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	<title>Blog de Psicanálise</title>
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	<description>Conheça o que é a psicanálise lendo o blog da psicanalista Ana Laura Moraes Martinez. Discussões de filmes, livros e temas que gerem reflexão e auto conhecimento!</description>
	<lastBuildDate>Wed, 21 Jan 2026 18:09:55 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Um achado especial: Caderno Proibido, de Alba de Céspedes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 13:25:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Alba de Céspedes]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora faz uma resenha do livro Caderno Proibido, da escrita ítalo-cubana Alba de Céspedes, cotejando-o com suas reflexões pessoais</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-achado-especial-o-livro-caderno-proibido-de-alba-de-cespedes/">Um achado especial: Caderno Proibido, de Alba de Céspedes</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1.webp"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-3332 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1-300x169.webp" alt="" width="300" height="169" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1-300x169.webp 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1-768x432.webp 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Alba_de_Cespedes_2_278-1024x576-1.webp 1024w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Foi com grande alegria que me deparei, sem querer, com o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Caderno Proibido</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Alba de Céspedes y Bertini, escritora ítalo-cubana a quem eu não conhecia. </span></p>
<p><span id="more-3331"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O título remete à situação na qual, a protagonista do livro, Valéria, uma mulher de 43 anos bastante comum, casada há vinte anos e com filhos já grandes, decide comprar um caderno no qual passa a anotar seus pensamentos mais íntimos, experiência que se torna perigosa para ela, por trazer à tona suas frustrações com o casamento desgastado, o egoísmo dos filhos, a falta de dinheiro, a solidão e o cansaço extremo, insatisfações às quais, a princípio, ela tenta erradicar sonhando ir à Veneza com o chefe. </span></p>
<h2><b>Caderno perigoso</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364.webp"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3334 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364-225x300.webp" alt="" width="225" height="300" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364-225x300.webp 225w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/capa-do-livro-caderno-proibido_2_12364.webp 350w" sizes="(max-width: 225px) 100vw, 225px" /></a>Penso, nesse sentido, que o caderno, mais que proibido, era perigoso, pois, afinal, ninguém nos proíbe de pensar, nem mesmo na pior ditadura, enquanto que pensar com a própria cabeça é perigoso  para muitas pessoas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, porque elas começam a enxergar coisas que antes não viam e, segundo, porque podem ir se paralisando com o que agora vêem, o que não é o caso da protagonista, que vai claramente amadurecendo ao longo do diário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um exemplo deste seu amadurecimento é ela, ao final do livro,  dizer ao chefe que fugir com ele para Veneza era, no fundo, uma grande ilusão já que a relação deles nunca daria certo porque ele era rico e ela, pobre. </span></p>
<h2><b>O mundo dos privilegiados</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, esta percepção arguta de que, no fundo, muita coisa na vida de uma pessoa depende de sua classe social permeia todo o romance, estando muito bem representada, por exemplo, na figura de Mirella, filha da Valéria, moça emancipada, prática e nada romântica que lutava a qualquer custo contra o provincianismo da mãe e por independência financeira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E também em Michelle, marido da protagonista, que carregava uma frustração enorme por ter sido obrigado a trabalhar a vida toda num banco para sustentar a família, enquanto sonhava ser roteirista de cinema. </span></p>
<h2><b>Diferença no tratamento dos filhos</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Já Ricardo, o outro filho do casal, representa no romance o homem fraco e mimado pela mãe, que nunca assume as rédeas da própria vida, por lhe ser mais vantajoso sempre viver às custas dos outros, o que ele próprio termina fazendo quando vai morar na casa dos pais assim que engravida a namorada Marina. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse aspecto, Alba destrincha com maestria o modo desigual que algumas mães tratam os filhos homens e mulheres, mimando os primeiros e sendo excessivamente rígidas e severas com as filhas, o que eu mesma vivi em minha família de origem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O motivo mais profundo para isso penso que se deve ao fato de que a mãe costuma reproduzir de modo inconsciente com a filha mulher, tal como um espelho invertido, os próprios conflitos e preconceitos não elaborados nela, sobretudo no campo sexual e moral. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que significa dizer que é no interior das próprias famílias que toda ordem de violências, preconceitos, desigualdades de gênero, machismos, segredos e mentiras são transmitidas aos filhos.  </span></p>
<h2><b>Reputação e honra</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Valéria é, nesse sentido, uma mulher típica que foi criada para cuidar da imagem pública da família em termos de reputação e honra, e que termina por cair em terríveis contradições na medida em que insiste em continuar mentindo para si mesma. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Exemplos disso são o fato de que Valéria criticava a filha por sair com um homem casado, ao mesmo tempo em que ela própria estava envolvida com o chefe, também casado. Da mesma forma que criticava a filha por ser tão obstinada com a carreira e dinheiro, enquanto ela mesma lastimava o fato de ninguém valorizar o seu trabalho, e de serem todos tão pobres. </span></p>
<h2><b>Mulheres gostam de homens ricos</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ranço social trazido por Valéria, e por suas amigas, é a visão, infelizmente ainda tão atual, de que moças, afinal, só se interessam por homens ricos como forma de subir na vida, o que talvez seja verdade para um tipo de mulher, mas não para todas. Certamente, não sendo este o caso das duas protagonistas do livro, Valéria e Mirella, duas mulheres fortes e bem assentadas na vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, a profundidade e a forma nuançada com que Alba evidencia o choque geracional entre estas duas mulheres fortes, mãe e filha, impressiona, a tal ponto que ora nos identificamos com Valéria, ora com Mirella e terminamos o livro com a incômoda constatação de que viver, seja em qual época for, é sempre muito mais difícil do que parece. </span></p>
<h2><b>Fugindo de estereótipos</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, Valéria não é a caricatura da mulher infeliz, que foi obrigada a se casar e ter filhos, sendo que, ao contrário, ela gosta desta sua vida, que lhe dá segurança, preenchimento e estabilidade interior, e que, por exemplo, é invejada pela amiga Clara.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo, conforme Alba sugere, só isso não basta para uma mulher definir quem ela é, sobretudo com a chegada da meia idade e a saída dos filhos de casa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Curiosamente, ao final do livro Valéria termina feliz, com a perspectiva de agora voltar a se preencher cuidando do neto e chega a dizer sobre isso que o único momento no qual se sentiu realmente viva foi quando trouxe os filhos à vida, ao contrário da filha Mirella, que parecia se sentir viva e feliz em cada pequena ação diária. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mérito não exclusivo dela, mas sim da sorte, de fazer parte de uma geração de mulheres a quem se deixou de impor, como único destino possível, casar e ter filhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, para além de uma reflexão fácil de que Valéria foi doutrinada a só encontrar sentido parindo e cuidando de bebês, penso que Alba aponta aqui, num nível mais maduro, para a questão de temperamento,  a saber, de que há mulheres que gostam de bebês e de ter filhos e outras que não, sendo que somos todas diferentes umas das outras. </span></p>
<h2><b>As ambivalências da maternidade</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso ainda, Alba mostra em seu livro, com enorme habilidade, as ambivalências da maternidade e o enorme custo que um casal paga ao ter filhos, inclusive do ponto de vista erótico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No primeiro aspecto, cita-se a alegria e ternura que Valéria experimentava quando os filhos, já adultos, lhe demandavam algum cuidado, ao mesmo tempo em que enxergava, desconcertada, o quanto eles eram por vezes egoístas e autocentrados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no segundo, cita-se sua percepção do quanto, depois da chegada dos filhos, a vida sexual entre ela e Michelle murchou, seja pelas excessivas demandas da vida diária, seja porque ambos se sentiam desconfortáveis de transar com os filhos em casa:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Tememos que os filhos se deem conta de uma vida secreta nossa, aquilo que nos torna tão relutantes em nos entregar a ela: é porque sentimos que marido e mulher, que se unem numa relação encoberta, depois de terem falado o dia inteiro de contas, de dinheiro, depois de terem fritado ovos, lavado pratos sujos, já não obedecem a um feliz e jubiloso desejo de amor, mas a um instinto primário como sede, fome, um instinto que se faz no escuro, rapidamente, de olhos fechados&#8221; </span></i></p>
<h2 style="text-align: left;"><b>A relação conjugal</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, Valéria e Michelle pareciam ter um bom casamento, havendo cumplicidade e intimidade mental entre eles, apesar de que Michelle, como todo homem antigo, não se envolvia muito com a criação dos filhos e delegava toda a pesada carga para a esposa, situação que felizmente vem se modificando, ainda que muito lentamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, Michelle era um homem que, apesar de bom, honesto e trabalhador, havia se acomodado, como tendem a fazer todos que envelhecem. Nesse aspecto, é bonito e triste ao mesmo tempo ver no romance que uma centelha de vida volta a se reacender dentro dele quando a amiga Clara se mostra interessada em seu roteiro, promessa que terminará por não dar em nada já que os donos da indústria cinematográfica o julgaram muito ousado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante de tal negativa, Valéria olhará com ternura e compaixão o marido de meia-idade, agora para sempre derrotado, que havia sacrificado tudo em nome da família, o que me fez pensar que envelhecer pode ser isso mesmo: abdicar para sempre de cada um dos nossos sonhos antigos, pois não se tem mais tempo hábil para realizá-los. Como diz Valéria:</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8220;Aos 43 anos, se tudo o que possuímos nos vier a faltar, é muito difícil recomeçar a viver.&#8221;</span></em></p>
<h2><b>Considerações finais</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uns poucos livros que tocam em algo muito fundo em nós, sendo este o caso do livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Caderno Proibido, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Alba de Céspedes. Um livro sobre a fase madura da vida de uma mulher, na qual eu mesma me encontro. </span></p>
<p>Do ponto de vista ideológico, penso ser um livro extremamente urgente e atual, pois nele se vê demonstrado que o mal não está em se ser conservador, mas sim hipócrita. Hipocrisia que, aliás, também encontramos aos montes entre os progressistas.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que me fez pensar que, decididamente, Alba de Céspedes é mesmo uma autora para gente adulta. </span></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/um-achado-especial-o-livro-caderno-proibido-de-alba-de-cespedes/">Um achado especial: Caderno Proibido, de Alba de Céspedes</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Uma visita especial à Júlia Mann</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-visita-especial-a-julia-mann/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jun 2025 17:46:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Thomas Mann]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A autora narra sua experiência de ter visitado a casa onde Júlia Mann, mãe do escritor Thomas Mann, nasceu e viveu até os sete anos, na cidade de Paraty, Rio de Janeiro. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-visita-especial-a-julia-mann/">Uma visita especial à Júlia Mann</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5.jpg"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-3214 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-300x226.jpg" alt="" width="300" height="226" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-1024x771.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-768x578.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5-1536x1156.jpg 1536w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.40_53bb91c5.jpg 1600w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Neste feriado fiz algo que me deixou muito emocionada. Visitei a casa que a mãe de Thomas Mann nasceu, em Paraty. O casarão do século XVIII é lindo e imponente, envolvido, de um lado, pela exuberante Mata Atlântica e, de outro, por um mar translúcido e calmo verde-esmeralda. </span></p>
<p><span id="more-3212"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Júlia da Silva Bruhns (1851-1923) viveu ali até os sete anos e, após sua mãe, Maria Senhorinha da Silva, ter morrido em um parto, emigrou com o pai, o abastado fazendeiro alemão Johann Ludwig Hermann Bruhns e seus irmãos para a Alemanha, de onde nunca mais voltou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647.webp"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3213 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647-300x180.webp" alt="" width="300" height="180" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647-300x180.webp 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647-768x461.webp 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/julia-mann-esta-sentada-com-a-filha-julia-no-colo-ao-lado-dela-de-pe-estao-os-meninos-heinrich-e-thomas-mann_1_42647.webp 820w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Na Alemanhã, Júlia se casou aos dezessete anos com Thomas Johann Heinrich Mann, na ocasião com vinte e nove anos, e teve com ele cinco filhos: Heinrich, Thomas, Julia, Carla e Viktor, sendo que o caçula chegou a escrever sobre a infância da mãe no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, a menina Júlia era conhecida como Dodô e vê-se seu veio literário, herdado pelos dois filhos, Heinrich e Thomas, em seu livro autobiográfico “Da infância de Dodô”, publicado em 1903, onde ela narra seus primeiros anos vividos “</span><i><span style="font-weight: 400;">na selva, ao lado do Oceano Atlântico, ao Sul do Equador, entre macacos e papagaios</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imagino que ela tenha tido uma infância muito feliz ali,  repleta de experiências sensoriais e estéticas, em meio à bichos, plantas,  banhos de mar e paisagens luxuriantes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Marca psíquica materna que depois talvez Thomas Mann irá desenvolver e ampliar em personagens como Hans Castorp, o engenheiro “</span><i><span style="font-weight: 400;">à paisana</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que ama a beleza e a natureza, e experimenta, no cume da Montanha, o inenarrável prazer de chegar ao âmago das coisas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há, de fato, em vários personagens de Thomas Mann, como no próprio Castorp, e no inesquecível Thomas Buddenbrook, de “Os Buddenbrook &#8211; decadência duma família”, um desassossego interior que bem pode ter sido também o de Dodô. A tal ponto sabemos que a nostalgia de deixar a terra natal pode provocar em nós. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, teria ela saudades de sua terra natal? Lembrar-se-ia por vezes de sua língua materna, o português com que aprendeu a falar? E que marcas aquelas paisagens luxuriantes da costa brasileira teriam deixado em seu coração?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não tenho respostas para isso. Mas o que eu sei é que, tendo estado ali, pude ver a menina Dodô perseguindo os pássaros, mergulhando no mar e com medo das cobras. E senti uma gratidão enorme por esta mulher ter trazido ao mundo um escritor que, a mim, não sei nem dizer de quantas maneiras marca a minha vida.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, a escritora portuguesa Teolinda Gersão lançou em 2021 o livro “O retorno de Júlia Mann a Paraty”, obra na qual o título se serve de uma licença poética, já que Júlia efetivamente nunca voltou ao Brasil. </span></p>
<h2>Relação de Thomas Mann com o Brasil</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre a relação de Thomas Mann com o Brasil, em um <a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2022/04/03/interna_cultura,1357200/casarao-abandonado-em-paraty-e-o-elo-perdido-de-thomas-mann-com-o-brasil.shtml">artigo</a> publicado no caderno cultura do Estado de Minas, Gustavo Werneck, que também esteve no antigo casarão em 2022, recupera uma carta trocada entre Thomas Mann e Karl Lustig-Prean em 8 de abril de 1943, publicada no livro “A família de Thomas Mann e o Brasil” (2013), no qual o escritor fala sobre o Brasil:</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Cedo soou em meus ouvidos o louvor de sua beleza, pois minha mãe veio de lá, era uma filha da terra brasileira; e o que ela me contou sobre essa terra e sua gente foram as primeiras coisas que ouvi sobre o mundo estrangeiro. Também sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista. Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda da minha terra pátria (&#8216;mein vaterland&#8217;) deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria (&#8216;mein mutterland&#8217;). Ainda chegará essa hora, espero.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Felizmente, desde que Werneck esteve lá em 2022 até o momento, pelo menos o casarão foi restaurado por fora, e estava em melhores condições do que quando ele o visitou. Mas ainda há muito que poderia ser feito em termos da preservação histórica de um lugar tão importante em termos memorialísticos para o país. </span></p>
<h2>Preservação histórica</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Este era o intento do neto de Thomas Mann, o escritor Frido Mann, que visitou várias vezes o casarão e tinha interesse de instalar ali a Casa Mann, para guardar a memória da família, o que até o momento ainda não se realizou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escutei de alguns moradores da marina do Engenho ser uma pena aquele casarão lindo estar fechado, sugerindo que ali poderia ser um restaurante ou algo do tipo. O que, a meu ver, seria uma imensa tragédia, pois é assim que se apaga a história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas há tantas condições para alguém poder amar e reconhecer o valor artístico de um escritor da envergadura de Mann, que não se pode exigir muito das pessoas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, amar os livros e reconhecer o valor de um clássico, ter sensibilidade estética e vida interior, gostar de personagens bem construídos e complexos, e saber valorizar o que a meu ver é um ponto forte em Mann, que é o olhar sagaz de seus narradores, não é algo que se encontre com frequência nas pessoas comuns. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso talvez explique a sensação de imenso conforto e identificação que senti estando lá. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como se ali, na companhia de Dodô, e de seu filho Thomas, mas também na de Hans Castorp, Clawdia Chauchat, Joachim, Settembrini, Krokowski, Naptha, Dr. Behrens e Marusja, e outros tantos personagens maravilhosos que ele criou, eu me sentisse por alguns instantes um pouco menos só. </span></p>
<p>Segue um vídeo e mais algumas fotos que tirei do casarão</p>
<p><iframe loading="lazy" title="Visita ao casarão em que Júlia Mann nasceu, em Paraty" width="660" height="371" src="https://www.youtube.com/embed/ZN_fx_3g7as?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p><a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-3215 size-medium" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-300x226.jpg" alt="" width="300" height="226" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-1024x771.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-768x578.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.39_f2f63566-1536x1156.jpg 1536w, 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href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-3219" src="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-300x226.jpg" alt="" width="300" height="226" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-300x226.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-1024x771.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-768x578.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2025/06/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-23-as-13.34.41_3c7952cd-1536x1156.jpg 1536w, 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<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/uma-visita-especial-a-julia-mann/">Uma visita especial à Júlia Mann</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O voo de Miréia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Sep 2018 18:26:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reflexões sobre o cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[segurança]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Trata-se de uma pequena crônica que descreve a saga da galinha Miréia em busca de sua liberdade, vivida em meio à temores, inseguranças e a ajuda do humano Pedro. </p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-voo-de-mireia/">O voo de Miréia</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1917 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003-150x150.jpg 150w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003-300x300.jpg 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003-768x768.jpg 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003-1024x1024.jpg 1024w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/IMG-20180725-WA0003.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px" /></a>Ela se chamava Miréia. Ou melhor, este fora o nome que Pedro lhe dera depois de encontrá-la numa gaiola minúscula em uma sala escura, órfã de pai, mãe e irmãos. A cena daquela galinhazinha que nunca pisara em grama, piando freneticamente, como que pedindo para ser adotada, fez vibrar alguma corda insondável do bom coração de Pedro que imediatamente, como para salvar uma alma do hiato da não existência, pegou a galinha, enfiou-a no carro e a levou para casa.</p>
<p>Sua esposa Clarice viu-o chegar com a galinha que o seguia pra lá e pra cá, cheia de orgulho por recém ter encontrado uma mãe novinha em folha para ela, e não pôde deixar de ver graça na cena. Afinal, não se sabia muito bem qual dos dois, se galinha ou Pedro, sentiam-se mais sortudos com aquele iniciozinho de amor que já prometia grandes belezas, mas também uma boa dose de dor, porque um não vem sem o outro.</p>
<p><span id="more-1916"></span></p>
<p>Assim, durante todo o mês seguinte, Pedro cuidara de Miréia com esmero de pai zeloso. Ensinara-a seus primeiros voos, aumentando o grau de dificuldade um pouco por dia, para não sobrecarregá-la demais. Passeara com ela pelo jardim ampliando bem devagarinho o raio de extensão do passeio para que ela não se assustasse com tanta imensidão. Ajudou-a perceber que era capaz de alcançar a altura do caramanchão, que logo se transformou em seu poleiro predileto para descansar pontualmente às dezoito horas de cada dia.</p>
<p>Mas, como adolescência de galinha chega rápido, depois de um mês Miréia, já forte e robusta, batia freneticamente as asas em busca de algo mais. Pedro e Clarice sabiam o que ela ansiava: queria ser galinha em toda a sua plenitude; queria regressar ao seu mundo, de onde efetivamente nunca saíra; queria simplesmente existir como uma galinha deixando para trás o parêntese humano que fora aquele jardim.</p>
<p>Mas como fazer com que ela sentisse o gosto de uma liberdade que nela só existira como pré-concepção? Como convencê-la de que os riscos de uma vida livre valiam a perda da segurança daquele aconchegante quintal? E aqueles dois corações humanos, que foram se apegando à presença da galinhazinha? Como conformá-los à ideia de que qualquer amor já é sempre um princípio de perda?</p>
<p>A sorte é que Pedro e Clarice nunca foram de muitos romantismos com a vida. Sabiam que arte de amar, qualquer coisa que seja, é uma espécie de doação sem retorno garantido. E que suas funções junto àquela galinha eram ao mesmo tempo modestas e cruciais: cruciais, porque sem aquele empurrão inicial, ela estaria condenada ao reino eterno da não galinha; modestas porque, depois de dado o empurrão, ela explodiria em toda a sua potencial de galinha, e nunca mais se lembraria do hiato vivido no jardim humano. Seria como se ele nunca tivesse efetivamente existido; como se ela tivesse nascido no exato instante em que pela primeira vez conseguiu ultrapassar os limites daquele muro outrora intransponível.</p>
<p>E o dia em que isso aconteceu foi mágico. Só foi menos mágico do que o dia em que Pedro a viu empoleirando-se pela primeira vez, junto de seu bando recém-conquistado, para passar sua primeira noite em uma árvore altíssima.</p>
<p>Foi assim: Pedro teve a brilhante ideia de atrair para o seu quintal, com milho, um bando de galinhas que morava perto de sua casa, para estimular em Miréia o seu desejo de existir por si mesma. De início, ela se assustou. Depois, repudiou a balburdia e a confusão do grupo, preferindo peremptoriamente a segurança de seu quintal humano. Além disso, o grupo era violento e competitivo e Miréia, menor que todos eles, deveria ser muito corajosa para enfrentar a violência de seus pares e lutar por comida.</p>
<p>Neste momento, venceu a arte da paciência. Todos os dias pela manhã, Pedro levava as galinhas ao quintal atraídas com milho, mostrando à Mireia que estava chegando o momento dela partir. E tudo foi acontecendo de um modo muito sutil e delicado: um dia, saía pela manhã com o bando e voltava à tarde; depois passava três dias ininterruptos paradinha no quintal, como se estivesse armazenando novas forças para a guerra que viria junto com sua liberdade recém-conquistada. Nestes momentos, Pedro caprichava com doses extras de comida porque sabia que Miréia teria um grande desafio pela frente, e que lá fora nada é dado de graça.</p>
<p>Depois, dois dias fora. Pedro e Clarice, ao escurecer iam correndo ao quintal e, felizes, constatavam que Miréia não tinha voltado para dormir naquele dia. Estava ficando mais corajosa, pensavam. Ambos, com o peito ao mesmo tempo feliz e cheio de preocupações, iam dormir cada qual pensando em silêncio consigo mesmos: onde andaria Miréia? Estaria ela protegida da chuva? Teria conseguido se alimentar em meio ao bando já constituído? Teria sido adotada por uma galinha mãe?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1924 size-medium" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/cocó-300x168.png" alt="" width="300" height="168" srcset="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/cocó-300x168.png 300w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/cocó-768x429.png 768w, https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2018/09/cocó.png 855w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />No outro dia, para alegria de ambos, Miréia chegava toda faceira, encostadinha em uma galinha grande que, ao que tudo indica, tinha-a a adotado finalmente. Então, o bando se punha a tomar sol no quintal, Miréia deitada ao lado de sua mãe, cheia de orgulho e alegria, exibindo suas penas de galinha toda para o sol quente e aconchegante.</p>
<p>Como Pedro era enorme em sua arte da paciência, todas as noites seguia o bando que dormia empoleirado em uma árvore alta perto de sua casa, para que pudessem se proteger dos predadores.</p>
<p>E eis que certo dia, Clarice recebe uma mensagem extasiada de Pedro. Miréia tinha finalmente conseguido vencer a última e mais difícil etapa de seu crescimento: subir com suas asas agora robustas na árvore altíssima para dormir com seu bando. Finalmente, tornara-se uma galinha plena e a missão de Pedro estava terminada.</p>
<p>A cena, depois Pedro contara a Clarice, fora linda e emocionante: sendo a última a subir, como se ainda brigassem dentro dela o medo e o desejo, Miréia ensaiou, ensaiou, ensaiou, olhou para cima, pensou em desistir, mas – como sempre há de ser – seu instinto falou mais alto. E então, ela abriu suas asas em plena potencialidade de voo e jogou seu corpo de uma vez por todas para dentro do reino insondável da natureza.</p>
<p>De vez em quando, ela passa pela casa deles. Não para visitá-los – a natureza não tem destas idiossincrasias. Mas ambos gostam de pensar que dentro daquela galinhazinha algo de seu quintal humano ficara, ainda que soterrado para sempre no reino dos sonhos.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/XgHqBeQE9Es" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>O homem que prendia pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2015 08:30:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cena era brutal: pássaros que nasceram livres, lindos e coloridos, debatendo-se violentamente contra as grades da prisão. Aqueles pequenos pingos de milagre no meio do dia debatiam-se com tanta força e intensidade que de suas asas brilhantes o sangue já começava a verter; feridas fundas iam se formando por suas batidas frenéticas. A violência &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-homem-que-prendia-passaros/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">O homem que prendia pássaros</span></a></p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A cena era brutal: pássaros que nasceram livres, lindos e coloridos, debatendo-se violentamente contra as grades da prisão. Aqueles pequenos pingos de milagre no meio do dia debatiam-se com tanta força e intensidade que de suas asas brilhantes o sangue já começava a verter; feridas fundas iam se formando por suas batidas frenéticas. A violência havia se imposto e os seres miraculosos nada podiam fazer contra ela. Estavam presos, vítimas da brutalidade. Marina e Pedro avistaram a cena horripilante soltando um grito surdo de horror.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina, frágil demais para suportar tamanha dor, sentiu seus olhos inundarem. Queria segurar a inundação que deixava sua alma exposta, mas não podia. Era translúcida demais.</p>
<p>Pedro, mais vigoroso de alma, pôs-se imediatamente a matutar como usaria sua força de leão para salvar os pingos de vida. Marina teve medo por seu amado, pois pensou que ele teria que ser tão robusto e vigoroso quanto às grandes gotas de chuva que lavam a poeira do horizonte, tornando-o límpido e fresco.</p>
<p><span id="more-1387"></span></p>
<p>Animados um pela força do outro – Pedro, pelas lágrimas da dor criadeira dos olhos castanhos de Marina e ela, pela coragem de seu amante-amado – puseram-se a caminhar como dois valentes guerreiros que não se importariam em dar a vida pela vida. Caminhando em passos firmes, avistaram o responsável pelo crime atroz.</p>
<p style="text-align: justify;">A bocarra do homem era infernal. De seus olhos vertia sangue. Marina olhava estupefata a cena. Não conseguia tirar seus olhos do sangue nos olhos do homem. De sua boca vertia um veneno fétido e viscoso. O clima era tenso e explosivo. Alguém iria morrer ali, era o que Marina silenciosamente pensava. Ou quem sabe a morte já tivesse sido realizada tempos atrás e Pedro, com seu ar majestoso, estivesse tão somente trazendo a verdade à luz? Marina lembrou-se dos vampiros e teve febre de medo.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de instantes aterradores de silêncio denso, Pedro deu o primeiro passo:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>      &#8211; Por que você prendeu os lindos pássaros?</em></p>
<p style="text-align: justify;">O homem, como uma enguia, fez-se de desentendido.</p>
<p>Mais enfático, Pedro continuou:</p>
<p><em>     &#8211; Você não sabia que prender pássaros que nasceram livres é um crime? Por que os prendeu?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Marina, pálida, percebeu que olhos sanguinários do homem pareciam prestes a explodir de cólera. Nesta luta ferrenha entre a explosão e o contorcer da enguia, venceu a segunda. O homem começou a se contorcer freneticamente fazendo um movimento convulso pra frente e pra trás. Seus olhos, antes prestes a explodir, ganharam um ar de aparente submissão, enquanto o seu corpo todo se contorcia, liso, invertebrado e pegajoso. Marina pensou que talvez ele quisesse deixar Pedro confuso com este ziguezaguear de corpo que adquiria um ar de fragilidade artificial. Sua voz tornou-se mais melodiosa como uma sereia encantatória. Mas Pedro, que era valente de alma, não se deixou seduzir.</p>
<p style="text-align: justify;">      <em>&#8211; Fale, homem. Pare de se contorcer como uma lesma. Por que prendeu aqueles lindos pássaros? Eu vou soltá-los agora. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Com uma voz patética, o homem respondeu:</p>
<p><em>     &#8211; Eu não fiz nada demais, senhor! Eles cabem lá dentro. O que eu fiz não é ilegal, eu juro. </em></p>
<p>Pedro respondeu, retumbante:</p>
<p><em>     &#8211; Mas você também cabe lá dentro. E se fosse você a ser colocado na prisão?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Marina não podia acreditar no que estava ouvindo. O que mais doía em Marina não era propriamente os pássaros presos – isso ela sabia que iria resolver o mais breve possível com seu querido Pedro. O que mais lhe doía era a queda na mentira, o ziguezaguear da enguia, as seduções do falsear do pensamento que levam a caminhos terrivelmente perigosos e sem volta. Em um átimo de luz, então, Marina pôde compreender que o sangue nos olhos do homem era dele mesmo. Era ele que estava preso para sempre em seu ser invertebrado. E era por estar preso que prendia os lindos pássaros. A vida, para aquele homem, não valia mais nada. Deste seu vislumbre, sentiu alguma compaixão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como para o mal não há perdão (embora para o homem que o pratica sim, pois no final são como crianças), Marina e Pedro tinham pressa em salvarem os lindos pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixaram o homem-enguia contorcendo-se como um pobre diabo para trás e rumaram resolutos à prisão de pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram as mãos pequenas e frágeis de Marina que abriram as grades. Talvez Pedro sentisse que eram as mãos da infância que deveriam ajudar nascer liberdades. E então, os dois se colocaram sob o lindo sol crepuscular, debaixo de uma grande figueira para assistem ao espetáculo sublime da redenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Um a um, os pássaros brilhantes redescobriram o prazer de baterem suas asas potentes e fortes em pleno ar. Um a um, deixaram para trás a prisão que mata a vida. Um a um, como pequenos pontos de milagre no meio da tarde, conquistaram a liberdade do voo e foram para bem longe do homem de sangue nos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina chorou novamente, mas agora de alegria sublime. Seu frágil peito doía de tanta felicidade, de tanto orgulho, de tanta vida. Em tom de oração, Marina rezou e pediu ao deus-natureza que ajudasse estes pequenos pássaros a não mais voltarem para nenhum tipo de prisão, para nenhum tipo de homem de sangue nos olhos. Pensou também, como um suspiro, que a vida é frágil e milagrosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois, agarrou as mãos firmes do seu jovem Pedro e partiu feliz, como bebê recém-amamentado de amor.</p>
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		<title>Os sons da vovó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2015 08:30:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A avó era surda como uma múmia. Incomunicável com o mundo, habitava um universo próprio, todo seu. Tinha medo de sair dele. Pavor mesmo. Sons humanos soavam em seus ouvidos como gritos horripilantes. Virgínia, a neta, tinha paixão pela esquisitice da avó. Suas peles flácidas, seus olhos caídos, sua tez branquíssima fazia Virginia se lembrar &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/os-sons-da-vovo/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Os sons da vovó</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A avó era surda como uma múmia. Incomunicável com o mundo, habitava um universo próprio, todo seu. Tinha medo de sair dele. Pavor mesmo. Sons humanos soavam em seus ouvidos como gritos horripilantes. Virgínia, a neta, tinha paixão pela esquisitice da avó. Suas peles flácidas, seus olhos caídos, sua tez branquíssima fazia Virginia se lembrar de um fantasma ou de uma bruxa. O silêncio da morte se aproximando era completamente misterioso para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia dias em que a mãe de Virgínia, por um motivo qualquer, pedia para que a menina tomasse conta da velha. Eram momentos de puro terror e fascinação. A avó, muito velha e branca, era colocada sentada imóvel em uma cadeira de balanço antiga bem em frente à janela que dava para um pequeno jardim lateral da casa. A miúda se sentava, dura, ao lado da avó, em uma pequena cadeira. Ambas permaneciam imóveis a tarde toda. Virginia punha-se a observar atentamente cada pequeno movimento da velha, enquanto pensava com os seus botões:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1353"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Como será que ficará seu corpo depois de morto? Será que ficará duro como o corpo de um gato que morreu outro dia mesmo em nossa rua? Quanto tempo será que demora para que os vermes comecem a nos comer?</em></p>
<p style="text-align: justify;">As tentativas de estabelecer uma conversa minguada com a avó eram infrutíferas e logo desanimavam a menina. A avó não ouvia absolutamente nada e a necessidade de ter que repetir a mesma pergunta infindáveis vezes até que ela pudesse compreender pelo menos uma parte do que lhe era dito, desanimava Virgínia antes mesmo de ela tomar coragem e abrir a boca para dizer qualquer coisa que fosse.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto havia algo na avó que hipnotizava Virgínia. No fundo, ambas eram semelhantes em suas almas. Ambas eram alisadoras de silêncios. Tanto uma quanto a outra poderiam permanecer horas ou dias completamente em silêncio simplesmente a olhar fixamente para uma pequena formiga que se locomovia paciente em seu caminho de açúcar.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, elas eram contempladoras do nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Este era o pacto secreto entre elas. Virginia, vista pelos outros membros da família como uma criança bem esquisita, era a única capaz de compreender a alma silenciosa e surda da velha. Sim, Virgínia sabia que neste silêncio mudo havia um pedido. Sim, Virgínia sabia que a avó queria morrer, que já estava cansada da vida, que já estava cansada de sons humanos, que não via mais nenhuma graça na luta infindável que é estar vivo. Virgínia – a esquisita – compreendia a dor funda carregada pela alma de sua velha avó. No fundo, Virgínia sentia o mesmo. Mesmo sendo criança, sua alma, que também era velha, às vezes ficava profundamente cansada da vida. Seu olhar astuto não lhe permitia acreditar em falsas esperanças ou em concessões. Sim, Virgínia sabia que viver era um peso e que – coitada da avó – já devia ter experimentado tanto deste peso da vida que devia estar cansada que só.</p>
<p style="text-align: justify;">A menina chegava a pensar em algo bastante revolucionário. Pensava que se pudesse criar o seu próprio país, nele as pessoas já velhas teriam a liberdade de poder escolher quando e como gostariam de morrer. Se estivessem já muito cansadas da vida, como era o caso de sua pobre avó, poderiam morrer caso quisessem. Neste país, a morte não seria tratada como um tabu, mas como um processo natural da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Afinal, se formigas morrem, leões e macacos morrem, estrelas morrem, porque nós haveríamos de ser eternos? </em></p>
<p style="text-align: justify;">Certo dia Virgínia teve uma ideia que a ela parecia genial: convocaria uma reunião com os membros familiares, incluindo tios e primos, para que pudessem encontrar uma maneira de fazer com que a avó voltasse a ouvir e a se interessar pelo mundo humano.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Sim. Desta forma a velha poderia voltar a ouvir os lindos sons que rondam a vida: o barulho da água da chuva, do beija-flor, das abelhas zunindo no jardim, do cão latindo, uma bela música de igreja, que sua pobre avó tanto gostava. Quem sabe assim ela não voltaria a ter vontade de continuar vivendo, nem que fosse só mais um pouquinho?</em></p>
<p style="text-align: justify;">É que Virgínia, ao mesmo tempo em que sabia com consciência aguda que viver é um peso, também sabia e sentia que havia algumas poucas coisas na vida que eram belas demais para deixarem de ser ouvidas pelos ouvidos humanos. Estas coisas tão lindas que enchem o coração humano de uma alegria sublime quando escutamos uma linda música ou o correr dos pingos da chuva em um dia frio, Virgínia queria poder compartilhar com a avó em seus derradeiros momentos de vida. Ela não queria deixar de ajudar sua velha avó a experimentar a beleza de ouvir determinados sons perfeitos que emanam da natureza. Virgínia também sabia, lá no fundo de sua pequena alma, que sua velha avó havia desistido de ouvir os sons humanos porque estes eram violentos demais, feios demais, sinistros demais para os delicados ouvidos daquela pobre criatura. Então, num ato que parecia de rebeldia, mas que era de pura liberdade, ela havia deliberadamente desistido de ouvir os sons humanos, passando a habitar o mundo dos seus próprios sons.</p>
<p style="text-align: justify;">Acontece que Virgínia, com sua alma sensível demais e doída demais, não suportava ver acidentes de percurso deste tipo. Ela precisava fazer alguma coisa. Por isso teve a ideia de marcar a reunião.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia da reunião, a pequena tomou à dianteira:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não podemos mais permitir que vovó se recuse a ouvir o som da vida! </em></p>
<p style="text-align: justify;">Ao dizer isso, Virgínia sentiu de um modo caótico que havia proferido palavras proibidas e heréticas. Sentiu confusamente que aquilo havia sido demais – lembrar a todos que vida tem som. Ela pagaria um alto preço por isso que havia acabado de fazer. Imediatamente Virgínia, em um estado que parecia de sonho-pesadelo, sentiu bocarras enormes vindo em sua direção. O primeiro a vociferar foi o tio:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Mas, ela não quer mais ouvir. </em>Disse gritando. <em>É uma teimosa. Não adianta. Para mim isso é perda de tempo, bobagem. Ela é teimosa como uma porta.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A pequena Virgínia, tão frágil e valente, sentiu uma profunda dor no peito. Havia sido ferida em cheio. Ferida em sua minguada esperança na vida. Confusa e cheia de dor, sentiu uma mistura de vergonha e culpa por ter ousado desejar tanta vida. Teve vontade de recuar como um caramujo envergonhado de sua existência. Com todo o ardor do seu coração, pensou:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Criatura estúpida. Não sabe que é exatamente por isso que vovó não quer mais ouvir? Ela desistiu dos sons dos seres humanos por sentir que neles só se ouve grito, ódio e revolta. Precisamos ajudá-la a perceber que há outros sons mais bonitos e melódicos na vida: os sons que vibram lá do fundo do coração.  </em></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, Virgínia estava fraca demais para se defender. Além disso, sabia que era só uma criança no meio de adultos rancorosos e inconsequentes. Mas, havia ainda uma esperança: seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu pai, assim como a avó e a própria Virgínia, eram alisadores de silêncio e devotos de passarinhos. Tinham alma livre e delicada de boto. A pequena, com lágrimas nos olhos, lançou seu último grito de esperança. Olhou profundamente nos olhos do pai, que estava escondido em um canto da sala, repleta de bocarras, e desejou com todo o seu coração que ele – o pai – tivesse coragem de ajudá-la a lutar pelo som da vida. Neste instante seus olhos se encontraram num ato sublime de pura amorosidade e o pai entendeu o coração da filha maldita.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma transmutação milagrosa, ele inchou o peito antes minguado e, com voz firme e grossa, disse a todos:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;<em> Egoístas. Não conseguem compreender que a vovó desistiu de ouvir porque não quer mais ouvir suas vozes monstruosas vociferando maldades? Não percebem que vocês estão matando os seus ouvidos um pouco por dia, com tanto ódio e tanta revolta no coração? </em></p>
<p style="text-align: justify;">Ao proferir estas palavras com maestria e coragem, vi que os olhos do titio se encheram de lágrimas. Sim, seu coração havia sido tocado. O ser humano que ainda habitava o seu peito havia sido acessado por papai, o corajoso.</p>
<p style="text-align: justify;">E a vovó, que estava como estátua paralisada em sua cadeira de balanço eterna, levantou-se como um cisco e disse:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Sim, agora estou ouvindo. Agora posso ouvir. Pássaros cantam lá fora uma linda canção. Embalados por ela, cortejam-se para acasalar. Deste acasalamento um lindo passarinho nascerá. A este passarinho daremos o nome de esperança.</em></p>
<p style="text-align: justify;">E todos os membros daquela difícil família, ao ouvirem esta linda oração da boca de vovó, puseram-se de joelhos em sinal de perdão. Haviam finalmente voltado a serem seres humanos. Haviam finalmente voltado a sentirem o som de seus corações apertados e miúdos de tanta dor, de tanta luta, de tanto ódio.</p>
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		<title>(In)definições</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2015 08:30:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Amor é quando você chega devagarinho e vai ficando. Passarinho é um pingo de milagre no meio do dia. Alegria é quando o corpo inteiro de enche de bolinhas elétricas. Medo é um sem-nome que insiste em ficar. Amizade é quando um entra no outro como se fosse num santuário. Beleza é aquilo que preenche &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/indefinicoes/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">(In)definições</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Amor é quando você chega devagarinho e vai ficando.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Passarinho é um pingo de milagre no meio do dia.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Alegria é quando o corpo inteiro de enche de bolinhas elétricas.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Medo é um sem-nome que insiste em ficar.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Amizade é quando um entra no outro como se fosse num santuário.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; orphans: auto; text-align: start; widows: 1; -webkit-text-stroke-width: 0px; word-spacing: 0px;"><span style="font-family: 'Georgia','serif'; color: #333333;">Beleza é aquilo que preenche o olho até gastar.</span></p>
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		<title>Identidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2015 08:30:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Qualquer esforço em direção ao telefone era impossível para mim. Havia uma premonição tenebrosa se formando: a de que quanto mais eu caminhasse para o abismo, mais desgarrada e infiel aos padrões eu me tornaria. Uma revolta crepuscular queimava em meu peito e eu dizia a mim mesma: &#8211; Não. Não quero mais esta selvageria &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/identidade/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Identidade</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Qualquer esforço em direção ao telefone era impossível para mim. Havia uma premonição tenebrosa se formando: a de que quanto mais eu caminhasse para o abismo, mais desgarrada e infiel aos padrões eu me tornaria. Uma revolta crepuscular queimava em meu peito e eu dizia a mim mesma:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não. Não quero mais esta selvageria mentirosa. Todos estão doentes, verdes e desmantelados. Por que só eu percebo isso?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Minha única vontade era enrolar-me em mim, como caracol enegrecido, cauda junto de cabeça, pele junto de pele, até formar uma só coisa, um só nada. Até sumir.</p>
<p style="text-align: justify;">Brotava em mim, de forma desenfreada, um puro desejo de não ser mais. Nada de telefonemas, de metáforas, de meios sorrisos, de olhares que se desencontram das palavras. Meu ser clamava pela verdade. Sem ela, me recuso agora a viver. O telefone olhava para mim, com ar impaciente. Precisava ligar para o banco, resolver pendências. É que eu havia perdido minha identidade e não sabia onde ela havia ido parar. O problema &#8211; e nisso residia grande parte da minha vergonha &#8211; eu havia sido descoberta em minha ausência de identidade pela linda moça do banco que, cheirosa e malévola, atendia sorridente aos clientes do dia.  Descobri que estava completamente sem identidade justo diante daquela linda moça. Fiquei estarrecida, envergonhadíssima. Ela, babando de prazer por ver minha dor e culpa, disse triunfante, para todo mundo ouvir:</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1363"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não posso fazer nada por você, meu bem. Nada me prova que você é você mesma! Precisa de sua identidade.. Como saiu de casa sem ela?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Pronto. Agora eu estava desnuda diante de alguém em quem eu sentia não poder confiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Só de me lembrar do olhar medonho e cítrico da linda e gentil moça do banco que, tremendo de prazer por dentro, dizia que eu precisava provar que eu era eu, que sem isso ela não poderia me ajudar e que, sem a minha identidade tal prova não seria possível, eu explodia de dor e de vergonha, por repassar, detalhe por detalhe, aquela cena vexatória. Sentia-me culpada por estar ali, despida, uma sem identidade, diante da moça linda do banco. Aquela que parecia ter uma identidade tão sólida e bem apanhada. Aquela que não havia carregado o fardo de ter nenhum tipo de dúvida a respeito de quem ela era.</p>
<p>Lembro-me exatamente dos seus olhos de dinossauro mirando o meu colar de pérolas. Ela babava como criança frente aos tesouros maternos. Boca cavernosa se abria e se fechava. Meu coração palpitava. Sabia que estava prestes a ser engolida por aqueles olhos de carniça.</p>
<p>Mais uma vez insisto em perguntar se não poderia me ajudar. Afinal, eu estava sem identidade somente naquele dia. Não era sempre que eu saia sem identidade por aí&#8230;</p>
<p>Responde, insolente, com um sonoro NÃO. Afinal, como eu poderia provar que eu era eu mesma? Pois é. Como eu poderia provar que eu era eu mesma? Cena insólita. Quem eu sou? Eu sou eu? Como provar? Prova? E eu permaneci ali, olhando, tonta, aquela bocarra de dinossauro, rindo para mim. Assumi minha incompostura e senti vergonha.</p>
<p>&#8211; <em>Como ousei sair de casa sem documento? Sem identidade? Eu não sabia que não há espaço lá fora para os sem identidade?</em></p>
<p>Agora estava eu aqui, humilhada, sendo vomitada pela linda moça com olhos de Calígula. Eu, a que não tinha identidade. Baixei a cabeça, em sinal de vergonha e luto, e assumi minha condição sem identidade. Pude sentir em minhas costas seu olhar de triunfo:</p>
<p>&#8211; <em>Lá vai a pobre coitada. Sem identidade!</em></p>
<p>Fui para casa, assumindo todo o peso da podridão dos sem identidade. Morte a eles! E agora estava eu aqui a relembrar toda esta cena dolorosa, que destampou minhas carnes, tornou tudo tão explicito: Eu era sem identidade. Senti raiva e fúria.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois deste episódio, fui para casa. Humilhada, a cada dia eu religiosamente ligava para o banco, exatamente às dez da manhã &#8211; era este o horário que a instituição abria suas portas ao público &#8211; e perguntava à linda moça se ela havia, finalmente, encontrado minha identidade, talvez caída pelo chão só esperando para ser encontrada. Era estranho pensar que, depois de eu haver sido descoberta em minha ausência de identidade pela linda moça do banco, havia ficado refém dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A repetição persistente e contínua deste suicídio cotidiano &#8211; o ato de ligar para o banco e falar com a linda moça cheia de identidade &#8211; foi me deixando completamente sem força para respirar. Queria poder retornar ao líquido amniótico. Viver era doído. Ligar para o banco, mais ainda.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a este turbilhão de pensamentos de pássaro, escuto tocar a campainha sonora do telefone. Seu barulho fere meus ouvidos como um grito alto e ensurdecedor.</p>
<p style="text-align: justify;">O telefone continuou tocando, sua campainha a me engolir. Atendo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Alô?</em></p>
<p style="text-align: justify;">A voz quase não me sai da garganta. Tremo toda. Do outro lado, uma voz cavernosa diz.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Por favor, preciso falar com Amélia.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Respondo que sou eu.</p>
<p>&#8211; <em>Sou?</em></p>
<p>A voz rouca diz:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>É que encontramos sua identidade morta no chão do banco. A senhora precisa vir buscar com urgência, pois não pode ficar sem ela</em>. <em>Precisa dela.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Preciso?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Desligo o telefone num grito de vingança.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Tum, tum, tum&#8230;</em></p>
<p style="text-align: justify;">E tudo fica silencioso outra vez.</p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/identidade/">Identidade</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>A menina e o cão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jul 2015 08:30:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A menina era tristonha e acanhada. Sentia impropriedade no fato de existir. Seu andar era como de gato, esgueirando pelos cantos. Certo dia, seu pai Josiberto trouxe a salvação: um belo labrador cor de mel. Pura inspiração. Seus olhos vivazes eram como uma humilhação para a menina tísica. Mas como que por desordem do destino &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/a-menina-e-o-cao/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">A menina e o cão</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>A menina era tristonha e acanhada. Sentia impropriedade no fato de existir. Seu andar era como de gato, esgueirando pelos cantos. Certo dia, seu pai Josiberto trouxe a salvação: um belo labrador cor de mel. Pura inspiração. Seus olhos vivazes eram como uma humilhação para a menina tísica. Mas como que por desordem do destino tornaram-se unha e carne. Melhores amigos mesmo. Obviamente o cão dava por certo o fato de sua existência pacificada, bem instalada em seu corpo sólido e pouco conhecedor de si. Já a menina, instável na arte de amar, caiu doente, literalmente, de amor pelo nobre cão. Passou semanas se recompondo em sua cama, com o cão-fiel ao seu lado. Pobre menina. Ninguém havia ensinado a ela os perigos do amor!</p>
<p style="text-align: justify;">Seu pai Josiberto e sua mãe Marina eram pessoas dotadas de coração, mas simples nas aquisições do sentir. Para eles, preto era preto e branco era branco. Sem mais conversações. E a menina, raptada pelas gradações subterrâneas do sentir, tinha fome de coração. Neste ritmo sonhador de ser, passava horas a fio olhando para o Nada, ao que sua mãe perguntada, meio enfezada:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>O que é que tanto olha aí, menina? Vem me ajudar com a louça.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1357"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Nestes instantes, a menina se sentia violentamente roubada de suas delicadezas e era atacada por uma tristeza sem fim, que demorava dias a passar. Nestes arroubos de coração, ela deixava de comer, de banhar-se e até o movimento de seus pequenos membros era um esforço brutal para ela. Mas, com a chegada de Teseu – era assim que ela chamava o cão cor de mel – sua vida se transformara, ou melhor, seu íntimo ser se arco-irizara. Ela pensava, quietinha, que nunca pudera imaginar a existência de um ser vivo capaz de estar em comunhão plena com outro ser: olhos olhando olhos, nariz cheirando nariz. Tudo em um movimento sincronizado de pura magia e compreensão. Às vezes, nesta dança, chegava a se assustar, pois parecia que seu pequeno companheiro acompanhava até mesmo seus pensamentos mais íntimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para provar este fato bem provado, certo dia a menina, devagarinho na cama, derramara uma lagrimazinha, tomada que estava pela beleza embelezada de seu sonho. O cão, em um movimento mais que rápido, pulara em cima dela para lhe lamber a lágrima. Como ele intuíra que a menina estava fazendo nascer uma lágrima naquele exato instante? Isso era puro mistério, daqueles que nenhum homem com sua bruteza natural vai poder desvendar. Neste vislumbre lusco-fusco, de relação enfeitiçada, ambos cresceram juntos. A menina se floreou em mulher e o pequeno Teseu se tornou tão nobre – ou até mais – que o rei acolhedor de Tebas. Mas, como a arte imita a vida e nesta sempre há interrupções abruptas do bem-querer, que fazem quebrar qualquer coração mais sentimental, esta estória de amor também não teve um final feliz.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o passar dos anos, Teseu, pelo próprio peso mortífero da idade, que pesa em gosto e sombra a todos os viventes e respirantes seres, foi se tornando carrancudo e avesso ao contato com a menina-mulher. Ela, que fora feita para puro-amar, não compreendia esta mudança do seu tão fiel amigo. A menina só crescera por fora e ainda não estava habituada as funduras da vida, aos dissabores do envelhecer e do tão fatídico encontro com a morte. Certo dia, quando Teseu já estava bem velhinho, a menina-mulher chegou do seu trabalho e seu fiel companheiro havia partido para o mais-além. A menina, muito sensível às dores do existir, não suportou tanto sofrimento e pesar e decidiu, sem decidir, partir também. Sua vida não fazia mais sentido sem Teseu. Recolhida como formiga em seu pequeno leito, fechou os olhos para nunca mais abrir. Morreu como nasceu: como um suspiro.</p>
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		<title>Marina e o gato morto</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/marina-e-o-gato-morto/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2015 12:18:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Textos literários da autora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Marina despiu-se em frente o espelho. Procurava suas próprias entranhas e vísceras. Enquanto fazia este gesto maquinal, fora invadida por uma cena infernal: Hugo, Marina e sua gata Frida deitados na cama. Três montes de vísceras, soltas no espaço. Presas somente por um invólucro fino e irresoluto de pele.  &#8211; Sim, pensou Marina. Somos todos &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/marina-e-o-gato-morto/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Marina e o gato morto</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"> <a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1332 size-full" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2015/07/maquina-de-escrever.jpg" alt="maquina de escrever" width="251" height="201" /></a>Marina despiu-se em frente o espelho. Procurava suas próprias entranhas e vísceras. Enquanto fazia este gesto maquinal, fora invadida por uma cena infernal: Hugo, Marina e sua gata Frida deitados na cama. Três montes de vísceras, soltas no espaço. Presas somente por um invólucro fino e irresoluto de pele.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> &#8211; Sim, </em>pensou Marina. <em>Somos todos uns sacos de vísceras e órgãos caminhando por aí. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Acontece que na manhã do dia em que se descobrira vísceras e órgãos, Marina teve um encontro com a sinistra morte. Enquanto saia para o trabalho, ela topou com um gato duro e morto. O cheiro de carnes putrefatas já começava a impregnar toda a rua. Ela, com seu olhar sempre tão infantil e inaugural, sentou-se escondida do outro lado da calçada, atrás de uma árvore. Queria checar a reação das pessoas frente àquela cena abissal: um gato duro, morto, sendo comido pelos vermes. Marina permaneceu ali por horas. Transeuntes passavam e simplesmente negavam a existência morta do gato.</p>
<p><span id="more-1331"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Não. Isso eu não vou aguentar. Preciso enterrar meus mortos. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Arrumou uma pá sabe-se lá onde e rumou, convicta, ao corpo duro do felino espichado. Nunca havia parado para pensar como ficamos duros e retesados depois de mortos. Pegou o gato por uma de suas patas espichadas. Reparou que seus olhos esbugalhados saiam de suas órbitas oculares. Saltavam para fora como bolas de gude explodindo contra a parede. Sentiu nojo e repulsa. O mesmo nojo e repulsa que sentiria alguém que tocaria em seu corpo morto quando este já estivesse fedendo, duro e frio, como o corpo daquele gato.</p>
<p style="text-align: justify;">Com seus braços finos de gravetos, Marina cavou um buraco fundo, longe dos olhos da civilização, que é onde devem ficar os mortos. Rezou:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Querido Deus, espero que este gato tenha tido uma vida longa e feliz. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Tinha indícios para pensar que sim, que aquele gato havia sido feliz, pois ele tinha uma pança generosa e roliça. Devia ser de alguém. Nesse momento o peito de Marina se apertou com intensidade. Pensou no desespero do dono daquele lindo gato que provavelmente o esperaria por noites a fio sem saber do seu paradeiro, acalentando uma esperança miúda de que o felino uma hora ou outra iria aparecer.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; <em>Pobre dono do gato. Pobre gato. Espero que tenham sido felizes um com o outro. . </em></p>
<p style="text-align: justify;">Depois de enterrar aquela bola de pelos dura e fria e fazer sua pequena prece dirigida ao Deus-natureza, Marina partiu. Estava atrasada para os seus afazeres que logo a distraíram do fatídico destino do gato, do fatídico destino de todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, eis que à noite, depois de ter amado seu marido Hugo, enquanto preparava-se para cair no abismo do sono &#8211; que é uma morte à prestação &#8211; eis que se vê às voltas com a cena grotesca: Marina, Hugo e Frida, três sacos de vísceras deitadas sob a cama.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi aí que Marina pulou, assustando a todos, inclusive ela própria e começou a tirar toda a roupa. Queria chegar ao fundo das coisas. Hugo e Frida vendo aquilo devem ter pensado que Marina havia enlouquecido. Ela que sempre fora considerada esquisita, que é um jeito educado dos civilizados chamarem alguém de maluco.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim, vísceras. Quero vê-las finalmente! </em>Marina gritava frenética. <em>Venham a mim. Quero chegar ao fundo. Mostrem-se com todo o seu despudor, minhas vísceras, meus órgãos, meus longos e viscosos intestinos repletos de fezes, meu sangue venoso, meus dentes, meus ossos, meu cérebro e todos os vermes que habitam meu corpo e que meus olhos não vêem, mas que agora eu sinto existirem dentro de mim.</em></p>
<p style="text-align: justify;">É que nesse momento, por um estado de profunda comunhão com o bicho morto e enterrado que à uma hora destas já estava sendo devorado pelos vermes, Marina viu tudo o que precisava ser visto: ela viu a morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Sim! Somos um saco de vísceras que será comido tão logo pelos vermes. </em>Era o que Marina teria dito a quem a questionasse o porquê dela se comportar como uma louca diante do espelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela também diria com máxima fúria:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211; Louco é você que não pensa nisso. Você que vive dormindo para a realidade; que vive como sonâmbulo; que não presta a atenção nos vermes que te comem todos os dias; que pula o gato morto fingindo que ele não existe; que se arruma e se perfuma todas as manhãs  achando que pode barrar o processo. Você é louco! Não eu!</em></p>
<p style="text-align: justify;">Depois deste estado de êxtase, que Hugo e Frida tiveram que ajudar a conter, Marina caiu em um sono profundo. Nunca mais acordou.</p>
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<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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		<title>Crítica do livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221; no Jornal A Cidade</title>
		<link>https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-diva-dia-dia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Laura]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 May 2014 22:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Livros Publicados]]></category>
		<category><![CDATA[Ely Vieitez Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornal A cidade]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro O divã no dia a dia]]></category>
		<category><![CDATA[XIV Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto abaixo foi publicado no dia 18 de maio de 2014, no Jornal A Cidade, pela colunista e escritora Ely Vieitez Lisboa. Trata-se de uma apreciação sobre o meu o livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221;. Apreciem! Conheci Dra. Ana Laura Martinez em uma entrevista que fizemos na Televisão, ela, Dr. Nelson Jacinto &#8230; <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-diva-dia-dia/" class="more-link">Continuar lendo <span class="screen-reader-text">Crítica do livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221; no Jornal A Cidade</span></a></p>
<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-diva-dia-dia/">Crítica do livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221; no Jornal A Cidade</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/05/download-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1042 size-thumbnail" src="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/wp-content/uploads/2014/05/download-3-150x150.jpg" alt="download (3)" width="150" height="150" /></a>O texto abaixo foi publicado no dia 18 de maio de 2014, no Jornal A Cidade, pela colunista e escritora Ely Vieitez Lisboa.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de uma apreciação sobre o meu o livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Apreciem!</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-902"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Conheci Dra. Ana Laura Martinez em uma entrevista que fizemos na Televisão, ela, Dr. Nelson Jacinto e eu, no Programa Diálogo, de Edmo Bernardes, no Canal 20.</p>
<p style="text-align: justify;">Miúda, risonha, parecendo quase uma adolescente, Ana Laura surpreendeu pela desenvoltura nas respostas e no vasto currículo. Ela é formada em Psicologia pela Universidade de São Paulo, onde também fez mestrado e doutorado. Possui vasta experiência como docentes em cursos de graduação e pós-graduação, sendo responsável por disciplinas ligadas à Psicanálise.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>&#8220;O divã no dia a dia&#8221; é seu primeiro livro</strong>. A Editora IELD, de Ribeirão Preto, foi atraída pelo conteúdo brilhante do Blog de Ana Laura e lhe propôs publicar um livro com as ideias de suas postagens.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Introdução do Livro</h2>
<p style="text-align: justify;">Na Introdução, Lenice Frazatto* diz que a proposta do livro é &#8220;oferecer instrumento e material para refletirmos sobre a nossa condição humana, alertando as pessoas para o fato de que temos uma mente que precisa, tal como o corpo, de cuidados constantes, para não ficar desnutrida&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro foi escrito pretensamente para leigos, mas traz lições preciosas da Autora. <strong>Os assuntos são variadíssimos</strong>, sobre a coisificação do homem, obcecado pelo TER, fala sobre a veleidade do consumismo e educação na contemporaneidade, trabalho, amizade, amor e sexualidade, sobre a criança e a família.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Sobre os capítulos</h2>
<p style="text-align: justify;">Os capítulos curtos iniciam com uma pergunta, seguida da resposta. <strong>O que atrai muito o leitor</strong>, além da variedade dos temas, são as respostas corajosas de Ana Laura Martinez, <a href="http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br" target="_blank">psicanalista em ribeirão preto</a>, despreocupada com os posicionamentos comuns, os valores clássicos e os conceitos filosóficos ou religiosos.</p>
<p style="text-align: justify;">Exemplos dessa assertiva são os comentários sobre o suicídio e a eutanásia, nos capítulos sobre envelhecimento e morte.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é muito enfatizado no livro <strong>é que a mente e o corpo são indissociáveis</strong>. O desenvolvimento da primeira depende do segundo e vice-versa. Impressiona o número de obras específicas citadas, os escritores famosos, com teses pertinentes aos temas abordados, fábulas, filmes, letras de músicas, livros de psicólogos e psiquiatras, filósofos, economistas, médicos, antropólogos. As alusões literárias são também de extremo bom gosto.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Citações de outras obras clássicas</h2>
<p style="text-align: justify;">Sob  crivo da Autora, há citações de obras clássicas, como a tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles, ou a tragédia Medéia, de Eurípedes. Cita autores modernos como Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um final de capítulo, deparamos com uma verdadeira pérola de Clarice Lispector, do texto Anunciação: &#8220;Cada ser humano recebe a anunciação e, grávido de alma, leva a mão à garganta em susto e angústia&#8221;. Clarice afirma que há uma missão a cumprir. &#8220;A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro&#8221;.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Argumentação Teórica da psicanálise</h2>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, muitos argumentos do livro vêm alicerçados nas <strong>teorias de Melanie Klein e Sigmund Freud</strong>, grandes mestres da alma humana. Nota-se uma característica muito forte na Autora. É sua visão realista, quase científica, sem concessões líricas e/ou poéticas da vida, dos seres humanos, do seu crescimento e amadurecimento. Todo crescimento, nas várias acepções da palavra, requer coragem, luta e persistência. Crescer dói.</p>
<h2 style="text-align: justify;">Quando acabamos de ler o livro&#8230;.</h2>
<p style="text-align: justify;">Quando se acaba de ler o livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221;, saímos enriquecidos, como se tivéssemos feito anos de análise. É, portanto, um livro precioso, que atrairá leigos, profissionais de todas as áreas e o grande público.</p>
<p style="text-align: justify;">Ana Laura Martinez fará o relançamento dessa magnífica obra durante a 14a. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, no Stand dos Autores, dia 23 de maio, às 14 horas.</p>
<p> * Correção: Esta citação pertence à própria autora do livro, ALM, em sua introdução à obra O divã no dia a dia, e não a Lenice Frazatto, conforme consta no jornal impresso.</p>
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<p><a href="http://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/videos-lancamento-livro-diva-dia-dia/">Assista aos vídeos do lançamento do livro &#8220;O divã no dia dia&#8221; </a>.  Foram gravados no lançamento acontecido na livraria cultura do Shopping Iguatemi em ribeirão preto.</p>
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<p>Esse post <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br/o-diva-dia-dia/">Crítica do livro &#8220;O divã no dia a dia&#8221; no Jornal A Cidade</a> foi publicado inicialmente em <a href="https://www.ribeiraopretopsicologia.com.br">Blog de Psicanálise</a>.</p>
<p>Acesse também o site da autora Ana Laura Moraes Martinez http://www.psicologiaribeiraopreto.com.br</p>
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