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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Thu, 06 Aug 2015 00:18:57 +0000</lastBuildDate>
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		<title>O homem que prendia pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2015 08:30:37 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cena era brutal: pássaros que nasceram livres, lindos e coloridos, debatendo-se violentamente contra as grades da prisão. Aqueles pequenos pingos de milagre no meio do dia debatiam-se com tanta força e intensidade que de suas asas brilhantes o sangue já começava a verter; feridas fundas iam se formando por suas batidas frenéticas. A violência &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-homem-que-prendia-passaros/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O homem que prendia pássaros</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A cena era brutal: pássaros que nasceram livres, lindos e coloridos, debatendo-se violentamente contra as grades da prisão. Aqueles pequenos pingos de milagre no meio do dia debatiam-se com tanta força e intensidade que de suas asas brilhantes o sangue já começava a verter; feridas fundas iam se formando por suas batidas frenéticas. A violência havia se imposto e os seres miraculosos nada podiam fazer contra ela. Estavam presos, vítimas da brutalidade. Marina e Pedro avistaram a cena horripilante soltando um grito surdo de horror.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina, frágil demais para suportar tamanha dor, sentiu seus olhos inundarem. Queria segurar a inundação que deixava sua alma exposta, mas não podia. Era translúcida demais.</p>
<p>Pedro, mais vigoroso de alma, pôs-se imediatamente a matutar como usaria sua força de leão para salvar os pingos de vida. Marina teve medo por seu amado, pois pensou que ele teria que ser tão robusto e vigoroso quanto às grandes gotas de chuva que lavam a poeira do horizonte, tornando-o límpido e fresco.</p>
<p><span id="more-1387"></span></p>
<p>Animados um pela força do outro – Pedro, pelas lágrimas da dor criadeira dos olhos castanhos de Marina e ela, pela coragem de seu amante-amado – puseram-se a caminhar como dois valentes guerreiros que não se importariam em dar a vida pela vida. Caminhando em passos firmes, avistaram o responsável pelo crime atroz.</p>
<p style="text-align: justify;">A bocarra do homem era infernal. De seus olhos vertia sangue. Marina olhava estupefata a cena. Não conseguia tirar seus olhos do sangue nos olhos do homem. De sua boca vertia um veneno fétido e viscoso. O clima era tenso e explosivo. Alguém iria morrer ali, era o que Marina silenciosamente pensava. Ou quem sabe a morte já tivesse sido realizada tempos atrás e Pedro, com seu ar majestoso, estivesse tão somente trazendo a verdade à luz? Marina lembrou-se dos vampiros e teve febre de medo.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de instantes aterradores de silêncio denso, Pedro deu o primeiro passo:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>      &#8211; Por que você prendeu os lindos pássaros?</em></p>
<p style="text-align: justify;">O homem, como uma enguia, fez-se de desentendido.</p>
<p>Mais enfático, Pedro continuou:</p>
<p><em>     &#8211; Você não sabia que prender pássaros que nasceram livres é um crime? Por que os prendeu?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Marina, pálida, percebeu que olhos sanguinários do homem pareciam prestes a explodir de cólera. Nesta luta ferrenha entre a explosão e o contorcer da enguia, venceu a segunda. O homem começou a se contorcer freneticamente fazendo um movimento convulso pra frente e pra trás. Seus olhos, antes prestes a explodir, ganharam um ar de aparente submissão, enquanto o seu corpo todo se contorcia, liso, invertebrado e pegajoso. Marina pensou que talvez ele quisesse deixar Pedro confuso com este ziguezaguear de corpo que adquiria um ar de fragilidade artificial. Sua voz tornou-se mais melodiosa como uma sereia encantatória. Mas Pedro, que era valente de alma, não se deixou seduzir.</p>
<p style="text-align: justify;">      <em>&#8211; Fale, homem. Pare de se contorcer como uma lesma. Por que prendeu aqueles lindos pássaros? Eu vou soltá-los agora. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Com uma voz patética, o homem respondeu:</p>
<p><em>     &#8211; Eu não fiz nada demais, senhor! Eles cabem lá dentro. O que eu fiz não é ilegal, eu juro. </em></p>
<p>Pedro respondeu, retumbante:</p>
<p><em>     &#8211; Mas você também cabe lá dentro. E se fosse você a ser colocado na prisão?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Marina não podia acreditar no que estava ouvindo. O que mais doía em Marina não era propriamente os pássaros presos – isso ela sabia que iria resolver o mais breve possível com seu querido Pedro. O que mais lhe doía era a queda na mentira, o ziguezaguear da enguia, as seduções do falsear do pensamento que levam a caminhos terrivelmente perigosos e sem volta. Em um átimo de luz, então, Marina pôde compreender que o sangue nos olhos do homem era dele mesmo. Era ele que estava preso para sempre em seu ser invertebrado. E era por estar preso que prendia os lindos pássaros. A vida, para aquele homem, não valia mais nada. Deste seu vislumbre, sentiu alguma compaixão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como para o mal não há perdão (embora para o homem que o pratica sim, pois no final são como crianças), Marina e Pedro tinham pressa em salvarem os lindos pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixaram o homem-enguia contorcendo-se como um pobre diabo para trás e rumaram resolutos à prisão de pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram as mãos pequenas e frágeis de Marina que abriram as grades. Talvez Pedro sentisse que eram as mãos da infância que deveriam ajudar nascer liberdades. E então, os dois se colocaram sob o lindo sol crepuscular, debaixo de uma grande figueira para assistem ao espetáculo sublime da redenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Um a um, os pássaros brilhantes redescobriram o prazer de baterem suas asas potentes e fortes em pleno ar. Um a um, deixaram para trás a prisão que mata a vida. Um a um, como pequenos pontos de milagre no meio da tarde, conquistaram a liberdade do voo e foram para bem longe do homem de sangue nos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina chorou novamente, mas agora de alegria sublime. Seu frágil peito doía de tanta felicidade, de tanto orgulho, de tanta vida. Em tom de oração, Marina rezou e pediu ao deus-natureza que ajudasse estes pequenos pássaros a não mais voltarem para nenhum tipo de prisão, para nenhum tipo de homem de sangue nos olhos. Pensou também, como um suspiro, que a vida é frágil e milagrosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois, agarrou as mãos firmes do seu jovem Pedro e partiu feliz, como bebê recém-amamentado de amor.</p>
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		<title>Os sons da vovó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2015 08:30:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A avó era surda como uma múmia. Incomunicável com o mundo, habitava um universo próprio, todo seu. Tinha medo de sair dele. Pavor mesmo. Sons humanos soavam em seus ouvidos como gritos horripilantes. Virgínia, a neta, tinha paixão pela esquisitice da avó. Suas peles flácidas, seus olhos caídos, sua tez branquíssima fazia Virginia se lembrar &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-sons-da-vovo/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Os sons da vovó</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A avó era surda como uma múmia. Incomunicável com o mundo, habitava um universo próprio, todo seu. Tinha medo de sair dele. Pavor mesmo. Sons humanos soavam em seus ouvidos como gritos horripilantes. Virgínia, a neta, tinha paixão pela esquisitice da avó. Suas peles flácidas, seus olhos caídos, sua tez branquíssima fazia Virginia se lembrar de um fantasma ou de uma bruxa. O silêncio da morte se aproximando era completamente misterioso para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia dias em que a mãe de Virgínia, por um motivo qualquer, pedia para que a menina tomasse conta da velha. Eram momentos de puro terror e fascinação. A avó, muito velha e branca, era colocada sentada imóvel em uma cadeira de balanço antiga bem em frente à janela que dava para um pequeno jardim lateral da casa. A miúda se sentava, dura, ao lado da avó, em uma pequena cadeira. Ambas permaneciam imóveis a tarde toda. Virginia punha-se a observar atentamente cada pequeno movimento da velha, enquanto pensava com os seus botões:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1353"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Como será que ficará seu corpo depois de morto? Será que ficará duro como o corpo de um gato que morreu outro dia mesmo em nossa rua? Quanto tempo será que demora para que os vermes comecem a nos comer?</em></p>
<p style="text-align: justify;">As tentativas de estabelecer uma conversa minguada com a avó eram infrutíferas e logo desanimavam a menina. A avó não ouvia absolutamente nada e a necessidade de ter que repetir a mesma pergunta infindáveis vezes até que ela pudesse compreender pelo menos uma parte do que lhe era dito, desanimava Virgínia antes mesmo de ela tomar coragem e abrir a boca para dizer qualquer coisa que fosse.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto havia algo na avó que hipnotizava Virgínia. No fundo, ambas eram semelhantes em suas almas. Ambas eram alisadoras de silêncios. Tanto uma quanto a outra poderiam permanecer horas ou dias completamente em silêncio simplesmente a olhar fixamente para uma pequena formiga que se locomovia paciente em seu caminho de açúcar.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, elas eram contempladoras do nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Este era o pacto secreto entre elas. Virginia, vista pelos outros membros da família como uma criança bem esquisita, era a única capaz de compreender a alma silenciosa e surda da velha. Sim, Virgínia sabia que neste silêncio mudo havia um pedido. Sim, Virgínia sabia que a avó queria morrer, que já estava cansada da vida, que já estava cansada de sons humanos, que não via mais nenhuma graça na luta infindável que é estar vivo. Virgínia – a esquisita – compreendia a dor funda carregada pela alma de sua velha avó. No fundo, Virgínia sentia o mesmo. Mesmo sendo criança, sua alma, que também era velha, às vezes ficava profundamente cansada da vida. Seu olhar astuto não lhe permitia acreditar em falsas esperanças ou em concessões. Sim, Virgínia sabia que viver era um peso e que – coitada da avó – já devia ter experimentado tanto deste peso da vida que devia estar cansada que só.</p>
<p style="text-align: justify;">A menina chegava a pensar em algo bastante revolucionário. Pensava que se pudesse criar o seu próprio país, nele as pessoas já velhas teriam a liberdade de poder escolher quando e como gostariam de morrer. Se estivessem já muito cansadas da vida, como era o caso de sua pobre avó, poderiam morrer caso quisessem. Neste país, a morte não seria tratada como um tabu, mas como um processo natural da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Afinal, se formigas morrem, leões e macacos morrem, estrelas morrem, porque nós haveríamos de ser eternos? </em></p>
<p style="text-align: justify;">Certo dia Virgínia teve uma ideia que a ela parecia genial: convocaria uma reunião com os membros familiares, incluindo tios e primos, para que pudessem encontrar uma maneira de fazer com que a avó voltasse a ouvir e a se interessar pelo mundo humano.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Sim. Desta forma a velha poderia voltar a ouvir os lindos sons que rondam a vida: o barulho da água da chuva, do beija-flor, das abelhas zunindo no jardim, do cão latindo, uma bela música de igreja, que sua pobre avó tanto gostava. Quem sabe assim ela não voltaria a ter vontade de continuar vivendo, nem que fosse só mais um pouquinho?</em></p>
<p style="text-align: justify;">É que Virgínia, ao mesmo tempo em que sabia com consciência aguda que viver é um peso, também sabia e sentia que havia algumas poucas coisas na vida que eram belas demais para deixarem de ser ouvidas pelos ouvidos humanos. Estas coisas tão lindas que enchem o coração humano de uma alegria sublime quando escutamos uma linda música ou o correr dos pingos da chuva em um dia frio, Virgínia queria poder compartilhar com a avó em seus derradeiros momentos de vida. Ela não queria deixar de ajudar sua velha avó a experimentar a beleza de ouvir determinados sons perfeitos que emanam da natureza. Virgínia também sabia, lá no fundo de sua pequena alma, que sua velha avó havia desistido de ouvir os sons humanos porque estes eram violentos demais, feios demais, sinistros demais para os delicados ouvidos daquela pobre criatura. Então, num ato que parecia de rebeldia, mas que era de pura liberdade, ela havia deliberadamente desistido de ouvir os sons humanos, passando a habitar o mundo dos seus próprios sons.</p>
<p style="text-align: justify;">Acontece que Virgínia, com sua alma sensível demais e doída demais, não suportava ver acidentes de percurso deste tipo. Ela precisava fazer alguma coisa. Por isso teve a ideia de marcar a reunião.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia da reunião, a pequena tomou à dianteira:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não podemos mais permitir que vovó se recuse a ouvir o som da vida! </em></p>
<p style="text-align: justify;">Ao dizer isso, Virgínia sentiu de um modo caótico que havia proferido palavras proibidas e heréticas. Sentiu confusamente que aquilo havia sido demais – lembrar a todos que vida tem som. Ela pagaria um alto preço por isso que havia acabado de fazer. Imediatamente Virgínia, em um estado que parecia de sonho-pesadelo, sentiu bocarras enormes vindo em sua direção. O primeiro a vociferar foi o tio:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Mas, ela não quer mais ouvir. </em>Disse gritando. <em>É uma teimosa. Não adianta. Para mim isso é perda de tempo, bobagem. Ela é teimosa como uma porta.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A pequena Virgínia, tão frágil e valente, sentiu uma profunda dor no peito. Havia sido ferida em cheio. Ferida em sua minguada esperança na vida. Confusa e cheia de dor, sentiu uma mistura de vergonha e culpa por ter ousado desejar tanta vida. Teve vontade de recuar como um caramujo envergonhado de sua existência. Com todo o ardor do seu coração, pensou:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Criatura estúpida. Não sabe que é exatamente por isso que vovó não quer mais ouvir? Ela desistiu dos sons dos seres humanos por sentir que neles só se ouve grito, ódio e revolta. Precisamos ajudá-la a perceber que há outros sons mais bonitos e melódicos na vida: os sons que vibram lá do fundo do coração.  </em></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, Virgínia estava fraca demais para se defender. Além disso, sabia que era só uma criança no meio de adultos rancorosos e inconsequentes. Mas, havia ainda uma esperança: seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu pai, assim como a avó e a própria Virgínia, eram alisadores de silêncio e devotos de passarinhos. Tinham alma livre e delicada de boto. A pequena, com lágrimas nos olhos, lançou seu último grito de esperança. Olhou profundamente nos olhos do pai, que estava escondido em um canto da sala, repleta de bocarras, e desejou com todo o seu coração que ele – o pai – tivesse coragem de ajudá-la a lutar pelo som da vida. Neste instante seus olhos se encontraram num ato sublime de pura amorosidade e o pai entendeu o coração da filha maldita.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma transmutação milagrosa, ele inchou o peito antes minguado e, com voz firme e grossa, disse a todos:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;<em> Egoístas. Não conseguem compreender que a vovó desistiu de ouvir porque não quer mais ouvir suas vozes monstruosas vociferando maldades? Não percebem que vocês estão matando os seus ouvidos um pouco por dia, com tanto ódio e tanta revolta no coração? </em></p>
<p style="text-align: justify;">Ao proferir estas palavras com maestria e coragem, vi que os olhos do titio se encheram de lágrimas. Sim, seu coração havia sido tocado. O ser humano que ainda habitava o seu peito havia sido acessado por papai, o corajoso.</p>
<p style="text-align: justify;">E a vovó, que estava como estátua paralisada em sua cadeira de balanço eterna, levantou-se como um cisco e disse:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Sim, agora estou ouvindo. Agora posso ouvir. Pássaros cantam lá fora uma linda canção. Embalados por ela, cortejam-se para acasalar. Deste acasalamento um lindo passarinho nascerá. A este passarinho daremos o nome de esperança.</em></p>
<p style="text-align: justify;">E todos os membros daquela difícil família, ao ouvirem esta linda oração da boca de vovó, puseram-se de joelhos em sinal de perdão. Haviam finalmente voltado a serem seres humanos. Haviam finalmente voltado a sentirem o som de seus corações apertados e miúdos de tanta dor, de tanta luta, de tanto ódio.</p>
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		<title>(In)definições</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2015 08:30:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Amor é quando você chega devagarinho e vai ficando. Passarinho é um pingo de milagre no meio do dia. Alegria é quando o corpo inteiro de enche de bolinhas elétricas. Medo é um sem-nome que insiste em ficar. Amizade é quando um entra no outro como se fosse num santuário. Beleza é aquilo que preenche &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/indefinicoes/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">(In)definições</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Amor é quando você chega devagarinho e vai ficando.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Passarinho é um pingo de milagre no meio do dia.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Alegria é quando o corpo inteiro de enche de bolinhas elétricas.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Medo é um sem-nome que insiste em ficar.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Amizade é quando um entra no outro como se fosse num santuário.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Beleza é aquilo que preenche o olho até gastar.</span></p>
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		<title>Identidade</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/identidade/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2015 08:30:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Qualquer esforço em direção ao telefone era impossível para mim. Havia uma premonição tenebrosa se formando: a de que quanto mais eu caminhasse para o abismo, mais desgarrada e infiel aos padrões eu me tornaria. Uma revolta crepuscular queimava em meu peito e eu dizia a mim mesma: &#8211; Não. Não quero mais esta selvageria &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/identidade/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Identidade</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Qualquer esforço em direção ao telefone era impossível para mim. Havia uma premonição tenebrosa se formando: a de que quanto mais eu caminhasse para o abismo, mais desgarrada e infiel aos padrões eu me tornaria. Uma revolta crepuscular queimava em meu peito e eu dizia a mim mesma:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não. Não quero mais esta selvageria mentirosa. Todos estão doentes, verdes e desmantelados. Por que só eu percebo isso?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Minha única vontade era enrolar-me em mim, como caracol enegrecido, cauda junto de cabeça, pele junto de pele, até formar uma só coisa, um só nada. Até sumir.</p>
<p style="text-align: justify;">Brotava em mim, de forma desenfreada, um puro desejo de não ser mais. Nada de telefonemas, de metáforas, de meios sorrisos, de olhares que se desencontram das palavras. Meu ser clamava pela verdade. Sem ela, me recuso agora a viver. O telefone olhava para mim, com ar impaciente. Precisava ligar para o banco, resolver pendências. É que eu havia perdido minha identidade e não sabia onde ela havia ido parar. O problema &#8211; e nisso residia grande parte da minha vergonha &#8211; eu havia sido descoberta em minha ausência de identidade pela linda moça do banco que, cheirosa e malévola, atendia sorridente aos clientes do dia.  Descobri que estava completamente sem identidade justo diante daquela linda moça. Fiquei estarrecida, envergonhadíssima. Ela, babando de prazer por ver minha dor e culpa, disse triunfante, para todo mundo ouvir:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1363"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não posso fazer nada por você, meu bem. Nada me prova que você é você mesma! Precisa de sua identidade.. Como saiu de casa sem ela?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Pronto. Agora eu estava desnuda diante de alguém em quem eu sentia não poder confiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Só de me lembrar do olhar medonho e cítrico da linda e gentil moça do banco que, tremendo de prazer por dentro, dizia que eu precisava provar que eu era eu, que sem isso ela não poderia me ajudar e que, sem a minha identidade tal prova não seria possível, eu explodia de dor e de vergonha, por repassar, detalhe por detalhe, aquela cena vexatória. Sentia-me culpada por estar ali, despida, uma sem identidade, diante da moça linda do banco. Aquela que parecia ter uma identidade tão sólida e bem apanhada. Aquela que não havia carregado o fardo de ter nenhum tipo de dúvida a respeito de quem ela era.</p>
<p>Lembro-me exatamente dos seus olhos de dinossauro mirando o meu colar de pérolas. Ela babava como criança frente aos tesouros maternos. Boca cavernosa se abria e se fechava. Meu coração palpitava. Sabia que estava prestes a ser engolida por aqueles olhos de carniça.</p>
<p>Mais uma vez insisto em perguntar se não poderia me ajudar. Afinal, eu estava sem identidade somente naquele dia. Não era sempre que eu saia sem identidade por aí&#8230;</p>
<p>Responde, insolente, com um sonoro NÃO. Afinal, como eu poderia provar que eu era eu mesma? Pois é. Como eu poderia provar que eu era eu mesma? Cena insólita. Quem eu sou? Eu sou eu? Como provar? Prova? E eu permaneci ali, olhando, tonta, aquela bocarra de dinossauro, rindo para mim. Assumi minha incompostura e senti vergonha.</p>
<p>&#8211; <em>Como ousei sair de casa sem documento? Sem identidade? Eu não sabia que não há espaço lá fora para os sem identidade?</em></p>
<p>Agora estava eu aqui, humilhada, sendo vomitada pela linda moça com olhos de Calígula. Eu, a que não tinha identidade. Baixei a cabeça, em sinal de vergonha e luto, e assumi minha condição sem identidade. Pude sentir em minhas costas seu olhar de triunfo:</p>
<p>&#8211; <em>Lá vai a pobre coitada. Sem identidade!</em></p>
<p>Fui para casa, assumindo todo o peso da podridão dos sem identidade. Morte a eles! E agora estava eu aqui a relembrar toda esta cena dolorosa, que destampou minhas carnes, tornou tudo tão explicito: Eu era sem identidade. Senti raiva e fúria.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois deste episódio, fui para casa. Humilhada, a cada dia eu religiosamente ligava para o banco, exatamente às dez da manhã &#8211; era este o horário que a instituição abria suas portas ao público &#8211; e perguntava à linda moça se ela havia, finalmente, encontrado minha identidade, talvez caída pelo chão só esperando para ser encontrada. Era estranho pensar que, depois de eu haver sido descoberta em minha ausência de identidade pela linda moça do banco, havia ficado refém dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A repetição persistente e contínua deste suicídio cotidiano &#8211; o ato de ligar para o banco e falar com a linda moça cheia de identidade &#8211; foi me deixando completamente sem força para respirar. Queria poder retornar ao líquido amniótico. Viver era doído. Ligar para o banco, mais ainda.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a este turbilhão de pensamentos de pássaro, escuto tocar a campainha sonora do telefone. Seu barulho fere meus ouvidos como um grito alto e ensurdecedor.</p>
<p style="text-align: justify;">O telefone continuou tocando, sua campainha a me engolir. Atendo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Alô?</em></p>
<p style="text-align: justify;">A voz quase não me sai da garganta. Tremo toda. Do outro lado, uma voz cavernosa diz.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Por favor, preciso falar com Amélia.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Respondo que sou eu.</p>
<p>&#8211; <em>Sou?</em></p>
<p>A voz rouca diz:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>É que encontramos sua identidade morta no chão do banco. A senhora precisa vir buscar com urgência, pois não pode ficar sem ela</em>. <em>Precisa dela.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Preciso?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Desligo o telefone num grito de vingança.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Tum, tum, tum&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;">E tudo fica silencioso outra vez.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/identidade/">Identidade</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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		<title>A menina e o cão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jul 2015 08:30:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A menina era tristonha e acanhada. Sentia impropriedade no fato de existir. Seu andar era como de gato, esgueirando pelos cantos. Certo dia, seu pai Josiberto trouxe a salvação: um belo labrador cor de mel. Pura inspiração. Seus olhos vivazes eram como uma humilhação para a menina tísica. Mas como que por desordem do destino &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-menina-e-o-cao/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A menina e o cão</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A menina era tristonha e acanhada. Sentia impropriedade no fato de existir. Seu andar era como de gato, esgueirando pelos cantos. Certo dia, seu pai Josiberto trouxe a salvação: um belo labrador cor de mel. Pura inspiração. Seus olhos vivazes eram como uma humilhação para a menina tísica. Mas como que por desordem do destino tornaram-se unha e carne. Melhores amigos mesmo. Obviamente o cão dava por certo o fato de sua existência pacificada, bem instalada em seu corpo sólido e pouco conhecedor de si. Já a menina, instável na arte de amar, caiu doente, literalmente, de amor pelo nobre cão. Passou semanas se recompondo em sua cama, com o cão-fiel ao seu lado. Pobre menina. Ninguém havia ensinado a ela os perigos do amor!</p>
<p style="text-align: justify;">Seu pai Josiberto e sua mãe Marina eram pessoas dotadas de coração, mas simples nas aquisições do sentir. Para eles, preto era preto e branco era branco. Sem mais conversações. E a menina, raptada pelas gradações subterrâneas do sentir, tinha fome de coração. Neste ritmo sonhador de ser, passava horas a fio olhando para o Nada, ao que sua mãe perguntada, meio enfezada:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>O que é que tanto olha aí, menina? Vem me ajudar com a louça.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1357"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Nestes instantes, a menina se sentia violentamente roubada de suas delicadezas e era atacada por uma tristeza sem fim, que demorava dias a passar. Nestes arroubos de coração, ela deixava de comer, de banhar-se e até o movimento de seus pequenos membros era um esforço brutal para ela. Mas, com a chegada de Teseu – era assim que ela chamava o cão cor de mel – sua vida se transformara, ou melhor, seu íntimo ser se arco-irizara. Ela pensava, quietinha, que nunca pudera imaginar a existência de um ser vivo capaz de estar em comunhão plena com outro ser: olhos olhando olhos, nariz cheirando nariz. Tudo em um movimento sincronizado de pura magia e compreensão. Às vezes, nesta dança, chegava a se assustar, pois parecia que seu pequeno companheiro acompanhava até mesmo seus pensamentos mais íntimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para provar este fato bem provado, certo dia a menina, devagarinho na cama, derramara uma lagrimazinha, tomada que estava pela beleza embelezada de seu sonho. O cão, em um movimento mais que rápido, pulara em cima dela para lhe lamber a lágrima. Como ele intuíra que a menina estava fazendo nascer uma lágrima naquele exato instante? Isso era puro mistério, daqueles que nenhum homem com sua bruteza natural vai poder desvendar. Neste vislumbre lusco-fusco, de relação enfeitiçada, ambos cresceram juntos. A menina se floreou em mulher e o pequeno Teseu se tornou tão nobre – ou até mais – que o rei acolhedor de Tebas. Mas, como a arte imita a vida e nesta sempre há interrupções abruptas do bem-querer, que fazem quebrar qualquer coração mais sentimental, esta estória de amor também não teve um final feliz.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o passar dos anos, Teseu, pelo próprio peso mortífero da idade, que pesa em gosto e sombra a todos os viventes e respirantes seres, foi se tornando carrancudo e avesso ao contato com a menina-mulher. Ela, que fora feita para puro-amar, não compreendia esta mudança do seu tão fiel amigo. A menina só crescera por fora e ainda não estava habituada as funduras da vida, aos dissabores do envelhecer e do tão fatídico encontro com a morte. Certo dia, quando Teseu já estava bem velhinho, a menina-mulher chegou do seu trabalho e seu fiel companheiro havia partido para o mais-além. A menina, muito sensível às dores do existir, não suportou tanto sofrimento e pesar e decidiu, sem decidir, partir também. Sua vida não fazia mais sentido sem Teseu. Recolhida como formiga em seu pequeno leito, fechou os olhos para nunca mais abrir. Morreu como nasceu: como um suspiro.</p>
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		<title>Marina e o gato morto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2015 12:18:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Marina despiu-se em frente o espelho. Procurava suas próprias entranhas e vísceras. Enquanto fazia este gesto maquinal, fora invadida por uma cena infernal: Hugo, Marina e sua gata Frida deitados na cama. Três montes de vísceras, soltas no espaço. Presas somente por um invólucro fino e irresoluto de pele.  &#8211; Sim, pensou Marina. Somos todos &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/marina-e-o-gato-morto/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Marina e o gato morto</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"> <a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Marina despiu-se em frente o espelho. Procurava suas próprias entranhas e vísceras. Enquanto fazia este gesto maquinal, fora invadida por uma cena infernal: Hugo, Marina e sua gata Frida deitados na cama. Três montes de vísceras, soltas no espaço. Presas somente por um invólucro fino e irresoluto de pele.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> &#8211; Sim, </em>pensou Marina. <em>Somos todos uns sacos de vísceras e órgãos caminhando por aí. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Acontece que na manhã do dia em que se descobrira vísceras e órgãos, Marina teve um encontro com a sinistra morte. Enquanto saia para o trabalho, ela topou com um gato duro e morto. O cheiro de carnes putrefatas já começava a impregnar toda a rua. Ela, com seu olhar sempre tão infantil e inaugural, sentou-se escondida do outro lado da calçada, atrás de uma árvore. Queria checar a reação das pessoas frente àquela cena abissal: um gato duro, morto, sendo comido pelos vermes. Marina permaneceu ali por horas. Transeuntes passavam e simplesmente negavam a existência morta do gato.</p>
<p><span id="more-1331"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não. Isso eu não vou aguentar. Preciso enterrar meus mortos. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Arrumou uma pá sabe-se lá onde e rumou, convicta, ao corpo duro do felino espichado. Nunca havia parado para pensar como ficamos duros e retesados depois de mortos. Pegou o gato por uma de suas patas espichadas. Reparou que seus olhos esbugalhados saiam de suas órbitas oculares. Saltavam para fora como bolas de gude explodindo contra a parede. Sentiu nojo e repulsa. O mesmo nojo e repulsa que sentiria alguém que tocaria em seu corpo morto quando este já estivesse fedendo, duro e frio, como o corpo daquele gato.</p>
<p style="text-align: justify;">Com seus braços finos de gravetos, Marina cavou um buraco fundo, longe dos olhos da civilização, que é onde devem ficar os mortos. Rezou:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Querido Deus, espero que este gato tenha tido uma vida longa e feliz. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Tinha indícios para pensar que sim, que aquele gato havia sido feliz, pois ele tinha uma pança generosa e roliça. Devia ser de alguém. Nesse momento o peito de Marina se apertou com intensidade. Pensou no desespero do dono daquele lindo gato que provavelmente o esperaria por noites a fio sem saber do seu paradeiro, acalentando uma esperança miúda de que o felino uma hora ou outra iria aparecer.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Pobre dono do gato. Pobre gato. Espero que tenham sido felizes um com o outro. . </em></p>
<p style="text-align: justify;">Depois de enterrar aquela bola de pelos dura e fria e fazer sua pequena prece dirigida ao Deus-natureza, Marina partiu. Estava atrasada para os seus afazeres que logo a distraíram do fatídico destino do gato, do fatídico destino de todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, eis que à noite, depois de ter amado seu marido Hugo, enquanto preparava-se para cair no abismo do sono &#8211; que é uma morte à prestação &#8211; eis que se vê às voltas com a cena grotesca: Marina, Hugo e Frida, três sacos de vísceras deitadas sob a cama.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi aí que Marina pulou, assustando a todos, inclusive ela própria e começou a tirar toda a roupa. Queria chegar ao fundo das coisas. Hugo e Frida vendo aquilo devem ter pensado que Marina havia enlouquecido. Ela que sempre fora considerada esquisita, que é um jeito educado dos civilizados chamarem alguém de maluco.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim, vísceras. Quero vê-las finalmente! </em>Marina gritava frenética. <em>Venham a mim. Quero chegar ao fundo. Mostrem-se com todo o seu despudor, minhas vísceras, meus órgãos, meus longos e viscosos intestinos repletos de fezes, meu sangue venoso, meus dentes, meus ossos, meu cérebro e todos os vermes que habitam meu corpo e que meus olhos não vêem, mas que agora eu sinto existirem dentro de mim.</em></p>
<p style="text-align: justify;">É que nesse momento, por um estado de profunda comunhão com o bicho morto e enterrado que à uma hora destas já estava sendo devorado pelos vermes, Marina viu tudo o que precisava ser visto: ela viu a morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim! Somos um saco de vísceras que será comido tão logo pelos vermes. </em>Era o que Marina teria dito a quem a questionasse o porquê dela se comportar como uma louca diante do espelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela também diria com máxima fúria:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Louco é você que não pensa nisso. Você que vive dormindo para a realidade; que vive como sonâmbulo; que não presta a atenção nos vermes que te comem todos os dias; que pula o gato morto fingindo que ele não existe; que se arruma e se perfuma todas as manhãs  achando que pode barrar o processo. Você é louco! Não eu!</em></p>
<p style="text-align: justify;">Depois deste estado de êxtase, que Hugo e Frida tiveram que ajudar a conter, Marina caiu em um sono profundo. Nunca mais acordou.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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