O tempo é um monstro que engole tudo. Esse foi o pensamento que me ocorreu hoje, logo pela manhã, sobre o qual me coloquei a pensar seriamente. Por que esta frase, categórica, enfática, povoa minha mente justo nesta terça-feira, dia 02 de dezembro, às sete da manhã? Penso na proximidade do final de ano. Data ingrata, sinistra, que sempre mobiliza angústias intensas, atávicas. O ser humano transita entre dois pólos, a vida toda. Busca estabilidade e busca mudança, transformação.
Categoria: Reflexões sobre o cotidiano
Memórias-sonho de uma viagem rumo à natureza selvagem.
Acabo de fazer uma viagem linda com o meu marido. Juntos, trouxemos na bagagem, além de fotos e memórias, algumas aprendizagens valiosíssimas. Uma viagem, assim como qualquer nova experiência, quando contida pela mente daquele que a vivencia, enriquece e amplia o psiquismo. Dito de outro modo, quando uma experiência desconhecida pode ser processada e sonhada pela mente, há expansão mental que leva a novos desenvolvimentos e aprendizagens. Mas, quando o contato com o desconhecido é angustiante demais e, por isso, evacuado, nada se pode aprender de novo. Volta-se o mesmo que se foi.
Mas, vejamos o que eu pude sonhar (no sentido utilizado por Bion) nesta linda viagem.
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Mata-se uma criança – parte I
Neste texto partirei do estimulante livro “Mata-se uma criança” do psicanalista francês Serge Leclaire (1977), que acabo de ler, para desenvolver minhas próprias elaborações a respeito deste tema tão sinistro e fortemente evitado, mesmo entre os psicanalistas.
Leclaire parte da seguinte ideia: aceitamos com alguma tranquilidade a presença de desejos assassinos dirigidos ao pai e a mãe da criança edipiana. Mas, a fantasia de matar crianças, animada pela mente dos genitores, é algo, segundo ele, fortemente evitado e que causa repulsa.
Sustentando sua argumentação, cita que na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, o personagem trágico Édipo só assassinou o pai e desposou a mãe porque a criança, que foi enviada pelo pai para morrer no monte Citerão, foi encontrada por um pastor. Para quem não conhece a tragédia, vamos a um breve resumo:
Os irmãos Karamázovi: da expiação ao conhecimento.
Conforme prometido, irei me debruçar agora mais profundamente na obra “Os irmãos Karamázovi”, publicado por Fiódor Dostoiévsky em 1879. Como disse em texto anterior, tenho ficado encantada com a capacidade deste escritor russo – o primeiro a escrever romances psicológicos em que a alma humana é dissecada em profundidade – a mergulhar nas paixões humanas.
Este livro, talvez mais do que “Crime e castigo”, retrata o homem tal como ele é: ser pulsional e apaixonado, primitivo, às vezes cruelmente sórdido e vil, mas que também aspira a uma existência sublime, adquirida por meio da busca pela verdade e pelo reconhecimento da nossa condição miserável, paradoxal e ambígua.
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A bondade e a maldade humana.
Em uma entrevista exibida em meados de 2012 a atriz Camila Morgado que, na época ensaiava a peça “Palácio do Fim”, dirigida por José Wilker, conta sua difícil e dolorosa experiência nos ensaios.
Sua tarefa era encarnar a figura de Lynndie England, uma das onze militares julgadas e condenadas pela corte marcial dos Estados Unidos, em 2005, pelas violentas e atrozes torturas cometidas contra prisioneiros em Abu Ghraib (Bagdá), durante a ocupação do Iraque.
Questionada sobre qual estava sendo sua maior dificuldade durante os ensaios, ela descreve seus sentimentos da seguinte forma:
Dostoiévski: uma leitura profunda sobre a alma humana.
Acabo de ler duas das principais obras-primas escritas pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski – “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamazov” – e estou absolutamente fascinada com a sua capacidade de mergulhar fundo em questões humanas universais.
Apesar de Freud ter enfatizado em suas análises sobre o escritor russo a questão do parricídio, eu gostaria de lançar luz sobre alguns outros aspectos humanos que, a meu ver, estão muito bem delineados em suas obras.
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Quando a competição vale mais que a compaixão? Reflexões sobre os tristes acontecimentos da Copa 2014
Começarei minha exposição fazendo uma escuta analítica de uma das frases que mais ouvi desde a derrota do Brasil, vivida tragicamente por todos nós, no último sábado: “Isso parece um pesadelo!”
Thomas Ogden, um dos mais estimulantes analistas contemporâneos, ensina-nos que pesadelos são “um sonho em que a pessoa acorda com um terrificante sentimento de medo”.
A coragem nossa de cada dia – parte II
Em virtude dos comentários interessantíssimos que recebi sobre o meu último texto, A coragem nossa de cada dia, resolvi escrever novamente sobre este tema, que me parece central à vida humana.
Vou sistematizar os comentários que recebi para depois propor um diálogo com eles, a partir da perspectiva que já é incorporada no meu modo de interpretar o mundo e a minha presença nele, ou seja, a psicanálise.
A coragem nossa de cada dia
Você já percebeu como ousar realizar um sonho pode ser muito perigoso para nós, seres humanos?
Experimente contar que você está realizando um sonho há muito acalentado para ver a reação que irá provocar nas pessoas. A miríade de possibilidades é imensa. Algumas dirão que todo o sacrifício que você está fazendo em prol deste sonho não vale a pena.
Aproximações entre o pensamento de Nietzsche e a psicanálise.
O filósofo alemão Nietzsche (1879-1900) morreu exatamente no mesmo ano em que Freud publicava o seu magistral livro “Interpretação dos sonhos”. Freud certamente leu Nietzsche, mas o contrário não aconteceu.
Entretanto, para aqueles que estudam Freud e começam a tomar contato com o pensamento do filósofo, logo percebem os inúmeros pontos de contato entre ambos. E é sobre alguns destes pontos de convergência que eu quero tratar aqui.
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