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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 31 Mar 2026 18:05:49 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2026 15:44:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[climatério]]></category>
		<category><![CDATA[menopausa]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O autora reflete sobre sua própria experiência no climatério, a partir do olhar psicanalítico.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/minha-experiencia-com-o-climaterio-e-algumas-reflexoes-psicanaliticas-a-respeito/">Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1.webp"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-3366 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1-300x203.webp" alt="" width="300" height="203" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1-300x203.webp 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/510-mat-menopausa1.webp 414w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Não costumo escrever sobre coisas muito pessoais, mas o atravessamento da meia-idade tem sido uma experiência tão difícil para mim, que pensei que valeria a pena escrever sobre ela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estou com quarenta e cinco anos, e há uns dois ou três anos, passei a sentir que algo muito sutil e imperceptível começou a mudar em mim. </span></p>
<p><span id="more-3365"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O angustiante da situação, além da mudança em si, era que eu não conseguia nomear, descrever nem precisar o que estava acontecendo comigo, exceto a estranha e inquietante sensação de que eu estava deixando de ser eu mesma. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como é natural de ocorrer nestes casos, passei  desesperadamente a tentar reencontrar a Ana Laura de antes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, aquela de antes sempre dormiu bem, enquanto essa acorda pontualmente às três horas da madrugada, toda noite. Aquela tinha disposição para tudo, enquanto essa se arrasta pelo dia. Aquela tinha o raciocínio ágil e afiado, enquanto essa parece ter um imenso vácuo na cabeça. Aquela era calma enquanto essa se irrita com qualquer pequeno ruído, e tem picos de ansiedade no meio da madrugada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Outro sintoma muito estranho tem sido uma sensação noturna insuportável de que as pernas estão &#8220;nervosas&#8221; e &#8220;repuxadas&#8221;, fazendo com que você tenha que mexé-las constantemente. Descobri que o nome desta sensação torturante, fruto das alterações hormonais brutais, chama-se &#8220;síndrome das pernas inquietas&#8221; (SPI). </span></p>
<p>Sobre isso, duas situações me deixaram particularmente assustada: quando, certo dia, tive que ir para o meio da rua porque não suportava o barulho do aspirado de pó; e um dia em que, depois de várias e várias semanas acordando à noite, comecei a cochilar dirigindo.</p>
<h2>A saga pelos especialistas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A saga pelos especialistas não ajudou muito. Ouvi de tudo. De duas médicas, que precisava tirar isso da cabeça e parar de pensar em climatério. De outros, que eu era muito jovem para pensar em reposição hormonal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não sou uma pessoa iludida sobre a vida e sei que os seres humanos são bastante incompetentes na arte de se colocarem no lugar do outro. Também abomino a postura impotente de ficar se lamentando diante dos fatos, e nada fazer a respeito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocorre que, neste caso, eu penso que além das coisas práticas, das quais eu já estou indo atrás, como iniciar uma reposição hormonal (uma médica, que tive que consultar no particular, finalmente me ouviu!) e caprichar ainda mais nos hábitos saudáveis de vida, a mudança na psiquê feminina que se coloca em curso nesta fase da vida da mulher é tão estrutural e profunda, que precisará ser recheada também por outros elementos, sem os quais ela terá muita dificuldade em atravessar este processo de ressubjetivação sem adoecer ao final. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estes elementos são os recursos simbólicos e psíquicos, individuais e coletivos, que farão a mulher atravessar este marco do desenvolvimento com mais consciência ou mais adoecida.</span></p>
<h2><b>Os recursos simbólicos culturais </b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre os recursos simbólicos oferecidos às mulheres pela cultura para atravessarem o climatério, estes têm sido desde então muito pobres, embora felizmente venham mudando. Associam-no à “fase perigosa da vida”,  ao declínio, à decrepitude, à se ficar feia e velha, em grande parte pela associação que se faz entre a mulher e sua função reprodutiva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, em nível inconsciente, as próprias mulheres sentem que, uma mulher estéril, sem filhos, ou uma mulher que não pode mais engravidar, está despossuída do seu valor narcísico, tal como me explicou uma paciente acerca do motivo que a levou engravidar, a saber, de que sentiu tão potente e cheia de vida na ocasião, de que foi inevitável não fazer um bebê. </span></p>
<p>Evidencia-se um exemplo desta associação nefasta entre poder criador reprodutivo feminino e auto-estima quando se diz destas mulheres, que são &#8220;<em>árvores secas</em>&#8220;.</p>
<p>Tal visão pejorativa sempre serviu para manter o domínio sobre as mulheres, em todos os tempos, pois, se elas precisam provar seu valor reprodutivo tendo filhos e mais filhos, isso pode significar terem que abdicarem de si mesmas em muitos outros aspectos.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, esta visão, ainda que válida do ponto de vista da mente inconsciente, é bastante limitada, havendo muitas maneiras de as mulheres sublimarem e realizarem sua pulsão criadora, para além de ter filhos.  </span></p>
<h2>Geração de vida e auto-estima</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode parecer estranho para um leigo que a possibilidade de gerar vida (e sua interrupção, na menopausa) tenha um impacto tão crucial na auto-estima das mulheres, mas para o psicanalista não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a psicanálise, a produção de bebês tem, em nível inconsciente, significados ligados à potência,  capacidade criadora e de reparação, a tal ponto que quando essa possibilidade se extingue, como no caso da menopausa, a mulher pode experimentar angústias intensas ligadas à integridade do interior de seu corpo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cito sobre isso o exemplo de uma paciente se encaminhando para a menopausa que, enquanto esteve narcisicamente reassegurada pela possibilidade de produzir filhos (os fantasiados e os reais), manteve seu ego minimamente estruturado, mas que se desorganizou gravemente com o fim permanente das ovulações. Ocasião em que as sessões foram preenchidas por meses a fio com sonhos de bebês despedaçados e faltando partes. </span></p>
<p>Enquanto isso, mulheres psiquicamente mais saudáveis podem enfrentar e superar as angústias acerca de sua esterilidade permanente, por exemplo, encontrando novas fontes de prazer e sentido e/ou resgatando sonhos antigos que ela foi obrigada a deixar para trás, em prol de marido e filhos, por exemplo. O que pode ser problemático para mulheres com um sistema moral muito rígido.</p>
<p>Assim, para estas, dependendo em qual sistema moral foram criadas, o prazer na vida só será permitido se vier acompanhado pelo sofrimento, assim como o gozo sexual só não será pecaminoso se gerar vida.</p>
<h2>Fatores sociais no climatério e menopausa</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre os fatores sociais que contribuem para o</span><span style="font-weight: 400;"> aumento da tristeza na meia-idade e climatério, cita-se: crises conjugais que a mulher pode estar atravessando nesta fase, se seu casamento é de longa data, que podem culminar ou não em divórcios, bastante comuns nesta fase da vida; sobrecarga de cuidado com os pais velhos, com frequência acometidos de doenças incapacitantes e graves, como demências e cânceres severos; sensação de perda de valor, sobretudo se a mulher se dedicou exclusivamente à criação dos filhos, que agora costumar estar crescidos e já saindo de casa, ou se exerce profissões e/ou atividades que a descartam quando envelhece, como as atrizes, por exemplo. </span></p>
<p>Diferem nisso profissões como a minha em que, quanto mais velha, mais experiente e competente se fica. Particularmente acerca deste aspecto, vivo um paradoxo, pois, nunca me senti tão segura e e competente no que faço como hoje, ao mesmo tempo em que às vezes tenho me entediado por estar há vinte e três anos fazendo a mesma coisa. Sentimento que ingenuamente nunca achei que iria experimentar.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como psicanalista, acredito que estes fatores tenham impacto sobre a saúde mental das mulheres no climatério, embora não sejam determinantes para o adoecimento psíquico delas, sendo o decisivo nesse caso os recursos psíquicos que cada uma disporá ou não para enfrentar as brutais regressões desta fase. </span></p>
<h2><b>Recursos psíquicos para se atravessar o abismo do climatério</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Tenho tido sonhos recorrentes onde eu me vejo presa e sequestrada por uma força maléfica e invisível, da qual tento me desvencilhar em vão, o que eu interpreto como a minha psiquê tentando lidar com as violentíssimas movimentações pulsionais em curso, no meu corpo e mente, que se não manejadas bem, podem vir a me enlouquecer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, tenho me lembrado muito do quanto a minha mãe foi se tornando cada vez mais irritada, enlouquecida e triste à medida que envelhecia, momento onde também, desafortunadamente, foi abandonada por meu pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também me chegam agora lembranças de algumas mulheres, vizinhas e conhecidas nossas, que tiveram surtos psicóticos ao envelhecerem, algumas delas tendo que serem internadas. O que muitos, entre um risinho jocoso e maldoso, murmuravam dever-se “à chegada da idade perigosa”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um artigo muito interessante intitulado “Regressão”, as psicanalistas Paula Heimann e Susan Isaacs abordam o tema do climatério e menopausa de um prisma psicanalítico, e alertam que, nesta etapa, as complexas imbricações mente-corpo serão colocadas à dura prova no psiquismo da mulher, pelas regressões libinais que ela provoca:</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Sabemos que as alterações no equilíbrio endócrino afetam o humor, os impulsos e fantasias da mulher. Mas também sabemos que conflitos emocionais não elaborados, nesta fase, podem perturbar o equilíbrio endócrino, a solução de tais conflitos podendo atuar favoravelmente sobre o equilíbrio dos hormônios.” (1969,p.205)</span></i></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Ou seja, para o psicanalista importa que, o encerramento da vida reprodutiva poderá reativar, na mulher, conflitos emocionais antigos  que, se não forem devidamente elaborados, poderão se converter em sintomas psíquicos e físicos, por vezes bastante graves, conforme citado no caso da paciente acima. Débitos psicológicos que, segundo as autoras, &#8220;<em>permaneceram silenciosos enquanto a prosperidade biológica estava assegurada&#8221; (p.207). </em></span></p>
<p style="text-align: left;">Depreende-se também do raciocínio delas que, no climatério e <span style="font-weight: 400;">menopausa, o corpo imporá à mente a árdua incumbência de elaborar as vultosas alterações biológicas que operam nela, com o término de sua função reprodutiva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, ouvi da neurocientista Lisa Mosconi que, nesta fase, o cérebro da mulher passará por uma brutal reconfiguração, perdendo bilhões de neurônios que serviam à função reprodutiva e agora deixam de ter função. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Morrem milhares e milhares de neurônios, assim como perde-se milhares e milhares de fios de cabelos, como se a natureza, sábia e econômica, estivesse fazendo uma grande faxina em nós, para que novos neurônios e cabelos nasçam, agora não mais visando a reprodução, mas sim a fruição da vida nestas últimas décadas que se tem pela frente. </span></p>
<h2>Considerações finais</h2>
<p><span style="font-weight: 400;"> De minha parte, o que tenho procurado fazer sobre isso é tentar manter a calma, viver um dia de cada vez e acolher com gentileza este novo eu que urra em mim e me deixa de olhos vidrados no meio da madrugada, algo que sem meus muitos anos de divã, tenho absoluta certeza, não conseguiria fazer. </span></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">* Dedico este texto a todas as mulheres da minha vida. Eu mesma, minha mãe, avós, analista, pacientes, amigas e as filhas que não tive. Mulheres que eu admiro cada vez mais.</span></em></p>
<h2>Referência bibliográfica</h2>
<p>Klein, M.; Heimann, S. I. &amp; Riviere, J.<em> Os progressos da psicanálise. </em>Zahar: Rio de Janeiro, 1969.</p>
<p>Para assistir ao programa Roda-Viva com a neurocientista Lisa Mosconi, clique <a href="https://www.youtube.com/watch?v=tWqmZVjlEQc">aqui. </a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/minha-experiencia-com-o-climaterio-e-algumas-reflexoes-psicanaliticas-a-respeito/">Minha experiência com o climatério e algumas reflexões psicanalíticas a respeito.</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-leitura-obrigatoria-para-todo-psicoterapeuta-em-alguma-fase-da-vida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Sep 2025 14:31:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[historiografia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora faz uma resenha do livro A Descoberta do Inconsciente, do psiquiatra e historiador franco-canadense Henri Frédéric Ellenberger, apontando o que a leitura desta obra monumental despertou nela. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-leitura-obrigatoria-para-todo-psicoterapeuta-em-alguma-fase-da-vida/">Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/livro-Ellenberger.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3242 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/livro-Ellenberger.jpg" alt="" width="187" height="269" /></a>Foi por acaso que cheguei ao livro “A Descoberta do Inconsciente: história e evolução da psiquiatria dinâmica”, publicado em 1970 pelo psiquiatra e historiador franco-canadense Henri Frédéric Ellenberger. E eis que me deparo com uma obra monumental e de inestimável envergadura na minha área.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ler as quase mil páginas de “A Descoberta do Inconsciente” expandiu muitas coisas em mim. </span></p>
<p><span id="more-3241"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, fez-me conhecer uma grave lacuna na minha formação como psicóloga, pois ignorava por completo a historiografia e as origens remotas do meu próprio trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Assim, costuma-se erroneamente ensinar nas Universidades que foram homens como Charcot, Freud e Jung os iniciadores da psicoterapia, o que Ellenberger demonstra ser um grave erro histórico, pois a psicoterapia já vinha se desenvolvendo, através de homens como  Johann Joseph Gassner e Franz Anton Mesmer, desde 1775. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para ser mais exata sobre isso, a primeira cura primitiva de uma afecção mental de que se tem relato, foi descrita pelo antropólogo alemão Adolf Bastian em 1890, conforme ele testemunhou sendo realizada por um pajé, numa tribo da Guiana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, ler Ellenberger foi como conhecer pela primeira vez meus bisavós e tataravós de profissão, e ampliar o conhecimento da minha ascendência para além dos meus grandes mestres. </span></p>
<h2>Apagamento das origens</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">O motivo para tal apagamento da história na psiquiatria dinâmica, conforme mostra Ellenberger, é que, ao contrário das ciências físicas, a psiquiatria dinâmica não teve uma evolução linear. Assim, muitas das coisas que foram descobertas numa certa fase, foram simplesmente negadas pelos pesquisadores da fase seguinte, conforme se vê, por exemplo, no grave erro de Freud em considerar que o método catártico era invenção sua quando, na verdade, Pierre Janet já o vinha desenvolvendo há muito tempo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Ellenberger.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3244 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Ellenberger.jpg" alt="" width="186" height="271" /></a>Nesse sentido, o livro de Ellenberger tem a inestimável importância de fazer uma reparação à propriedade intelectual de homens brilhantes e sóbrios que foram simplesmente apagados da historiografia oficial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, sobre isso Ellenberger propõe que a decisão sobre qual autor será laureado e qual será esquecido numa dada época depende de coisas como a personalidade dos autores em questão e as preferências e os embates de uma dada época pelas ideias em voga. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, explica Ellenberger, autores como Pierre Janet e Adler não fizeram tanto sucesso na ocasião, pois eram representantes de um iluminismo tardio, ao passo que Freud e Jung, retomavam conceitos da velha psiquiatria romântica, ideais estes mais compatíveis ao gosto da época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, foi muito iluminador para mim enxergar que a história do meu campo de trabalho foi consolidada em ondas e, porque não dizer até mesmo em modismos, ora predominando o iluminismo, ora o organicismo, ora o romantismo. O que explica a existência de tantas “escolas” díspares na psicologia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma outra riqueza do livro de Ellenberger é sua capacidade de mostrar ao leitor como foram as condições históricas, econômicas e o espírito de uma dada época que propiciaram o surgimento ou ressurgimento de determinadas ideias na psiquiatria dinâmica, as coisas estando sempre mais ligadas do que imaginamos. Daí a importância, a meu ver, do psicólogo ser uma pessoa culta e bem instruída em campos que vão muito além da sua área. </span></p>
<h2>Psicólogos das profundezas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ponto de destaque no livro para mim foi o reconhecimento mais profundo de que todos estes psicólogos das profundezas, desde o exorcista e padre Gassner, passando pelo reverendo Oskar Pfister, o magnetizador Mesmer, o marquês de Puységur, os hipnotizadores Jean Martin Charcot e Auguste Ambroise Liébeault e tantos outros que não teria condições de citar aqui, estiveram desde o início envolvidos e lutando com misteriosas forças mentais que faziam seus pacientes falarem outras línguas, apresentarem múltiplas personalidades, entrarem em hipnose profunda e desenvolverem graves contágios psíquicos, tudo isso causando  por vezes sofrimento mental no próprio médico que tentava curá-los. Risco de profissão que todo psicoterapeuta experimentado conhece bem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vejo isso como um alerta já que tentar psicoterapizar pacientes sem uma sólida formação prévia, significa evocar forças mentais perigosas tanto para o paciente quanto para o psicoterapeuta, uma vez que o poder de sugestionabilidade da mente humana é brutal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, se a cura das almas foi se tornando mais sofisticada e científica com o tempo, passando do exorcismo e da confissão dos pecados à cura pela fala no divã, isso não significa que deixamos de lidar com as mesmas forças obscuras da mente humana, da qual ainda seguimos conhecendo muito pouco.</span></p>
<h2><b>Fim da leitura</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei o livro de Ellenberger sentindo um misto de coisas. Vazio e tristeza por tê-lo terminado, já que sua leitura, apesar de densa é muito prazerosa e instigante, mas também com vontade de me debruçar e estudar a fundo estes meus bisavós e tataravós, a quem agora percebo que devo muito. Um deles que pretendo estudar é Pierra Janet à quem Freud parece dever muito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra consequência desta leitura é que, como psicanalista, oriunda direta da psiquiatria e da filosofia romântica, Ellenberger aguçou em mim o desejo de me debruçar sobre outros autores românticos além de Freud, sendo eles Schelling, von Schubert, Ignaz Paul Vital Troxler, Carl Gustav Carus, Arthur Schopenhauer, Eduard von Hartmann , Gustav Theodor Fechner e Johann Jakob Bachofen. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, para se fazer justiça, é a tais autores que devemos atribuir a descoberta do inconsciente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Termino também o livro de Ellenberger admirando ainda mais Freud e nutrindo uma admiração incipiente por outro autor que desconheço por completo, Carl Gustav Jung. Pois, segundo ele, Freud e Jung foram os únicos desta grande linhagem que arriscaram tudo, sua própria psiquê e sua sanidade mental, em nome de sua obra, num processo que Ellenberger chamou de afecção criativa. </span></p>
<p>De Freud, podemos conhecer um pouco do enorme sofrimento mental vivido por ele em sua afecção criativa, através das cartas enviadas ao amigo e médico Wilhelm Fliess entre 1887 e 1904, reunidas e publicadas por Jeffrey Moussaieff Masson em 1986.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta consiste num estado de grave adoecimento psíquico pelo qual passam determinados descobridores antes de descobrirem algo realmente colossal. Penso sobre isso na coragem que ambos tiveram que ter ter, o que idealmente deveria ser também o propósito de uma análise didática: o analisando podendo adoecer a tal ponto de si mesmo, que a sua cura correspondesse à aquisição de um novo olhar, convicto e profundo, sobre si e sobre a vida. Mas talvez isso seja pedir demais.</span></p>
<h2><b>Considerações finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura do livro de Ellenberger me fez sentir alegria por fazer parte, ainda que ínfima, desta grande linhagem de homens que se propuseram a estudar e tratar a insondável mente humana. Além disso, ampliou-se enormemente em mim a dívida simbólica com meus ascendentes espirituais, já que aprendi com ele, de uma maneira muito elegante, que cada estudioso é tão somente um continuador de muitos outros que o antecederam. </span></p>
<p>A partir do que nos mostra Ellenberger, penso que também seria providencial que os cursos de Graduação em Psicologia pudessem ensinar uma historiagrafia mais completa das origens da psicoterapia aos alunos, fazendo juz a autores que, apesar de menos famosos, são tão importantes quanto. Apagamento curricular grave que acaba por formar psicoterapeutas bastante mal informados e repetidores de informações falsas.</p>
<p>Mas isso não significa que o livro seja interessante só aos psicólogos, podendo agradar qualquer leitor curioso e sagaz interessado nas questões da mente.</p>
<p>Por fim, Ellenberger me fez sentir algo que Sócrates já sabia, a saber, o quão estimulante é se saber ignorante de tudo o que ainda há para se estudar nesta vida.</p>
<p><em>*Agradeço em especial ao pesquisador Flávio F. Fontes, professor adjunto do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que me colocou pela primeira vez em contato com a obra de Henri Frédéric Ellengerger, enviando-me dois artigos do autor sobre a vida da paciente Berta Pappeheim.</em></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-leitura-obrigatoria-para-todo-psicoterapeuta-em-alguma-fase-da-vida/">Uma leitura obrigatória para todo psicoterapeuta em alguma fase da vida</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Reflexões sobre a melancolia e o tédio em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jan 2025 15:01:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[tédio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo reflete sobre o tema da melancolia e do tédio presentes na novela Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/reflexoes-sobre-a-melancolia-e-o-tedio-em-felicidade-conjugal-de-liev-tolstoi/">Reflexões sobre a melancolia e o tédio em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://static.wixstatic.com/media/d61ae6_d12cfcc4076448f3b02b6cd12afb4b14~mv2.jpg/v1/fill/w_1000,h_749,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01/d61ae6_d12cfcc4076448f3b02b6cd12afb4b14~mv2.jpg" alt="" width="203" height="152" />Em Felicidade Conjugal, de Liev Tolstói, encontramos um estudo profundo sobre a melancolia e o tédio, que pode ocorrer em qualquer fase da vida, embora costume se agravar com a chegada da meia idade.</span></p>
<p><span id="more-3122"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos motivos para isso é que, enquanto o jovem percorre seus sonhos e desejos com obstinada empolgação, o homem e a mulher de meia idade começam a perceber que há muito de ilusório nestas ambições. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que os obriga, ao chegar à meia idade, a rever e aprofundar seus valores. Daí Nelson Rodrigues dizer aos jovens que, por favor, envelheçam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, por exemplo, a mulher e o homem que sonharam ser pais, com os filhos mais velhos, podem se decepcionar com o que estes se tornaram, e que o tempo maravilhoso em que eram pequenos não volta mais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já aqueles que dão muito valor ao trabalho, podem, na meia idade, começar a se entediar com o que passaram seus últimos vinte ou trinta anos fazendo. Ou, então, a perceber que só se cansaram e não chegaram a lugar algum.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, a possibilidade de salvar-se do tédio e da melancolia passará por um aprofundamento no olhar sobre as coisas e uma revisão honesta sobre as rotas tomadas, o que nunca é fácil. </span></p>
<h2>Felicidade conjugal</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">É este aprofundamento de valores do homem que sabe envelhecer que encontramos em Serguei Mikháilitch, marido da protagonista Macha, na novela Felicidade Conjugal de Liev Tolstói. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, em dado momento em que ela está profundamente entediada com a vida familiar e conjugal, e fica caçando briga com o marido só para sair da pasmaceira e da angústia em que se encontra, acusa-o de ser um bobo e estar sempre satisfeito com tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que ele lhe explica sobre isso é que sua insatisfação juvenil fazem-na desdenhar de uma vida tranquila, quando na verdade, ter paz é tudo o que importa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Algo que ele obviamente só pôde aprender depois de já ter sido jovem e ter perdido bastante tempo sendo bobo. Daí não se poder condenar os jovens por sua tolice, que faz parte do seu amadurecimento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, ser feliz na maturidade poderá  significar ser capaz de enxergar beleza nas pequenas alegrias diárias da vida. Como regar uma planta, cultivar velhos hábitos, dormir uma boa noite de sono, ter o intestino regular e nenhuma doença grave à vista. O que não significa que, de vez em quando, não se será assaltado pelo tédio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já para a jovem Macha ser feliz era ir à bailes, ser cortejada pelos homens e admirada pelas mulheres, e estar sempre em busca de novidades.</span></p>
<h2>Rotina x novidade</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim penso que Macha e Serguei representam duas dimensões da condição humana que conflitam em nós a vida toda, sendo elas, respectivamente, a busca por novidade e mudança versus o prazer na estabilidade e na rotina, tendo ambas o seu valor, desde que na medida certa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, erroneamente se associa o desejo por novidades à juventude e o gosto pela estabilidade aos adultos e velhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Prova-se o preconceito desta visão no fato de ser muito comum adultos de meia idade serem assaltados por um desejo louco e irrefreável por mudança, que pode levá-los, por exemplo, à se divorciar repentinamente, abandonar suas carreiras e largar tudo, mudar de estilo de vida ou de cidade ou mesmo envolver-se em casos extraconjugais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí ser crucial não moralizar o sentimento de insatisfação nem o gosto por rotina, tudo dependendo da dose e de se ter um espaço de reflexão, antes de se tomar qualquer decisão.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, se a insatisfação é o que nos leva a mudar situações ruins, em excesso, pode tornar uma pessoa exigente e incapaz de valorizar o que possui. Cita-se sobre isso o exemplo de pessoas que, tomadas por um ímpeto de tédio e insatisfação, divorciam-se de casamentos felizes, e depois se arrependem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma que gostar da rotina diária e ser organizado pode significar sabedoria e capacidade de ser feliz com coisas simples, apegar-se em excesso à rotina e à estabilidade pode tornar uma pessoa excessivamente medrosa, controladora, acomodada e despreparada para lidar com mudanças inevitáveis da vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Nesse aspecto, entendo que o tédio pode ser expressão de um desejo incipiente por mudanças e transformações que brotam de dentro. Desejos, que, se bem entendidos, podem culminar em verdadeiros pontos de virada na vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro destino ao tédio, infelizmente muito comum, é a pessoa não fazer nada a respeito e passar o resto da vida reclamando.    </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, como psicanalista, considero muito seriamente o tédio e a melancolia em meus pacientes como podendo ser a expressão de verdadeiros desejos por mudança ainda não muito bem formulados pela própria pessoa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Princípio de um longo e doloroso processo de desalienação no qual a pessoa começará a se indagar, por exemplo, se valeu tanto assim a pena ter sido o filho ou os pais perfeitos, o trabalhador ou o aluno obcecado com a perfeição de suas tarefas ou o amigo que nunca expôs o que sentia.</span></p>
<p>Outros fatores que parecem gerar tédio são o excesso de conforto material e ausência de desafios e dificuldades a serem superadas e a ação massiva do ódio na mente.</p>
<h2>O amadurecimento de Macha</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, vemos na novela Macha encaminhar-se para um amadurecimento e aprofundamento do seu olhar. Assim, por exemplo, aprende que o amor inflamado e febril que experimentou pelo marido nos primeiros tempos de casamento, afinal, não poderia durar para sempre, já que “</span><i><span style="font-weight: 400;">cada tempo tem seu amor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais madura, também aprende a enxergar beleza nas pequenas coisas singelas da vida como os pezinhos do filho e a rotina de chá com o marido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, terminada a crise, a ingênua e insatisfeita Macha deixará de desprezar o marido por seu jeito simples e fácil de ser feliz, finalmente descobrindo que ninguém escapa em alguma medida à monotonia e ao tédio da vida, que pode ter lá sua grande beleza. </span></p>
<p style="text-align: right;">* <em>Não é imprescindível que o leitor conheça a novela para acompanhar o artigo. Mas, se quiser se deleitar com a leitura deste clássico, <a href="https://drive.google.com/file/d/171lqB2f3jS0uxQOH2b0C36nPR8mQTL8_/view?usp=drive_link" target="_blank" rel="noopener">clique aqui para baixar o livro Novelas Completas &#8211; Liev Tolstói</a>.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>** O uso do termo melancolia no presente artigo não corresponde ao conceito estritamente freudiano conforme descrito em Luto e Melancolia (1915), mas à presença de sentimentos de tristeza, apatia e desânimo que se experimenta ao longo da vida.</em></p>
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		<title>Jovens no divã: da escolha profissional à saída da Universidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Sep 2024 12:14:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[contemporâneo]]></category>
		<category><![CDATA[escolha profissional]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>*Aula proferida para os alunos do curso de Ciências Farmacêuticas da USP-Ribeirão Preto (FCFRP) em 24 de setembro de 2024 &#160; É com enorme alegria que venho lhes falar hoje, pois, voltar a esta Universidade que me acolheu tão generosamente entre os anos de 1999 e 2011 em que fiz graduação, mestrado e doutorado, é, &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/jovens-no-diva-da-escolha-profissional-a-saida-da-universidade/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Jovens no divã: da escolha profissional à saída da Universidade</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/jovens-no-diva-da-escolha-profissional-a-saida-da-universidade/">Jovens no divã: da escolha profissional à saída da Universidade</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://www.fundacaoroge.org.br/hs-fs/hubfs/social-suggested-images/dicas-escolha-profissao-feira2015-g-2.jpg?width=1000&amp;name=dicas-escolha-profissao-feira2015-g-2.jpg" alt="12 Dicas imperdíveis para te ajudar na escolha da profissão" width="319" height="150" />*Aula proferida para os alunos do curso de Ciências Farmacêuticas da USP-Ribeirão Preto (FCFRP) em 24 de setembro de 2024</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-2993"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É com enorme alegria que venho lhes falar hoje, pois, voltar a esta Universidade que me acolheu tão generosamente entre os anos de 1999 e 2011 em que fiz graduação, mestrado e doutorado, é, uma forma de expressar a imensa gratidão por tudo o que recebi e aprendi, e também de relembrar o quanto fui feliz aqui.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao preparar minha fala, indaguei-me o que um psicanalista teria a dizer a jovens estudantes de um curso de Farmácia, que pudesse ser interessante. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E imediatamente fui me lembrando de cada um dos meus pacientes jovens e jovens-adultos que passaram pelo meu divã em busca de auxílio, seja para atravessarem o angustiante e importantíssimo momento de decisão por um curso, os deliciosos  e difíceis anos na universidade, até o momento vitorioso, mas também difícil, em que a deixavam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Falarei, portanto, de tudo o que aprendi e observei nestes anos de atendimento psicanalítico, com estes jovens e jovens adultos em suas buscas por consolidarem suas identidades profissionais e sociais, estabelecendo mais ou menos um quem se é neste mundo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, seguindo o mesmo percurso em minha fala, dividirei-a em três tópicos, sendo eles, o momento da escolha de um curso, os anos na universidade e a saída dela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Procurarei enfocar em cada um destes tópicos aquilo que é circunscrito ao saber do psicanalista, e que de alguma forma, imagino, poderá ampliar ou trazer insights sobre vocês mesmos, a saber, as ambivalências, conflitos, angústias, perdas e ganhos inerentes à cada uma destas importantes fases da vida. </span></p>
<h3><b>A decisão por um curso de graduação</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Começo ressaltando que a escolha profissional é um momento crucial da vida, sendo a profissão um elemento constituinte de quem nós somos, para os outros e para nós mesmos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dito isso, o momento da escolha por um curso, que os adolescentes costumam fazer entre os dezessete e dezenove anos, tende a ser de grande intensidade emocional para eles, pois, se de um lado muitos tendem a se sentir despreparados e imaturos para fazê-lo, de outro, alegram-se ante a primeira perspectiva concreta de se sentirem, num futuro próximo, mais autônomos e independente dos pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Determinarão aqui a maior satisfação do adolescente com este momento, coisas como ter tido ou não o apoio dos pais, estar bem informado sobre sua escolha, sobre o mercado de trabalho e sobre suas inclinações vocacionais e não se sentir pressionado nem inibido em relação às próprias inclinações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, do ponto de vista psicanalítico, considera-se o momento da escolha profissional angustiante e difícil para o adolescente, haja vista as inúmeras incertezas que ele experimenta em relação a si mesmo e ao futuro. </span></p>
<p>Início de um longo percurso de construção do si mesmo, que o jovem só terminará de firmar no fim da vida adulta.</p>
<h3><b>Os anos de graduação</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Os anos de graduação são marcados, em geral, por uma fase de intensa socialização, promovida tanto pelo clima universitário quanto pelo intenso contato com os colegas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também difere a experiência dos jovens adultos que cursam universidade residindo na casa dos pais, dos que os que deixam sua cidade natal, rompimento familiar que estimulará ao jovem se lançar na instigante descoberta de si mesmo, longe do controle vigilante dos pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> J</span><span style="font-weight: 400;">ovens em fase de graduação costumam buscar o psicanalista  quando não conseguem se socializar com colegas, por excessiva timidez, insegurança ou rigidez moral, por dificuldade de se separar dos pais ou então por dificuldades acadêmicas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outros motivos ainda são uso abusivo de álcool e outras drogas, conflitos ligados à identidade sexual e, mais recentemente, vício em redes sociais e jogos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra percepção minha é que os primeiros anos de graduação tendem a ser mais difíceis em relação aos últimos, graças à progressiva adaptação do jovem à instituição escolar, com suas regras próprias, e pelo aumento de identificação com o curso, que tende a ir progredindo ano a ano, quando o jovem está convicto de sua escolha. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abandonos e transferências de curso também costumam ser decisões muito difíceis, causadoras de alívio ou angústia a depender da situação. Neste último caso, em grande parte pelo sentimento de fracasso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, considera-se os anos na universidade como de intensos contrastes, pois, de um lado, vê-se neles “</span><i><span style="font-weight: 400;">os melhores anos da vida</span></i><span style="font-weight: 400;">” com sua liberdade máxima em um espaço relativamente protegido das duríssimas responsabilidades da vida adulta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E de outro, vive-se nele momentos bastantes solitários, repleto de angústias, indefinições e inseguranças próprias da idade, que o jovem quase sempre sofrerá em segredo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Formatura e saída da universidade marcarão o término deste período de intensas transformações e aprendizagens, delimitando a passagem da juventude à vida adulta, momento que pode ou não ser acompanhado por estados de </span>luto<span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Momento de hiato no qual a identidade antiga foi perdida, sem que a nova já tenha se estabelecido. </span></p>
<h3><b>A saída da universidade</b><span style="font-weight: 400;">  </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O desligamento da universidade que pode se dar logo após a formatura ou uns anos após, em cujo marco se tem o primeiro emprego, costuma ser, ao mesmo tempo, de euforia e luto. O </span><span style="font-weight: 400;"> que os estágios fora da universidade costumam aplacar um pouco, por ser uma espécie de ponte entre a antiga vida juvenil e a nova vida adulta.    </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Formando-se, perde-se o contato com os amigos e colegas, as idas às festas e a identidade estudantil. Muitos, inclusive, têm que retornar, por escolha ou falta de opção, a residir na casa dos pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a primeira vez, portanto, que se experimenta cruamente que se está envelhecendo e adentrando para sempre “</span><i><span style="font-weight: 400;">na engrenagem do sistema</span></i><span style="font-weight: 400;">”, algo que os muito jovens ainda sonham um dia poder driblar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, o escritor francês Michel Houellebecq, em seu extraordinário livro “Submissão” de 2015, retrata assim a perda da vida estudantil:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;As ocasiões de socialização, tão frequentes na vida estudantil, desaparecem ao se entrar na vida profissional, mergulhando os seres humanos numa solidão tão espantosa quanto radical.&#8221;</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-25-at-09.33.37.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3000 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-25-at-09.33.37-150x150.jpeg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-25-at-09.33.37-150x150.jpeg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-25-at-09.33.37-300x300.jpeg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-25-at-09.33.37-120x120.jpeg 120w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/09/WhatsApp-Image-2024-09-25-at-09.33.37.jpeg 720w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Esta solidão da vida adulta, penso eu, não se deve ao fato de que o adulto não terá mais pessoas por perto, mas porque as relações adultas tenderão cada vez a se adequar aos códigos de etiqueta social. Diferentemente das relações juvenis, marcadas pela descontração e espontaneidade do puro instante presente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso é a tal ponto verdadeiro que muitas sólidas amizades feitas na universidade tenderão a se esfriar com o passar dos anos, na medida em que os amigos, por exemplo, se casam e têm filhos.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As necessidades afetivas tenderão agora ser satisfeitas com o parceiro amoroso, sendo precisamente no início da vida adulta que casais mais duráveis tendem a se formar, protegendo as pessoas do sentimento de solidão que começará a se intensificar com o fim da vida adulta e chegada da meia idade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Apesar disso, segundo meus pacientes jovens, em tempos de Tinder tem sido cada vez mais difícil encontrar alguém, em parte, segundo eles, pelo excesso de oferta, que sempre deixa as pessoas perdidas e confusas.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Finalizando, a fase pós-universidade é o tempo de vida no qual o jovem adulto ganhará experiência, se especializará e trabalhará bastante, firmando-se no mercado de trabalho e em sua identidade profissional, na qual se estabelecerá pelos próximos anos.  </span></p>
<h3><b>Considerações finais</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Meus vinte anos ouvindo jovens e adultos no divã me levaram a concluir que o conflito entre as gerações, que sempre existiu e vai continuar existindo, decorre, da parte do jovem, de sua tendência a ser muito crítico e até cruel com os mais velhos, a começar pelos pais. E, da parte de nós adultos, de que nos esquecemos muito facilmente que também fomos jovens um dia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lembro-me sobre isso de um pai que analisei, extremamente crítico e severo com o filho adolescente, em quem se descobriu que sua severidade devia-se ao fato dele próprio ter sido viciado em bebidas quando jovem, o que ele temia também acontecer com o filho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, não existe imparcialidade nos nossos julgamento, nossos preconceitos sendo quase sempre a gente fugindo das nossas próprias sombras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra conclusão que extraio da minha clínica é que a revolução digital que se operou entre 1990 e 2010, cujos impactos se seguem até hoje têm trazido consequências psicológicas e sociais que ainda não somos capazes de avaliar muito bem, o que talvez só possamos fazer num futuro distante. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre elas, citam-se quadros de grave isolamento social e afetivo pelo uso excessivo de internet e redes sociais, aumento significativo das depressões, tentativas de suicídio e os atuais </span><i><span style="font-weight: 400;">self cuttings</span></i><span style="font-weight: 400;">, prática em que o jovem se automutila, o que eu não via no consultório há dez ou quinze anos atrás.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além destas, transformações mais estruturais dizem respeito aos valores éticos destes jovens em relação a seus pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por exemplo, jovens na faixa dos 20 aos 30 anos demonstram não almejarem acumular bens, dinheiro e ter uma carreira estável, preferindo a isso coisas como viajar, cuidar do planeta  e viver com menos; também observo neles que desejam cada vez menos fundar famílias e deixar descendentes, considerando imoral, por exemplo, “ter filhos só por ter”. E por fim, problematizam duramente os papéis de gênero tradicional, homem-mulher, preferindo a estes, formas de identificação mais fluídas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À que sociedade tais mudanças de valores levarão, só o correr do tempo vai dizer.</span></p>
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		<title>Uma neurose masculina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 May 2024 17:12:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[masculinidade]]></category>
		<category><![CDATA[neurose]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A partir da escuta de homens na clínica psicanalítica, o artigo busca apresentar o machismo como uma forma de neurose tipicamente masculina. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-neurose-masculina/">Uma neurose masculina</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/05/homem-inseguro.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-2979 alignleft" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/05/homem-inseguro-300x169.jpg" alt="" width="256" height="144" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/05/homem-inseguro-300x169.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/05/homem-inseguro.jpg 720w" sizes="auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px" /></a>Evidencia-se na clínica psicanalítica de alguns pacientes homens importantes conflitos na sua relação com o sexo oposto, causada por um tipo de neurose masculina bem específica. </span></p>
<p><span id="more-2978"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal neurose, que Freud associou à neurose obsessiva, começará a ser visível na adolescência, quando os rapazes voltam a se interessar por mulheres, após o período de dormência sexual da latência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, enquanto um garoto saudável se interessará por mulheres nuas e ficará ereto ao vê-las, o garoto neurótico, em sua luta deliberada contra o desejo sexual, poderá desenvolver nesta fase sintomas como timidez excessiva e desconfiança em relação ao valor moral das mulheres, sobretudo das mais populares e bonitas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, a desconfiança da reputação de uma mulher bonita é uma defesa que ele usa para encobrir sua própria insegurança em relação aos rivais, que ele deve superar para tê-la, problemática que remete sempre à competição edipiana que o menino tem com o pai, na infância, pela posse da mãe</span><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que explica, por exemplo, porque uma mulher (ou homem) compromissada(o) se torna sempre mais interessante para tais pessoas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o que se estabelece dentro destes homens é uma relação bastante conflituosa e ambivalente com as mulheres onde, de um lado, ele conscientemente ele às cobiça e deseja, e de outro, sente raiva e desprezo por elas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Analisando os motivos ocultos desta raiva, o que se encontra é a revolta do rapazinho contra o fato de caber aos homens a iniciativa da conquista, posição narcisicamente muito perigosa para eles pelo risco da rejeição, e uma inveja inconsciente da posição passiva da mulher, a quem cabe simplesmente aceitar ou recusar o pretendente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, observa-se ser muito angustiante para os homens a arte de saber interpretar nas entrelinhas se uma mulher realmente está receptiva a ele ou não. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro temor de fundo que se observa em muitos casos é o medo que estes rapazinhos sentem de virem a enlouquecer de tanto desejo sexual, o que os força a recalcá-lo brutalmente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É o que se viu num homem bastante neurótico que, na juventude, sentia-se muito excitado com sua namorada, o que o levou a terminar com ela e se casar com uma mulher que não lhe despertava nada.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, tais jovenzinhos neuróticos, quando adultos, acabarão se casando com mulheres que não desejam ou, caso as deseje, assim que se casem ou se tornem pais, deixarão de desejá-las. Ocasião na qual, recorrerão à amantes, pornografia, sonhos adúlteros; ou ainda, à masturbação, aos exercícios físicos ou ao</span><span style="font-weight: 400;"> trabalho compulsivo, de modo a deslocarem a libido insatisfeita.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra saída que estes jovens neuróticos encontram para canalizarem a libido represada é se apegarem, de modo fanático, à crenças religiosas e/ou políticas, que servirão, a um só tempo, como forma de extravasá-la e, ao mesmo tempo, defender-se moralmente dela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, é muito comum encontrar na fase da adolescência destes homens, períodos cíclicos em que oscilaram entre uma obediência cega à alguma figura de autoridade idealizada, substituta do pai, e condutas delinquenciais graves como colocar fogo em coisas, furtar, envolver-se em brigas e acidentes, mentir, dar cavalos de pau em automóveis, etc. Condutas que representarão, em nível inconsciente, exibições de superioridade e força em relação ao pai. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Concluindo, timidez e insegurança excessivas, a autopercepção de se ser feio e desinteressante para o sexo oposto bem como decepções amorosas sérias na puberdade, estarão entre alguns dos motivos que predisporão o jovem rapaz, mas também a garota, se excessivamente fálica, à neuroses sexuais graves no futuro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Espero assim ter demonstrado que muitos dos maus sentimentos que homens neuróticos nutrem pelas mulheres advém de fontes inconscientes profundas, nunca acessadas fora do âmbito de uma análise, indo muito além do que se apregoa vulgarmente como machismo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Gestantes no divã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jan 2024 18:45:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[gestantes]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora propõe um olhar realista sobre a gestação, a partir do que tem aprendido com suas pacientes grávidas. </p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://2.bp.blogspot.com/-CRezYicY4Q0/Uk3lpF8NpQI/AAAAAAAAABw/Cb0Zm8Kc1uU/s1600/primeiro-mes-de-gesta%C3%A7%C3%A3o1.jpg" alt="" width="212" height="181" />A vida tem uma necessidade férrea por existir e impõe duras provas ao corpo que a hospeda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É o que tenho aprendido nestes últimos anos acompanhando mulheres grávidas que se deitam em meu divã. </span></p>
<p><span id="more-2846"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São enjôos, cólicas, cansaço, sono, alterações cognitivas e metabólicas que as grávidas enfrentam, sobretudo no primeiro trimestre da gestação; sintomas naturais provocados pela reação de  adaptação do organismo materno ao novo hóspede. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na contramão disso, o ditame de que a gravidez é sempre uma dádiva, faz com que muitas mulheres se sintam culpadas por não estarem gostando de passar mal. </span></p>
<h3>Sentimentos variados</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, conforme observei em minha clínica, os sentimentos são variados, havendo mulheres que gostam de estar grávidas, enquanto outras julgam a gravidez um momento fisicamente difícil e de grandes restrições. </span></p>
<p>Outro sentimento comum é o estranhamento em relação ao feto.</p>
<p>Do ponto de vista psicanalítico, engravidar pode ser uma vivência  estruturante ou desestruturante para o psiquismo de uma mulher, a depender das experiências precoces de cada uma.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Observa-se, nesse aspecto, que mulheres que passam melhor durante a gravidez tendem a gostar mais de estarem grávidas, o oposto disso sendo também verdadeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar disso, ainda se observa ideias como enjôos &#8220;significando rejeição ao feto&#8221; e coisas do gênero, c</span><span style="font-weight: 400;">omo se não gostar de estar grávida significasse um indicativo futuro de que a mulher não iria gostar de ser mãe. </span></p>
<p>Em minha clínica, tal correlação não se mostrou correta, na medida em que três ou quatro pacientes minhas não gostaram da gravidez, embora hoje gostem muito de ser mães.</p>
<p>Interpretações deste tipo evidenciam o quão submetidas à culpa se encontram as mães, graças às expectativas irrealistas e ingênuas que circulam  sobre a maternidade.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, penso que o máximo que se pode afirmar é </span>que  mulheres que desejam muito uma gravidez, talvez estejam melhor preparadas para suportar seus incômodos, embora também seja verdade que, quanto mais as mulheres tendem a idealizar a maternidade, mais propensas estarão a se frustrar com ela.</p>
<h3>As restrições impostas pela gravidez</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre as restrições impostas pela gravidez, cita-se: não poder tomar quase nenhuma medicamento, não poder tingir os cabelos, ter que restringir café e bebida alcóolica, ser forçada à imobilidade por longos períodos, graças à uma gravidez de risco, e, por fim, mas não menos importante, ser lançada à força no &#8220;tedioso mundo das grávidas&#8221; (sic) onde só se fala de bebês e do amor incondicional a eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra situação incômoda bastante descrita é sentir-se vigiada em relação à saúde pelo companheiro, parentes, médicos e outras grávidas, perdendo-se a autonomia frente o próprio corpo.  </span></p>
<h3>Fatores de conexão ou desconexão com o feto</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Observei sobre isso que se as mulheres relaxam e aceitam, sem julgarem-se severamente, que podem não estarem gostando da gravidez, o sentimento de conexão com o feto naturalmente tende a começar a aparecer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outros fatores que propiciam o paulatino crescimento de conexão com o feto é o crescimento da barriga e o aumento dos momentos interativos com o bebê, por exemplo, nos ultrassons e com o bebê chutando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já mulheres que fantasiam uma gravidez e maternidade idílicas tenderão a se frustrar e ter dificuldade de se conectar com o feto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A persistência de tal idealização depois do parto, dificultará à mulher, por exemplo, sentir-se autorizada a experimentar cansaço  e irritação, sentimentos negativos que ela procurará supercompensar sendo a mãe perfeita, e exigindo, de volta, um bebê perfeito. Ou, no outro extremo, exacerbarão seus sentimentos de raiva, culpabilizando o bebê por isso. </span></p>
<h3>Maternidade ética</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">De outro lado, conforme tenho observado, encontra-se genuíno prazer na geração e cuidado de uma vida em mulheres  que já percorreram algum amadurecimento interno no sentido da elaboração posição depressiva, que lhes dotam de uma inquebrantável capacidade de tolerância e fé na vida, além da competência para experimentarem ternura e compaixão por tudo o que é vivo e estranho a si, o que inclui um filho, mas não só. </span></p>
<p>Esta perspectiva aponta para uma maternidade  ética, na medida em que a mãe é capaz de transcender as limitadas fronteiras de seu amor narcísico pelo filho, que mesmo saído dela, nunca será completamente seu, nem capaz de amá-la na mesma medida que ela o ama.</p>
<p>Tal falta de reciprocidade na relação entre eles ocorre porque a dependência extrema do filho pequeno em relação à mãe é tão perturbadora que o força, assim que possível, a se afastar dela com ódio, na mesma medida do seu amor.</p>
<p>Assim, quanto mais a mãe puder conhecer este aspecto ingrato da maternidade, mais ajudará seu filho a se desligar dela, pois não verá nele um devedor.</p>
<h3>Considerações finais</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, sobre aquelas que engravidam sem contar com tal amadurecimento prévio, é trabalho do psicanalista, por exemplo, ajudá–las a discriminar que estar grávida/ter um filho  e &#8220;gostar de ser mãe&#8221; são coisas distintas entre si. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois, enquanto procriar é um ato biológico, o &#8220;gostar de ser mãe&#8221; dependerá da maior ou menor capacidade do cuidador primário de suportar os duros encargos, físicos e psicológicos, que a dedicação exclusiva ao pequeno humano requerá nos primeiros tempos de vida. </span></p>
<p>*Dedico este artigo à todas as minhas pacientes, com quem sempre aprendo tanto.</p>
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		<title>A velhice</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2023 10:30:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Simone de Beauvoir]]></category>
		<category><![CDATA[velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a velhice a partir do olhar da autora sobre o tema</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/02/a014bcd27aee1d339a4fcf97163fef5a-book-storage-painting-art.jpg"><br />
<img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2741 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/02/a014bcd27aee1d339a4fcf97163fef5a-book-storage-painting-art-216x300.jpg" alt="" width="216" height="300" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/02/a014bcd27aee1d339a4fcf97163fef5a-book-storage-painting-art-216x300.jpg 216w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2023/02/a014bcd27aee1d339a4fcf97163fef5a-book-storage-painting-art.jpg 736w" sizes="auto, (max-width: 216px) 100vw, 216px" /></a><span style="font-weight: 400;">O homem evita aquilo que o assusta, sendo este o caso da velhice. O que o torna quase sempre equivocado e ingênuo sobre a sua chegada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso significa, por exemplo, que o desejo de prolongar em demasia a vida é quase sempre do moço, mas nunca do velho, conhecedor íntimo da sua degradação, da qual evidentemente nunca poderá falar. Daí talvez não haver nada mais deprimente e tristonho que um velho otimista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span><span id="more-2739"></span><span style="font-weight: 400;"> Diz-se a ele que se mova, quando tudo já lhe dói; que seja otimista, com os filhos infelizes; que ame a vida, quando todos já se foram; e que seja grato, quando lhe falta dinheiro. A tal ponto se mente em nossa sociedade sobre tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos sinais de que se mente sobre os velhos são os altos índices de suicídio entre eles, podendo isso significar: tanto a última tentativa de um homem reaver sua dignidade, quanto o desespero de não encontrar quem lhe reconheça a dor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se daí que, encorajando-se a um olhar objetivo sobre a velhice, ver-se-á que ser velho é muito difícil, ainda mais quando se é pobre. O que corresponde, no Brasil, à 70 % da população velha, que vive apenas com um salário mínimo por mês. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tendência preocupante que acompanha muitos países do mundo, graças ao aumento da longevidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Destes, muitos vivem na miséria ou são obrigados a continuar trabalhando, frequentemente para ajudar os filhos, muitos destes vivendo com eles.  </span></p>
<h3><b>O mito dos filhos como amparo aos pais na velhice</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal realidade desmorona o mito pessoal de muitas pessoas que ainda insistem na ideia ultrapassada de que filhos significam amparo financeiro e afetivo na velhice.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ora, observando velhos da minha convivência e psicanalisado alguns outros, tenho observado que, na prática, filhos adultos constituem fonte de preocupação e transtorno para pais velhos, muito mais do que amparo e proteção para eles. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo amparo e fonte de proteção outros fatores tais como: ter uma boa saúde, residência para morar, contar com uma boa fonte de renda, um companheiro de quem se goste, amigos, atividades diárias que lhe dêem sentido e algum dinheiro para viajar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filhos não são boas fontes de amparo para os pais na velhice porque: gastam-lhes as míseras aposentadorias, torcem para que morram logo para venderem-lhes os imóveis e gastarem a herança, fazem empréstimos consignados em seu nome, divorciam-se e voltam a morar com eles, e lhes dão desgosto e tristeza por serem maus pais. Negligência e sofrimento dos netos que os avós nunca conseguem suportar sem intervir.</span></p>
<p>E quando se tornam bons filhos, vão viver e lutar pelas próprias vidas. Que é como se deve ser.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se daí que tal mito não se comprova na realidade, e só parece persistir na mente das pessoas como forma de buscarem algum tipo de reconhecimento, nos filhos, pelo extenuante trabalho que significou criá-los.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desejo até bem compreensível e  justo, porém ilógico, já que, além de ter ou não um filho ser escolha dos pais, nada garante a gratidão daquele em relação a estes. </span></p>
<h3><b>Familismo e religião no Brasil</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda nesse aspecto, no Brasil, em que o familismo e religião impõem rígidas normas sociais, reprova-se severamente filhos que se distanciam dos familiares e “negligenciam” seus velhos pais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal situação culmina em um aparente menor estado de solidão entre os membros familiares, já que se forçam a ficarem juntos para: manter as aparências, evitarem o julgamento alheio e, sobretudo, o implacável sentimento de culpa que sentirão, caso infringam tão sagrada lei: a de amar incondicionalmente pais e irmãos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo, nesse aspecto, para Freud, o sentimento de culpa um dos maiores agregadores dos agrupamentos humanos, dentre eles a família.</span></p>
<h3><b>Outras culturas</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Já em outras culturas, em que elementos como liberdade de escolha e individualidade são preferidos em relação ao espírito de rebanho, enfrenta-se o problema da velhice com outros recursos, por exemplo, criando-se condomínios ou prédios de velhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Situação que implica, de um lado, em vínculos familiares mais fracos e  pessoas mais solitárias e, de outro, em menos expectativas frustradas por parte dos velhos e menos culpabilidade nos filhos. </span></p>
<p>Tal observação comprova o vínculo diretamente proporcional entre dedicação parental e expectativa de cuidado na velhice, onde quanto mais os pais &#8220;se dedicam&#8221; aos filhos, mais esperam ser cuidados por estes. E quanto menos se dedicam à eles, menos esperam em troca.</p>
<h3>Solidão ou culpa?</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Cabe nesse aspecto a cada país, cultura e indivíduo escolher o que lhe faz mais sentido na própria velhice: ter a companhia dos filhos instaurando-lhe culpa ou assumir sua solidão radical sem chantagear ninguém. Não havendo situação em que se pode ganhar tudo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, cultura que conheço mais, o imperativo social de que filhos devem sacrificar tudo em nome dos pais, culmina, sobretudo se estes se tornaram um fardo na velhice, em enormes conflitos e impasses. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por exemplo, desejo que os velhos pais morram logo, brigas conjugais e entre irmãos, de quem se acusa, velada ou diretamente, um ao outro qual se é “melhor, mau filho ou egoísta”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem citar o afastamento permanente da vida produtiva por parte do cuidador, frequentemente a filha mulher, de quem se espera o cuidado dos velhos (assim como das crianças). Única saída possível quando não se tem dez mil reais por mês para gastar com cuidadores, e lhes repugnam os asilos. </span></p>
<h3><b>Pequenos avanços no Brasil</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, mudanças de paradigma timidamente se iniciam nesse sentido, as famílias começando a aceitar as casas de idosos e estas mesmas deixando de serem aqueles horrorosos asilos de antigamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pelo menos é o que caso de onde se instalam (ou são instalados) velhos ricos ou os que acumularam algum patrimônio, imóveis e rendas, ao longo da vida, dos quais agora poderão se valer para pagar seus altos custos, sem precisar onerar nem depender dos filhos. </span></p>
<h3>A boa velhice</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Conclui-se disso tudo que uma boa velhice, na modernidade, dependerá, dentre outras coisas, da capacidade de cada pessoa de planejar e poupar dinheiro ao longo da vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Práticas infelizmente ainda muito mal vistas pelo brasileiro comum. Alguém que frequentemente gosta de parecer mais rico do que, de fato, é e chama “turco, mão de vaca ou avaro”, o homem previdente e poupador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Costumes que o farão gastar tudo ou quase tudo o que recebe ao longo do mês, a fim de manter seu <em>status</em>. Sem restar-lhe nada para a velhice.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, aprender com outras culturas, tão bem descritas por Simone de Beauvoir em “A velhice”, nas quais o velho retira-se para morrer por compreender já ter tido o suficiente da vida, quase sempre tão generosa, pode sinalizar um razoável amadurecimento no enfrentamento de tão delicado tema. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Dedico este texto às mulheres velhas da minha vida, Cora, Sueli, Rosa e Maria, que me encorajaram, direta ou indiretamente,  a  pensar nestas coisas.</span></i></p>
<ul>
<li>No dia 28 de março de 2023, fui convidada a falar deste artigo no Fórum de Biodireito, bioética e gerontologia, organizado pela Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Segue o vídeo completo para quem se interessar:</li>
</ul>
<p><iframe loading="lazy" title="Webinar: “A BOA VELHICE: IDEOLOGIA, RELIGIÃO E FAMÍLIA”" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/RcrCtvtBNi8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
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<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-velhice/">A velhice</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
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		<title>Brasil além dos trópicos: a experiência de psicanalisar brasileiros residentes no exterior</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2022 19:28:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[brasileiros que moram no exterior]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto faz reflexões sobre a situação de brasileiros que vivem no exterior a partir da experiência da autora de psicanalisar alguns deles. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/brasil-alem-dos-tropicos-a-experiencia-de-psicanalisar-brasileiros-residentes-no-exterior/">Brasil além dos trópicos: a experiência de psicanalisar brasileiros residentes no exterior</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2652 size-thumbnail" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/11/netmove-blog-nao-falta-trabalho-para-brasileiros-no-exterior-min-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Ainda que cerca de 4,2 milhões de brasileiros residam atualmente no exterior, muitos estereótipos ainda turvam a visão que se tem dos que vão viver em outro país. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-2648"></span><span style="font-weight: 400;">O primeiro deles é a idealização de parentes, conhecidos e até da própria pessoa acerca desta “nova vida”, que, no caso desta última, pode cegá-la para enxergar os defeitos de seu novo país ou, eventualmente, impedi-la de assumir que se frustrou em alguns aspectos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das origens desta visão idílica da vida em outro país explica-se pelo que Nelson Rodrigues chamava de &#8220;complexo de vira-lata” do brasileiro e que se traduz por um incorrigível sentimento de inferioridade que o faz, por exemplo, sentir-se vergonhado de seu próprio país e julgá-lo mais criticamente que a outros. </span></p>
<p>Um exemplo disso é a percepção do brasileiro médio de que seus políticos são muito mais corruptos do que políticos suécos, por exemplo, quando, na verdade, políticos corruptos existem em todo lugar, a diferença residindo, de um país para outro, nos mecanismos institucionais de controle e vigilância da corrupção.</p>
<h4>Aspectos positivos e negativos de se emigrar do Brasil</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Na prática, em termos negativos, o que brasileiros emigrantes em geral encontram é uma visão caricatural do Brasil (“<em>Brasil: país do samba, da putaria e do futebol</em>”) e um preconceito de fundo contra os povos latinos, frequentemente vistos como selvagens incultos e sem educação, fruto de sua visão eurocêntrica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, em termos positivos, a depender do país para onde vão: índices infinitamente menores de miséria e pobreza, maior civilidade, liberdade individual e respeito à própria história, maior segurança pública e conforto material.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo o que o Brasil não tem até hoje graças ao seu modo de fundação: centrado na premissa da superioridade racial do colonizador europeu e, mais tarde, das elites econômicas e culturais sobre os índios, pretos e pobres. </span></p>
<h4>Motivos para se querer emigrar</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Os principais motivos que fazem com que os brasileiros queiram emigrar são: se trata-se de pessoas da classe-média, o medo e a insegurança que sentem em morar no Brasil, a decepção com a política, a busca por melhores condições de trabalho e remuneração e, no caso dos LGBT, a chance de escaparem do preconceito, que infelizmente ainda é enorme por aqui. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já ao se tratar dos endinheirados incultos, as motivações principais são: adquirir imóveis no exterior, aumentando seu patrimônio imobiliário e ostentar seu poder de compra, consumindo artigos de luxo em Miami ou em Paris, por exemplo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Equívocos à parte, fato é que tais pessoas <strong>encontrarão muitas dificuldades na nova vida</strong>, às quais evitarão compartilhar com familiares e amigos para não preocupá-los ou desiludi-los quanto à terra prometida, o que tornará o trabalho analítico bastante valioso nesse sentido. Porque nele não se precisa mentir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Analisarei a seguir alguns aspectos desta experiência no <a href="https://www.psicanaliseribeiraopreto.com.br/psicanalise-para-brasileiros-residentes-no-exterior/">atendimento em psicanálise com brasileiros que moram noutros países</a>, conforme têm aparecido em minha clínica.</span></p>
<h4><b>Preconceito cultural</b></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Observo em meus pacientes que residir em outro país evoca neles a problemática do <em>nativo</em> e do <em>estrangeiro</em>, tão bem descrita no livro de Bauman, “Modernidade e ambivalência” (1999).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta corresponde à situação em que o estrangeiro é visto pelo nativo como um misto de pena e horror por se saber que ele nunca será assimilado em sua sociedade como um &#8220;igual&#8221;, sendo apenas tolerado nela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do lado do estrangeiro, encontram-se </span><span style="font-weight: 400;">a necessidade premente de se submeter para ser aceito e </span><span style="font-weight: 400;">o sentimento premente de ser impostor e inadequado; ou, no extremo oposto, seu isolamento completo.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste último caso, vê-se a situação de brasileiros pobres que vão trabalhar em outros países e não aprendem a nova língua, seja por insegurança ou dificuldades escolares que já carregavam  antes, seja porque só se relacionam entre si. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tais imigrantes são frequentemente bem-vindos nos países ricos porque fazem tarefas de baixíssima qualificação, que mais ninguém quer fazer. O mesmo ocorre com migrantes do Norte e Nordeste que vêm trabalhar no Sudeste brasileiro.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos efeitos existenciais deletérios deste impasse &#8211; o de se deixar a própria terra sem ser assimilado na outra &#8211; é o sentimento de se estar vivendo num limbo identitário, onde a nacionalidade antiga foi perdida sem que se tenha adquirido outra no lugar, algo que meus pacientes se referem como: </span><i><span style="font-weight: 400;">não sou mais brasileiro e tão pouco serei…canadense, suéco, francês, inglês, etc. </span></i></p>
<p>Sentimento que o reconhecimento da cidadania no novo país diminui, mas não aplaca, sendo uma das saídas para isso a dolorosa perda da ilusão de que um dia ele será finalmente integrado.</p>
<p>A propósito, a eleição pelo Estado de quem é ou não cidadão &#8220;de bem&#8221; serve mais para fins discriminatórios do que agregadores, conforme se vê na prática em muitos países.</p>
<h4>Adesão ao estereótipo do imigrante</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, observei junto aos meus pacientes que pelo menos quatro fatores parecem intensificar a adesão inconsciente da pessoa ao estereótipo negativo de imigrante, a saber, e</span><span style="font-weight: 400;">star “legal” ou “ilegal” no país, t</span><span style="font-weight: 400;">er ou não uma rede de apoio, t</span><span style="font-weight: 400;">er trabalhos precários ou de maior status e a q</span><span style="font-weight: 400;">ualidade de sua auto-estima; o que depende, em grande medida, das três coisas anteriores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ressalta-se ainda neste aspecto o quanto a palavra imigrante por si só denota no imaginário forte viés preconceituoso significando alguém rejeitado ou banido de sua terra, como viu-se recentemente na fala preconceituosa do então presidente Jair Bolsonaro acerca da menina venezuelana refugiada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No extremo disso, tem-se a situação da deportação, conforme acompanhei em um de meus pacientes da <a href="https://www.psicanaliseribeiraopreto.com.br/">clinica de psicanálise</a>, que ficou uma semana inteira, sem malas, celular nem documentos em um centro de deportados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Algo aviltante e traumático que pareceu atualizar nele fantasmas ligados ao desaparecimento e à “queima de arquivo”, como devem ter vivido pessoas capturadas pelo Estado em épocas de ditaduras militares. Pois, caindo nas mãos do Estado, faz-se o que se quiser com um deportado, até mesmo assassiná-lo e jogar seu corpo fora. </span></p>
<h4>Desilusão realista</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando ao tema, passado o tempo da lua-de-mel, o emigrante brasileiro iniciará um movimento de desilusão realista, comparando prós e contras de seu novo país em relação ao Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perceberá, por exemplo, que portugueses fumam e bebem como chaminés, vícios que no Brasil já foram superados há tempos; que o sistema de saúde canadense, totalmente público, cria dificuldades tremendas quando se precisa de atendimento emergencial para um filho; que, numa entrevista de emprego londrina, passa-se despercebida sua homossexualidade e que mães européias tendem a ser  mais frias e &#8220;desencanadas” com seus filhos em comparação com as brasileiras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desilusão realista que os fará compreender que não há país ideal para se viver, mas que, colocados prós e contras na balança, pode-se, e deve-se, afinal escolher onde se quer viver. </span></p>
<h4>Considerações finais</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Espero ter conseguido demonstrar,  a partir da escuta psicanalítica de meus pacientes brasileiros residentes no exterior, que visão idílica e romantizada acerca da vida em outro país é, no fundo, bastante infantil, precisando ser problematizada em uma análise. </span></p>
<p>Com o tempo e a paciência do analista, esperar-se-á que tais pessoas compreendam que &#8220;o melhor lugar do mundo&#8221; é aquele onde, dentre tantos, ela escolheu e, afinal, pôde estar.</p>
<p>Pois, na vida humana, goste-se ou não disso, contingência é destino.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Comentários sobre o filme A Filha Perdida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Mar 2022 22:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes comentados]]></category>
		<category><![CDATA[A Filha Perdida]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo tece comentários, a partir da visão da psicanalista, sobre o filme A Filha Perdida</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-2495" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-150x150.jpg" alt="Filme A Filha Perdida" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2022/03/A-Filha-Perdida-Olivia-Colman-120x120.jpg 120w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" />Numa das primeiras cenas do filme, a luz do farol que ilumina o apartamento remete à iluminação de verdades que se preferiria manter no escuro, por seu caráter demasiado perturbador. </span></p>
<p><span id="more-2494"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro e mais perturbador aspecto iluminado é que filhos dão menos satisfação aos pais do que se costuma admitir, sendo a maternidade / paternidade  mais um ato de doação que de prazer. Embora &#8220;dar prazer e &#8220;alegrar&#8221; sejam papeis frequentes atribuído às crianças em nossa cultura.      </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, Leda e Nina representam mulheres que não conseguiram corresponder ao que se espera delas, seja por se sentirem demandadas além do suportável ou por estarem terrivelmente sós para exercerem esta difícil função, já que nem Leda nem Nina contavam com os parceiros.  </span></p>
<h4>Satisfação com a maternidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso significa dizer que o grau de satisfação com a maternidade / paternidade depende da conjunção benéfica de fatores psíquicos e sociais, tornando-as uma responsabilidade coletiva, além de individual. Pois, é cruel deixar uma pessoa sozinha lidar com os duros encargos de uma criança.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As dificuldades de Leda com a maternidade levam-na à abandonar as filhas  por três anos, enquanto Nina sente-se deprimida e exausta com as demandas da pequena filha Elena e pelas intrusões constantes de sua família inadequada. </span></p>
<p>Ainda, no caso de Leda, deixar as filhas aos cuidados do companheiro até então ausente foi uma forma de forçá-lo a se envolver com elas, levando-o a experimentar na marra o que é cuidar 24 horas por dia dos filhos.</p>
<h4>Natureza tirânica de alguns filhos</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto perturbador iluminado no filme é a natureza tirânica e pulsional das crianças contraposta ao lugar imaginário adocicado que elas ocupam na cultura.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bianca, filha mais velha de Leda, comporta-se de modo arrogante e por vezes cruel. Exige da mãe, sem perceber ser ela a filha.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma cena dramática, Leda está exausta deitada no chão e Bianca penteia com agressividade seus cabelos, claramente tentando machucá-la. Em outra, Leda dá a ela sua boneca Mina para cuidar, à qual Bianca maldosamente estraga. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vendo com realismo, impulsos de ódio, inveja e competição tornam a vida de uma criança um verdadeiro tormento, repleto de angústias terrificantes, algo que Leda em sua visão ultra-realista consegue enxergar.</span></p>
<h4>Erotismo e maternidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Ilumina-se também no filme o conflito entre o erotismo e a maternidade / paternidade, como na cena em que Leda tenta se masturbar e é interrompida bruscamente pelas filhas, a ponto de muitos casais deixarem de ter vida sexual depois de tê-los, por culpa ou exaustão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conflito que parece ser quase irresolvível se não se é uma família aristocrática ou burguesa do século XIX, e se tem que criar filhos sem o auxílio de ninguém.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um terceiro elemento, este estético, iluminado no filme é a relação entre uma vida interiormente rica e a capacidade de se suportar a dor, como se vê em Leda e Lyle. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Na refeição que Lyle prepara à Leda observa-se duas pessoas vividas e maduras, que, a despeito da dureza da vida, foram capazes de se manterem alegres, joviais, bem humoradas e  pulsantes, como quando dançam alegremente no baile. Ela com um exuberante vestido vermelho; ele com a ginga e a graça de um menino. Competências psíquicas que independem da idade. </span></p>
<h4>Preconceito com a mulher que envelhece &#8220;sozinha&#8221;</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">De outro lado, vê-se a crueldade e o preconceito com que a mulher que envelhece “sozinha” é tratada, como na cena dos delinquentes no cinema, e no modo como Callie, cunhada de Nina, trata Leda na praia, não se conformando por ela estar sem as filhas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste aspecto, Leda é o avesso do estereótipo da mulher velha, ressentida, amarga e infeliz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela viaja sozinha, canta em voz alta, dança, estabelece vínculos, encanta-se com as belezas naturais do lugar e gosta da sua própria companhia, embora sinta-se sozinha às vezes. Além disso, tem seus livros e interesses intelectuais próprios, companhias extraordinárias para quem tem vida interior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando, Leda é a antípoda de três imperativos categóricos totalizantes que recaíram fortemente sobre a mulher a partir da modernidade: a da mulher, que &#8220;ama&#8221; ser mãe; a da criança, como única fonte de gozo para ela; a da velha, ressequida e amarga.</span></p>
<p>*O filme é uma adaptação livre da obra &#8220;La Figlia Oscura&#8221; (2012), da escritora que utiliza o pseudônimo Elena Ferrante.</p>
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		<title>Um olhar sobre a injustiça social</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-sobre-a-injustica-social/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Mar 2021 16:09:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[justiça social]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda aspectos subjetivos que perpetuam a injustiça social e o preconceito acerca da pretensa inferioridade do pobre em relação ao rico.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-2315 size-full" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2021/03/download-1.jpg" alt="" width="279" height="180" /></strong>Para Freud (1930), não há civilização sem justiça social, sendo aquela compreendida como o conjunto de sanções que a protege contra a ganância e voracidade do indivíduo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-2314"></span>Daí ser justo o Estado que limita o poder dos poderosos e auxilia os desprivilegiados a se reerguerem, o avesso da situação em que os ricos são privilegiados em detrimento dos pobres. Realidade crônica no Brasil, que a pandemia só fez ressaltar. Restando-nos indagar o porquê isso ocorre.</p>
<h3><strong>Pobreza como destino </strong></h3>
<p>Culpabiliza-se o destino do pobre por argumento ideológico, a saber, por sua pretensa “natureza&#8221; preguiçosa e indolente.</p>
<p>Natureza pretensamente muito diferente da dos homens &#8220;esforçados e de bem&#8221;, do lado do qual os vitoriosos e bem-sucedidos se colocam. Tal ideia explica-se pela visão capitalista para quem homem de sucesso é aquele que produz bastante e acumula patrimônio.</p>
<p>Nesse aspecto, a caricatura do pobre representando tudo aquilo que o homem de sucesso mais abomina e despreza, com sua preguiça, falta de ambição e espírito servil.</p>
<h3>Ambição e ganância</h3>
<p>Aqui, a ambição por dinheiro, poder e status revela sua face mais monstruosa na voracidade desenfreada e sem limites, agora aceita e tornada banal.</p>
<p>Em nome dela, faz-se qualquer negócio. Desde corromper o sistema político a seu favor, roubando comida e escola dos pobres, à ludibriar pessoas com discursos mentirosos. Sem nunca se satisfazer com os ganhos.</p>
<p>A premissa cínica de que todo homem tem um preço, basta saber qual, destrói a necessária crença em um Ideal, a saber, de que há homens e mulheres imunes ao pecado escandaloso da ganância sórdida. Nesse aspecto, Ideal não sendo algo inatingível, mas qualidade rara e superior à grande massa de miséria humana.</p>
<p>O argumento falacioso de que se todos fazem, porque não fazer, pode ser refutado pela ideia de que se deve mirar nos melhores e não nos iguais ou piores que si.</p>
<p>Enquanto isso, a classe média trabalhadora (Mills, 1979) segue confusa, julgando-se muito mais rica do que de fato é, a mostrar  que ninguém está imune ao espírito de soberba.</p>
<p>Tal confusão obstaculiza uma visão mais clara do real problema da desigualdade social, já que, no Brasil, apenas 0,1% da população brasileira acumula 30% do PIB nacional (Cavalcante, 2020). O que significa que não são muitos os multimilionários.</p>
<p>Educar bilionários, ricos e classe média para a prática da solidariedade e conscientizar empresários à boas práticas sociais (vagas para negros, estímulo ao empreendedorismo já existente nas favelas, etc.) são parte da solução coletiva para a erradicação da miséria no longo prazo.</p>
<p>Vejamos agora o tratamento desigual de acordo com a classe social.</p>
<h3><strong>Tratamento diverso de acordo com a classe</strong></h3>
<p>Weber (1974) designou classe como número de pessoas que comungam, em suas oportunidades de vida, de contingências parecidas ou iguais.</p>
<p>A contingência mais controlável para se subir de classe social é a educação, sendo as outras: o trabalho árduo, o talento, a corrupção e a sorte. Ainda que só o trabalho árduo, sem educação, sorte ou talento, não enriqueça ninguém, sendo este um dos grandes engodos do capitalismo.</p>
<p>Já a educação é propulsora interessante por outros aspectos. Primeiro, porque (a depender de como é feita) desaliena e gera autoestima. E segundo, por ser fonte de status e prestígio social, principalmente em algumas profissões.  Daí ter um filho “doutor” na família continuar a ser o sonho de muitos.</p>
<p>Na contramão disso, jovens pobres evadem cedo das escolas, por estas não serem atrativas, e por terem de trabalhar cedo. O que diminui suas chances de mobilidade social.</p>
<p>De outro lado, pela dureza da vida, desenvolvem habilidades de sobrevivência valiosas, que jovem ricos não possuem. Tornando-se com isso pequenos empreendedores de sucesso, ativistas sociais, youtubers e rappers talentosos. Sendo ainda outras saídas da pobreza, o sonho de tornar-se um craque do futebol ou a carreira no crime.</p>
<h3>Dinheiro e poder</h3>
<p>Trata-se melhor o rico que o pobre porque dinheiro traz poder. Nesse aspecto, ricos sendo muito mais poderosos e influentes que pobres. Sobretudo na política onde o rico influencia a feitura de leis e acordos que beneficiam seus negócios em troca de pagamentos e/ou vantagens aos políticos.</p>
<p>Tal círculo vicioso entre poder e política gera injustiça social porque mantém a classe política desinteressada em proteger os interesses dos mais pobres, já que estes não têm nada de valor a lhes oferecer, exceto votos.</p>
<p>A levar-se em conta que política e poder são inextrincáveis, sendo utópico o interesse do político aos miseráveis, apresenta-se como saída possível que empresários  estimulem e invistam no enorme potencial consumidor e empreendedor dos mais pobres, em troca de algum lucro. O que curiosamente faz pensar que é pelo capitalismo consciente que se sai da miséria.</p>
<h3><strong>Compaixão e solidariedade </strong></h3>
<p>Demonstra a realidade que qualidades humanas como compaixão e solidariedade tendem a ser mais encontrada entre os pobres que entre os muito ricos. Embora haja exceções quanto a isso.</p>
<p>Sendo um dos motivos para isso que a falta de proteção do Estado força-os a criarem redes de ajuda mútua (Fonseca, 2000), possibilitando entre eles a criação de um elevado senso de comunidade.</p>
<p>Outro, é que a dureza da vida força à humildade e à aceitação da ajuda dos outros para sobreviver, e, portanto, à gratidão.</p>
<p>Experiência que os mais ricos não têm por não saberem o que é fome, nem desemprego crônico, nem moradia em barracos, nem falta de escola para os filhos.</p>
<p>A solidariedade entre os mais humildes pode significar vizinhos intervirem no homem que, bêbado, espanca mulher e filhos. Ou em mulheres que cuidam dos filhos das vizinhas para que se possa trabalhar. O que não tende a ocorrer nos bairros de elite onde o senso de propriedade, o individualismo e a alta moralidade tendem a operar.</p>
<p>A rígida moral que tende a reger as famílias mais ricas, por exemplo, torna necessário esconder e não compartilhar os problemas psíquicos que acometem seus membros (alcoolismo, abuso físico e sexual, etc.). O que faz os pobres parecerem mais desestruturados e problemáticos que os ricos, por falarem e se exporem mais.</p>
<p>Outra diferença é que distúrbios psíquicos, nos ricos, serão casos psiquiátricos e nos pobres, caso policiais graças à brutal criminalização que se faz dos mais pobres.</p>
<p>A maior severidade moral com que se julga o pobre em detrimento do rico pode explicar o medo consciente ou inconsciente deste, de vir a empobrecer.</p>
<p>Assim, a bancarrota de uma família rica não tenderá a despertar solidariedade entre os vizinhos, mas desejo de pechincha dos bens perdidos a preços irrisórios. É o famoso “bom negócio”, que se traduz na desvalorização de um bem ou serviço alheio com o propósito sórdido de lucrar.</p>
<p>Os que caem de nível social passarão agora para “o outro lado”, podendo ser tolerados com piedade no círculo social antigo ou paulatinamente recusados nos eventos sociais. Daí ser a perda da riqueza pesadelo inconfesso de todo rico.</p>
<p>Mas não é só o rico que teme empobrecer. O pobre também sonha enriquecer. Ou pelo menos conquistar alguns privilégios no mundo dos privilegiados.</p>
<p>Assim, o porteiro de um condomínio de luxo tenderá a bajular os moradores na esperança de melhorar de nível, destacar-se entre os colegas ou ganhar boas gorjetas. Daí ser elitista e ingênua a ideia do pobre como subserviente (Fonseca, 2000).</p>
<p>De outro lado, a imagem do pobre como alguém tolo, pueril e coitado motiva o assistencialismo dirigido a ele. É a mulher rica que faz bazares beneficentes para livrar-se do tédio da própria vida e sentir-se em paz com a consciência.</p>
<h3>Injustiça e insegurança social</h3>
<p>A caricatura do pobre pelo rico, ora como esperto ora como coitado, explica também o sentimento permanente de ameaça social que há nos últimos quanto aos primeiros.</p>
<p>E que aparece como medo de ser furtado, enganado, sequestrado ou morto por um pobre, sobretudo, se este for homem, jovem e negro. Daí ser a insegurança pública de um povo expressão direta de sua desigualdade e abandono social dos menos favorecidos. Pois, dignidade toma-se por bem ou por mal.</p>
<p>Assim, em casas ricas a culpa pelo sumiço de algum pertence ou valor quase sempre recairá sobre as empregadas, cozinheiras, babás, motoristas, jardineiros e piscineiros. Por vezes denunciados à polícia sem provas.</p>
<p>Os quais, caindo no sistema de justiça, tenderão a ser mais severamente julgados. Primeiro, pela falta de acesso a bons advogados. Segundo porque juízes, sobretudo se nascidos ricos, tenderão a replicar seus preconceitos de classe em seus julgamentos.</p>
<p>No avesso disso, têm-se a maternagem e erotismo ameaçando a rígida estrutura de classes.</p>
<p>Com crianças pequenas amando suas babás e empregadas domésticas como se fossem mães.</p>
<p>E adolescentes, tendo-as como suas primeiras e vigorosas amantes. O que aponta para o caráter extraordinariamente anárquico e não convencional da sexualidade e dos afetos humanos.  Avesso à quaisquer convenções e distinções artificiais entre os homens por sua cor ou nível social.</p>
<h3>Considerações finais</h3>
<p>Esperamos ter demonstrado que a injustiça social aos mais pobres perpetua-se pela associação naturalizada entre dinheiro e poder, culminando em descaso e abandono das elites econômicas e políticas para com eles.  Descaso que corrói e erode gravemente o tecido social.</p>
<p>Conscientizar-se de que ser privilegiado é mais sorte que mérito (bastaria nascer-se em uma favela para saber disso) podendo ser uma saída modesta contra a soberba desmedida.</p>
<p><strong> </strong><strong>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</strong></p>
<p>Cavalcante, Pedro (2020). <em>A questão da desigualdade no Brasil: como estamos, como a população pensa e o que precisamos fazer.</em> Disponível em: <a href="http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/10263/1/td_2593.pdf">http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/10263/1/td_2593.pdf</a></p>
<p>Freud, S. (1930/1996). Mal-estar na civilização. In: <em>Obras psicológicas completas. </em>v XXI, pp. 67-150.</p>
<p>Fonseca, Cláudia.  (2000). <em>Família, Fofoca e Honra. </em>UFRGS Editora: Porto Alegre.</p>
<p>Mills, Charles Wright (1979). <em>A nova classe média.</em> Rio de Janeiro: Zahar Editores.</p>
<p>Weber, Max. (1905/2004). <em>A ética protestante e o espírito do capitalismo.</em> São Paulo: Companhia das Letras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-olhar-sobre-a-injustica-social/">Um olhar sobre a injustiça social</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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