um dos grandes representantes do movimento romântico, que diz</p>
<p style="text-align: center;"><em>Há um tal prazer nos bosques inexplorados</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Há uma tal beleza na praia solitária</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Há uma sociedade que ninguém invade</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Perto do mar profundo e da música do seu bramir</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Não que eu ame menos o homem</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Mais amo mais a Natureza.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Ora, assim como Byron, o peregrino Christopher anseia sorver até à exaustão o prazer dos bosques inexplorados e a beleza da praia solitária, lá onde ainda não houve nenhum tipo de contaminação pelos vieses da sociedade. Trata-se da busca por algo puro, virgem, inaugural, que ele sente poder encontrar no Alasca selvagem e que eu chamo de “ meu aborígene”. Não se trata de um desamor ao homem, mais de um mais amor à natureza. Christopher, assim como Byron, sabiam que o homem civilizado, ou seja, em seu estado não natural, já foi corrompido, sendo um dos primeiros sinais disso a hipocrisia.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem é corajoso o suficiente para perceber, sabe que o homem obtém muito pouco prazer da relação com seu semelhante e isso porque nela não há nenhum, ou há pouco, espaço para a verdade, que é o que encontramos no Alasca selvagem, ou seja, no inconsciente freudiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sabedor disso, e herdeiro do romantismo assim como Christopher, o que Freud nos propõe em plena aurora do século XX?</p>
<p style="text-align: justify;">A criação de um artificio – a relação analítica – em que os dois parceiros envolvidos devem abdicar da hipocrisia, em prol da busca da verdade de um dos parceiros envolvidos, no caso, o analisando. Resumidamente, sem muitos rodeios, é isso que fazemos em análise. Um doloroso e estético exercício de se falar a verdade um ao outro, sem prescindir do amor e do respeito pelos limites humanos de se confrontar com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou dar um exemplo da hipocrisia inevitável provocada pelo laço civilizatório. Você já imaginou o que se passa na cabeça de cada pessoa presente em um velório? Por trás do choro, que pensamentos existem? O analista conhece isso muito bem. Pode ser que muitos estejam pensando “ ainda bem que não fui eu”. Pode ser que a viúva já esteja planejando sua próxima viagem ao Nordeste, já que o morto odiava viajar.  Pode ser que os filhos já estejam tramando a divisão dos bens. É possível que muito poucos dos presentes esteja utilizando aquela experiência para refletir sobre algo de valor a respeito do sentido da vida e da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">É deste senso de artificialidade que deriva grande parte do desprazer que sentimos ao nos relacionarmos com alguém. Aqueles que estão um pouco mais avisados do jogo, sabem disso e podem preservar intimamente o contato com suas verdades. Mas, há muitos desavisados que acreditam piamente que o modo como se comportam socialmente é aquilo que são. Estes não se dão conta de que há uma divisão radical dentro de cada um de nós, e que aquilo que representamos à olho nu está muito longe de representar o que experimentamos na intimidade de nossos pensamentos. Freud chamava o primeiro de Eu e o segundo de Isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí a busca de Christopher pela natureza selvagem. Ele astutamente percebeu que das relações humanas vividas no palco social muito pouco prazer se obtém. Freud também percebeu isso no final de sua vida. Em uma entrevista belíssima que cedeu ao jornalista George Sylvester ele disse: “Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas – do companheirismo de minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me compreendeu. O que mais eu posso querer? ”</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo seu caminho em busca de sentido, Christopher encontra outros solitários e ansiosos por encontros verdadeiros, tal como ele. E ao se depararem com aquele jovem um tanto estranho para sua idade, solitário e calado, encantavam-se. Queriam que ele decidisse interromper sua viagem para ficar com eles, estabelecer laços. Christopher, resoluto e um pouco duro, insistia: preciso seguir só rumo ao Alasca selvagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso, portanto, que não se trata de que Christopher não amasse o homem. Trata-se de que ele sabia que o exercício de amar o homem, nosso semelhante, não é algo natural. Se assim fosse, certamente já teríamos aprendido a fazê-lo ao longo de nosso tempo de existência no planeta. E até o momento não temos dado nenhum sinal, por menor que seja, de que estamos em vias de aprender.</p>
<p style="text-align: justify;">Christopher caminha e finalmente chega ao Alasca selvagem. Com seus poucos instrumentos e uma vida ordenada rigidamente para respeitar os ditames resolutos da natureza, ele se sente livre, possivelmente como nascendo de novo. Só que a vida muito próxima da puro instintual é dura, cruel, perigosa. Ele precisa comer e não pode ultrapassar o mínimo limite estabelecido pelo homem civilizado: não comer carne crua. Isso seria arriscado demais, talvez insuportável. Então, mata um alce e precisa defumar a carne o quanto antes, para que as moscas não lancem seus ovos e a carne apodreça. Mas o tempo da natureza é imperioso e alheio ao tempo humano. Christopher não consegue salvar a carne da putrefação. A cena é belíssima porque remete ao quanto é vã a nossa luta contra a morte e à putrefação final de nossas carnes.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim das contas, o trabalho da vida é extenuante, diário, infindável, sendo este o preço que pagamos por estarmos vivos. Christopher se depara duramente com o fato de que não há escolha: ou ultrapassa um limite perigoso ou retorna à partilha de sua condenação. Lê no livro de Tolstoi a “ Felicidade conjugal” uma frase que lhe enche de força para retornar: “A felicidade só é real quando compartilhada”. Mas Christopher foi desatento à força descomunal da natureza: o degelo havia começado, e a força abundante das águas o impedia de atravessar o rio para retornar à vida civilizada. Preso à natureza selvagem, o imperativo da fome é terrível e implacável. Christopher, desatento e desesperado de fome, ingere uma planta venenosa, muito semelhante a uma outra, comestível. A morte é inevitável agora. Christopher, em seus instantes finais, olha para o céu. Seu semblante remete à uma epifania. Seu olhar de êxtase por tanta beleza e tragédia é emocionante. E então, ele nos presenteia com sua reflexão final: “Se eles (os pais, a humanidade) pudessem me tomar nos braços, será que eles veriam aquilo que eu vejo agora? ”</p>
<p style="text-align: justify;">Não acho que devamos nos lamentar diante da morte de Christopher. Ele viveu uma vida intensa, bebeu até o último gole. Não penso que uma vida feliz seja necessariamente uma vida longeva. Penso que uma vida feliz, independentemente do tempo que ela dure, seja uma vida intensa, em que sentimos que estamos, de fato, vivos. Christopher morreu jovem em idade cronológica, mas adquiriu em sua viagem a sabedoria de um ancião. Se ele tivesse podido retornar para os seus semelhantes, possivelmente encontraria uns poucos pelo caminho com quem poderia compartilhar suas descobertas incríveis. Mas não penso que seriam muitos. Isso não deve ser fonte de pesar. Trata-se de podermos constatar que as coisas são assim: o ser humano, cada um de nós, caminha muito lentamente em direção à sua realização plena. Cada um no seu ritmo, uns em passos de tartaruga, podendo aprender só quando chega a dor; outros, mais ligeiros e adiantados, como Christopher. Eu particularmente me sinto como ele. Não quero perder tempo; não acho que o tenhamos em demasia para podermos desperdiçá-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas antes de terminar prometi que iria comentar a respeito do kit de sobrevivência necessário para a viagem da vida, ao qual Christopher também nos ajuda a pensar.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro que eu elencaria, sem sombra de dúvida, é não brigarmos em demasia com a realidade de que somos seres solitários. Ainda que tenhamos a sorte de encontrar pela vida umas poucas pessoas que quase nos compreendem, elas não serão muitas. Daí que temos que descobrir outras fontes de prazer, que não somente as relações humanas. O prazer que a contemplação da natureza nos dá é fonte segura e impagável. É de graça e está disponível a todos. Basta que tenhamos olhos e coração para enxergar.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo item do kit é a precaução. Este talvez tenha faltado um pouco à Christopher. Não podemos ir de encontro à força selvagem da natureza como se fossemos deuses. Somos seres absolutamente irrelevantes para a natureza. Se morremos de câncer, de terremoto, de gripe, de fome; para ela, pouco importa. Sua existência não depende em absoluto da nossa. Ela já existia antes e continuará a existir depois de nós. Por isso, respeito e humildade para sondá-la são itens essenciais.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro, mas não menos importante, é o amor à verdade. Sem ele, o risco da queda na hipocrisia é inevitável. Um quarto ainda, o desapego. Certo dia assisti, horrorizada e cheia de dor à cena de uma velha prestes a morrer que gritava: “Minha cunhada quer roubar o meu apartamento de mim. ” Senti meu peito apertado. Tive pena e medo, por ela e por todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, se na peregrinação da vida, rumo ao nosso Alasca selvagem, ou seja, à nossa morte inexorável, pudermos levar em nossas mochilas nosso respeito à nossa solidão, alguma precaução, amor à verdade e algum desapego, acho que estaremos bem equiparados para seguir viagem. E assim, quem sabe, possamos sorver até a última gota o gosto doce e azedo da maça, que tal como Christopher e Eva no paraíso, pagaram o preço por sua gana de viver até às últimas consequências. A morte, neste caso, não é punição ou danação por um Deus vingativo e onisciente, mas simplesmente o final de uma vida bem vivida, em que não se perdeu tempo nem oportunidade de aprendizado.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Impactos da neurose nas relações conjugais à luz do filme A difícil arte de amar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Dec 2015 13:18:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[a difícil arte de amar]]></category>
		<category><![CDATA[complexo de édipo]]></category>
		<category><![CDATA[neurose]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[relações conjugais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Meu objetivo neste texto é demonstrar como a presença de neurose em cada um dos membros de um casal pode impactar negativamente a relação conjugal e, muitas vezes, inviabilizá-la. Para tanto utilizarei como estímulo para refletir sobre o tema o filme “A difícil arte de amar”, lançado em 1986 sob a direção do norte-americano Mike &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/impactos-da-neurose-nas-relacoes-conjugais-a-luz-do-filme-a-dificil-arte-de-amar/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Impactos da neurose nas relações conjugais à luz do filme A difícil arte de amar</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/12/dvd_8331.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1682 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/12/dvd_8331.jpg" alt="dvd_8331" width="150" height="200" /></a>Meu objetivo neste texto é demonstrar como a presença de neurose em cada um dos membros de um casal pode impactar negativamente a relação conjugal e, muitas vezes, inviabilizá-la. Para tanto utilizarei como estímulo para refletir sobre o tema o filme “A difícil arte de amar”, lançado em 1986 sob a direção do norte-americano Mike Nichols e estrelado por Meryl Streep e Jack Nicholson.</p>
<p style="text-align: justify;">A história, aparentemente banal, começa com Rachel (Meryl Streep) flertando em um casamento com Mark (Jack Nicholson). Ela se apresenta como uma mulher independente, cabelos curtos, roupa elegante e sóbria. Trabalha como escritora de matérias culinárias na agitada cidade de Nova York. Durante a cerimônia, toma a dianteira no flerte, olha para ele, visivelmente mais velho que ela, pelo espelho da maquiagem. Ele, galante e com histórico de mulherengo (o solteiro mais famoso da cidade), devolve o olhar.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1681"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda na cerimônia, várias mulheres choram, inclusive a terapeuta de grupo de Rachel, enquanto Mark cochila. Curiosamente Rachel não chora o que faz o espectador pensar que esta mulher, diferente de outras, arranjou-se em outra posição que não a de mulher romântica. Mas isso não vai se mostrar sustentável ao longo da trama, como veremos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. A história segue e, na festa, Rachel mais uma vez faz-se de ousada: ele a convida para tomar um drink em outro lugar e ela prontamente aceita. Passam a noite juntos. Depois do ato sexual, ela cozinha para ele um macarrão à carbonada. Ela diz: “Espero que você não me ache muito moderna cozinhando pra você logo na primeira noite”. Ele a defende, sedutor: “Não, não. Este é o melhor macarrão que já comi na minha vida. Quero comê-lo toda semana pelo resto da minha vida”. Nem um pedido de casamento como este logo na primeira noite de sexo vindo do “solteiro mais famoso da cidade” faz Rachel desconfiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela segue, embalada pelo seu sonho dourado e logo marcam a data do casamento. Neste dia ela chora. Vestida de noiva e, com todos os convidados a esperando, além do noivo, diz que não vai se casar, que não acredita em casamento, que seus pais nunca foram felizes juntos, o que parece ter sido verdade. O pai de Rachel confirma: sua mãe era “louca”, leia-se frágil e ele próprio, um homem que nunca conseguiu ser fiel.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é, portanto, o modelo de relação conjugal internalizado por Rachel: uma mãe frágil e um pai mulherengo. Não continuarei descrevendo a trama já que o meu objetivo é centrar-me neste modelo de pais internalizados para discutir a neurose de Rachel e de Mark. Só adianto que a história termina mal. Eles se casam, Rachel engravida e vai se abandonando. Mark a trai durante longo tempo com outra mulher. Ela descobre e, no início, tem dificuldade para se posicionar. Finalmente, ela consegue se separar e tudo indica que retorna de onde saiu: da casa de seu pai viúvo em Nova York. A menina por trás da mulher comparece o que me faz levantar a hipótese da presença de uma neurose não elaborada.</p>
<h2 style="text-align: justify;"><strong>O que é uma neurose para a psicanálise?</strong></h2>
<p style="text-align: justify;">Freud designou que neurose é uma situação em que pessoa permaneceu fixada em alguma vivência emocional do passado à qual repete incessantemente em sua vida presente. Mas à qual situação emocional a pessoa que tem uma neurose ficou “presa”?</p>
<p style="text-align: justify;">Para ser bem direta, ela ficou presa ao amor infantil que sentiu, no passado, pelos pais. A este amor apaixonado e sensual Freud nomeou “Complexo de Édipo”, que acontece de forma diferente na menina e no menino. No caso de Rachel, a hipótese que levanto é a de que ela permaneceu presa ao amor apaixonado que sentia pelo pai, situação que a fez buscar um homem bem mais velho que ela e mulherengo como o pai. Isso explica porque Rachel, mesmo adulta, ainda morava com ele e também porque ela se comportou como uma menina amedrontada no dia do casamento, que era o dia em que ela teria que se desligar do pai para ir morar em outra cidade com o marido. O problema é que como uma neurótica Rachel escolhe inconscientemente um homem parecido com o pai (modelo não muito interessante de se buscar como marido!) sendo que ela própria, identificada com a mãe, comporta-se como uma mulher frágil e abandonada de si mesma no casamento, fazendo com que o destino deste casal se torne inviável, exatamente como aconteceu com os pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mark também sofria de uma neurose. Sua síndrome de Don Juan me faz pensar na dificuldade que ele encontrou em fundir na mesma mulher a corrente terna e sensual de sua libido, situação que também revela de sua parte uma fixação na mãe. Vale lembrar que foi logo depois que Rachel teve a filha que ele começou a traí-la. Ou seja, depois que ele passou a vê-la como mãe, viu-se impossibilitado de vê-la também como objeto sexual, situação que revelaria de muito perto o desejo real do seu inconsciente de ter relações sexuais com a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando à Rachel sua neurose comparecia ainda de outra maneira, muito frequente entre as mulheres. Tratava-se do seu desejo incontrolável de entregar-se nas mãos do objeto amado. Em uma linguagem lacaniana, fazer do Outro o falo dela. Fazendo uma extensão da posição fálica de Freud, Lacan teoriza que neste período é o Falo o objeto de investimento sexual da criança. Para o menino, o falo é a mãe. É com ela que ele quer se excitar e ter uma relação sexual, impossível do ponto de vista do eu. Já para a menina, que não é possuidora do Falo-pênis (refiro-me à falo como símbolo de poder e não como o órgão pênis), sua meta é ter o Falo-amor. Seu anseio por completude neste período advém da fantasia de entregar-se toda ao objeto amoroso pai. Era isso o que acontecia com Rachel. Frente ao substituto paterno ela acreditou no engodo de que todo o amor que ele lhe daria bastaria a ela. Com isso, ficaria completa, não faltante. Por esta ilusão de completude, pagou um preço alto: o preço de sua autonomia como sujeito do próprio desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">A resolução do Complexo de Édipo, tanto no menino quanto na menina, consiste na constatação de que a realização do desejo sexual incestuoso é impossível, assim como é impossível a satisfação plena em qualquer relação sexual (“A relação sexual não existe”, Lacan). Nós resolvemos nossa neurose na medida em que aceitamos a castração, ou seja, a impossibilidade de realizarmos o desejo incestuoso, sobretudo, no caso do neurótico, pela via do sintoma. Neste árduo processo, nem Rachel nem Mark foram bem-sucedidos. Em seu inconsciente, Rachel acalentava o anseio de ser plenamente preenchida de amor-falo e de, nesta situação, nada mais lhe faltaria. O desejo, em sua visão infantil, estaria para sempre aniquilado. Por esta fantasia, pagou o preço da perda de sua autonomia como sujeito desejante. Em termos edipianos, a menina Rachel nunca pôde abrir mão de seu pai, avistando na concretização deste desejo algo do impossível. Já Mark, fazendo-se de falo sedutor, prometia algo que não podia cumprir. Prometia ser um homem viril. Mas pela sua neurose não podia sustentar tal posição no casamento com a esposa. Sua virilidade era aparente, mais encenada do que real. Em termos edipianos, era a imagem da mãe que ele avistava em seu inconsciente a cada vez que se deparava com a mulher grávida. Daí a impossibilidade de se satisfazer sexualmente com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de finalizar, queria sinalizar só mais um aspecto desta questão. Freud foi enfático ao dizer que a neurose infantil é construída com permissão do inconsciente dos pais. Ou seja, o inconsciente dos pais também está implicado na fixação no desejo incestuoso da criança. Esta questão fica evidente no filme. Logo que Rachel descobre a traição do marido, vai à casa do pai como uma menina frágil. A resposta do pai é curiosa. Diz-lhe indiretamente que ela mande de volta a filha de Rachel para Mark e que fique lá com ele. Curiosamente, ele não a trata como uma adulta dizendo-lhe, por exemplo: “Filha, seus problemas com seu casamento devem ser resolvidos na sua casa! Volte para lá e os resolva como mulher. ” Ao contrário! Ele endossa e reforça nela sua posição infantil possivelmente extraindo disso também algum prazer incestuoso. Concluindo, Rachel pode ter se tornado neurótica, em parte pela intensidade de seus desejos, mas também pela carência de um modelo feminino e masculino mais efetivos. Este é, penso eu, o aspecto transgeracional da neurose que vai sendo transmitido de pais para filhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais considerações psicanalíticas sobre os conflitos conjugais ou, sobre “a difícil arte de amar” são fundamentais na medida em que explicações racionalizantes e externas tendem a predominar nestes casos. Diz-se, por exemplo, para endossar este tipo de problema neurótica coisas do tipo: “Todo homem trai” ou “Toda mulher é frágil”, generalizações estas que empobrecem o nosso olhar e tornam inacessíveis as considerações sobre o complexo fenômeno do mundo interno e das manifestações do inconsciente. A psicanálise vai na contramão disso e chama o próprio sujeito a se indagar sobre o seu sofrimento causado, em última instância, por ele mesmo. Se Rachel tivesse visitado o divã de um analista antes de “escolher” seu segundo marido certamente seria confrontada com sua “escolha”: “Por que este homem, como seu pai? ”ou “Por que frágil, como sua mãe?”</p>
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		<title>Comentários sobre o filme Elsa e Fred</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2015 18:31:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[cinema e psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[comentário psicanalítico Elsa e Fred]]></category>
		<category><![CDATA[comentários filme Elsa e Fred]]></category>
		<category><![CDATA[filme Elsa e Fred]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filme Elsa e Fred, dirigido pelo norte-americano Michael Radford lançado em 2011 é uma adaptação do filme de mesmo nome do diretor argentino Marcos Carnevale. Como toda obra Fred e Elsa apresenta inúmeros vértices interpretativos. Elencarei para a minha fala dois eixos de discussão que a meu ver estão propostos no filme. O primeiro &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-elsa-e-fred/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Comentários sobre o filme Elsa e Fred</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/09/Fred-e-Elsa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1549 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/09/Fred-e-Elsa-150x150.jpg" alt="Fred e Elsa" width="150" height="150" /></a>O filme Elsa e Fred, dirigido pelo norte-americano Michael Radford lançado em 2011 é uma adaptação do filme de mesmo nome do diretor argentino Marcos Carnevale. Como toda obra Fred e Elsa apresenta inúmeros vértices interpretativos. Elencarei para a minha fala dois eixos de discussão que a meu ver estão propostos no filme.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro é o modo como a sociedade, representada no filme pela escola de dança, lida com o velho. A segunda diz respeito ao modo como o processo de envelhecimento e proximidade da morte será vivenciado por cada pessoa, de acordo com suas características de personalidade que tendem a se acentuar no final da vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1569"></span></p>
<h2 style="text-align: justify;">O velho na sociedade</h2>
<p style="text-align: justify;">Quando somos jovens é mais fácil acalentarmos a ilusão de que a decrepitude e a morte nunca vão chegar. Vemos esta conduta arrogante na jovem que cuidava da escola de dança e também em seu superior. Quando Elsa manifesta seu desejo de matricular-se nas aulas, além do olhar de desprezo da jovem, vê-se impossibilitada de ser acolhida, pois segundo o rapaz “ele não queria ver pessoas se arrastando por ali”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que ambos se esqueciam era de que, no futuro, eles próprios serão “os que se arrastam”. Ou seja, se eles não morrerem prematuramente de acidente ou de uma doença fatal, certamente experimentarão como é ser velho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, Elsa com sua sabedoria lembra a jovem de seu destino fatídico: diz a ela que quando seus lindos lábios estiverem enrugados e quando os seus seios tiverem despencado, ela poderá compreender melhor o porquê do seu desejo de se matricular em uma aula de dança.</p>
<p>A cena é muito bonita porque Elsa rompe com a hipocrisia social que paira na sociedade em geral sobre os idosos em que, por um lado, nega-se a realidade da velhice e da morte e, por outro, vende-se a ideia falsa de que envelhecer é bom. O fato é: envelhecer não é bom, mas é inevitável.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim a escola de dança é um interessante modelo para compreendermos o que é valorizado e cultuado em nossa sociedade. Nela há espelhos em que corpos jovens e ágeis podem se admirar narcisicamente; nela os casais dançam de forma ritmada e estão todos aos pares.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta escola de dança não há, portanto, espaço para o corpo enrugado e tampouco para a solidão, realidades com as quais todos nós iremos nos deparar em algum momento de nossas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente, ao mesmo tempo em que demonstramos como sociedade uma imensa dificuldade em aceitar a decrepitude, com o que cheira mal, com a morte, isolando esta realidade cada vez mais para longe dos nossos olhos, nas clínicas “especializadas” e nos hospitais, por outro lado o aumento da longevidade se impõe como um fato irreversível.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Por que o ser humano nega a realidade da morte?</h2>
<p style="text-align: justify;">Mas podemos recorrer ao auxílio da psicanálise para compreender nossa resistência em aceitar nossa própria morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Em “Por que a guerra”, Freud elabora reflexões interessantes sobre a postura do homem frente à morte. Ele é enfático ao dizer que no mais íntimo de cada um de nós acalentamos a certeza de que não iremos morrer. Dito de outro modo: de que somos imortais. Neste texto ele diz que nós até podemos tolerar o fato de que nossos inimigos morram (o que, aliás, nos traz gozo) e suportamos, melhor ou pior, a perda de nossos entes queridos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que absolutamente não concebemos como uma realidade é a nossa própria morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, neste mesmo texto Freud alerta que, se a natureza nos deu a dádiva da vida, em troca, ou melhor, como forma de pagamento, nós devemos pagar com a nossa morte. Este é uma dívida que cada um de nós possui com a natureza e deste pagamento nenhum de nós escapa.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há algo importante a ser dito a esse respeito: na verdade, a nossa posição frente à morte guarda relações íntimas com a nossa posição frente à vida. Elsa e Fred nos ajudam a entender isso.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Recursos internos para envelhecer e morrer</h2>
<p style="text-align: justify;">E isso nos leva ao segundo ponto que gostaria de refletir com vocês. O modo como uma pessoa vivenciará o envelhecimento e a proximidade da morte depende em grande parte das características de sua personalidade: de sua maior ou menor tolerância à realidade e às limitações humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Fred passou grande parte de sua vida negando de forma arrogante suas limitações, sua necessidade por contato íntimo e humano e sua mortalidade. Em suma, Fred não tinha medo da morte, mas da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Já Elsa tinha recursos internos para viver intensamente a vida. Para ela, o que importava era o momento presente que, de fato, é a única coisa que efetivamente temos. De forma bem humorada e, diferentemente de Fred que tinha um humor ácido e desdenhoso, Elsa sabia brincar com a vida e não se levar tão a sério. Em termos psicanalíticos, Fred encontrou mais dificuldades para superar seu narcisismo do que Elsa.  Penso, na verdade, que Fred e Elsa, mais do que personalidades, representam os dois pólos entre os quais oscilamos a vida toda e que Bion nomeou de pólo narcisista e socialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltando ao filme, o que aprendemos com Elsa é que quando podemos viver cada momento presente da nossa vida com intensidade e paixão, no fim não há motivo para nos lamentar. Vivemos tudo o que pudemos e podemos, no final, encarar a morte como um descanso do frenesi que é viver.</p>
<p style="text-align: justify;">A morte só é encarada como uma perda irreparável quando vivemos cada momento da nossa vida de forma arrogante, julgando que tínhamos todo o tempo do mundo, quando isso não é verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo de vida é finito, limitado. Cada apagar de velas, cada ressoar do relógio, é um tempo a menos que temos para realizar aquilo que desejamos.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta contra a morte, portanto, esconde, no fundo, uma postura arrogante frente à vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Fred, apesar de suas dificuldades, era um ser humano sensível. Presumo que o que tenha lhe faltado na vida era ter a sorte de encontrar alguém que, como Elsa, se preocupava realmente com ele e que estava imbuída do sincero desejo de mostrá-lo que ele podia se perdoar por ser imperfeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, Elsa como uma psicanalista nata percebe que Fred era “um porco-espinho com a gentileza de um panda”.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensando psicanaliticamente, eu diria que ele era um panda escondido numa carapaça de porco-espinho. Alguém sensível e apaixonado por música clássica, alguém capaz de se deixar tocar pelo sensível das emoções.  Sua carapaça de porco-espinho servia-lhe mais para se esconder das decepções inevitáveis da vida, com as quais não conseguiu lidar de forma satisfatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, depois do acidente com a serra elétrica em suas mãos, ele não conseguiu perdoar a vida nem a si mesmo pelo ocorrido. Queria tocar com técnica, o que significava tocar com perfeição. Tocar de forma imperfeita era abominável para ele.</p>
<p style="text-align: justify;">O que Fred não sabia, e que vai aprender paulatinamente com Elsa, é que a beleza de uma melodia não está em sua técnica, mas no ato apaixonado de tocá-la. Da mesma forma que a beleza de um ser humano está em sua imperfeição: no fato de sermos dotados de virtudes e misérias.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tenho a impressão de que Fred vivia com paixão a sua música que, segundo ele, era a coisa mais importante que tinha. Mas, por lhe faltar flexibilidade interna para aceitar a realidade, não conseguiu superar esta perda narcísica e tocar em frente.  A partir daí tornou-se um homem cada vez mais cinza, organizado e metódico, protegendo-se em camadas e camadas de porco-espinho para livrar-se do risco de qualquer percepção que lhe lembrasse de que era humano. Será Elsa a responsável por derreter as camadas de gelo que encobriam o homem sensível e galante que estava encoberto ali.</p>
<p style="text-align: justify;">No terceiro encontro acompanhamos um bonito diálogo entre eles. Neste, pela primeira vez, Fred pode entrar em contato com sua dor narcísica e nomeá-la. O derretimento do gelo estava em curso. Elsa vai até o seu apartamento para alimentá-lo, concreta e afetivamente e lhe pergunta em tom brincalhão:</p>
<p style="text-align: center;"><em>E: Porque você sempre está deitado?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>F: Porque você sempre está de pé?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ela lhe entrega o jantar e diz que teve um restaurante.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>F: Quantas coisas você já foi?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E: Ah, Fred, a vida é longa.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>F: Pois para mim não foi. Eu me lembro de tudo o que eu fiz: casa, trabalho, trabalho, casa.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Elsa vê o violão na parede.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E: O que é aquilo?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>F: Era a minha primeira vida. Era a única coisa importante para mim.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E: Ah, toca alguma coisa.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>F: Não, minha técnica é imperfeita.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E: Mas eu não ligo pra técnica. Só quero ouvir alguma coisa, dançar. Pode ser mais ou menos.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>F: Que você tá pensando? <u><em>Eu não faço nada mais ou menos. Não fazia até agora. Mas c</em>omo sou velho, tudo é mais ou menos. Eu prefiro ficar na cama a gastar energia e conseguir resultados que sei que serão medíocres. Isso vale pra andar, falar, pensar. E piora a cada dia. Agora se me dá licença, eu preciso descansar em paz!</u></em></p>
<p style="text-align: center;">E: Só os mortos descansam em paz, Fred.</p>
<p style="text-align: center;">F: Eu sou um morto-vivo. Pareço vivo, mas estou morto.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, penso que Fred parecia morto ou queria fazer as pessoas acreditarem nisso, mas estava vivo. Seu desejo de morrer era fruto do seu ódio e revolta contra a vida possível, mais ou menos, que ele podia ter sendo velho. Mas, por ser muito narcísico, o mais ou menos não tinha valor.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de encontrar continente para viver e nomear sua dor e decepção, o panda por trás do porco-espinho começa a dar seus primeiro sinais. Eles vão ao parque; agora Fred pode tolerar melhor o contato com a beleza e com a alegria. Vão ao restaurante e Elsa lhe ensina que na vida há coisas impagáveis. As emoções são tão intensas que ele pensa que vai enfartar. Seu coração é ainda frágil para viver emoções humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida, Fred descobre que Elsa está doente e pressente que não há mais muito tempo. Romântico, ele decide levá-la para realizar seu último sonho: banhar-se na Fontana di Trevi como Sylvia, de “La dolce Vita”. A cena é lindíssima e inspiradora por ser sincera, autêntica, espontânea e viva.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de ter seu sonho realizado, Elsa despede-se da vida e Fred está pronto para, finalmente, viver o tempo que lhe resta, mas agora vivo. Mesmo morta, Elsa ainda lhe reserva uma última surpresa: seu filho entrega a Fred um desenho dela feito por Pablo Picasso. O recado é preciso: o que resta dos nossos mortos são as lembranças que carregamos deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Os mais pessimistas podem se perguntar: valeu a pena se durou tão pouco?</p>
<p style="text-align: justify;">Encontro a resposta mais uma vez em Freud. Em um belo texto seu chamado “A transitoriedade” ele diz que a beleza da vida está exatamente no fato dela ser efêmera. O desejo de eternizar um momento esconde, na verdade, nossa dificuldade de realizar o luto pelas nossas perdas.</p>
<p style="text-align: justify;">Chorar nossas perdas, por aquilo que fomos e não seremos mais, pela juventude e beleza perdidas, pela criança que fomos um dia e que ficou para trás e seguir adiante. Esta é, penso eu, a grande arte do bem viver.</p>
<p style="text-align: justify;">E para terminar, gostaria de ler um poema de Pablo Neruda que, a meu ver, dialoga com a mensagem do filme:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>Velho cego, choravas quando a tua vida era boa</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>E tinhas em teus olhos o sol:</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Mas se tens já o silêncio, o que é que tu esperas,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>O que é que esperas, cego, que esperas da dor?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>No teu canto pareces um menino que nascera</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Sem pés para terra e sem olhos para o mar</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Como o das bestas que por dentro da noite cega</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Sem dia ou crepúsculo se cansam de esperar.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Porque, se conheces o caminho que leva</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Em dois ou três minutos até a vida nova,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Velho cego, que esperas, que pode esperar?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Se pela mais torpe amargura do destino,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Animal velho e cego, não sabes o caminho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Eu que tenho dois olhos te posso ensinar.</em></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-elsa-e-fred/">Comentários sobre o filme Elsa e Fred</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A pele que habito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2015 18:02:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Meu objetivo neste post é comentar o filme &#8220;A pele que habito&#8221; de Pedro Almodóvar estabelecendo um diálogo entre minhas associações sobre o filme e a psicanálise. Não é desnecessário frisar que como se trata de uma obra de arte as possibilidades interpretativas são várias e dependem do olhar do intérprete. Para mim, nesta obra &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-a-pele-que-habito/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A pele que habito</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-a-pele-que-habito/">A pele que habito</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-421" title="a pele que habito" src="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/01/a-pele-que-habito1.bmp" alt="" width="250" height="190" /></p>
<p style="text-align: justify;"> Meu objetivo neste post é comentar o filme &#8220;A pele que habito&#8221; de Pedro Almodóvar estabelecendo um diálogo entre minhas associações sobre o filme e a <strong>psicanálise</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é desnecessário frisar que como se trata de uma obra de arte as possibilidades interpretativas são várias e dependem do olhar do intérprete.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, nesta obra (assim como em outros filmes seus) Almodóvar pretende convidar o espectador <strong>a refletir sobre a questão da identidade sexual e / ou de gênero</strong>. Esta é uma discussão sempre espinhosa porque as categorias <strong>homem</strong> e <strong>mulher</strong> são fortemente impregnadas por visões normativas que foram sendo construídas e sedimentadas por séculos.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-416"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O que eu quero dizer é que, no senso comum, as pessoas tomam como óbvia a ideia de que se um ser humano nasce com pênis, ele é um homem e se nasce com uma vagina, é mulher. Por outro lado, Freud demonstrou no início do século XX que a definição do que ser homem e do ser mulher é muito mais complexa no humano do que julga o senso-comum. Vejamos o que ele descobriu nesse sentido.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Freud descobriu que:</h2>
<ol>
<li style="text-align: justify;">Na primeira infância crianças de ambos os sexos desconhecem completamente o que é a mulher. O que existe para eles são: criaturas com pênis e criaturas sem pênis. Traduzindo na linguagem infantil: os castrados e os não castrados.</li>
<li style="text-align: justify;">Crianças de ambos os sexos carregam germes de <strong>bissexualidade</strong>. Isso significa na prática que meninas sonharão em ter um pênis para poderem dar um bebê à suas mães e que meninos desejarão utilizarem seus ânus e suas bocas como vaginas para receberem o pênis do pai. Traduzindo em uma linguagem mais simples: homens e mulheres carregam desde sempre em seus inconscientes o desejo de estarem na pele do outro sexo.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Ou você, mulher, nunca se perguntou no momento do ato sexual como é sentir prazer com um pênis? (É verdade que as mulheres sabem mais ou menos como é isso porque têm um clitóris que funciona como um pequeno pênis)</p>
<p style="text-align: justify;">E você, homem, nunca se perguntou como é sentir prazer tendo uma vagina (se é igual ou diferente do prazer com um pênis) ou como é poder gerar um bebê em seu próprio ventre?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma fantasia inconsciente tão viva e presente que há vários filmes que abordam esta temática, em um tom &#8220;leve&#8221; e bem humorado, é verdade. Só para citar um, lembro-me do brasileiro &#8220;<strong>E se eu fosse você?</strong>&#8221; que fez enorme sucesso no Brasil anos atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui chegamos ao ponto central da discussão do filme!</p>
<p style="text-align: justify;">Almodóvar faz junto do telespectador a seguinte indagação:</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;"><strong>Será possível, em um futuro não tão distante e, graças ao avanço desmesurado da tecnologia genética, concretizarmos este desejo até hoje inconsciente e irrealizável: o de um homem se transformar totalmente em uma mulher e vice-versa?</strong></li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Com Robert, ele antevê que sim! Que num futuro não tão longínquo a medicina genética poderá produzir peles transgênicas, resistentes ao fogo e, quem sabe, ao envelhecimento e à morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Que num futuro não tão longínquo a cirurgia plástica terá recursos para transformar integralmente um homem em uma mulher realizando um desejo inconsciente atávico no humano: o de poder viver na pele do outro sexo.</p>
<h2>E quando isso acontecer?</h2>
<p style="text-align: justify;">Pergunto-me que impactos a concretização na realidade do desejo inconsciente de bissexualidade teria no psiquismo do ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;">No filme de Almodóvar, a criatura mata o criador. Haveria um apelo esperançoso do cineasta nesse sentido? Seria um apelo onde a criatura (o Vicente dentro da Vera) se rebela e acusa o roubo de sua identidade, já bastante precária de saída, é verdade? Seria um aceno no sentido de que a tecnologia e o avanço desmesurado do desejo sem limites (pelo poder de brincar de Deus), representada por Robert com sua onipotência, não vai se impor sobre nossa já tão fragilizada subjetividade humana dos tempos atuais?</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaria de pensar que sim. Que no final haverá um apelo de vida no sentido de podermos resgatar um valor fundamental que tem se perdido na atualidade: o de que não podemos mexer na natureza das coisas. Dito de outro modo: <strong>que o homem não pode querer ser Deus, o que significa que ele não tem controle sobre a morte nem sobre a natureza.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, o que eu vejo na realidade aponta na contramão deste meu sentimento esperançoso. Vejo a tecnologia reprodutiva trabalhando à serviço do dinheiro e promovendo arranjos desmesurados como, por exemplo:</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;">A inseminação artificial de uma mulher pelo sêmen congelado de seu marido morto há dez anos!</li>
<li style="text-align: justify;">A fertilização de casais que, aferradas a um desejo insaciável de &#8220;terem um filho a qualquer custo&#8221; nunca pararam para se questionarem seriamente o que significa gerar um criança. Ou, porque é que seus corpos não estão conseguindo gerar um bebê? Não haveria um recado da natureza para ser ouvido aí?</li>
<li style="text-align: justify;">Testes genéticos mirabolantes para averiguar chances de desenvolver câncer (refiro-me ao caso de Angelina Jolie) diante dos quais me pergunto: OK, ela não vai morrer de câncer, mas não vai morrer de qualquer outra coisa? Todos nós não morremos um dia?</li>
</ol>
<h2 style="text-align: justify;">Identidades precárias</h2>
<p style="text-align: justify;">Chama a atenção do telespectador atento alguns fatos sobre o comportamento de Vicente, o rapaz que estuprou a filha de Robert, o que nos leva a algumas perguntas:</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;">Porque ele /ela não deu um jeito de fugir e de denunciar Robert à polícia?</li>
<li style="text-align: justify;">Onde foi parar sua memória a respeito do que fez quando era Vicente?</li>
<li style="text-align: justify;">Porque ele / ela dorme com Robert, sai para comprar roupas femininas, etc?</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Uma resposta possível é: no seu inconsciente havia um desejo por se tornar mulher. Dito de outro modo: Vicente vivia um conflito de identidade sexual fruto que se refletia em um sentimento de identidade bastante precário.</p>
<p style="text-align: justify;">Este senso precário de identidade fica claro no início: Vicente fala várias vezes que queria deixar aquele lugar, o que significa deixar de ser aquilo que ele era (quando dizemos que queremos ir para &#8220;outro lugar&#8221; estamos dizendo que &#8220;queremos ser outros&#8221;).</p>
<p style="text-align: justify;">Na cena em que ele aparece vestindo uma manequim na loja de sua mãe o conflito de identidade sexual transparece: ele veste o manequim de palha (não é uma bela metáfora para as identidades atuais?) com esmero e dedicação ao mesmo tempo que lhe aperta os seios inexistentes. Ele quer vestir-se como mulher e ao mesmo tempo quer apalpar seios de mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">A garota lésbica que trabalha na loja de sua mãe capta o seu dilema e, diante do vestido que ele lhe dá, ela diz: Vista você mesmo; algo que ele / ela realiza no final do filme, pois quando procura a mãe como Vera está vestindo-o.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que se este conflito identitário não estivesse já instalado dentro dele ele não teria estuprado a filha de Robert (o que é o estupro senão ódio à mulher?) e não teria deixado o médico transformá-lo em mulher. Teria arrumado um jeito de fugir. Se ele ficava, penso que uma fantasia inconsciente sua &#8211; a de virar mulher &#8211; estava sendo realizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, se você observou atentamente o filme se lembrará que Vicente / Vera desenhava com frequência uma imagem na parede do seu quarto-prisão: uma mulher com vagina com uma casa no lugar da cabeça. Esta imagem concretiza de forma patente o seu conflito entre ser Vicente e ser Vera. Dito de outro modo: o que dilacerava o identidade de Vicente era que ele estava dividido entre o seu desejo de ser homem e de ser mulher, entre o desejo de voltar para casa (como Vicente) e de permanecer com Robert (como Vera).</p>
<p style="text-align: justify;">Robert também tinha uma identidade dilacerada, assim como todos os personagens do filme. Mas o dilaceramento identitário de Robert se dava por outro motivo: pela luta entre sua arrogância e sua humanidade. No mais íntimo de si mesmo, Robert odiava ser humano e não poder salvar sua esposa; ele odiava ter que suportar a morte e a perda daquilo que se ama; ele odiava ter uma pele frágil que queima e que perece ao tempo. Este dilaceramento desestruturante vai estourar, não nele, mas em sua filha que enlouquece e se mata como a mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">No fundo, penso que Vicente e Robert eram semelhantes: ambos não estavam em paz nas peles que habitavam. A mãe-criada de Robert percebe o desajuste de Robert quando diz que depois do acidente com sua esposa, eles viviam como vampiros: no escuro e sem espelhos. Viver sem espelhos significa temer se olhar no espelho e ver refletida a própria imagem dilacerada e disforme.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, voltemos à Vicente que, ao contrário de Robert (que é morto no final) representa um sopro de esperança frente ao dilaceramento de alma.</p>
<p style="text-align: justify;">No final do filme, diante do seu conflito identitário entre viver uma &#8220;nova&#8221; vida como Vera ou ir de encontro ao que deixara pra trás como Vicente, ele faz uma escolhe: escolhe retornar a sua casa, às suas origens.</p>
<h2 style="text-align: justify;">O desejo de voltar para casa</h2>
<p style="text-align: justify;">Penso que há aí um movimento de esperança: Vicente quer reencontrar a vida que tanto rejeitara e estragara. Ele quer voltar para a casa e, quem sabe, fazer as reparações necessárias. O aspecto dramático disso é que ele nunca mais será Vicente (o que foi feito de sua memória?) e tampouco é Vera. As consequências do seu desejo de estar na pele de outro foram fatais e inexoráveis. Não há retorno para o que ele se deixou fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, penso que o filme nos serve como alerta: não se pode querer ser outro; não sem consequências sérias para aquilo que somos.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Sou responsável pela pele que habito</h2>
<p style="text-align: justify;">Nietzsche diz algo valioso sobre o porque adoecemos na alma. Ele diz que a doença advém porque nós recusamos, em algum momento de nossas vidas, nos responsabilizar por aquilo que somos. Por preguiça, covardia ou medo nós damos às costas aos nossos atos e simplesmente achamos que podemos deixar tudo para trás e começar de novo!</p>
<p style="text-align: justify;">Ledo engano! Para Nietzsche, o preço que pagamos por este ideal ilusório é a doença. Viramos vampiros que não podem mais enxergar a luz do sol (porque na luz do sol a verdade sobre nós mesmos fica escancarada).</p>
<p style="text-align: justify;">Então, o que precisamos considerar como humanos é que não podemos nos desresponsabilizar por aquilo que somos, nos aspectos positivos e negativos. A pele que habitamos pode ser uma espécie de santuário sagrado ou uma prisão terrificante. Tudo dependerá do quanto cada um de nós poderá suportar enxergar a verdade, por mais dolorosa e terrível que seja.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/comentarios-sobre-o-filme-a-pele-que-habito/">A pele que habito</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2015 13:51:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[cinquenta tons de cinza]]></category>
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		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recebi nos últimos meses alguns pedidos de leitores para que eu comentasse o filme lançado no início do ano “Cinquenta tons de cinza”, baseado no livro de mesmo nome. Confesso que não costumo fazer posts por encomenda, já que a motivação para a minha escrita nasce do desejo, de algo que eu vejo, leio ou &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1324 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images-300x156.jpg" alt="images" width="300" height="156" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images-300x156.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/images.jpg 311w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Recebi nos últimos meses alguns pedidos de leitores para que eu comentasse o filme lançado no início do ano “Cinquenta tons de cinza”, baseado no livro de mesmo nome. Confesso que não costumo fazer posts por encomenda, já que a motivação para a minha escrita nasce do desejo, de algo que eu vejo, leio ou escuto e que me intriga gerando uma espécie de “comichão interno” que só passa quando eu me ponho diante da tela do computador e deixo o meu inconsciente trabalhar. E dentro de mim não havia nenhum desejo de ver o filme ou de ler o livro. Mas, pensando um pouco melhor a respeito, fiquei curiosa para saber o que, neste filme, havia atraído tantas pessoas. Por isso decidi assisti-lo e averiguar o que seria capaz de comentar sobre ele.</p>
<p><span id="more-1322"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se o livro é do mesmo teor do filme, mas assisti-lo me provocou um grande mal-estar e meu intuito neste texto é pensar por que. Depois será meu intuito refletir sobre a qualidade das vivências contidas neste filme e o que elas possivelmente evocam no espectador (ou no leitor).</p>
<p style="text-align: justify;">A história é a seguinte: Anastasia era uma jovem de 21 anos que até o presente instante não havia tido qualquer tipo de experiência sexual. Era, como ela mesma se descrevia, uma jovem romântica à espera de um grande amor para descobrir os prazeres do sexo. Trabalhava em uma loja de ferragens e morava em uma espécie de república com uma amiga que, nós poderíamos pensar, era o seu alter-ego. Esta sua amiga era concretamente o outro eu de Anastasia, ou seja, um aspecto dela própria que ela desconhecia em si mesma e que começará a se manifestar no seu encontro com o jovem sádico Christian. Esta sua amiga era atraente e mantinha relações promíscuas com os rapazes. Em suma, ela realizava os desejos sexuais perversos que, é provável, Anastasia negasse em si mesma.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Então, podemos nos perguntar: o que é uma pessoa romântica?</h2>
<p style="text-align: justify;">Uma pessoa romântica, numa reflexão psicanalítica, é alguém que nega a existência das pulsões agressivas e sexuais, em si mesma e no outro. Uma pessoa romântica quase sempre está esperando o melhor do outro, ela não enxerga os perigos da vida porque, em seu universo ideal, ela nega que o outro possa ser fonte de perigo, por causa de sua violência e crueldade ou por causa de sua sexualidade perversa. Uma pessoa romântica também costuma negar sua própria violência e sexualidade perversa, por isso tem muita dificuldade para se proteger das invasões e folgas das pessoas e acaba, quase sempre, metendo-se em enrascadas sem perceber sua parcela de responsabilidade nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">E é assim que o filme se inicia: Anastasia vai entrevistar Christian no lugar de sua amiga alter-ego. Fica bastante claro que a amiga folgada a usa nesta situação, diante da qual a romântica Anastasia mostra-se sem defesas. Em suma, ela se deixa ser usada pelo outro e é bastante provável que extraia algum tipo de prazer masoquista frente a estas situações. Anastasia, então, apresenta-se nesta entrevista ao sádico Christian (também seu alter-ego) com toda sua “docilidade” e “ingenuidade”. Pelo menos é assim que ela acredita ser; por isso uso as aspas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que Christian pressente, cheira que aquela jovem é uma potencial vítima sua. Ele cheira que ela é uma masoquista. Ele pressente que Anastasia sente prazer em ser submissa e dominada. Já ele, Christian, é a sua cara-metade. Ele é alguém que tem sua sexualidade fixada no sadismo. Ele é alguém que só sente prazer e só sabe se “relacionar” com o outro por meio da dominação e da violência. Deste encontro, fecha-se o vínculo: o sádico encontra a masoquista e eles começam a se “relacionar”. Christian dá vários indícios à Anastasia de que ela corre perigo. Ela, romântica, ingênua e negando o perigo bem como seus próprios desejos masoquistas, diz que ele pode se transformar pelo amor. Dá a entender que, no fundo, ele nunca pôde ser diferente porque nunca amou de verdade alguém. Movida por este engodo, sobre si mesma e sobre a sexualidade doentia de Christian, ela não o escuta. Ele apresenta a ela as regras contratuais, caso venham a se relacionar: ela não pode beber, ele não pode perdê-la de vista, ela tem que colocar o limite sobre o que ele pode ou não fazer com ela (introduzir objetos no ânus, dedo na vagina, amarrar, queimar, furar, etc.), eles não terão encontros “normais”, como se fossem namorados e, o mais importante, nunca vão dormir juntos (isso seria muito íntimo para ele).</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, Christian diz a ela que só consegue ficar ao seu lado se ela se apresentar a ele como um objeto e não como uma pessoa. Ela deve se submeter a ele. Depois de muito vai-e-vem, ela aceita. Há um diálogo interessante entre eles quando ela, já tentando se desvencilhar do controle sufocante de seu “amado”, vai até a casa de sua mãe (também uma romântica) e ele a segue até lá. Ele diz assim: “Você vai gostar do que vai acontecer com você. Deixar-se ser dominada é um modo de não assumir responsabilidades, não fazer escolhas. É só se deixar levar”. Ela, mais uma vez, aceita.</p>
<p style="text-align: justify;">A coisa vai seguindo até que Anastasia começa a perceber a gravidade da situação. Christian mostra-se frio, distante, não pode ser um namorado para ela, levá-la para jantar, não pode deixar que ela o toque. Em suma, não está psiquicamente disponível para ela. Então, a jovem diz: “Tudo bem, me mostre o que de pior você pode fazer comigo”. Em resumo, ela diz: “Ok, vamos parar com este jogo de faz-de-conta. Seja quem você é de verdade”. Ele mostra: leva-a a sala de tortura e bate violentamente nela.</p>
<p style="text-align: justify;">Anastasia-cinderela acorda de seu conto de fadas. Contando com seus recursos internos (seu aspecto que não cedeu ao prazer masoquista que ela sentia em ser dominada), Anastasia se dá conta de que não havia uma relação entre ela e Christian e que nunca poderia haver. Christian era uma pessoa doente, muito doente. Alguém que nunca pôde (e talvez nunca pudesse vir a) apreender o que era uma mulher. O único modo de “relação” que podia estabelecer era o da superioridade-inferioridade, do dominador-dominado, do mais (homem) e do menos (mulher). Christian era um perverso. A sexualidade de Anastasia também era animada por elementos perversos (masoquistas), como é animada a de todos nós, mas ela tinha mais recursos internos para não sucumbir à doença. Por isso partiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos agora um<a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1300 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/01/imagem-curso-psicanalise-150x150.jpg" alt="imagem-curso-psicanalise" width="150" height="150" /></a>a pausa para alguns alinhavos com a teoria psicanalítica das perversões.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira vez que Freud sistematizou seu pensamento acerca das perversões foi no seu célebre artigo “Três ensaios sobre a sexualidade”, publicado pela primeira vez em 1905. Curiosamente este texto, junto de “Interpretação dos sonhos” (1900) foi o que Freud mais modificou ao longo de sua obra. Em parte isso se deveu ao fato de que a teoria sexual elaborada por ele – cerne da psicanálise – foi fruto de muitas reelaborações posteriores por parte do autor.</p>
<h2 style="text-align: justify;"> Mas, o que ele diz neste texto sobre as perversões e mais especificamente sobre o sadismo / masoquismo?</h2>
<p style="text-align: justify;">Freud descobriu em suas investigações clínicas que a sexualidade infantil é orientada pelo que ele chamou de sexualidade perverso-polimorfa. O que seria isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Sexualidade perverso-polimorfa é toda forma de manifestação da sexualidade que não se relaciona aos órgãos genitais (pênis e vagina).</p>
<p style="text-align: justify;">Então, Freud descobriu que a criança sente prazer sexual de várias formas: ela sente prazer em sugar o seio da mãe, ela sente prazer em ser tocada em sua pele, em evacuar com violência, depois de reter as fezes, fazendo-as passar com volúpia pelo ânus, em ver os órgãos genitais alheios e em exibir os seus próprios.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela também sente prazer em provocar dor no outro. Esta forma de obtenção de prazer Freud chamou de sádica. Sua explicação para isso resume-se a uma espécie de fusão ou confluência entre a pulsão sexual (libido) e a agressiva. O auge da manifestação desta forma de prazer sexual se dá por volta dos dois anos, quando a criança, no auge do seu sadismo, sente prazer em controlar o outro (normalmente a mãe) com suas vontades e desejos. A mãe diz: “Vai tomar banho.” A criança responde triunfante: “Não”. Nesta fase a criança também sente prazer em maltratar animais e outras crianças. E também sente prazer em se provocar dor. A esta reversão do sadismo para o próprio ego Freud chamou masoquismo. Importante aqui é considerar que estas formas perversas da sexualidade sempre comparecem aos pares, como é bem descrito no filme. Então, temos o par sadismo-masoquismo e o par exibicionismo-voyeurismo. Dito em termos mais simplistas, onde há a pulsão sádica, há seu reverso, o masoquismo. Onde há o desejo de se ver o genital alheio, há o desejo de exibir o seu próprio.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda algo importante a ser dito. Para Freud, a expressão da sexualidade perversa, no caso, a sádica, não pode ser considerada doença enquanto se manifesta de forma plural (ou seja, de várias maneiras) na infância e nem de forma compulsiva / exclusiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ele, a perversão passa a ser considerada uma doença quando ela se manifesta na vida adulta: 1) de forma exclusiva e compulsiva, ou seja, a pessoa só sente prazer submetendo o outro ou sentindo dor, por exemplo; 2) quando esta forma de prazer substitui o prazer genital. Por isso dizemos que Anastasia era menos doente que Christian.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, na medida em que pulsão sádica se expressa, digamos, como uma forma preliminar de obtenção de prazer que culminará no encontro sexual-genital com o outro, isso não pode ser considerado doença. No senso-comum vemos a manifestação desta pulsão sádica, de forma não exclusiva, por exemplo, no dito popular: “Um tapinha não dói”, dito este que frequentemente vemos evocar músicas que fazem as pessoas dançarem mobilizadas por este tipo de fantasia sádica.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra coisa problemática do estabelecimento da sexualidade perversa de forma compulsiva e exclusiva (na psicanálise, dizemos que houve uma fixação) é que, por ela se dar no período do sadismo anal, a pessoa não pôde atingir em seu desenvolvimento aquilo que chamamos de uma relação de objeto total. Para a pessoa fixada na sexualidade perversa o outro não é uma pessoa, diferente dela. O outro é visto como um objeto (parte de si mesmo). Como nesta etapa a criança ainda não compreende a diferença entre os sexos, pessoas fixadas neste período acabarão por ver a mulher como um ser inferior (sem pênis) e o homem como um ser superior (com pênis). A única diferenciação possível aqui é entre o ativo e o passivo, o superior e o inferior. O respeito à alteridade não está presente neste tipo de vivência. Esta questão é bastante evidente no filme: Christian nutria desprezo pela figura feminina. Em seu inconsciente a figura feminina estava associada a um menos. Só servia para ser submissa e mandada. Foi isso que Anastasia não suportou e é por isso que o filme evoca mal-estar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mal-estar advém do fato de que o que vemos se desenrolar na tela não é uma história de amor (um homem e uma mulher, com funções diferentes e complementares). O que vemos é algo doentio, sufocante. É como se fossemos adentrando uma espécie de bolha no qual os dois personagens matam e deixam-se matar. Digo isso porque o sofrimento do perverso é evidente: ele está condenado a não poder se relacionar de verdade, exceto se o outro se adequar exatamente às suas premissas, o que é impossível numa relação humana. Ficamos felizes no final por Anastasia conseguir partir. Só ficamos curiosos para saber o que ela fará a partir de agora com aquilo que descobriu sobre si mesma: sua atração pelo universo mórbido das perversões, seu irrefreável desejo de ser submissa e dominada pelo homem.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação retratada no filme entre Anastasia e Christian está longe de ser uma criação distanciada do que acontece na realidade. Ao contrário. São inúmeros os casais que se destroem por causa de suas pulsões sadomasoquistas. Não é incomum que a mulher, nutrida pelo ingênuo desejo de transformar o homem (“ele vai me amar”, “eu vou transformá-lo”), como Anastasia, permaneça na relação destruindo a si mesma com uma ferocidade terrível. O homem, por seu turno, vence quando derrubar a parceira, quando transformá-la em menos que nada. Muitos crimes passionais eu penso que estejam animados por estes desejos sexuais ferozes. É o aspecto doentio da sexualidade humana que se apresenta com toda sua complexidade e sofrimento repetitivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta ainda cumprir minha segunda meta: Por que as pessoas se sentem tão atraídas por filmes (livros) com este tipo de temática?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta mais óbvia, mas também a menos simpática é: por que o filme retrata desejos sexuais que habitam o inconsciente de todos nós. Todos nós carregamos moções de sexualidade perversa, sádico-masoquistas, voyeristas-exibicionistas. Se assim não fosse porque dançar freneticamente ao som da música: “Dói, um tapinha não dói”? E este não é o problema, pois como alertava Freud: “O normal sonha à noite com aquilo que o perverso realiza”. O problema é estarmos desavisados sobre estes desejos inconscientes, que só podem ser conhecidos na análise. Era o caso de Anastasia. Em uma análise, ela certamente iria descobrir-se uma pessoa muito diferente daquilo que ela imaginava ser. Por trás de sua ingenuidade romântica o que haveria? Que desejos encontraríamos aí?</p>
<p style="text-align: justify;">Acho, então, que as pessoas se sentem atraídas e seduzidas por algo que retrata aquilo que elas sentem, mas que não conseguem nomear. Não conseguem sequer localizar que o que o filme exibe não faz parte de um universo de relações saudáveis entre um homem e uma mulher. Não conseguem localizar que o que é retratado é o indigesto e sombrio universo das relações perversas. De alguma forma, as pessoas se vêem retratadas na Anastasia e no Christian, sem poderem discriminar muito bem o que é saudável do que não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha conclusão sobre o filme é: este não é um filme pornô-soft como ouvi dizer na mídia. Este é um filme sobre como a sexualidade humana pode adotar características bizarras, doentias e empobrecedoras. Este é um filme sobre como a relação homem-mulher pode adquirir características bizarras quando os dois parceiros estão inconscientemente envolvidos num conluio sadomasoquista.</p>
<p style="text-align: justify;">Como dizia Freud em “Três ensaios” (1905), a sexualidade perversa humana é a que mais resiste ao trabalho civilizatório e a “normalidade” no que tange à sexualidade humana está longe de ser um fato incontestável. Trocando em miúdos, na intimidade de um casal, desejos perversos do tipo sadomasoquistas podem ligar as pessoas muito mais do que elas imaginam. Ou você nunca reparou quanto casais extraem um prazer incrivelmente mórbido de suas brigas violentas?</p>
<p style="text-align: justify;">Se você quiser conhecer outro filme que trata do mesmo tema com uma carga de dramaticidade interessante e onde são retratadas várias perversões, inclusive o fetiche, pode assistir “Veludo azul” de David Lynch.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/cinquenta-tons-de-cinza-a-perversao-a-luz-da-psicanalise/">Cinquenta tons de cinza: a perversão à luz da psicanálise.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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